quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Aborto: questão de coerência

A pauta do dia no Twitter é a descriminalização do aborto, com o Trending Topic #legalizaroaborto. Qualquer declaração minha irrita tanto feministas quanto conservadores. Se feministas e conservadores discordam de mim ao mesmo tempo, não preciso de muito mais para saber que já sou quase dono da verdade.

O aborto deveria ser uma discussão mais simples. Tudo deveria se dar em nome da coerência. Infelizmente, algo longe de ser alcançado, quando todas as discussões, ao invés de termos uma discussão que surge da linha lógica dos argumentos, temos uma repentina mutatio controversiae que surge de cima pra baixo, por um grupo de pessoas interessadas em defender uma causa contra outro grupo específico. Via de regra, é o que faz alguma coisa ir parar nos Trending Topics sem ninguém morrer ou passar pelo Congresso.

A defesa do aborto é uma agenda feminista há muito. O problema é óbvio: feministas, mesmo que acertem em algo, têm os piores argumentos possíveis. O mais comum e óbvio é o mais ridículo: a discussão sobre aborto deveria caber apenas às mulheres. Ora, o que esse dogma implica é que o embrião, aqui, é tratado como propriedade da mulher, por estar abrigado em seu corpo - e seu corpo é inviolável.

Seria um argumento interessante, se não fossem as feministas as campeãs do marxismo cultural, que procura justamente acabar com o direito de propriedade. Ou seja, com a propriedade alheia: se for sua própria propriedade, obviamente que ela deve ser defendida com unhas e dentes. Vejamos o que Murray Rothbard, um dos economistas ultraliberais mais brilhantes do século, teria a dizer:

"Não apenas não existem direitos humanos que não sejam também direitos de propriedade, como esses "direitos" perdem sua incondicionalidade e clareza e se tornam confusos e vulneráveis quando os direitos de propriedade não são usados como padrão."

abortion_feminism.pngAssim, mutatis mutantis, fica claro que a discussão sobre aborto se restringir às mulheres seria uma idéia até justificável. Afinal, o corpo é propriedade delas, e o embrião, infinitamente mais delas do que do genitor. Mas, se as mulheres sofrem injustamente com a gestação (e não adianta culpar os homens, culpem apenas Deus), é uma questão de saúde pública. Não há por que excluir os homens da discussão. Uma saída apontada via de regra é que homens podem discutir, mas só as mulheres podem decidir. Aposto 10 contra 1 que esse argumento vem sempre de mulheres que, quando engravidam, exigem amor paterno de seus parceiros - então, por que a discussão sobre o futuro dos rebentos seria decidível apenas por mulheres?

Óbvio que o objeto claro aqui é restringir a discussão a quem mais tem interesse em ver o aborto legalizado. Eu sou homem e não vejo seqüela de motivo para o aborto não ser legalizado. Mas isso não quer dizer que acredite que essa discussão deva ser deixada apenas às mulheres. Aliás, por que as mulheres poderiam então usar os meus argumentos, mas simplesmente ignorar os argumentos contrários ao aborto?

Alguém pode decobrir um meio de fazer o embrião virar um feto, abortionismurder.jpge depois um bebê, sem precisar da barriga da mulher. Então, a mulher não vai mais sofrer tais paixões (o sentido inicial de "sofrimento"; cf. Aristóteles), e nada vai mudar pro embrião. Aí, parece que a discussão não ficaria mais restrita às mulheres. Mas, se nada mudaria para o embrião, por que de repente a discussão pôde mudar de pessoas "possíveis" de discutirem? Enquanto isso, veríamos um embrião, numa incubadora transparente, cada vez mais parecido com um bebê, e onde ficaria a propriedade da mulher sobre uma vida?

Também urge ter cautela com a idéia de que a proibição não adianta nada. O problema não é não adiantar - a proibição do roubo, do estupro e do assassinato também não parece surtir efeitos muito grandiosos em certos lugares deste país. Esse argumento funciona se e somente se levarmos em conta o que acontece mesmo a uma mulher estuprada no país: a burocracia é tão complexa, mesmo em casos de aborto legal, que se prefere uma clínica clandestina - ou alguém aí acha que exame de corpo delito é mais delicioso que exame de próstata para uma mulher que acabou de ser estuprada?

Aí nos voltamos para o cllchê oposto, dos conservadores, aqueles que adoram confundir "descriminalização do aborto" com "obrigação do ato de abortar". A visão deles é de que toda gravidez indesejada é fruto de irresponsabilidade (uma simples reportagem sobre um acidente generalizado com anticoncepcionais por uma falha com uma empilhadeira que aconteceu na Pfizer seria suficiente pra mandar esse povo ir fazer um pouco mais de sexo na vida).

abortion_stop_coat-hanger.jpgMas ainda que o fosse, recaímos no mesmo problema "ignore-se o feto", mesmo partindo daqueles que mais julgam defendê-lo: se defendem o feto contra mães irresponsáveis, ou devem obrigar mulheres estupradas a terem filhos de estupradores, ou não podem ser favoráveis ao aborto para vítimas de estupro. Ora, mulher estuprada ou não, o feto é "vida", e não pode ser culpado pelo crime do pai, não? Ou alguém defende que filhos de estupradores sofram pena de morte? Que a família de homicidas cumpram pena de prisão junto com o criminoso? O feto nada tem a ver com isso - se é possível defender o argumento para o aborto de feto decorrente de estupro, significa que é possível defender para o feto que não surge decorrente de um estupro. Não há outra opção - tertium non datur.

O que conservadores querem é punir a mãe por sua vida sexual, que julgam pregressa. Assim, se uma suposta vagabunda promíscua engravida, o melhor a se fazer é lhe obrigar a ter um filho, pois um filho de uma vagabunda pregressa fatalmente a ensinará a ser uma esposa de família, casar, ir à igreja, não comer com os cotovelos sobre a mesa, que saiba cozinhar e ainda faça uma lasagna de primeira (já que esse povo não costuma gostar de um boquete caprichado). Exceção feita a quem quer obrigar mulheres estupradas a terem filhos - mas o simples sofrimento que uma mulher terá durante nove meses gestando o filho de quem a estupra já me parece argumento suficiente para não ligar para o sofrimento daquele amontoado de células - e aí, nem é porque as células são "filhas" de um estuprador que é lícito "puni-las".

Mas sempre sobra aquele argumento quejuram que não tem nada a ver com religião (e só religioso, óbvio, acredita). O argumento que diz que, se descriminalizarem o aborto, estarão liberando o assassinato.

Ora, a delimitação de onde começa a vida é bastante espinhosa (enquanto todo cristão do mundo não chegar a uma única conclusão em termos puramente biológica sobre vírus serem vida ou não, não deveriam nem tentar se aventurar em propriedade que não lhes pertence). De minha parte, por bonitinho que seja (e não é), um feto sem o Sistema Nervoso abortion_prolife.gifCentral e Periférico em atividade não pode ser considerado vida. Nas aulas de Neuroanatomia e Neurofisiologia entendemos como o organismo inteiro precisa deles para qualquer reação daquilo que chamamos vida - não à toa que é o que temos em comum tanto com um macaco quanto com um peixe ou mesmo o a mais rudimentar forma de vida pluricelular que não seja um fungo. Imagine então o que é a tal "consciência": retire o bulbo e o que se verá será um acidente da natureza, felizmente incapaz de sentir a dor que é ser um acidente.

Mas o problema é mais profundo: sendo vida ou não, não importa. Como diz o jurista e filósofo americano Ronald Dworkin, em Domínio da Vida (livro fundamental para a discussão sobre aborto e, mais complicado ainda, eutanásia), a vida tem graduações. Sabemos o que é mais horrendo: perder um filho com 8 meses de idade ou um filho com 8 anos. Da mesma forma, também a diferença de choque é cortante na morte de um idoso de 80 ou de um homem de 40, mesmo que seja pela mesma causa mortis. Não é algo subjetivo nem irracional: há razões para isso. Como afirmou os quadrinhos de James O'Barr, "A morte, assim como a virtude, tem suas graduações" (O Corvo).

Como se pode, então, santificar um feto com menos de 3 meses de gestação (o tempo para formação do sistema nervoso) como "vida", chamando de "assassinato" a interrupção de sua gestação, se a própria Natureza faz com que a maioria dos abortos espontâneos aconteçam exatamente nesse período - muitos deles sem a mulher ficar sabendo?

Fica-se então com o argumento doidivanas de que há uma "chance" do embrião ser vida, 50% sim e 50% não, e pelo sim, pelo não, melhor não correr o risco de matar alguém. Mais uma vez, a interpretação da palavra "vida" aqui vai mais para termos metafísicos, abortion-sends-babies-to-god-faster.jpgdignos de conquistar idealistas que julgam que a vida é uma "alma" exterior ao corpo ou coisa parecida - não convence nem os vitalistas (filosofia a qual muito me apetece), de que a vida não é nem pura matéria, nem uma idéia anterior à sua materialização, estando mais na própria organização da espécie e sua individualização. O risco de cometer um "assassinato" aqui derivaria, então, de qualquer coisa além da matéria - visto que a matéria conhecemos bem qual é até os 3 meses de gestação.

Sendo imaterial, já é uma questão a ser discutida diante dos portais de São Pedro. Não se pode punir uma pessoa por praticar um aborto por uma "possibilidade" de ter cometido um assassinato, ou mesmo impedir a realização do aborto nesses casos, por algo de domínio extra-material. Do contrário, teremos de punir o próprio Cristianismo por mandar tantas almas para o Inferno - e crime de tortura é imprescritível.

