terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Michel Teló: a cultura das massas e aquela outra lá

Nunca ouvi falar nesse tal Michel Teló e recusarei clicar em links em que sua música apareça. Para manter um padrão salubre de genialidade e modéstia, é preciso ocupar os bytes do cérebro com exímia mesura. A revista Época trollou geral e afirmou que o patrício é representante da cultura brasileira, engatilhando uma quizumba violenta no Twitter, em que indignados brasileiros defensores aguerridos da verdadeira cultura nacional iniciaram uma caça às bruxas de proporções mccarthystas tentando dessassociar-se do cantor.

Michel-Telo-Capa-Revista-Epoca.jpgAposto que toda essa galera vive enfurnada em bibliotecas estudando esmeradamente as obras dos maiores filósofos brasileiros, de Tobias Barreto a Benedito Nunes. Não poderia haver motivo maior para o queixume. (e ignore-se aqui o quanto os autores da matéria, que devem conhecer mais de cultura brasileira do que 90% dos que se ofenderam com ela, devem estar rolando no chão em derrisão pela missão cumprida)

Desde pequeno, aprendi muito sobre a cultura brasileira. A primeira coisa é que a cultura brasileira com CU maiúsculo questiona o que é a cultura brasileira o tempo todo - seja na faculdade, no Facebook ou no Centro de Mídia Independente. Você identifica um "culto" modelo 68 zerinho, e tá ele lá, fazendo "leituras críticas". Eles estão sempre "questionando" o que lêem.

É difícil ler o texto de um caboclo desses sem questionar o que é sujeito, o que é verbo e o que é predicado. Seu modus operandi de encontrar "influências" e "relações de poder" ocultas ao leitor mongolóide comumcult bauman.jpg (é com você que eles estão falando, leitor mongolóide) é um eterno espatifar da sintaxe, para que seus cupinchas acadêmicos a recoloquem no lugar e basbaques lescionandos deixem seus queixos caírem como se pesassem uma tonelada diante de seus mestres-Mister M's com M maiúsculo. Como também precisam de um michê do bolo repartido, igualmente cuidam de escrever num modo "questionador" para que suas garatujas só possam ser lidas com ajuda de outros professores do mesmo partido. Faz parte da Síndrome October, que Roger Kimball identificou lendo os, ahn... "textos" de revistas acadêmicas "culturais" e cabeça, mormente a October (cf. Radicais nas Universidades, da ed. Peixoto Neto).

Ontem mesmo li um texto intelectual em que Maurício Tragtenberg observa "que a universidade não é neutra", que "o saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder", que a "estrutura burocrática e autoritária [da Universidade] fortalece a ordem e o poder" e que, "dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática". Um discurso bem bonito pra quem nunca pisou numa Universidade e percebeu que lá ninguém tem cultura alguma, a não ser reproduzir, de uma linha de produção fordista-stalinista, esse discurso de questionar a própria Universidade e não ter um único pensamento que o professor do seu professor já não teve em maio de 1968. Modelo intacto, muita quilometragem mas lataria intacta, único dono porque só se tem coletivismo com o discurso de poder do outro, tanque quase cheio, tratar aqui.

A cultura, a galera e o bode

Mas há outra coisa da cultura brasileira que aprendi na escola. Se você corre riscos de perder uma disputa, pegue de galera. O brasileiro é coletivista até pra dar porrada. Eu, que era adiantado (e, portanto, sempre mais fraco que meus colegas), mesmo assim quase nunca apanhei no mano a mano - simplesmente porque nunca vi uma briga antes dos 8 anos sem parecer que eu tinha entrado com farda do BOPE ou uma camiseta 100% branco num baile funk.

Troca-se a natureza das disputas, mas nunca o meio. É a cultura nacional. O que são Trending Topics? Briga de galera. Como se discute qual música é melhor, se rock ou MPB? Pelo tamanho do público. O que é uma assembléia na USP onde você pode expor sua opinião "democraticamente"? Briga de galera. O que é discutir política na base do "nós somos a maioria, portanto estamos certos"? Apenas isso: nunca partir pra porrada em menor número. (eu, fracote que era, fiquei bastante surpreso ao perceber que ganhei as 3 únicas lutas de UFC versão uniforme de escola que tive contra caras maiores do que eu quando foi no modelo 2 homens entram, um sai).

girard_bodeexpiatorio.jpg Isso foi explicado pelo filósofo e historiador René Girard, considerado o "Darwin das ciências humanas" de maneira bem simples, no núcleo de sua teoria: o bode expiatório. Se a história da humanidade é a história da violência, como definiu Eric Voegelin, a natureza dessa violência é a união de uma tribo contra um bode expiatório, que, numa demonização de religiosidade primitiva, é entendido como portador de todos os pecados, e se você quer fazer parte do grupo dominante em questão, precisa, antes de qualquer característica positiva em comum com o grupo, ter um inimigo em comum.

Claro que se pode cair na Lei de Godwin e pensar que os nazistas são lembrados mais por serem anti-semitas (sorry, sr. Novo Acordo Ortográfico, recuso-me a escrever "antiSSemita" com SS) do que por se considerarem "arianos". Além de não emitirem opinião alguma sobre os latinos (que qualquer darwinista de botequim sabe serem povos mais miscigenados com mouros e meio mundo vindo da Turquia do que qualquer coisa), consideraram até os japoneses "arianos por excelência" apenas em troca de ajuda militar. Mas é fácil olhar pro longínquo já fartamente estudado em minudências e esquecer de olhar pro próprio umbigo.

girard_criticasubsolo.jpg Você quer ser um brasileiro crítico, cabeça, desses que podem reclamar de qualquer misconception sobre a verdadeira cultura brasileira? Relembrando o finado blog Coisa de idiota, faz bem criticar Paulo Coelho. É literatura marginal, coisa de perdedor que acredita em auto-ajuda misturada com demônios. E o Maluf? Cara, Paulo Maluf é corrupto. Onde já se viu esse cara ser tão rico e ter contas em paraísos fiscais? Pode ter certeza de que não voto nele. E a Rede Globo? Pelamordedeus, não assisto aquilo por nada. É alienante. As novelas são muito ruins. Viu como sou crítico e intelectual? Com uma citação de Nietzsche ou Freud já consigo até montar um blog sozinho. Em uns 8 meses repetindo essa papagaiada ad nauseam, posso até pedir financiamento pro governo. Tenho um discurso crítico das relações de poder, afinal.

