quarta-feira, 29 de junho de 2011

Chico Buarque e as piores rimas de todos os tempos

"O que explica o sucesso de muitas obras é a relação ali encontrada entre a mediocridade das idéias do autor e a mediocridade das idéias do público." - Sébastien-Roch Chamfort

Na página 56 da VEJA dessa semana, seção Sobe e Desce, está lá que uma música nova de Chico Buarque (aquele cara cuja mais recente melhor música é de 68) "traz o pior verso da MPB". Em um verso da canção nova, Chico Buarque rima sacrifício com mulher sem orifício:

chico buarque olhos azuis.jpgA gama de sentidos de "Amar uma mulher sem orifício" vai de "cultivar um amor platônico" a "desejar uma mulher frígida". Alguma coisa por aí. Mas havia um desafio a vencer, para além de fazer sentido. Dois versos atrás, encontra-se a palavra "sacrifício". E esses poetas, o que eles não fazem por uma rima... Lá se foram as vergonhas da moça, e surgiu essa aflitiva "mulher sem orifício". Pô, Chico. Não podia ser só uma "mulher difícil"?

Mas... "pior rima da MPB"? Nada mais injusto com o "poeta" e "melhor letrista da música brasileira": Chico Buarque já fez piores. Sempre tem a desculpa de "ele é o Chico e tem olhos azuis; logo, ele pode". Apenas acho que poderia ter rimado sacrifício com ício-ício-ício. Ele é o Chico. Ele tem olhos azuis. Ele pode.

Mas apresento aqui uma compilação mais científica:

As piores rimas de todos os tempos

10. Gilberto Gil - Buda Nagô

"Filho da casa re-al da inspiração
Como príncipe, principiou
A nova idade de ouro da canção
Mas um dia Xan-gô"

Carl Sagan seria capaz de defender a Inquisição ouvindo isso. Dizem que Gilberto Gil como ministro foi um ótimo músico. Espero que ao menos fosse um músico melhor do que ele próprio. Essa mania de se preocupar apenas com uma única vogal tônica e ignorar até mesmo as outras vogais da palavra (nem pra uma rima toante serve) é prova de neurônios que se foram quando um beija-flor levou junto o seu amor e foi foi embora.

Que tal tentar rimar principiou com Xangou? Pode dar um caráter meio sino à letra, é étnico e tal. Tudo muito contra-cultural.

Mas o que se deve esperar de alguém que coloca as palavras finais das estrofes separando as sílabas na letra de uma música? Essa é apenas uma demonstração, todo o conjunto desta canção não merece mais do que um linchamento público por uma milícia armada de gatos mortos, depois de começar da maravilhosa maneira:

"Dorival é ím-par
Dorival é par
Dorival é ter-ra
Dorival é mar"
(sic)

9. Victor e Léo - Borboletas

"Não sei dizer o que mudou
Mas, nada está igual
Numa noite estranha
a gente se estranha
e fica mal"

Pois bem, isso é uma rima interna, mas será mesmo que a capacidade de entendimento de sons desses sertanojos, embriagos por rimas de infinitivos feitas apenas com vogais tônicas, regrediu a ponto de pensarem que podem rimar a mesma palavra só por mudar sua categoria morfológica?

E pensar que houve épocas em que se considerou que João Soares Coelho iria vulgarizar os jovens, pelos seus versos belos e perfeitos em técnica:

"Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
Que já nom pode sol cuspir a saíva
E, de pram, semelha mais morta ca viva,
E, se lh' ardess' a casa, nom s'ergeria.
Par Deus, Luzia Sanches, Dona Luzia,
Se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia."

8. a) Raimundos - Pequena Raimunda

"Shit, shit pequena Raimunda
Bunda de sonho a cara é um pesadelo
Shit, shit pequena Raimunda
Parece até a namorada do Telo"

Rodolfo, no auge do consumo de maconha e Charlie Brown Jr. (para provar de vez que certas drogas precisam ser proibidas, por questão de saúde mental pública e manutenção da taxa mundial de neurônios), além de demonstrar um péssimo gosto típico de sua banda, mas sem um pingo da graça dos primórdios, força a barra com elegantíssimos "merda" em língua inglesa, apresentando uma "rima" estroncha que tenta fazer com que um e fechado possa rimar com um aberto.

Para piorar, o que diabos o mundo inteiro (tendo sido o álbum produzido no deserto do Arizona) tem de saber da namorada de um amigo da banda que atende pelo nome de "Telo"? Já não basta a pobre coitada ter de namorar um estrupício destes?!


8. b) Chico Buarque (ele!) - Meu Caro Amigo

"Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

Aqui vale o mesmo que para os Raimundos (sim, o melhor poeta da música brasileira é pior do que Raimundos). Com a diferença de que os Raimundos são tontos, pero no sacanas: tacam um "pesadelo" do lado de "Telo" que só visualmente rimam. E pronunciam assim mesmo. Agora vai lá o Chicão e piora as coisas: pronuncia a expressão inglesa rock'n'roll como se fosse "roquenróu", assim, com acento agudo.

Como se não bastasse o cidadão não entender porra nenhuma de Pink Floyd e ao se deparar com uma partitura do King Crimson não saber nem por que corda começar (então o que caralhos quer falar que tem de rock'n'roll no Rio de Janeiro, o túmulo do roquenróui?!), ainda quer mudar uma pronúncia inglesa. Assim, por antropofagia. Contra-cultura e tal.

Chico Buarque, Bon Scott te despreza.


7. Legião Urbana - Faroeste Caboclo

"E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV"

Afora as carradas de contradições e estultícias que esta letra apresenta às mancheias, temos mais um exemplo do que é um ser tão poético que, enquanto trovadores tr00 estão preocupados em criar rimas com a contaminação da nasalação de uma vogal pela consoante procedente advinda do sufixo de um tempo verbal, esses pascácios fazem sucesso com apenas, novamente, a vogal tônica, dessa vez, a ponto de rimar uma palavra e nem sequer escrever a porra da vogal.

Logo alguma nova fuleira barbuda pra aborrescente em rodinha de violão vai perceber como é cult rimar H com cagar.


6. Tati Quebra-Barraco - Fogão Dako

"Dako é bom!
Dako é bom!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!"

Urge falar de Tati Quebra-Barraco? Isso é uma rima imperfeita e... bem, estamos lidando com o ápice da decadência do Ocidente. Próxima.


5. Charlie Brown Jr. - Gimme o Anel

"Do you wanna gimme girl?
Do you wanna gimme o anel?
Do you wanna gimme girl?
Do you wanna go pro motel?"

Chorão é um poeta, apesar de tudo. Acabei fazendo o rapaz subir uma posição porque, afinal, a música é escrota, um elogio á nossa canalhice e estupidicação ocidental (Gasset bem que avisou, mas geralmente só prestam atenção em verdadeiros arautos como Malthus, Nietzsche e Flavio Morgenstern cerca de 3 séculos depois de suas análises).

Ademais, Chorão é feio que só o cão. E tem apelido de viado. Se se acha tão pegador, só pode ser pela fama, poder e grana. Porém, sobra-lhe escopo para bancar o pseudo-pobre da MTV: "Eu tive um dia dificil / Dinheiro voce ja tem / Eu te ofereço meu missil".


4. Seu Jorge - Burguesinha

"Burguesinha
Do croassaint
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Suquinho de maçã"

WTF?!?!?!


3. Caetano Veloso - A Luz de Tieta

"Êta!
Êta, êta, êta
É a lua, é o sol é a luz de tiêta
Êta, êta!... (2x)"

Espere um minuto, acho que tenho de retirar o que afirmei sobre a TV do Renato Russo...