Vida como "matéria orgânica viva" existe até nas nossas cutículas. Levando todas as conseqüências desse argumento a sério, o único não homicida do país deverá ser o Zé do Caixão.

abortion_prochoice.jpgSobra o último recurso desesperado de dizer que, se liberarem o aborto, ele vai se tornar o método contraceptivo mais comum, e milhões de abortos serão cometidos por mês por adolescentes irresponsáveis. Alguém que já viu uma cirurgia de aborto não precisaria de mais de 15 segundos para enfiar esse argumento longe do olhar dos telespectadores. E em praticamente todo país ocidental em que o aborto foi liberado, o número de abortos caiu - mas manteve vivas as mulheres, que tanto morrem em decorrência da operação - ressaltando que no Brasil, mesmo em caso de estupro preferem clínicas clandestinas. São estes os tais pró-vida?

Esse recurso in extremis também aparece sob a forma de "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar o infanticídio", como disse meu amigo (gênio, porém crente) Filipe Martins. Para ele, um juiz canadense que confundiu os dois conceitos é uma prova de que há um risco enorme de mudarmos nossos valores assim que legalizarmos o aborto no maior país católico do mundo. Um argumento estranho, se a maioria dos países (até alguns países islâmicos) é mais liberal quanto ao aborto do que nós - se proibirmos o aborto para estupro e risco de morte à mãe teremos a mesma legislação da teocracia do Vaticano. Assim, só poderia crer que o Ocidente inteiro, tão defendido pelos conservadores como supra sumo do que deu certo no mundo, está em risco de legalizar o infanticídio - sobretudo os países mais desenvolvidos, ao contrário de nós, os eternos micróbios da geopolítica, graças, curiosamente, à esquerda.

Aí fica uma pseudo-lógica linear que só faz sentido na cabeça de fanático: Ou é "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar estupro, assassinato, latrocínio e filme da Carla Perez" (é cabível, mas é ridículo pensar nisso, pois também teríamos de proibir o Cristianismo por seus crimes), ou "se um bebê é um ser vivo, um embrião é um possível ser vivo, logo um espermatozóide é uma possibilidade de um ser vivo, logo um bebê tendo ejaculações [são milhões de espermatozóides perdidos antes dos 2 anos de idade] está cometendo 'possíveis' genocídios".

Quer escolher um lado para defender no caso do aborto? Escolha. Mas é bom atentar para todas as conseqüências do que se prega, antes de dizer que a vida é uma propriedade de outrem ou que quem defende o aborto é "abortista", como se fossem máquinas de matar criancinhas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Bule Voador é prejudicial aos ateus

Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acodo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo." - Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

O site Bule Voador já é considerado uma espécie de referencial no que se refere a ateísmo (no formato de "ismo") por estas bandas. Ligado a uma tal Liga Humanista Secular, prega valores derivados de uma ideologia muito mais partidarizada e específica do que o "ateísmo", ou a simples descrença em Deus, jogando no mesmo saco um ateu com um "humanista secular".

Não é mais um fato do Destino facilmente ignorável como alto índice de culiformes fecais em nossa alimentação - se é muito mais fácil brincar de discutir com um discípulo de Silas Malafaia do que com São Tomás de Aquino (dá pra parar de escrever o nome dele com "Santo" no lugar de "São"? puta cacofonia horrível), o mesmo se dá nessa brincadeira: cada vez mais se vê cristãos e teístas (são conceitos diversos, ignaros!) atacando os fracos argumentos do "humanismo secular" e atingindo todos os ateus, inclusive os que não se organizam em igrejas, na mesma toada.

Humanismo secular: não me representa.

O "humanismo secular" revela e esconde o que é em seu nome: por um lado, uma versão new age do espiritualismo chumbreca da geração beatnick que achava que todos se amariam se se escorassem em conceitos como "fraternidade" e "boa vontade", visto que odiavam o capitalismo e já vinham percebendo que defender as idéias decadentes do socialismo pegaria muito mal dali a poucos anos (Hipótese MacMilliam à parte). No entanto, é "secular": ou seja, o mesmo papo espiritualista, sem espíritos. É uma espécie de terceira via jurando ser boazinha. É a fraternidade universal amai-vos uns aos outros porque eu assim determinei.

umberto_creem.jpgPoderia ser apenas uma versão esteticamente desagradável do ateísmo, ignorando-se sua platitude intelectual. É a típica idéia de que falta compreensão e compaixão pelo outro para o mundo dá certo - embora este outro nunca seja um outro que esteja atualmente no poder. Mas os humanistas seculares, como toda seita modernosa, querem tratar de uma porralhada de assuntos que vão muito além de sua alçada (e capacidade), reduzindo-os todos a uma dicotomia humanista x não humanista, no máximo diferenciando entre humanistas seculares e não seculares no lado A da primeira distinção.

O termo "humanista" é tão vago em significado que tudo o que representa só tem em comum o fato de querer uma gerência mais "humana" na forma de organização social -eagleton_deus.jpg o que, afinal, não significa nada. Qualquer reformador é "humanista". Os socialistas eram humanistas. Os democratas são humanistas. A pedagogia reformadora é humanista. O existencialismo é um humanismo. O estruturalismo também é humanista. E também o pragmatismo. Qualquer coisa é arrolada sob auspícios deste conceito, desde que tenha mais intenções do que capacidade de mudar algo. A única coisa que não é "humanista" é o rigor tecnológico e intelectual que gerou progresso pra essa tal de raça humana. O humanismo é caracterizado por uma utopia cheia de boas intenções, mas que nunca escreve uma linha prática sobre um problema real específico passível de resolução.

Como bem afirmou o Ricardo Wagner, os auto-intitulados "neo-ateus" (o ateu oldschool precisa ser recauchutado? estava errado? quanto custa o recall?) discutem tudo, seja filosofia, ideologia, ética, aborto, casamento gay, cultura, literatura, culinária, videogame ou cor preferida do vibrador tentando colocar ateísmo no meio. Não é suficiente não acreditar: é preciso alardar a descrença e concordar com outros descrentes em um movimento organizado, reafirmando todo o tempo que não são de outro grupo - o cristianismo. E aplicam esse raciocínio inclusive para falar de política.

No que crêem os que não crêem

Um texto do site intitulado "O humanismo secular entre a direita e a esquerda" dá uma boa amostra dos riscos dessa cegueira.

Com um conhecimento político que eu já dominava de cor e salteado no primeiro colegial, o texto se surpreende com a maior eureka de toda a heurística do Ocidente: a direita prega um Estado tão pequeno que quase lembra os ideais anarquistas. É o problema de falar de "esquerda" e "direita" já no título de um artigo só conhecendo por esquerda Marx, Bakunin e a galerinha da Sorbonne, e por direita... nada. 15 páginas de Murray Rothbard e os meninos já não correriam o risco de se trancarem no banheiro da escola chorando.

Porém, constatado o que qualquer conhecedor da tal "direita" trata como o mais simplório fato evidente, imediatamente a gurizada passa a criticar a direita a la Sarah Palin (com foto e tudo) reclamando... dos anarquistas, por parágrafos a fio, recheados de pérolas da sabedoria humana como "os anarquistas anti-Estado que pensam que todo ser humano é um poço de racionalidade", como se qualquer irracionalidade humana, a coisa que mais critico, incluindo esses revoltadinhos, fosse se tornar racionalidade se organizada em algo estatal, preferencialmente com os escolhidos pelos editores do Bule Voador nos postos mais altos.

É curioso que ser "racional" e bancar o mega cientista conhecedor de variáveis, se achando Carl Sagan só por usar sua imagem no avatar do Twitter, para a meninada, é tratar variáveis como "irracional", e a centralização planificada e unifidacada como a racionalidade extrema. São "cientistas" com medo de números. Para eles, o mercado financeiro é uma anarquia complicada. Melhor acabar com tudo e botar a mão do Estado para organizar tudo. O Bule Voador é a "ciência" da centralização. Surpreende bastante que o site ainda não tenha patrocínio da Petrobras.

Ainda completa cerejosamente o bolo afirmando que a tal irracionalidade humana não é capaz de controlar "a infraestrutura ao seu redor", nem "a não cometer crimes". O argumento do Estado, e não da moral, controlando crimes, misturado à ânsia de culpar "a infraestrutura ao seu redor" como a veia motiz da canalhada, vale por um Maluf lendo Foucault em um palanque.

Prosseguem os tolinhos:

"Em segundo lugar, não é suficiente que o Estado seja um totem que muito simboliza e pouco faz, e é aqui que se equivoca a extrema-direita que quer transferir as funções agregadoras seculares do Estado à religião, ao mercado ou à simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'."

A "função agregadora secular do Estado" (a ROTA na rua? o culto ao PT? que tal os analistas céticos cientistas definirem com precisão o objeto de suas análises sem termos genéricos que podem significar qualquer coisa?) é colocada em oposição "ao mercado" e à "simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'". Eu já vi Estados seculares mais seculares do que essa religiãozinha anti-mercado e anti-iniciativa pessoal... mas como assim os liberais (é dos liberais que eles estão falando? nem eles devem saber) são a "extrema-direita"? A extrema-direita não é, justamente, uma força que toma o Estado para descer seus valores no cacete?

carlsagan_broca.jpgNessa, como fico eu, que não acredito nem em Deus (e ainda escrevo às mancheias contra o pensamento religioso), nem no Estado? Para piorar, sou a favor da livre iniciativa, da liberação das drogas, do casamento gay e também das piadas com todo mundo? Sou ateu? Ou sou "totêmico" por preferir o mercado ao Estado? O mercado não é "laico", enquanto o Estado pode ser? Sou de "extrema-direta", querendo menos influência estatal na vida privada de cada cidadão? Onde mais no mundo houve tal "extrema-direita" que valoriza o mercado e a livre iniciativa de cada cidadão? A escola austríaca é a "extrema-direita"? Então, o fascismo é o quê?

