domingo, 27 de fevereiro de 2011

Quando a religião até que não erra tanto

"People who want to share their religious views with you, almost never want you to share yours with them." - Dave Barry

Neste sábado rolou no Twitter a infame campanha #religiaoeciencia, querendo mostrar na garganta que, afinal, religião e ciência não são coisas mutuamente excludentes. O Trending Topic foi organizado pelo ridículo site Criacionismo (não vi o site, mas sem explicar a especiação alopátrica, que determina geograficamente como uma parte de uma população se isola e diverge evolutivamente até se constituir em uma espécie distinta, embora, é claro, muitas vezes a população isolada é tão pequena que entram fatores estocásticos também, além de efeitos aleatórios como efeito do fundador e deriva genética, coisa que todo crente deveria estudar na escola dominical.... enfim, sem explicar nada disso, não tem como não dizer que quem defenda criacionismo não seja retardado, e deveria ter qualquer diploma jogado na fogueira).

galileu_galilei.jpgPara se ter uma idéia do grau de pequenez trosóbica de quem organiza uma campanha cretina dessas, em uma chamada no blog Quebrando o Ateísmo (só não digo que é um dos mais ridículos da internet porque todos os outros são ridículos) às armas pela campanha, chega-se ao ponto de demonstrar que ciência e relgiião são compatíveis porque... cientistas foram religiosos (misteriosamente, a porcentagem deles que o é decaiu absurdamente assim que a Inquisição acabou, de forma que quase se confunde o renascimento das ciências com o resurgimento do ateísmo no Ocidente, e também assim que a religião parou de determinar até quem poderia ser enterrado em qual cemitério de cada cidade), e para comprovar sua tese, citam como exemplo... Galileu Galilei, aquele mesmo que teve de voltar atrás em sua descoberta científica para não virar churrasco, tendo sido vigiado por um inquisidor até quando ia ao banheiro até o fim da sua vida - e apenas o papa João Paulo II admitiu que, afinal de contas, oras porras, eppur si muove... ou seja, o melhor exemplo de compatibilidade entre religião e ciência é essa fina flor de vida agradável aí.

Mas como tudo o que diz respeito a arregimentar as massas anencéfalas, o movimento deu certo, pois: 1) deram retweets sem conta as mesmas 3 frases atribuídas a Albert Einstein e Isaac Newton (aquele das experiências alquímicas) que os fizeram dar um duplo twist carpado em seus túmulos; 2) robôs usaram a hashtag para aumentar o número de seguidores; 3) pessoas se perguntaram o que cacildas aquela hashtag fazia nos trending topics.

Como não perco um bom arranca-Habermas, aproveitei para dar uns pitacos, no que fui imediatamente respondido por uma farândola de pregadores da palavra do Senhor a pregos de nove polegadas, usando metáforas sobre o arco-íris para mostrar que a ciência só produzia bombas, enquanto a religião dava sentido às flores. It's Logics, idiot.

Quantos religiosos a ciência mandou pra fogueira, mesmo?!

É sempre uma gracinha ver esse tipo de argumento na boca dos ignaros - a religião não foi inventada senão para que se contivesse os ânimos da patuléia. Qualquer antropólogo sabe que uma sociedade avança com a religião por ela unificar a moral (e não por dar o poder aos seus membros de controlar chuvas e soltar bolas de fogo). Cai bem ler Weber alguma vez na vida.

inquisição_rodadaverdade.jpgA porca torce o rabo pois, se antes os cristãos puderam usar e abusar do poder político, proibindo livros, determinando até quais nomes poderiam ser usados num batismo e mandando pra tortura (o que costuma ser pior do que a fogueira) seus inimigos (perguntem pro Giordano Bruno), dadas as conquistas do pensamento secular*, o cristianismo foi sendo paulatinamente obrigado a amargar algumas derrotas. No começo foram coisas mais simples, como não poder mais torturar e matar seus desafetos. Depois de alguns séculos, a Igreja agüentou o soco no estômago, até veio a público pedir desculpas por "abusos". Então se resignou a, por exemplo, perseguir o professor John Scopes que cometeu a monstruosidade de ensinar darwinismo para crianças.

Agora, tal qual acontece com a richa entre esquerdistas e direitistas, cada lado da disputa religiosa se especializa em um campo de saberes específicos. Os ateus ganham do primeiro ao vigésimo lugar na Biologia, onde se compreende a vida ao largo do fator "mágica" para explicar por que temos filhos (afinal, a cegonha também tem o seu ecossistema e seus genes), na Física, em que o Efeito Doppler leva a entender o mundo a partir do Big Bang, ou de outras teorias inflacionárias, na Química e na Economia, visto que o pensamento religioso destrói qualquer capacidade de entendimento matemático cabível, nas Artes, já que o cristianismo é uma chatice que só etc.

Inquisição2.jpgCom essa tomada de terreno secular, os cristãos foram se requentado nos ramos em que suas firulas tão pouco afeitas à dura realidade não causem prédios caindo: a filosofia, que permite abstrações nada condizentes com a solidez do mundo (é óbvio que se uma filosofia chegou mais perto da verdade, a maior parte da maioria das outras deu com os chifres no muro), a teologia, as letras, o Direito, a música e outras áreas em que a crença em algo além da Física positiva não vá causar demais transtornos. Assim, muitos cristãos são absurdamente cultos, conhecem livros e livros que deixariam 99% dos leitores de Richard Dawkins separados de suas respectivas mandíbulas... mas ainda conseguem acreditar em coisas estúpidas como criacionismo.

E aí, abre-se espaço para a selva do "pode-tudo" de quem não está acostumado nem com o vigor da Lógica Formal, nem com a beleza inflexível das hard sciences - afinal, para quem está acostumado a apenas especular, sem nunca ver o Cavalheiro Lá de Cima esboçar reação à especulação, confundir essa falta de reação com "conhecimento perfeito" e tachar de ignorantes quem não chega à mesma conclusão é a primeira fase da discussão de religião no orkut em 10 passos.

Um caminho comum é dizer que a ciência não está certa (sem entender que o seu objeto de estudo não é nada além da matéria) porque só é possível conhecer Deus no recanto íntimo da consciência (o argumento é que, se Deus é onipresente, é mais seguro conhecê-Lo na consciência do que em laboratório). Ora, essa mesma ciência, que não pode conhecer o absoluto do resultado da consciência, sobretudo uma abstração conceitual, pode muito bem saber COMO essa tal consciência funciona, e COMO ela costuma entender e criar idéias como a de Deus. E se ela entende este "pedágio" que se paga no caminho do homem até a religião, também entende do pedágio no caminho inverso: também podemos compreender que o mundo é mais amplo do que uma vida humana que adeja ao Absoluto. Em outras palavras, se Darwin mostrou que a Arca de Noé não passa de mito, também podemos questionar pressuposstos cristãos como o livre-arbítrio através do behaviorismo, só para ficar em dois exemplos de que novos entendimentos sobre o mundo sem apelar para a "mágica" tornam a religião apenas um mito. Ou seja, faz religiosos dizer que era brincadeirinha, no fim das contas.

(idéia, aliás, que resumi nesse tweet.)

Existiu Jesus Cristo, e existiu Adolf Hitler. Ninguém mais.

Porém, mesmo essa atitude exige uma certa cultura. A opção tomada pela turma do #religiaoeciencia, além de atribuir uma frase a Albert Einstein, Voltaire ou Pascal, como se esses fossem empedernidos criacionistas nos dias de hoje, é um tanto quanto mais platificante: dizer que, se a religião fez o que fez com essa galera (Bruno, Galileu, DeMolay, Abelardo e todos os outros), o ateísmo matou 150 milhões de pessoas nas ditaduras comunistas do século XX. Assim, tudo se resume a uma questão deliciosa: quem matou menos?

