sábado, 24 de julho de 2010

Afinal, por que „Deutsch”?

Costumeiramente sou inquirido a respeito da palavra „Deutsch” – afinal, por que diabos dizemos “Alemanha” e “alemão”, enquanto em inglês os termos são “Germany” e “german”? E em italiano, “Germania” e “germano” ou “tedesco”? Segue um breve estudo de germanística para solucionar de vez este problema.

O termo germanos é registrado pela primeira vez por Salústio, Nas Histórias, III, 7, e por César, nas Guerras das Gálias II (e como aquele porra do Asterix deu trabalho) – portanto, como sabem, entre os anos 52 e 50 a. C., é óbvio.

A origem deste termo continua sendo debatida, sendo não mais aceita a teoria que propunha ser um composto de gêr (palavra para lança em Antigo Alto Alemão) e man (adivinhem?). A verdade é que a lança, na época de César, era denominada gaiza.

Hartmann (que é apenas um sobrenome, não um epíteto para certos dotes pessoais) propôs que adveio do latim germanus (“genuíno”, “verdadeiro”); outros dizem até que veio de hermanus (deve ser por isso que Hitler foi se refugiar na Argentina...), e também há quem acredite, como Hennig, que o responsável seja o radical celta germo (quente). Lamprecht já acha que Germanos significa “vizinhos”.

Como todos sabem, entre os restos dos Fastos Capitolinos romanos há a primeira inscrição mencionando os germanos que existe: De Galleis Et German(is) K(alendas) Mart(ii). Sua autenticidade, contudo, é discutida.

As terras que hoje formam a Alemanha eram habitadas por muitas tribos naqueles idos: francos, hessianos, frisões, anglos, saxões, godos, burgúndios e vândalos (não confundir com hooligans, estes são ingleses).

Após algumas poucas guerras (coisa tão pouco germânica...), uma unificação, que resultou no Sacro Império Romano-Germânico, manteve-os todos agregados e pacíficos.

O fato enfim é que precisavam de uma palavra para designar a nova cultura que ia surgindo após o Império Romano ruir, e acharam a palavra deutsch, inicialmente referindo-se apenas à língua, e não ao povo.

Segundo as palavras de Leo Weisgerber (Der Sinn des Wortes „Deutsch”, 1949): "O nome da língua alemã, deutsch, é, em certo sentido, um apelo à pátria dos francos, submetidos à romanização sistemática em região além das fronteiras lingüísticas em formação”. (simples, no mamita?)

O bispo romano de Ostia (não mastigue!), Wigbod, escreve no ano de 786 ao Papa, relatando que as resoluções do rei foram lidas "tam latine, quam theodisce, quo omnes intelligere possent" (latim dificilibus caralium est). Até Carlos Magno, em 801, resolve falar theodisce. Assim, começa a fazer-se notar a clara distinção entre as línguas “bárbaras” e as línguas romanas, sendo explicada por Otfrid Von Weißenburg: cur scriptur hunc librum theodisce dictaverit (a mim também não explicou nada, mas whatsoever).

Apenas 200 anos depois é que foi aparecer a forma alemã da palavra, quando Notker, o alemão (955-1022), usa o termo diutisch, e na Canção do Anno (anterior a 111) se usa o mesmo termo referindo-se ao povo.

Por sua forma, parece ser a palavra deutsch do gótico þiuda (“povo”, conservada, por exemplo, no nome próprio Dietrich, “soberano do povo”). A esse termo ligam-se as formas latinas theodiscus, thetiscus, teudiscus, sendo até pertencente ao francês arcaico a forma tie(d)eis. Assim, nota-se que o termo deutsch tem a mesma origem de “teutônico”.

Outros países, quando se referem à Alemanha, ou ao Reich II, ou àquelas terras que Bismarck logo iria unificar, usavam palavras derivadas do latim Germania, mas os alemães, que tinham sua própria palavra derivada do francônio, para se separarem daqueles que apenas falam uma língua germânica, não sendo entretanto da mesma etnia, preferem batizar o país de Deutschland (“Terra dos Teutônicos”).

Por termos origem latina, chamamos a Alemanha de Alemanha pois pegamos o termo do baixo latim alamanus, advindo do germânico primitivo alamans, ou “todos os homens” – termo este empregado para os alemães mais longínquos da “base” central, como os latinos que passavam da fronteira, e representando o alemanisch – de todos os dialetos do alemão, aquele que mais se distancia do Hochdeutsch – falado, exempli gratia, na Suíça alemã e no Lichtenstein.

Felizes para sempre?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Palmas para a lei! (opa, não pode mais...)

Instado que sou, com freqüência atávica, a me pronunciar sobre casos recentes de porradaria, foi-me irrecusável denegrir de meus próprios princípios e aceitar, sofregamente, o debate da semana – seria permitido um progenitor de família, ao testemunhar delitos de pirraça em flagrante, preparar os ossos da mão anatomicamente desenvolvida por bilhões de anos de evolução dirigida, para pousá-los com claque percussivo em uma bunda infantil esculpida artisticamente para este exato mister?

Meus leitores, sempre informadíssimos da minha postura ilibada, podem presumir que encontraria maneiras menos irreais para atingir algo irreal como a paz mundial, não obstante o debate ter se subdivido mais do que a planificação intelectual permitiria, criando assim um grupo de palmadistas (como o Gravataí) e lulistas paz e amor (como o Doni, que é lacaniano, mas é meu amigo).

Toda a minha vasta erudição e a cota de bucetas que tocou-me perfurar em minha passagem por este vale de lágrimas foram conquistas por anos sob uma jurisdição espartana, pois todos sabem que a maior vantagem de ter pais violentos é que eles não têm aquela mania irritante de entrar no nosso quarto sem bater. Eles batem antes de entrar, depois que entram e saem batendo.

Como um verdadeiro conservador secular, é meu dever zelar por milênios de cultura pedagógica que criaram nossa civilização, enquanto viadices pós-modernas apenas cuidaram de criar televangelistas vociferando contra comportamentos bem assentados no programa da Ana Maria Braga. Ora, Esparta foi próspera em punir ferozmente crianças roubando (não por roubarem, mas por se deixarem serem flagradas). Crianças muçulmanas, a maioria por devoção própria, se auto-flagelam até com navalhas em festivais dedicados a Husayn ibn Ali, que sofreu uma morte violenta para que elas possam ter a honra de existir agora. Os astecas puniam com flechadas quem ia mal na escola, em Mexican...

