terça-feira, 26 de julho de 2011

Razões pra não ver Harry Potter: ele mata o Voldemort no final

Há algo de podre no reino de Hogwarts: acredito que tenha a ver com o roteiro. Para quem nunca viu um filme ("ler" já está incluso) de Harry Potter, mato o pouco que há de sua curiosidade: são todos uma bosta (ok, o final do terceiro é até interessante, mas sempre cagam no último momento). E, claro, Harry Potter mata seu inimigo peçonhento no final. E casa, tem filhos e todos vivem felizes para sempre - exceto a caralhada de gente que morre só para que ele não morra, mas ninguém liga pra isso.

Existe um problema em filmes e livros que são baseados no The Chosen One. É aquele cara que geralmente dá seu nome ao título da obra, e/ou é interpretado por um ator bonitinho que está em todos os cartazes promocionais e que você sabe que, mesmo que morra, ressuscita em no máximo três dias. É um roteiro mais manjado que filme de torneio de artes marciais mistas do Van Damme.

O Chosen One é um cara geralmente tonto, com experiência de vida tendendo ao zero absoluto, cujas capacidades de resolver um problema variando de uma lata de café que não abre até o enigma milenar do dragão dourado no fim da floresta maligna dos demônios da insanidade sepulcral são compatíveis às de um bebê nascido e é o cara que menos faz algo durante a trama - se muito uma repetição ad nauseam de no máximo 4 tipos distintos de caretas.

Mas ele é o Chosen One. Ele foi O Escolhinho. Há uma profecia milenar que diz que ele é o mais forte, poderoso, futuro líder de rebelião ou simplesmente que é filho de alguém importante - roteiristas são uma das raças mais nepotistas do planeta. O rol de exemplos é gritante: Matrix, Exterminador do Futuro, Star Wars, O Senhor dos Anéis, Excalibur, História Sem Fim, Kung Pow, Lula - Um Filho do Brasil. Todos filmes de alesmaiados inúteis que só empacam o roteiro (nunca muito mais complexo do que a busca de um objeto que desloca personagens do ponto A até o ponto B), mas são salvos milagrosamente no fim por uma força maior do que a capacidade deles em não serem panacas: a mão do roteirista.

harry_potter.jpgHarry Potter é um garoto virgem, molóide, com sérias tendências homossexuais, que sofre bullying, apanha em casa, não domina corretamente a complexa arte de acertar um horyuken nem com o outro bonequinho encostado na parede, nunca ouviu falar em alquimia, Aleister Crowley, LaVey, Paulo Coelho, também magia e meditação e coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. O estereótipo para o leitor-mirim se identificar com seu ídolo chega a doer nos ovários. Mas ele logo fica amigo de Hermione, menina gênia, estudiosa, engenhosa e polimétis, e que além de tudo é ruiva e logo será comível, ao contrário do nosso herói. Ela salvará a trupe de todas as enrascadas desde o primeiro filme. Mas não tem o seu nome na capa do livro. Não é uma personagem com quem um leitor dessa bodega possa se identificar.

Goblin ex machina

Na Poética de Aristóteles já há severas críticas ao uso do recurso deus ex machina para "salvar" a trama: o roteirista cria complicações e desafios para provocar suspense, seu personagem é algo de carisma e inteligência próximo ao de uma mula (só serve para tarados precisando de sexo sem capacidade de o conseguir com outro humano), e fazem um deus (ou força gigante) aparecer no último segundo, livrando o couro de seus heróis fracassados - não sem uma desculpa amarelenta como "eu comecei a desconfiar de vocês e vim lhes seguindo de fininho por estes canos de tubulação, viagens no tempo e lutas contra demônios, estava atrás da porta ouvindo toda a conversa e luta mortal e resolvi abri-la no último pentelhésimo de segundo só para salvar vocês, que eu nunca tinha ido com a cara, mesmo".

Todos os filmes de Harry Potter (até o único que tem uma idéia interessante no final) têm seu desfecho assim - com um professor-mago-foderoso-semi-deus (geralmente de escolas de magia rivais) abrindo a porta e salvando as criancinhas que estavam fazendo coisa errada escondidas exatamente deles. No caso harrypotteriano, há um problema maior: a magia.

Há, a rigor, duas formas de arte: a clássica e seu modelo de moral e violência quando injustiças (hybris) são cometidas, e a romântica, que traz tudo para dentro do indivíduo, seus sentimentos e seus sonhos. A magia serve para criar coisas ainda mais complexas em tramas do que nosso curto período de macaqueação barata da realidade do realismo.

É o que torna os roteiros da commedia dell'arte tão engraçados, com Arlecchino trocando os destinatários das poções que fazem com que alguém se apaixone pelo primeiro humanóide com que cruze (algo bem próximo das situações de absoluta falta de sexo na vida real dos leitores de Harry Potter), trazendo fins trágicos no caso de Tristan e Isolde. É o que torna o final de Stardust (a graphic novel, já fui alertado o suficiente para nunca ver o filme, e muito menos ver o filme antes da graphic novel) tão intenso, com tantas magias "rivais" acertando um único alvo.

bellatrix_bank.jpgMas Harry Potter, o filme, está se lixando para essas complexas questões de roteiro. Magia ali é apenas soltar raios da varinha - um substituto um tanto infantilóide para a punheta.

