domingo, 28 de novembro de 2010

Sobre fascismos e fascismozinhos: uma solução liberal para a violência

“O que é então a lei? É a organização coletiva do direito individual de legítima defesa.” – Frédéric Bastiat

A frase mais famosa do economista francês Frédéric Bastiat é: “Não esperar senão duas coisas do Estado: liberdade e segurança, e ter bem claro que não se poderia pedir mais uma terceira coisa, sob o risco de perder as outras duas”.

Há explicação para a completa falta de compreensão da frase no Brasil: nunca tivemos algo que não fosse um Estado inchado e aparelhado. Antes mesmo de ter um governo, ou alguém a quem governar, já tínhamos um Estado: Tomé de Souza chegou aqui, com ministérios debaixo do braço, para governar uma colônia que ainda inexistia. Tínhamos Estado e jurisprudência para governar tamanduá, capivara, suçuarana e bicho-do-pé.

Elevando-se a interpretação para um patamar um pouco mais civilizado, poderíamos compreender a frase da seguinte forma: o governo nos deve garantir segurança, e tão-somente ela. Ao nos garantir a segurança, nos permitirá agir em liberdade em relação ao concidadão circunstante e também estaremos livres de ameaças não presentificadas a direitos mais abstratos: liberdade de expressão, de filiação, de ir e vir.

De um lado estão as ameaças derivadas de outros compatriotas: assaltantes, estupradores, seqüestradores. Em uma zona um tanto quanto imprecisa desta lista de ameaças, os traficantes – que, por um lado, nunca colocaram droga na mão de ninguém aqui embaixo, deixando que “amigos” mais progressistas, antenados e cabeça cuidassem da distribuição e consumo pelo nicho abastado da população. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo segurança.

Do outro lado, estão as ameaças que são impingidas pelo próprio Estado, através de governos inescrupulosos. Não importa quão boas sejam suas intenções locais e pontuais, como combater as mentiras e calúnias de um jornal: ao criar um mecanismo que cerceie a liberdade de imprensa para destruir uma atual indústria da mentira, ao deixar o governo, você pode estar deixando uma máquina de opressão que poderá ser pessimamente utilizada por seu sucessor menos escrupuloso e bonzinho. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo liberdade.

A rigor, o governo nos garantir liberdade significa: o governo não deve fazer nada que não seja voltado para a nossa segurança. O que não recai nessa alçada não é função do governo. Se exigirmos que qualquer ação além da garantia da segurança seja realizada pelo governo, perderemos a liberdade. Se quisermos que o governo nos garanta algo além da liberdade, perderemos a segurança (jurídica, econômica, política, eleitoral... basta analisar os escândalos envolvendo a promiscuidade estatal com empresas que jogaram bilhões no lixo, de Cacciola e Daniel Dantas a Lehman Brothers, Bear Stearns, Freddie Mac e Fannie Mae, só para ficar no inquestionável exemplo econômico).

Pior: criaremos uma casta superior – o burocrata governista, que pode definir quem tem seu direito á liberdade assistido e quem não tem. A liberdade deixa de ser um direito do cidadão e passa a ser uma garantia revogável do Estado, quase um favor que este faz em troca de bom comportamento – e quando se trata de o governante supor bom comportamento do governado, geralmente significa leniência e laxismo – caracterizando, por si só, coerção, o que é um atentado à liberdade e à segurança.

A frase de Bastiat ainda pode ser compreendida erroneamente como a busca de um termo pacífico de equilíbrio. Como expus, segurança e liberdade, às vezes, são entidades contrárias. É o pensamento da revolução francesa: Liberté e égalité são conceitos que se chocam: um meio-termo pacífico seria regular as ações pela fraternité. É o que faz com que cada crítica ao “sistema” que seja feita hoje em dia, por pouco contato com teorias que prestam, tentem jogar um pouco da culpa em cada um e, invocando a tal fraternité, creia que o mundo vai melhorar quando cada um colocar a mão em sua própria consciência e entender que é melhor pedir do que roubar. De Hollywood aos sociólogos da FFLCH, são os velhos conscientes de plantão.

Mas o que Bastiat propõe não é um meio-termo mediado entre segurança e liberdade. Para o pensador liberal, o papel do governo é garantir segurança. A liberdade, como vista, se dá negativamente: o governo a garante não fazendo alguma coisa, mas justamente não fazendo nada. Assim, garantem-se ambas, sem um falso e nevoento meio-termo a qual qualquer patife pode reivindicar para atentar contra um, o outro, ou ambos.

Por fim, resta entender que a segurança não se trata apenas de polícia. A princípio, porque pode-se não ter tempo para acioná-la quando uma ameaça surge – e, juntando liberdade e segurança, o cidadão pode ter o direito de reagir a uma ameaça assim que se sente ameaçado, sem precisar perder parte de sua segurança quando perde a liberdade de neutralizar o perigo da forma que lhe convém. Segurança e liberdade estão juntas contra o primeiro agressor.

Quando ambas entram em conflito, como no caso da violência generalizada (já que mesmo um seqüestrador, assassino ou estuprador é considerado “cidadão”), o Estado deve se pautar não por um meio-termo, como fazem nossos intelectuais: sua função é garantir a segurança. A liberdade é conseqüência direta de se garantir segurança. Se a polícia é honesta e efetiva, a pequena dose de liberdade que nos toma em um dia (como a de atravessarmos a rua sem sermos baleados) garantirá segurança sempiterna. O contrário destrói a segurança e, pior, deixa que a liberdade seja destruída não pelo governo, mas por outros circunstantes.

No entanto ambas dependem de mecanismos do governo para garantir que ações do cidadão (a famosa iniciativa privada, que no barbarismo parece ser faculdade apenas de milionários), como se matricular em uma faculdade ou abrir uma barraquinha de cachorro-quente, sejam efetuadas sem agressão aos outros, tenham segurança garantida contra agressores e cujos efeitos, lucros e danos sejam de responsabilidade apenas do seu criador.

Assim, o princípio de defesa da segurança liberal depende de garantir a segurança das ações pacíficas e a liberdade de resposta ao agressor – ambas as coisas garantem a liberdade que o governo, por qualquer ação afirmativa que tente, nunca irá garantir à população.

Como segurança custa caro, é comum que uma boa fatia do que se ganhe seja dada ao governo para fins de proteção do resto do montante. O inaceitável é ser coagido (atentado à liberdade) a ser tungado pelo governo num montante vultoso para fins nunca explicados – e que não garantem nenhuma forma de segurança.

...

O fim da violência

A Rocinha é uma área gigante, aberta, com uma vista maravilhosa, mão-de-obra barata e uma população gigantesca e crescente querendo trabalhar. Por que ela ainda não foi comprada? A resposta, de tão óbvia, surpreende: porque ela não está à venda.

É um lugar-comum da “crítica social” dizer que a violência grassa onde o Estado não chega. Como tudo aquilo que tem gosto de crítica, soa arcano, genial e fruto da mais engenhosa reflexão de estro próprio: na maioria dos casos, é a velha “crítica” que não passa de um clichê bobo de universitários. Estamos há uma semana ouvindo críticas à " mídia" e em suas respostas apenas para dizer enroladamente que não têm resposta nenhuma.

Acompanhada da idéia consagrada e capengante da crítica à “sociedade de consumo”, o que este clichê quer dizer é que o Estado não chegou até a Rocinha – logo, o território está dominado pelo capitalismo selvagem dessa tal sociedade de consumo. Capitalismo este que, na visão destes intelectuais, grassaria estranhamente logo onde há menos segurança.

Para piorar, os encômios que a população pagadora de impostos rende quando a polícia destrói o comércio ilegal de traficantes, garantindo segurança onde antes não havia e permitindo uma liberdade temporária ao morador local, é visto como demonstração de fascismo. Fascismo por ser obra de um Estado aplicando o monopólio da força, que é seu apanágio. Fascismo, por parecer uma força retrógrada de opressão, quando estes gostariam de tomar o Estado para incutir seu próprio diagrama social. O fascismo que, ensinado como força “de direita”, ou, pior, como a direita in extremis, significaria capitalismo e liberalismo também potencializados.

Ora, se há algo diametralmente oposto ao liberalismo é o comuno-fascismo: ambos os Estados inchados, que buscam garantir muito mais do que segurança e liberdade para os cidadãos – e, como prognosticara Bastiat mais de meio século antes, destruindo justamente as duas primeiramente. Apenas por um representar alguns valores arcaicos e outro falar de uma sociedade futurista não é motivo o suficiente para vê-los como diametralmente opostos, com o liberalismo entre ambos. É muito fácil ver que Hitler e Stálin construíram sociedades bem parecidas, mesmo que professores de História chamem um de direita e outro de esquerda – enquanto que é difícil conceber parecenças entre Hitler e Thatcher ou Hitler e Reagan.

O fator mais curioso, é claro, é que o Estado em que estes críticos das “ações fascistas” defendem é, afinal, bem parecido com um Estado fascista: crítico da liberdade de consumo, busca destruir esta liberdade e muito da segurança mesmo física em prol de princípios macambúzios que consideram os agressores verdadeiros lutadores contra a “antiga” sociedade.

O maior erro desta visão é exposto em casos como a eclosão de violência no Rio de Janeiro: enquanto a grita sobre a violência surgir onde o Estado não chega é consensual, com forte matiz de crítica ao liberalismo, um outro lado da mesma moeda não foi apontado em lugar nenhum da imprensa até agora: onde o Estado não chega, a empresa não chega, e é aí que reside o maior perigo.

Basta perguntar para qualquer criança que ainda não entrou no tráfico nessas comunidades carentes se ela preferiria trabalhar para o Google ou para o tráfico que a resposta não precisa ser nem declarada para ser consabida. Fala-se no Estado como o provedor supremo, aquele que garantirá todas as benesses, mas esquece-se de que, afora a cultura do tráfico, entra-se nele por falta de opção de trabalho em uma outra companhia.

Fala-se que a ocupação do morro pela polícia é ineficiente, e é. Falta a política de segurança. Mas não só essa tal política, também: falta levar uma empresa para cima da favela: o tráfico não é a coisa mais lucrativa do mundo, e seu plano de carreira faz qualquer um, por comparação, querer abraçar o chefe que tem.

Essa é a solução para o tráfico no Rio: fazer com que cada futuro menino do tráfico vire comerciante, técnico de computação, farmacêutico. Isso o governo nunca conseguirá fazer.

Deixem que os sociólogos reclamem da “sociedade de consumo” e do “neoliberalismo” que inexistem nas favelas: o que falta a essas comunidades é, justamente, consumir. Deixe que eles misturem o neoliberalismo com o seu oposto, o fascismo, e critiquem este comportamento na “classe média”, quando defendem exatamente um fascismozinho como solução: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato. Dêem segurança aos morros e só assim permitam a liberdade individual – e isso inclui permitir que o morador de favelas também tenha seu MacBook e vire um designer tão bom quanto a galera que come no Outback.