Sou humanista secular? Sou só humanista? Sou só secular e "homem de bem" entre aspas? É preciso ser um cara do mal para ser humanista secular? Posso só não acreditar em Deus e nem roubar, mas ter mp3 pirata e zerar Tomb Raider com cheat para ser considerado do mal o suficiente para ser humanista secular? Paulo Freire, que educou essas crianças, só merece críticas por ser religioso? Ou sua educação desinformante voltada para "a revolução" é o perfeito exemplo do que é o tal humanismo secular?

Pra variar, é apenas o showzinho histérico de quem adora falar de política por clichês, e não por conhecimento de causa. dawkins.jpgÉ a típica empulhação de quem cita o nome de 10 intelectuais de esquerda que mal leram para falar mal da direita, mas nunca leram uma linha de algo minimamente direitista (a ponto de confundir "extrema-direita" com liberalismo, o que me faz perguntar o que seria a direita não extrema). Showzinho esse que, por ter como platéia uma massa enorme e burbulenta de pequenezes com o mesmo desconhecimento de causa, sempre terá aplausos com o discurso mais manjado e repetitivo de sempre, que se julga "crítico" repapagueando o que sua platéia já acredita a priori cegamente. É a captatio benevolentiæ em graus liliputianos. Sua platéia aplaude achando que, com isso, consegue aplaudir a própria falta de estudos.

Continua a chuva de chavões:

"Seus pares [de Sarah Palin] foram contra o sistema de saúde público implantado no governo Obama, mas gastaram trilhões de dólares num projeto de caça internacional de terroristas que é um mal disfarçado sistema de defesa de interesses comerciais de corporações (também escolhidas como substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos)."

Traduzindo: se for ateu, você é obrigado a concordar com o sistema de saúde americano, que pode ser danoso para a saúde dos pobres muito mais (óbvio) do que pros ricos. E se seu país sofre atentados terroristas, deixa pra lá. O que são alguns milhares de mortos, que provavelmente eram judaico-cristãos, mesmo?

A propósito, fora empresas que abocanharam a terceirização do Exército (a doutrina Rumsfeld) a Blackwater (que critiquei duramente em pleno aniversário do 11 de setembro, e sempre recomendo o livro Blackwater: A ascensão do exercito mercenário mais poderoso do mundo, do esquerdista anti-privatizante Jeremy Scahill), julgar que se caça assassinos como Osama bin Laden só porque "corporablackwater.jpgções" lucram com a guerra (era dever moral delas falir? não produzir tecnologia militar? não processar comida para os soldados?), e que estariam funcionando como "substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos" (de novo, generalidades bom-mocísticas para obrigar o leitor a admitir sem argumentos que o Estado tem "papéis" indefinidos) é como supor que quem decide algo em Washington seja o Rupert Mordoch - quando é característica intrínseca da direita se meter cada vez menos com o governo. Como bem diz P. J. O'Rourke: "Giving money and power to government is like giving whiskey and car keys to teenage boys."

Numa associação livre sem pé nem cabeça digna do delírio de um psicanalista, o site coloca uma foto do grupo católico brasileiro que organizou a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" em 1964, tentando associá-la sabe lá como à ala neoconservadora (neocon) do Partido Republicano atual, dizendo na legenda: "sob a desculpa de combater o comunismo e defender valores tradicionais, deu força ao antilegalismo de direita que culminou no golpe militar de 1964". Como não poderia deixar de faltar, "foram estes os grandes responsáveis, em conjunto com o expansionismo americano reativo ao comunismo, por nos dar de presente uma ditadura militar de 20 anos". E eu jurando que a política externa focada no eixo sul-sul e nitidamente anti-americana baseada em "independência" de paspalhos como Muniz Bandeira tivesse começado justamente com o ditador militar Geisel, o maior criador de estatais do planeta...

Eu ainda não entendi se, para os os ateus ninja mutantes adolescentes, "a direita" é anarquista, anti-Estado e não respeita leis ou se é capaz de criar ditaduras com força estatal bruta, e onde a lei vale mais do que o cidadão. De minha parte, de Jouvenel a Reale, de Rand a Nozick, de Buchanan a Rawls, de Santayana a Block, nunca vi algo sequer parecido com essa mantícura que o site se esmera em alvejar.

A conclusão é a cagação de regra politicamente correta de sempre: "À direita e à esquerda, a lição do autoritarismo antihumanista foi o fracasso epistemológico, sem falar do moral (inclusive, Palin agora sofre ameaças de morte)." Em um passe de mágica, o anti-Estado pseudo-racional da direita vira "autoritarismo antihumanista". São esses fracassados epistemológicos que adoram criticar o "fracasso epistemológico" alheio.

Mas claro que, estando acima do bem e do mal, ou da esquerda e da direita, podendo julgar as duas redefinindo de estro próprio o que cada uma é, os "humanistas" logo mostram sua cara. Não sem antes mais umas provocaçõezinhas:

"Talvez por isso as fronteiras entre uma posição e outra estejam cada vez mais nebulosas, com um Barack Obama decepcionantemente conservador inclusive em assuntos de liberdade de expressão (WikiLeaks e Julian Assange que o digam!) e personalidades ditas neoliberais de direita paradoxalmente endossando um Estado inflado quando a questão diz respeito a assuntos economicamente estratégicos ou de defesa."

Para quem quer superar a dicotomia esquerda x direita, é curioso que reclame repentinamente das fronteiras ficarem nebulosas. E para quem se julga um bom juiz (!), é excelente perceber que questionar a liberdade do WikiLeaks vazar documentos oficiais seja "decepcionantemente conservador".

chesterton_universo.jpgNo mais, há uma pedra de toque fundamental na discussão política: quem usa a palavra "neoliberal" está errado. É simples. Simplesmente porque não existe neoliberalismo. Esse termo, cunhado por Alexander Rüstow, quer apenas reclamar de teorias adversas a posteriori, reunindo-as todas sob a mesma égide. Acaso existe uma "escola neoliberal"? Seria a Escola Austríaca? Seriam os Chicago Boys? Seriam os objetivistas? Seria o PSDB? Seriam os neocons ou o decepcionante Barack Obama? Se o Bule Voador conseguir encontrar alguém "dito neoliberal de direita" (?!), ao invés de jogar a culpa em moinhos de vento, poderá algum dia sonhar em ser um guardião da moral, da análise e da ciência em oposição à fé cega em invenções mirabolantes de profetas fracassados.

Antes de concluir, os mancebos não deixam de cometer um ato falho:

"Não há mente crítica e livre quando o interesse é a imposição da religião, a morte do Estado ou a reforma revolucionária inconsequente."

Quod erat demonstrandum, meus caros.

Mostram então as garras os recém-desfraldados:

"E é por isso que eu acredito que o humanismo secular deve ser não uma terceira via, mas um árbitro para ampliar nossa lealdade das poucas centenas para os bilhões.

'O mundo é meu país, e a ciência, minha religião', disse famosamente o astrônomo holandês Christiaan Huygens. Está na hora de repetirmos e acrescentarmos: 'e o humanismo secular é minha política prioritária, antes de me alinhar à esquerda ou à direita', se é que um alinhamento ainda faz sentido."

Alguém sem religião aí está sentindo falta de alguém ditando dogmas em sua cabeça? Pois toda religião tem o seu Silas Malafaia: o ateísmo já tem o Bule Voador. É mais importante defender essa estrovenga de "humanismo secular" do que ter um pensamento político independente (e sobretudo culto). Tudo em nome da "mente crítica". E é muito importante ser humanista antes de ser de esquerda, embora o pensamento de um humanista secular e de um esquerdista médio seja tão distinto quanto os (?) de Edir Macedo e de R. R. Soares.

"Se queremos fazer uma diferença, deve ser pela evolução (cultural), que, mesmo com toda sua aparente lentidão, fará com que causas polêmicas e acirradas de hoje virem as trivialidades de amanhã de uma sociedade laica, democrática e aberta que respeita os direitos das minorias - condição última para julgar sua saúde como sociedade que 'expande' conotativamente o número de Dunbar, com meta em um mundo que seja o país de todos."

Então está dado o recado: se você não sabe qual é a sua e nem tem uma solução política apresentável, justamente por isso você é um evoluído culturalmente, que trata qualquer polêmica como trivialidade, por ter nascido avant les temps. E, sobretudo, lute pelas minorias: porque ateísmo é isso: trocar Deus pela luta incondicional do direito de quem se diga minoria (qualquer minoria), do contrário não será ateu. Porque a meta é "um mundo que seja o país de todos" (olha o imperialismo da propaganda do governo aí!).

Note-se: isso tudo para ficar em um texto dessas crianças. Alguém precisa explicar para elas que só montar um site, por bonito que seja, não te torna cientista, filósofo ou crítico político de respeito.

Bullying voador

Um dia, após reclamar dessa queimação de filme que o site promove (fazendo com que TODO ateu pareça um leitor do facilmente refutável Bule Voador), seu Twitter oficial me respondeu que, quando eles defendem sei lá que medida "ateista", eu fico pianinho". É curioso que os guardiões alumiados da razão, da democracia, da sociedade laica, aberta e democrática que respeita todos possa dizer qual é meu comportamento sem me conhecer.