Êta vida besta, meu deus. E, novamente, com certas divisõezinhas rítmicas na letra, incluindo refrão com marquinha de loop. E pensar que já vi neguinho dizer que Caetano é tão genial quanto Bach, criador da escala ocidental... É tão genial quanto torcida de futebol gritando: "or, or, or! Queremos jogador!".

Contudo, este atentado à humanidade não leva a prata da casa por já ter rendido uma inesquecível paródia. Quando Celso Pitta disputava a prefeitura paulistana com Luiza Erundina, o Casseta & Planeta, copiando a melodia, soltou um excelente prognóstico:

"Pitta!
ita, ita, ita
Ele pensa que é ele mas é o Maluf que apita
ita, ita...

Erunda!
unda, unda, unda
Ela é feia de cara mas é boa de urna
unda, unda..."



2. Legião Urbana - Faroeste Caboclo (de novo)

"Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina"

Em meio a uma inversão da prosódia que faria Camões se suicidar numa caixa d'água, eis que Russo surge com uma das piores rimas de toda a história da língua portuguesa, última flor do Lácio, bela e inculta!

Armar rima tão bem com Planaltina quanto rima com Bolívia, perdida na mesma frase. É pra obrigar o seu autor a engolir uma caixa de cotonete usado, um a um!! Será que alguém é capaz de pronunciar Planaltina de modo a que rime com maracujá?!


1. Latino - Amigo Fura Olho

"Amigo...é uma loucura
Tô vivendo uma aventura castigada pelo amor
Um labirinto sem saída
Onde o medo se converte em tanta dor
Vivo um triângulo"

Meu sagrado caralho, a de Russo era apenas uma vogal tônica oxítona forçando a barra com uma paroxítona, não com uma porra duma proparoxítona!

É tão inacreditável que não dá pra ler isso e entender. Só mesmo ouvindo a música (Lasciate ogne speranza, voi che clicate) para entender a pronúncia que faz com que amor e dor (como se não bastasse, a rima mais óbvia de toda a lingua) com triangu.

(bônus: no começo da "canção", o inconfundível Latino rima o "nome" de seu parceiro, Daddy Kall, com capitão musical [?!]. Como o próprio diz, "essa é pra pensar".)

terça-feira, 7 de junho de 2011

É tudo culpa do aquecimento global.

Sou um ecologista radical. Não basta ser vegan, boicotar sacolas de plástico, fumar folhas naturais, trocar o papel higiênico por folhas de bananeira, reciclar os ursos panda e praticar fotossíntese nas horas vagas - temos de fazer a dança da chuva e invocar uma nova era glacial. E isso nem carta de Magic resolve no próximo turno.

Repetiria teclas já batidas por outros se falasse do padrão de vida dos nórdicos. A esquerda diz que é graças ao Welfare State e vota no Lula por isso. A direita acha que é por causa do Cristianismo e lê Weber. Eu digo que é tudo culpa do clima.

Quando foi a última vez que você acordou sob um sol de 50º cozinhando seus neurônios e conseguiu sentar-se abaixo de uma árvore, ler Hawking, Greimas ou a Escola de Frankfurt e calmamente entender o texto, como se nada atrapalhasse sua aquisição de conhecimento, antes que uma maçã acertasse sua cabeça?

A filosofia só pode ter nascido no Inverno. Tudo o que o calor nos legou foi monoteísmo e pernilongos.

frio interior.jpgNão é possível pensar no Verão. É por isso que propaganda de cerveja, no Brasil, sempre fala de Carnaval, praia e vagabunda semi-nua. Enquanto a Polônia exporta cérebros, nós exportamos bunda. O frio, além de priorizar a mente - pois as escolhas pelo sexo oposto são feitas visualmente por estilo de roupas, e não só pela sua pouca quantidade - é mais charmoso. Ou você conhece alguém que não ache cool (!) soltar fumaça visível pela boca sem precisar fumar?!

É por isso que nosso povo se reproduz como baratas, sobretudo em estados de clima quente. Primus, porque apesar de sexo produzir ainda mais calor, as pouca-vergonhas do próximo estão sempre à mostra. Secundus, se não é possível pensar no calor, como fazer o tempo passar, senão com a putaria?!

Sendo o maior neomalthusiano vivo deste planeta, lembro imediatamente que o planeta esquenta pela típica moral cristã-capitalista do "Crescei-vos e multiplicai-vos". Vá lá que o aquecimento global já era problema no período jurássico, com bichos gigantes que peidavam como se não houvesse amanhã, mas o mais fácil é ver gente culpando os EUA pelo aquecimento global. Difícil é ver que a culpa é nossa.

alqaeda.jpgO caso mais óbvio é o do canudo: qualquer copo limpo que te dão vem com canudo. Culpa das empresas? Veja o que acontece quando o funcionário do mês entrega um copo sem canudo para alguém. Nunca vi alguém passar batido e não pedir o dito cujo. Plástico gratuito que não serve pra nada. São as mesmas pessoas que, depois, votarão no Obama e são contra a Guerra do Iraque. Cada canudo representa a sanha por petróleo, mais um iraquiano morto. Sem canudos, não precisamos de Iraque, e poderíamos tê-lo deixado pacificamente nas mãos de Saddam Hussein.

Há também um esforço para a segurança e a saúde que todo político quer tomar para si em seus discursos. Tolice. A culpa é do calor. A saúde na Noruega é exemplar? Também, imagine que mosquito da dengue e caramujo pestilento está por lá!

Mas já que as pessoas só se mobilizam por algo quando a coisa as afeta diretamente, falemos da segurança. O Brasil é um país violento? É porque ele é quente. Há assaltos e assassinatos? Culpa do calor! Pegue alguém que já foi assaltado mais de 5 vezes e pergunte pra ele se estava um frio de rachar e/ou chovendo no momento. Ladrão é tudo vagabundo, e por ser brasileiro, quer viver num mundo de propaganda de cerveja. Nada de pegar no batente se tiver muito frio ou tiver de se queimar!

O calor do sol gera a violência. Desde as moléculas praticando porradaria em vale-tudo até na literatura. Raskolnikov estava em Moscou, mas reclamava da caliça do verão quando matou a velha usurária ("Limpeza como essa é coisa de velhas más"), assim como o protagonista d'O Estrangeiro, de Camus, dá a melhor resposta (uma das mais belas frases da Literatura Universal) quando perguntado por que matou um árabe: "Por causa do Sol". (releiam o livro e me digam: se a porra do sol não estivesse queimando, como diabos o árabe poderia levar os 5 tiros de sua arma?!)

Como prova final disso, digo que moro em um bairro perigoso, preciso atravessar uma linha do trem perto de uma favela para ir para qualquer lugar nessa cidade que julga ter algo de Primeiro Mundo. Já quase fui assaltado pelo mesmo cara 2 vezes no caminho até a faculdade. Sorte que sou estudante de Letras e, apesar de neoliberal, posso passar por sem-terra facilmente quando não faço a barba por 2 dias.

frio caminho.jpgHoje, saindo mais tarde do que o costume para ir jantar, percebi que o clima podia ser descrito como o parágrafo inicial de qualquer livro de Sidney Sheldon: "Era uma noite muito escura e fria, as nuvens faziam a chuva cair sem parar..." Como ainda não chovia quando saí de casa, releguei o guarda-chuva, que nunca gostei de usar. Apesar da escuridão maior no caminho, não dei de encontro com vivalma, pela primeira vez em toda a história de convivência com vagabundos traiçoeiros nas redondezas.