Enquanto isso, temos pregadores modernosos e cabeça buscando renovar nossos preconceitos proibindo a boa e velha palmadinha educadora. Você já viu um desses intelectuerdas definir a civilização de um lado do globo? Construir uma pirâmide? Deixar o maior império do planeta (autor do mote no pain, no gain) de joelhos? Isso já seria argumento o sobejante para cobrir de palmadas a la Avaiana de Pau cada fanático disposto a morrer e matar por seu Nobel da Paz, mas o caso merece uma análise mais perfunctória.

Como em qualquer desastre não-natural que não seja o Godzilla ou o Monstro do Lago Ness, pode-se encontrar sem demora a culpa em três entidades: os comunistas, os psicanalistas e os blogueiros. A idéia partiu de uma petista. Há trabalhos psicanalistas que a defendem. Alguns blogueiros aplaudiram. Só pode dar merda.

A desculpa é aquela aleivosia engana-trouxa de Rousseau: o indivíduo nasce justo, é a sociedade que o corrompe. Sempre essa tal sociedade. Em pleno século XXI e nenhum mangrebino se dignou a perguntar quem, na pureza primordial, teria dado a primeira palmada! Não é sem razão que Rousseau doou seus filhos para um orfanato – percebeu que sairia mais fácil educar um Ocidente de pais desmiolados do que um par de rebentos.

A farândola de psicanalistas ávidos em culpar os pais por tudo foi a primeira a entrar na jogada. Rapidamente tratou de bradar palavras de ordem sobre direitos humanos de crianças – quando todos sabem que crianças são apenas larvas com o design melhorado. É parte da mesma idiotia que diz que temos um tal "complexo de Édipo" pois todos temos fantasias sexuais ocultas com nossas mães desde o berço – quando qualquer macho ocidental que relegou a punheta a um passatempo para as segundas e quintas sabe que muito mais importantes para a iniciação sexual hodierna não são as mães, são as primas.

Também falta uma categorização mais factual ao açoite. Afinal, um tapinha, uma violenta coerção verbal, um castigo como deixar sem sobremesa e sem viagem pra Disney, um pisão, uma voadora ninjutsu ou cortar as pálpebras com uma tesoura encaixam-se todos na mesma categoria? Se diferenciamos furto de assalto, como faremos com os violentos pais de violentas crianças, para encaixá-los no Código Penal, Civil e em pelo menos metade do ECA?

A punição é o cúmulo do horror: obrigar os pais a se submeter a acompanhamento psicológico ou programas de proteção à família. A própria estatização da família, a aplicação do monopólio da violência pelo Estado em relação até aos discursos maçantes a que crianças têm de ouvir.

Mas também há complicações de ordem prática nesta lei. Saberão os púberes vítimas de fascismo doméstico ligar para a polícia para interromper a surra dos pais? Haverá desenhos educativos patrocinados pelo Ministério da Educação e pela Sudene explicando o processo? Deverá a versão local da S.W.A.T. chutar a porta, granadas e fuzis em punho, olhar nos olhos do palmadista pego em flagrante e rilhar: "Você é a doença, eu sou a cura!"? 80% da pauta do programa do Datena tornar-se-á averiguação de casos de agressão a de menores, com tão poucos crimes que temos a punir? Meu amigo Doni diz que toda forma de dor física é uma agressão. Mas e se os pais tiverem revidando crianças lhes batendo? E se estiver acontecendo uma rixa (artigo 137 do Código Penal)?

E quanto aos irmãos mais velhos, mas ainda de menores, que praticarem uma sevícia de fim-de-semana aos mais fracos? Poderão os pais se usar destes para praticar a terceirização da chinelada – ou usando os filhos dos vizinhos, para o caso de precisar punir o mais forte da cadeia chinelar?

Na sala de justiça, o Gravataí diz que quem não tem filhos não pode comentar sobre os usufrutos e empecilhos da pancadaria na educação de rebentos. Ora, o mesmo caso dos psicanalistas rousseaunianos aplica-se aqui: qualquer pagador de impostos que já teve de aturar uma criança alheia em uma fila de banco, cinema ou ônibus lotado sabe muito bem que filho da puta não deveria ter filho. E quem tem amigos com filho? E quem tem vizinhos com filho? E quem sai na rua? E quem é assaltado pelo filho da puta do próximo? E não é apenas culpa da educação, como afirma Doni (que diz que só se desfere a disciplinar cacetada quando se falha na educação). É porque é da natureza das crianças serem pentelhas pra caralho. Vou presentear o Gravata com uns priminhos.

Quando se apela para este expediente, ignora-se o atavismo mais ululantemente óbvio: pais que não descem a espada de São Jorge nos seus filhos têm filhos calmos... porque têm pais calmos, quietões, de falar manso e que não descumprem regras. Será que essa turminha antenada e progressista nunca ouviu falar em Mendel, em anelos Azão e azinho, colocados na forma de AA x aa no jogo da velha?

É uma visão romântica e cafona esta a exigir que hoje os de menores não brinquem na terra para não se sujar e não se cortar, que todos os seus brinquedos sejam almofadados, pois a castimônia de infantis deva sair impertérrita da vida, sem um único arranhão, neste lindo mundinho em que vivemos.

Se a realidade fosse como querem a Associação das Senhoras Católicas e os psicanalistas (estranhamente lutando por um ideal comum), skate teria cinto de segurança, sorvete só existira nos sabores quiabo e jiló e lual só aconteceria em lugar fechado, que é pra ninguém pegar sereno.

É sabida a inocência de um púbere em nosso mundinho pós-Nabokov, nosso mundinho idílico e bucólico. Adolescentes de 15 anos não estão desesperados pra poder dirigir no ano seguinte, nem cogitam beber até vomitar e fumar bagulho feito uma caipora – e nem engravidam como boi (e vaca) reprodutor – prontos, ademais, para ter seus próprios rebentos palmatáveis. Aliás, nenhum desses inocentíssimos e infantis de menores ousa já possuir a verdadeira solução dos problemas mundiais – e nenhum deles vota no PT quando atinge os 16.

