terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Depois de Júlio Verne, para onde vai a ficção científica?

Hoje, fazendo 183 anos do nascimento de Júlio Verne (1828-1905), cabe perguntar para onde vai o gênero que este autor genial levou às bordas da perfeição junto a nomes como H. G. Wells, isaac Asimov, e Philip K. Dick's: a ficção científica.

Para entender o gênero, é necessário compreender os desenvolvimentos da própria história da ciência. É matéria para dedicados e apaixonados pelo tema. E a primeira coisa a saber é que, tal como Aristóteles definiu o princípio da filosofia, a ficção científica surge do assombro que novas descobertas científicas causam. Seguindo a famosa frase de Arthur C. Clark: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

Não foram, portanto, as incipientes especulações escolásticas e mesmo a retomada do rigor secular renascentista da ciência que assombraram os homens - sem uma Revolução Industrial, mesmo com Galileu e Newton, quem ainda assustava a humanidade era a religião e seus demônios.

julioverne.jpgOu tal assertiva possa ser verdadeira apenas parcialmente: o que assombra o homem são os extremos da Natureza. Antes da Revolução Copernicana, assustava o homem a total falta de controle que este possuía sobre a Natureza. A cada descoberta que parecia diminuir o maior poder sobre os eventos físicos que este julgava possuir (a religião e suas rezas e simpatia), imediatamente a Igreja, travestida de poder divino sobre a Terra, tratava de tentar manter a antiga crendice ainda em voga, sem alterar o seu poder. Foi contra essa força que se defrontaram os trágicos destinos de Giordano Bruno, Galileu Galilei, Abelardo, DeMolay, Miguel Servet et tutti quanti. Não era, portanto, uma boa hora para inventar a ficção científica.

Este é o extremo negativo, da falta de controle do homem sobre o mundo. E, por mais que nos soe primitivo hoje, ainda está bastante vivo: basta pensar nas discussões que são suscitadas quando se nega o livre-arbítrio do homem, por exemplo, provocando choques até em empedernidos seculares, encarando a falta de controle sobre si próprios.

Porém, com os avanços que o Renascimento e o humanismo legaram, em poucos séculos chegou-se a um novo assombro: o excesso de controle do homem sobre o mundo, inclusive assuntos considerados tabus: desde uma nova explicação sobre a origem da vida até a sua manipulação.

frankenstein.jpgNão é coincidência então ver que logo após a publicação de A Origem das Espécies veio uma obra como o Frankenstein, onde o grande horror era o homem atingindo um novo limiar de sua sabedori, a criação da vida (já não entendida mais como uma "mágica" divina), e não sabendo lidar com as conseqüências mais inescapáveis dessa busca desenfreada por conhecimento (não é sem razão que o monstro aprende a ler com o Fausto de Goethe). Mesmo o contemporâneo Drácula recai nesse viés, com o vampiro romeno representando a antiga ordem de demônios sobrenaturais, perdendo para a nova explicação científica e tecnológica encarnada por Van Helsing.

A ficção científica, portanto, até princípios do séc. XX, estava sempre em dia com a última grande descoberta científica e, assombrada, tentava prever, em tons felizes, aventurescos ou de desespero admoestador, para onde a luz da ciência nos levaria.

A contribuição de Júlio Verne

Julio Verne surge exatamente nesse período vitoriano pós-Revolução Industrial, em que a tecnologia e a ciência, antes confinadas a laboratórios e Universidades, tinha seus efeitos transparecendo no dia-a-dia. Extremo estudioso, foi capaz de adivinhar com precisão, em sua obra Viagem ao Centro da Terra, como eram as camadas no interior do planeta (uma viagem mil vezes mais complicada do que a viagem à Lua (tanto que ainda não foi realizada) - e, pior, praticamente um século antes de possuirmos um claro entendimento (ou "prova") de como é, de fato, o interior do planeta.

Seus contemporâneos foram notáveis por esse caráter visionário, que "adivinhava" para onde a tecnologia iria evoluir. Tal como da Vinci, foram notáveis imaginando submarinos (Vinte Mil Léguas Submarinas), robôs (toda a obra de Asimov), foguetes espaciais (Viagem à Lua, ou mesmo o estranho conto A Aventura Sem Paralelo de um tal Hans Pfaal).

cpt_nemo.jpegNo entanto, deve-se notar o tom aventuresco de tais narrativas. Algumas simplesmente brincam com a imaginação de uma nova descoberta fantástica, outras lidam com as novas e complexas questões éticas que a ciência, sobretudo a Física, estavam deixando de herança, como a capacidade do homem vencer adversidades climáticas, se adaptar a ambientes extremos, seja nos pólos do planeta ou no fundo do mar, e desenvolver tecnologias que definiriam os rumos da humanidade - da locomotiva a vapor à bomba atômica.