Ora, se houvesse mesmo alguma honestidade nessa patranha, seria mais justo e inteligente tentar separar a religião da perseguição que cientistas e outros pensadores (como Abelardo) sofreram, indo parar até as vias de fato em casos como de Bruno e Galileu, da mesma forma que é facílimo não encontrar nenhuma relação direta entre alguém ser ateu e ser nazista ou comunista.

Pelo contrário, o que se vê é uma vontade religiosa desesperada de tentar atribuir a quem nega a metafísica hábitos pouco saudáveis (e esta religião antes de perder terreno para as maravilhas do pensamento secular, já tentou fazer com que todos os seus fiéis acreditassem que quem não é cristão é obrigatoriamente a escória da humanidade, como demonstra o Salmo 14:1). O pensamento é reto e de mão única, se malucos iluministas como Robespierre e Rousseau, além de posteriores comunistas e nazistas, foram ateus, tem-se o bode expiatório perfeito para atribuir culpas também ao ateísmo (como se o problema aí fossem os camaradas serem ateus, e não tarados, psicopatas e genocidas), e se livrar, por numerologia, das próprias culpas.

(a despeito de toda a erudição de um Olavo de Carvalho, por exemplo, este é um erro bastante infantilóide que ele costuma cometer com uma elegância que não foi transmitida atavicamente a seus asseclas.)

Como estes cristãos adoram reclamar que ateus e demais seculares não lêem São Tomás de Aquino, deveriam cuidar de ler o Organon, de Aristóteles, para definir o que é que tanto defendem como algo positivo. Mas se eles defendem Tomás, argumentarei então em termos tomistas: não se pode definir algo pelo que este algo não é. Um cavalo não é um homem, nem uma baleia é um homem. Isso não torna uma baleia igual a um cavalo, muito menos diz que uma baleia é um cavalo.

Inquisição3.jpgO mesmo ser não pode ser definido apenas por conseqüências acidentais do seu ente: só pode ser definido pelas conseqüências intrínsecas a seu próprio ser. Se um cristão acredita na Bíblia, deve acreditar no Salmo 14:1. Não há como fugir - e se fogem hoje, tratando-o como preconceito de época, é porque o que o pensamento secular* legou torna a idéia desse salmo simplesmente ridícula. Mas é intrínseco que um cristão, afinal, dê valor ao que está na Bíblia - mesmo que sejam lebres ruminantes, ou insetos alados que andam sobre 4 patas (Levítico 11), ouro enferrujando (Tiago 5:3) e sendo transparnte como vidro (Apocalipse 21:21), mulheres menstruadas serem "imundas" como leprosas (Levítico 13) etc. Assim, pode-se atribuir os crimes da religião pelo fato de essa religião seguir a Bíblia, que determina que quem não a siga vive na mentira. Assim, mesmo que hoje o cristianismo seja um cristianismo de cafeteria (que escolhe o que vai seguir da Bíblia e o que vai considerar pura brincadeirinha de uma sociedade maluca e burra), um cristianismozinho, bem diferente daquele dos tempos de J. C., o fato de a religião e religiosos cometerem menos crimes hoje é devido a estes terem perdido historicamente o confronto com o pensamento secular, e não pelo contrário. Se dependesse apenas da religião cristã, sabemos muito bem que o mundo em que vivemos olharia com desconfiança para qualquer homem que não fosse casado, e ai dele se não fosse para a igreja todo santo domingo (para não mencionar o grão de mostarda ser a menor de todas as sementes, virar a maior das hortaliças e depois se transformar em árvore, de Mateus 13:31-32).

Porém, para se atribuir os crimes do ateísmo ao ateísmo, ou seja, ao fato de alguém não acreditar em Deus, devemos supor, como no caso da religião, que o ateísmo, ou o pensamento secular (reunindo o ateísmo, agnosticismo e derivados), seja invariavelmente, insofismavelmente e irremediavelmente ligado ao comunismo, ao nazismo e aos crimes da revolução francesa. Isso tornaria simplesmente uma reductio ad absurdum a mera existência de Ayn Rand, Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Martin Heidegger, Eric Voegelin ou demais ateus, agnósticos e seculares que não são comunistas nem nazistas (alguns, pelo contrário, até chegam a defender a Igreja, como o meio pinel Charles Maurras). Aliás, cada conhecido seu que não seja nem nazista nem comunista, mas não seja tampouco cristão, seria um paradoxo no espaço-tempo.

Ora, os ateus que conheço não defendem algo como o stalinismo ou o nazismo, nem muito menos, por terem perdido um confronto com o cristianismo, se "cristianizaram" e se tornaram menos nazistas ou menos comunistas. Ou seja, se o cristianismo light é um cristianismo que permita que um ateu fique vivo, um ateísmo light não significa um nazismo que permita judeus vivos, nem um comunismo que permita liberais vivos. Significa apenas alguém que não acredita em separação entre alma e corpo, nem em uma entidade toda-poderosa que antes só podia ser apascentada com holocaustos, e agora basta uma rezazinha breve antes de dormir. Assim, como atribuir os supostos crimes do ateísmo ao ateísmo, se´e possível, num esforço talvez pantagruélico, conseguir a façanha de conseguir não acreditar no Deus cristão sem ser perseguidor de judeus ou planificar a economia e matar seus coleguinhas de fome?

Para quem cita "crimes do ateísmo", só há o cristianismo da linha olavete ou o comunismo stalinista e o nazismo. Qualquer outra alternativa que lhe seja apresentada é falsa, coisa da conspiração dos Rockfeller e do George Soros, que são todos leitores de Robespierre e têm uma agenda gayzista e aborista para derrubar o cristianismo.

Isso, é claro, nos exime de falar nos budistas. Ou nos hindus. Ou nos órficos. Simplesmente porque somos todos ateus com os deuses dos outros, e só existe religião cristã e todos os outros estão unidos, de mãos dadas, contra essa santa entidade que nunca errou: a Igreja.

Resta, então, considerar que esses neotomistas, gênios da dialética e do Trivium medieval (Lógica, Retórica e Gramática) que todo ateu esqueceu, recaem num dos mais estúpidos silogismos já condenados à eternidade:

Todo stalinista é ateu;

Logo, todo ateu é stalinista;

Logo, se alguém não tem fé, tem culpa pelo stalinismo. Só Jesus salva!

Assim, concluo com dois adendos científicos:

Primeiro Adendo de Morgenstern à Lei de Godwin: ao discutir com religiosos, as chances de comparar ateus a nazistas aproxima-se de 1.

Segundo Adendo de Morgenstern à Lei de Godwin: para demonstrar a verdade cristã, religiosos inevitavelmente compararão Jesus a Hitler.

Eu consigo explicar o Big Bang através do Efeito Doppler, mas não consigo explicar para certos cristãos que meu ideal de sociedade não envolve campos de concentração.

Faz parte da mesma agenda de salvar a religião e incluí-la no rol das coisas boas para a humanidade, disputando um lugar imerecido entre o Sucrilhos e a groselha que não precisa de colher pra mexer, associar males à ciência, para tentar desqualificar a crítica atacando-se o crítico. Ao mirar na própria ciência evolution.jpg(aquela que diferencia médicos de curandeiros tribais), visa-se desmerecer uma Teoria da Evolução ou o modo de pensar científico em si. Quando se quer atacar o darwinismo, é sempre aproveitando-se da homonímia de idéias modelo povão e conceitos científicos definidos pela mesma palavra (como "teoria", "lei" ou "evolução"). A bagunça que fazem com a o tal do "A Teoria da Evolução é apenas uma teoria e nunca vai virar Lei" é tão doidivanas e manjada que não merece muitas linhas extras por aqui, mas de maneira mais elaborada, não deixa de ser o que fazem grandes "neoescolásticos" e "neoespiritualistas", incluindo charlatães gargalháveis como William Lane Craig.