Pouco muda com o tempo, mas a falta de requisitos pra entrar no clube dos manda-chuvas é basicamente ter uma nêmesis em comum. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Lembro sempre de um ensaio de ortega_critica.jpg Ortega y Gasset falando sobre esporte (já comentei no Implicante), onde o exímio filósofo espanhol demonstra que o desporto é o primeiro ato civilizatório do homem: a primeira manifestação de regras que exigem um comportamento adequado em busca de uma ética e de um fair play (expressão cunhada por Shakespeare, diga-se) onde supõe-se que o homem agirá pela "violência" do seu corpo. A civilização não surge graças a alguém compor uma Nona Sinfonia (que duvido que alguém reconheça as 3 primeiras notas) e parar de se preocupar com Michel Teló. A civilização surge com uma tribo se unindo para roubar mulheres da tribo alheia e impondo regras para saber o que fazer com os espólios.

Os dois últimos anos foram marcados por Restart nos Trending Topics quase todo dia. Era falar mal de alguma banda ou música qualquer no Twitter e imediatamente apareciam pelo menos uns 4 replies: "Ah, é, mas ainda é melhor do que Restart, já pensou?". Ouvi Restart por menos do que 15 segundos na vida. Quer saber? Não lembro de nada, mas achei bem melhor do que Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii (nem se fala!), Ira!, Tribalistas e muitas outras coisas que vocês às vezes cantarolam no trânsito sem medo de serem felizes.

Apenas tacaram um anátema sobre Restart mais por causa da viadice, das roupas ridículas e do marketing por cima e... caíram no mesmo marketing que os torna cada dia mais famosos entre uma galera que não conhece Pink Floyd e King Crimson (e aqui cabem duas perguntas: 1) vocês conhecem? 2) tem mesmo certeza que aquele seu amigo de 43 anos que toca cover de Jethro Tull e Genesis não pensou a mesmíssima coisa de Poison, Twisted Sister e Guns 'n' Roses, que você ouviu sua adolescência inteira desavergonhadamente?).

Só pra ficar no rock, quem critica Michel Teló (não quero nem saber se é axé, funk, pagode, whatever the fuck ever)poison_group.jpg também costuma dividir-se entre a galera que curte Beatles (com seus hits intelectualíssimos como Help e She Loves You, que também não passam de 5 versos ridículos de ruins com menos de 3 acordes), e fãs de Ramones, cuja importância pra música foi permitir que seu primo com retardo mental se ache gênio da música gritando "Hey, ho!" enquanto seus amiguinhos com contato nulo com uma vagina berram de volta: "Let's go!". Quantas festas você já foi em que não tocaram Ramones? E você reclama de emos e de NX Zero?

Isso pra não envolver outros gêneros. Metade dos indignados de 140 caracteres reclamando da capa da Época hoje dançavam Claudinho e Buchecha colocando a mão no nariz como se estivessem catarrando em público e balançando a bunda feito uma gelatina num terremoto em festinhas junto às tias solteironas e achavam lindo há uns 15 anos. E agora que vocês já ouviram falar nessa tal internet, já flagraram a Marisa Monte, um produto da "riquíssima" MPB, "música de valor", falando sobre qualquer tema que não seja arrastar a sandália até gastar? Você acha mesmo ruim que Michel Teló represente nossa cultura e dança Ivete Sangalo e aquela outra genérica que não lembro o nome cada vez que fica bêbado junto aos amigos?

Carmem-Miranda.JPGPra piorar o que já está ruim, também bufaram contra o fato de que Michel Teló ter sido comparado a Carmen Miranda na "exportação cultural" brasileira. Fui condicionado desde tenra idade a honrar os grandes nomes de nossa cultura do passado. Era uma época difícil de ter contato com essas coisas, mas juravam que Carmen Miranda, Zé Carioca e chorinho fossem coisas de inestimável valor. Alguém aí já viu a Carmen Miranda no Youtube? Só não dá pra dizer que é uma bosta porque é uma ofensa a muitas fezes de respeito! Se você reclama da exportação brasileira de bananas e bundas balangantes incapazes de pronunciar mais do que uma consoante por palavra, não culpe o Mc Catra e o Bonde do Tigrão, pois estes são conseqüências: a causa é Carmen Miranda!

Cultos e grossos, civilizados e bárbaros

Urge também entender exatamente o que é "cultura", se se está tão preocupado em proteger a "cultura" brasileira. O Gravataí já explicou um pouco - vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.

"Cultura" vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo - diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe, condicao urbana.jpg aquele que segue as leis da cidade - e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.

A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como "arte", gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, "cultura" e "arte" são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas - e, assim, misturamos "cultura" com "alta cultura", e "arte" com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.

Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.

eagleton_deus.jpg É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos "legados" culturais brasileiros à humanidade - e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa "musiquinha do gás". Mas quando a Liquigas troca por ISSO, ninguém reclama.

Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição "de cima", quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de "multiculturalismo", bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores "machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas" do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:

"Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell's Angels, os neofascistas ou os cientologistas."

A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é "pedra bruta". marioferreira_logica.jpg Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado "cultura ocidental" é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém... pela ironia e auto-crítica dos antigos.

Vide este tweet hodierno do Gravz: "Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE." O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado - o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o "jeitinho brasileiro") que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.

É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização - mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!

O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de "Ocidente". Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N'Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.

Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato que eles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas - e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.

breakingbad.jpg

21 pessoas leram e discordaram:

Anônimo disse...

pode fazer parte da nossa cultura sim, mas michel teló ainda assim não é lá essas coisas, kkkkkkkk

Bruno Fonseca disse...