Não há o que se preocupar: nenhum deles se reunirá em comunidades no orkut para descobrir como se livrar dos progenitores chatos os mandando para grupos de ajuda de Palmadistas Anônimos e podendo usar a cama de casal dos financiadores a seu bel-prazer.

Mas eu proponho uma solução.

Ou algumas. Em primeiro lugar, crianças chatas que só um cacete fazendo arte poderiam ser vendidas como escravas. É o primeiro passo para que nos livremos da violência doméstica, abolindo-as dessa vidinha traumatizante, lhes dando uma ocupação longe de todo aquele ambiente opressor e ainda as educando – de lambuja, também ficamos mais próximos de conseguir nossa própria pirâmide em terras tupiniquins.


Também urge proibir pais de levantar a mão de vez contra os filhos: todos estes últimos usarão coleirinhas inquebráveis com potência para descarga de choques acionados por controle remoto pelos pais, a exemplo do que já foi mostrado em Battle Royale, The Running Man e sugerido por um certo professor de Direito da UFMG (peguei vocês).

Por fim, devemos botar a tropa de elite da polícia local para invadir com pezada na porta as casas dessas psicanalistas (quase todas mulheres, todas gordas e mal-comidas que nunca viram uma criança, um episódio de Super Nanny ou uma caralha disposta a nelas se adentrar) e lhes jogarem numa cela não-acolchoada abarrotada de meliantes que nunca levaram um tapinha na bunda. Creio que será um valioso estudo de caso para o valor da palmada corretiva, sem que tenhamos de despediçar uma geração inteira de impúberes sem ter um estudo analítico e uma resposta para este dilema.

Espero que estas considerações adiantem já o estado da discussão para o próximo debate juvenil que sacudirá o país – a liberação do aborto, como clarividenciado pelo Gravataí. E que fique claro: sou a favor da liberação do aborto antes dos 3 meses de gestação pois são apenas fetos, e também antes de se atingir 80 anos – porque mais sem valor do que um feto, só mesmo um ser humano.


(Post Scriptum: Para quem ficou com preguiça de ler todo este mistifório, posso resumir o busílis em um único argumento: A lei foi proposta por Maria do Rosário (PT-RS). Esta mesma senhora que chamou Champinha de "uma criança", como se crianças fossem capazes de estupro, tortura, seqüestro, degolamento e necrofilia. Obtemperada por Jair Bolsonaro (PP-RJ), que a sugeriu contratá-lo para motorista dos seus filhos, causou uma azáfama por falta de resposta tentando cassar o mandato do cordado senador. Segundo Maria do Rosário, o intuito da lei é a prevenção: "queremos apenas que as pessoas estejam alertas para as conseqüências desse tipo de ato". Resta saber como nossa salvadora irá prevenir as próprias crianças das conseqüências de seus atos – e das desastrosas conseqüências de se ter filhos.)

Liberalismo estóico 2.0

O período helênico foi fértil para o nascimento de diversas escolas divergentes sobre o pensamento da Academia platônica e dos filósofos e pensadores menores que a antecederam. Três escolas se destacaram com magnitude: o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo. A despeito do ceticismo ter ressurgido com força após os desenlances do positivismo recente, as outras escolas parecem mortas e esquecidas.

Contudo, sem nome declarado e sem se reunir em torno de um ideal comum, estas escolas mantêm-se vivas na construção de outras ideologias. O grande debate político hodierno e os fatores que determinam os caminhos tomados pela esquerda e pela direita ainda seguem alguns preceitos definidos pela primeira vez por estas escolas.

O objetivo da esquerda, em linhas gerais, pode ser resumido como uma atitude autárquica e gnóstica – isto é, capaz de, por esforço próprio, ter a total compreensão da realidade humana – que, com graus variados de concentração do poder nas mãos do Estado, é capaz assim de prover os bens necessários para a felicidade dos indivíduos sob aquela jurisdição. Os homens são forçados à igualdade, e sua função é trabalhar, de alguma forma, para a máquina estatal.

O epicurismo, em comparação, é uma visão do homem não dependente de construções sinergéticas para atingir seus fins. O mundo é passível de compreensão pelo homem, e este pode atingir a felicidade, que é a ausência de dor. Para tal, o homem só precisa de si mesmo, sem se valer de instituições, dinheiro ou dos deuses. Todos os homens são iguais, já que essa felicidade sem instituições vale para todos.

Embora pareça haver poucos pontos em comum, a escola epicurista, sem que a maioria dos historiadores atinasse, sobreviveu nos entremeios da filosofia, voltando com força nas mãos de Marx. Para tal, o discípulo de Hegel confiou no mestre, que aplicou as regras da dialética como o funcionamento do próprio mundo – e se a História segue uma linha dialética, ela está sempre se “corrigindo”, sempre progredindo – e sua “conclusão” inevitável coincide com o surgimento do Estado moderno.

Nesse Estado é que Marx aposta todas as suas fichas, ou mais exatamente em sua inevitável derrocada, que progrediria para o Estado socialista. Aqui, talvez sem ser percebido, o epicurismo dita regras, tomando a própria dialética que moveu o interesse no Homem para a definição maior do Estado: o estado independe de instituições externas; tudo é possível de ser entendido pelo homem, através do motor da luta de classes; o homem pode atingir a felicidade, que significa a ausência de dor – ou dessa luta injusta, que terminará quando for implantada a ditadura do proletariado; assim, viverá livre de instituições, dinheiro ou deuses. Todos os homens serão iguais, ou ao menos o Estado assim “garantirá”.

O que concernia ao homem, no epicurismo (embora “homem” ainda não possa ser considerado o indivíduo, a única fronteira sagrada de que nos fala Ayn Rand), passa a ser apanágio do Estado. É onde nasce nossa cosmovisão estatizante, que, sem nenhuma razão, se diz o extremo oposto do fascismo (e como um trópico circular na política, como definiu Hannah Arendt, os extremos se tocam).