Logo no começo desse Relíquias da Morte parte 2, sua trupe, disfarçada ou invisível, entra em um banco para roubar uma das tais relíquias, no cofre de uma inimiga fodona, que vive de roupas góticas, tentando-se passar por ela. Desconfiados, os guardiões do banco (anões? goblins? elfos? duendes? figurantes em filmes da Gretchen?) pedem uma assinatura. A saída genial para a enrascada: Harry, invisível, pronuncia baixinho um dos nomes de feitiço em pseudo-latim para um dos guardas se "enfeitiçar". Magic: The Gathering e até Spellfire já tinham saídas mais complexas, e isso em suas primeiras edições.

Diga-se, o nome das magias vale um capítulo à parte. Temos:

  • Lumos! - Transforma sua varinha numa lanterna. Custa 3 pilhas.
  • Incendio! - O mesmo acima, mas custa a sua varinha.
  • Aquamenti! - Faz sua varinha soltar água feito um anjinho mijando.
  • Expecto Patronum! - Espanta o patrão, te permitindo alguns minutos livres no PornoTube.
  • Aresto Momentum! - É uma magia que todo funcionário público conhece bem.
  • Avada Kedavra! - Mata a criatura-alvo. Curiosamente, a magia é proibida, mas ninguém pensa em substitui-la por um revólver.
  • Animus Corpus! - Invoca um feriado. Também faz a toda-proibida magia acima ser de uma inutilidade atroz.
  • Expelliarmus! - Magia usada para curar prisão de ventre.

Ora, a magia foi inventada para nos tirar dessa realidade tão trouxa. De que adianta criar uma porra de um mundo onde se pode soltar fogo pelas ventas se o sistema de segurança de um banco mágico é putaqueopariumente mais cheio de brechas do que o de um banco comum? Custava ter uma caceta de porta giratória na entrada, que não permitiria ninguém entrando com uma capa de invisibilidade no cofre alheio?!

Claro, dentro de um carrinho de mina imitando montanha-russa para se chegar ao cofre (isso é mais segurança do que um sistema "mágico" que fuzile quem passe porta adentro sem ser chamado?), o alarme finalmente soa e eles são atirados de centenas metros de altura ao chão. Harry-Potter-Dragon.jpgCaem diante de um dragão, sabe-se lá Zeus fazendo o que ali. Um dragão amarrado misteriosamente guarda o caminho para o cofre (um atalho esquisito, se o caminho normal do carrinho seria lá por cima, mas quem liga para geografia? é tudo mágico!). Tais como cobras com guizos, o dragão não ataca ninguém se ouve um chocalho - mas aqui o chocalho causa dor ao dragão, burro demais para cuspir fogo em cima do chacoalhador e fazer o som parar. Uma varinhada na retaguarda de quem ainda não percebeu que Harry, o micróbio escolhido, nada sabia disso, mas um anão de jardim que o acompanha lhe explica... e acha uma porra de um chocalho bem ali do lado!

Já dentro do cofre, um atentado contra a paciência: um feitiço faz com que tudo em que se encoste se multiplique por dois. Um caso típico de bolha de inflação, além de um problema sério para quem está procurando algo em um cofre trancado. A solução? A solução é que Potter consegue encontrar a porra da relíquia mesmo sendo soterrado por objetos se multiplicando, e pode correr para a saída a salvo. O wait. Então é isso? Todo o feitiço (admito sua genilidade engenhosa menos chulé do que o resto) não impede que até uma mula como Harry Potter pegue o que procura... e todo o mundo mágico só é capaz de fazer com que Harry faça o mesmo que qualquer porcaria de filme de ação de Sessão da Tarde o faça, sem mágica, sem idéias geniais... simplesmente correndo contra o tempo?!

Seguem os clichês do "mundo mágico" de sempre: um mapa que permite ver onde Harry está (uau! que mundo mágico! imagine se inventam isso na vida real para um carros, e inclusive indiquem os nomes das ruas, que genial que seria?!), uma entrada secreta para a escola de Hogwarts, a essa altura tomada pela casa de magia rival Sonserina (tanta magia e nem para instalarem um sistema que impeça o velho truque barato de entrar pelo duto de ventilação e suas variações) e os velhos encontros de todos que finalmente conhecem Potter e exclamam ou cochicham: "Nossa, é Harry Potter!", como se ele fosse alguém minimamente interessante para servir de exemplo. Mais útil seria exclamar pela sorte de não ser o perfeito arquétipo de um otário.

Harry, I am your father

Com o terror comendo solto em Hogwarts, chega a hora de Harry, então foragido, se revelar diante de seu professor rival Snape. Disfarçado com o uniforme da casa com o símbolo do Corinthians, Harry tira o capuz e... inicia uma rebelião. Na casa rival. E até obtém ajuda de uma antiga professora. Ora, se tudo o que nosso grande herói faz é dizer: "Presente, professor!" e iniciar um motim, por que caralhos os sábios magos (wizard vem de wise, dona J. K. Rowling!) não se rebelaram contra o novo diretor do mal antes ?!

A batalha entre o diretor do mal e a professora boazinha não poderia ser mais original: cada um solta um raio de sua varinha que se entrecruzam no meio do caminho. Não foi a primeira vez que vimos isso. Não será a última.

snape vs mcgonagall.jpgEm questão de um minuto, todo o castelo da escola, desde então dominado pela casa de magia rival, passa a ser palco único dos revoltados com a tal casa de magia do mal, e a trupe de Voldermort, num acampamento a poucos metros dali, ameaça chegar até a escola. Seria uma idéia interessante de Voldemort tomar a escola de vez enquanto seus lacaios ainda são diretores, mas por alguma conjuntura esquisita do Destino, a única força cósmica do Universo com senso de humor, foi melhor esperar Harry Potter e mais uns 40 cupinchas seus tomarem o edifício e lá dentro se tornarem milhões (talvez pelo mesmo feitiço do cofre).