Não consigo comentar o seu texto como um todo, pois é bastante grande e complexo, mas queria saber sua opinião.
É que eu penso que todo esse chororô sobre o Michel Teló, por mais infundados que sejam os argumentos contrários, é algo normal e, de certa forma, previsível, pois faz parte dos movimentos em uma sociedade de negociar o que ela enxerga como sua cultura, você não acha?
Há milhões de pessoas que se identificam com ele, outras milhões que não, assim como ocorre com música clássica, cinema e futebol - e essa disparidade de gostos vai sendo negociada através de pressões variadas que podem ser pelo número, pela pressão de grupos com status, pelo marketing etc.
Assim, o que fico me questionando é se esse movimento de questionar o Teló não é também algo completamente natural em uma sociedade e parte do processo de se eleger ou derrubar símbolos para que essa sociedade reconheça o que é comum e legitimado à sua cultura.
E dentro disso, acho tão difícil ponderar o que pode ser melhor, pior, mais válido etc. Parece que tudo esbarra nos parâmetros que nós temos do que é cultura - ou do que merece ser - e nisso cai qualquer crítica, seja boa ou contrária a qualquer "produto cultural", não?
Talvez exceto pelo limite tênue da ética, neofacistas e libertários, sertanejo e rock, acadêmico e popular - tudo isso não cai na mesma bacia?

Carla Magno disse...

Desculpe, mas o que todo esse seu blá blá blá massante com um "Quê" de Quadrista tem a ver com o tal Michel Teló? Escreveu, escreveu, rodeou e não disse nada. Essa bandalheira descreve sim as massas e o comportamento brasileiro atual, assim como Carmem Miranda o descrevia na época. A cultura está intrínseca ao comportamento, é mutável porém pouco varia dentre gêneros musicais e outras manifestações artísticas. No fundo o rapaz não quis dizer nada, pra uma população que não entende nada e aprecia o nada. Fazendo do NADA uma manifestação artística. Acho que a camada que se auto denomina "CULT", quiçá por sua vida boêmia e péssimo gosto para filmes do leste europeu, compartilham desta devoção ao nada. Dizer da dor, da tristeza, do sentimento, do cotidiano faz parte de qualquer um, inclusive aqueles quais a sociedade descrevem como um "artista" (que hoje são tratados apenas como famosos, celebridades). O problema é como manifestá-las e para quem o fazemos. Para mim, assim como a maioria das manifestações atuais isso não passa de um grande NADA!

Gus K. disse...

Como um fã incondicional de Breaking Bad, não posso deixar essa passar: No seriado eles "cozinham" metanfetamina e não cocaína.

Ah, parabén pelo ótimo texto, aliás.

Mauricio Trindade disse...

Irrestritamente é cultura sim senhor michel teló e seu sucesso... mas o que me parece é que as pessoas criticaram o sucesso deste indivíduo, não se referiam necessariamente ao que o Brasil exporta, mas o que os outros países estão importando do Brasil... é um sentimento que cada vez mais estamos caminhando para o futuro que prediz no filme "Idiocracy", pode haver uma fagulha de pseudointelectualidade nisso, mas sempre há alguma razão por trás dessas críticas.

margenssaturadas disse...

Você escreveu sem conhecer a música do rapaz, eu comento sem ter lido a matéria da Época, sem saber o que se passa no twitter e sem conhecer 1/3 das referências do texto.
Bom, a música dele eu acompanho por ser daqui do Mato Grosso do Sul, apesar de não escutar nenhuma rádio local. A "cultura musical" aqui é essa, ponto. Sertanejo, guarânia, polca, um pouco de música gaúcha e tal. (Não tenho a mínima idéia de como se diferenciam esses estilos)
Se é bom ou ruim, não sei, tanto faz, aqui é o PANTANAL e esse tipo de música reflete o estilo de vida daqui. E a turba enfurecida do twitter vai querer dizer que isso não pode representar o Brasil?
Complicado medir talento, mas é óbvio que Michel Teló canta melhor que Chico Buarque e toca sanfona melhor do que Caetano Veloso toca violão. O cara tem uma carreira longa, não é um "produto" tipo Luan Santana, se dá pra entender.
As letras são bregas, mastigadas, melosas? Sim, é música popular, não um tratado sobre os rumos da robótica.
O que leva alguém a criticar uma revista pelo TWITTER acerca de cultura regional/nacional?
As mesmas antas que seguem Luciano Huck?

Setor Literário Sul disse...

Curti.

Anônimo disse...

fale mais sobre mário ferreira dos santos.

Anônimo disse...

Acho perda de tempo ficar discutindo uma capa de revista que foi certamente comprada oportunamente num período de recessos e na ausência de alguma tragedia que vire noticia. Gravadora e revista uniram interesses apenas isso. E olha só quanta propaganda gratuita.

Eduardo disse...

Muito bom o texto e concordo com muitas coisas que vc diz! Muitas vezes a crítica chega de pessoas que mais dariam motivos à outras críticas!

Criticar por criticar é vazio de mais! mas mesmo assim eu fico indignado com Michel Teló sim, assim como fico indignado com 99% das músicas que tocam por ai, (que falam só de amor-sexo-e outras idiotices) pq visam apenas fazer sucesso para um bando de alienado que consome esse tipo de coisa.

Mas ao contrário do que vc diz, eu critico Reestatchan, Luan Fanho Santana e Michel Lolô, mas não ouço bruno e marrone ivete sangalo nem jota quest e assisto a novelas e reality shows idiotas, ouço System of a Down, Rage Against the Machine, Raul Seixas entre outros, pq pra mim esses caras sim falam de alguma coisa importante, fazem criticas nas suas músicas, sem pensar se vai ou nao vender disco!

E sou ateu (graças a d-uz) e não voto em criacionistas idiotas tbm não!

Mas mesmo detestando esse tipo de musica meramente mercantilista, eu respeito quem ouve, afinal vivemos num pais livre (na medida do possivel) e cheio de outros problemas maiores pra eu me preocupar, então não vai ser um sisples tipo de música que vai tirar o meu sono e me fazer protestar, o que tira o que chega mais próximo disso, é a ignorancia do povo ridiculo do meu pais

Camilla Lemke disse...

Eu acho que gosto, seja ele bom ou ruim, deve ser respeitado. Mas, sinceramente, eu não simpatizo nem um pouco com as músicas desse Michel Teló. Domingo no programa do Faustão, ele disse que seu sucesso tinha atingido até a Europa e faria um show na Macedônia, lugar do qual o cantor disse nunca ter ouvido falar.