Às vezes, até mesmo a segurança é feita de maneira mais apropriada quando não é feita pelo Estado.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Acabem com a Universidadepúblicagratuitaedequalidade do DCE-USP!

Acontece nesta semana mais uma eleição do DCE da Universidade de São Paulo. Como em todos os anos, a universidade voltará a 1968, com suas chapas que se dividem entre a extrema-esquerda, a extrema-extrema-esquerda e a extrema-extrema-extrema-esquerda. Todas se consideram de oposição, todas negam uma necessidade fundamental: os líderes estudantis da USP precisam, de uma vez por todas, aceitar que o socialismo ruiu, que o investimento privado fará bem à universidade e que invasões no campus são um tipo autoritário de protesto.

Enquanto o mundo discute a crise de 2008, as chapas de DCE discutem o socialismo. Chapas que não conseguem organizar uma festinha intercursos querem conseguir controlar a Cortina de Ferro do séc. XXI. Todas as chapas são contra a Reitoria, todas são contra verbas privadas, todas defendem aguerridas a Universidadepúblicagratuitaedequalidade.

Os bolcheviques mauricinhos acreditam que verbas privadas “sucateiam” o ensino. Essa palavra genérica significa in limine qualquer ato do qual o sindicato discorde. Não aceitam sequer que uma empresa propagandeie seu logotipo em troca de uma reforma nos banheiros. Exigem que o Estado (ou seja, o seu dinheiro) financie até o papel higiênico, sob risco de “vender” a Universidade, que deve ser públicagratuitaedequalidade, para o capital estrangeiro. Temem privatizar até as privadas.

Descabelam-se estes vermelhos por supor que a Universidade é lugar de discussão, e verbas privadas as impedem. O faniquito é estranho em ambos os extremos: por que uma empresa iria investir na Universidade para ter estudantes alienados, e não críticos? Será que, quando precisam parar de viver de mesada e trabalhar, advogam-se néscios e escondem serem da USP no currículo? E, por outro lado, se é palco de discussão, por que cursos de Humanas formam “pensadores” que nunca ouviram falar de intelectuais conservadores, ou mesmo liberais? Preferem deixar de lado o fato de que mais da metade dos prêmios Nobel do mundo vêm de universidades privadas americanas, onde as doações de empresários são uma importante fonte de renda.

A esquerda teme estapafurdiamente o mercado, visto como uma entidade maligna da qual não fazem parte. Teme que cursos sem demanda sejam fechados, o que impediria professores de ganhar por pesquisas inócuas como "Seria Harry Potter um novo conto de fadas?". É a grita desde antes da entrevista do reitor Grandino Rodas à revista Veja (27/10): Os alunos de grego, fenomenologia e fãs de Marx podem ficar tranqüilos: se eles compram esses livros, é porque eles mesmo são parte do "mercado", e então o mercado tem interesse em mantê-los na ativa. Esquecem-se, afinal, de que o próprio Rodas é formado em Letras e Música.

Curioso fenômeno: segundo o IBGE, 59,9% dos estudantes de universidades públicas têm renda entre os 20% mais ricos da população. Por outro lado, os 20% mais pobres ocupam apenas 3,4% do total de vagas. Sugira aos elitistas anti-classe média cobrar R$2,00 por dia de estacionamento na USP e será incitado o caos. Afinal, sendo públicaegratuita, é dever do Estado financiar os gastos com estacionamento dos proletariado.

Os soviéticos da USP levam a sério até mesmo criminosos com idéias afins. Brandão, o líder do Sintusp que conseguiu a façanha de ser um funcionário público demitido por justa causa, foi preso, entre outros motivos, não por cortar o suprimento de comida durante uma greve, e sim por envenenar comida dos "fura-greves" em dois Bandejões. Há chapas defendendo professores como Paulo Arantes, segundo o qual a USP “não pode funcionar um dia sem o Brandão”.

Em plena era da internet, para dar uma impressão de que são maioria, fazem decisões em assembléias, só freqüentadas por alunos pouco freqüentadores de aulas. Se uma invasão não passa em uma assembléia, ela é encerrada e decide-se imediatamente por outra, apenas para rediscutir a invasão. O termo "ocupação" de Reitoria é usado por alunos de Humanas erroneamente: ocupação pode ser militar (de um país, por exemplo), ou por outra via oficial – o que fazem é mesmo invasão. Vídeos no Youtube mostram bem o que acontece durante uma invasão: maconha é o ópio do povo.

Outra quizumba agora é a Univesp, o ensino à distância. não comenta que universidades do porte de Harvard, Cambridge, MIT ou Oxford possuem cursos à distância. Organizaram um plebiscito em que não era preciso nada além de assinar (ou rubricar?) um nome qualquer em uma lista para votar, perguntando: "Você é contra (sic) a Univesp?". Só faltou um "Se você não é contra, justifique". Ao mesmo tempo, difamam com cartazes hórridos a doutora Marli Quadros Leite, uma das maiores lingüistas do Brasil, por assinar um documento da Reitoria pedindo lista de presença nas aulas. Id est: aulas presenciais são mandatórias, mas é proibido exigir a presença do aluno.

Está na hora de o paradigma da “universidade-pública-gratuita-e-de-qualidade” cair com o Guerra Fria. Os universitários precisam descobrir que o Muro de Berlim foi derrubado por cidadãos socialistas loucos para desfrutar da liberdade e das possibilidades do capitalismo do outro lado do muro – o mesmo capitalismo que dá alergia nos bolcheviques mauricinhos da USP.

Um universitário brasileiro, capaz de fazer parte do Show do Milhão, deveria ter a obrigação de saber que quem perdeu a Guerra Fria foi a URSS. A elite intelectual brasileira talvez seja capaz de saber fazer algo além de pedir dinheiro do governo para sobreviver.

Post Scriptum: siga o movimento Chapa América (@america_usp), por uma chapa neoliberal, burguesa e reacionária para o DCE da USP.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Política sobre camelos

"O que é ser socialista? – perguntara-lhe Gacel na primeira noite, quando ainda tinham vontade de falar e cavalgavam, um ao lado do outro, sobre sacolejantes camelos.

— É pretender que a justiça seja igual para todos.

— Você é socialista?

— Mais ou menos.

— Acredita que todos, imohag e criados, somos iguais?

— Diante da lei, sim.

— Não me refiro à lei. Eu quero me referir a que criados e senhores sejamos iguais completamente.

— De certo modo... - Abdul-el-Kebir tentou descobrir até onde poderia ir sem se comprometer. - Os tuareg são os últimos seres da Terra que ainda mantêm escravos sem se envergonhar disso. Não é justo.

— Eu não tenho escravos. Tenho criados.

— De verdade? E o que faz se um deles foge e não quer mais trabalhar para você?

— Eu o procuro, acho-o, açoito-o e o trago de volta. Nasceu em minha casa, eu lhe dei minha água, minha comida e minha proteção quando não podia se valer por si mesmo. Que direito tem ele de esquecer-se disso e ir embora quando não precise mais de mim?

— O direito à liberdade. Você aceitaria ser criado de outro homem só pelo fato de o haver alimentado quando era criança? Até quando se deve pagar essa dívida?

— Não é o caso. Eu nasci imohag. Eles nasceram aklis.

— E quem dispôs que um imohag é superior a um akli?

— Alá. E se não fosse assim, não os teria feito covardes, ladrões e servis. Nem os teria feito valentes, honrados e orgulhosos.

— Demônios! – exclamou. – Você teria sido o mais fanático dos fascistas...

— Quem é um fascista?

— O que proclama que a estirpe dele é superior a todas as outras.

— Nesse caso, sou fascista.

— E realmente você o é – admitiu Abdul com convicção. – Embora tenha a certeza de que se soubesse o que, de verdade, significa ser fascista, você renunciaria a isso.

— Por quê?

— Não é uma coisa que possa ser explicada assim, aos solavancos, sobre um camelo que parece estar embriagado... Será melhor que o deixemos para outra ocasião.”


(Alberto Vazquez-Figueroa, Tuareg)

sábado, 20 de novembro de 2010

A consciência negra em uma equação

“Porque o direito, a realidade ‘direito’ – não as idéias sobre ele do filósofo, jurista ou demagogo – é, se me permitem a expressão barroca, secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade, parece-me - perdoe-se-me a insolência - ter uma idéia muito confusa do que é o direito.” – José Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas


Há uma grita premente por reformas gerais nas leis que garantam que cidadãos com ideais discutíveis só possam andar na condicional por bom comportamento. Essa urgência vem de grupos sociais, todos eles, calcados na agenda dos “excluídos” procurando seu pé-de-meia: os homossexuais, os negros, os sem-terra, as mulheres, o movimento anti-manicomial (que não é composto de loucos, mas é o que os fazem parecer tão sensatos).

Não buscarei ressuscitar a velha discussão sobre a legitimidade de cada um desses grupos: é consabido entre os 2,7% de alfabetizados da população que os italianos vieram ao país para substituir a mão-de-obra negra, que ficava cada vez mais cara, e nem por isso têm “cotas sociais”; que as mulheres não foram trazidas acorrentadas de outro continente para cá, nem são espancadas quando beijam outras rachas (em verdade, filmes com essas demonstrações costumam valer uma nota) e Hitler não as culpou pela derrota alemã na Primeira Guerra.

Por outro lado, essas políticas de inclusão (do Bolsa-Família ao Bolsa-Presidiário, da cota social até a lei da homofobia) revelam o caráter revanchista, vitimista e sangue-nos-olhos que caracteriza a esquerda contemporânea – aquela que morre de medo de se outorgar comunista, mas não permite a existência de nada fora do Estado. Aquela que sempre diz que a esquerda mundo afora não deu certo por não ser de esquerda o suficiente, mas sempre que é careada à esquerda das antigas, diz que esta foi degenerada. A esquerda que quer um Estado comendo nosso rabo pelas bordinhas.

Com o vitimismo, que exige privilégios para uma classe e culpa uma outra, de bordas esfumaçadas e contornos imprecisos (“a elite”, “a classe média”, “a mídia golpista”), vê-se como um esquerdista quer tomar o poder: seu sonho não é apenas encher a burra dos vulgos “oprimidos” que julga representar, mas atacar e destruir um inimigo preciso. O sonho do revolucionário é liderar uma turba enfurecida.

O caso Mayara, os espancadores de gays e todos os outros exemplos recentes e não tão recentes apontam para a direção que essa cultura do grupelho se auto-pechando por “vítima” nos leva. Não se pretende aqui dizer asneiras da direita caricata a respeito do Bolsa Família, nem sair em defesa de retardados que ainda possuem preconceito contra os feios – como já afirmou Olavo Pascucci, o homossexualismo não constitui flagelo ético, mas sim um ataque estético – com efeito, é feio pra caralho um galalau introduzir a trosoba própria em lorto peludo alheio.