Após algumas novas magias que fazem o velho CG dos novos filmes servir para alguma coisa (tire isso e a trilha sonora e o filme não encantará nem a APAE), Potter tem novas visões sobre seu grande inimigo e o paradeiro do diretor traíra do mal que ele acabara de expulsar da escola. Fica uma dica para Harry: olhe para o rio fora da escola e veja um exército gigantesco de caras maus com roupas de neogóticos dos anos 2000. Descobriu onde estão Voldemort e o diretor Snape, gritando ali, liderando o exército? Ora, fica um pouco sem graça sem um "feitiço" e "visões", né?

Snape é traído e morto por Voldemort, e Harry, que sofreu sem eira nem beira nas mãos de Snape, obtém um presentinho de Snape após testemunhar Voldemort matá-lo (Harry se escondera do lado de trás de uma cortina): suas lágrimas, que lhe revelarão sobre o passado dos pais de Harry, que ele não conheceu. harry_potter_Snape's_Death...pngNova dica surpreendente: o fato de a mãe de Harry e Snape terem como animais símbolos uma gazela saltitante não é mera coincidência - sim, Snape era apaixonado pela mãe de Harry, não conseguiu comê-la o tempo todo, mas no fim, há uma explicação para Snape proteger mais Potter do que atacá-lo e ser tão parecido com sua mãe e ter como totem um animal símbolo de quem gosta de praticar a arte do alarga-anel. Alguém disse que isso é parecido demais com Star Wars?

Note-se também que nem Voldemort nem Snape têm magias para verificar se alguém está escondido atrás da pilastra. Até o Homem-Aranha tinha rastreadores decentes. Aliás, até a Bruxa Malvada da Branca de Neve conseguia ver onde ela estava com sua bola de cristal. Uma escola de magia inteira e ninguém pra sair do feudalismo cristão!

Hogwarts_Post-Battle.jpgO exército de Voldemort ataca o castelo de Hogwarts, e o único meio de acesso ao castelo é um caralho de uma ponte com sustentação de madeira (em um castelo de pedra). Obviamente que apenas UM aluno resolveu olhar para aquele lado do castelo quando percebeu que estavam sob ataque. É uma escola para "alunos especiais", diz-se. Sua idéia com nível Potter de genialidade? Ficar olhando com uma cara de bunda que parece que come papel higiênico na ponta da ponte. Alguém com QI maior do que o de um protozoário teria pensado imediatamente: "Vamos derrubar essa porra de ponte, que se tem sustentação de madeira, é por algum motivo!" - mas não se pode ter noções mínimas de engenharia, artilharia, guerrilha ou roteiro, porque o diretor perdeu essas aulas para poder brincar de Wicca na floresta cavalgando vassouras. Por que cacilda só quando o exército já está a meio caminho atravessado da ponte é que é legal derrubá-la e quase morrer no processo?! O Rambo fez melhor, cacete. Não me tire de casa para ver algo pior.

Hermione mata a cobra e mostra a varinha

Mais colóquios flácidos para acalentar bovinos e Harry percebe que uma parte de Voldemort vive dentro dele - por isso ele é capaz de falar com cobras (alguém aí não tinha percebido isso já no filme 2?). Se Voldemort precisa morrer, ele vai dar um chupão no mamilo do Capeta junto. Harry aceita o duelo final: está pronto para dar a vida e nos livrar dessa tortura. O espectador agradece e o manda pro abate.

Aparecendo diante de Voldemort (interpretado por Ralph Fiennes, que, é o pior dos melhores atores da atualidade), Harry toma um Avada Kedavra na moringa pronunciado com a mesma emoção de quem acaba de tirar a moréia da caverna depois de 2 semanas de prisão de ventre. É isso, Harry morre.

...e acorda num ambiente todo branco típico de espiritismo kardecista "do outro lado", tem papos-cabeça a la Engenheiros do Hawaii com seu antigo professor morto Dumbledore (rola até um meio plágio de Slayer, só faltando dizer: "Before you see the light, you must die") e Harry... volta a vida e se finge de morto. Tão mágico quanto o Guru do Gugu.

hermione.jpgVoldemort e seu bando tomam a escola, enquanto Hermione tenta matar a cobra de Voldemort - descobrira ela que era a última das horcrux (pedaços da alma de Voldemort) que faltavam para todos viverem felizes para sempre. Hermione vem salvar o roteiro duplamente: primeiro, sendo a única pessoa em toda a "escola de sábios mágicos" com QI acima de 70, e segundo, ficando com peitinhos (coisa a qual Harry não é chegado). No Relíquias da Morte - parte 1 , seu namorado ruivo Rony Weasley, iniciador de Harry Potter no troca-troca, não deixa de ter um sonho psicanálico com Hermione liberando a racha para Harry, que ele sempre considerou muito melhor do que ele próprio e morre de medo de tomar a sua namorada - medo esse que não se concretiza pela consabida preferência sexual de Harry por agasalhar trosobas hirsutas de porte escandinavo com as 3 pregas que lhe restam.