É o site que diz que defende o Bolsa-Família porque "são humanistas", mas não tem nada de partidário. Eu defendo o Bolsa-Família por ser um passo de um programa criado por Milton Friedman e que funcionou, embora seu caráter esmolista e não integrante (além de partidário) no Brasil vá torná-lo um estorvo. Ter "boas intenções" (ou "ser humanista" tem mais sentido do que isso?) não o ajuda em absolutamente nada. Boa intenção qualquer um tem. Qualquer crente tem.

eagleton_jesus.jpgCom uma boa platéia pagando pra ver o arranca-rabo, o Bule não gostou de eu dizer que esse ateísmo de butique queima o filme. Imediatamente me perguntou se "filósofos GAYZISTAS de direita como [Robert] Nozick e [Thomas] Nagel queimam o filme". Ora, a resposta é simples: não, eles são foda. Como Einstein, Hawking, Heidegger, Schopenhauer, Camus, Dickens, Dennett, Comte-Sponville, Asimov, Clarke, Diamond, Mencken, Andreiev, Cioran, Horstmann, Hemingway, Santayana, Rand, Croce, Calin, Block e tantos outros. A questão é que vocês do Bule não são eles. Eles são ótimos. Vocês são queima-filme. Ou acham que só por usar uma foto de Carl Sagan já valem tanto quanto o original? Quer dizer que os "racionais", quando criticados, confundem a si próprios com sumidades como Nozick e Nagel?!

Claro, para o Bule, isso são as falácias argumentum ad hominem e argumentum ad verecundiam, que ele me recomenda procurar em um manual de falácias. Manuais de nomes em latim existem porque latinistas como eu compilam tais termos, retirados de obras de retórica do cânone da Humanidade, desde a Retórica de Aristóteles até a Nova Retórica de Chaïm Perelman, passando por obras fundamentais como De Oratore de Cícero ou Quintiliano. Acreditar que estas duas formas de argumentação constituem falácias é prova de nunca ter topado com uma obra como Institutio Oratoria ou De Partitione Oratoria. É de se perguntar se os meninos sabem mesmo a diferença entre argumentum ad rem e ad hominem, para não perceberem por que têm estes nomes. Mas também seria interessante saber o que "eu ficar pianinho" quando o Bule defende sei lá que medida ateísta (se o site nem me conhecia) é diferente de uma falácia (esta sim) ad hominem.

Mais gente quis saber por que o GAYZISTA (em caixa alta do original) apareceu na discussão. Ainda mais depois de eu ganhar mais de 200 RTs com dois tweets zoando o Orgulho Hetero. Foi preciso explicar para muita gente: não, o Bule não me flagrou em nenhuma ação de homofobia. Só precisou imputar a mim o que não sou, preferencialmente um rótulo odioso, para poder, refutando um rótulo bobo, achar que me atinge.

Para "provar" por que enfiava "gayzismo" em caixa alta na conversa, o Bule mostrou uma imagem com minhas respostas. Peço a algum racional ateu que não acredita em fantasmas encontrar menções à palavra "gay" sendo proferida por mim:

print bule 2.jpg

Deu pra notar como os ateus aí são "científicos", "analistas" e "críticos" que não usam de chutes lógicos e golpes de fé pra ver se acertam algo?

Hoje já foi diferente. Publiquei o texto Os Bolsonaros da esquerda são piores no Implicante, que começa com simplesmentre 12 parágrafos com meu típico humor refinado (sabemos como o humor é nocivo para o pensamento religioso). Um deles, dizendo que o maior motivo para os filhos rspeitarem os pais é que estes últimos são mais fortes - não sei quanto aos "analíticos" do Bule, mas em casa, nenhum argumento doía em meus pais tanto quanto as cintadas doíam em mim.

A galera que me chama de "cricri" por reclamar do Bule sempre lembra que eles gostam de argumentar civilizada e democraticamente. O que o Bule fez foi repassar aos fiéis de sua igrejinha o tweet:

print bule 3.jpg

Não cita a fonte para os "cientistas" seguidores analisarem eles próprios. Não é capaz de identificar uma piada, e ainda querem se supor guardiões de um entendimento de textos maior do que crentes (ao menos estudei dialética, exegese e hermenêutica com nêgo tentando entender parábola). Apenas passam uma mensagem já mastigada a ser engolida sem questionamento por seus fiéis seguidores. Até agora não tiveram coragem de revelar a fonte para seus fiéis (quem costuma ter esse comportamento, mesmo?), preferindo apenas a difamação localizada e descontextualizada.

O que esse Bule consegue é apenas dar chutes cegos e ver se atinge algo. Supor que alguém é "gayzista" por ser crítico das ridículas medidas pró-gay do governo, que só devem é causar constrangimento na população gay. Supor que alguém "fica pianinho" (como se tivesse o dever de criticar cada coisa criticável em um todo site ruim) sem a conhecer (medida que o Eli Vieira, um dos "famosos" militantes desse tal humanismo secular, também adota, como me chamar de "germanista" entre aspas sem conhecer meu trabalho). São golpes de fé. Não são argumentos - são afirmações genéricas deslocadas, mas trocando o "Jesus está voltando" (e o que isso significa? estou com o carnê do Baú celestial em dia?) por "ateus são mais inteligentes e racionais".

Repetir que é racional 20 vezes não te torna uma pessoa racional. Ainda menos do que ler manual de falácia na internet e repetir ad nauseam (!) a expressão "ad hominem", como se todo argumento ad hominem fosse falacioso.

É nocivo que um site que consiga cometer tantos erros e dar tantos chiliques em público e seja tratado como "representante dos ateus". Ateu é apenas o cara que não acredita. Não preciso de uma igreja para tal. Não preciso concordar com outros ateus em tudo - ainda mais porque a religião cometeu infinitamente menos mal em 3 milênios do que ateus comuno-fascistas conseguiram cometer em um século (e que mal há em encarar o fato? seria como "não gostar" de 2 + 2 serem 4). E não preciso aplaudir a ignorãncia do Bule ao lidar com n assuntos só porque concordo com o ateísmo do site.

Ainda mais sendo um site que critica tanto o enriquecimento de igrejas que cobram dízimo em troca de ameaças de Inferno, e aplaudem um governo que cobra 35,04% do que trabalhamos em impostos, sob ameaça de cadeia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Hegel - Substituindo "Espírito" por "Geléia"

Ninguém entende Hegel. E quem entende só faz caquinha. Como o materialismo histórico bebe diretamente na fonte hegeliana, substituindo o "espírito" pelo "motor da História" através da luta de classes, resolvi trocar as ocorrências de espírito naquele caramalhaço de livro principal do filósofo de Jena por geléia. Acho que é um bom nome pra espírito, afinal:

Fenomenologia da geléia

7 - [Wird die Erscheinung] Tomando a manifestação dessa exigência em seu contexto hegel.jpgmais geral e no nível em que presentemente se encontra a geléia consciente-de-si, vemos que essa foi além da vida substancial que antes levava no elemento do pensamento; além dessa imediatez de sua fé, além da satisfação e segurança da certeza que a consciência possuía devido à sua reconciliação com a essência e a presença universal dela - interior e exterior. A Geléia não só foi além - passando ao outro extremo da reflexão, carente-de-substância, de si sobre si mesmo - mas ultrapassou também isso. Não somente está perdida para ele sua vida essencial; está também consciente dessa perda e da finitude que é seu conteúdo. [Como o filho pródigo], rejeitando os restos da comida, confessando sua abjeção e maldizendo-a, a geléia agora exige da filosofia não tanto o saber do que ele é, quanto resgatar, por meio dela, aquela substancialidade e densidade do ser [que tinha perdido].

11 - [Es ist übrigens] Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. A geléia rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, a geléia nunca está em repouso, mas sempre tomada por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de nutrição tranquila, a primeira respiração - um salto qualitativo - interrompe o lento processo do puro crescimento quantgeleia.jpgitativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, a geléia que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronasse gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo.

26 - [Das reine Selbsterkennen] O puro reconhecer-se-a-si mesmo no absoluto ser-outro, esse éter como tal, é o fundamento e o solo da ciência, ou do saber em sua universalidade. O começo da filosofia faz a pressuposição ou exigência de que a consciência se encontre nesse elemento. Mas esse elemento só alcança sua perfeição e transparência pelo movimento de seu vir-a-ser. E a pura geleidade como o universal, que tem o modo da imediatez simples. Esse simples, quando tem como tal a existência, é o solo da ciência, [que é] o pensar**, o qual só está na geléia. Porque esse elemento, essa imediatez da geléia é, em geral, o substancialda geléia, é a essencialidade transfigurada, a reflexão que é simples ela mesma, a imediatez tal como é para si, o ser que é reflexão sobre si mesmo.

27 - [Dies Werden] O que esta "Fenomenologia da geléia"apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber,como é inicialmente - ou a geléia imediata - é algo carente-de- geléia: a consciência sensível. (...)

geleia_mattel.jpgO indivíduo, cuja substância é a geléia situada no mais alto, percorre esse passado da mesma maneira como quem se apresta a adquirir uma ciência superior, percorre os conhecimentos-preparatórios que há muito tem dentro de si, para fazer seu conteúdo presente; evoca de novo sua rememoração, sem no entanto ter ali seu interesse ou demorar-se neles. O singular deve também percorrer os degraus-de-formação-cultural da geléia universal, conforme seu conteúdo; porém, como figuras já depositadas pela geléia, como plataformas de um caminho já preparado e aplainado. Desse modo, vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam a geléia madura dos homens, serem rebaixados a exercícios - ou mesmo a jogos de meninos; assim pode reconhecer-se no progresso pedagógico, copiada como em silhuetas, a história da geléia do mundo. Esse ser-aí passado é propriedade já adquirida da geléia universal e, aparecendo-lhe assim exteriormente, constitui sua natureza inorgânica. Conforme esse ponto de vista, a formação cultural considerada a partir do indivíduo consiste em adquirir o que lhe é apresentado, consumindo em si mesmo sua natureza inorgânica e apropriando-se dela. Vista porém do ângulo da geléia universal, enquanto é a substância, a formação cultural consiste apenas em que essa substância se dá a sua consciência-de-si, e em si produz seu vir-a-ser e sua reflexão.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Aborto: questão de coerência


A pauta do dia no Twitter é a descriminalização do aborto, com o Trending Topic #legalizaroaborto. Qualquer declaração minha irrita tanto feministas quanto conservadores. Se feministas e conservadores discordam de mim ao mesmo tempo, não preciso de muito mais para saber que já sou quase dono da verdade.