O pensamento da esquerda, então, pode ser resumido como necessidade de aumentar impostos e a força estatal, desde que quem esteja no governo tenha boas intenções. Há duas falácias aí: a crença de que uma pessoa só é rica por explorar uma pobre (que a Escola Austríaca tratou de desmilinguir), e a idéia de que o somatório das pobrezas é igual a riqueza.

O liberalismo, ao contrário, assemelha-se em diversos pontos ao estoicismo antigo. Filosofia de redução da vulnerabilidade, o estoicismo preocupa-se apenas com o que é do seu controle: pensamentos, desejos, impulsos, aversões. O restante, não nos dizendo respeito, não é matéria da filosofia.

Em Aristóteles, a felicidade depende em certa medida da chance e da prosperidade. Apesar de o primeiro componente da felicidade ser a virtude, e esta, uma questão do próprio esforço e disciplina, concretizar a virtude vai além do esforço de cada um. Relações recíprocas dependem em algo além da bondade de cada um. Isso torna a felicidade uma questão menos importante: a virtude, sozinha, purificada, baseada puramente na razão e desligada de emoções ordinárias (como medo e pesar, que se aderem a objetos além do nosso controle), torna-se suficiente para a felicidade.

Um liberal invariavelmente já foi perguntado se acha justo alguns nascerem ricos e outros pobres. O que a filosofia liberal propôs foi um retorno ao homem, ao indivíduo, como sujeito do seu destino. É o mesmo pensamento a que se aferram presos de guerra, e não só pessoas que nasceram pobres (como, diga-se, muitos liberais): cuidemos do que pode ser controlado, mas não se pode esperar que nossa felicidade dependa de o mundo se curvar para satisfazer suas condições básicas.

É claro que, no plano econômico, há compensações para esta desigualdade. Mas o discurso filantrópico da esquerda mascara engodos. A idéia do socialismo não é a boa vontade – eu ter dois casacos e dar um deles ao meu vizinho, que não tem nenhum. O anseio é por controle e centralização: o Estado tomará o que eu e o meu vizinho produzirmos e redistribuirá como bem entender. Até mesmo a fraternidade, que era a mediadora entre a igualdade e a liberdade dos revolucionários franceses, é estatizada.

O liberalismo, mesmo que busque manter o sistema através do mercado, permite graus variados de controle sem redistribuição forçada e a irmandade completa entre seus cidadãos – a quantidade de dinheiro privado em universidades públicas americanas comparada ao que o Brasil consegue com impostos mostra qual idéia é mais vantajosa.

O pensamento da direita, desta forma, resume-se a um adendo à junção de impostos e boas intenções do Estado: quem aumenta impostos e impõe força estatal jamais poderá estar bem intencionado. É inegável que quem conhece as leis de mercado sabe algo a mais do que os estatizantes.

domingo, 18 de julho de 2010

Mataremos por um Nobel da Paz!

A maior petulância do Homo brasilis é seu vezo em considerar que mora no próprio Eldorado – a terra nova, recém-descoberta, que é, na verdade, a filial terrestre do Paraíso. Envidando esforços estafantes para provar a si próprio que vive no melhor dos mundos (uma síndrome de Pollyana incompleta, visto que ninguém leu o livro), o brasileiro cega-se para a realidade de viver em um país periférico, longe até geograficamente da qualidade de pensamento que deu pasto à civilização ocidental, e conclui, para salvaguarda de sua vitória desprovida de esforços, que é o Ocidente que não conhece as perfeições da Terra brasilis. Assim, não consegue sequer ser uma filial sul-americana de Portugal.

Tudo o que é enaltecido no Brasil são ações que prescindem de esforço, de reflexão, de competição (atividade proibida pelo governo local). O carnaval, a música popular de ziriguidum, a manifestação de massa nas ruas dirigida por algum analfabeto orquestrador de turbas enfurecidas, a inércia sob o calor e a libido vulgar das praias – tudo aquilo que gera propagandas descerebradas de cervejas aguadas, todas elas com o mesmo gosto.

Apenas por estes fatores é que recauchutam a lenga-lenga do orgulho nacional. Isso, e claro, as bundas e o pentacampeonato. É curioso que tudo que é passível de orgulhar o terrestre brasileiro sejam coisas que lhe foram dadas de graça. Assim, qual seria o óbice, além da litania politicamente correta, para que um cidadão tenha orgulho de ser hetero? De ser rico? De ser branco? Foram coisas lhes entregue tão gratuitamente quanto o seu RG.

Pouco afeito e acostumado com a concorrência fainosa que caracteriza os prêmios internacionais, o Brasil corre à margem das engrenagens que permitem o progresso (e todas as liberdades e facilidades) do Ocidente.

O orgulho do brasileiro não é por ser residente no mesmo país de Miguel Reale, Mário Ferreira dos Santos (o homem que mais estudou dialética no planeta), Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa – orgulho este que exige esforço individual no contato com as obras, o que implicaria concorrência e desigualdade no entendimento e interpretação. Mais fácil é ter orgulho de "ser pentacampeão", como se algum brasileiro tivesse se esforçado no campo por isso – e, claro, acirrar conflitos geográficos desconhecendo suas origens, como a tensão com a Argentina (esta pentacampeã em Prêmios Nobel e em Oscars de melhor filme).

A carência de Prêmios Nobel faz mais falta ao Brasil do que as aparências demonstram. Basta ver como nossa intelligentsia foi aguerrida na defesa de José Saramago, único laureado com o Nobel de Literatura escrevendo em língua portuguesa. Imediatamente esquecem-se de séculos fazendo piadas com a burrice portuguesa e praticamente tomam para si esta conquista lusitana, como um prêmio de consolação por falarem (mal) a última flor do Lácio, bela e inculta. É como uma prova de que ainda chegaremos lá um dia, a despeito de nossa Academia Brasileira de Letras (composta por 39 imortais e um morto rotativo, segundo Millôr) ter cadeira para Sarney e Paulo Coelho.