Sorte? Unilateridade? Começou a chover a cântaros, e sem guarda-chuva, despiciendo fazer notar que cheguei em casa mais molhado que a precheca da Silvia Saint quando pegava no batente. E, pra todos viverem felizes para sempre, cheguei em casa sem vontade de matar nenhum árabe e nenhuma velhinha!

Parem de usar canudinho. Nossos árabes agradecem.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Feminismo: a sedução do signo

Certa manhã, enquanto dividia minha atenção entre uma partida de poker online, um cappuccino empelotado e o glorioso ensaio filosófico da Letícia Birkheuer na Playboy, uma discussão na comunidade da USP do orkut me chamou a atenção: segundo um dos discursantes, o que pode ser chamado no espectro político de "direita" é um termo relativo, estando sempre em oposição à "esquerda". Para o cidadão, tudo depende da composição que se tem em um país. Assim, alguém de direita pode ser de esquerda, sob outro ponto de vista. Ou não. Desta forma, poderia-se definir se um caboclo é de direita ou de esquerda por algo como sua defesa da pena de morte, e justamente por essa bandeira ter sido ora de um lado, ora de outro, isso os tornaria "relativos".

isso tudo porque "o signo é arbitrário".

Imediatamente larguei a partida de poker, mesmo com um Ás e uma Rainha em mãos, cuspi o cappuccino e, bom, deixei o ensaio filosófico da Birkheuer por perto para casos de necessidade.

Estava plenamente acostumado, por anos de discussões inúteis na internet, a lidar com este tipo ignóbil de falácia, em que se tenta classificar de estro próprio o que é um lado e o que é outro, podendo-se a qualquer momento (via de regra quando se está ridiculamente perto de se perder uma discussão) subverter as regras e inverter as proposições ao bel prazer do autor. Com tal técnica, pode-se defender até o nazismo, e alegar que as câmaras de gás não eram bem uma coisa nazista, pois isso é relativo (não seria preciso criar campos de concentração depois que todos os judeus já estivessem mortos, por exemplo). O que havia de novo é que o reclamante em questão citava ninguém menos do que Saussure para justificar seu método.

saussure.jpgA lingüística, por séculos, não foi muito além das questões históricas envolvendo o desenvolvimento das palavras dentro das línguas, com disciplinas como a filologia e a etimologia (que, por razões políticas, foram simplesmente limadas do curso de Letras, nowadays). Foi o mestre suiço Ferdinand de Saussure (1857-1913) quem lhe deu novo estatuto científico, propondo um objeto específico de estudo (a língua, ou lange, em posição à palavra), tendo cunhado justamente por isso a frase "O ponto de vista cria o objeto".

Para Saussure, um signo lingüístico não possui significado por si, mas sim em oposição a outros signos. Quando se diz "alface", nitidamente não se quererá ter dito "abobrinha", nem "trator" e nem "Nicolau dos Santos Neto".

Desenvolvendo essa idéia, Saussure determina que os signos são arbitrários, ou, em outras palavras, ao contrário do que se fazia pensar anteriormente, o significado do signo não possui correlação alguma com o seu significante (com os sons que são produzidos para expor um conceito). Assim, uma mesa não precisa ser parecida com a palavra "mesa" (mesmo porque pode ser completamente diferente em outra língua), assim como a expressão "puta que me pariu, caralho!" não costuma ter como significado a própria mãe do falante (mãe esta que cobra por sexo), seguida de uma genitália masculina hirta e com veias piscantes no vocativo.

Simples, no mamita? Seria, se alguém entendesse o que disso se deduz.

Meu herói, taxonomia não dói.

Quando um novo conceito surge por determinada circunstância histórica, é comum se criar uma nova palavra para exprimi-lo, geralmente usando o próprio léxico da língua. Vai ser difícil uma palavra como mzenski pegar para exprimir um novo conceito em português, enquanto seria bem comum em russo. Algumas regras também devem ser observadas: sufixos como pre- ou pos- possuem uma carga de sentido própria que não prescinde da temporalidade.

O problema é que nem sempre usam essas palavras que, mesmo sem ser necessário pesquisar a fundo o contexto de sua gênese, ainda assim pode-se auferir seu significado. Kakuzo Okakura, ao tentar explicitar em inglês o que significava a cerimônia do chá na sociedade japonesa para um Ocidente que ainda não entendia lhufas de Oriente, usou o neologismo "chaísmo" (teaism) para definir que há uma verdadeira cultura por detrás apenas do chá, uma verdadeira defesa de um ideal naquela cerimônia, embora ainda não constituísse uma religião à parte. O termo não pegou, mas ninguém precisa procurar um dicionário para tentar descobrir seu significado. Mas e quando a Revolução Francesa criou os termos "direita" e "esquerda"?

Os termos, no caso, dizem respeito a uma divisão funcional, e não ideológica, de quem lutava para manter privilégios antigos e quem buscava novos direitos nas Assembléias dos Estados Gerais. A sua carga ideológica veio posteriormente. Não é à toa que não havia como classificar ideologias anteriores à Revolução como "de direita" ou "de esquerda" (Maquiavel, que em sua época foi um empedernido defensor do regime, foi muito mais útil à esquerda do que a direita, por exemplo). Também não é à toa que a maioria dos bons pensadores desse tempo não se identificaram muito bem nem com um lado, nem com outro.

esquerda-direita.jpgMas é bem aqui que a porca de Saussure começa a torcer o rabo. Os termos usados, direita e esquerda, dão a impressão de serem apenas isso: o lado "da direita" e o lado "da esquerda" de um Congresso, onde se discutem temas políticos. Assim, onde houver discussão política, fatalmente haveria uma "esquerda" e uma "direita". Como se, nessa mesma época, houvesse xoguns de direita contra samurais de esquerda, ou sultões de direita contra califas de esquerda. Como se Cícero fosse de esquerda, e César fosse de direita.

Isso é derivado de algo que chamaria de crença no significante . Quando se dá de cara com um significante novo, ou, pior ainda, um signficante antigo usado em novo contexto, a tendência é aferrar-se ao seguro terreno do já conhecido e tentar atribuir significado ao signo baseando-se no que já se conhece do significante.

Se toda sala possui um lado "direito" e um "esquerdo", parece claro que numa sala de discussão política sempre haverá uma direita e uma esquerda. Se há uma ideologia política criada nessa mesma época que, através do sufixmo -ismo (bastante adequado a ideologias), foi chamada "conservadorismo", basta que o intelectual de extrema-Humanas que não faz idéia de quem sejam as pessoas conservadoras, e muito menos o que elas defendam, apenas conclua: "quem defende o conservadorismo é quem quer conservar a sociedade" - o que nos deixaria numa esquizofrênica situação se um conservador subisse ao poder logo após uma grande revolução, pois o conservador, automaticamente, teria de ser um "revolucionário" para colocar tudo da forma como prentede colocar.

O próprio termo statu quo (e não status quo, como costuma ser erroneamente usado) reflete essa pendenga: faz parte da expressão in statu quo [ante], ou seja, o estado em que as coisas estavam antes de uma grande catástrofe (peste, guerra, fome et cætera). Hoje, quem defende o statu quo é quem... quer manter o estado presente, não o passado.

