terça-feira, 11 de janeiro de 2011

3 motivos para se ler Michel Houellebecq

— Tenho como pagar uma puta por semana. Sábado à noite, seria ótimo. Talvez eu acabe por fazer isso. Mas sei que alguns homens podem ter a mesma coisa gratuitamente, e além disso com amor. Prefiro tentar. Por ora, prefiro tentar.

Não pude, claramente, responder-lhe nada, mas voltei pro hotel bastante pensativo. Realmente, eu me dizia, em nossas sociedades o sexo representa, clara e abertamente, um segundo sistema de diferenciação, completamente independente do dinheiro; e se comporta como um sistema de diferenciação no mínimo tão impiedoso quanto o outro. Os efeitos desses dois sistemas são, de resto, estritamente equivalentes. Assim como o liberalismo econômico sem freios, e por razões análogas, o liberalismo sexual produz fenômenos de pauperização absoluta. Alguns transam todos os dias; outros, cinco ou seis vezes na vida, ou nunca. Alguns transam com dezenas de mulheres; outros, com nenhuma. É isso que se chama de 'lei de mercado'.

Num sistema econômico em que a demissão é proibida, cada um consegue, de um jeito ou de outro, encontrar o seu lugar. No sistema sexual em que o adultério é proibido, cada um consegue, mal ou bem, encontrar o seu parceiro de cama. Num sistema econômico totalmente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros chafurdam no desemprego e na miséria. Num sistema sexual totalmente liberal, alguns têm uma vida erótica variada e excitante, enquanto outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo econômico é a extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano econômico, Raphaël Tisserand pertence ao campo dos vencedores; no plano sexual, ao dos vencidos. Alguns ganham nos dois campos; outros, perdem em ambos. As empresas disputam alguns jovens diplomados; as mulheres alguns rapazes; os homens disputam algumas garotas; a confusão e a agitação são enormes."


(A Extensão do Domínio da Luta, 1994)


O aperitivo, o momento de convivência do dia no Espaço de Recreação, estava amenizado com um pouco de música. Essa tarde, três tipos tocavam o tam tam para uns cinqüenta presentes que se mexiam agitando os braços em todas as direções. De certo se tratava de danças da colheita, que se haviam praticado em algumas oficinas de danças africanas. Quase sempre, ao cabo de algumas horas, alguns participantes caíam ou fingiam cair em um estado de transe. Em sentido literário ou obsoleto, o transe designa uma inquietude muito profunda, o medo ante a idéia de um perigo iminente. "Prefiro jogar a chave por debaixo da porta antes de seguir vivendo transes semelhantes" (Emile Zola).

Bruno ofereceu um copo de vinho de Charentes à católica. "Como te chamas?", perguntou. "Sophie", respondeu ela. "Não danças?", perguntou ele. "Não", respondeu ela, "As danças africanas não são as minhas preferidas, são demasiado..." Demasiado o quê? Ele compreendia o seu problema. Demasiado primitivas? Claro que não. Demasiado rítmicas? Já estava quase no limite do racismo. Era óbvio que não se podia dizer nada sobre aquelas porcarias de danças africanas.

Pobre Sophie, que queria fazer o melhor possível. Tinha uma cara bonita, com seu cabelo negro, seus olhos azuis e sua pele tão branca. Devia ter uns peitos pequenos, porém muito sensíveis. Devia ser bretã.

"És bretã?" perguntou. "Sim, de Saint Brieuc!", respondeu ela, alegremente. "Mas adoro as danças brasieiras...", emendou, evidentemente para se perdoar por não apreciar as danças africanas.

Isso bastou para exasperar Bruno. Já estava farto daquela estúpida mania pró brasileira. Por que o Brasil? Pelo que ele sabia, o Brasil era um país de merda, povoado por brutos fanáticos por futebol e corridas de carros. A violência, a corrupção e a miséria chegavam ao céu. Se havia um páis odioso era precisa e especificamente o Brasil.

"Sophie", exclamou Bruno com arrebatação, "Poderia ir de férias ao Brasil. Passearia entre as favelas, em um ônibus blindado. Observaria os pequenos assassinos de oito anos, que sonham em chegar a chefes; as pequenas putas que morrem de AIDS aos treze anos. Não teria medo, porque a blindagem me protegeria. Isso, pelas manhãs; às tardes iria à praia entre riquíssimos traficantes de drogas e gigolôs. Em meio a essa vida desordenada, no meio de tanta urgência, esqueceria a melancolia do homeme ocidental. Sophie, tens razão: assim que voltar, vou pedir informação em uma agência da Nouvelles Frontières."