À guisa de exemplo, uma idéia panaquinha bem repisada é a de que o homem não "evolui". Ora, evolução, dentro da Teoria da Evolução (que teria sido bem mais feliz se Darwin tivesse usado outra palavra) significa adaptação. Nenhum desses engraçadinhos já parou pra pensar que um cãncer, afinal, quando evolui, significa a morte do paciente.

Quando a religião passa na prova de filosofia

Mesmo que a teologia seja a irmãzinha mais velha, mais abrangente e definitivamente mais burra da filosofia, chega então uma hora em que os pensadores religiosos resolvem acertar na mão, mesmo falando de religião. E justamente quando mais se desesperam com suas citações ipse dixit de São Tomás de Aquino retiradas de algum site católico defendendo psicologia para curar gays, mais mostram porque, afinal, acabam passando por bons filósofos.

(se o melhor lugar para esconder dinheiro na casa de um católico é na Bíblia, o melhor lugar para esconder a senha do cartão de crédito na casa de um neotomista é na Suma Teológica.)

A conta é simples: após perder pontos discutindo com qualquer cientista bem versado em humanidades, o argumento final contra "neo-ateus" (como se só se pudesse rejeitar a idéia de Deus tomando-se Richard Dawkins como profeta) é... partir para a agressão pura e simples (último estratagema de Schopenhauer).

Como a única injúria que poderia ser cabível a toda uma classe de pessoas (os "neu-ateus", ou na verdade aqueles cujo pensamento não vem pré-fabricado em um único livro sagrado) é atribuir aquilo comportamentos que, de dentro da igreja, supõe-se que só existem fora da igreja, e sejam praticados por todos porta afora: tachar de gay, puta, promíscuo, aidético, não se casar virgem e demais conceitos que ficam uma boniteza infinita na boca de quem se julga dono da única moral possível de ser abrigada em um cérebro mamífero.

E aí, se a nota para passar no curso de Filosofia é 7, está armada a prova de que os religiosos às vezes acertam: afinal, segundo eles, não se pode deixar de acreditar em Deus porque "neo-ateus", ou seculares, são:

  • Nazistas;
  • Cientistas;
  • Materialistas pragmáticos;
  • Fazem mais sexo do que cristãos.

Ora, de quatro assertivas-padrão, temos de admitir que os cristãos das discussões de internet acertam 3! É mais do que suficiente para passar com nota azul e tirar seu diploma de Filosofia!

Entendeu agora por que tantos cristãos se acham gênios da filosofia, mesmo sendo umas antas?

* Prefiro muito mais o termo pensamento secular a "ateísmo" pois não defendo um -ismo. Posso muito bem pensar sozinho, e não preciso concordar com alguém só por este alguém também não acreditar no que eu não acredito. Cristãos também são ateus em relação a Allah, e nem metafiscamente concordo com eles só por isso. Acho as agremiações de ateus, em 99% dos casos, ridículas, e seus argumentos costumam ser esfarelentos. Apenas não acredito em Deus e acho a representação religiosa através do monoteísmo a pior de todas as já criadas; mas quero um pensamento secular válido, o que significa aspirinas, pílula do dia seguinte e miojo. Nada disso veio com a religião. Nem do marxismo, nem do estruturalismo, nem nada. A ciência é e=mc². Se isso descreve que a matéria explodindo seu núcleo pode gerar uma bomba bem potente, não culpem o pensamento secular: culpem apenas a infinita estupidez humana. Afinal, ateus podem possuir a infinita estupidez humana, mas a infinita estupidez humana não significa ateísmo (logo, não são a mesma coisa). Mesmo porque, misteriosamente, ninguém nunca perguntou a religião de quem apertou o gatilho para soltar a bomba.

Leia também:

- Datena: de crimes, moral e Darwin

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- Depois de Júlio Verne, para onde vai a ficção científica?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Depois de Júlio Verne, para onde vai a ficção científica?

Hoje, fazendo 183 anos do nascimento de Júlio Verne (1828-1905), cabe perguntar para onde vai o gênero que este autor genial levou às bordas da perfeição junto a nomes como H. G. Wells, isaac Asimov, e Philip K. Dick's: a ficção científica.

Para entender o gênero, é necessário compreender os desenvolvimentos da própria história da ciência. É matéria para dedicados e apaixonados pelo tema. E a primeira coisa a saber é que, tal como Aristóteles definiu o princípio da filosofia, a ficção científica surge do assombro que novas descobertas científicas causam. Seguindo a famosa frase de Arthur C. Clark: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

Não foram, portanto, as incipientes especulações escolásticas e mesmo a retomada do rigor secular renascentista da ciência que assombraram os homens - sem uma Revolução Industrial, mesmo com Galileu e Newton, quem ainda assustava a humanidade era a religião e seus demônios.

julioverne.jpgOu tal assertiva possa ser verdadeira apenas parcialmente: o que assombra o homem são os extremos da Natureza. Antes da Revolução Copernicana, assustava o homem a total falta de controle que este possuía sobre a Natureza. A cada descoberta que parecia diminuir o maior poder sobre os eventos físicos que este julgava possuir (a religião e suas rezas e simpatia), imediatamente a Igreja, travestida de poder divino sobre a Terra, tratava de tentar manter a antiga crendice ainda em voga, sem alterar o seu poder. Foi contra essa força que se defrontaram os trágicos destinos de Giordano Bruno, Galileu Galilei, Abelardo, DeMolay, Miguel Servet et tutti quanti. Não era, portanto, uma boa hora para inventar a ficção científica.

Este é o extremo negativo, da falta de controle do homem sobre o mundo. E, por mais que nos soe primitivo hoje, ainda está bastante vivo: basta pensar nas discussões que são suscitadas quando se nega o livre-arbítrio do homem, por exemplo, provocando choques até em empedernidos seculares, encarando a falta de controle sobre si próprios.

Porém, com os avanços que o Renascimento e o humanismo legaram, em poucos séculos chegou-se a um novo assombro: o excesso de controle do homem sobre o mundo, inclusive assuntos considerados tabus: desde uma nova explicação sobre a origem da vida até a sua manipulação.

frankenstein.jpgNão é coincidência então ver que logo após a publicação de A Origem das Espécies veio uma obra como o Frankenstein, onde o grande horror era o homem atingindo um novo limiar de sua sabedori, a criação da vida (já não entendida mais como uma "mágica" divina), e não sabendo lidar com as conseqüências mais inescapáveis dessa busca desenfreada por conhecimento (não é sem razão que o monstro aprende a ler com o Fausto de Goethe). Mesmo o contemporâneo Drácula recai nesse viés, com o vampiro romeno representando a antiga ordem de demônios sobrenaturais, perdendo para a nova explicação científica e tecnológica encarnada por Van Helsing.

A ficção científica, portanto, até princípios do séc. XX, estava sempre em dia com a última grande descoberta científica e, assombrada, tentava prever, em tons felizes, aventurescos ou de desespero admoestador, para onde a luz da ciência nos levaria.