Russell_Kirk.jpgAssim, a arbitrariedade do signo de Saussure vai pro caralho. O significado deixa de ser completamente independente do significante, passando a ser apenas um derivado deste. Isso é bastante comum com termos criados para se defender uma idéia usando-se mecanismos já existentes em uma língua, como o sufixo -ismo e sua carga de sentido própria do exemplo. Aferra-se ao que já se sabe, e força-se um significado que o novo conceito, que apenas escolheu uma palavra do léxico para representá-lo, não tem (o conservadorismo, por exemplo, poderia se chamar moralizantismo, e toda a patranha de "conservador é quem conserva" cairia por terra, sem mudar uma vírgula no conceito).

Por isso é doloroso ver um estudante da USP defender que os conceitos mudam ao (seu) bel-prazer porque são arbitrários. Arbitrário diz respeito justamente a depender apenas da vontade do proferidor para significar o que significa. Justamente por isso, não podemos trocar o significado dos signos já devidamente catalogados, apenas para facilitar nossas colocações ideológicas sobre eles (basta pensar na palhaçada que o termo "liberal" gera no Brasil).

Não é senão por isso é importante ainda trabalharmos com taxonomia, ou seja, termos uma lista de palavras (um dicionário) em que elas possam significar a mesma coisa tanto para o falante quanto para o ouvinte. Do contrário, os profissionais da comunicação serão os primeiros a misturar alhos com caralhos e nunca mais permitir a comunicação clara e sem ruídos de uma idéia pelo espaço entre uma boca e uma orelha.

A religião (e a falta dela) também sofrem

A mesma muafa se dá entre os termos "ateu" e "agnóstico". Na visão de bípedes comuns, ateu é o caboclo que não acredita em Deus. Agnóstico, o que não sabe se existe, então se comporta como um ateu, sem afirmar nem negar nada.

Porém, se queremos discutir filosofia bonito, vejamos a escorregada que está por trás desses termos: agnóstico diz respeito à possibilidade de conhecimento (usado basicamente, óbvio, a respeito de religião). Ateu já diz respeito ao caboclo "negar" a existência de Deus (afinal, não acreditar e "negar", nesse caso, praticamente se confundem). O termo "agnóstico" foi cunhado pelo biólogo Thomas H. Huxley, baseando-se em Hume e Kant.

ateus.jpegIsso nos deixa numa situação curiosa: em termos fiosóficos (que nada têm a ver com os termos correntes usados por aí), dá pra ser um ateu agnóstico (aquele que não acredita em Deus, porque não, digamos, "consegue" acreditar, dada a falta de evidências), ou um ateu "gnóstico" (aquele que julga ser possível ter algum conhecimento sobre a Providência, mas também julga que há "provas" da inexistência de Deus). O mesmo, aliás, se daria com o homem de fé: há quem julgue que seja possível obter conhecimento a respeito de Deus (como Santo Agostinho, São Tomás e toda essa ala da patrística/escolástica/espiritualismo que vai resultar num Olavo de Carvalho, René Guénon e derivados) e aqueles que julgam que, no fim, é tudo matéria de fé (por exemplo, um Kierkegaard, cuja dialética só como último ato coloca Deus como "solução" do problema do desespero).

Mas aí há um problema. Não podemos usar palavras com o seu sentido etimológico achando que dá pra se livrar de sua carga histórica, e do que significou historicamente. "Gnósticos", por exemplo, foram caras que julgaram que dava para o homem ter total conhecimento a respeito do divino e encaminhar sua existência por si. Foram seitas hereges, e também algumas sociedades que existem até hoje (como os maçons). Nesse caso, por exemplo, poderíamos considerar os marxistas "gnósticos", porque julgam ter um método que defina o que devem saber do divino (ou seja, que é uma fábula de controle social) e de como se dá tudo na Terra (e assim explicam desde a literatura até a psicologia pelo método do materialismo histórico dialético).

Fica então complicado dizer que um indivíduo ateu ou cristão que julga possuir informações sólidas para sustentar suas convicções seja "gnóstico", já que estes, apesar da etimologia, são um grupo bem definido e diferenciado dos outros.

O complicado da linguagem filosófica é esse: não dá para pegar uma palavra com sentido X e querer que ela só tenha esse sentido X, porque ela pode já ter sido usada por um grupo Y e, assim, além de X, ela vai também significar Y a contragosto.

É bem por isso que geralmente se considera que todo agnóstico um ateu ainda no armário: eles se comportam como ateus, concordam com as mesmas coisas que ateus, acreditam e seguem os mesmos princípios de ateus. Mas um está preocupado com a possibilidade de conhecimento, o outro já acha que é possível possuí-lo, mas chegou à mesma conclusão anterior: não há algo além da matéria bruta.

Feminismo não significa "defender mulheres".

Exatamente por essa ideologia na formulação dos significados é que alguns signos são feitos maneira muito mais efetiva do que outros, conseguindo fazer pegar um significado praticamente tão somente pelo significante, deixando Saussure de cabelos em pé.

Não há melhor exemplo do que o termo feminismo. Um termo que só pode ter sido criado por um Washington Olivetto da lexicologia.

marxismo feminismo.jpgA idéia do feminismo é uma idéia de aplicação do marxismo em um novo âmbito: se o barbudão dizia haverem "classes sociais" que estavam "em luta", algumas pensadoras (na verdade, não só mulheres) concluíram que a desigualdade de gênero em uma sociedade marcada pelos privilégios masculinos poderia ser interpretada como essa mesma luta - não mais de "classes socias", mas entre os gêneros.

feminismo-marxista.jpgA despeito de muita água ter corrido por este moinho e de fato várias conquistas terem sido obtidas para as mulheres como um todo, não é possível dissociar o termo de seu caráter marxista. Não existem feministas que não sejam marxistas. Não existem feministas contrárias à idéia de uma luta travada entre os gêneros (feministas que se opuseram a essa idéia, como Camille Paglia e Christina Sommers, foram escorraçadas a pontapés do movimento). Outras importantes pensadoras das novas conquistas das mulheres na sociedade, mesmo em questões de sexualidade, que não fossem rigorosamente marxistas, como Ayn Rand e Martha Nussbaum, nunca foram consideradas feministas, por não estarem bradando contra o macho branco ocidental (como diriam os discípulos de Derrida), megafone em uma mão e barbeador na outra.

O problema está no significante. A idéia é que qualquer defesa da mulher, da "fêmea", é feminismo. Não é. Se assim o fosse, as críticas da Igreja Católica ao apedrejamento de mulheres no irã, mutilações e deformações com óleo seria feminismo. Alguém considera a Igreja Católica feminista? Nem eu. Terrorismo ácido shahnaz bibi.jpgO significado do signo feminista engana pelo significante: alguns têm medo de não serem feministas por não serem contra direitos e conquistas importantes das mulheres em uma sociedade preconceituosa. Não há razão pra pânico: o horror maior é comer toda a carga de marxismo de Victoria's Secret junto.

A levar essa idéia a rigor, defender direitos dos homens (lato sensu, ou seja, só os direitos que atingem a população masculina, como acesso à pornografia públicagratuitaedequalidade, filmes de muay thai e divisórias mais ortodoxas em mictórios) não seria machismo? Ninguém diria isso, mesmo que o signo faça crer que é assim mesmo. Mas no caso de machismo, todos já estão suficientemente crescidos e bem alimentados com farinha láctea e Biotônico Fontoura para não cair nessa esparrela do significante. Machismo é um termo cunhado para a opressão à mulher (nem que seja uma inocente piadinha machista). Por que não admitir logo que o feminismo é uma idéia marxista, e não a defesa das mulheres? Nenhum uso do termo feminismo permite que o signo seja usado sem esse contexto. A Igreja Católica que o diga.