Porém, a forma rasa com que se lida com o problema dos neofascistas que atacam minorias desprotegidas não se diferencia muito de um neocomunismo – e, a despeito do que a turma do marxismo de bem com a vida possa ousar afirmar, nunca conseguirão provar que o fascismo matou mais do que o comunismo, e nem que se buscar o socialismo democrático procurarão desculpas para algo tão quimérico e oximoroso quanto o fascismo democrático.

Os averiguadores de cotas da Universidade, que vê no olhômetro se você é um negro de verdade ou apenas um mameluco qualquer que, graças ao sangue explorador de algum tio seu, não merece o mesmo benefício de um tição que brilha no escuro, instaurou o primeiro comitê de pureza étnica do Brasil. A lei da homofobia quer instaurar o primeiro (primeiro?) grupo com poderes inexistentes aos demais grupos sociais. Isso sem falar em lei da imprensa, controle social de propriedades etc.

Tudo lembra bem aquele revanchismo que rolou com um certo partido golpista e totalitário que tomou o poder na Alemanha em 33. Claro, não quero recair na Lei de Godwin. Mais óbvio ainda, sei que o PT em (quase) nada se parece ao nacional-socialismo. Porém, o ponto mais preocupante dessa cultura está sendo negligenciado na discussão hodierna: o que mantém a turba enfurecida, até o momento, sob controle?

Antes de imediatamente propor ao Congresso o Bolsa Gardenal, basta fazer uma continha simples, de resultado surpreendente. O que fez Hitler, um Zé rodela de mão cheia, ser líder absoluto de um país, vá lá, rural e de idioma de estrebaria, mas também culto e maior guardião da cultura clássica ocidental que ainda pisa filosofante nesse planeta?

Apesar de lembrar o Mr. Manson e sua explicação científica de que os neurônios responsáveis pelo cálculo matemático são os segundos a serem destruídos pelo incessante uso de THC (só perdendo para aqueles responsáveis pelo bom gosto musical), a conta é acompanhável indolormente: o nazismo culpou os judeus pelo opróbio alemão. Os judeus, como hoje, eram a elite econômica. Em menor número, não puderam sonhar em ter sequer uma margem de votos representativa contra a ascenção do nazismo. Um povo inteiro em fúria esmagou, com sede de uma vingança sem justificativa, cada semita que encontrasse, mesmo o mais miserável e o menos explorador.

O que muda no Brasil atual? Na verdade, fora os aspectos gritantes que diferenciam a democracia brasileira do totalitarismo alemão (que poderiam ser facilmente reduzidas a filigranas menores e derrubadas com a pressão do segundo fator), a diferença é o número de negros brasileiros frente aos brancos.

Com efeito, mesmo no Brasil um Charles Manson teria dificuldade em iniciar o seu Helter Skelter. A “classe média burguesa”, de contornos imprecisos, é muito numerosa. Aqueles que podem ser atingidos pela lei da homofobia por cada piadinha envolvendo entubação de mangalhos exigiriam que, se a lei fosse aplicada stricto sensu, a internet fosse fechada, e todos os homens e mulheres, de cada classe social, que ousassem o heterossexualismo (ou mesmo os gays falando entre si, que são, como os judeus, uma turma que adora saudavelmente rir de si própria) fossem pra cadeia.

A turba que é “vítima”, assim, tem um discurso de ódio, mas só pode ficar no discurso. Nem mesmo se quiser fazer sua revanche pegando o seu alvo de galera logrará êxito notável. O número de brancos, classe medianos e outras características “conservadoras”, no Brasil, mantém a massa de manobra de grupelhos políticos bem quietinhos – mas somente o seu número, mesmo. Para o bem dessas próprias minorias.

O discurso oficial, mesmo com feriados como o Dia da Consciência Negra (que é feriado oficial em 2 estados, enquanto o Dia do Índio não o é... mas quantos índios você conhece, afinal?!), promove o ódio revanchista. Felizmente, apesar de não perceberem que a vida dos pobres e oprimidos está melhor porque essa “elite” lhes deu produtos baratos (e mesmo esgoto e água encanada) a um preço irrisório com os quais os seus bisavós nunca sonharam em possuir, o governo ainda não pode extinguir tudo aquilo que considera nocivo ao seu propósito de igualdade, sob risco de ter de extinguir boa parte da raça humana do país.

Os negros que são os atores mais populares, o melhor jogador de golf, o melhor economista, a mulher mais importante da mídia americana e até mesmo o presidente podem sonhar felizes com suas conquistas pessoais. Infelizmente, para os outros, há o discurso de you’re less: work less, expect less, bem denunciado por Thomas Sowell, o melhor economista vivo, por coincidência, negro.

A consciência negra não precisa acabar com o que os brancos construíram. Mas, por mais que o governo queira, felizmente, a briga seria tão massacrante que nos destruiria. Isso não acontecerá nem que eles forcem mais a barra. Ainda bem.

domingo, 14 de novembro de 2010

Em defesa da estudante Mayara

por Janaína Conceição Paschoal*, na Folha


Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões.

Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.

É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.

Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.

Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.

Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se “enquadraria” em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.

É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.

Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão. Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.

O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.

Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.

São Paulo, é fato, é fonte de grande parte dos benefícios distribuídos no restante do país. São Paulo, é fato, revela-se o Estado mais nordestino da Federação.

Nós, brasileiros, não podemos permitir que a desunião impere. Tal desunião finda por fomentar o populismo, tão deletério às instituições no país.

Não há que se falar em governo para pobres ou para ricos. Pouco após a eleição, a futura presidente já anunciou o antes negado retorno da CPMF e adiou o prometido aumento no salário mínimo. Não é exagero lembrar que Getulio Vargas era conhecido como pai dos pobres e mãe dos ricos.

Não precisamos de pais ou mães. Não precisamos de mais vitimização. Precisamos apenas de governantes com responsabilidade.

Se, para garantir a permanência no poder, foi necessário fomentar a cisão, é preciso ter a decência de governar pela e para a União.

Quanto a Mayara, entendo que errou, mas não parece justo que seja demonizada como paulista racista, quando o mote dado na campanha eleitoral foi justamente o da oposição entre as regiões.

Se não dermos um basta a esse estratagema para manutenção no poder, várias Mayaras surgirão, em São Paulo, em Pernambuco, por todo o Brasil, e corremos o risco de perder o que temos de mais característico, a tolerância. Em nome de meu saudoso avô pernambucano, peço aos brasileiros que se mantenham unidos e fortes!

*JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL, advogada, é professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.


Comento:

O excelente texto da doutora Janaína Conceição Paschoal, que foi orientadora da minha namorada, deveria ter sido extremamente divulgado por todas as redes, como aconteceu com o texto de Leandro Narloch [Sim, eu tenho preconceito!] na mesma Folha, na última quinta [11/10].

As reações extravazadas às palavras de Narloch confirmaram a própria tese que ele defende, a saber, que nada exige a tolerância política com quem tem orgulho de sua falta de educação e, mesmo assim (e, hoje em dia, exatamente por isso) acha que pode governar um país. Mais do que isso, nada torna essa tolerância algo salutar para a democracia. Já o texto da professora Janaína aponta para a inversão do preconceito que corrói (como todo preconceito) o sadio tráfego de sinapses sem engarrafamentos paulistanos.

A campanha política desse ano foi pautada em um discurso estrábico e contraditório, de molde a criticar as privatizações, ao mesmo passo em que enaltece o aumento de consumo e bens acessíveis aos pobres, só possíveis graças a elas; o enaltecimento das virtudes democráticas e de liberdade de expressão só proporcionados por Lula, enquanto jornalistas foram quase expulsos do país, a imprensa é ameçada de censura (disfarçada de controle da mídia) e sempre tachada de golpista, enquanto a maior censura possível é feita escancaradamente – o fomento de pasquins governistas com dinheiro do contribuinte, sob alegação de “publicidade”; o Nordeste cresceu economicamente mais do que as outras regiões, mas ainda se culpe o Sul por seu atraso, entre outros tantos.

O fato, apontado pela doutora Janaína, é que o discurso do PT é pré-fabricado em linhas de produção do ABC paulista, mistifório vazio e manjado que tem sempre explicações e inimigos prontos para receberem a culpa que o governo quiser lhes impingir.

A culpa é sempre deles. De uma coletividade abstrata, dificilmente distinguida homogeneamente no mundo real, que, por sua constituição escorregadia, pode sempre ser sempre formalmente acusada de toda a sorte de crimes e calúnias sem nunca poder se defender – visto que inexiste. A elite branca, a classe média (sempre, paradoxalmente, mesclada à primeira), a mídia golpista, as corporações, os empresários, os paulistas.

Qual é o piso salarial de um operário do ABC? Muito provavelmente um deles negaria, mas contando-se todos os benefícios trabalhistas que recebe após anos de greves e piquetes, dificilmente um deles ganha menos de R$5.000,00 por mês. É essa turma que se considera “a classe trabalhadora”. Já se alguém se formar numa faculdade e virar trainee de publicitário para coletar mensalmente um michê fixo de R$1.800,00, este explorador será considerado “burguês” pelo “proletariado” ali atrás. Como deixa claro a doutora Janaína, para ser “operário”, basta se considerar pobre, ou defensor deles enquanto viaja por Paris; para ser “elite dominante”, basta não votar no PT.

A levar esta tese às estribeiras, o PT deveria ser mesmo considerado o melhor partido político do mundo: o Brasil agora tem só 56,05% de “operários trabalhadores”, enquanto tem uma “elite dominante” de simplesmente 43,95% da população.

Já afirmei antes: Mayara deveria sofrer punições não por racismo, mas por ser uma imbecil em níveis sociopatas. Mesmo porque, qualquer analista do discurso sabe, levar suas afirmações ao pé-da-letra seria outra atitude de mão-única levada a cabo por essa elite de operários. Quando a presidente da Apeoesp (sindicato dos professores de São Paulo), Maria Izabel Azevedo Noronha, admite escancaradamente que fez greve com fins políticos (crime que ignoraram), e convoca os professores a “acabar com o partido [PSDB]”, para concluir: "Estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador”, imediatamente seu palavrório é encarado como pura metáfora, e não um chamado às armas e à violência pelo fim da pluralidade política (mesmo que saiba-se do caráter socialista desses sindicatos). Já se Mayara idiotamente diz para se “afogar um nordestino”, a intelligentsia esquerdista, aquela mesma que defendeu Polanski e finge que não sabe quem é Sakineh até hoje, pediu “linchamento”, como se o mesmo crime não fosse.