O aborto deveria ser uma discussão mais simples. Tudo deveria se dar em nome da coerência. Infelizmente, algo longe de ser alcançado, quando todas as discussões, ao invés de termos uma discussão que surge da linha lógica dos argumentos, temos uma repentina mutatio controversiae que surge de cima pra baixo, por um grupo de pessoas interessadas em defender uma causa contra outro grupo específico. Via de regra, é o que faz alguma coisa ir parar nos Trending Topics sem ninguém morrer ou passar pelo Congresso.

A defesa do aborto é uma agenda feminista há muito. O problema é óbvio: feministas, mesmo que acertem em algo, têm os piores argumentos possíveis. O mais comum e óbvio é o mais ridículo: a discussão sobre aborto deveria caber apenas às mulheres. Ora, o que esse dogma implica é que o embrião, aqui, é tratado como propriedade da mulher, por estar abrigado em seu corpo - e seu corpo é inviolável.

Seria um argumento interessante, se não fossem as feministas as campeãs do marxismo cultural, que procura justamente acabar com o direito de propriedade. Ou seja, com a propriedade alheia: se for sua própria propriedade, obviamente que ela deve ser defendida com unhas e dentes. Vejamos o que Murray Rothbard, um dos economistas ultraliberais mais brilhantes do século, teria a dizer:

"Não apenas não existem direitos humanos que não sejam também direitos de propriedade, como esses "direitos" perdem sua incondicionalidade e clareza e se tornam confusos e vulneráveis quando os direitos de propriedade não são usados como padrão."

abortion_feminism.pngAssim, mutatis mutantis, fica claro que a discussão sobre aborto se restringir às mulheres seria uma idéia até justificável. Afinal, o corpo é propriedade delas, e o embrião, infinitamente mais delas do que do genitor. Mas, se as mulheres sofrem injustamente com a gestação (e não adianta culpar os homens, culpem apenas Deus), é uma questão de saúde pública. Não há por que excluir os homens da discussão. Uma saída apontada via de regra é que homens podem discutir, mas só as mulheres podem decidir. Aposto 10 contra 1 que esse argumento vem sempre de mulheres que, quando engravidam, exigem amor paterno de seus parceiros - então, por que a discussão sobre o futuro dos rebentos seria decidível apenas por mulheres?

Óbvio que o objeto claro aqui é restringir a discussão a quem mais tem interesse em ver o aborto legalizado. Eu sou homem e não vejo seqüela de motivo para o aborto não ser legalizado. Mas isso não quer dizer que acredite que essa discussão deva ser deixada apenas às mulheres. Aliás, por que as mulheres poderiam então usar os meus argumentos, mas simplesmente ignorar os argumentos contrários ao aborto?

Alguém pode decobrir um meio de fazer o embrião virar um feto, abortionismurder.jpge depois um bebê, sem precisar da barriga da mulher. Então, a mulher não vai mais sofrer tais paixões (o sentido inicial de "sofrimento"; cf. Aristóteles), e nada vai mudar pro embrião. Aí, parece que a discussão não ficaria mais restrita às mulheres. Mas, se nada mudaria para o embrião, por que de repente a discussão pôde mudar de pessoas "possíveis" de discutirem? Enquanto isso, veríamos um embrião, numa incubadora transparente, cada vez mais parecido com um bebê, e onde ficaria a propriedade da mulher sobre uma vida?

Também urge ter cautela com a idéia de que a proibição não adianta nada. O problema não é não adiantar - a proibição do roubo, do estupro e do assassinato também não parece surtir efeitos muito grandiosos em certos lugares deste país. Esse argumento funciona se e somente se levarmos em conta o que acontece mesmo a uma mulher estuprada no país: a burocracia é tão complexa, mesmo em casos de aborto legal, que se prefere uma clínica clandestina - ou alguém aí acha que exame de corpo delito é mais delicioso que exame de próstata para uma mulher que acabou de ser estuprada?

Aí nos voltamos para o cllchê oposto, dos conservadores, aqueles que adoram confundir "descriminalização do aborto" com "obrigação do ato de abortar". A visão deles é de que toda gravidez indesejada é fruto de irresponsabilidade (uma simples reportagem sobre um acidente generalizado com anticoncepcionais por uma falha com uma empilhadeira que aconteceu na Pfizer seria suficiente pra mandar esse povo ir fazer um pouco mais de sexo na vida).

abortion_stop_coat-hanger.jpgMas ainda que o fosse, recaímos no mesmo problema "ignore-se o feto", mesmo partindo daqueles que mais julgam defendê-lo: se defendem o feto contra mães irresponsáveis, ou devem obrigar mulheres estupradas a terem filhos de estupradores, ou não podem ser favoráveis ao aborto para vítimas de estupro. Ora, mulher estuprada ou não, o feto é "vida", e não pode ser culpado pelo crime do pai, não? Ou alguém defende que filhos de estupradores sofram pena de morte? Que a família de homicidas cumpram pena de prisão junto com o criminoso? O feto nada tem a ver com isso - se é possível defender o argumento para o aborto de feto decorrente de estupro, significa que é possível defender para o feto que não surge decorrente de um estupro. Não há outra opção - tertium non datur.

O que conservadores querem é punir a mãe por sua vida sexual, que julgam pregressa. Assim, se uma suposta vagabunda promíscua engravida, o melhor a se fazer é lhe obrigar a ter um filho, pois um filho de uma vagabunda pregressa fatalmente a ensinará a ser uma esposa de família, casar, ir à igreja, não comer com os cotovelos sobre a mesa, que saiba cozinhar e ainda faça uma lasagna de primeira (já que esse povo não costuma gostar de um boquete caprichado). Exceção feita a quem quer obrigar mulheres estupradas a terem filhos - mas o simples sofrimento que uma mulher terá durante nove meses gestando o filho de quem a estupra já me parece argumento suficiente para não ligar para o sofrimento daquele amontoado de células - e aí, nem é porque as células são "filhas" de um estuprador que é lícito "puni-las".

Mas sempre sobra aquele argumento quejuram que não tem nada a ver com religião (e só religioso, óbvio, acredita). O argumento que diz que, se descriminalizarem o aborto, estarão liberando o assassinato.

Ora, a delimitação de onde começa a vida é bastante espinhosa (enquanto todo cristão do mundo não chegar a uma única conclusão em termos puramente biológica sobre vírus serem vida ou não, não deveriam nem tentar se aventurar em propriedade que não lhes pertence). De minha parte, por bonitinho que seja (e não é), um feto sem o Sistema Nervoso abortion_prolife.gifCentral e Periférico em atividade não pode ser considerado vida. Nas aulas de Neuroanatomia e Neurofisiologia entendemos como o organismo inteiro precisa deles para qualquer reação daquilo que chamamos vida - não à toa que é o que temos em comum tanto com um macaco quanto com um peixe ou mesmo o a mais rudimentar forma de vida pluricelular que não seja um fungo. Imagine então o que é a tal "consciência": retire o bulbo e o que se verá será um acidente da natureza, felizmente incapaz de sentir a dor que é ser um acidente.

Mas o problema é mais profundo: sendo vida ou não, não importa. Como diz o jurista e filósofo americano Ronald Dworkin, em Domínio da Vida (livro fundamental para a discussão sobre aborto e, mais complicado ainda, eutanásia), a vida tem graduações. Sabemos o que é mais horrendo: perder um filho com 8 meses de idade ou um filho com 8 anos. Da mesma forma, também a diferença de choque é cortante na morte de um idoso de 80 ou de um homem de 40, mesmo que seja pela mesma causa mortis. Não é algo subjetivo nem irracional: há razões para isso. Como afirmou os quadrinhos de James O'Barr, "A morte, assim como a virtude, tem suas graduações" (O Corvo).

Como se pode, então, santificar um feto com menos de 3 meses de gestação (o tempo para formação do sistema nervoso) como "vida", chamando de "assassinato" a interrupção de sua gestação, se a própria Natureza faz com que a maioria dos abortos espontâneos aconteçam exatamente nesse período - muitos deles sem a mulher ficar sabendo?

Fica-se então com o argumento doidivanas de que há uma "chance" do embrião ser vida, 50% sim e 50% não, e pelo sim, pelo não, melhor não correr o risco de matar alguém. Mais uma vez, a interpretação da palavra "vida" aqui vai mais para termos metafísicos, abortion-sends-babies-to-god-faster.jpgdignos de conquistar idealistas que julgam que a vida é uma "alma" exterior ao corpo ou coisa parecida - não convence nem os vitalistas (filosofia a qual muito me apetece), de que a vida não é nem pura matéria, nem uma idéia anterior à sua materialização, estando mais na própria organização da espécie e sua individualização. O risco de cometer um "assassinato" aqui derivaria, então, de qualquer coisa além da matéria - visto que a matéria conhecemos bem qual é até os 3 meses de gestação.

Sendo imaterial, já é uma questão a ser discutida diante dos portais de São Pedro. Não se pode punir uma pessoa por praticar um aborto por uma "possibilidade" de ter cometido um assassinato, ou mesmo impedir a realização do aborto nesses casos, por algo de domínio extra-material. Do contrário, teremos de punir o próprio Cristianismo por mandar tantas almas para o Inferno - e crime de tortura é imprescritível.