Enfim, eu acho que o sucesso do cara deve ser respeitado. Eu não gosto, mas acho desnecessário esse estardalhaço por causa dele e de suas músicas, ainda que sem conteúdo algum.

Anônimo disse...

Eu já ouvi Michel Teló e não gosto. Eu já ouvi Korzus e gosto. O valor cultural de ambos é o mesmo. Ponto final!

O Teló representa, sim, o Brasil, no campo da música popular "mainstream". No campo da música popular, digamos, "underground", quem representa é o Sepultura. Ou o Angra. E, no campo da literatura - vá lá - popular (há quem possa até considerar "de entretenimento"), o nosso maior representante internacional é o Paulo Coelho.

Essas pessoas que criticam "Ai, se eu te pego" mas ficam alardeando no Facebook que vão ao show do David Guetta deveriam falar menos e pensar mais.

Thiago - RJ

Contorno Cultural disse...

Caro Flávio, muito bacana o seu texto. Levantou vários pontos 'divertidos' e intrigantes numa miscelânica e ótima análise. Fiz o feed e estarei atento aos textos. Por favor, não pare.

PS: ahh, já produzi dois shows do Michel Teló e ele é muito bom com o público. Faz muito bem o que se propõe.

Ranieri disse...

Michel Teló é sucesso em todo o mundo, menos no RS.

http://www.obairrista.com/noticia&codigo=632

Vladimir disse...

Concordo com quase tudo. Mas resumir os Beatles a "She Loves You" e "Help" é forçar demais a barra...

montagens de fotos disse...

caraca, ngm segura esse tal michel teló

Anônimo disse...

Alto lá: você diz que Michel Teló é parte da cultura brasileira, e logo abaixo diz que não há cultura brasileira?

Qüill disse...

Existe musica boa e música ruim. Michel teló se encaixa na segunda opção da mesma forma q suas composições fazem parte do mundo da segunda categoria. Letras para o povão: Retardadas e repetitivas. Incultos não gostam de música clássica, pois é complexa demais para os seus neurônios preguiçosos. Ramones é bom, entretanto se escutar duas vezes seguidas já estará completamente enjoado. Conclusão: Mesmo que o artista e seu trabalho sejam uma merda, não vá no show dele só para atirar uma pedra (mesmo q seja uma bela pedrada na cara do pelanza.) Isto é divertimento de caipiras desocupados, pagar ingresso para apedrejar? Assim desvalorizamos a cultura brasileira (uma gota de sarcasmo). Ha quem goste... Parece absurdo, mas é verdade.
http://animemeison.blogspot.com/

Anônimo disse...

O ruim não é o Michel ou a Carmem Miranda. A idiotice é boa e humana. O ruim é metade dos brasileiros passarem ouvindo um único gênero musical durante dois anos.

Anônimo disse...

Deixo uma sugestão: perguntem ao Olavo de Carvalho sua opinião a respeito da música de Michel Teló. Como ele também estudou música, com certeza, saberá dar uma resposta satisfatória, isso se não se recusar a responder ou dizer meia dúzia de palavrões, porém, como sempre, coberto de razão. E, de Teló em Teló, nossa cultura foi para o brejo. Infelizmente, o povo brasileiro cultua a imbecilidade. Su

Anônimo disse...

Honestamente, quem estuda um pouco de música, de arte ou de cultura em geral sabe que não há nada de mais na produção, comercialização e exportação de lixo. Isso é feito há séculos - quiçá há milênios.

Michel Teló é uma moeda que tem (ou tinha, à época do texto) valor de face e que está sendo explorada, num mundo (não suficientemente) mercadológico. Decorrência natural, nada de mais.

É um grande clichê que se diga, por exemplo, que o classicismo alemão legou à história Mozart e Haydn, um romantismo incipiente produziu Beethoven e, no auge, abençoou o mundo com Wagner, enquanto o Brasil exporta banana na cabeça, funk pancadão e sertanejo universitário.

Durante toda a história da música sempre houve manifestações eruditas (ligadas à igreja, como os barrocos Bach e Händel, às salas de concerto e bancadas por reinos e principados e, mais tarde, mecenato, etc e tal).

Porém, SEMPRE se produziu cultura de massa, que, por ser tão pobre - rondós medievais em ABABABC sobre temas pagãos e toscos como o canto das cotóvias - que só são estudadas como valor histórico, não foram escritas, não são executadas (senão em incursões malucas à Hanoncourt exacerbado) e eram exportadas por toda a europa a preço de face.

A diferença entre a arte e o produto comercial se faz, para além das inovações, revoluções e reviravoltas conceituais, no tempo. A arte, como toda área, também tem um padrão evolucionista selvagem, e não se pode julgar a produção de cultura sem um distanciamento temporal que permita delinear o que é um elemento delineador do que é mero lixo sem sentido.

E vou além. Arrisco dizer que cultura é precisamente isso: essa dialética (calafrios, palavra vermelha à vista) entre o bom, o ruim, o sublime e o tosco. Porque a humanidade, com h maiúsculo ou não, acerta tanto quanto erra, e a dinâmica, no fim, é sempre a mesma.

A única coisa "nova" que se tira aqui, portanto, como disse a Carla Magno, é a existência de gente idiota falando idiotices sobre coisas idiotas, num culto ao nada por falta de referência melhor... mas isso até a Época sabia.

De resto, um texto rebuscado, divertidinho e cheio de referências que inspiram a mais lídima preguiça, para, no fim, só dizer o óbvio.

E ainda elogiar o Hermeto Paschoal, que é um chato alucinado e retarda que bem exemplifica a estagnação da música no século XX: feito tudo o que havia pra se fazer com o som, comece a botar banca de foda visionário alardeando o ruído. E tome barriga de porco.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Michel Teló: a cultura das massas e aquela outra lá


Nunca ouvi falar nesse tal Michel Teló e recusarei clicar em links em que sua música apareça. Para manter um padrão salubre de genialidade e modéstia, é preciso ocupar os bytes do cérebro com exímia mesura. A revista Época trollou geral e afirmou que o patrício é representante da cultura brasileira, engatilhando uma quizumba violenta no Twitter, em que indignados brasileiros defensores aguerridos da verdadeira cultura nacional iniciaram uma caça às bruxas de proporções mccarthystas tentando dessassociar-se do cantor.