Sophie se virou olhando com cara pensativa e um vinco de preocupção na fronte. "Deves ter sofrido muito", disse ao final, com tristeza.

"Sophie", voltou a exclamar Bruno, "Sabe o que Nietzsche escreveu sobre Shakespeare? 'O que esse homem teve de sofrer para ter a necessidade de bancar o palhaço! Shakespeare sempre me pareceu um autor hipervalorizado; mas ainda assim, um palhaço notável'." Se interrompeu e e se deu conta com assombro de que estava começando a sofrer de verdade.

As mulheres, às vezes, eram tão amáveis... contestavam a agressividade com compreensão, o cinismo com doçura. Que homem se portaria assim? "Sophie, eu quero chupar a tua xoxota...", disse com emoção; mas desta vez ela não lhe olhou. Havia se voltado ao monitor de esqui que esfregou sua bunda três dias antes e havia começando a conversar com ele.

Bruno ficou desconcertado alguns segundos; logo cruzou de novo o gramado em direção ao apartamento.


(Partículas Elementares, 1998)


"Passei meu último dia de licença em diversas agências de viagem. Gostava dos folhetos de férias, sua abstração, seu modo de reduzir os lugares do mundo a uma seqüência limitada de felicidades possíveis e de tarifas; apreciava em especial o sistema de estrelas, para indicar a intensidade da felicidade que se podia esperar. Eu não era feliz, mas apreciava a felicidade e continuava a pretendê-la. Segundo o modelo de Marshall, o comprador é um indivíduo que procura maximizar a sua satisfação em relação ao preço; o modelo de Veblen, ao contrário, analisa a influência do grupo no processo da compra (avaliando se o indivíduo deseja se identificar com ele ou então afastar-se). O modelo de Copeland demonstra que o processo de compra é diferente segundo a categoria produto/serviço (compra habitual, compra refletida, compra especializada); já o modelo Baudrillard-Becker considera que consumir é também produzir signos. No fundo, eu me sentia mais proximo do modelo de Marshall."


(Plataforma, 2001)

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

3 motivos para se ler Michel Houellebecq


— Tenho como pagar uma puta por semana. Sábado à noite, seria ótimo. Talvez eu acabe por fazer isso. Mas sei que alguns homens podem ter a mesma coisa gratuitamente, e além disso com amor. Prefiro tentar. Por ora, prefiro tentar.

Não pude, claramente, responder-lhe nada, mas voltei pro hotel bastante pensativo. Realmente, eu me dizia, em nossas sociedades o sexo representa, clara e abertamente, um segundo sistema de diferenciação, completamente independente do dinheiro; e se comporta como um sistema de diferenciação no mínimo tão impiedoso quanto o outro. Os efeitos desses dois sistemas são, de resto, estritamente equivalentes. Assim como o liberalismo econômico sem freios, e por razões análogas, o liberalismo sexual produz fenômenos de pauperização absoluta. Alguns transam todos os dias; outros, cinco ou seis vezes na vida, ou nunca. Alguns transam com dezenas de mulheres; outros, com nenhuma. É isso que se chama de 'lei de mercado'.

Num sistema econômico em que a demissão é proibida, cada um consegue, de um jeito ou de outro, encontrar o seu lugar. No sistema sexual em que o adultério é proibido, cada um consegue, mal ou bem, encontrar o seu parceiro de cama. Num sistema econômico totalmente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros chafurdam no desemprego e na miséria. Num sistema sexual totalmente liberal, alguns têm uma vida erótica variada e excitante, enquanto outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo econômico é a extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano econômico, Raphaël Tisserand pertence ao campo dos vencedores; no plano sexual, ao dos vencidos. Alguns ganham nos dois campos; outros, perdem em ambos. As empresas disputam alguns jovens diplomados; as mulheres alguns rapazes; os homens disputam algumas garotas; a confusão e a agitação são enormes."