(não que isso salve o roteiro de todo: logo após fugirem do banco cavalgando um dragão, Harry, Rony e Hermione trocam de roupa após se jogarem num lago; os dois branquelos tiram a camisa e mostram as vergonhas ao incréu telespectador, enquanto Hermione apenas... pega mais roupas para se cobrir)

Enquanto isso, Harry novamente faz a revelação surpreendente de estar vivo, desta vez na frente de seu arqui-inimigo Voldemort e todo o seu séquito reunido, o que é algo próximo da arquibancada geral do itaquerão. Voldemort só é seu arqui-inimigo porque a dona J. K. Rowling o quis, pois Potter é tão imprestável quanto uma varinha curta que ainda não faz mágica alguma. Despita Voldemort de novo com algo que só um mundo de magia e leis físicas mais interessantes do que a chatice newtoniana que só nos fez perder horas de fliperama na adolescência poderiam fazer: sair correndo. Mais um recurso genial de roteito e de criação de situações impensáveis sem um mundo mágico.

Despitando toda a goticaiada, Harry é encontrado por seu rival loiro amofadinha Draco Malfoy, como se um adolescente punheteiro soubesse pra que lugar Harry correria mais do que professores com séculos de idade. Ao invés de algemar Potter ou, estando em maior número no momento, pedir para cada um de seus comparsas segurar por um braço enquanto desfere uma rodada de voadoras no peito, Draco fica estanque quando Potter apela para o maior clichê possível da história do cinema fantasiesco: sem saída, ameaça fazer um discurso gigantesco contando toda a verdade sobre seus inimigos que eles nunca quiseram ouvir até aquele momento, e um dos cupinchas de Draco desperta um dragão de fogo que vai queimando a sala inteira.

Rony e Hermione surgem coincidentemente no mesmo momento, e, novamente, a solução do mundo mágico para se livrar das conseqüências de magias fora de controle é... picar a mula. Ou, no máximo, voar com uma vassoura fálica enfiada no meio das pernas, que provisoriamente estava ali do lado (como todos sabem que vassouras estão sempre ali do lado em salas secretas quando precisamos delas). harry_potter-fire_snake.jpgFugindo como palermas de um dragão de fogo (um DRAGÃO DE FOGO!!! ) que nunca os alcança, Harry resolve voltar para resgatar seu antigo rival Draco de ser queimado. Ora, que caralhos! Tudo isso para o filme não ter censura 18 anos por um churrasquinho de gato? Há um dragão de fogo, lerdo o quanto o CG quiser que ele seja, mas ainda uma porra de um dragão de fogo fungando no seu cangote, e você dá meia volta para resgatar seu... rival, logo depois de ele quase te entregar para seu arqui-inimigo só para não haver morte no filme?! É alguma moralidade, ou só medo de censura? É por isso que o mundo não vai pra frente: censura cinematográfica, tolerância cristã e Harry Potter!

Por fim, a horrenda batalha final: Voldemort solta um raio de sua varinha e Harry Potter... solta outro. Exatamente como sua professora contra Snape. Os dois se cruzam no meio do caminho. E fica aquela putaria de "oh, meu deus, como está difícil segurar com a firmeza necessária essa varinha, tão grossa e roliça que eu preciso fazer caras de dor como se ela estivesse sendo enterrada um quarto de metro em meu brioco adentro", seguida de caretas típicas de pornochancada com ex-modelos decaídas.

Mas espere. Já não vimos isso antes? É a mesma troca de bem ensaiados golpes de muay thai em filmes do Van Damme por "rasteiras" e "socos" mágicos, que já estragou hadoukens.jpgao bocejamento a batalha entre Gandalf e Saruman no filme d'O Senhor dos Anéis. Não é nada mais do que um duelo de hadoukens, tão sem graça quanto qualquer outro. Ao menos no videogame você é que controla o bonequinho. Tem alguma graça. Esse filme do Harry Potter termina com a mesma sensação de apreensão pelo final da luta que você tinha quando esperava sua vez de jogar enquanto dois outros assexuados se degladiavam no videogame. Toda a saga harrypotteriana termina exatamente antes do gap entre stop the punhetation e fuck the bucetation.

Sim, Voldemort morre porque matam a sua porra de cobra exatamente no mesmo momento da batalha, como tudo acontece exatamente assim nesse tipo insonso de filme. E todos vivem felizes para sempre. E com a mesma desesperada apreensão que meu desesperado leitor está para que esse artigo acabe logo, o filme ainda apresenta um caralho de epílogo, em que surge Harry com seu filho alguns anos depois, e o pentelho tem medo de ser escolhido pela Sonserina (a tal casa de magia de onde saem todos os caras do mal, e ao invés de apresentar alguma surpresa na trama por isso, desde o primeiro filme... bem, só tem caras do mal). Harry lembra que seu nome, Alvus Severus, tem homenagem tanto a Dumbledore quanto a Snape, que era da Sonserina e um dos homens mais corajosos que ele já viu.

Corajoso?! O que há de tão admirável em tentar comer a mãe de Potter e vê-la liberando todas as pregas para outro, tendo relações tão discutíveis com ela quanto Harry tem com Hermione, persegue-o e quase o entrega para seu pior inimigo, para só quando está praticamente morto fazer algum favor a Harry, e ainda merecer homenagem por isso?!