A taxonomia, Saussure e a Playboy da Letícia Birkheuer agradecem.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Chico Buarque e as piores rimas de todos os tempos


"O que explica o sucesso de muitas obras é a relação ali encontrada entre a mediocridade das idéias do autor e a mediocridade das idéias do público." - Sébastien-Roch Chamfort

Na página 56 da VEJA dessa semana, seção Sobe e Desce, está lá que uma música nova de Chico Buarque (aquele cara cuja mais recente melhor música é de 68) "traz o pior verso da MPB". Em um verso da canção nova, Chico Buarque rima sacrifício com mulher sem orifício:

chico buarque olhos azuis.jpgA gama de sentidos de "Amar uma mulher sem orifício" vai de "cultivar um amor platônico" a "desejar uma mulher frígida". Alguma coisa por aí. Mas havia um desafio a vencer, para além de fazer sentido. Dois versos atrás, encontra-se a palavra "sacrifício". E esses poetas, o que eles não fazem por uma rima... Lá se foram as vergonhas da moça, e surgiu essa aflitiva "mulher sem orifício". Pô, Chico. Não podia ser só uma "mulher difícil"?

Mas... "pior rima da MPB"? Nada mais injusto com o "poeta" e "melhor letrista da música brasileira": Chico Buarque já fez piores. Sempre tem a desculpa de "ele é o Chico e tem olhos azuis; logo, ele pode". Apenas acho que poderia ter rimado sacrifício com ício-ício-ício. Ele é o Chico. Ele tem olhos azuis. Ele pode.

Mas apresento aqui uma compilação mais científica:

As piores rimas de todos os tempos

10. Gilberto Gil - Buda Nagô

"Filho da casa re-al da inspiração
Como príncipe, principiou
A nova idade de ouro da canção
Mas um dia Xan-gô"

Carl Sagan seria capaz de defender a Inquisição ouvindo isso. Dizem que Gilberto Gil como ministro foi um ótimo músico. Espero que ao menos fosse um músico melhor do que ele próprio. Essa mania de se preocupar apenas com uma única vogal tônica e ignorar até mesmo as outras vogais da palavra (nem pra uma rima toante serve) é prova de neurônios que se foram quando um beija-flor levou junto o seu amor e foi foi embora.

Que tal tentar rimar principiou com Xangou? Pode dar um caráter meio sino à letra, é étnico e tal. Tudo muito contra-cultural.

Mas o que se deve esperar de alguém que coloca as palavras finais das estrofes separando as sílabas na letra de uma música? Essa é apenas uma demonstração, todo o conjunto desta canção não merece mais do que um linchamento público por uma milícia armada de gatos mortos, depois de começar da maravilhosa maneira:

"Dorival é ím-par
Dorival é par
Dorival é ter-ra
Dorival é mar"
(sic)

9. Victor e Léo - Borboletas

"Não sei dizer o que mudou
Mas, nada está igual
Numa noite estranha
a gente se estranha
e fica mal"

Pois bem, isso é uma rima interna, mas será mesmo que a capacidade de entendimento de sons desses sertanojos, embriagos por rimas de infinitivos feitas apenas com vogais tônicas, regrediu a ponto de pensarem que podem rimar a mesma palavra só por mudar sua categoria morfológica?

E pensar que houve épocas em que se considerou que João Soares Coelho iria vulgarizar os jovens, pelos seus versos belos e perfeitos em técnica:

"Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
Que já nom pode sol cuspir a saíva
E, de pram, semelha mais morta ca viva,
E, se lh' ardess' a casa, nom s'ergeria.
Par Deus, Luzia Sanches, Dona Luzia,
Se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia."

8. a) Raimundos - Pequena Raimunda

"Shit, shit pequena Raimunda
Bunda de sonho a cara é um pesadelo
Shit, shit pequena Raimunda
Parece até a namorada do Telo"

Rodolfo, no auge do consumo de maconha e Charlie Brown Jr. (para provar de vez que certas drogas precisam ser proibidas, por questão de saúde mental pública e manutenção da taxa mundial de neurônios), além de demonstrar um péssimo gosto típico de sua banda, mas sem um pingo da graça dos primórdios, força a barra com elegantíssimos "merda" em língua inglesa, apresentando uma "rima" estroncha que tenta fazer com que um e fechado possa rimar com um aberto.

Para piorar, o que diabos o mundo inteiro (tendo sido o álbum produzido no deserto do Arizona) tem de saber da namorada de um amigo da banda que atende pelo nome de "Telo"? Já não basta a pobre coitada ter de namorar um estrupício destes?!


8. b) Chico Buarque (ele!) - Meu Caro Amigo

"Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

Aqui vale o mesmo que para os Raimundos (sim, o melhor poeta da música brasileira é pior do que Raimundos). Com a diferença de que os Raimundos são tontos, pero no sacanas: tacam um "pesadelo" do lado de "Telo" que só visualmente rimam. E pronunciam assim mesmo. Agora vai lá o Chicão e piora as coisas: pronuncia a expressão inglesa rock'n'roll como se fosse "roquenróu", assim, com acento agudo.

Como se não bastasse o cidadão não entender porra nenhuma de Pink Floyd e ao se deparar com uma partitura do King Crimson não saber nem por que corda começar (então o que caralhos quer falar que tem de rock'n'roll no Rio de Janeiro, o túmulo do roquenróui?!), ainda quer mudar uma pronúncia inglesa. Assim, por antropofagia. Contra-cultura e tal.

Chico Buarque, Bon Scott te despreza.


7. Legião Urbana - Faroeste Caboclo

"E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV"

Afora as carradas de contradições e estultícias que esta letra apresenta às mancheias, temos mais um exemplo do que é um ser tão poético que, enquanto trovadores tr00 estão preocupados em criar rimas com a contaminação da nasalação de uma vogal pela consoante procedente advinda do sufixo de um tempo verbal, esses pascácios fazem sucesso com apenas, novamente, a vogal tônica, dessa vez, a ponto de rimar uma palavra e nem sequer escrever a porra da vogal.

Logo alguma nova fuleira barbuda pra aborrescente em rodinha de violão vai perceber como é cult rimar H com cagar.


6. Tati Quebra-Barraco - Fogão Dako

"Dako é bom!
Dako é bom!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!"

Urge falar de Tati Quebra-Barraco? Isso é uma rima imperfeita e... bem, estamos lidando com o ápice da decadência do Ocidente. Próxima.


5. Charlie Brown Jr. - Gimme o Anel

"Do you wanna gimme girl?
Do you wanna gimme o anel?
Do you wanna gimme girl?
Do you wanna go pro motel?"

Chorão é um poeta, apesar de tudo. Acabei fazendo o rapaz subir uma posição porque, afinal, a música é escrota, um elogio á nossa canalhice e estupidicação ocidental (Gasset bem que avisou, mas geralmente só prestam atenção em verdadeiros arautos como Malthus, Nietzsche e Flavio Morgenstern cerca de 3 séculos depois de suas análises).

Ademais, Chorão é feio que só o cão. E tem apelido de viado. Se se acha tão pegador, só pode ser pela fama, poder e grana. Porém, sobra-lhe escopo para bancar o pseudo-pobre da MTV: "Eu tive um dia dificil / Dinheiro voce ja tem / Eu te ofereço meu missil".


4. Seu Jorge - Burguesinha

"Burguesinha
Do croassaint
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Suquinho de maçã"

WTF?!?!?!


3. Caetano Veloso - A Luz de Tieta

"Êta!
Êta, êta, êta
É a lua, é o sol é a luz de tiêta
Êta, êta!... (2x)"

Espere um minuto, acho que tenho de retirar o que afirmei sobre a TV do Renato Russo...