A contribuição de Júlio Verne

Julio Verne surge exatamente nesse período vitoriano pós-Revolução Industrial, em que a tecnologia e a ciência, antes confinadas a laboratórios e Universidades, tinha seus efeitos transparecendo no dia-a-dia. Extremo estudioso, foi capaz de adivinhar com precisão, em sua obra Viagem ao Centro da Terra, como eram as camadas no interior do planeta (uma viagem mil vezes mais complicada do que a viagem à Lua (tanto que ainda não foi realizada) - e, pior, praticamente um século antes de possuirmos um claro entendimento (ou "prova") de como é, de fato, o interior do planeta.

Seus contemporâneos foram notáveis por esse caráter visionário, que "adivinhava" para onde a tecnologia iria evoluir. Tal como da Vinci, foram notáveis imaginando submarinos (Vinte Mil Léguas Submarinas), robôs (toda a obra de Asimov), foguetes espaciais (Viagem à Lua, ou mesmo o estranho conto A Aventura Sem Paralelo de um tal Hans Pfaal).

cpt_nemo.jpegNo entanto, deve-se notar o tom aventuresco de tais narrativas. Algumas simplesmente brincam com a imaginação de uma nova descoberta fantástica, outras lidam com as novas e complexas questões éticas que a ciência, sobretudo a Física, estavam deixando de herança, como a capacidade do homem vencer adversidades climáticas, se adaptar a ambientes extremos, seja nos pólos do planeta ou no fundo do mar, e desenvolver tecnologias que definiriam os rumos da humanidade - da locomotiva a vapor à bomba atômica.

É encontrando um valor global para cada aventura particular que esses livros possuem valor, mesmo para o público pouco afeito à ciência - e como a confirmar essa própria premissa, tais livros marcaram mesmo aqueles que não os leram. É por esta razão que Aldous Huxley lamenta ter usado um elevador de propulsão mecânica em sua distopia Admirável Mundo Novo, quando o conflito que pautou o mundo e foi apresentado alguns anos depois do livro ser lançado foi o uso da energia nuclear.

As aventuras do professor Lidenbrock em companhia do jovem Axel rumo ao centro da Terra possuem dois personagens, mas seu valor toca em toda a humanidade que habita a crosta do planeta. A ficção moderna, como um Lost, pode multiplicar por 20 o número de personagens que, ainda assim, seu enredo dirá respeito basicamente àqueles personagens.

A diferença fundamental da ficção científica vitoriana para a contemporânea, portanto, é que, enquanto aquela lidava com os rumos que a ciência estava trilhando, deixando conseqüências para TODA a humanidade (mesmo aquela população que não saberia o que é um átomo), a última enfrentou um novo choque que fez seus rumos tangenciarem em outra direção.

Darwin e Einstein: humanos, demasiadamente humanos

Neste cenário, a obra de Darwin veio a trazer um novo significado ao assombro científico, e com isso a ficção científica virou do avesso.

Se o tom aventuresco ditava as encruzilhadas científicas, o confronto de Darwin com a religião, um dos últimos resquícios de Inquisição ainda presentes (e mais vivos do que nunca), acabou com o romance épico.

Em Asimov qualquer história particular com uns poucos personagens às voltas com robôs diz respeito ao confronto que toda a cultura teria de enfrentar - como, por exemplo, a inteligência artificial, a possível capacidade de se criar um robô com sentimentos ou, o conflito que pautará ainda o século XXI, a origem não mais da vida, mas da consciencia. São preocupações rigorosamente científicas, e pouco que esbarram com valores religiosos não são dignos de atrair olhares adversos da igreja para assuntos além de sua alçada.

Como criar um novo romance de aventura, quando a fronteira trespassada pela ciência diz respeito não mais aos limites físicos que um homem (talvez um único personagem) podem suplantar, mas sim a uma nova forma de encarar nossas origens passadas? Como fazer uma história, e apenas uma, condensada, com este enredo?

Sobretudo, se alguns séculos de humanismo, com a Igreja enfraquecida, permitiram tantos avanços científicos, pois o conhecimento secular não estava indo de choque aos valores eclesiásticos, como lidar com uma nova caça às bruxas propagada pelo maior golpe que o Cristianismo sofrera desde o heliocentrismo, só admitido pela igreja há poucos anos?

darwin.jpgMas não será que é de uma história que se precise para o darwinismo ser finalmente aceito? O criacionismo nunca existiu - foi apenas um nome inventado às pressas para dar um tom de ciência à velha crença de que a vida teria surgido por mágica. Apenas é uma reação rasa ao evolucionismo. Mas não se combate uma mitologia com explicações científicas: será que um romance, como aquelas chocantes aventuras do Capitão Nemo ou Phileas Fogg, que, por arroubos estésicos, mostraria a beleza do mundo darwinista para os leigos em equações malthusianas e biologia molecular? Se os argumentos criacionistas são pura estética, sem fundamento, por que não apresentar os argumentos evolucionistas... e com estética, ao invés de discussões infrutíferas by Dawkins e companhia?

O único autor a chegar perto de fazer algo próximo de um grande romanec (pois assim pode ser entedida toa a sua obra) com Darwin foi H. P. Lovecraft. Porém, deu um passo extra no darwinismo e criou seus próprios Deuses Antigos - uma mitologia tão clara que, não por acaso, foi apelidada de mythos pelos vários autores que seguiram seus passos.

Einstein, por outro lado, não sofreu perseguição religiosa com sua teoria. Porém, os rumos que ela deu à ficção científica, pelo exposto acompanhamento histórico dos seus autores, deu-se mais à respeito das implicações da bomba atômica - que foi uma conseqüência de suas teorias.

A teoria da relatividade, pouco usada na ficção (geralmente como acessório, como para "explicar" como naves espaciais podem fazer coisas impossíveis em uma ficção de terceiro escalão como Perry Rhodan), foi responsável, por outro lado, e um tanto quanto involuntariamente, por determinar um novo rumo para a ficção científica: o peso moral.

A não tão moderna ficção científica pós-moderna

Hoje, a ficção científica equilibra-se sobre dois pólos: o primeiro, uma volta às questões morais comuns à ficção de horror, mas agora não mais como críticas às possíveis conseqüências incontroláveis que a ciência (aquela, feita por cientistas anti-sociais em seus laboratórios mirabolantes) tomaria, mas sim as questões morais da sociedade: hiper-população, ecologia, racismo (em que a genética é apenas uma aliada de preconceitos anteriores, como é o caso de Gattaca).

Mesmo as distopias não falam mais, como em Júlio Verne, de um novo patamar alcançado pelo homem, conhecedor e vaidoso: diz mais respeito às conseqüências que algumas tecnologias podem ter na sociedade. Um livro como Make Room! Make Room!, que gerou o filme Soylent Green, descreve um mundo hiperpopuloso, em que a úinca comida disponível para as massas é um composto de algas com o nome de Soylent Green. Um assassinato ocorre e descobre-se que foi consumido um alimento proibido: um raríssimo e caríssimo pedaço de morango foi encontrado em uma colher.

Esse tipo de ficção, mesmo lidando com temas "de cientistas" (no século da biologia e em que naves espaciais já encheram o saco, basta zapear por canais de série para ver inúmeras tratando de clonagem, zumbis e experimentox-files.jpgs com genéticas, mas ainda ver como séries médicas sem ficção ganham disparadas em audiência), suas implicações dizem respeito a um evento possível, mas isolado - ou simplesmente aos personagens e experimentos dados pela trama. Mesmo uma série de quadrinhso como Watchmen teve como evento científico um acidente com o Dr. Manhattan completamente irreproduzível - enquanto o caráter "global" da obra dizia respeito às ideologias que dariam um fim à Guerra Fria, sem uma conexão inescapável com as novas "descobertas" científicas.