E ainda chamam quem não acredita em magia de trouxa!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Razões pra não ver Harry Potter: ele mata o Voldemort no final


Há algo de podre no reino de Hogwarts: acredito que tenha a ver com o roteiro. Para quem nunca viu um filme ("ler" já está incluso) de Harry Potter, mato o pouco que há de sua curiosidade: são todos uma bosta (ok, o final do terceiro é até interessante, mas sempre cagam no último momento). E, claro, Harry Potter mata seu inimigo peçonhento no final. E casa, tem filhos e todos vivem felizes para sempre - exceto a caralhada de gente que morre só para que ele não morra, mas ninguém liga pra isso.

Existe um problema em filmes e livros que são baseados no The Chosen One. É aquele cara que geralmente dá seu nome ao título da obra, e/ou é interpretado por um ator bonitinho que está em todos os cartazes promocionais e que você sabe que, mesmo que morra, ressuscita em no máximo três dias. É um roteiro mais manjado que filme de torneio de artes marciais mistas do Van Damme.

O Chosen One é um cara geralmente tonto, com experiência de vida tendendo ao zero absoluto, cujas capacidades de resolver um problema variando de uma lata de café que não abre até o enigma milenar do dragão dourado no fim da floresta maligna dos demônios da insanidade sepulcral são compatíveis às de um bebê nascido e é o cara que menos faz algo durante a trama - se muito uma repetição ad nauseam de no máximo 4 tipos distintos de caretas.

Mas ele é o Chosen One. Ele foi O Escolhinho. Há uma profecia milenar que diz que ele é o mais forte, poderoso, futuro líder de rebelião ou simplesmente que é filho de alguém importante - roteiristas são uma das raças mais nepotistas do planeta. O rol de exemplos é gritante: Matrix, Exterminador do Futuro, Star Wars, O Senhor dos Anéis, Excalibur, História Sem Fim, Kung Pow, Lula - Um Filho do Brasil. Todos filmes de alesmaiados inúteis que só empacam o roteiro (nunca muito mais complexo do que a busca de um objeto que desloca personagens do ponto A até o ponto B), mas são salvos milagrosamente no fim por uma força maior do que a capacidade deles em não serem panacas: a mão do roteirista.

harry_potter.jpgHarry Potter é um garoto virgem, molóide, com sérias tendências homossexuais, que sofre bullying, apanha em casa, não domina corretamente a complexa arte de acertar um horyuken nem com o outro bonequinho encostado na parede, nunca ouviu falar em alquimia, Aleister Crowley, LaVey, Paulo Coelho, também magia e meditação e coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. O estereótipo para o leitor-mirim se identificar com seu ídolo chega a doer nos ovários. Mas ele logo fica amigo de Hermione, menina gênia, estudiosa, engenhosa e polimétis, e que além de tudo é ruiva e logo será comível, ao contrário do nosso herói. Ela salvará a trupe de todas as enrascadas desde o primeiro filme. Mas não tem o seu nome na capa do livro. Não é uma personagem com quem um leitor dessa bodega possa se identificar.

Goblin ex machina

Na Poética de Aristóteles já há severas críticas ao uso do recurso deus ex machina para "salvar" a trama: o roteirista cria complicações e desafios para provocar suspense, seu personagem é algo de carisma e inteligência próximo ao de uma mula (só serve para tarados precisando de sexo sem capacidade de o conseguir com outro humano), e fazem um deus (ou força gigante) aparecer no último segundo, livrando o couro de seus heróis fracassados - não sem uma desculpa amarelenta como "eu comecei a desconfiar de vocês e vim lhes seguindo de fininho por estes canos de tubulação, viagens no tempo e lutas contra demônios, estava atrás da porta ouvindo toda a conversa e luta mortal e resolvi abri-la no último pentelhésimo de segundo só para salvar vocês, que eu nunca tinha ido com a cara, mesmo".

Todos os filmes de Harry Potter (até o único que tem uma idéia interessante no final) têm seu desfecho assim - com um professor-mago-foderoso-semi-deus (geralmente de escolas de magia rivais) abrindo a porta e salvando as criancinhas que estavam fazendo coisa errada escondidas exatamente deles. No caso harrypotteriano, há um problema maior: a magia.

Há, a rigor, duas formas de arte: a clássica e seu modelo de moral e violência quando injustiças (hybris) são cometidas, e a romântica, que traz tudo para dentro do indivíduo, seus sentimentos e seus sonhos. A magia serve para criar coisas ainda mais complexas em tramas do que nosso curto período de macaqueação barata da realidade do realismo.

É o que torna os roteiros da commedia dell'arte tão engraçados, com Arlecchino trocando os destinatários das poções que fazem com que alguém se apaixone pelo primeiro humanóide com que cruze (algo bem próximo das situações de absoluta falta de sexo na vida real dos leitores de Harry Potter), trazendo fins trágicos no caso de Tristan e Isolde. É o que torna o final de Stardust (a graphic novel, já fui alertado o suficiente para nunca ver o filme, e muito menos ver o filme antes da graphic novel) tão intenso, com tantas magias "rivais" acertando um único alvo.

bellatrix_bank.jpgMas Harry Potter, o filme, está se lixando para essas complexas questões de roteiro. Magia ali é apenas soltar raios da varinha - um substituto um tanto infantilóide para a punheta.