É encontrando um valor global para cada aventura particular que esses livros possuem valor, mesmo para o público pouco afeito à ciência - e como a confirmar essa própria premissa, tais livros marcaram mesmo aqueles que não os leram. É por esta razão que Aldous Huxley lamenta ter usado um elevador de propulsão mecânica em sua distopia Admirável Mundo Novo, quando o conflito que pautou o mundo e foi apresentado alguns anos depois do livro ser lançado foi o uso da energia nuclear.

As aventuras do professor Lidenbrock em companhia do jovem Axel rumo ao centro da Terra possuem dois personagens, mas seu valor toca em toda a humanidade que habita a crosta do planeta. A ficção moderna, como um Lost, pode multiplicar por 20 o número de personagens que, ainda assim, seu enredo dirá respeito basicamente àqueles personagens.

A diferença fundamental da ficção científica vitoriana para a contemporânea, portanto, é que, enquanto aquela lidava com os rumos que a ciência estava trilhando, deixando conseqüências para TODA a humanidade (mesmo aquela população que não saberia o que é um átomo), a última enfrentou um novo choque que fez seus rumos tangenciarem em outra direção.

Darwin e Einstein: humanos, demasiadamente humanos

Neste cenário, a obra de Darwin veio a trazer um novo significado ao assombro científico, e com isso a ficção científica virou do avesso.

Se o tom aventuresco ditava as encruzilhadas científicas, o confronto de Darwin com a religião, um dos últimos resquícios de Inquisição ainda presentes (e mais vivos do que nunca), acabou com o romance épico.

Em Asimov qualquer história particular com uns poucos personagens às voltas com robôs diz respeito ao confronto que toda a cultura teria de enfrentar - como, por exemplo, a inteligência artificial, a possível capacidade de se criar um robô com sentimentos ou, o conflito que pautará ainda o século XXI, a origem não mais da vida, mas da consciencia. São preocupações rigorosamente científicas, e pouco que esbarram com valores religiosos não são dignos de atrair olhares adversos da igreja para assuntos além de sua alçada.

Como criar um novo romance de aventura, quando a fronteira trespassada pela ciência diz respeito não mais aos limites físicos que um homem (talvez um único personagem) podem suplantar, mas sim a uma nova forma de encarar nossas origens passadas? Como fazer uma história, e apenas uma, condensada, com este enredo?

Sobretudo, se alguns séculos de humanismo, com a Igreja enfraquecida, permitiram tantos avanços científicos, pois o conhecimento secular não estava indo de choque aos valores eclesiásticos, como lidar com uma nova caça às bruxas propagada pelo maior golpe que o Cristianismo sofrera desde o heliocentrismo, só admitido pela igreja há poucos anos?

darwin.jpgMas não será que é de uma história que se precise para o darwinismo ser finalmente aceito? O criacionismo nunca existiu - foi apenas um nome inventado às pressas para dar um tom de ciência à velha crença de que a vida teria surgido por mágica. Apenas é uma reação rasa ao evolucionismo. Mas não se combate uma mitologia com explicações científicas: será que um romance, como aquelas chocantes aventuras do Capitão Nemo ou Phileas Fogg, que, por arroubos estésicos, mostraria a beleza do mundo darwinista para os leigos em equações malthusianas e biologia molecular? Se os argumentos criacionistas são pura estética, sem fundamento, por que não apresentar os argumentos evolucionistas... e com estética, ao invés de discussões infrutíferas by Dawkins e companhia?

O único autor a chegar perto de fazer algo próximo de um grande romanec (pois assim pode ser entedida toa a sua obra) com Darwin foi H. P. Lovecraft. Porém, deu um passo extra no darwinismo e criou seus próprios Deuses Antigos - uma mitologia tão clara que, não por acaso, foi apelidada de mythos pelos vários autores que seguiram seus passos.

Einstein, por outro lado, não sofreu perseguição religiosa com sua teoria. Porém, os rumos que ela deu à ficção científica, pelo exposto acompanhamento histórico dos seus autores, deu-se mais à respeito das implicações da bomba atômica - que foi uma conseqüência de suas teorias.

A teoria da relatividade, pouco usada na ficção (geralmente como acessório, como para "explicar" como naves espaciais podem fazer coisas impossíveis em uma ficção de terceiro escalão como Perry Rhodan), foi responsável, por outro lado, e um tanto quanto involuntariamente, por determinar um novo rumo para a ficção científica: o peso moral.