Séculos de preconceito mais contra pobres do que contra nordestinos (visto que a tal “elite” adora Ivete Sangalo e passar férias em Fortaleza), como afirma a professora, não serão desfeitos com vitimismo, que também existe há séculos (e, portanto, já deveria ter causado alguma mudança na balança). No entanto, o PT, em sua campanha presidencial (e deve ter sido a menor de suas falcatruas), declarou com todas as letras o preconceito contra São Paulo [cf. o blog da Dilma: ZÉ PEDÁGIO PENSA QUE NORDESTINOS SÃO BESTAS COMO OS PAULISTAS, depois corrigido às pressas, mas que ainda deixou as pegadas do título original no link], culpou “a elite” (e ela, se existisse da mesma forma como é representada, não teria direitos democráticos?) e a própria Dilma afirmou que brasileiros que moram no exterior não são dignos de confiança.

Novamente, até o número de votos da própria candidata eleita confirma que a realidade é bem outra. Mas segundo a patrulha ideológica progressista, só é possível ter o NOVO preconceito. O preconceito do progresso, o preconceito mais correto: o preconceito do vitimismo fofurete, o culpismo de qualquer pessoa que tenha dinheiro – ou que não vote no PT, visto que eles mesmos têm dinheiro e precisam se “desculpar” por isso, enquanto culpam os pobres que não gostam desse partido de mal-intencionados, ou de burgueses ricos com interesses espúrios.

A doutora Janaína está correta como Søren Kierkegaard: “Defende-se a liberdade de expressão para se defender a liberdade de pensamento, da qual quase nunca fazem uso.”

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

David Foster Wallace: abstração, matemática e filosofia

Gosto de viver perigosamente. Mas talvez minha maneira de pensar seja ainda mais perigosa do que atravessar fora da faixa.

Há muita discussão com filósofos, cientistas, religiosos e não-idealistas de todas as partes sobre questões de conhecimento. Quase nunca se ouve os matemáticos, que simplesmente destroçaram o que é comumente defendido nessas querelas há séculos, mas poucos sabem disso.

Segue um trecho que traduzi do brilhante livro Everything and More: A Compact History of ∞. O livro traça um panorama histórico do conceito de infinito (o número, por isso não 'History of Infinite'), e é um verdadeiro soco no estômago de todos os "filósofos" que adoram tratar de conceitos extremamente abstratos achando que conseguem lidar com eles como um reles matemático o faz todo santo dia. Enjoy.



Eis uma citação de G. K. Chesterton: "Poetas não enlouquecem, mas jogadores de xadrez sim. Matemáticos enloquecem, e caixeiros; mas muito raramente artistas criativos. Não estou atacando a lógica: apenas digo que o problema está na lógica, não na imaginação." Aqui também vai um fragmento de uma orelha de uma recente biografia pop de Cantor [matemático russo (1845-1918)]: "No fim do século XIX, um matemático extraordinário morreu num manicômio (...) Quanto mais próximo ele chegou das questões que buscava, mais longínquas elas pareciam. Uma hora isso o deixou louco, como a muitos matemáticos antes dele."

Os casos de grandes matemáticos com doenças mentais têm ressonância enorme para escritores e cinegrafistas pop modernos. Isto tem a ver com a visão preconcebida dos próprios escritores/diretores e de seu público, que por outro lado são funções do que você poderia chamar de padrão arquetípico de nossa era. Não é preciso dizer que esse padrão muda com o tempo. O Matemático Doente Mental parece ser agora, de alguma forma, o que o Cavaleiro Errante, o Santo Mortificado, o Artista Torturado e o Cientista Maluco foram para outras eras: um tipo de Prometeu, aquele que vai a lugares proibidos e retorna com dádivas que nós podemos usar mas que ele paga sozinho. Isso é provavelmente um pouco exagerado, ao menos na maioria dos casos [1]. Mas Cantor se encaixa no padrão melhor do que a maioria. E as razões para isso são bem mais interessantes do que seus problemas e sintomas o foram.

(...)

Chesterton acima está errado em um aspecto. Ou ao menos impreciso. O perigo que ele está tentando indigitar não é a lógica. Lógica é apenas um método, e métodos não podem transtornar pessoas. Do que Chesterton está realmente querendo falar é uma das principais características da lógica – e da matemática. Abstração. Idéias abstratas.

É melhor ir direto ao significado de abstração. É provavelmente a palavra mais importante para entender o trabalho de Cantor e os contextos que o possibilitaram. Gramaticalmente, a raiz é um adjetivo, do latim abstractus = ‘atraído’. O O. E. D.tem nove definições principais para o adjetivo, das quais a mais adequada é a 4.a.: “Retirado ou separado da matéria, do material encarnado, da prática ou de exemplos particulares. Oposto a concreto.” Também de interesse é a 4.b., “Ideal, destilado de sua essência.”, e 4.c., “abstruso”.

Eis uma citação de Carl B. Boyer, que é mais ou menos o Gibbon da história da matemática: “Mas o que, afinal, são inteiros? Todo mundo pensa que sabe, por exemplo, o que o número três é – até tentar definir ou explicá-lo.” A respeito disso é instrutivo falar com professores de primeira e segunda série e descobrir como as crianças aprendem de verdade sobre inteiros. Sobre o que, afinal, o número cinco é. Primeiro são dadas, digamos, cinco laranjas. Algo que eles possam tocar ou segurar. Depois pede-se para contá-las. Então lhes é dado uma figura de cinco laranjas. Então uma figura que combina as cinco laranjas com o numeral ‘5’ para elas associarem os dois. Então uma figura apenas do numeral ‘5’ com as laranjas removidas. As crianças então são envolvidas em exercícios nos quais eles começam a falar sobre o inteiro 5 per se, como um objeto ele próprio, separado das cinco laranjas. Em outras palavras eles são sistematicamente enganadas ou despertadas para tratar números como coisas ao invés de símbolos para coisas.

(...)

A questão: a definição básica de ‘abstrato’ para nossos objetivos será a alguma forma concatenada com ‘removida da ou transcendendo a particularidade concreta ou experiência sensível’. O pai da abstração na matemática: Pitágoras. O pai da abstração na metafísica: Platão.

(...)

Tudo isso é apenas um tipo de aquecimento: a coisa toda não será como isso. Eis mais duas citações de figuras altaneiras. M. Kline: “Uma das grandes contribuições gregas para o próprio conceito de matemática foi o reconhecimento consciente e a ênfase no fato de que entidades matemáticas são abstrações, idéias entretidas pela mente e nitidamente distintas de objetos ou figuras.” F.d.l. Saussure: “O que escapou a filósofos e lógicos é que a partir do momento em que um sistema de símbolos se torna independente dos objetos designados ele mesmo fica sujeito a deslocamentos que são incalculáveis para o lógico.”

Abstração contém todos os tipos de problemas e dores de cabeça, nós todos sabemos. Parte do perigo é como usamos substantivos. Nós pensamos nos significados dos substantivos em termos de denotações. Substantivos servem para coisas – homem, mesa, caneta, David, cabeça, aspirina. Um tipo especial de comédia resulta quando há uma confusão sobre o que é um substantivo real, como em ‘Quem vem primeiro?’ ou aquelas peripécies de Alice no País das Maravilhas – ‘O que você pode ver na estrada?’ ‘Nada.’ ‘Que grande visão! E como nada se parece?’ A comédia tende a esvanecer, entretanto, quando os substantivos denotam abstrações, significando conceitos gerais divorciados de instâncias particulares.

Muitos desses substantivos-abstrações vêm de raízes verbais. ‘Movimento’ é um substantivo, e ‘existência’; nós usamos palavras como essas o tempo todo. A confusão surge quando nós tentamos considerar o que exatamente elas significam. É como a questão de Boyer sobre inteiros. O que exatamente ‘movimento’ e ‘existência’ denotam? Nós sabemos que as coisas particulares concretas existem, e que algumas vezes elas se mexem. O movimento existe per se? De que forma? De que forma abstrações existem?

É claro, a última pergunta já é por si bem abstrata. Agora você pode começar a sentir a dor de cabeça surgindo. Há um tipo especial desse mal-estar ou impaciência com coisas como essas. Como ‘O que exatamente é a existência?’ ou ‘O que exatamente queremos dizer quando falamos sobre movimento?’ O mal-estar é bem distinto e põe-se apenas em um certo nível no processo de abstração – porque a abstração procede em níveis, meio como expoentes ou dimensões. Digamos que ‘homem’ signifique algum homem particular no Nível Um. ‘Homem’ significando a espécie é o Nível Dois. Algo como a ‘humanidade’ é o Nível Três; agora nós estamos falando sobre os critérios de abstração para algo qualificando-o como humano.

E assim vai. Pensar desse jeito pode ser perigoso, estranho. Pensar abstratamente o suficiente sobre qualquer coisa... certamente nós já tivemos a experiência de pensar sobre uma palavra – ‘caneta’, digamos – e ir dizendo a palavra de novo e de novo para nós mesmos até ela cessar de denotar; a própria estranheza de chamar algo de caneta começa a intrometer-se na consciência de uma maneira arrepiante, como uma aura epiléptica.

Como você provavelmente sabe, muito do que nós chamamos de filosofia analítica tem a ver com questões de grau no Nível Três – ou mesmo Quatro – como essas. Como em epistemologia = ‘O que exatamente é o conhecimento?’; metafísica = ‘O que exatamente são as relações entre construções mentais e os objetos no mundo-real?’; etc [2].

Pode ser que filósofos e matemáticos, que gastam muito tempo pensando (a) abstratamente ou (b) sobre abstrações ou (c) ambos, são eo ipso propensos para doenças mentais. Ou pode apenas ser que aquelas pessoas que são suscetíveis a doenças mentais são mais propensas a apesar sobre esse tipo de coisas. É uma questão o-ovo-e-a-galinha. Uma coisa é certa, contudo. É um mito completo que o homem é por natureza curioso e tem fome de verdade e quer, sobre todas as coisas, saber [3]. Dados certos reconhecimentos sentidos de ‘saber’, há de fato uma grande quantidade de coisas que nós não queremos saber. A evidência para isso é o enorme número de questões básicas sobre as quais nós não queremos pensar abstratamente.


[1] Apesar de que há o outro estereótipo de matemáticos como criaturas nerds, pouco diferentes de fissíparas. Na arquetipologia de hoje, os dois estereótipos parecem se combinar de maneiras importantes.

[2] De acordo com a maioria das fontes, G. F. L. P. Cantor não foi apenas um matemático – ele tinha uma verdadeira Filosofia do Infinito. Era estranha e quase-religiosa e, sem surpresas, abstrata. Em um ponto Cantor tentou trocar seu emprego no departamento de matemática em U. Halle por filosofia, e o pedido foi negado. Reconhecidamente ele não estava em seus períodos estáveis.