Vida como "matéria orgânica viva" existe até nas nossas cutículas. Levando todas as conseqüências desse argumento a sério, o único não homicida do país deverá ser o Zé do Caixão.

abortion_prochoice.jpgSobra o último recurso desesperado de dizer que, se liberarem o aborto, ele vai se tornar o método contraceptivo mais comum, e milhões de abortos serão cometidos por mês por adolescentes irresponsáveis. Alguém que já viu uma cirurgia de aborto não precisaria de mais de 15 segundos para enfiar esse argumento longe do olhar dos telespectadores. E em praticamente todo país ocidental em que o aborto foi liberado, o número de abortos caiu - mas manteve vivas as mulheres, que tanto morrem em decorrência da operação - ressaltando que no Brasil, mesmo em caso de estupro preferem clínicas clandestinas. São estes os tais pró-vida?

Esse recurso in extremis também aparece sob a forma de "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar o infanticídio", como disse meu amigo (gênio, porém crente) Filipe Martins. Para ele, um juiz canadense que confundiu os dois conceitos é uma prova de que há um risco enorme de mudarmos nossos valores assim que legalizarmos o aborto no maior país católico do mundo. Um argumento estranho, se a maioria dos países (até alguns países islâmicos) é mais liberal quanto ao aborto do que nós - se proibirmos o aborto para estupro e risco de morte à mãe teremos a mesma legislação da teocracia do Vaticano. Assim, só poderia crer que o Ocidente inteiro, tão defendido pelos conservadores como supra sumo do que deu certo no mundo, está em risco de legalizar o infanticídio - sobretudo os países mais desenvolvidos, ao contrário de nós, os eternos micróbios da geopolítica, graças, curiosamente, à esquerda.

Aí fica uma pseudo-lógica linear que só faz sentido na cabeça de fanático: Ou é "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar estupro, assassinato, latrocínio e filme da Carla Perez" (é cabível, mas é ridículo pensar nisso, pois também teríamos de proibir o Cristianismo por seus crimes), ou "se um bebê é um ser vivo, um embrião é um possível ser vivo, logo um espermatozóide é uma possibilidade de um ser vivo, logo um bebê tendo ejaculações [são milhões de espermatozóides perdidos antes dos 2 anos de idade] está cometendo 'possíveis' genocídios".

Quer escolher um lado para defender no caso do aborto? Escolha. Mas é bom atentar para todas as conseqüências do que se prega, antes de dizer que a vida é uma propriedade de outrem ou que quem defende o aborto é "abortista", como se fossem máquinas de matar criancinhas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Bule Voador é prejudicial aos ateus


Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acodo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo." - Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

O site Bule Voador já é considerado uma espécie de referencial no que se refere a ateísmo (no formato de "ismo") por estas bandas. Ligado a uma tal Liga Humanista Secular, prega valores derivados de uma ideologia muito mais partidarizada e específica do que o "ateísmo", ou a simples descrença em Deus, jogando no mesmo saco um ateu com um "humanista secular".

Não é mais um fato do Destino facilmente ignorável como alto índice de culiformes fecais em nossa alimentação - se é muito mais fácil brincar de discutir com um discípulo de Silas Malafaia do que com São Tomás de Aquino (dá pra parar de escrever o nome dele com "Santo" no lugar de "São"? puta cacofonia horrível), o mesmo se dá nessa brincadeira: cada vez mais se vê cristãos e teístas (são conceitos diversos, ignaros!) atacando os fracos argumentos do "humanismo secular" e atingindo todos os ateus, inclusive os que não se organizam em igrejas, na mesma toada.

Humanismo secular: não me representa.

O "humanismo secular" revela e esconde o que é em seu nome: por um lado, uma versão new age do espiritualismo chumbreca da geração beatnick que achava que todos se amariam se se escorassem em conceitos como "fraternidade" e "boa vontade", visto que odiavam o capitalismo e já vinham percebendo que defender as idéias decadentes do socialismo pegaria muito mal dali a poucos anos (Hipótese MacMilliam à parte). No entanto, é "secular": ou seja, o mesmo papo espiritualista, sem espíritos. É uma espécie de terceira via jurando ser boazinha. É a fraternidade universal amai-vos uns aos outros porque eu assim determinei.

umberto_creem.jpgPoderia ser apenas uma versão esteticamente desagradável do ateísmo, ignorando-se sua platitude intelectual. É a típica idéia de que falta compreensão e compaixão pelo outro para o mundo dá certo - embora este outro nunca seja um outro que esteja atualmente no poder. Mas os humanistas seculares, como toda seita modernosa, querem tratar de uma porralhada de assuntos que vão muito além de sua alçada (e capacidade), reduzindo-os todos a uma dicotomia humanista x não humanista, no máximo diferenciando entre humanistas seculares e não seculares no lado A da primeira distinção.

O termo "humanista" é tão vago em significado que tudo o que representa só tem em comum o fato de querer uma gerência mais "humana" na forma de organização social -eagleton_deus.jpg o que, afinal, não significa nada. Qualquer reformador é "humanista". Os socialistas eram humanistas. Os democratas são humanistas. A pedagogia reformadora é humanista. O existencialismo é um humanismo. O estruturalismo também é humanista. E também o pragmatismo. Qualquer coisa é arrolada sob auspícios deste conceito, desde que tenha mais intenções do que capacidade de mudar algo. A única coisa que não é "humanista" é o rigor tecnológico e intelectual que gerou progresso pra essa tal de raça humana. O humanismo é caracterizado por uma utopia cheia de boas intenções, mas que nunca escreve uma linha prática sobre um problema real específico passível de resolução.

Como bem afirmou o Ricardo Wagner, os auto-intitulados "neo-ateus" (o ateu oldschool precisa ser recauchutado? estava errado? quanto custa o recall?) discutem tudo, seja filosofia, ideologia, ética, aborto, casamento gay, cultura, literatura, culinária, videogame ou cor preferida do vibrador tentando colocar ateísmo no meio. Não é suficiente não acreditar: é preciso alardar a descrença e concordar com outros descrentes em um movimento organizado, reafirmando todo o tempo que não são de outro grupo - o cristianismo. E aplicam esse raciocínio inclusive para falar de política.

No que crêem os que não crêem

Um texto do site intitulado "O humanismo secular entre a direita e a esquerda" dá uma boa amostra dos riscos dessa cegueira.

Com um conhecimento político que eu já dominava de cor e salteado no primeiro colegial, o texto se surpreende com a maior eureka de toda a heurística do Ocidente: a direita prega um Estado tão pequeno que quase lembra os ideais anarquistas. É o problema de falar de "esquerda" e "direita" já no título de um artigo só conhecendo por esquerda Marx, Bakunin e a galerinha da Sorbonne, e por direita... nada. 15 páginas de Murray Rothbard e os meninos já não correriam o risco de se trancarem no banheiro da escola chorando.

Porém, constatado o que qualquer conhecedor da tal "direita" trata como o mais simplório fato evidente, imediatamente a gurizada passa a criticar a direita a la Sarah Palin (com foto e tudo) reclamando... dos anarquistas, por parágrafos a fio, recheados de pérolas da sabedoria humana como "os anarquistas anti-Estado que pensam que todo ser humano é um poço de racionalidade", como se qualquer irracionalidade humana, a coisa que mais critico, incluindo esses revoltadinhos, fosse se tornar racionalidade se organizada em algo estatal, preferencialmente com os escolhidos pelos editores do Bule Voador nos postos mais altos.

É curioso que ser "racional" e bancar o mega cientista conhecedor de variáveis, se achando Carl Sagan só por usar sua imagem no avatar do Twitter, para a meninada, é tratar variáveis como "irracional", e a centralização planificada e unifidacada como a racionalidade extrema. São "cientistas" com medo de números. Para eles, o mercado financeiro é uma anarquia complicada. Melhor acabar com tudo e botar a mão do Estado para organizar tudo. O Bule Voador é a "ciência" da centralização. Surpreende bastante que o site ainda não tenha patrocínio da Petrobras.

Ainda completa cerejosamente o bolo afirmando que a tal irracionalidade humana não é capaz de controlar "a infraestrutura ao seu redor", nem "a não cometer crimes". O argumento do Estado, e não da moral, controlando crimes, misturado à ânsia de culpar "a infraestrutura ao seu redor" como a veia motiz da canalhada, vale por um Maluf lendo Foucault em um palanque.

Prosseguem os tolinhos:

"Em segundo lugar, não é suficiente que o Estado seja um totem que muito simboliza e pouco faz, e é aqui que se equivoca a extrema-direita que quer transferir as funções agregadoras seculares do Estado à religião, ao mercado ou à simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'."

A "função agregadora secular do Estado" (a ROTA na rua? o culto ao PT? que tal os analistas céticos cientistas definirem com precisão o objeto de suas análises sem termos genéricos que podem significar qualquer coisa?) é colocada em oposição "ao mercado" e à "simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'". Eu já vi Estados seculares mais seculares do que essa religiãozinha anti-mercado e anti-iniciativa pessoal... mas como assim os liberais (é dos liberais que eles estão falando? nem eles devem saber) são a "extrema-direita"? A extrema-direita não é, justamente, uma força que toma o Estado para descer seus valores no cacete?

carlsagan_broca.jpgNessa, como fico eu, que não acredito nem em Deus (e ainda escrevo às mancheias contra o pensamento religioso), nem no Estado? Para piorar, sou a favor da livre iniciativa, da liberação das drogas, do casamento gay e também das piadas com todo mundo? Sou ateu? Ou sou "totêmico" por preferir o mercado ao Estado? O mercado não é "laico", enquanto o Estado pode ser? Sou de "extrema-direta", querendo menos influência estatal na vida privada de cada cidadão? Onde mais no mundo houve tal "extrema-direita" que valoriza o mercado e a livre iniciativa de cada cidadão? A escola austríaca é a "extrema-direita"? Então, o fascismo é o quê?