Michel-Telo-Capa-Revista-Epoca.jpgAposto que toda essa galera vive enfurnada em bibliotecas estudando esmeradamente as obras dos maiores filósofos brasileiros, de Tobias Barreto a Benedito Nunes. Não poderia haver motivo maior para o queixume. (e ignore-se aqui o quanto os autores da matéria, que devem conhecer mais de cultura brasileira do que 90% dos que se ofenderam com ela, devem estar rolando no chão em derrisão pela missão cumprida)

Desde pequeno, aprendi muito sobre a cultura brasileira. A primeira coisa é que a cultura brasileira com CU maiúsculo questiona o que é a cultura brasileira o tempo todo - seja na faculdade, no Facebook ou no Centro de Mídia Independente. Você identifica um "culto" modelo 68 zerinho, e tá ele lá, fazendo "leituras críticas". Eles estão sempre "questionando" o que lêem.

É difícil ler o texto de um caboclo desses sem questionar o que é sujeito, o que é verbo e o que é predicado. Seu modus operandi de encontrar "influências" e "relações de poder" ocultas ao leitor mongolóide comumcult bauman.jpg (é com você que eles estão falando, leitor mongolóide) é um eterno espatifar da sintaxe, para que seus cupinchas acadêmicos a recoloquem no lugar e basbaques lescionandos deixem seus queixos caírem como se pesassem uma tonelada diante de seus mestres-Mister M's com M maiúsculo. Como também precisam de um michê do bolo repartido, igualmente cuidam de escrever num modo "questionador" para que suas garatujas só possam ser lidas com ajuda de outros professores do mesmo partido. Faz parte da Síndrome October, que Roger Kimball identificou lendo os, ahn... "textos" de revistas acadêmicas "culturais" e cabeça, mormente a October (cf. Radicais nas Universidades, da ed. Peixoto Neto).

Ontem mesmo li um texto intelectual em que Maurício Tragtenberg observa "que a universidade não é neutra", que "o saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder", que a "estrutura burocrática e autoritária [da Universidade] fortalece a ordem e o poder" e que, "dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática". Um discurso bem bonito pra quem nunca pisou numa Universidade e percebeu que lá ninguém tem cultura alguma, a não ser reproduzir, de uma linha de produção fordista-stalinista, esse discurso de questionar a própria Universidade e não ter um único pensamento que o professor do seu professor já não teve em maio de 1968. Modelo intacto, muita quilometragem mas lataria intacta, único dono porque só se tem coletivismo com o discurso de poder do outro, tanque quase cheio, tratar aqui.

A cultura, a galera e o bode

Mas há outra coisa da cultura brasileira que aprendi na escola. Se você corre riscos de perder uma disputa, pegue de galera. O brasileiro é coletivista até pra dar porrada. Eu, que era adiantado (e, portanto, sempre mais fraco que meus colegas), mesmo assim quase nunca apanhei no mano a mano - simplesmente porque nunca vi uma briga antes dos 8 anos sem parecer que eu tinha entrado com farda do BOPE ou uma camiseta 100% branco num baile funk.

Troca-se a natureza das disputas, mas nunca o meio. É a cultura nacional. O que são Trending Topics? Briga de galera. Como se discute qual música é melhor, se rock ou MPB? Pelo tamanho do público. O que é uma assembléia na USP onde você pode expor sua opinião "democraticamente"? Briga de galera. O que é discutir política na base do "nós somos a maioria, portanto estamos certos"? Apenas isso: nunca partir pra porrada em menor número. (eu, fracote que era, fiquei bastante surpreso ao perceber que ganhei as 3 únicas lutas de UFC versão uniforme de escola que tive contra caras maiores do que eu quando foi no modelo 2 homens entram, um sai).

girard_bodeexpiatorio.jpg Isso foi explicado pelo filósofo e historiador René Girard, considerado o "Darwin das ciências humanas" de maneira bem simples, no núcleo de sua teoria: o bode expiatório. Se a história da humanidade é a história da violência, como definiu Eric Voegelin, a natureza dessa violência é a união de uma tribo contra um bode expiatório, que, numa demonização de religiosidade primitiva, é entendido como portador de todos os pecados, e se você quer fazer parte do grupo dominante em questão, precisa, antes de qualquer característica positiva em comum com o grupo, ter um inimigo em comum.

Claro que se pode cair na Lei de Godwin e pensar que os nazistas são lembrados mais por serem anti-semitas (sorry, sr. Novo Acordo Ortográfico, recuso-me a escrever "antiSSemita" com SS) do que por se considerarem "arianos". Além de não emitirem opinião alguma sobre os latinos (que qualquer darwinista de botequim sabe serem povos mais miscigenados com mouros e meio mundo vindo da Turquia do que qualquer coisa), consideraram até os japoneses "arianos por excelência" apenas em troca de ajuda militar. Mas é fácil olhar pro longínquo já fartamente estudado em minudências e esquecer de olhar pro próprio umbigo.

girard_criticasubsolo.jpg Você quer ser um brasileiro crítico, cabeça, desses que podem reclamar de qualquer misconception sobre a verdadeira cultura brasileira? Relembrando o finado blog Coisa de idiota, faz bem criticar Paulo Coelho. É literatura marginal, coisa de perdedor que acredita em auto-ajuda misturada com demônios. E o Maluf? Cara, Paulo Maluf é corrupto. Onde já se viu esse cara ser tão rico e ter contas em paraísos fiscais? Pode ter certeza de que não voto nele. E a Rede Globo? Pelamordedeus, não assisto aquilo por nada. É alienante. As novelas são muito ruins. Viu como sou crítico e intelectual? Com uma citação de Nietzsche ou Freud já consigo até montar um blog sozinho. Em uns 8 meses repetindo essa papagaiada ad nauseam, posso até pedir financiamento pro governo. Tenho um discurso crítico das relações de poder, afinal.