[3] A fonte desse mito pernicioso é Aristóteles, que é em alguns aspectos o vilão de toda a nossa história.

domingo, 28 de novembro de 2010

Sobre fascismos e fascismozinhos: uma solução liberal para a violência


“O que é então a lei? É a organização coletiva do direito individual de legítima defesa.” – Frédéric Bastiat

A frase mais famosa do economista francês Frédéric Bastiat é: “Não esperar senão duas coisas do Estado: liberdade e segurança, e ter bem claro que não se poderia pedir mais uma terceira coisa, sob o risco de perder as outras duas”.

Há explicação para a completa falta de compreensão da frase no Brasil: nunca tivemos algo que não fosse um Estado inchado e aparelhado. Antes mesmo de ter um governo, ou alguém a quem governar, já tínhamos um Estado: Tomé de Souza chegou aqui, com ministérios debaixo do braço, para governar uma colônia que ainda inexistia. Tínhamos Estado e jurisprudência para governar tamanduá, capivara, suçuarana e bicho-do-pé.

Elevando-se a interpretação para um patamar um pouco mais civilizado, poderíamos compreender a frase da seguinte forma: o governo nos deve garantir segurança, e tão-somente ela. Ao nos garantir a segurança, nos permitirá agir em liberdade em relação ao concidadão circunstante e também estaremos livres de ameaças não presentificadas a direitos mais abstratos: liberdade de expressão, de filiação, de ir e vir.

De um lado estão as ameaças derivadas de outros compatriotas: assaltantes, estupradores, seqüestradores. Em uma zona um tanto quanto imprecisa desta lista de ameaças, os traficantes – que, por um lado, nunca colocaram droga na mão de ninguém aqui embaixo, deixando que “amigos” mais progressistas, antenados e cabeça cuidassem da distribuição e consumo pelo nicho abastado da população. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo segurança.

Do outro lado, estão as ameaças que são impingidas pelo próprio Estado, através de governos inescrupulosos. Não importa quão boas sejam suas intenções locais e pontuais, como combater as mentiras e calúnias de um jornal: ao criar um mecanismo que cerceie a liberdade de imprensa para destruir uma atual indústria da mentira, ao deixar o governo, você pode estar deixando uma máquina de opressão que poderá ser pessimamente utilizada por seu sucessor menos escrupuloso e bonzinho. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo liberdade.

A rigor, o governo nos garantir liberdade significa: o governo não deve fazer nada que não seja voltado para a nossa segurança. O que não recai nessa alçada não é função do governo. Se exigirmos que qualquer ação além da garantia da segurança seja realizada pelo governo, perderemos a liberdade. Se quisermos que o governo nos garanta algo além da liberdade, perderemos a segurança (jurídica, econômica, política, eleitoral... basta analisar os escândalos envolvendo a promiscuidade estatal com empresas que jogaram bilhões no lixo, de Cacciola e Daniel Dantas a Lehman Brothers, Bear Stearns, Freddie Mac e Fannie Mae, só para ficar no inquestionável exemplo econômico).

Pior: criaremos uma casta superior – o burocrata governista, que pode definir quem tem seu direito á liberdade assistido e quem não tem. A liberdade deixa de ser um direito do cidadão e passa a ser uma garantia revogável do Estado, quase um favor que este faz em troca de bom comportamento – e quando se trata de o governante supor bom comportamento do governado, geralmente significa leniência e laxismo – caracterizando, por si só, coerção, o que é um atentado à liberdade e à segurança.

A frase de Bastiat ainda pode ser compreendida erroneamente como a busca de um termo pacífico de equilíbrio. Como expus, segurança e liberdade, às vezes, são entidades contrárias. É o pensamento da revolução francesa: Liberté e égalité são conceitos que se chocam: um meio-termo pacífico seria regular as ações pela fraternité. É o que faz com que cada crítica ao “sistema” que seja feita hoje em dia, por pouco contato com teorias que prestam, tentem jogar um pouco da culpa em cada um e, invocando a tal fraternité, creia que o mundo vai melhorar quando cada um colocar a mão em sua própria consciência e entender que é melhor pedir do que roubar. De Hollywood aos sociólogos da FFLCH, são os velhos conscientes de plantão.

Mas o que Bastiat propõe não é um meio-termo mediado entre segurança e liberdade. Para o pensador liberal, o papel do governo é garantir segurança. A liberdade, como vista, se dá negativamente: o governo a garante não fazendo alguma coisa, mas justamente não fazendo nada. Assim, garantem-se ambas, sem um falso e nevoento meio-termo a qual qualquer patife pode reivindicar para atentar contra um, o outro, ou ambos.

Por fim, resta entender que a segurança não se trata apenas de polícia. A princípio, porque pode-se não ter tempo para acioná-la quando uma ameaça surge – e, juntando liberdade e segurança, o cidadão pode ter o direito de reagir a uma ameaça assim que se sente ameaçado, sem precisar perder parte de sua segurança quando perde a liberdade de neutralizar o perigo da forma que lhe convém. Segurança e liberdade estão juntas contra o primeiro agressor.

Quando ambas entram em conflito, como no caso da violência generalizada (já que mesmo um seqüestrador, assassino ou estuprador é considerado “cidadão”), o Estado deve se pautar não por um meio-termo, como fazem nossos intelectuais: sua função é garantir a segurança. A liberdade é conseqüência direta de se garantir segurança. Se a polícia é honesta e efetiva, a pequena dose de liberdade que nos toma em um dia (como a de atravessarmos a rua sem sermos baleados) garantirá segurança sempiterna. O contrário destrói a segurança e, pior, deixa que a liberdade seja destruída não pelo governo, mas por outros circunstantes.

No entanto ambas dependem de mecanismos do governo para garantir que ações do cidadão (a famosa iniciativa privada, que no barbarismo parece ser faculdade apenas de milionários), como se matricular em uma faculdade ou abrir uma barraquinha de cachorro-quente, sejam efetuadas sem agressão aos outros, tenham segurança garantida contra agressores e cujos efeitos, lucros e danos sejam de responsabilidade apenas do seu criador.

Assim, o princípio de defesa da segurança liberal depende de garantir a segurança das ações pacíficas e a liberdade de resposta ao agressor – ambas as coisas garantem a liberdade que o governo, por qualquer ação afirmativa que tente, nunca irá garantir à população.

Como segurança custa caro, é comum que uma boa fatia do que se ganhe seja dada ao governo para fins de proteção do resto do montante. O inaceitável é ser coagido (atentado à liberdade) a ser tungado pelo governo num montante vultoso para fins nunca explicados – e que não garantem nenhuma forma de segurança.

...

O fim da violência

A Rocinha é uma área gigante, aberta, com uma vista maravilhosa, mão-de-obra barata e uma população gigantesca e crescente querendo trabalhar. Por que ela ainda não foi comprada? A resposta, de tão óbvia, surpreende: porque ela não está à venda.

É um lugar-comum da “crítica social” dizer que a violência grassa onde o Estado não chega. Como tudo aquilo que tem gosto de crítica, soa arcano, genial e fruto da mais engenhosa reflexão de estro próprio: na maioria dos casos, é a velha “crítica” que não passa de um clichê bobo de universitários. Estamos há uma semana ouvindo críticas à " mídia" e em suas respostas apenas para dizer enroladamente que não têm resposta nenhuma.

Acompanhada da idéia consagrada e capengante da crítica à “sociedade de consumo”, o que este clichê quer dizer é que o Estado não chegou até a Rocinha – logo, o território está dominado pelo capitalismo selvagem dessa tal sociedade de consumo. Capitalismo este que, na visão destes intelectuais, grassaria estranhamente logo onde há menos segurança.

Para piorar, os encômios que a população pagadora de impostos rende quando a polícia destrói o comércio ilegal de traficantes, garantindo segurança onde antes não havia e permitindo uma liberdade temporária ao morador local, é visto como demonstração de fascismo. Fascismo por ser obra de um Estado aplicando o monopólio da força, que é seu apanágio. Fascismo, por parecer uma força retrógrada de opressão, quando estes gostariam de tomar o Estado para incutir seu próprio diagrama social. O fascismo que, ensinado como força “de direita”, ou, pior, como a direita in extremis, significaria capitalismo e liberalismo também potencializados.

Ora, se há algo diametralmente oposto ao liberalismo é o comuno-fascismo: ambos os Estados inchados, que buscam garantir muito mais do que segurança e liberdade para os cidadãos – e, como prognosticara Bastiat mais de meio século antes, destruindo justamente as duas primeiramente. Apenas por um representar alguns valores arcaicos e outro falar de uma sociedade futurista não é motivo o suficiente para vê-los como diametralmente opostos, com o liberalismo entre ambos. É muito fácil ver que Hitler e Stálin construíram sociedades bem parecidas, mesmo que professores de História chamem um de direita e outro de esquerda – enquanto que é difícil conceber parecenças entre Hitler e Thatcher ou Hitler e Reagan.

O fator mais curioso, é claro, é que o Estado em que estes críticos das “ações fascistas” defendem é, afinal, bem parecido com um Estado fascista: crítico da liberdade de consumo, busca destruir esta liberdade e muito da segurança mesmo física em prol de princípios macambúzios que consideram os agressores verdadeiros lutadores contra a “antiga” sociedade.

O maior erro desta visão é exposto em casos como a eclosão de violência no Rio de Janeiro: enquanto a grita sobre a violência surgir onde o Estado não chega é consensual, com forte matiz de crítica ao liberalismo, um outro lado da mesma moeda não foi apontado em lugar nenhum da imprensa até agora: onde o Estado não chega, a empresa não chega, e é aí que reside o maior perigo.

Basta perguntar para qualquer criança que ainda não entrou no tráfico nessas comunidades carentes se ela preferiria trabalhar para o Google ou para o tráfico que a resposta não precisa ser nem declarada para ser consabida. Fala-se no Estado como o provedor supremo, aquele que garantirá todas as benesses, mas esquece-se de que, afora a cultura do tráfico, entra-se nele por falta de opção de trabalho em uma outra companhia.

Fala-se que a ocupação do morro pela polícia é ineficiente, e é. Falta a política de segurança. Mas não só essa tal política, também: falta levar uma empresa para cima da favela: o tráfico não é a coisa mais lucrativa do mundo, e seu plano de carreira faz qualquer um, por comparação, querer abraçar o chefe que tem.

Essa é a solução para o tráfico no Rio: fazer com que cada futuro menino do tráfico vire comerciante, técnico de computação, farmacêutico. Isso o governo nunca conseguirá fazer.

Deixem que os sociólogos reclamem da “sociedade de consumo” e do “neoliberalismo” que inexistem nas favelas: o que falta a essas comunidades é, justamente, consumir. Deixe que eles misturem o neoliberalismo com o seu oposto, o fascismo, e critiquem este comportamento na “classe média”, quando defendem exatamente um fascismozinho como solução: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato. Dêem segurança aos morros e só assim permitam a liberdade individual – e isso inclui permitir que o morador de favelas também tenha seu MacBook e vire um designer tão bom quanto a galera que come no Outback.