A não tão moderna ficção científica pós-moderna

Hoje, a ficção científica equilibra-se sobre dois pólos: o primeiro, uma volta às questões morais comuns à ficção de horror, mas agora não mais como críticas às possíveis conseqüências incontroláveis que a ciência (aquela, feita por cientistas anti-sociais em seus laboratórios mirabolantes) tomaria, mas sim as questões morais da sociedade: hiper-população, ecologia, racismo (em que a genética é apenas uma aliada de preconceitos anteriores, como é o caso de Gattaca).

Mesmo as distopias não falam mais, como em Júlio Verne, de um novo patamar alcançado pelo homem, conhecedor e vaidoso: diz mais respeito às conseqüências que algumas tecnologias podem ter na sociedade. Um livro como Make Room! Make Room!, que gerou o filme Soylent Green, descreve um mundo hiperpopuloso, em que a úinca comida disponível para as massas é um composto de algas com o nome de Soylent Green. Um assassinato ocorre e descobre-se que foi consumido um alimento proibido: um raríssimo e caríssimo pedaço de morango foi encontrado em uma colher.

Esse tipo de ficção, mesmo lidando com temas "de cientistas" (no século da biologia e em que naves espaciais já encheram o saco, basta zapear por canais de série para ver inúmeras tratando de clonagem, zumbis e experimentox-files.jpgs com genéticas, mas ainda ver como séries médicas sem ficção ganham disparadas em audiência), suas implicações dizem respeito a um evento possível, mas isolado - ou simplesmente aos personagens e experimentos dados pela trama. Mesmo uma série de quadrinhso como Watchmen teve como evento científico um acidente com o Dr. Manhattan completamente irreproduzível - enquanto o caráter "global" da obra dizia respeito às ideologias que dariam um fim à Guerra Fria, sem uma conexão inescapável com as novas "descobertas" científicas.

Júlio Verne continuará eterno por ser universal. A nossa ficção científica contemporânea pode ter seus méritos, mas ainda precisa tocar no coração da Humanidade, e não apenas do público que parou para assisti-la, para merecer um lugar junto a ele.

1 pessoas leram e discordaram:

Anônimo disse...

É preciso estudar mais...

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Depois de Júlio Verne, para onde vai a ficção científica?


Hoje, fazendo 183 anos do nascimento de Júlio Verne (1828-1905), cabe perguntar para onde vai o gênero que este autor genial levou às bordas da perfeição junto a nomes como H. G. Wells, isaac Asimov, e Philip K. Dick's: a ficção científica.

Para entender o gênero, é necessário compreender os desenvolvimentos da própria história da ciência. É matéria para dedicados e apaixonados pelo tema. E a primeira coisa a saber é que, tal como Aristóteles definiu o princípio da filosofia, a ficção científica surge do assombro que novas descobertas científicas causam. Seguindo a famosa frase de Arthur C. Clark: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

Não foram, portanto, as incipientes especulações escolásticas e mesmo a retomada do rigor secular renascentista da ciência que assombraram os homens - sem uma Revolução Industrial, mesmo com Galileu e Newton, quem ainda assustava a humanidade era a religião e seus demônios.

julioverne.jpgOu tal assertiva possa ser verdadeira apenas parcialmente: o que assombra o homem são os extremos da Natureza. Antes da Revolução Copernicana, assustava o homem a total falta de controle que este possuía sobre a Natureza. A cada descoberta que parecia diminuir o maior poder sobre os eventos físicos que este julgava possuir (a religião e suas rezas e simpatia), imediatamente a Igreja, travestida de poder divino sobre a Terra, tratava de tentar manter a antiga crendice ainda em voga, sem alterar o seu poder. Foi contra essa força que se defrontaram os trágicos destinos de Giordano Bruno, Galileu Galilei, Abelardo, DeMolay, Miguel Servet et tutti quanti. Não era, portanto, uma boa hora para inventar a ficção científica.

Este é o extremo negativo, da falta de controle do homem sobre o mundo. E, por mais que nos soe primitivo hoje, ainda está bastante vivo: basta pensar nas discussões que são suscitadas quando se nega o livre-arbítrio do homem, por exemplo, provocando choques até em empedernidos seculares, encarando a falta de controle sobre si próprios.