Não é sem pesar que se nota como o tupiniquim culto e urbano desconhece completamente os meandros e maquinações envolvidas em tais prêmios. Descostumado a ler os grandes da literatura mundial que vivem arriscados a ganhar tal prêmio (de Philip Roth a Carlos Fuentes), ou mesmo a obra dos próprios nobelizados na mesma época de Saramago (de Nadine Gordimer a Herta Müller, apenas Coetze e Pamuk tiveram alguma fama por aqui), há uma crença tácita na completa averiguação imparcial da qualidade do autor por parte da Academia – ou há agora, já que antes sabia-se que o maior gênio da literatura nunca ganharia um prêmio se escrevesse em português (é o discurso que defende Drummond e Cabral até hoje).

Enquanto isso, o mundo sabe da intensa politização do Prêmio, sobretudo nas últimas décadas, que preferiu laurear quase sempre escritores aliados à extrema-esquerda e defensores massivos de ditadores sanguinolentos que sobreviveram à queda do Muro de Berlim (Dario Fo, Günther Grass, Harold Pinter, Elfried Jelinek e o próprio Saramago são exemplos notáveis).

Também sabem que o prêmio dado a Saramago foi fruto de uma intensa campanha de marketing que o promoveu na Suécia. A Wiki, em seu próprio verbete, mostra uma cronologia dos eventos que culminaram no Prêmio:

Setembro de 1997 - A agência publicitária sueca, Jerry Bergström AB, de Estocolmo, contratada pelo ICEP - (órgão estatal português para a promoção do comércio e turismo nacional), organizou uma visita de José Saramago a Estocolmo, incluindo:
  • Um seminário na Hedengrens, a principal cadeia de livrarias sueca
  • Discurso na Universidade de Estocolmo
  • Várias entrevistas a jornais, revistas e rádios suecas
  • Nesses mesmos dias, a televisão estatal sueca produziu um programa especial dedicado a Saramago
  • Outubro de 1997 - A Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem neste ano Portugal como país em destaque
  • 10 de Dezembro de 1998 - Saramago recebe o Prémio Nobel em Estocolmo
Segundo o "Diário de Notícias", o diretor da empresa sueca Jerry Bergström AB afirmou: "Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação".

Com tudo isso à vista do mundo, ainda é fácil para nossos discurseiros padrão, aqueles que criticam facilmente a credibilidade da Wikipedia e confiam em Marilena Chaui, afirmar que as críticas a Saramago são fruto apenas de discordâncias políticas, e que, não tendo seus críticos um Nobel em mãos, deveriam se calar, inclusive para comentar seu "discutível" apoio a Fidel Castro e seu anti-semitismo pouco disfarçado.

(Argumento não despiciendo a ser levado em questão é que, dos escritores que mais desenvolveram a literatura no século XX, a saber: Marcel Proust, James Joyce, Franz Kafka, Joseph Konrad, Jorge Luis Borges, Paul Celan, Virginia Woolf, Julio Cortázar, Rabindranath Tagore, W. B. Yeats, Samuel Beckett e Thomas Mann, apenas estes quatro últimos foram agraciados.)

Mas o desconhecimento brasileiro não é fruto apenas da ignorância de um país periférico, mas de ufanismo perigoso e preconceituoso, que quer simplesmente negar a História assim que a descobre, com medo de sair de sua zona de conforto e encarar uma realidade menos cor-de-rosa ou verde-e-amarela (vide a quizumba gerada pelo Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch).

O fato mais recente dessa ignorância seletiva foi a calamitosa interferência de Lula no programa nuclear iraniano. Setores petistas da intelligentsia brasileira (com o perdão do triplo oxímoro) bradaram o tempo todo que Lula tinha tudo para conquistar o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

É verdade. Um assassino em massa como Yasser Arafat o conquistou. Barack Obama, prometendo aumentar o efetivo de soldados no Afeganistão, também (sabe-se bem o que ocorreria se George W. Bush prometesse o mesmo). Até Jimmy Carter, o pior presidente da história dos EUA, também o conquistou.

O curioso é ver como a petistada encara um desastre diplomático como um ganho enorme para o seu candidato (ninguém discorda que Dilma apenas é a candidata do Lula). E como se fosse a primeira vez em que a diplomacia fez algo que presta (e, curiosamente, bem quando ela cometeu sua maior cagada, tomando pitos de todos os jornais que adoravam elogiar o presidente).

Desde o chanceler Horácio Lafer, que guiou a política externa para o desenvolvimento, tivemos vários momentos em que o Brasil mereceu panegíricos internacionais por suas ações.

Azeredo da Silveira manteve o país nos eixos em uma época razoavelmente conturbada como a Guerra Fria, livrando o país da influência cubana e, mesmo assim, foram as primeiras relações "diagonais" com África e China que o Brasil já teve (o que é um furo no mote do "nunca antes na história deste país").

Luiz Felipe Lampréia, seu colaborador e "substituto" nos anos FHC, acabou com uma possível corrida nuclear entre Brasil e Argentina, que poderia causar conflitos sérios na região, numa época em que os dois países brigavam por fatias comerciais e influência na região pelo controle do incipiente Mercosul (que ainda tinha a Alca como grande "vilã"). Foi por sua mão que o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que já visava o Irã como ameaça para as décadas seguintes. Também afastou a influência de Castro do regime de Bouterse no Suriname, além de ter sido o mediador da paz (alcançada) no conflito entre Peru e Equador.

É claro que nossos gênios podem simplesmente ignorar o que eles mesmos disseram tão logo seus leitores esqueçam – ademais, estes blogueiros antenados com o progresso que hoje torcem por um Prêmio Nobel da Paz para Lula são as mesmas que, na década de 90, tentavam impedir a globalização... e quem se lembra dessa palhaçada?

Não é demais também saber que os jornais que elogiam Lula mundo afora sempre o fazem por manter a política de seu antecessor, e por se manter dentro da lei, num continente em que poucos presidentes parecem muito inclinados a tal (até mesmo Álvaro Uribe deu para trás neste mister) – ou seja, exatamente pelo contrário das razões que os petistas encontram para adulá-lo.