(A Extensão do Domínio da Luta, 1994)


O aperitivo, o momento de convivência do dia no Espaço de Recreação, estava amenizado com um pouco de música. Essa tarde, três tipos tocavam o tam tam para uns cinqüenta presentes que se mexiam agitando os braços em todas as direções. De certo se tratava de danças da colheita, que se haviam praticado em algumas oficinas de danças africanas. Quase sempre, ao cabo de algumas horas, alguns participantes caíam ou fingiam cair em um estado de transe. Em sentido literário ou obsoleto, o transe designa uma inquietude muito profunda, o medo ante a idéia de um perigo iminente. "Prefiro jogar a chave por debaixo da porta antes de seguir vivendo transes semelhantes" (Emile Zola).

Bruno ofereceu um copo de vinho de Charentes à católica. "Como te chamas?", perguntou. "Sophie", respondeu ela. "Não danças?", perguntou ele. "Não", respondeu ela, "As danças africanas não são as minhas preferidas, são demasiado..." Demasiado o quê? Ele compreendia o seu problema. Demasiado primitivas? Claro que não. Demasiado rítmicas? Já estava quase no limite do racismo. Era óbvio que não se podia dizer nada sobre aquelas porcarias de danças africanas.

Pobre Sophie, que queria fazer o melhor possível. Tinha uma cara bonita, com seu cabelo negro, seus olhos azuis e sua pele tão branca. Devia ter uns peitos pequenos, porém muito sensíveis. Devia ser bretã.

"És bretã?" perguntou. "Sim, de Saint Brieuc!", respondeu ela, alegremente. "Mas adoro as danças brasieiras...", emendou, evidentemente para se perdoar por não apreciar as danças africanas.

Isso bastou para exasperar Bruno. Já estava farto daquela estúpida mania pró brasileira. Por que o Brasil? Pelo que ele sabia, o Brasil era um país de merda, povoado por brutos fanáticos por futebol e corridas de carros. A violência, a corrupção e a miséria chegavam ao céu. Se havia um páis odioso era precisa e especificamente o Brasil.

"Sophie", exclamou Bruno com arrebatação, "Poderia ir de férias ao Brasil. Passearia entre as favelas, em um ônibus blindado. Observaria os pequenos assassinos de oito anos, que sonham em chegar a chefes; as pequenas putas que morrem de AIDS aos treze anos. Não teria medo, porque a blindagem me protegeria. Isso, pelas manhãs; às tardes iria à praia entre riquíssimos traficantes de drogas e gigolôs. Em meio a essa vida desordenada, no meio de tanta urgência, esqueceria a melancolia do homeme ocidental. Sophie, tens razão: assim que voltar, vou pedir informação em uma agência da Nouvelles Frontières."

Sophie se virou olhando com cara pensativa e um vinco de preocupção na fronte. "Deves ter sofrido muito", disse ao final, com tristeza.

"Sophie", voltou a exclamar Bruno, "Sabe o que Nietzsche escreveu sobre Shakespeare? 'O que esse homem teve de sofrer para ter a necessidade de bancar o palhaço! Shakespeare sempre me pareceu um autor hipervalorizado; mas ainda assim, um palhaço notável'." Se interrompeu e e se deu conta com assombro de que estava começando a sofrer de verdade.

As mulheres, às vezes, eram tão amáveis... contestavam a agressividade com compreensão, o cinismo com doçura. Que homem se portaria assim? "Sophie, eu quero chupar a tua xoxota...", disse com emoção; mas desta vez ela não lhe olhou. Havia se voltado ao monitor de esqui que esfregou sua bunda três dias antes e havia começando a conversar com ele.

Bruno ficou desconcertado alguns segundos; logo cruzou de novo o gramado em direção ao apartamento.


(Partículas Elementares, 1998)


"Passei meu último dia de licença em diversas agências de viagem. Gostava dos folhetos de férias, sua abstração, seu modo de reduzir os lugares do mundo a uma seqüência limitada de felicidades possíveis e de tarifas; apreciava em especial o sistema de estrelas, para indicar a intensidade da felicidade que se podia esperar. Eu não era feliz, mas apreciava a felicidade e continuava a pretendê-la. Segundo o modelo de Marshall, o comprador é um indivíduo que procura maximizar a sua satisfação em relação ao preço; o modelo de Veblen, ao contrário, analisa a influência do grupo no processo da compra (avaliando se o indivíduo deseja se identificar com ele ou então afastar-se). O modelo de Copeland demonstra que o processo de compra é diferente segundo a categoria produto/serviço (compra habitual, compra refletida, compra especializada); já o modelo Baudrillard-Becker considera que consumir é também produzir signos. No fundo, eu me sentia mais proximo do modelo de Marshall."


(Plataforma, 2001)

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