Êta vida besta, meu deus. E, novamente, com certas divisõezinhas rítmicas na letra, incluindo refrão com marquinha de loop. E pensar que já vi neguinho dizer que Caetano é tão genial quanto Bach, criador da escala ocidental... É tão genial quanto torcida de futebol gritando: "or, or, or! Queremos jogador!".

Contudo, este atentado à humanidade não leva a prata da casa por já ter rendido uma inesquecível paródia. Quando Celso Pitta disputava a prefeitura paulistana com Luiza Erundina, o Casseta & Planeta, copiando a melodia, soltou um excelente prognóstico:

"Pitta!
ita, ita, ita
Ele pensa que é ele mas é o Maluf que apita
ita, ita...

Erunda!
unda, unda, unda
Ela é feia de cara mas é boa de urna
unda, unda..."



2. Legião Urbana - Faroeste Caboclo (de novo)

"Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina"

Em meio a uma inversão da prosódia que faria Camões se suicidar numa caixa d'água, eis que Russo surge com uma das piores rimas de toda a história da língua portuguesa, última flor do Lácio, bela e inculta!

Armar rima tão bem com Planaltina quanto rima com Bolívia, perdida na mesma frase. É pra obrigar o seu autor a engolir uma caixa de cotonete usado, um a um!! Será que alguém é capaz de pronunciar Planaltina de modo a que rime com maracujá?!


1. Latino - Amigo Fura Olho

"Amigo...é uma loucura
Tô vivendo uma aventura castigada pelo amor
Um labirinto sem saída
Onde o medo se converte em tanta dor
Vivo um triângulo"

Meu sagrado caralho, a de Russo era apenas uma vogal tônica oxítona forçando a barra com uma paroxítona, não com uma porra duma proparoxítona!

É tão inacreditável que não dá pra ler isso e entender. Só mesmo ouvindo a música (Lasciate ogne speranza, voi che clicate) para entender a pronúncia que faz com que amor e dor (como se não bastasse, a rima mais óbvia de toda a lingua) com triangu.

(bônus: no começo da "canção", o inconfundível Latino rima o "nome" de seu parceiro, Daddy Kall, com capitão musical [?!]. Como o próprio diz, "essa é pra pensar".)

terça-feira, 7 de junho de 2011

É tudo culpa do aquecimento global.


Sou um ecologista radical. Não basta ser vegan, boicotar sacolas de plástico, fumar folhas naturais, trocar o papel higiênico por folhas de bananeira, reciclar os ursos panda e praticar fotossíntese nas horas vagas - temos de fazer a dança da chuva e invocar uma nova era glacial. E isso nem carta de Magic resolve no próximo turno.

Repetiria teclas já batidas por outros se falasse do padrão de vida dos nórdicos. A esquerda diz que é graças ao Welfare State e vota no Lula por isso. A direita acha que é por causa do Cristianismo e lê Weber. Eu digo que é tudo culpa do clima.

Quando foi a última vez que você acordou sob um sol de 50º cozinhando seus neurônios e conseguiu sentar-se abaixo de uma árvore, ler Hawking, Greimas ou a Escola de Frankfurt e calmamente entender o texto, como se nada atrapalhasse sua aquisição de conhecimento, antes que uma maçã acertasse sua cabeça?

A filosofia só pode ter nascido no Inverno. Tudo o que o calor nos legou foi monoteísmo e pernilongos.

frio interior.jpgNão é possível pensar no Verão. É por isso que propaganda de cerveja, no Brasil, sempre fala de Carnaval, praia e vagabunda semi-nua. Enquanto a Polônia exporta cérebros, nós exportamos bunda. O frio, além de priorizar a mente - pois as escolhas pelo sexo oposto são feitas visualmente por estilo de roupas, e não só pela sua pouca quantidade - é mais charmoso. Ou você conhece alguém que não ache cool (!) soltar fumaça visível pela boca sem precisar fumar?!

É por isso que nosso povo se reproduz como baratas, sobretudo em estados de clima quente. Primus, porque apesar de sexo produzir ainda mais calor, as pouca-vergonhas do próximo estão sempre à mostra. Secundus, se não é possível pensar no calor, como fazer o tempo passar, senão com a putaria?!

Sendo o maior neomalthusiano vivo deste planeta, lembro imediatamente que o planeta esquenta pela típica moral cristã-capitalista do "Crescei-vos e multiplicai-vos". Vá lá que o aquecimento global já era problema no período jurássico, com bichos gigantes que peidavam como se não houvesse amanhã, mas o mais fácil é ver gente culpando os EUA pelo aquecimento global. Difícil é ver que a culpa é nossa.

alqaeda.jpgO caso mais óbvio é o do canudo: qualquer copo limpo que te dão vem com canudo. Culpa das empresas? Veja o que acontece quando o funcionário do mês entrega um copo sem canudo para alguém. Nunca vi alguém passar batido e não pedir o dito cujo. Plástico gratuito que não serve pra nada. São as mesmas pessoas que, depois, votarão no Obama e são contra a Guerra do Iraque. Cada canudo representa a sanha por petróleo, mais um iraquiano morto. Sem canudos, não precisamos de Iraque, e poderíamos tê-lo deixado pacificamente nas mãos de Saddam Hussein.

Há também um esforço para a segurança e a saúde que todo político quer tomar para si em seus discursos. Tolice. A culpa é do calor. A saúde na Noruega é exemplar? Também, imagine que mosquito da dengue e caramujo pestilento está por lá!

Mas já que as pessoas só se mobilizam por algo quando a coisa as afeta diretamente, falemos da segurança. O Brasil é um país violento? É porque ele é quente. Há assaltos e assassinatos? Culpa do calor! Pegue alguém que já foi assaltado mais de 5 vezes e pergunte pra ele se estava um frio de rachar e/ou chovendo no momento. Ladrão é tudo vagabundo, e por ser brasileiro, quer viver num mundo de propaganda de cerveja. Nada de pegar no batente se tiver muito frio ou tiver de se queimar!

O calor do sol gera a violência. Desde as moléculas praticando porradaria em vale-tudo até na literatura. Raskolnikov estava em Moscou, mas reclamava da caliça do verão quando matou a velha usurária ("Limpeza como essa é coisa de velhas más"), assim como o protagonista d'O Estrangeiro, de Camus, dá a melhor resposta (uma das mais belas frases da Literatura Universal) quando perguntado por que matou um árabe: "Por causa do Sol". (releiam o livro e me digam: se a porra do sol não estivesse queimando, como diabos o árabe poderia levar os 5 tiros de sua arma?!)

Como prova final disso, digo que moro em um bairro perigoso, preciso atravessar uma linha do trem perto de uma favela para ir para qualquer lugar nessa cidade que julga ter algo de Primeiro Mundo. Já quase fui assaltado pelo mesmo cara 2 vezes no caminho até a faculdade. Sorte que sou estudante de Letras e, apesar de neoliberal, posso passar por sem-terra facilmente quando não faço a barba por 2 dias.

frio caminho.jpgHoje, saindo mais tarde do que o costume para ir jantar, percebi que o clima podia ser descrito como o parágrafo inicial de qualquer livro de Sidney Sheldon: "Era uma noite muito escura e fria, as nuvens faziam a chuva cair sem parar..." Como ainda não chovia quando saí de casa, releguei o guarda-chuva, que nunca gostei de usar. Apesar da escuridão maior no caminho, não dei de encontro com vivalma, pela primeira vez em toda a história de convivência com vagabundos traiçoeiros nas redondezas.