Pouco muda com o tempo, mas a falta de requisitos pra entrar no clube dos manda-chuvas é basicamente ter uma nêmesis em comum. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Lembro sempre de um ensaio de ortega_critica.jpg Ortega y Gasset falando sobre esporte (já comentei no Implicante), onde o exímio filósofo espanhol demonstra que o desporto é o primeiro ato civilizatório do homem: a primeira manifestação de regras que exigem um comportamento adequado em busca de uma ética e de um fair play (expressão cunhada por Shakespeare, diga-se) onde supõe-se que o homem agirá pela "violência" do seu corpo. A civilização não surge graças a alguém compor uma Nona Sinfonia (que duvido que alguém reconheça as 3 primeiras notas) e parar de se preocupar com Michel Teló. A civilização surge com uma tribo se unindo para roubar mulheres da tribo alheia e impondo regras para saber o que fazer com os espólios.

Os dois últimos anos foram marcados por Restart nos Trending Topics quase todo dia. Era falar mal de alguma banda ou música qualquer no Twitter e imediatamente apareciam pelo menos uns 4 replies: "Ah, é, mas ainda é melhor do que Restart, já pensou?". Ouvi Restart por menos do que 15 segundos na vida. Quer saber? Não lembro de nada, mas achei bem melhor do que Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii (nem se fala!), Ira!, Tribalistas e muitas outras coisas que vocês às vezes cantarolam no trânsito sem medo de serem felizes.

Apenas tacaram um anátema sobre Restart mais por causa da viadice, das roupas ridículas e do marketing por cima e... caíram no mesmo marketing que os torna cada dia mais famosos entre uma galera que não conhece Pink Floyd e King Crimson (e aqui cabem duas perguntas: 1) vocês conhecem? 2) tem mesmo certeza que aquele seu amigo de 43 anos que toca cover de Jethro Tull e Genesis não pensou a mesmíssima coisa de Poison, Twisted Sister e Guns 'n' Roses, que você ouviu sua adolescência inteira desavergonhadamente?).

Só pra ficar no rock, quem critica Michel Teló (não quero nem saber se é axé, funk, pagode, whatever the fuck ever)poison_group.jpg também costuma dividir-se entre a galera que curte Beatles (com seus hits intelectualíssimos como Help e She Loves You, que também não passam de 5 versos ridículos de ruins com menos de 3 acordes), e fãs de Ramones, cuja importância pra música foi permitir que seu primo com retardo mental se ache gênio da música gritando "Hey, ho!" enquanto seus amiguinhos com contato nulo com uma vagina berram de volta: "Let's go!". Quantas festas você já foi em que não tocaram Ramones? E você reclama de emos e de NX Zero?

Isso pra não envolver outros gêneros. Metade dos indignados de 140 caracteres reclamando da capa da Época hoje dançavam Claudinho e Buchecha colocando a mão no nariz como se estivessem catarrando em público e balançando a bunda feito uma gelatina num terremoto em festinhas junto às tias solteironas e achavam lindo há uns 15 anos. E agora que vocês já ouviram falar nessa tal internet, já flagraram a Marisa Monte, um produto da "riquíssima" MPB, "música de valor", falando sobre qualquer tema que não seja arrastar a sandália até gastar? Você acha mesmo ruim que Michel Teló represente nossa cultura e dança Ivete Sangalo e aquela outra genérica que não lembro o nome cada vez que fica bêbado junto aos amigos?

Carmem-Miranda.JPGPra piorar o que já está ruim, também bufaram contra o fato de que Michel Teló ter sido comparado a Carmen Miranda na "exportação cultural" brasileira. Fui condicionado desde tenra idade a honrar os grandes nomes de nossa cultura do passado. Era uma época difícil de ter contato com essas coisas, mas juravam que Carmen Miranda, Zé Carioca e chorinho fossem coisas de inestimável valor. Alguém aí já viu a Carmen Miranda no Youtube? Só não dá pra dizer que é uma bosta porque é uma ofensa a muitas fezes de respeito! Se você reclama da exportação brasileira de bananas e bundas balangantes incapazes de pronunciar mais do que uma consoante por palavra, não culpe o Mc Catra e o Bonde do Tigrão, pois estes são conseqüências: a causa é Carmen Miranda!

Cultos e grossos, civilizados e bárbaros

Urge também entender exatamente o que é "cultura", se se está tão preocupado em proteger a "cultura" brasileira. O Gravataí já explicou um pouco - vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.

"Cultura" vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo - diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe, condicao urbana.jpg aquele que segue as leis da cidade - e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.

A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como "arte", gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, "cultura" e "arte" são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas - e, assim, misturamos "cultura" com "alta cultura", e "arte" com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.

Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.

eagleton_deus.jpg É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos "legados" culturais brasileiros à humanidade - e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa "musiquinha do gás". Mas quando a Liquigas troca por ISSO, ninguém reclama.

Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição "de cima", quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de "multiculturalismo", bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores "machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas" do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:

"Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell's Angels, os neofascistas ou os cientologistas."

A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é "pedra bruta". marioferreira_logica.jpg Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado "cultura ocidental" é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém... pela ironia e auto-crítica dos antigos.

Vide este tweet hodierno do Gravz: "Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE." O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado - o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o "jeitinho brasileiro") que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.

É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização - mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!

O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de "Ocidente". Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N'Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.

Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato que eles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas - e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.

breakingbad.jpg

21 pessoas leram e discordaram:

Anônimo disse...

pode fazer parte da nossa cultura sim, mas michel teló ainda assim não é lá essas coisas, kkkkkkkk

Bruno Fonseca on 3 de janeiro de 2012 17:32 disse...