Porém, com os avanços que o Renascimento e o humanismo legaram, em poucos séculos chegou-se a um novo assombro: o excesso de controle do homem sobre o mundo, inclusive assuntos considerados tabus: desde uma nova explicação sobre a origem da vida até a sua manipulação.

frankenstein.jpgNão é coincidência então ver que logo após a publicação de A Origem das Espécies veio uma obra como o Frankenstein, onde o grande horror era o homem atingindo um novo limiar de sua sabedori, a criação da vida (já não entendida mais como uma "mágica" divina), e não sabendo lidar com as conseqüências mais inescapáveis dessa busca desenfreada por conhecimento (não é sem razão que o monstro aprende a ler com o Fausto de Goethe). Mesmo o contemporâneo Drácula recai nesse viés, com o vampiro romeno representando a antiga ordem de demônios sobrenaturais, perdendo para a nova explicação científica e tecnológica encarnada por Van Helsing.

A ficção científica, portanto, até princípios do séc. XX, estava sempre em dia com a última grande descoberta científica e, assombrada, tentava prever, em tons felizes, aventurescos ou de desespero admoestador, para onde a luz da ciência nos levaria.

A contribuição de Júlio Verne

Julio Verne surge exatamente nesse período vitoriano pós-Revolução Industrial, em que a tecnologia e a ciência, antes confinadas a laboratórios e Universidades, tinha seus efeitos transparecendo no dia-a-dia. Extremo estudioso, foi capaz de adivinhar com precisão, em sua obra Viagem ao Centro da Terra, como eram as camadas no interior do planeta (uma viagem mil vezes mais complicada do que a viagem à Lua (tanto que ainda não foi realizada) - e, pior, praticamente um século antes de possuirmos um claro entendimento (ou "prova") de como é, de fato, o interior do planeta.

Seus contemporâneos foram notáveis por esse caráter visionário, que "adivinhava" para onde a tecnologia iria evoluir. Tal como da Vinci, foram notáveis imaginando submarinos (Vinte Mil Léguas Submarinas), robôs (toda a obra de Asimov), foguetes espaciais (Viagem à Lua, ou mesmo o estranho conto A Aventura Sem Paralelo de um tal Hans Pfaal).

cpt_nemo.jpegNo entanto, deve-se notar o tom aventuresco de tais narrativas. Algumas simplesmente brincam com a imaginação de uma nova descoberta fantástica, outras lidam com as novas e complexas questões éticas que a ciência, sobretudo a Física, estavam deixando de herança, como a capacidade do homem vencer adversidades climáticas, se adaptar a ambientes extremos, seja nos pólos do planeta ou no fundo do mar, e desenvolver tecnologias que definiriam os rumos da humanidade - da locomotiva a vapor à bomba atômica.

É encontrando um valor global para cada aventura particular que esses livros possuem valor, mesmo para o público pouco afeito à ciência - e como a confirmar essa própria premissa, tais livros marcaram mesmo aqueles que não os leram. É por esta razão que Aldous Huxley lamenta ter usado um elevador de propulsão mecânica em sua distopia Admirável Mundo Novo, quando o conflito que pautou o mundo e foi apresentado alguns anos depois do livro ser lançado foi o uso da energia nuclear.

As aventuras do professor Lidenbrock em companhia do jovem Axel rumo ao centro da Terra possuem dois personagens, mas seu valor toca em toda a humanidade que habita a crosta do planeta. A ficção moderna, como um Lost, pode multiplicar por 20 o número de personagens que, ainda assim, seu enredo dirá respeito basicamente àqueles personagens.

A diferença fundamental da ficção científica vitoriana para a contemporânea, portanto, é que, enquanto aquela lidava com os rumos que a ciência estava trilhando, deixando conseqüências para TODA a humanidade (mesmo aquela população que não saberia o que é um átomo), a última enfrentou um novo choque que fez seus rumos tangenciarem em outra direção.

Darwin e Einstein: humanos, demasiadamente humanos

Neste cenário, a obra de Darwin veio a trazer um novo significado ao assombro científico, e com isso a ficção científica virou do avesso.

Se o tom aventuresco ditava as encruzilhadas científicas, o confronto de Darwin com a religião, um dos últimos resquícios de Inquisição ainda presentes (e mais vivos do que nunca), acabou com o romance épico.

Em Asimov qualquer história particular com uns poucos personagens às voltas com robôs diz respeito ao confronto que toda a cultura teria de enfrentar - como, por exemplo, a inteligência artificial, a possível capacidade de se criar um robô com sentimentos ou, o conflito que pautará ainda o século XXI, a origem não mais da vida, mas da consciencia. São preocupações rigorosamente científicas, e pouco que esbarram com valores religiosos não são dignos de atrair olhares adversos da igreja para assuntos além de sua alçada.