Sou humanista secular? Sou só humanista? Sou só secular e "homem de bem" entre aspas? É preciso ser um cara do mal para ser humanista secular? Posso só não acreditar em Deus e nem roubar, mas ter mp3 pirata e zerar Tomb Raider com cheat para ser considerado do mal o suficiente para ser humanista secular? Paulo Freire, que educou essas crianças, só merece críticas por ser religioso? Ou sua educação desinformante voltada para "a revolução" é o perfeito exemplo do que é o tal humanismo secular?

Pra variar, é apenas o showzinho histérico de quem adora falar de política por clichês, e não por conhecimento de causa. dawkins.jpgÉ a típica empulhação de quem cita o nome de 10 intelectuais de esquerda que mal leram para falar mal da direita, mas nunca leram uma linha de algo minimamente direitista (a ponto de confundir "extrema-direita" com liberalismo, o que me faz perguntar o que seria a direita não extrema). Showzinho esse que, por ter como platéia uma massa enorme e burbulenta de pequenezes com o mesmo desconhecimento de causa, sempre terá aplausos com o discurso mais manjado e repetitivo de sempre, que se julga "crítico" repapagueando o que sua platéia já acredita a priori cegamente. É a captatio benevolentiæ em graus liliputianos. Sua platéia aplaude achando que, com isso, consegue aplaudir a própria falta de estudos.

Continua a chuva de chavões:

"Seus pares [de Sarah Palin] foram contra o sistema de saúde público implantado no governo Obama, mas gastaram trilhões de dólares num projeto de caça internacional de terroristas que é um mal disfarçado sistema de defesa de interesses comerciais de corporações (também escolhidas como substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos)."

Traduzindo: se for ateu, você é obrigado a concordar com o sistema de saúde americano, que pode ser danoso para a saúde dos pobres muito mais (óbvio) do que pros ricos. E se seu país sofre atentados terroristas, deixa pra lá. O que são alguns milhares de mortos, que provavelmente eram judaico-cristãos, mesmo?

A propósito, fora empresas que abocanharam a terceirização do Exército (a doutrina Rumsfeld) a Blackwater (que critiquei duramente em pleno aniversário do 11 de setembro, e sempre recomendo o livro Blackwater: A ascensão do exercito mercenário mais poderoso do mundo, do esquerdista anti-privatizante Jeremy Scahill), julgar que se caça assassinos como Osama bin Laden só porque "corporablackwater.jpgções" lucram com a guerra (era dever moral delas falir? não produzir tecnologia militar? não processar comida para os soldados?), e que estariam funcionando como "substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos" (de novo, generalidades bom-mocísticas para obrigar o leitor a admitir sem argumentos que o Estado tem "papéis" indefinidos) é como supor que quem decide algo em Washington seja o Rupert Mordoch - quando é característica intrínseca da direita se meter cada vez menos com o governo. Como bem diz P. J. O'Rourke: "Giving money and power to government is like giving whiskey and car keys to teenage boys."

Numa associação livre sem pé nem cabeça digna do delírio de um psicanalista, o site coloca uma foto do grupo católico brasileiro que organizou a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" em 1964, tentando associá-la sabe lá como à ala neoconservadora (neocon) do Partido Republicano atual, dizendo na legenda: "sob a desculpa de combater o comunismo e defender valores tradicionais, deu força ao antilegalismo de direita que culminou no golpe militar de 1964". Como não poderia deixar de faltar, "foram estes os grandes responsáveis, em conjunto com o expansionismo americano reativo ao comunismo, por nos dar de presente uma ditadura militar de 20 anos". E eu jurando que a política externa focada no eixo sul-sul e nitidamente anti-americana baseada em "independência" de paspalhos como Muniz Bandeira tivesse começado justamente com o ditador militar Geisel, o maior criador de estatais do planeta...

Eu ainda não entendi se, para os os ateus ninja mutantes adolescentes, "a direita" é anarquista, anti-Estado e não respeita leis ou se é capaz de criar ditaduras com força estatal bruta, e onde a lei vale mais do que o cidadão. De minha parte, de Jouvenel a Reale, de Rand a Nozick, de Buchanan a Rawls, de Santayana a Block, nunca vi algo sequer parecido com essa mantícura que o site se esmera em alvejar.

A conclusão é a cagação de regra politicamente correta de sempre: "À direita e à esquerda, a lição do autoritarismo antihumanista foi o fracasso epistemológico, sem falar do moral (inclusive, Palin agora sofre ameaças de morte)." Em um passe de mágica, o anti-Estado pseudo-racional da direita vira "autoritarismo antihumanista". São esses fracassados epistemológicos que adoram criticar o "fracasso epistemológico" alheio.

Mas claro que, estando acima do bem e do mal, ou da esquerda e da direita, podendo julgar as duas redefinindo de estro próprio o que cada uma é, os "humanistas" logo mostram sua cara. Não sem antes mais umas provocaçõezinhas:

"Talvez por isso as fronteiras entre uma posição e outra estejam cada vez mais nebulosas, com um Barack Obama decepcionantemente conservador inclusive em assuntos de liberdade de expressão (WikiLeaks e Julian Assange que o digam!) e personalidades ditas neoliberais de direita paradoxalmente endossando um Estado inflado quando a questão diz respeito a assuntos economicamente estratégicos ou de defesa."

Para quem quer superar a dicotomia esquerda x direita, é curioso que reclame repentinamente das fronteiras ficarem nebulosas. E para quem se julga um bom juiz (!), é excelente perceber que questionar a liberdade do WikiLeaks vazar documentos oficiais seja "decepcionantemente conservador".

chesterton_universo.jpgNo mais, há uma pedra de toque fundamental na discussão política: quem usa a palavra "neoliberal" está errado. É simples. Simplesmente porque não existe neoliberalismo. Esse termo, cunhado por Alexander Rüstow, quer apenas reclamar de teorias adversas a posteriori, reunindo-as todas sob a mesma égide. Acaso existe uma "escola neoliberal"? Seria a Escola Austríaca? Seriam os Chicago Boys? Seriam os objetivistas? Seria o PSDB? Seriam os neocons ou o decepcionante Barack Obama? Se o Bule Voador conseguir encontrar alguém "dito neoliberal de direita" (?!), ao invés de jogar a culpa em moinhos de vento, poderá algum dia sonhar em ser um guardião da moral, da análise e da ciência em oposição à fé cega em invenções mirabolantes de profetas fracassados.

Antes de concluir, os mancebos não deixam de cometer um ato falho:

"Não há mente crítica e livre quando o interesse é a imposição da religião, a morte do Estado ou a reforma revolucionária inconsequente."

Quod erat demonstrandum, meus caros.

Mostram então as garras os recém-desfraldados:

"E é por isso que eu acredito que o humanismo secular deve ser não uma terceira via, mas um árbitro para ampliar nossa lealdade das poucas centenas para os bilhões.

'O mundo é meu país, e a ciência, minha religião', disse famosamente o astrônomo holandês Christiaan Huygens. Está na hora de repetirmos e acrescentarmos: 'e o humanismo secular é minha política prioritária, antes de me alinhar à esquerda ou à direita', se é que um alinhamento ainda faz sentido."

Alguém sem religião aí está sentindo falta de alguém ditando dogmas em sua cabeça? Pois toda religião tem o seu Silas Malafaia: o ateísmo já tem o Bule Voador. É mais importante defender essa estrovenga de "humanismo secular" do que ter um pensamento político independente (e sobretudo culto). Tudo em nome da "mente crítica". E é muito importante ser humanista antes de ser de esquerda, embora o pensamento de um humanista secular e de um esquerdista médio seja tão distinto quanto os (?) de Edir Macedo e de R. R. Soares.

"Se queremos fazer uma diferença, deve ser pela evolução (cultural), que, mesmo com toda sua aparente lentidão, fará com que causas polêmicas e acirradas de hoje virem as trivialidades de amanhã de uma sociedade laica, democrática e aberta que respeita os direitos das minorias - condição última para julgar sua saúde como sociedade que 'expande' conotativamente o número de Dunbar, com meta em um mundo que seja o país de todos."

Então está dado o recado: se você não sabe qual é a sua e nem tem uma solução política apresentável, justamente por isso você é um evoluído culturalmente, que trata qualquer polêmica como trivialidade, por ter nascido avant les temps. E, sobretudo, lute pelas minorias: porque ateísmo é isso: trocar Deus pela luta incondicional do direito de quem se diga minoria (qualquer minoria), do contrário não será ateu. Porque a meta é "um mundo que seja o país de todos" (olha o imperialismo da propaganda do governo aí!).

Note-se: isso tudo para ficar em um texto dessas crianças. Alguém precisa explicar para elas que só montar um site, por bonito que seja, não te torna cientista, filósofo ou crítico político de respeito.

Bullying voador

Um dia, após reclamar dessa queimação de filme que o site promove (fazendo com que TODO ateu pareça um leitor do facilmente refutável Bule Voador), seu Twitter oficial me respondeu que, quando eles defendem sei lá que medida "ateista", eu fico pianinho". É curioso que os guardiões alumiados da razão, da democracia, da sociedade laica, aberta e democrática que respeita todos possa dizer qual é meu comportamento sem me conhecer.