Às vezes, até mesmo a segurança é feita de maneira mais apropriada quando não é feita pelo Estado.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Acabem com a Universidadepúblicagratuitaedequalidade do DCE-USP!


Acontece nesta semana mais uma eleição do DCE da Universidade de São Paulo. Como em todos os anos, a universidade voltará a 1968, com suas chapas que se dividem entre a extrema-esquerda, a extrema-extrema-esquerda e a extrema-extrema-extrema-esquerda. Todas se consideram de oposição, todas negam uma necessidade fundamental: os líderes estudantis da USP precisam, de uma vez por todas, aceitar que o socialismo ruiu, que o investimento privado fará bem à universidade e que invasões no campus são um tipo autoritário de protesto.

Enquanto o mundo discute a crise de 2008, as chapas de DCE discutem o socialismo. Chapas que não conseguem organizar uma festinha intercursos querem conseguir controlar a Cortina de Ferro do séc. XXI. Todas as chapas são contra a Reitoria, todas são contra verbas privadas, todas defendem aguerridas a Universidadepúblicagratuitaedequalidade.

Os bolcheviques mauricinhos acreditam que verbas privadas “sucateiam” o ensino. Essa palavra genérica significa in limine qualquer ato do qual o sindicato discorde. Não aceitam sequer que uma empresa propagandeie seu logotipo em troca de uma reforma nos banheiros. Exigem que o Estado (ou seja, o seu dinheiro) financie até o papel higiênico, sob risco de “vender” a Universidade, que deve ser públicagratuitaedequalidade, para o capital estrangeiro. Temem privatizar até as privadas.

Descabelam-se estes vermelhos por supor que a Universidade é lugar de discussão, e verbas privadas as impedem. O faniquito é estranho em ambos os extremos: por que uma empresa iria investir na Universidade para ter estudantes alienados, e não críticos? Será que, quando precisam parar de viver de mesada e trabalhar, advogam-se néscios e escondem serem da USP no currículo? E, por outro lado, se é palco de discussão, por que cursos de Humanas formam “pensadores” que nunca ouviram falar de intelectuais conservadores, ou mesmo liberais? Preferem deixar de lado o fato de que mais da metade dos prêmios Nobel do mundo vêm de universidades privadas americanas, onde as doações de empresários são uma importante fonte de renda.

A esquerda teme estapafurdiamente o mercado, visto como uma entidade maligna da qual não fazem parte. Teme que cursos sem demanda sejam fechados, o que impediria professores de ganhar por pesquisas inócuas como "Seria Harry Potter um novo conto de fadas?". É a grita desde antes da entrevista do reitor Grandino Rodas à revista Veja (27/10): Os alunos de grego, fenomenologia e fãs de Marx podem ficar tranqüilos: se eles compram esses livros, é porque eles mesmo são parte do "mercado", e então o mercado tem interesse em mantê-los na ativa. Esquecem-se, afinal, de que o próprio Rodas é formado em Letras e Música.

Curioso fenômeno: segundo o IBGE, 59,9% dos estudantes de universidades públicas têm renda entre os 20% mais ricos da população. Por outro lado, os 20% mais pobres ocupam apenas 3,4% do total de vagas. Sugira aos elitistas anti-classe média cobrar R$2,00 por dia de estacionamento na USP e será incitado o caos. Afinal, sendo públicaegratuita, é dever do Estado financiar os gastos com estacionamento dos proletariado.

Os soviéticos da USP levam a sério até mesmo criminosos com idéias afins. Brandão, o líder do Sintusp que conseguiu a façanha de ser um funcionário público demitido por justa causa, foi preso, entre outros motivos, não por cortar o suprimento de comida durante uma greve, e sim por envenenar comida dos "fura-greves" em dois Bandejões. Há chapas defendendo professores como Paulo Arantes, segundo o qual a USP “não pode funcionar um dia sem o Brandão”.

Em plena era da internet, para dar uma impressão de que são maioria, fazem decisões em assembléias, só freqüentadas por alunos pouco freqüentadores de aulas. Se uma invasão não passa em uma assembléia, ela é encerrada e decide-se imediatamente por outra, apenas para rediscutir a invasão. O termo "ocupação" de Reitoria é usado por alunos de Humanas erroneamente: ocupação pode ser militar (de um país, por exemplo), ou por outra via oficial – o que fazem é mesmo invasão. Vídeos no Youtube mostram bem o que acontece durante uma invasão: maconha é o ópio do povo.

Outra quizumba agora é a Univesp, o ensino à distância. não comenta que universidades do porte de Harvard, Cambridge, MIT ou Oxford possuem cursos à distância. Organizaram um plebiscito em que não era preciso nada além de assinar (ou rubricar?) um nome qualquer em uma lista para votar, perguntando: "Você é contra (sic) a Univesp?". Só faltou um "Se você não é contra, justifique". Ao mesmo tempo, difamam com cartazes hórridos a doutora Marli Quadros Leite, uma das maiores lingüistas do Brasil, por assinar um documento da Reitoria pedindo lista de presença nas aulas. Id est: aulas presenciais são mandatórias, mas é proibido exigir a presença do aluno.

Está na hora de o paradigma da “universidade-pública-gratuita-e-de-qualidade” cair com o Guerra Fria. Os universitários precisam descobrir que o Muro de Berlim foi derrubado por cidadãos socialistas loucos para desfrutar da liberdade e das possibilidades do capitalismo do outro lado do muro – o mesmo capitalismo que dá alergia nos bolcheviques mauricinhos da USP.

Um universitário brasileiro, capaz de fazer parte do Show do Milhão, deveria ter a obrigação de saber que quem perdeu a Guerra Fria foi a URSS. A elite intelectual brasileira talvez seja capaz de saber fazer algo além de pedir dinheiro do governo para sobreviver.

Post Scriptum: siga o movimento Chapa América (@america_usp), por uma chapa neoliberal, burguesa e reacionária para o DCE da USP.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Política sobre camelos


"O que é ser socialista? – perguntara-lhe Gacel na primeira noite, quando ainda tinham vontade de falar e cavalgavam, um ao lado do outro, sobre sacolejantes camelos.

— É pretender que a justiça seja igual para todos.

— Você é socialista?

— Mais ou menos.

— Acredita que todos, imohag e criados, somos iguais?

— Diante da lei, sim.

— Não me refiro à lei. Eu quero me referir a que criados e senhores sejamos iguais completamente.

— De certo modo... - Abdul-el-Kebir tentou descobrir até onde poderia ir sem se comprometer. - Os tuareg são os últimos seres da Terra que ainda mantêm escravos sem se envergonhar disso. Não é justo.

— Eu não tenho escravos. Tenho criados.

— De verdade? E o que faz se um deles foge e não quer mais trabalhar para você?

— Eu o procuro, acho-o, açoito-o e o trago de volta. Nasceu em minha casa, eu lhe dei minha água, minha comida e minha proteção quando não podia se valer por si mesmo. Que direito tem ele de esquecer-se disso e ir embora quando não precise mais de mim?

— O direito à liberdade. Você aceitaria ser criado de outro homem só pelo fato de o haver alimentado quando era criança? Até quando se deve pagar essa dívida?

— Não é o caso. Eu nasci imohag. Eles nasceram aklis.

— E quem dispôs que um imohag é superior a um akli?

— Alá. E se não fosse assim, não os teria feito covardes, ladrões e servis. Nem os teria feito valentes, honrados e orgulhosos.

— Demônios! – exclamou. – Você teria sido o mais fanático dos fascistas...

— Quem é um fascista?

— O que proclama que a estirpe dele é superior a todas as outras.

— Nesse caso, sou fascista.

— E realmente você o é – admitiu Abdul com convicção. – Embora tenha a certeza de que se soubesse o que, de verdade, significa ser fascista, você renunciaria a isso.

— Por quê?

— Não é uma coisa que possa ser explicada assim, aos solavancos, sobre um camelo que parece estar embriagado... Será melhor que o deixemos para outra ocasião.”


(Alberto Vazquez-Figueroa, Tuareg)

sábado, 20 de novembro de 2010

A consciência negra em uma equação


“Porque o direito, a realidade ‘direito’ – não as idéias sobre ele do filósofo, jurista ou demagogo – é, se me permitem a expressão barroca, secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade, parece-me - perdoe-se-me a insolência - ter uma idéia muito confusa do que é o direito.” – José Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas


Há uma grita premente por reformas gerais nas leis que garantam que cidadãos com ideais discutíveis só possam andar na condicional por bom comportamento. Essa urgência vem de grupos sociais, todos eles, calcados na agenda dos “excluídos” procurando seu pé-de-meia: os homossexuais, os negros, os sem-terra, as mulheres, o movimento anti-manicomial (que não é composto de loucos, mas é o que os fazem parecer tão sensatos).

Não buscarei ressuscitar a velha discussão sobre a legitimidade de cada um desses grupos: é consabido entre os 2,7% de alfabetizados da população que os italianos vieram ao país para substituir a mão-de-obra negra, que ficava cada vez mais cara, e nem por isso têm “cotas sociais”; que as mulheres não foram trazidas acorrentadas de outro continente para cá, nem são espancadas quando beijam outras rachas (em verdade, filmes com essas demonstrações costumam valer uma nota) e Hitler não as culpou pela derrota alemã na Primeira Guerra.

Por outro lado, essas políticas de inclusão (do Bolsa-Família ao Bolsa-Presidiário, da cota social até a lei da homofobia) revelam o caráter revanchista, vitimista e sangue-nos-olhos que caracteriza a esquerda contemporânea – aquela que morre de medo de se outorgar comunista, mas não permite a existência de nada fora do Estado. Aquela que sempre diz que a esquerda mundo afora não deu certo por não ser de esquerda o suficiente, mas sempre que é careada à esquerda das antigas, diz que esta foi degenerada. A esquerda que quer um Estado comendo nosso rabo pelas bordinhas.

Com o vitimismo, que exige privilégios para uma classe e culpa uma outra, de bordas esfumaçadas e contornos imprecisos (“a elite”, “a classe média”, “a mídia golpista”), vê-se como um esquerdista quer tomar o poder: seu sonho não é apenas encher a burra dos vulgos “oprimidos” que julga representar, mas atacar e destruir um inimigo preciso. O sonho do revolucionário é liderar uma turba enfurecida.

O caso Mayara, os espancadores de gays e todos os outros exemplos recentes e não tão recentes apontam para a direção que essa cultura do grupelho se auto-pechando por “vítima” nos leva. Não se pretende aqui dizer asneiras da direita caricata a respeito do Bolsa Família, nem sair em defesa de retardados que ainda possuem preconceito contra os feios – como já afirmou Olavo Pascucci, o homossexualismo não constitui flagelo ético, mas sim um ataque estético – com efeito, é feio pra caralho um galalau introduzir a trosoba própria em lorto peludo alheio.