Júlio Verne continuará eterno por ser universal. A nossa ficção científica contemporânea pode ter seus méritos, mas ainda precisa tocar no coração da Humanidade, e não apenas do público que parou para assisti-la, para merecer um lugar junto a ele.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Quando a religião até que não erra tanto


"People who want to share their religious views with you, almost never want you to share yours with them." - Dave Barry

Neste sábado rolou no Twitter a infame campanha #religiaoeciencia, querendo mostrar na garganta que, afinal, religião e ciência não são coisas mutuamente excludentes. O Trending Topic foi organizado pelo ridículo site Criacionismo (não vi o site, mas sem explicar a especiação alopátrica, que determina geograficamente como uma parte de uma população se isola e diverge evolutivamente até se constituir em uma espécie distinta, embora, é claro, muitas vezes a população isolada é tão pequena que entram fatores estocásticos também, além de efeitos aleatórios como efeito do fundador e deriva genética, coisa que todo crente deveria estudar na escola dominical.... enfim, sem explicar nada disso, não tem como não dizer que quem defenda criacionismo não seja retardado, e deveria ter qualquer diploma jogado na fogueira).

galileu_galilei.jpgPara se ter uma idéia do grau de pequenez trosóbica de quem organiza uma campanha cretina dessas, em uma chamada no blog Quebrando o Ateísmo (só não digo que é um dos mais ridículos da internet porque todos os outros são ridículos) às armas pela campanha, chega-se ao ponto de demonstrar que ciência e relgiião são compatíveis porque... cientistas foram religiosos (misteriosamente, a porcentagem deles que o é decaiu absurdamente assim que a Inquisição acabou, de forma que quase se confunde o renascimento das ciências com o resurgimento do ateísmo no Ocidente, e também assim que a religião parou de determinar até quem poderia ser enterrado em qual cemitério de cada cidade), e para comprovar sua tese, citam como exemplo... Galileu Galilei, aquele mesmo que teve de voltar atrás em sua descoberta científica para não virar churrasco, tendo sido vigiado por um inquisidor até quando ia ao banheiro até o fim da sua vida - e apenas o papa João Paulo II admitiu que, afinal de contas, oras porras, eppur si muove... ou seja, o melhor exemplo de compatibilidade entre religião e ciência é essa fina flor de vida agradável aí.

Mas como tudo o que diz respeito a arregimentar as massas anencéfalas, o movimento deu certo, pois: 1) deram retweets sem conta as mesmas 3 frases atribuídas a Albert Einstein e Isaac Newton (aquele das experiências alquímicas) que os fizeram dar um duplo twist carpado em seus túmulos; 2) robôs usaram a hashtag para aumentar o número de seguidores; 3) pessoas se perguntaram o que cacildas aquela hashtag fazia nos trending topics.

Como não perco um bom arranca-Habermas, aproveitei para dar uns pitacos, no que fui imediatamente respondido por uma farândola de pregadores da palavra do Senhor a pregos de nove polegadas, usando metáforas sobre o arco-íris para mostrar que a ciência só produzia bombas, enquanto a religião dava sentido às flores. It's Logics, idiot.

Quantos religiosos a ciência mandou pra fogueira, mesmo?!

É sempre uma gracinha ver esse tipo de argumento na boca dos ignaros - a religião não foi inventada senão para que se contivesse os ânimos da patuléia. Qualquer antropólogo sabe que uma sociedade avança com a religião por ela unificar a moral (e não por dar o poder aos seus membros de controlar chuvas e soltar bolas de fogo). Cai bem ler Weber alguma vez na vida.

inquisição_rodadaverdade.jpgA porca torce o rabo pois, se antes os cristãos puderam usar e abusar do poder político, proibindo livros, determinando até quais nomes poderiam ser usados num batismo e mandando pra tortura (o que costuma ser pior do que a fogueira) seus inimigos (perguntem pro Giordano Bruno), dadas as conquistas do pensamento secular*, o cristianismo foi sendo paulatinamente obrigado a amargar algumas derrotas. No começo foram coisas mais simples, como não poder mais torturar e matar seus desafetos. Depois de alguns séculos, a Igreja agüentou o soco no estômago, até veio a público pedir desculpas por "abusos". Então se resignou a, por exemplo, perseguir o professor John Scopes que cometeu a monstruosidade de ensinar darwinismo para crianças.

Agora, tal qual acontece com a richa entre esquerdistas e direitistas, cada lado da disputa religiosa se especializa em um campo de saberes específicos. Os ateus ganham do primeiro ao vigésimo lugar na Biologia, onde se compreende a vida ao largo do fator "mágica" para explicar por que temos filhos (afinal, a cegonha também tem o seu ecossistema e seus genes), na Física, em que o Efeito Doppler leva a entender o mundo a partir do Big Bang, ou de outras teorias inflacionárias, na Química e na Economia, visto que o pensamento religioso destrói qualquer capacidade de entendimento matemático cabível, nas Artes, já que o cristianismo é uma chatice que só etc.

Inquisição2.jpgCom essa tomada de terreno secular, os cristãos foram se requentado nos ramos em que suas firulas tão pouco afeitas à dura realidade não causem prédios caindo: a filosofia, que permite abstrações nada condizentes com a solidez do mundo (é óbvio que se uma filosofia chegou mais perto da verdade, a maior parte da maioria das outras deu com os chifres no muro), a teologia, as letras, o Direito, a música e outras áreas em que a crença em algo além da Física positiva não vá causar demais transtornos. Assim, muitos cristãos são absurdamente cultos, conhecem livros e livros que deixariam 99% dos leitores de Richard Dawkins separados de suas respectivas mandíbulas... mas ainda conseguem acreditar em coisas estúpidas como criacionismo.

E aí, abre-se espaço para a selva do "pode-tudo" de quem não está acostumado nem com o vigor da Lógica Formal, nem com a beleza inflexível das hard sciences - afinal, para quem está acostumado a apenas especular, sem nunca ver o Cavalheiro Lá de Cima esboçar reação à especulação, confundir essa falta de reação com "conhecimento perfeito" e tachar de ignorantes quem não chega à mesma conclusão é a primeira fase da discussão de religião no orkut em 10 passos.

Um caminho comum é dizer que a ciência não está certa (sem entender que o seu objeto de estudo não é nada além da matéria) porque só é possível conhecer Deus no recanto íntimo da consciência (o argumento é que, se Deus é onipresente, é mais seguro conhecê-Lo na consciência do que em laboratório). Ora, essa mesma ciência, que não pode conhecer o absoluto do resultado da consciência, sobretudo uma abstração conceitual, pode muito bem saber COMO essa tal consciência funciona, e COMO ela costuma entender e criar idéias como a de Deus. E se ela entende este "pedágio" que se paga no caminho do homem até a religião, também entende do pedágio no caminho inverso: também podemos compreender que o mundo é mais amplo do que uma vida humana que adeja ao Absoluto. Em outras palavras, se Darwin mostrou que a Arca de Noé não passa de mito, também podemos questionar pressuposstos cristãos como o livre-arbítrio através do behaviorismo, só para ficar em dois exemplos de que novos entendimentos sobre o mundo sem apelar para a "mágica" tornam a religião apenas um mito. Ou seja, faz religiosos dizer que era brincadeirinha, no fim das contas.

(idéia, aliás, que resumi nesse tweet.)

Existiu Jesus Cristo, e existiu Adolf Hitler. Ninguém mais.

Porém, mesmo essa atitude exige uma certa cultura. A opção tomada pela turma do #religiaoeciencia, além de atribuir uma frase a Albert Einstein, Voltaire ou Pascal, como se esses fossem empedernidos criacionistas nos dias de hoje, é um tanto quanto mais platificante: dizer que, se a religião fez o que fez com essa galera (Bruno, Galileu, DeMolay, Abelardo e todos os outros), o ateísmo matou 150 milhões de pessoas nas ditaduras comunistas do século XX. Assim, tudo se resume a uma questão deliciosa: quem matou menos?