Sorte? Unilateridade? Começou a chover a cântaros, e sem guarda-chuva, despiciendo fazer notar que cheguei em casa mais molhado que a precheca da Silvia Saint quando pegava no batente. E, pra todos viverem felizes para sempre, cheguei em casa sem vontade de matar nenhum árabe e nenhuma velhinha!

Parem de usar canudinho. Nossos árabes agradecem.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Feminismo: a sedução do signo


Certa manhã, enquanto dividia minha atenção entre uma partida de poker online, um cappuccino empelotado e o glorioso ensaio filosófico da Letícia Birkheuer na Playboy, uma discussão na comunidade da USP do orkut me chamou a atenção: segundo um dos discursantes, o que pode ser chamado no espectro político de "direita" é um termo relativo, estando sempre em oposição à "esquerda". Para o cidadão, tudo depende da composição que se tem em um país. Assim, alguém de direita pode ser de esquerda, sob outro ponto de vista. Ou não. Desta forma, poderia-se definir se um caboclo é de direita ou de esquerda por algo como sua defesa da pena de morte, e justamente por essa bandeira ter sido ora de um lado, ora de outro, isso os tornaria "relativos".

isso tudo porque "o signo é arbitrário".

Imediatamente larguei a partida de poker, mesmo com um Ás e uma Rainha em mãos, cuspi o cappuccino e, bom, deixei o ensaio filosófico da Birkheuer por perto para casos de necessidade.

Estava plenamente acostumado, por anos de discussões inúteis na internet, a lidar com este tipo ignóbil de falácia, em que se tenta classificar de estro próprio o que é um lado e o que é outro, podendo-se a qualquer momento (via de regra quando se está ridiculamente perto de se perder uma discussão) subverter as regras e inverter as proposições ao bel prazer do autor. Com tal técnica, pode-se defender até o nazismo, e alegar que as câmaras de gás não eram bem uma coisa nazista, pois isso é relativo (não seria preciso criar campos de concentração depois que todos os judeus já estivessem mortos, por exemplo). O que havia de novo é que o reclamante em questão citava ninguém menos do que Saussure para justificar seu método.

saussure.jpgA lingüística, por séculos, não foi muito além das questões históricas envolvendo o desenvolvimento das palavras dentro das línguas, com disciplinas como a filologia e a etimologia (que, por razões políticas, foram simplesmente limadas do curso de Letras, nowadays). Foi o mestre suiço Ferdinand de Saussure (1857-1913) quem lhe deu novo estatuto científico, propondo um objeto específico de estudo (a língua, ou lange, em posição à palavra), tendo cunhado justamente por isso a frase "O ponto de vista cria o objeto".

Para Saussure, um signo lingüístico não possui significado por si, mas sim em oposição a outros signos. Quando se diz "alface", nitidamente não se quererá ter dito "abobrinha", nem "trator" e nem "Nicolau dos Santos Neto".

Desenvolvendo essa idéia, Saussure determina que os signos são arbitrários, ou, em outras palavras, ao contrário do que se fazia pensar anteriormente, o significado do signo não possui correlação alguma com o seu significante (com os sons que são produzidos para expor um conceito). Assim, uma mesa não precisa ser parecida com a palavra "mesa" (mesmo porque pode ser completamente diferente em outra língua), assim como a expressão "puta que me pariu, caralho!" não costuma ter como significado a própria mãe do falante (mãe esta que cobra por sexo), seguida de uma genitália masculina hirta e com veias piscantes no vocativo.

Simples, no mamita? Seria, se alguém entendesse o que disso se deduz.

Meu herói, taxonomia não dói.

Quando um novo conceito surge por determinada circunstância histórica, é comum se criar uma nova palavra para exprimi-lo, geralmente usando o próprio léxico da língua. Vai ser difícil uma palavra como mzenski pegar para exprimir um novo conceito em português, enquanto seria bem comum em russo. Algumas regras também devem ser observadas: sufixos como pre- ou pos- possuem uma carga de sentido própria que não prescinde da temporalidade.

O problema é que nem sempre usam essas palavras que, mesmo sem ser necessário pesquisar a fundo o contexto de sua gênese, ainda assim pode-se auferir seu significado. Kakuzo Okakura, ao tentar explicitar em inglês o que significava a cerimônia do chá na sociedade japonesa para um Ocidente que ainda não entendia lhufas de Oriente, usou o neologismo "chaísmo" (teaism) para definir que há uma verdadeira cultura por detrás apenas do chá, uma verdadeira defesa de um ideal naquela cerimônia, embora ainda não constituísse uma religião à parte. O termo não pegou, mas ninguém precisa procurar um dicionário para tentar descobrir seu significado. Mas e quando a Revolução Francesa criou os termos "direita" e "esquerda"?

Os termos, no caso, dizem respeito a uma divisão funcional, e não ideológica, de quem lutava para manter privilégios antigos e quem buscava novos direitos nas Assembléias dos Estados Gerais. A sua carga ideológica veio posteriormente. Não é à toa que não havia como classificar ideologias anteriores à Revolução como "de direita" ou "de esquerda" (Maquiavel, que em sua época foi um empedernido defensor do regime, foi muito mais útil à esquerda do que a direita, por exemplo). Também não é à toa que a maioria dos bons pensadores desse tempo não se identificaram muito bem nem com um lado, nem com outro.

esquerda-direita.jpgMas é bem aqui que a porca de Saussure começa a torcer o rabo. Os termos usados, direita e esquerda, dão a impressão de serem apenas isso: o lado "da direita" e o lado "da esquerda" de um Congresso, onde se discutem temas políticos. Assim, onde houver discussão política, fatalmente haveria uma "esquerda" e uma "direita". Como se, nessa mesma época, houvesse xoguns de direita contra samurais de esquerda, ou sultões de direita contra califas de esquerda. Como se Cícero fosse de esquerda, e César fosse de direita.

Isso é derivado de algo que chamaria de crença no significante . Quando se dá de cara com um significante novo, ou, pior ainda, um signficante antigo usado em novo contexto, a tendência é aferrar-se ao seguro terreno do já conhecido e tentar atribuir significado ao signo baseando-se no que já se conhece do significante.

Se toda sala possui um lado "direito" e um "esquerdo", parece claro que numa sala de discussão política sempre haverá uma direita e uma esquerda. Se há uma ideologia política criada nessa mesma época que, através do sufixmo -ismo (bastante adequado a ideologias), foi chamada "conservadorismo", basta que o intelectual de extrema-Humanas que não faz idéia de quem sejam as pessoas conservadoras, e muito menos o que elas defendam, apenas conclua: "quem defende o conservadorismo é quem quer conservar a sociedade" - o que nos deixaria numa esquizofrênica situação se um conservador subisse ao poder logo após uma grande revolução, pois o conservador, automaticamente, teria de ser um "revolucionário" para colocar tudo da forma como prentede colocar.

O próprio termo statu quo (e não status quo, como costuma ser erroneamente usado) reflete essa pendenga: faz parte da expressão in statu quo [ante], ou seja, o estado em que as coisas estavam antes de uma grande catástrofe (peste, guerra, fome et cætera). Hoje, quem defende o statu quo é quem... quer manter o estado presente, não o passado.