Logo no começo desse Relíquias da Morte parte 2, sua trupe, disfarçada ou invisível, entra em um banco para roubar uma das tais relíquias, no cofre de uma inimiga fodona, que vive de roupas góticas, tentando-se passar por ela. Desconfiados, os guardiões do banco (anões? goblins? elfos? duendes? figurantes em filmes da Gretchen?) pedem uma assinatura. A saída genial para a enrascada: Harry, invisível, pronuncia baixinho um dos nomes de feitiço em pseudo-latim para um dos guardas se "enfeitiçar". Magic: The Gathering e até Spellfire já tinham saídas mais complexas, e isso em suas primeiras edições.

Diga-se, o nome das magias vale um capítulo à parte. Temos:

  • Lumos! - Transforma sua varinha numa lanterna. Custa 3 pilhas.
  • Incendio! - O mesmo acima, mas custa a sua varinha.
  • Aquamenti! - Faz sua varinha soltar água feito um anjinho mijando.
  • Expecto Patronum! - Espanta o patrão, te permitindo alguns minutos livres no PornoTube.
  • Aresto Momentum! - É uma magia que todo funcionário público conhece bem.
  • Avada Kedavra! - Mata a criatura-alvo. Curiosamente, a magia é proibida, mas ninguém pensa em substitui-la por um revólver.
  • Animus Corpus! - Invoca um feriado. Também faz a toda-proibida magia acima ser de uma inutilidade atroz.
  • Expelliarmus! - Magia usada para curar prisão de ventre.

Ora, a magia foi inventada para nos tirar dessa realidade tão trouxa. De que adianta criar uma porra de um mundo onde se pode soltar fogo pelas ventas se o sistema de segurança de um banco mágico é putaqueopariumente mais cheio de brechas do que o de um banco comum? Custava ter uma caceta de porta giratória na entrada, que não permitiria ninguém entrando com uma capa de invisibilidade no cofre alheio?!

Claro, dentro de um carrinho de mina imitando montanha-russa para se chegar ao cofre (isso é mais segurança do que um sistema "mágico" que fuzile quem passe porta adentro sem ser chamado?), o alarme finalmente soa e eles são atirados de centenas metros de altura ao chão. Harry-Potter-Dragon.jpgCaem diante de um dragão, sabe-se lá Zeus fazendo o que ali. Um dragão amarrado misteriosamente guarda o caminho para o cofre (um atalho esquisito, se o caminho normal do carrinho seria lá por cima, mas quem liga para geografia? é tudo mágico!). Tais como cobras com guizos, o dragão não ataca ninguém se ouve um chocalho - mas aqui o chocalho causa dor ao dragão, burro demais para cuspir fogo em cima do chacoalhador e fazer o som parar. Uma varinhada na retaguarda de quem ainda não percebeu que Harry, o micróbio escolhido, nada sabia disso, mas um anão de jardim que o acompanha lhe explica... e acha uma porra de um chocalho bem ali do lado!

Já dentro do cofre, um atentado contra a paciência: um feitiço faz com que tudo em que se encoste se multiplique por dois. Um caso típico de bolha de inflação, além de um problema sério para quem está procurando algo em um cofre trancado. A solução? A solução é que Potter consegue encontrar a porra da relíquia mesmo sendo soterrado por objetos se multiplicando, e pode correr para a saída a salvo. O wait. Então é isso? Todo o feitiço (admito sua genilidade engenhosa menos chulé do que o resto) não impede que até uma mula como Harry Potter pegue o que procura... e todo o mundo mágico só é capaz de fazer com que Harry faça o mesmo que qualquer porcaria de filme de ação de Sessão da Tarde o faça, sem mágica, sem idéias geniais... simplesmente correndo contra o tempo?!

Seguem os clichês do "mundo mágico" de sempre: um mapa que permite ver onde Harry está (uau! que mundo mágico! imagine se inventam isso na vida real para um carros, e inclusive indiquem os nomes das ruas, que genial que seria?!), uma entrada secreta para a escola de Hogwarts, a essa altura tomada pela casa de magia rival Sonserina (tanta magia e nem para instalarem um sistema que impeça o velho truque barato de entrar pelo duto de ventilação e suas variações) e os velhos encontros de todos que finalmente conhecem Potter e exclamam ou cochicham: "Nossa, é Harry Potter!", como se ele fosse alguém minimamente interessante para servir de exemplo. Mais útil seria exclamar pela sorte de não ser o perfeito arquétipo de um otário.

Harry, I am your father

Com o terror comendo solto em Hogwarts, chega a hora de Harry, então foragido, se revelar diante de seu professor rival Snape. Disfarçado com o uniforme da casa com o símbolo do Corinthians, Harry tira o capuz e... inicia uma rebelião. Na casa rival. E até obtém ajuda de uma antiga professora. Ora, se tudo o que nosso grande herói faz é dizer: "Presente, professor!" e iniciar um motim, por que caralhos os sábios magos (wizard vem de wise, dona J. K. Rowling!) não se rebelaram contra o novo diretor do mal antes ?!

A batalha entre o diretor do mal e a professora boazinha não poderia ser mais original: cada um solta um raio de sua varinha que se entrecruzam no meio do caminho. Não foi a primeira vez que vimos isso. Não será a última.

snape vs mcgonagall.jpgEm questão de um minuto, todo o castelo da escola, desde então dominado pela casa de magia rival, passa a ser palco único dos revoltados com a tal casa de magia do mal, e a trupe de Voldermort, num acampamento a poucos metros dali, ameaça chegar até a escola. Seria uma idéia interessante de Voldemort tomar a escola de vez enquanto seus lacaios ainda são diretores, mas por alguma conjuntura esquisita do Destino, a única força cósmica do Universo com senso de humor, foi melhor esperar Harry Potter e mais uns 40 cupinchas seus tomarem o edifício e lá dentro se tornarem milhões (talvez pelo mesmo feitiço do cofre).