Porém, a forma rasa com que se lida com o problema dos neofascistas que atacam minorias desprotegidas não se diferencia muito de um neocomunismo – e, a despeito do que a turma do marxismo de bem com a vida possa ousar afirmar, nunca conseguirão provar que o fascismo matou mais do que o comunismo, e nem que se buscar o socialismo democrático procurarão desculpas para algo tão quimérico e oximoroso quanto o fascismo democrático.

Os averiguadores de cotas da Universidade, que vê no olhômetro se você é um negro de verdade ou apenas um mameluco qualquer que, graças ao sangue explorador de algum tio seu, não merece o mesmo benefício de um tição que brilha no escuro, instaurou o primeiro comitê de pureza étnica do Brasil. A lei da homofobia quer instaurar o primeiro (primeiro?) grupo com poderes inexistentes aos demais grupos sociais. Isso sem falar em lei da imprensa, controle social de propriedades etc.

Tudo lembra bem aquele revanchismo que rolou com um certo partido golpista e totalitário que tomou o poder na Alemanha em 33. Claro, não quero recair na Lei de Godwin. Mais óbvio ainda, sei que o PT em (quase) nada se parece ao nacional-socialismo. Porém, o ponto mais preocupante dessa cultura está sendo negligenciado na discussão hodierna: o que mantém a turba enfurecida, até o momento, sob controle?

Antes de imediatamente propor ao Congresso o Bolsa Gardenal, basta fazer uma continha simples, de resultado surpreendente. O que fez Hitler, um Zé rodela de mão cheia, ser líder absoluto de um país, vá lá, rural e de idioma de estrebaria, mas também culto e maior guardião da cultura clássica ocidental que ainda pisa filosofante nesse planeta?

Apesar de lembrar o Mr. Manson e sua explicação científica de que os neurônios responsáveis pelo cálculo matemático são os segundos a serem destruídos pelo incessante uso de THC (só perdendo para aqueles responsáveis pelo bom gosto musical), a conta é acompanhável indolormente: o nazismo culpou os judeus pelo opróbio alemão. Os judeus, como hoje, eram a elite econômica. Em menor número, não puderam sonhar em ter sequer uma margem de votos representativa contra a ascenção do nazismo. Um povo inteiro em fúria esmagou, com sede de uma vingança sem justificativa, cada semita que encontrasse, mesmo o mais miserável e o menos explorador.

O que muda no Brasil atual? Na verdade, fora os aspectos gritantes que diferenciam a democracia brasileira do totalitarismo alemão (que poderiam ser facilmente reduzidas a filigranas menores e derrubadas com a pressão do segundo fator), a diferença é o número de negros brasileiros frente aos brancos.

Com efeito, mesmo no Brasil um Charles Manson teria dificuldade em iniciar o seu Helter Skelter. A “classe média burguesa”, de contornos imprecisos, é muito numerosa. Aqueles que podem ser atingidos pela lei da homofobia por cada piadinha envolvendo entubação de mangalhos exigiriam que, se a lei fosse aplicada stricto sensu, a internet fosse fechada, e todos os homens e mulheres, de cada classe social, que ousassem o heterossexualismo (ou mesmo os gays falando entre si, que são, como os judeus, uma turma que adora saudavelmente rir de si própria) fossem pra cadeia.

A turba que é “vítima”, assim, tem um discurso de ódio, mas só pode ficar no discurso. Nem mesmo se quiser fazer sua revanche pegando o seu alvo de galera logrará êxito notável. O número de brancos, classe medianos e outras características “conservadoras”, no Brasil, mantém a massa de manobra de grupelhos políticos bem quietinhos – mas somente o seu número, mesmo. Para o bem dessas próprias minorias.

O discurso oficial, mesmo com feriados como o Dia da Consciência Negra (que é feriado oficial em 2 estados, enquanto o Dia do Índio não o é... mas quantos índios você conhece, afinal?!), promove o ódio revanchista. Felizmente, apesar de não perceberem que a vida dos pobres e oprimidos está melhor porque essa “elite” lhes deu produtos baratos (e mesmo esgoto e água encanada) a um preço irrisório com os quais os seus bisavós nunca sonharam em possuir, o governo ainda não pode extinguir tudo aquilo que considera nocivo ao seu propósito de igualdade, sob risco de ter de extinguir boa parte da raça humana do país.

Os negros que são os atores mais populares, o melhor jogador de golf, o melhor economista, a mulher mais importante da mídia americana e até mesmo o presidente podem sonhar felizes com suas conquistas pessoais. Infelizmente, para os outros, há o discurso de you’re less: work less, expect less, bem denunciado por Thomas Sowell, o melhor economista vivo, por coincidência, negro.

A consciência negra não precisa acabar com o que os brancos construíram. Mas, por mais que o governo queira, felizmente, a briga seria tão massacrante que nos destruiria. Isso não acontecerá nem que eles forcem mais a barra. Ainda bem.

domingo, 14 de novembro de 2010

Em defesa da estudante Mayara


por Janaína Conceição Paschoal*, na Folha


Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões.

Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.

É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.

Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.

Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.

Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se “enquadraria” em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.

É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.

Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão. Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.

O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.

Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.

São Paulo, é fato, é fonte de grande parte dos benefícios distribuídos no restante do país. São Paulo, é fato, revela-se o Estado mais nordestino da Federação.

Nós, brasileiros, não podemos permitir que a desunião impere. Tal desunião finda por fomentar o populismo, tão deletério às instituições no país.

Não há que se falar em governo para pobres ou para ricos. Pouco após a eleição, a futura presidente já anunciou o antes negado retorno da CPMF e adiou o prometido aumento no salário mínimo. Não é exagero lembrar que Getulio Vargas era conhecido como pai dos pobres e mãe dos ricos.

Não precisamos de pais ou mães. Não precisamos de mais vitimização. Precisamos apenas de governantes com responsabilidade.

Se, para garantir a permanência no poder, foi necessário fomentar a cisão, é preciso ter a decência de governar pela e para a União.

Quanto a Mayara, entendo que errou, mas não parece justo que seja demonizada como paulista racista, quando o mote dado na campanha eleitoral foi justamente o da oposição entre as regiões.

Se não dermos um basta a esse estratagema para manutenção no poder, várias Mayaras surgirão, em São Paulo, em Pernambuco, por todo o Brasil, e corremos o risco de perder o que temos de mais característico, a tolerância. Em nome de meu saudoso avô pernambucano, peço aos brasileiros que se mantenham unidos e fortes!

*JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL, advogada, é professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.


Comento:

O excelente texto da doutora Janaína Conceição Paschoal, que foi orientadora da minha namorada, deveria ter sido extremamente divulgado por todas as redes, como aconteceu com o texto de Leandro Narloch [Sim, eu tenho preconceito!] na mesma Folha, na última quinta [11/10].

As reações extravazadas às palavras de Narloch confirmaram a própria tese que ele defende, a saber, que nada exige a tolerância política com quem tem orgulho de sua falta de educação e, mesmo assim (e, hoje em dia, exatamente por isso) acha que pode governar um país. Mais do que isso, nada torna essa tolerância algo salutar para a democracia. Já o texto da professora Janaína aponta para a inversão do preconceito que corrói (como todo preconceito) o sadio tráfego de sinapses sem engarrafamentos paulistanos.

A campanha política desse ano foi pautada em um discurso estrábico e contraditório, de molde a criticar as privatizações, ao mesmo passo em que enaltece o aumento de consumo e bens acessíveis aos pobres, só possíveis graças a elas; o enaltecimento das virtudes democráticas e de liberdade de expressão só proporcionados por Lula, enquanto jornalistas foram quase expulsos do país, a imprensa é ameçada de censura (disfarçada de controle da mídia) e sempre tachada de golpista, enquanto a maior censura possível é feita escancaradamente – o fomento de pasquins governistas com dinheiro do contribuinte, sob alegação de “publicidade”; o Nordeste cresceu economicamente mais do que as outras regiões, mas ainda se culpe o Sul por seu atraso, entre outros tantos.

O fato, apontado pela doutora Janaína, é que o discurso do PT é pré-fabricado em linhas de produção do ABC paulista, mistifório vazio e manjado que tem sempre explicações e inimigos prontos para receberem a culpa que o governo quiser lhes impingir.

A culpa é sempre deles. De uma coletividade abstrata, dificilmente distinguida homogeneamente no mundo real, que, por sua constituição escorregadia, pode sempre ser sempre formalmente acusada de toda a sorte de crimes e calúnias sem nunca poder se defender – visto que inexiste. A elite branca, a classe média (sempre, paradoxalmente, mesclada à primeira), a mídia golpista, as corporações, os empresários, os paulistas.

Qual é o piso salarial de um operário do ABC? Muito provavelmente um deles negaria, mas contando-se todos os benefícios trabalhistas que recebe após anos de greves e piquetes, dificilmente um deles ganha menos de R$5.000,00 por mês. É essa turma que se considera “a classe trabalhadora”. Já se alguém se formar numa faculdade e virar trainee de publicitário para coletar mensalmente um michê fixo de R$1.800,00, este explorador será considerado “burguês” pelo “proletariado” ali atrás. Como deixa claro a doutora Janaína, para ser “operário”, basta se considerar pobre, ou defensor deles enquanto viaja por Paris; para ser “elite dominante”, basta não votar no PT.

A levar esta tese às estribeiras, o PT deveria ser mesmo considerado o melhor partido político do mundo: o Brasil agora tem só 56,05% de “operários trabalhadores”, enquanto tem uma “elite dominante” de simplesmente 43,95% da população.

Já afirmei antes: Mayara deveria sofrer punições não por racismo, mas por ser uma imbecil em níveis sociopatas. Mesmo porque, qualquer analista do discurso sabe, levar suas afirmações ao pé-da-letra seria outra atitude de mão-única levada a cabo por essa elite de operários. Quando a presidente da Apeoesp (sindicato dos professores de São Paulo), Maria Izabel Azevedo Noronha, admite escancaradamente que fez greve com fins políticos (crime que ignoraram), e convoca os professores a “acabar com o partido [PSDB]”, para concluir: "Estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador”, imediatamente seu palavrório é encarado como pura metáfora, e não um chamado às armas e à violência pelo fim da pluralidade política (mesmo que saiba-se do caráter socialista desses sindicatos). Já se Mayara idiotamente diz para se “afogar um nordestino”, a intelligentsia esquerdista, aquela mesma que defendeu Polanski e finge que não sabe quem é Sakineh até hoje, pediu “linchamento”, como se o mesmo crime não fosse.