Ora, se houvesse mesmo alguma honestidade nessa patranha, seria mais justo e inteligente tentar separar a religião da perseguição que cientistas e outros pensadores (como Abelardo) sofreram, indo parar até as vias de fato em casos como de Bruno e Galileu, da mesma forma que é facílimo não encontrar nenhuma relação direta entre alguém ser ateu e ser nazista ou comunista.

Pelo contrário, o que se vê é uma vontade religiosa desesperada de tentar atribuir a quem nega a metafísica hábitos pouco saudáveis (e esta religião antes de perder terreno para as maravilhas do pensamento secular, já tentou fazer com que todos os seus fiéis acreditassem que quem não é cristão é obrigatoriamente a escória da humanidade, como demonstra o Salmo 14:1). O pensamento é reto e de mão única, se malucos iluministas como Robespierre e Rousseau, além de posteriores comunistas e nazistas, foram ateus, tem-se o bode expiatório perfeito para atribuir culpas também ao ateísmo (como se o problema aí fossem os camaradas serem ateus, e não tarados, psicopatas e genocidas), e se livrar, por numerologia, das próprias culpas.

(a despeito de toda a erudição de um Olavo de Carvalho, por exemplo, este é um erro bastante infantilóide que ele costuma cometer com uma elegância que não foi transmitida atavicamente a seus asseclas.)

Como estes cristãos adoram reclamar que ateus e demais seculares não lêem São Tomás de Aquino, deveriam cuidar de ler o Organon, de Aristóteles, para definir o que é que tanto defendem como algo positivo. Mas se eles defendem Tomás, argumentarei então em termos tomistas: não se pode definir algo pelo que este algo não é. Um cavalo não é um homem, nem uma baleia é um homem. Isso não torna uma baleia igual a um cavalo, muito menos diz que uma baleia é um cavalo.

Inquisição3.jpgO mesmo ser não pode ser definido apenas por conseqüências acidentais do seu ente: só pode ser definido pelas conseqüências intrínsecas a seu próprio ser. Se um cristão acredita na Bíblia, deve acreditar no Salmo 14:1. Não há como fugir - e se fogem hoje, tratando-o como preconceito de época, é porque o que o pensamento secular* legou torna a idéia desse salmo simplesmente ridícula. Mas é intrínseco que um cristão, afinal, dê valor ao que está na Bíblia - mesmo que sejam lebres ruminantes, ou insetos alados que andam sobre 4 patas (Levítico 11), ouro enferrujando (Tiago 5:3) e sendo transparnte como vidro (Apocalipse 21:21), mulheres menstruadas serem "imundas" como leprosas (Levítico 13) etc. Assim, pode-se atribuir os crimes da religião pelo fato de essa religião seguir a Bíblia, que determina que quem não a siga vive na mentira. Assim, mesmo que hoje o cristianismo seja um cristianismo de cafeteria (que escolhe o que vai seguir da Bíblia e o que vai considerar pura brincadeirinha de uma sociedade maluca e burra), um cristianismozinho, bem diferente daquele dos tempos de J. C., o fato de a religião e religiosos cometerem menos crimes hoje é devido a estes terem perdido historicamente o confronto com o pensamento secular, e não pelo contrário. Se dependesse apenas da religião cristã, sabemos muito bem que o mundo em que vivemos olharia com desconfiança para qualquer homem que não fosse casado, e ai dele se não fosse para a igreja todo santo domingo (para não mencionar o grão de mostarda ser a menor de todas as sementes, virar a maior das hortaliças e depois se transformar em árvore, de Mateus 13:31-32).

Porém, para se atribuir os crimes do ateísmo ao ateísmo, ou seja, ao fato de alguém não acreditar em Deus, devemos supor, como no caso da religião, que o ateísmo, ou o pensamento secular (reunindo o ateísmo, agnosticismo e derivados), seja invariavelmente, insofismavelmente e irremediavelmente ligado ao comunismo, ao nazismo e aos crimes da revolução francesa. Isso tornaria simplesmente uma reductio ad absurdum a mera existência de Ayn Rand, Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Martin Heidegger, Eric Voegelin ou demais ateus, agnósticos e seculares que não são comunistas nem nazistas (alguns, pelo contrário, até chegam a defender a Igreja, como o meio pinel Charles Maurras). Aliás, cada conhecido seu que não seja nem nazista nem comunista, mas não seja tampouco cristão, seria um paradoxo no espaço-tempo.

Ora, os ateus que conheço não defendem algo como o stalinismo ou o nazismo, nem muito menos, por terem perdido um confronto com o cristianismo, se "cristianizaram" e se tornaram menos nazistas ou menos comunistas. Ou seja, se o cristianismo light é um cristianismo que permita que um ateu fique vivo, um ateísmo light não significa um nazismo que permita judeus vivos, nem um comunismo que permita liberais vivos. Significa apenas alguém que não acredita em separação entre alma e corpo, nem em uma entidade toda-poderosa que antes só podia ser apascentada com holocaustos, e agora basta uma rezazinha breve antes de dormir. Assim, como atribuir os supostos crimes do ateísmo ao ateísmo, se´e possível, num esforço talvez pantagruélico, conseguir a façanha de conseguir não acreditar no Deus cristão sem ser perseguidor de judeus ou planificar a economia e matar seus coleguinhas de fome?

Para quem cita "crimes do ateísmo", só há o cristianismo da linha olavete ou o comunismo stalinista e o nazismo. Qualquer outra alternativa que lhe seja apresentada é falsa, coisa da conspiração dos Rockfeller e do George Soros, que são todos leitores de Robespierre e têm uma agenda gayzista e aborista para derrubar o cristianismo.

Isso, é claro, nos exime de falar nos budistas. Ou nos hindus. Ou nos órficos. Simplesmente porque somos todos ateus com os deuses dos outros, e só existe religião cristã e todos os outros estão unidos, de mãos dadas, contra essa santa entidade que nunca errou: a Igreja.

Resta, então, considerar que esses neotomistas, gênios da dialética e do Trivium medieval (Lógica, Retórica e Gramática) que todo ateu esqueceu, recaem num dos mais estúpidos silogismos já condenados à eternidade:

Todo stalinista é ateu;

Logo, todo ateu é stalinista;

Logo, se alguém não tem fé, tem culpa pelo stalinismo. Só Jesus salva!

Assim, concluo com dois adendos científicos:

Primeiro Adendo de Morgenstern à Lei de Godwin: ao discutir com religiosos, as chances de comparar ateus a nazistas aproxima-se de 1.

Segundo Adendo de Morgenstern à Lei de Godwin: para demonstrar a verdade cristã, religiosos inevitavelmente compararão Jesus a Hitler.

Eu consigo explicar o Big Bang através do Efeito Doppler, mas não consigo explicar para certos cristãos que meu ideal de sociedade não envolve campos de concentração.

Faz parte da mesma agenda de salvar a religião e incluí-la no rol das coisas boas para a humanidade, disputando um lugar imerecido entre o Sucrilhos e a groselha que não precisa de colher pra mexer, associar males à ciência, para tentar desqualificar a crítica atacando-se o crítico. Ao mirar na própria ciência evolution.jpg(aquela que diferencia médicos de curandeiros tribais), visa-se desmerecer uma Teoria da Evolução ou o modo de pensar científico em si. Quando se quer atacar o darwinismo, é sempre aproveitando-se da homonímia de idéias modelo povão e conceitos científicos definidos pela mesma palavra (como "teoria", "lei" ou "evolução"). A bagunça que fazem com a o tal do "A Teoria da Evolução é apenas uma teoria e nunca vai virar Lei" é tão doidivanas e manjada que não merece muitas linhas extras por aqui, mas de maneira mais elaborada, não deixa de ser o que fazem grandes "neoescolásticos" e "neoespiritualistas", incluindo charlatães gargalháveis como William Lane Craig.