Após algumas novas magias que fazem o velho CG dos novos filmes servir para alguma coisa (tire isso e a trilha sonora e o filme não encantará nem a APAE), Potter tem novas visões sobre seu grande inimigo e o paradeiro do diretor traíra do mal que ele acabara de expulsar da escola. Fica uma dica para Harry: olhe para o rio fora da escola e veja um exército gigantesco de caras maus com roupas de neogóticos dos anos 2000. Descobriu onde estão Voldemort e o diretor Snape, gritando ali, liderando o exército? Ora, fica um pouco sem graça sem um "feitiço" e "visões", né?

Snape é traído e morto por Voldemort, e Harry, que sofreu sem eira nem beira nas mãos de Snape, obtém um presentinho de Snape após testemunhar Voldemort matá-lo (Harry se escondera do lado de trás de uma cortina): suas lágrimas, que lhe revelarão sobre o passado dos pais de Harry, que ele não conheceu. harry_potter_Snape's_Death...pngNova dica surpreendente: o fato de a mãe de Harry e Snape terem como animais símbolos uma gazela saltitante não é mera coincidência - sim, Snape era apaixonado pela mãe de Harry, não conseguiu comê-la o tempo todo, mas no fim, há uma explicação para Snape proteger mais Potter do que atacá-lo e ser tão parecido com sua mãe e ter como totem um animal símbolo de quem gosta de praticar a arte do alarga-anel. Alguém disse que isso é parecido demais com Star Wars?

Note-se também que nem Voldemort nem Snape têm magias para verificar se alguém está escondido atrás da pilastra. Até o Homem-Aranha tinha rastreadores decentes. Aliás, até a Bruxa Malvada da Branca de Neve conseguia ver onde ela estava com sua bola de cristal. Uma escola de magia inteira e ninguém pra sair do feudalismo cristão!

Hogwarts_Post-Battle.jpgO exército de Voldemort ataca o castelo de Hogwarts, e o único meio de acesso ao castelo é um caralho de uma ponte com sustentação de madeira (em um castelo de pedra). Obviamente que apenas UM aluno resolveu olhar para aquele lado do castelo quando percebeu que estavam sob ataque. É uma escola para "alunos especiais", diz-se. Sua idéia com nível Potter de genialidade? Ficar olhando com uma cara de bunda que parece que come papel higiênico na ponta da ponte. Alguém com QI maior do que o de um protozoário teria pensado imediatamente: "Vamos derrubar essa porra de ponte, que se tem sustentação de madeira, é por algum motivo!" - mas não se pode ter noções mínimas de engenharia, artilharia, guerrilha ou roteiro, porque o diretor perdeu essas aulas para poder brincar de Wicca na floresta cavalgando vassouras. Por que cacilda só quando o exército já está a meio caminho atravessado da ponte é que é legal derrubá-la e quase morrer no processo?! O Rambo fez melhor, cacete. Não me tire de casa para ver algo pior.

Hermione mata a cobra e mostra a varinha

Mais colóquios flácidos para acalentar bovinos e Harry percebe que uma parte de Voldemort vive dentro dele - por isso ele é capaz de falar com cobras (alguém aí não tinha percebido isso já no filme 2?). Se Voldemort precisa morrer, ele vai dar um chupão no mamilo do Capeta junto. Harry aceita o duelo final: está pronto para dar a vida e nos livrar dessa tortura. O espectador agradece e o manda pro abate.

Aparecendo diante de Voldemort (interpretado por Ralph Fiennes, que, é o pior dos melhores atores da atualidade), Harry toma um Avada Kedavra na moringa pronunciado com a mesma emoção de quem acaba de tirar a moréia da caverna depois de 2 semanas de prisão de ventre. É isso, Harry morre.

...e acorda num ambiente todo branco típico de espiritismo kardecista "do outro lado", tem papos-cabeça a la Engenheiros do Hawaii com seu antigo professor morto Dumbledore (rola até um meio plágio de Slayer, só faltando dizer: "Before you see the light, you must die") e Harry... volta a vida e se finge de morto. Tão mágico quanto o Guru do Gugu.

hermione.jpgVoldemort e seu bando tomam a escola, enquanto Hermione tenta matar a cobra de Voldemort - descobrira ela que era a última das horcrux (pedaços da alma de Voldemort) que faltavam para todos viverem felizes para sempre. Hermione vem salvar o roteiro duplamente: primeiro, sendo a única pessoa em toda a "escola de sábios mágicos" com QI acima de 70, e segundo, ficando com peitinhos (coisa a qual Harry não é chegado). No Relíquias da Morte - parte 1 , seu namorado ruivo Rony Weasley, iniciador de Harry Potter no troca-troca, não deixa de ter um sonho psicanálico com Hermione liberando a racha para Harry, que ele sempre considerou muito melhor do que ele próprio e morre de medo de tomar a sua namorada - medo esse que não se concretiza pela consabida preferência sexual de Harry por agasalhar trosobas hirsutas de porte escandinavo com as 3 pregas que lhe restam.