Séculos de preconceito mais contra pobres do que contra nordestinos (visto que a tal “elite” adora Ivete Sangalo e passar férias em Fortaleza), como afirma a professora, não serão desfeitos com vitimismo, que também existe há séculos (e, portanto, já deveria ter causado alguma mudança na balança). No entanto, o PT, em sua campanha presidencial (e deve ter sido a menor de suas falcatruas), declarou com todas as letras o preconceito contra São Paulo [cf. o blog da Dilma: ZÉ PEDÁGIO PENSA QUE NORDESTINOS SÃO BESTAS COMO OS PAULISTAS, depois corrigido às pressas, mas que ainda deixou as pegadas do título original no link], culpou “a elite” (e ela, se existisse da mesma forma como é representada, não teria direitos democráticos?) e a própria Dilma afirmou que brasileiros que moram no exterior não são dignos de confiança.

Novamente, até o número de votos da própria candidata eleita confirma que a realidade é bem outra. Mas segundo a patrulha ideológica progressista, só é possível ter o NOVO preconceito. O preconceito do progresso, o preconceito mais correto: o preconceito do vitimismo fofurete, o culpismo de qualquer pessoa que tenha dinheiro – ou que não vote no PT, visto que eles mesmos têm dinheiro e precisam se “desculpar” por isso, enquanto culpam os pobres que não gostam desse partido de mal-intencionados, ou de burgueses ricos com interesses espúrios.

A doutora Janaína está correta como Søren Kierkegaard: “Defende-se a liberdade de expressão para se defender a liberdade de pensamento, da qual quase nunca fazem uso.”

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

David Foster Wallace: abstração, matemática e filosofia


Gosto de viver perigosamente. Mas talvez minha maneira de pensar seja ainda mais perigosa do que atravessar fora da faixa.

Há muita discussão com filósofos, cientistas, religiosos e não-idealistas de todas as partes sobre questões de conhecimento. Quase nunca se ouve os matemáticos, que simplesmente destroçaram o que é comumente defendido nessas querelas há séculos, mas poucos sabem disso.

Segue um trecho que traduzi do brilhante livro Everything and More: A Compact History of ∞. O livro traça um panorama histórico do conceito de infinito (o número, por isso não 'History of Infinite'), e é um verdadeiro soco no estômago de todos os "filósofos" que adoram tratar de conceitos extremamente abstratos achando que conseguem lidar com eles como um reles matemático o faz todo santo dia. Enjoy.



Eis uma citação de G. K. Chesterton: "Poetas não enlouquecem, mas jogadores de xadrez sim. Matemáticos enloquecem, e caixeiros; mas muito raramente artistas criativos. Não estou atacando a lógica: apenas digo que o problema está na lógica, não na imaginação." Aqui também vai um fragmento de uma orelha de uma recente biografia pop de Cantor [matemático russo (1845-1918)]: "No fim do século XIX, um matemático extraordinário morreu num manicômio (...) Quanto mais próximo ele chegou das questões que buscava, mais longínquas elas pareciam. Uma hora isso o deixou louco, como a muitos matemáticos antes dele."

Os casos de grandes matemáticos com doenças mentais têm ressonância enorme para escritores e cinegrafistas pop modernos. Isto tem a ver com a visão preconcebida dos próprios escritores/diretores e de seu público, que por outro lado são funções do que você poderia chamar de padrão arquetípico de nossa era. Não é preciso dizer que esse padrão muda com o tempo. O Matemático Doente Mental parece ser agora, de alguma forma, o que o Cavaleiro Errante, o Santo Mortificado, o Artista Torturado e o Cientista Maluco foram para outras eras: um tipo de Prometeu, aquele que vai a lugares proibidos e retorna com dádivas que nós podemos usar mas que ele paga sozinho. Isso é provavelmente um pouco exagerado, ao menos na maioria dos casos [1]. Mas Cantor se encaixa no padrão melhor do que a maioria. E as razões para isso são bem mais interessantes do que seus problemas e sintomas o foram.

(...)

Chesterton acima está errado em um aspecto. Ou ao menos impreciso. O perigo que ele está tentando indigitar não é a lógica. Lógica é apenas um método, e métodos não podem transtornar pessoas. Do que Chesterton está realmente querendo falar é uma das principais características da lógica – e da matemática. Abstração. Idéias abstratas.

É melhor ir direto ao significado de abstração. É provavelmente a palavra mais importante para entender o trabalho de Cantor e os contextos que o possibilitaram. Gramaticalmente, a raiz é um adjetivo, do latim abstractus = ‘atraído’. O O. E. D.tem nove definições principais para o adjetivo, das quais a mais adequada é a 4.a.: “Retirado ou separado da matéria, do material encarnado, da prática ou de exemplos particulares. Oposto a concreto.” Também de interesse é a 4.b., “Ideal, destilado de sua essência.”, e 4.c., “abstruso”.

Eis uma citação de Carl B. Boyer, que é mais ou menos o Gibbon da história da matemática: “Mas o que, afinal, são inteiros? Todo mundo pensa que sabe, por exemplo, o que o número três é – até tentar definir ou explicá-lo.” A respeito disso é instrutivo falar com professores de primeira e segunda série e descobrir como as crianças aprendem de verdade sobre inteiros. Sobre o que, afinal, o número cinco é. Primeiro são dadas, digamos, cinco laranjas. Algo que eles possam tocar ou segurar. Depois pede-se para contá-las. Então lhes é dado uma figura de cinco laranjas. Então uma figura que combina as cinco laranjas com o numeral ‘5’ para elas associarem os dois. Então uma figura apenas do numeral ‘5’ com as laranjas removidas. As crianças então são envolvidas em exercícios nos quais eles começam a falar sobre o inteiro 5 per se, como um objeto ele próprio, separado das cinco laranjas. Em outras palavras eles são sistematicamente enganadas ou despertadas para tratar números como coisas ao invés de símbolos para coisas.

(...)

A questão: a definição básica de ‘abstrato’ para nossos objetivos será a alguma forma concatenada com ‘removida da ou transcendendo a particularidade concreta ou experiência sensível’. O pai da abstração na matemática: Pitágoras. O pai da abstração na metafísica: Platão.

(...)

Tudo isso é apenas um tipo de aquecimento: a coisa toda não será como isso. Eis mais duas citações de figuras altaneiras. M. Kline: “Uma das grandes contribuições gregas para o próprio conceito de matemática foi o reconhecimento consciente e a ênfase no fato de que entidades matemáticas são abstrações, idéias entretidas pela mente e nitidamente distintas de objetos ou figuras.” F.d.l. Saussure: “O que escapou a filósofos e lógicos é que a partir do momento em que um sistema de símbolos se torna independente dos objetos designados ele mesmo fica sujeito a deslocamentos que são incalculáveis para o lógico.”

Abstração contém todos os tipos de problemas e dores de cabeça, nós todos sabemos. Parte do perigo é como usamos substantivos. Nós pensamos nos significados dos substantivos em termos de denotações. Substantivos servem para coisas – homem, mesa, caneta, David, cabeça, aspirina. Um tipo especial de comédia resulta quando há uma confusão sobre o que é um substantivo real, como em ‘Quem vem primeiro?’ ou aquelas peripécies de Alice no País das Maravilhas – ‘O que você pode ver na estrada?’ ‘Nada.’ ‘Que grande visão! E como nada se parece?’ A comédia tende a esvanecer, entretanto, quando os substantivos denotam abstrações, significando conceitos gerais divorciados de instâncias particulares.

Muitos desses substantivos-abstrações vêm de raízes verbais. ‘Movimento’ é um substantivo, e ‘existência’; nós usamos palavras como essas o tempo todo. A confusão surge quando nós tentamos considerar o que exatamente elas significam. É como a questão de Boyer sobre inteiros. O que exatamente ‘movimento’ e ‘existência’ denotam? Nós sabemos que as coisas particulares concretas existem, e que algumas vezes elas se mexem. O movimento existe per se? De que forma? De que forma abstrações existem?

É claro, a última pergunta já é por si bem abstrata. Agora você pode começar a sentir a dor de cabeça surgindo. Há um tipo especial desse mal-estar ou impaciência com coisas como essas. Como ‘O que exatamente é a existência?’ ou ‘O que exatamente queremos dizer quando falamos sobre movimento?’ O mal-estar é bem distinto e põe-se apenas em um certo nível no processo de abstração – porque a abstração procede em níveis, meio como expoentes ou dimensões. Digamos que ‘homem’ signifique algum homem particular no Nível Um. ‘Homem’ significando a espécie é o Nível Dois. Algo como a ‘humanidade’ é o Nível Três; agora nós estamos falando sobre os critérios de abstração para algo qualificando-o como humano.

E assim vai. Pensar desse jeito pode ser perigoso, estranho. Pensar abstratamente o suficiente sobre qualquer coisa... certamente nós já tivemos a experiência de pensar sobre uma palavra – ‘caneta’, digamos – e ir dizendo a palavra de novo e de novo para nós mesmos até ela cessar de denotar; a própria estranheza de chamar algo de caneta começa a intrometer-se na consciência de uma maneira arrepiante, como uma aura epiléptica.

Como você provavelmente sabe, muito do que nós chamamos de filosofia analítica tem a ver com questões de grau no Nível Três – ou mesmo Quatro – como essas. Como em epistemologia = ‘O que exatamente é o conhecimento?’; metafísica = ‘O que exatamente são as relações entre construções mentais e os objetos no mundo-real?’; etc [2].

Pode ser que filósofos e matemáticos, que gastam muito tempo pensando (a) abstratamente ou (b) sobre abstrações ou (c) ambos, são eo ipso propensos para doenças mentais. Ou pode apenas ser que aquelas pessoas que são suscetíveis a doenças mentais são mais propensas a apesar sobre esse tipo de coisas. É uma questão o-ovo-e-a-galinha. Uma coisa é certa, contudo. É um mito completo que o homem é por natureza curioso e tem fome de verdade e quer, sobre todas as coisas, saber [3]. Dados certos reconhecimentos sentidos de ‘saber’, há de fato uma grande quantidade de coisas que nós não queremos saber. A evidência para isso é o enorme número de questões básicas sobre as quais nós não queremos pensar abstratamente.


[1] Apesar de que há o outro estereótipo de matemáticos como criaturas nerds, pouco diferentes de fissíparas. Na arquetipologia de hoje, os dois estereótipos parecem se combinar de maneiras importantes.

[2] De acordo com a maioria das fontes, G. F. L. P. Cantor não foi apenas um matemático – ele tinha uma verdadeira Filosofia do Infinito. Era estranha e quase-religiosa e, sem surpresas, abstrata. Em um ponto Cantor tentou trocar seu emprego no departamento de matemática em U. Halle por filosofia, e o pedido foi negado. Reconhecidamente ele não estava em seus períodos estáveis.

[3] A fonte desse mito pernicioso é Aristóteles, que é em alguns aspectos o vilão de toda a nossa história.