Russell_Kirk.jpgAssim, a arbitrariedade do signo de Saussure vai pro caralho. O significado deixa de ser completamente independente do significante, passando a ser apenas um derivado deste. Isso é bastante comum com termos criados para se defender uma idéia usando-se mecanismos já existentes em uma língua, como o sufixo -ismo e sua carga de sentido própria do exemplo. Aferra-se ao que já se sabe, e força-se um significado que o novo conceito, que apenas escolheu uma palavra do léxico para representá-lo, não tem (o conservadorismo, por exemplo, poderia se chamar moralizantismo, e toda a patranha de "conservador é quem conserva" cairia por terra, sem mudar uma vírgula no conceito).

Por isso é doloroso ver um estudante da USP defender que os conceitos mudam ao (seu) bel-prazer porque são arbitrários. Arbitrário diz respeito justamente a depender apenas da vontade do proferidor para significar o que significa. Justamente por isso, não podemos trocar o significado dos signos já devidamente catalogados, apenas para facilitar nossas colocações ideológicas sobre eles (basta pensar na palhaçada que o termo "liberal" gera no Brasil).

Não é senão por isso é importante ainda trabalharmos com taxonomia, ou seja, termos uma lista de palavras (um dicionário) em que elas possam significar a mesma coisa tanto para o falante quanto para o ouvinte. Do contrário, os profissionais da comunicação serão os primeiros a misturar alhos com caralhos e nunca mais permitir a comunicação clara e sem ruídos de uma idéia pelo espaço entre uma boca e uma orelha.

A religião (e a falta dela) também sofrem

A mesma muafa se dá entre os termos "ateu" e "agnóstico". Na visão de bípedes comuns, ateu é o caboclo que não acredita em Deus. Agnóstico, o que não sabe se existe, então se comporta como um ateu, sem afirmar nem negar nada.

Porém, se queremos discutir filosofia bonito, vejamos a escorregada que está por trás desses termos: agnóstico diz respeito à possibilidade de conhecimento (usado basicamente, óbvio, a respeito de religião). Ateu já diz respeito ao caboclo "negar" a existência de Deus (afinal, não acreditar e "negar", nesse caso, praticamente se confundem). O termo "agnóstico" foi cunhado pelo biólogo Thomas H. Huxley, baseando-se em Hume e Kant.

ateus.jpegIsso nos deixa numa situação curiosa: em termos fiosóficos (que nada têm a ver com os termos correntes usados por aí), dá pra ser um ateu agnóstico (aquele que não acredita em Deus, porque não, digamos, "consegue" acreditar, dada a falta de evidências), ou um ateu "gnóstico" (aquele que julga ser possível ter algum conhecimento sobre a Providência, mas também julga que há "provas" da inexistência de Deus). O mesmo, aliás, se daria com o homem de fé: há quem julgue que seja possível obter conhecimento a respeito de Deus (como Santo Agostinho, São Tomás e toda essa ala da patrística/escolástica/espiritualismo que vai resultar num Olavo de Carvalho, René Guénon e derivados) e aqueles que julgam que, no fim, é tudo matéria de fé (por exemplo, um Kierkegaard, cuja dialética só como último ato coloca Deus como "solução" do problema do desespero).

Mas aí há um problema. Não podemos usar palavras com o seu sentido etimológico achando que dá pra se livrar de sua carga histórica, e do que significou historicamente. "Gnósticos", por exemplo, foram caras que julgaram que dava para o homem ter total conhecimento a respeito do divino e encaminhar sua existência por si. Foram seitas hereges, e também algumas sociedades que existem até hoje (como os maçons). Nesse caso, por exemplo, poderíamos considerar os marxistas "gnósticos", porque julgam ter um método que defina o que devem saber do divino (ou seja, que é uma fábula de controle social) e de como se dá tudo na Terra (e assim explicam desde a literatura até a psicologia pelo método do materialismo histórico dialético).

Fica então complicado dizer que um indivíduo ateu ou cristão que julga possuir informações sólidas para sustentar suas convicções seja "gnóstico", já que estes, apesar da etimologia, são um grupo bem definido e diferenciado dos outros.

O complicado da linguagem filosófica é esse: não dá para pegar uma palavra com sentido X e querer que ela só tenha esse sentido X, porque ela pode já ter sido usada por um grupo Y e, assim, além de X, ela vai também significar Y a contragosto.

É bem por isso que geralmente se considera que todo agnóstico um ateu ainda no armário: eles se comportam como ateus, concordam com as mesmas coisas que ateus, acreditam e seguem os mesmos princípios de ateus. Mas um está preocupado com a possibilidade de conhecimento, o outro já acha que é possível possuí-lo, mas chegou à mesma conclusão anterior: não há algo além da matéria bruta.

Feminismo não significa "defender mulheres".

Exatamente por essa ideologia na formulação dos significados é que alguns signos são feitos maneira muito mais efetiva do que outros, conseguindo fazer pegar um significado praticamente tão somente pelo significante, deixando Saussure de cabelos em pé.

Não há melhor exemplo do que o termo feminismo. Um termo que só pode ter sido criado por um Washington Olivetto da lexicologia.

marxismo feminismo.jpgA idéia do feminismo é uma idéia de aplicação do marxismo em um novo âmbito: se o barbudão dizia haverem "classes sociais" que estavam "em luta", algumas pensadoras (na verdade, não só mulheres) concluíram que a desigualdade de gênero em uma sociedade marcada pelos privilégios masculinos poderia ser interpretada como essa mesma luta - não mais de "classes socias", mas entre os gêneros.

feminismo-marxista.jpgA despeito de muita água ter corrido por este moinho e de fato várias conquistas terem sido obtidas para as mulheres como um todo, não é possível dissociar o termo de seu caráter marxista. Não existem feministas que não sejam marxistas. Não existem feministas contrárias à idéia de uma luta travada entre os gêneros (feministas que se opuseram a essa idéia, como Camille Paglia e Christina Sommers, foram escorraçadas a pontapés do movimento). Outras importantes pensadoras das novas conquistas das mulheres na sociedade, mesmo em questões de sexualidade, que não fossem rigorosamente marxistas, como Ayn Rand e Martha Nussbaum, nunca foram consideradas feministas, por não estarem bradando contra o macho branco ocidental (como diriam os discípulos de Derrida), megafone em uma mão e barbeador na outra.

O problema está no significante. A idéia é que qualquer defesa da mulher, da "fêmea", é feminismo. Não é. Se assim o fosse, as críticas da Igreja Católica ao apedrejamento de mulheres no irã, mutilações e deformações com óleo seria feminismo. Alguém considera a Igreja Católica feminista? Nem eu. Terrorismo ácido shahnaz bibi.jpgO significado do signo feminista engana pelo significante: alguns têm medo de não serem feministas por não serem contra direitos e conquistas importantes das mulheres em uma sociedade preconceituosa. Não há razão pra pânico: o horror maior é comer toda a carga de marxismo de Victoria's Secret junto.

A levar essa idéia a rigor, defender direitos dos homens (lato sensu, ou seja, só os direitos que atingem a população masculina, como acesso à pornografia públicagratuitaedequalidade, filmes de muay thai e divisórias mais ortodoxas em mictórios) não seria machismo? Ninguém diria isso, mesmo que o signo faça crer que é assim mesmo. Mas no caso de machismo, todos já estão suficientemente crescidos e bem alimentados com farinha láctea e Biotônico Fontoura para não cair nessa esparrela do significante. Machismo é um termo cunhado para a opressão à mulher (nem que seja uma inocente piadinha machista). Por que não admitir logo que o feminismo é uma idéia marxista, e não a defesa das mulheres? Nenhum uso do termo feminismo permite que o signo seja usado sem esse contexto. A Igreja Católica que o diga.

A taxonomia, Saussure e a Playboy da Letícia Birkheuer agradecem.