É o site que diz que defende o Bolsa-Família porque "são humanistas", mas não tem nada de partidário. Eu defendo o Bolsa-Família por ser um passo de um programa criado por Milton Friedman e que funcionou, embora seu caráter esmolista e não integrante (além de partidário) no Brasil vá torná-lo um estorvo. Ter "boas intenções" (ou "ser humanista" tem mais sentido do que isso?) não o ajuda em absolutamente nada. Boa intenção qualquer um tem. Qualquer crente tem.

eagleton_jesus.jpgCom uma boa platéia pagando pra ver o arranca-rabo, o Bule não gostou de eu dizer que esse ateísmo de butique queima o filme. Imediatamente me perguntou se "filósofos GAYZISTAS de direita como [Robert] Nozick e [Thomas] Nagel queimam o filme". Ora, a resposta é simples: não, eles são foda. Como Einstein, Hawking, Heidegger, Schopenhauer, Camus, Dickens, Dennett, Comte-Sponville, Asimov, Clarke, Diamond, Mencken, Andreiev, Cioran, Horstmann, Hemingway, Santayana, Rand, Croce, Calin, Block e tantos outros. A questão é que vocês do Bule não são eles. Eles são ótimos. Vocês são queima-filme. Ou acham que só por usar uma foto de Carl Sagan já valem tanto quanto o original? Quer dizer que os "racionais", quando criticados, confundem a si próprios com sumidades como Nozick e Nagel?!

Claro, para o Bule, isso são as falácias argumentum ad hominem e argumentum ad verecundiam, que ele me recomenda procurar em um manual de falácias. Manuais de nomes em latim existem porque latinistas como eu compilam tais termos, retirados de obras de retórica do cânone da Humanidade, desde a Retórica de Aristóteles até a Nova Retórica de Chaïm Perelman, passando por obras fundamentais como De Oratore de Cícero ou Quintiliano. Acreditar que estas duas formas de argumentação constituem falácias é prova de nunca ter topado com uma obra como Institutio Oratoria ou De Partitione Oratoria. É de se perguntar se os meninos sabem mesmo a diferença entre argumentum ad rem e ad hominem, para não perceberem por que têm estes nomes. Mas também seria interessante saber o que "eu ficar pianinho" quando o Bule defende sei lá que medida ateísta (se o site nem me conhecia) é diferente de uma falácia (esta sim) ad hominem.

Mais gente quis saber por que o GAYZISTA (em caixa alta do original) apareceu na discussão. Ainda mais depois de eu ganhar mais de 200 RTs com dois tweets zoando o Orgulho Hetero. Foi preciso explicar para muita gente: não, o Bule não me flagrou em nenhuma ação de homofobia. Só precisou imputar a mim o que não sou, preferencialmente um rótulo odioso, para poder, refutando um rótulo bobo, achar que me atinge.

Para "provar" por que enfiava "gayzismo" em caixa alta na conversa, o Bule mostrou uma imagem com minhas respostas. Peço a algum racional ateu que não acredita em fantasmas encontrar menções à palavra "gay" sendo proferida por mim:

print bule 2.jpg

Deu pra notar como os ateus aí são "científicos", "analistas" e "críticos" que não usam de chutes lógicos e golpes de fé pra ver se acertam algo?

Hoje já foi diferente. Publiquei o texto Os Bolsonaros da esquerda são piores no Implicante, que começa com simplesmentre 12 parágrafos com meu típico humor refinado (sabemos como o humor é nocivo para o pensamento religioso). Um deles, dizendo que o maior motivo para os filhos rspeitarem os pais é que estes últimos são mais fortes - não sei quanto aos "analíticos" do Bule, mas em casa, nenhum argumento doía em meus pais tanto quanto as cintadas doíam em mim.

A galera que me chama de "cricri" por reclamar do Bule sempre lembra que eles gostam de argumentar civilizada e democraticamente. O que o Bule fez foi repassar aos fiéis de sua igrejinha o tweet:

print bule 3.jpg

Não cita a fonte para os "cientistas" seguidores analisarem eles próprios. Não é capaz de identificar uma piada, e ainda querem se supor guardiões de um entendimento de textos maior do que crentes (ao menos estudei dialética, exegese e hermenêutica com nêgo tentando entender parábola). Apenas passam uma mensagem já mastigada a ser engolida sem questionamento por seus fiéis seguidores. Até agora não tiveram coragem de revelar a fonte para seus fiéis (quem costuma ter esse comportamento, mesmo?), preferindo apenas a difamação localizada e descontextualizada.

O que esse Bule consegue é apenas dar chutes cegos e ver se atinge algo. Supor que alguém é "gayzista" por ser crítico das ridículas medidas pró-gay do governo, que só devem é causar constrangimento na população gay. Supor que alguém "fica pianinho" (como se tivesse o dever de criticar cada coisa criticável em um todo site ruim) sem a conhecer (medida que o Eli Vieira, um dos "famosos" militantes desse tal humanismo secular, também adota, como me chamar de "germanista" entre aspas sem conhecer meu trabalho). São golpes de fé. Não são argumentos - são afirmações genéricas deslocadas, mas trocando o "Jesus está voltando" (e o que isso significa? estou com o carnê do Baú celestial em dia?) por "ateus são mais inteligentes e racionais".

Repetir que é racional 20 vezes não te torna uma pessoa racional. Ainda menos do que ler manual de falácia na internet e repetir ad nauseam (!) a expressão "ad hominem", como se todo argumento ad hominem fosse falacioso.

É nocivo que um site que consiga cometer tantos erros e dar tantos chiliques em público e seja tratado como "representante dos ateus". Ateu é apenas o cara que não acredita. Não preciso de uma igreja para tal. Não preciso concordar com outros ateus em tudo - ainda mais porque a religião cometeu infinitamente menos mal em 3 milênios do que ateus comuno-fascistas conseguiram cometer em um século (e que mal há em encarar o fato? seria como "não gostar" de 2 + 2 serem 4). E não preciso aplaudir a ignorãncia do Bule ao lidar com n assuntos só porque concordo com o ateísmo do site.

Ainda mais sendo um site que critica tanto o enriquecimento de igrejas que cobram dízimo em troca de ameaças de Inferno, e aplaudem um governo que cobra 35,04% do que trabalhamos em impostos, sob ameaça de cadeia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Hegel - Substituindo "Espírito" por "Geléia"


Ninguém entende Hegel. E quem entende só faz caquinha. Como o materialismo histórico bebe diretamente na fonte hegeliana, substituindo o "espírito" pelo "motor da História" através da luta de classes, resolvi trocar as ocorrências de espírito naquele caramalhaço de livro principal do filósofo de Jena por geléia. Acho que é um bom nome pra espírito, afinal:

Fenomenologia da geléia

7 - [Wird die Erscheinung] Tomando a manifestação dessa exigência em seu contexto hegel.jpgmais geral e no nível em que presentemente se encontra a geléia consciente-de-si, vemos que essa foi além da vida substancial que antes levava no elemento do pensamento; além dessa imediatez de sua fé, além da satisfação e segurança da certeza que a consciência possuía devido à sua reconciliação com a essência e a presença universal dela - interior e exterior. A Geléia não só foi além - passando ao outro extremo da reflexão, carente-de-substância, de si sobre si mesmo - mas ultrapassou também isso. Não somente está perdida para ele sua vida essencial; está também consciente dessa perda e da finitude que é seu conteúdo. [Como o filho pródigo], rejeitando os restos da comida, confessando sua abjeção e maldizendo-a, a geléia agora exige da filosofia não tanto o saber do que ele é, quanto resgatar, por meio dela, aquela substancialidade e densidade do ser [que tinha perdido].

11 - [Es ist übrigens] Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. A geléia rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, a geléia nunca está em repouso, mas sempre tomada por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de nutrição tranquila, a primeira respiração - um salto qualitativo - interrompe o lento processo do puro crescimento quantgeleia.jpgitativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, a geléia que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronasse gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo.

26 - [Das reine Selbsterkennen] O puro reconhecer-se-a-si mesmo no absoluto ser-outro, esse éter como tal, é o fundamento e o solo da ciência, ou do saber em sua universalidade. O começo da filosofia faz a pressuposição ou exigência de que a consciência se encontre nesse elemento. Mas esse elemento só alcança sua perfeição e transparência pelo movimento de seu vir-a-ser. E a pura geleidade como o universal, que tem o modo da imediatez simples. Esse simples, quando tem como tal a existência, é o solo da ciência, [que é] o pensar**, o qual só está na geléia. Porque esse elemento, essa imediatez da geléia é, em geral, o substancialda geléia, é a essencialidade transfigurada, a reflexão que é simples ela mesma, a imediatez tal como é para si, o ser que é reflexão sobre si mesmo.

27 - [Dies Werden] O que esta "Fenomenologia da geléia"apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber,como é inicialmente - ou a geléia imediata - é algo carente-de- geléia: a consciência sensível. (...)

geleia_mattel.jpgO indivíduo, cuja substância é a geléia situada no mais alto, percorre esse passado da mesma maneira como quem se apresta a adquirir uma ciência superior, percorre os conhecimentos-preparatórios que há muito tem dentro de si, para fazer seu conteúdo presente; evoca de novo sua rememoração, sem no entanto ter ali seu interesse ou demorar-se neles. O singular deve também percorrer os degraus-de-formação-cultural da geléia universal, conforme seu conteúdo; porém, como figuras já depositadas pela geléia, como plataformas de um caminho já preparado e aplainado. Desse modo, vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam a geléia madura dos homens, serem rebaixados a exercícios - ou mesmo a jogos de meninos; assim pode reconhecer-se no progresso pedagógico, copiada como em silhuetas, a história da geléia do mundo. Esse ser-aí passado é propriedade já adquirida da geléia universal e, aparecendo-lhe assim exteriormente, constitui sua natureza inorgânica. Conforme esse ponto de vista, a formação cultural considerada a partir do indivíduo consiste em adquirir o que lhe é apresentado, consumindo em si mesmo sua natureza inorgânica e apropriando-se dela. Vista porém do ângulo da geléia universal, enquanto é a substância, a formação cultural consiste apenas em que essa substância se dá a sua consciência-de-si, e em si produz seu vir-a-ser e sua reflexão.