À guisa de exemplo, uma idéia panaquinha bem repisada é a de que o homem não "evolui". Ora, evolução, dentro da Teoria da Evolução (que teria sido bem mais feliz se Darwin tivesse usado outra palavra) significa adaptação. Nenhum desses engraçadinhos já parou pra pensar que um cãncer, afinal, quando evolui, significa a morte do paciente.

Quando a religião passa na prova de filosofia

Mesmo que a teologia seja a irmãzinha mais velha, mais abrangente e definitivamente mais burra da filosofia, chega então uma hora em que os pensadores religiosos resolvem acertar na mão, mesmo falando de religião. E justamente quando mais se desesperam com suas citações ipse dixit de São Tomás de Aquino retiradas de algum site católico defendendo psicologia para curar gays, mais mostram porque, afinal, acabam passando por bons filósofos.

(se o melhor lugar para esconder dinheiro na casa de um católico é na Bíblia, o melhor lugar para esconder a senha do cartão de crédito na casa de um neotomista é na Suma Teológica.)

A conta é simples: após perder pontos discutindo com qualquer cientista bem versado em humanidades, o argumento final contra "neo-ateus" (como se só se pudesse rejeitar a idéia de Deus tomando-se Richard Dawkins como profeta) é... partir para a agressão pura e simples (último estratagema de Schopenhauer).

Como a única injúria que poderia ser cabível a toda uma classe de pessoas (os "neu-ateus", ou na verdade aqueles cujo pensamento não vem pré-fabricado em um único livro sagrado) é atribuir aquilo comportamentos que, de dentro da igreja, supõe-se que só existem fora da igreja, e sejam praticados por todos porta afora: tachar de gay, puta, promíscuo, aidético, não se casar virgem e demais conceitos que ficam uma boniteza infinita na boca de quem se julga dono da única moral possível de ser abrigada em um cérebro mamífero.

E aí, se a nota para passar no curso de Filosofia é 7, está armada a prova de que os religiosos às vezes acertam: afinal, segundo eles, não se pode deixar de acreditar em Deus porque "neo-ateus", ou seculares, são:

  • Nazistas;
  • Cientistas;
  • Materialistas pragmáticos;
  • Fazem mais sexo do que cristãos.

Ora, de quatro assertivas-padrão, temos de admitir que os cristãos das discussões de internet acertam 3! É mais do que suficiente para passar com nota azul e tirar seu diploma de Filosofia!

Entendeu agora por que tantos cristãos se acham gênios da filosofia, mesmo sendo umas antas?

* Prefiro muito mais o termo pensamento secular a "ateísmo" pois não defendo um -ismo. Posso muito bem pensar sozinho, e não preciso concordar com alguém só por este alguém também não acreditar no que eu não acredito. Cristãos também são ateus em relação a Allah, e nem metafiscamente concordo com eles só por isso. Acho as agremiações de ateus, em 99% dos casos, ridículas, e seus argumentos costumam ser esfarelentos. Apenas não acredito em Deus e acho a representação religiosa através do monoteísmo a pior de todas as já criadas; mas quero um pensamento secular válido, o que significa aspirinas, pílula do dia seguinte e miojo. Nada disso veio com a religião. Nem do marxismo, nem do estruturalismo, nem nada. A ciência é e=mc². Se isso descreve que a matéria explodindo seu núcleo pode gerar uma bomba bem potente, não culpem o pensamento secular: culpem apenas a infinita estupidez humana. Afinal, ateus podem possuir a infinita estupidez humana, mas a infinita estupidez humana não significa ateísmo (logo, não são a mesma coisa). Mesmo porque, misteriosamente, ninguém nunca perguntou a religião de quem apertou o gatilho para soltar a bomba.

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Depois de Júlio Verne, para onde vai a ficção científica?


Hoje, fazendo 183 anos do nascimento de Júlio Verne (1828-1905), cabe perguntar para onde vai o gênero que este autor genial levou às bordas da perfeição junto a nomes como H. G. Wells, isaac Asimov, e Philip K. Dick's: a ficção científica.

Para entender o gênero, é necessário compreender os desenvolvimentos da própria história da ciência. É matéria para dedicados e apaixonados pelo tema. E a primeira coisa a saber é que, tal como Aristóteles definiu o princípio da filosofia, a ficção científica surge do assombro que novas descobertas científicas causam. Seguindo a famosa frase de Arthur C. Clark: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

Não foram, portanto, as incipientes especulações escolásticas e mesmo a retomada do rigor secular renascentista da ciência que assombraram os homens - sem uma Revolução Industrial, mesmo com Galileu e Newton, quem ainda assustava a humanidade era a religião e seus demônios.

julioverne.jpgOu tal assertiva possa ser verdadeira apenas parcialmente: o que assombra o homem são os extremos da Natureza. Antes da Revolução Copernicana, assustava o homem a total falta de controle que este possuía sobre a Natureza. A cada descoberta que parecia diminuir o maior poder sobre os eventos físicos que este julgava possuir (a religião e suas rezas e simpatia), imediatamente a Igreja, travestida de poder divino sobre a Terra, tratava de tentar manter a antiga crendice ainda em voga, sem alterar o seu poder. Foi contra essa força que se defrontaram os trágicos destinos de Giordano Bruno, Galileu Galilei, Abelardo, DeMolay, Miguel Servet et tutti quanti. Não era, portanto, uma boa hora para inventar a ficção científica.

Este é o extremo negativo, da falta de controle do homem sobre o mundo. E, por mais que nos soe primitivo hoje, ainda está bastante vivo: basta pensar nas discussões que são suscitadas quando se nega o livre-arbítrio do homem, por exemplo, provocando choques até em empedernidos seculares, encarando a falta de controle sobre si próprios.

Porém, com os avanços que o Renascimento e o humanismo legaram, em poucos séculos chegou-se a um novo assombro: o excesso de controle do homem sobre o mundo, inclusive assuntos considerados tabus: desde uma nova explicação sobre a origem da vida até a sua manipulação.

frankenstein.jpgNão é coincidência então ver que logo após a publicação de A Origem das Espécies veio uma obra como o Frankenstein, onde o grande horror era o homem atingindo um novo limiar de sua sabedori, a criação da vida (já não entendida mais como uma "mágica" divina), e não sabendo lidar com as conseqüências mais inescapáveis dessa busca desenfreada por conhecimento (não é sem razão que o monstro aprende a ler com o Fausto de Goethe). Mesmo o contemporâneo Drácula recai nesse viés, com o vampiro romeno representando a antiga ordem de demônios sobrenaturais, perdendo para a nova explicação científica e tecnológica encarnada por Van Helsing.

A ficção científica, portanto, até princípios do séc. XX, estava sempre em dia com a última grande descoberta científica e, assombrada, tentava prever, em tons felizes, aventurescos ou de desespero admoestador, para onde a luz da ciência nos levaria.

A contribuição de Júlio Verne

Julio Verne surge exatamente nesse período vitoriano pós-Revolução Industrial, em que a tecnologia e a ciência, antes confinadas a laboratórios e Universidades, tinha seus efeitos transparecendo no dia-a-dia. Extremo estudioso, foi capaz de adivinhar com precisão, em sua obra Viagem ao Centro da Terra, como eram as camadas no interior do planeta (uma viagem mil vezes mais complicada do que a viagem à Lua (tanto que ainda não foi realizada) - e, pior, praticamente um século antes de possuirmos um claro entendimento (ou "prova") de como é, de fato, o interior do planeta.