Para nossos palpiteiros sem história (já que nunca aconteceu nada neste país antes de 2002), é claro que o PT é o único partido capaz de trazer a paz para o globo inteiro. Mas é curioso ver estes torcedores acharem que facilitar urânio enriquecido para um fascista, ditador, apedrejador de mulheres, fanático religioso, negador do Holocausto e incentivador do varrimento de Israel do mapa (para não prolongar demais sua ficha corrida), e que teima a qualquer custo que precisa ter esse urânio, seja uma ação merecedora de um Nobel da Paz.

Ainda é melhor para o Brasil entender de como obter novos prêmios na Copa do Mundo – e esperar pelo hexacampeonato sem sair do sofá.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Malthus analisa a web 2.0

Por bizarro que pareça, ainda conheço bípedes mesozóicos que não têm blog, não ouvem nenhum podcast, desconhecem quem sejam Cardoso, Inagaki e Interney, não sabem pra que o Twitter serve, vivem à margem da sociedade sem um perfil no Facebook, não sabem o que é um Feed, procuram emprego no jornal de domingo ao invés de no LinkedIn (se é que alguém procura emprego no LinkedIn), não acompanham bug a bug o lançamento do novo iPhone, não jogaram Tibia e, oh horror, nunca ouviram falar em vlogger.

A bem da verdade, gosto de ser um caboclo antenado, que já sabe das notícias antes mesmo de que elas sejam publicadas no site da Folha (e hoje são raras as notícias que são publicadas por lá a trazer algo que o Twitter não saiba), tudo isto bem concatenado com noites varadas madrugada adentro, cansando meus olhos entre a esmerada leitura dos clássicos e os melhores canais do Pornotube. Inobstante, hei de admitir o quanto me sinto mais vivo ao levantar impertérrito a minha carteirinha dos que não sabem o que caralhos é um vlogger. Não que tenha coisa muito mais intessante a ser feita cumprimentando os vizinhos, naturalmente – mas é cada vez mais difícil se manter um completo alienado quando há tanta informação que nos obriga a sermos gênios.

É o que nos deixa com saudade daquela época em que uma moda era apenas uma moda, e não uma hype, que as notícias se alastravam por meios caquéticos como a televisão, sem memes que anunciam falsas mortes a cada dia. E em que podíamos estar apenas de saco cheio, sem denunciar a vibe aos sete mares.

Mas o fato mais conspícuo desde que os computadores incoaram sua marcha de popularização em direção ao Dia do Julgamento Final é que, armas fabricadas por engenheiros, matemáticos, cientistas e outras criaturas esquisitas, tais invenções passaram a medir o mundo por números – e tal efeito, paradoxalmente, passa tacitamente debaixo do nariz de todos os interneteiros, hoje.

Antigamente (antes de meados de 2005), havia duas classes de pessoas: as populares e as outras (que aglutinava desde tímidos até esquisitões góticos, estes últimos com picos modistas que lhes tornavam uma versão monocromática e desatualizada dos populares). Tudo era medido exatamente assim, no olhômetro.

Não era muito diferente nos rincões binários da internet. Não se possuía amigos no chat do Uol ou do Terra (e da época em que este se chamava "Zaz") – havia a chance de ser tão batido nas mesmas salas que se acabava cumprimentando as mesmas figurinhas carimbadas, mas isso dependeria do horário e, caso não houvesse sectários conhecidos presentes, era só ficar na sua e ninguém notava sua popularidade ou falta dela. Sua lista de ICQ era privada, e seu grau de popularidade permanecia uma variável que nem sua professora de matemática descobriria (aliás, muito menos ela).

Apesar de manter a privacidade da lista, o MSN veio para interferir nesta equação. Poucos foram os que se perguntaram qual a motivação do sucesso do MSN sobre o ICQ. Mandar mensagens apenas com Enter? Eu sempre odiei isso, e nada que um Shift + Enter não fizesse no ICQ. Visual modernoso, seguindo preceitos da Bauhaus? Insuficiente. O perfil no Windows Live que nunca ninguém usou? Perde feio para o ICQ. Para descontar os milhares de problemas com conexão que o MSN possui, só mesmo um fator garantiria sua primazia: putaria. Com fotos de fácil acesso e possibilidade de transmissão de imagens pela webcam, praticar libidinagens é muito mais prático com o MSN – o que gerou uma carrada de demissões de funcionários apresados em flagrante em sua baia, esganando o malandro feito chimpanzés.

Mas a grande mudança veio mesmo com o orkut. Ter um perfil público indicando quantos amigos o caboclo possuía foi o golpe de misericórdia na numerização da vida virtual. Ter contato com apenas 80 pessoas só poderia indicar timidez mórbida, gordice corrosiva ou pigolim retraído. Havia uma proibição tácita de fazer parte de mais comunidades do que seu número absoluto de amigos. E a taxação era ainda mais cruel: o perfil indicava, em porcentagem, quanto os amigos do zé-goiaba o consideravam cool, quanto era trusty e, prends pitié de ma longue misère!, quanto o indivíduo era sexy.

Não demorou nada para que surgisse um verdadeiro escambo de karma. Perfis fakes surgiram a priori para corrigir fragorosas falhas numéricas em perfis-matriz. Ninguém poderia ser apenas 80% sexy, conquanto seu maior inimigo fosse 90%. Putinhas de internet pululavam arrogando-se "donas do Orkut" (sic) por conseguirem o inalcançável 100% sexy. Muito pior do que ser dono de um perfil desprovido de testimonials elogiosos (o que rapididissimamente caiu em desuso, pois num mundo com Hesíodo e Marlowe, é fácil achar algo melhor para se ler), nada poderia atentar mais a favor das razões para o suicídio de um cara-pálida do que cair para 70% sexy – quando os verdadeiros losers eternamente se contentaram em ficar abaixo da nota de corte para o abate.

Foram anos com mudanças que só pioraram a rede para tentar resgatar aquelas réstias de privacidade, o naco de opacidade que nos permitissem sermos feios, chatos, burros ou vagaranhas despudoradas sem receio com o futuro do presente, como o bloqueio de álbuns e de scrapbook. Mas 99% do rebuliço de que o orkut se fez capaz desde então foi o único movimento contrário: o famoso BINA de perfil, o mecanismo que o fez registrar quem havia bisbilhotado o seu perfil. O resto apenas cuidou de dar os tiros de misericórdia na rede – que morreu, sabe-se, devido à invasão brasileira, que destruía a possibilidade de uma comunicação mínima em qualquer comunidade.