Não consigo comentar o seu texto como um todo, pois é bastante grande e complexo, mas queria saber sua opinião.
É que eu penso que todo esse chororô sobre o Michel Teló, por mais infundados que sejam os argumentos contrários, é algo normal e, de certa forma, previsível, pois faz parte dos movimentos em uma sociedade de negociar o que ela enxerga como sua cultura, você não acha?
Há milhões de pessoas que se identificam com ele, outras milhões que não, assim como ocorre com música clássica, cinema e futebol - e essa disparidade de gostos vai sendo negociada através de pressões variadas que podem ser pelo número, pela pressão de grupos com status, pelo marketing etc.
Assim, o que fico me questionando é se esse movimento de questionar o Teló não é também algo completamente natural em uma sociedade e parte do processo de se eleger ou derrubar símbolos para que essa sociedade reconheça o que é comum e legitimado à sua cultura.
E dentro disso, acho tão difícil ponderar o que pode ser melhor, pior, mais válido etc. Parece que tudo esbarra nos parâmetros que nós temos do que é cultura - ou do que merece ser - e nisso cai qualquer crítica, seja boa ou contrária a qualquer "produto cultural", não?
Talvez exceto pelo limite tênue da ética, neofacistas e libertários, sertanejo e rock, acadêmico e popular - tudo isso não cai na mesma bacia?

Carla Magno disse...

Desculpe, mas o que todo esse seu blá blá blá massante com um "Quê" de Quadrista tem a ver com o tal Michel Teló? Escreveu, escreveu, rodeou e não disse nada. Essa bandalheira descreve sim as massas e o comportamento brasileiro atual, assim como Carmem Miranda o descrevia na época. A cultura está intrínseca ao comportamento, é mutável porém pouco varia dentre gêneros musicais e outras manifestações artísticas. No fundo o rapaz não quis dizer nada, pra uma população que não entende nada e aprecia o nada. Fazendo do NADA uma manifestação artística. Acho que a camada que se auto denomina "CULT", quiçá por sua vida boêmia e péssimo gosto para filmes do leste europeu, compartilham desta devoção ao nada. Dizer da dor, da tristeza, do sentimento, do cotidiano faz parte de qualquer um, inclusive aqueles quais a sociedade descrevem como um "artista" (que hoje são tratados apenas como famosos, celebridades). O problema é como manifestá-las e para quem o fazemos. Para mim, assim como a maioria das manifestações atuais isso não passa de um grande NADA!

Gus K. on 3 de janeiro de 2012 19:45 disse...

Como um fã incondicional de Breaking Bad, não posso deixar essa passar: No seriado eles "cozinham" metanfetamina e não cocaína.

Ah, parabén pelo ótimo texto, aliás.

Mauricio Trindade on 3 de janeiro de 2012 23:02 disse...

Irrestritamente é cultura sim senhor michel teló e seu sucesso... mas o que me parece é que as pessoas criticaram o sucesso deste indivíduo, não se referiam necessariamente ao que o Brasil exporta, mas o que os outros países estão importando do Brasil... é um sentimento que cada vez mais estamos caminhando para o futuro que prediz no filme "Idiocracy", pode haver uma fagulha de pseudointelectualidade nisso, mas sempre há alguma razão por trás dessas críticas.

margenssaturadas on 4 de janeiro de 2012 00:55 disse...

Você escreveu sem conhecer a música do rapaz, eu comento sem ter lido a matéria da Época, sem saber o que se passa no twitter e sem conhecer 1/3 das referências do texto.
Bom, a música dele eu acompanho por ser daqui do Mato Grosso do Sul, apesar de não escutar nenhuma rádio local. A "cultura musical" aqui é essa, ponto. Sertanejo, guarânia, polca, um pouco de música gaúcha e tal. (Não tenho a mínima idéia de como se diferenciam esses estilos)
Se é bom ou ruim, não sei, tanto faz, aqui é o PANTANAL e esse tipo de música reflete o estilo de vida daqui. E a turba enfurecida do twitter vai querer dizer que isso não pode representar o Brasil?
Complicado medir talento, mas é óbvio que Michel Teló canta melhor que Chico Buarque e toca sanfona melhor do que Caetano Veloso toca violão. O cara tem uma carreira longa, não é um "produto" tipo Luan Santana, se dá pra entender.
As letras são bregas, mastigadas, melosas? Sim, é música popular, não um tratado sobre os rumos da robótica.
O que leva alguém a criticar uma revista pelo TWITTER acerca de cultura regional/nacional?
As mesmas antas que seguem Luciano Huck?

Setor Literário Sul on 4 de janeiro de 2012 03:33 disse...

Curti.

Anônimo disse...

fale mais sobre mário ferreira dos santos.

Anônimo disse...

Acho perda de tempo ficar discutindo uma capa de revista que foi certamente comprada oportunamente num período de recessos e na ausência de alguma tragedia que vire noticia. Gravadora e revista uniram interesses apenas isso. E olha só quanta propaganda gratuita.

Eduardo on 4 de janeiro de 2012 07:28 disse...

Muito bom o texto e concordo com muitas coisas que vc diz! Muitas vezes a crítica chega de pessoas que mais dariam motivos à outras críticas!

Criticar por criticar é vazio de mais! mas mesmo assim eu fico indignado com Michel Teló sim, assim como fico indignado com 99% das músicas que tocam por ai, (que falam só de amor-sexo-e outras idiotices) pq visam apenas fazer sucesso para um bando de alienado que consome esse tipo de coisa.

Mas ao contrário do que vc diz, eu critico Reestatchan, Luan Fanho Santana e Michel Lolô, mas não ouço bruno e marrone ivete sangalo nem jota quest e assisto a novelas e reality shows idiotas, ouço System of a Down, Rage Against the Machine, Raul Seixas entre outros, pq pra mim esses caras sim falam de alguma coisa importante, fazem criticas nas suas músicas, sem pensar se vai ou nao vender disco!

E sou ateu (graças a d-uz) e não voto em criacionistas idiotas tbm não!

Mas mesmo detestando esse tipo de musica meramente mercantilista, eu respeito quem ouve, afinal vivemos num pais livre (na medida do possivel) e cheio de outros problemas maiores pra eu me preocupar, então não vai ser um sisples tipo de música que vai tirar o meu sono e me fazer protestar, o que tira o que chega mais próximo disso, é a ignorancia do povo ridiculo do meu pais

Camilla Lemke on 4 de janeiro de 2012 08:07 disse...