Seus contemporâneos foram notáveis por esse caráter visionário, que "adivinhava" para onde a tecnologia iria evoluir. Tal como da Vinci, foram notáveis imaginando submarinos (Vinte Mil Léguas Submarinas), robôs (toda a obra de Asimov), foguetes espaciais (Viagem à Lua, ou mesmo o estranho conto A Aventura Sem Paralelo de um tal Hans Pfaal).

cpt_nemo.jpegNo entanto, deve-se notar o tom aventuresco de tais narrativas. Algumas simplesmente brincam com a imaginação de uma nova descoberta fantástica, outras lidam com as novas e complexas questões éticas que a ciência, sobretudo a Física, estavam deixando de herança, como a capacidade do homem vencer adversidades climáticas, se adaptar a ambientes extremos, seja nos pólos do planeta ou no fundo do mar, e desenvolver tecnologias que definiriam os rumos da humanidade - da locomotiva a vapor à bomba atômica.

É encontrando um valor global para cada aventura particular que esses livros possuem valor, mesmo para o público pouco afeito à ciência - e como a confirmar essa própria premissa, tais livros marcaram mesmo aqueles que não os leram. É por esta razão que Aldous Huxley lamenta ter usado um elevador de propulsão mecânica em sua distopia Admirável Mundo Novo, quando o conflito que pautou o mundo e foi apresentado alguns anos depois do livro ser lançado foi o uso da energia nuclear.

As aventuras do professor Lidenbrock em companhia do jovem Axel rumo ao centro da Terra possuem dois personagens, mas seu valor toca em toda a humanidade que habita a crosta do planeta. A ficção moderna, como um Lost, pode multiplicar por 20 o número de personagens que, ainda assim, seu enredo dirá respeito basicamente àqueles personagens.

A diferença fundamental da ficção científica vitoriana para a contemporânea, portanto, é que, enquanto aquela lidava com os rumos que a ciência estava trilhando, deixando conseqüências para TODA a humanidade (mesmo aquela população que não saberia o que é um átomo), a última enfrentou um novo choque que fez seus rumos tangenciarem em outra direção.

Darwin e Einstein: humanos, demasiadamente humanos

Neste cenário, a obra de Darwin veio a trazer um novo significado ao assombro científico, e com isso a ficção científica virou do avesso.

Se o tom aventuresco ditava as encruzilhadas científicas, o confronto de Darwin com a religião, um dos últimos resquícios de Inquisição ainda presentes (e mais vivos do que nunca), acabou com o romance épico.

Em Asimov qualquer história particular com uns poucos personagens às voltas com robôs diz respeito ao confronto que toda a cultura teria de enfrentar - como, por exemplo, a inteligência artificial, a possível capacidade de se criar um robô com sentimentos ou, o conflito que pautará ainda o século XXI, a origem não mais da vida, mas da consciencia. São preocupações rigorosamente científicas, e pouco que esbarram com valores religiosos não são dignos de atrair olhares adversos da igreja para assuntos além de sua alçada.

Como criar um novo romance de aventura, quando a fronteira trespassada pela ciência diz respeito não mais aos limites físicos que um homem (talvez um único personagem) podem suplantar, mas sim a uma nova forma de encarar nossas origens passadas? Como fazer uma história, e apenas uma, condensada, com este enredo?

Sobretudo, se alguns séculos de humanismo, com a Igreja enfraquecida, permitiram tantos avanços científicos, pois o conhecimento secular não estava indo de choque aos valores eclesiásticos, como lidar com uma nova caça às bruxas propagada pelo maior golpe que o Cristianismo sofrera desde o heliocentrismo, só admitido pela igreja há poucos anos?

darwin.jpgMas não será que é de uma história que se precise para o darwinismo ser finalmente aceito? O criacionismo nunca existiu - foi apenas um nome inventado às pressas para dar um tom de ciência à velha crença de que a vida teria surgido por mágica. Apenas é uma reação rasa ao evolucionismo. Mas não se combate uma mitologia com explicações científicas: será que um romance, como aquelas chocantes aventuras do Capitão Nemo ou Phileas Fogg, que, por arroubos estésicos, mostraria a beleza do mundo darwinista para os leigos em equações malthusianas e biologia molecular? Se os argumentos criacionistas são pura estética, sem fundamento, por que não apresentar os argumentos evolucionistas... e com estética, ao invés de discussões infrutíferas by Dawkins e companhia?

O único autor a chegar perto de fazer algo próximo de um grande romanec (pois assim pode ser entedida toa a sua obra) com Darwin foi H. P. Lovecraft. Porém, deu um passo extra no darwinismo e criou seus próprios Deuses Antigos - uma mitologia tão clara que, não por acaso, foi apelidada de mythos pelos vários autores que seguiram seus passos.

Einstein, por outro lado, não sofreu perseguição religiosa com sua teoria. Porém, os rumos que ela deu à ficção científica, pelo exposto acompanhamento histórico dos seus autores, deu-se mais à respeito das implicações da bomba atômica - que foi uma conseqüência de suas teorias.

A teoria da relatividade, pouco usada na ficção (geralmente como acessório, como para "explicar" como naves espaciais podem fazer coisas impossíveis em uma ficção de terceiro escalão como Perry Rhodan), foi responsável, por outro lado, e um tanto quanto involuntariamente, por determinar um novo rumo para a ficção científica: o peso moral.

A não tão moderna ficção científica pós-moderna

Hoje, a ficção científica equilibra-se sobre dois pólos: o primeiro, uma volta às questões morais comuns à ficção de horror, mas agora não mais como críticas às possíveis conseqüências incontroláveis que a ciência (aquela, feita por cientistas anti-sociais em seus laboratórios mirabolantes) tomaria, mas sim as questões morais da sociedade: hiper-população, ecologia, racismo (em que a genética é apenas uma aliada de preconceitos anteriores, como é o caso de Gattaca).

Mesmo as distopias não falam mais, como em Júlio Verne, de um novo patamar alcançado pelo homem, conhecedor e vaidoso: diz mais respeito às conseqüências que algumas tecnologias podem ter na sociedade. Um livro como Make Room! Make Room!, que gerou o filme Soylent Green, descreve um mundo hiperpopuloso, em que a úinca comida disponível para as massas é um composto de algas com o nome de Soylent Green. Um assassinato ocorre e descobre-se que foi consumido um alimento proibido: um raríssimo e caríssimo pedaço de morango foi encontrado em uma colher.

Esse tipo de ficção, mesmo lidando com temas "de cientistas" (no século da biologia e em que naves espaciais já encheram o saco, basta zapear por canais de série para ver inúmeras tratando de clonagem, zumbis e experimentox-files.jpgs com genéticas, mas ainda ver como séries médicas sem ficção ganham disparadas em audiência), suas implicações dizem respeito a um evento possível, mas isolado - ou simplesmente aos personagens e experimentos dados pela trama. Mesmo uma série de quadrinhso como Watchmen teve como evento científico um acidente com o Dr. Manhattan completamente irreproduzível - enquanto o caráter "global" da obra dizia respeito às ideologias que dariam um fim à Guerra Fria, sem uma conexão inescapável com as novas "descobertas" científicas.

Júlio Verne continuará eterno por ser universal. A nossa ficção científica contemporânea pode ter seus méritos, mas ainda precisa tocar no coração da Humanidade, e não apenas do público que parou para assisti-la, para merecer um lugar junto a ele.