Como criar um novo romance de aventura, quando a fronteira trespassada pela ciência diz respeito não mais aos limites físicos que um homem (talvez um único personagem) podem suplantar, mas sim a uma nova forma de encarar nossas origens passadas? Como fazer uma história, e apenas uma, condensada, com este enredo?

Sobretudo, se alguns séculos de humanismo, com a Igreja enfraquecida, permitiram tantos avanços científicos, pois o conhecimento secular não estava indo de choque aos valores eclesiásticos, como lidar com uma nova caça às bruxas propagada pelo maior golpe que o Cristianismo sofrera desde o heliocentrismo, só admitido pela igreja há poucos anos?

darwin.jpgMas não será que é de uma história que se precise para o darwinismo ser finalmente aceito? O criacionismo nunca existiu - foi apenas um nome inventado às pressas para dar um tom de ciência à velha crença de que a vida teria surgido por mágica. Apenas é uma reação rasa ao evolucionismo. Mas não se combate uma mitologia com explicações científicas: será que um romance, como aquelas chocantes aventuras do Capitão Nemo ou Phileas Fogg, que, por arroubos estésicos, mostraria a beleza do mundo darwinista para os leigos em equações malthusianas e biologia molecular? Se os argumentos criacionistas são pura estética, sem fundamento, por que não apresentar os argumentos evolucionistas... e com estética, ao invés de discussões infrutíferas by Dawkins e companhia?

O único autor a chegar perto de fazer algo próximo de um grande romanec (pois assim pode ser entedida toa a sua obra) com Darwin foi H. P. Lovecraft. Porém, deu um passo extra no darwinismo e criou seus próprios Deuses Antigos - uma mitologia tão clara que, não por acaso, foi apelidada de mythos pelos vários autores que seguiram seus passos.

Einstein, por outro lado, não sofreu perseguição religiosa com sua teoria. Porém, os rumos que ela deu à ficção científica, pelo exposto acompanhamento histórico dos seus autores, deu-se mais à respeito das implicações da bomba atômica - que foi uma conseqüência de suas teorias.

A teoria da relatividade, pouco usada na ficção (geralmente como acessório, como para "explicar" como naves espaciais podem fazer coisas impossíveis em uma ficção de terceiro escalão como Perry Rhodan), foi responsável, por outro lado, e um tanto quanto involuntariamente, por determinar um novo rumo para a ficção científica: o peso moral.

A não tão moderna ficção científica pós-moderna

Hoje, a ficção científica equilibra-se sobre dois pólos: o primeiro, uma volta às questões morais comuns à ficção de horror, mas agora não mais como críticas às possíveis conseqüências incontroláveis que a ciência (aquela, feita por cientistas anti-sociais em seus laboratórios mirabolantes) tomaria, mas sim as questões morais da sociedade: hiper-população, ecologia, racismo (em que a genética é apenas uma aliada de preconceitos anteriores, como é o caso de Gattaca).

Mesmo as distopias não falam mais, como em Júlio Verne, de um novo patamar alcançado pelo homem, conhecedor e vaidoso: diz mais respeito às conseqüências que algumas tecnologias podem ter na sociedade. Um livro como Make Room! Make Room!, que gerou o filme Soylent Green, descreve um mundo hiperpopuloso, em que a úinca comida disponível para as massas é um composto de algas com o nome de Soylent Green. Um assassinato ocorre e descobre-se que foi consumido um alimento proibido: um raríssimo e caríssimo pedaço de morango foi encontrado em uma colher.

Esse tipo de ficção, mesmo lidando com temas "de cientistas" (no século da biologia e em que naves espaciais já encheram o saco, basta zapear por canais de série para ver inúmeras tratando de clonagem, zumbis e experimentox-files.jpgs com genéticas, mas ainda ver como séries médicas sem ficção ganham disparadas em audiência), suas implicações dizem respeito a um evento possível, mas isolado - ou simplesmente aos personagens e experimentos dados pela trama. Mesmo uma série de quadrinhso como Watchmen teve como evento científico um acidente com o Dr. Manhattan completamente irreproduzível - enquanto o caráter "global" da obra dizia respeito às ideologias que dariam um fim à Guerra Fria, sem uma conexão inescapável com as novas "descobertas" científicas.

Júlio Verne continuará eterno por ser universal. A nossa ficção científica contemporânea pode ter seus méritos, mas ainda precisa tocar no coração da Humanidade, e não apenas do público que parou para assisti-la, para merecer um lugar junto a ele.

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Anônimo disse...

É preciso estudar mais...

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