(não que isso salve o roteiro de todo: logo após fugirem do banco cavalgando um dragão, Harry, Rony e Hermione trocam de roupa após se jogarem num lago; os dois branquelos tiram a camisa e mostram as vergonhas ao incréu telespectador, enquanto Hermione apenas... pega mais roupas para se cobrir)

Enquanto isso, Harry novamente faz a revelação surpreendente de estar vivo, desta vez na frente de seu arqui-inimigo Voldemort e todo o seu séquito reunido, o que é algo próximo da arquibancada geral do itaquerão. Voldemort só é seu arqui-inimigo porque a dona J. K. Rowling o quis, pois Potter é tão imprestável quanto uma varinha curta que ainda não faz mágica alguma. Despita Voldemort de novo com algo que só um mundo de magia e leis físicas mais interessantes do que a chatice newtoniana que só nos fez perder horas de fliperama na adolescência poderiam fazer: sair correndo. Mais um recurso genial de roteito e de criação de situações impensáveis sem um mundo mágico.

Despitando toda a goticaiada, Harry é encontrado por seu rival loiro amofadinha Draco Malfoy, como se um adolescente punheteiro soubesse pra que lugar Harry correria mais do que professores com séculos de idade. Ao invés de algemar Potter ou, estando em maior número no momento, pedir para cada um de seus comparsas segurar por um braço enquanto desfere uma rodada de voadoras no peito, Draco fica estanque quando Potter apela para o maior clichê possível da história do cinema fantasiesco: sem saída, ameaça fazer um discurso gigantesco contando toda a verdade sobre seus inimigos que eles nunca quiseram ouvir até aquele momento, e um dos cupinchas de Draco desperta um dragão de fogo que vai queimando a sala inteira.

Rony e Hermione surgem coincidentemente no mesmo momento, e, novamente, a solução do mundo mágico para se livrar das conseqüências de magias fora de controle é... picar a mula. Ou, no máximo, voar com uma vassoura fálica enfiada no meio das pernas, que provisoriamente estava ali do lado (como todos sabem que vassouras estão sempre ali do lado em salas secretas quando precisamos delas). harry_potter-fire_snake.jpgFugindo como palermas de um dragão de fogo (um DRAGÃO DE FOGO!!! ) que nunca os alcança, Harry resolve voltar para resgatar seu antigo rival Draco de ser queimado. Ora, que caralhos! Tudo isso para o filme não ter censura 18 anos por um churrasquinho de gato? Há um dragão de fogo, lerdo o quanto o CG quiser que ele seja, mas ainda uma porra de um dragão de fogo fungando no seu cangote, e você dá meia volta para resgatar seu... rival, logo depois de ele quase te entregar para seu arqui-inimigo só para não haver morte no filme?! É alguma moralidade, ou só medo de censura? É por isso que o mundo não vai pra frente: censura cinematográfica, tolerância cristã e Harry Potter!

Por fim, a horrenda batalha final: Voldemort solta um raio de sua varinha e Harry Potter... solta outro. Exatamente como sua professora contra Snape. Os dois se cruzam no meio do caminho. E fica aquela putaria de "oh, meu deus, como está difícil segurar com a firmeza necessária essa varinha, tão grossa e roliça que eu preciso fazer caras de dor como se ela estivesse sendo enterrada um quarto de metro em meu brioco adentro", seguida de caretas típicas de pornochancada com ex-modelos decaídas.

Mas espere. Já não vimos isso antes? É a mesma troca de bem ensaiados golpes de muay thai em filmes do Van Damme por "rasteiras" e "socos" mágicos, que já estragou hadoukens.jpgao bocejamento a batalha entre Gandalf e Saruman no filme d'O Senhor dos Anéis. Não é nada mais do que um duelo de hadoukens, tão sem graça quanto qualquer outro. Ao menos no videogame você é que controla o bonequinho. Tem alguma graça. Esse filme do Harry Potter termina com a mesma sensação de apreensão pelo final da luta que você tinha quando esperava sua vez de jogar enquanto dois outros assexuados se degladiavam no videogame. Toda a saga harrypotteriana termina exatamente antes do gap entre stop the punhetation e fuck the bucetation.

Sim, Voldemort morre porque matam a sua porra de cobra exatamente no mesmo momento da batalha, como tudo acontece exatamente assim nesse tipo insonso de filme. E todos vivem felizes para sempre. E com a mesma desesperada apreensão que meu desesperado leitor está para que esse artigo acabe logo, o filme ainda apresenta um caralho de epílogo, em que surge Harry com seu filho alguns anos depois, e o pentelho tem medo de ser escolhido pela Sonserina (a tal casa de magia de onde saem todos os caras do mal, e ao invés de apresentar alguma surpresa na trama por isso, desde o primeiro filme... bem, só tem caras do mal). Harry lembra que seu nome, Alvus Severus, tem homenagem tanto a Dumbledore quanto a Snape, que era da Sonserina e um dos homens mais corajosos que ele já viu.

Corajoso?! O que há de tão admirável em tentar comer a mãe de Potter e vê-la liberando todas as pregas para outro, tendo relações tão discutíveis com ela quanto Harry tem com Hermione, persegue-o e quase o entrega para seu pior inimigo, para só quando está praticamente morto fazer algum favor a Harry, e ainda merecer homenagem por isso?!

E ainda chamam quem não acredita em magia de trouxa!