Eu acho que gosto, seja ele bom ou ruim, deve ser respeitado. Mas, sinceramente, eu não simpatizo nem um pouco com as músicas desse Michel Teló. Domingo no programa do Faustão, ele disse que seu sucesso tinha atingido até a Europa e faria um show na Macedônia, lugar do qual o cantor disse nunca ter ouvido falar.

Enfim, eu acho que o sucesso do cara deve ser respeitado. Eu não gosto, mas acho desnecessário esse estardalhaço por causa dele e de suas músicas, ainda que sem conteúdo algum.

Anônimo disse...

Eu já ouvi Michel Teló e não gosto. Eu já ouvi Korzus e gosto. O valor cultural de ambos é o mesmo. Ponto final!

O Teló representa, sim, o Brasil, no campo da música popular "mainstream". No campo da música popular, digamos, "underground", quem representa é o Sepultura. Ou o Angra. E, no campo da literatura - vá lá - popular (há quem possa até considerar "de entretenimento"), o nosso maior representante internacional é o Paulo Coelho.

Essas pessoas que criticam "Ai, se eu te pego" mas ficam alardeando no Facebook que vão ao show do David Guetta deveriam falar menos e pensar mais.

Thiago - RJ

Contorno Cultural on 4 de janeiro de 2012 19:02 disse...

Caro Flávio, muito bacana o seu texto. Levantou vários pontos 'divertidos' e intrigantes numa miscelânica e ótima análise. Fiz o feed e estarei atento aos textos. Por favor, não pare.

PS: ahh, já produzi dois shows do Michel Teló e ele é muito bom com o público. Faz muito bem o que se propõe.

Ranieri on 5 de janeiro de 2012 07:29 disse...

Michel Teló é sucesso em todo o mundo, menos no RS.

http://www.obairrista.com/noticia&codigo=632

Vladimir on 6 de janeiro de 2012 06:52 disse...

Concordo com quase tudo. Mas resumir os Beatles a "She Loves You" e "Help" é forçar demais a barra...

montagens de fotos on 15 de janeiro de 2012 14:06 disse...

caraca, ngm segura esse tal michel teló

Anônimo disse...

Alto lá: você diz que Michel Teló é parte da cultura brasileira, e logo abaixo diz que não há cultura brasileira?

Qüill on 2 de fevereiro de 2012 13:10 disse...

Existe musica boa e música ruim. Michel teló se encaixa na segunda opção da mesma forma q suas composições fazem parte do mundo da segunda categoria. Letras para o povão: Retardadas e repetitivas. Incultos não gostam de música clássica, pois é complexa demais para os seus neurônios preguiçosos. Ramones é bom, entretanto se escutar duas vezes seguidas já estará completamente enjoado. Conclusão: Mesmo que o artista e seu trabalho sejam uma merda, não vá no show dele só para atirar uma pedra (mesmo q seja uma bela pedrada na cara do pelanza.) Isto é divertimento de caipiras desocupados, pagar ingresso para apedrejar? Assim desvalorizamos a cultura brasileira (uma gota de sarcasmo). Ha quem goste... Parece absurdo, mas é verdade.
http://animemeison.blogspot.com/

Anônimo disse...

O ruim não é o Michel ou a Carmem Miranda. A idiotice é boa e humana. O ruim é metade dos brasileiros passarem ouvindo um único gênero musical durante dois anos.

Anônimo disse...

Deixo uma sugestão: perguntem ao Olavo de Carvalho sua opinião a respeito da música de Michel Teló. Como ele também estudou música, com certeza, saberá dar uma resposta satisfatória, isso se não se recusar a responder ou dizer meia dúzia de palavrões, porém, como sempre, coberto de razão. E, de Teló em Teló, nossa cultura foi para o brejo. Infelizmente, o povo brasileiro cultua a imbecilidade. Su

Anônimo disse...

Honestamente, quem estuda um pouco de música, de arte ou de cultura em geral sabe que não há nada de mais na produção, comercialização e exportação de lixo. Isso é feito há séculos - quiçá há milênios.

Michel Teló é uma moeda que tem (ou tinha, à época do texto) valor de face e que está sendo explorada, num mundo (não suficientemente) mercadológico. Decorrência natural, nada de mais.

É um grande clichê que se diga, por exemplo, que o classicismo alemão legou à história Mozart e Haydn, um romantismo incipiente produziu Beethoven e, no auge, abençoou o mundo com Wagner, enquanto o Brasil exporta banana na cabeça, funk pancadão e sertanejo universitário.

Durante toda a história da música sempre houve manifestações eruditas (ligadas à igreja, como os barrocos Bach e Händel, às salas de concerto e bancadas por reinos e principados e, mais tarde, mecenato, etc e tal).

Porém, SEMPRE se produziu cultura de massa, que, por ser tão pobre - rondós medievais em ABABABC sobre temas pagãos e toscos como o canto das cotóvias - que só são estudadas como valor histórico, não foram escritas, não são executadas (senão em incursões malucas à Hanoncourt exacerbado) e eram exportadas por toda a europa a preço de face.

A diferença entre a arte e o produto comercial se faz, para além das inovações, revoluções e reviravoltas conceituais, no tempo. A arte, como toda área, também tem um padrão evolucionista selvagem, e não se pode julgar a produção de cultura sem um distanciamento temporal que permita delinear o que é um elemento delineador do que é mero lixo sem sentido.

E vou além. Arrisco dizer que cultura é precisamente isso: essa dialética (calafrios, palavra vermelha à vista) entre o bom, o ruim, o sublime e o tosco. Porque a humanidade, com h maiúsculo ou não, acerta tanto quanto erra, e a dinâmica, no fim, é sempre a mesma.

A única coisa "nova" que se tira aqui, portanto, como disse a Carla Magno, é a existência de gente idiota falando idiotices sobre coisas idiotas, num culto ao nada por falta de referência melhor... mas isso até a Época sabia.

De resto, um texto rebuscado, divertidinho e cheio de referências que inspiram a mais lídima preguiça, para, no fim, só dizer o óbvio.

E ainda elogiar o Hermeto Paschoal, que é um chato alucinado e retarda que bem exemplifica a estagnação da música no século XX: feito tudo o que havia pra se fazer com o som, comece a botar banca de foda visionário alardeando o ruído. E tome barriga de porco.

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