Então chegamos a essa época do Twitter. O que é o Twitter, que não funciona como uma comunidade de tema específico no orkut, senão a maximização dessa aquilatação do valor individual em números?

Aqui é feio ter poucos seguidores (mesmo que você tenha entrado no Twitter anteontem). Sem comunidades-nicho organizadoras por tópicos, a fama corre pela rede anarquicamente. Mesmo seguindo apenas bons conteudistas, é inevitável ser informado das quizumbas protagonizadas por novos famosos instantâneos – ou, inversamente, descobrir como é o concatenamento lógico de famosos oldschool sem um script decorado.

Aliada a blogs, podcasts e agora vloggers, a busca desenfreada pela fama se tornou obrigação (alguns ultrapassam rapidamente aqueles que fizeram sua fama via orkut, como Gordonerd e suas mil comunidades). Nunca foi tão fácil ser famoso: há até script pra isso (o que foi mote, ademais, da capa da Info que me deu barato). A linha limítrofe entre famosos e o populacho não poderia ser mais fina – basta agora o botão reply.

Como, agora, diferenciar os famosos tr00, os famosos de raiz, daqueles de fama instantânea, que dura menos do que um BBB (ou durava, antes de cooptarem twitteiros na última edição)? Como todos os problemas hodiernos, a solução encontra-se em Malthus.

É fácil encontrar bons blogs sabendo procurar, descobrir pessoas com bom conteúdo mais de 8 horas por dia no Twitter – ao invés de seguir famosos (sejam de qualquer uma das vertentes) que apenas informam quando estão almoçando ou por onde passaram o sabonete – basta um tempo de pesquisa. Mas estes são raros, é a minoria alumiada e que faz poucos discípulos – apenas mantém o número atual para a próxima geração. É uma seita minoritária que, tendo em mãos o mais poderoso mecanismo de transmissão de informação e de videos de dupla penetração da história da humanidade, faz algo que presta com esta ferramenta.

E, naturalmente, com a inclusão digital, não é de se esperar que alguém pague uma fortuna numa conexão bostífera para fazer algo mais interessante do que ver reprises da Globo e da MTV no Youtube. Esta é a camorra que ainda faz diferença para publicitários e caça-talentos de canais de comunicação, aquela que só existe em número, e vista isolada dá nojo: as pessoas que se matam de rir das demências de segundo escalão de um Danilo Gentili, a súcia melcatrefe que conclui que, se o Kibeloco é um famoso site de piadas, logo é o melhor, e pode muito bem se contentar com aquele nível de inteligência.

O tal número de seguidores do Twitter hoje aponta apenas para algo tão antigo quanto cagar agachado: retardados seguem retardados. E, reproduzindo-se exponencialmente como baratas no cio, serão sempre a maioria.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O feminazismo de rebanho

E dever de todo puto egresso do avant-gard das perobagens fascistóides que se convencionou chamar por ciências humanas neste país esclarecer a este escriba quando foi proibido ser um único ser humano pensante em terras nacionais, possuindo um porta-bagos próprio com sua dupla carga e também um único cérebro que prescinda de outorgações e proibições vindo de seus cupinchas superiores.

O busílis em voga é o crime cometido pelo goleiro Bruno, do Flamengo, que etc, etc. O acordo tácito na intelligentsia blogueira é o de que você deve comentar toda e qualquer questão que vire notícia e tema de conversação por mais do que o tempo de uma aliviada na diarréia. Alguns, por fazerem disso a sua paga para o leite das crianças e a pornografia russa por assinatura; outros, porque blog é de graça e é preciso alardear aos quatro cantos da chatura terrestre a sua capacidade de produzir conteúdo – o que traz de volta o tema da disenteria.

A blogosfera torna-se, assim um loop infinito de logorréias sobre os mesmos temas, tratados pelos mesmos pontos-de-vista, repetindo os mesmos chiliques de efeito, com a mesma indiganação extravasada pelos mesmos chistes de sempre. Um mise en abyme cuja única saída é o botão Power. Quererá o leitor saber a opinião de Sílvia Abranches sobre a escalação de Dunga? Ou as justificativas de Amanda Figueira para aprovação da lei do divórcio? E saber das considerações de Eduardo Crespaldo a respeito do uso da burca na França? Eu também não.

Mas a regra é clara: tendo um blog, é sua obrigação postar, mesmo que seja a reprise em câmera lenta da regurgitação do mais do mesmo do que já foi repetido. A corja resvala tão previsivelmente neste regressus ad infinitum que, apesar de blogueiros de estirpes tão diversas umas das outras escreverem todo santo dia sobre o assunto do santo dia, quando ocorre um choque indireto, um verdadeiro conflito de idéias, a azáfama pega a todos de calças curtas, como se tivessem acabado de descobrir vida inteligente na Rede TV.

Porém, como o caso em questão não permite muita polêmica, o comportamento blogosférico foi um tanto quanto melindroso. Basicamente, há ensejo para a indignação – only this, and nothing more. Mas as complexas relações ocultas de poder não escapam ao exame revolucionário dos pensadores brasileiros, que imediatamente tratam de blogar indignando-se da indignação do próximo. Pratico aqui meu dever de cidadão consciente rematando mais um elo nessa corrente de indignação indignada.

Dois textos servem de exemplo do pensamento coletivo e repetitivo que busca causar "reflexão" através de uma vitamina de óbvio ululante: O caso Eliza e a violência de uma sociedade patriarcal, de Mayara Melo, e Eliza Samudio sou eu; Eliza Samudio somos nós, queiramos ou não, de Bruna Scarpioni. O leitor pode se sentir convidado a se embarafustar mais a fundo nos arrazoados apresentados, embora seus títulos já demonstrem serem não criações individuais, e sim alfarrários pré-programados que visam a ideologização mais rasteira sobre o caso do goleiro retalhador. Estas obras não são esforço individual: são sintomas coletivos.

A verborragia é a mesma litania ruminada desde Cabral: não houve um crime realizado por indivíduos com excremento no lugar do cérebro, o que há é uma sociedade pecaminosa, machista, capitalista, neoliberal, conservadora e (há quanto tempo não ouvia tal vocábulo...) patriarcal que gera esses delitos. A síntese do "pensamento" é: a sociedade prepara o crime, o indivíduo apenas estupra, seqüestra, tortura, mata, esquarteja, desossa e dá para o cachorro comer. A patriarcalíssima Igreja Católica deve ter adorado.

O pensamento coletivista só é capaz de agir em rebanho. Agora uma parte do gado quer jogar a culpa do crime em toda a outra parte. Não é permitido ter um único cérebro e uma única bolsa escrotal para pensar "a sociedade". Ainda temos nossos iPod, mas chegamos ao estágio final do comunismo no que se refere ao pensamento: a estatização de colhões.

A grita de nossas amiguinhas é pela forma como trataram a cidadã Eliza Samudio em comentários esparsos internet afora. Foi caso para "tremer de indignação" (peço ao caro leitor desconsiderar objetos que causem tremores em feministas). O que é uma prova, afinal, de que todos nós (refiro-me apenas aos homens, e quanto mais brancos, burgueses e menos estatizantes, maior a culpa) temos nossa responsabilidade no assassinato da ex-atriz pornô.

Ora, segundo as analistas de ética em mídias sociais, é uma atitude chauvinista atentar para a putaria praticada pela Eliza: isso indica que somos homens que "usam", "submetem" e "se aproveitam" do corpo das mulheres (não, ainda não se falou em objetificação). Afinal, essa é a mesma ideologia de uma sociedade que abusa do corpo de uma mulher, a ponto de dar os pedacinhos pra cachorrada.

Seria curioso pensar em um nível um pouco mais profundo do que um pires se é esta a questão nevrálgica em foco. São machos que abusam (?) do corpo da mulher ao praticarem tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie, e filmarem o processo sob títulos como "Até que enfim anal" ou "Violação anal 4". Portanto, uma pessoa (!) politicamente correta deve se indignar deste ato – ou, melhor dizendo, da sociedade que abarca este ato, pois ao reclamar do ato, sem culpar toda a tal sociedade na mesma carrada, incorre-se nas demonstrações de machismo, preconceito e intolerância que indignaram à tremedeira nossas patrulhadoras.

Mas ao dizer: "Putaquemepariu, será que não dava pra essa dona aí se envolver com um macho ocidental e troglodita menos pior?!", já que não tomamos o vitimismo barato que culpa a sociedade produtora de facas, e sim quem pegou na faca pra matar, somos também os próprios culpados pela morte de Eliza. É um caso estranho de culpa (ou seria dolo?), em que temos culpa justamente por culparmos o criminoso.

Pois eu nunca vi sociedade mais respeitosa quanto às mulheres como a nossa. Uma sociedade em que elas podem ganhar para fazer um filme pornô não é machista, é libertadora – nossas feminazis queriam mais o quê? Obrigar essas fêmeas a servir o Exército?

Esta sociedade patriarcal e culpada é a sociedade em que podemos ver casaizinhos indo ver um filme extremamente misógino como O Anticristo, de Lars von Trier, e na saída o elemento macho reclamar da chatice da película, preferindo ver Dragão Branco, ao que é obtemperado pelo elemento fêmea: "Mas o cinema europeu é rico em sensibilidade!"

É a sociedade patriarcal em que Houellebecq pode lançar piadas como "Qual o nome da camada de gordura ao redor da vagina? Resposta: Mulher", sem que consigamos conceber que este indivíduo vá mesmo tratar uma mulher como uma camada de gordura – mas, afinal, exigir que "classes sociais" universitárias possam compreender uma ironia antes de arrotar Foucaults e Bordieus com esgares gazeteados de pseudo-refinamento e compreensão é exigir um elevado grau de força individual em um embrutecido rebanho que se leva mais a sério do que o faria o Canal Rural.

O que o tal patriarcado (incluindo sua parcela feminil) que indignou nossas amigas ao tremelique está fazendo não é senão tratar bem as mulheres que merecem este tratamento, distinguindo-as de marias-chuteiras que, só por serem mulheres, não merecem ser santificadas. É diferenciar uma mulher que vive em função da carteira alheia de Elizabeth I, Vitória, Hatshepsut, Thatcher, Cosima Wagner, Ayn Rand, Hannah Arendt e outras tantas que põem no bolso os homens que as idolatram. É proteger as mulheres que respeitam da influência de indivíduos psicóticos que as vêem como presas em potencial, prontos para tratá-las como um cavalo assim que possam colocar suas (deles) patinhas em seus (delas) corpos.

É, justamente, exigir moral de um ser humano – mas para nosso gado universitário, possuir uma moral é ser moralista, e ser moralista é ser patriarcal e machista, invariavelmente – tendo em mira que ao aquilatar o valor de uma vida pela sua moral acabaremos por tratar com encômios pessoas esforçadas como as acima citadas e tratar com um soslaio de reprovação as outras que buscam uma vida fácil de ascensão por fama, poder e grana – e esta desigualdade de tratamento é considerada preconceito machista, retrógrado, intolerante e autoritário por nossa manada ruminante.

Um assassinato brutal como este está longe de merecer a carga moralizante que o vocábulo "feminicídio" acarreta. Não foi um crime contra uma mulher por ser uma mulher, e sim um aproveitamento de poder e força física de um assassino contra uma presa que viveu de maneira que facilitou sua injustíssima morte. Mas agora até crimes fazem parte de "classes sociais" em luta violenta constante...

Visa-se, justamente, evitar que este tipo de crime absurdo se repita – por isso prefere-se honrar os esforços de uma mulher que está mais preocupada em visitar uma biblioteca a uma que usa o corpo para ascender socialmente – e estas loas implicam, justamente, não ter o mesmo nível de respeito pelas marias-chuteiras. Ninguém tirou a culpa de Bruno, ninguém culpou a vítima (!): quer-se, justamente, destruir as circunstâncias que permitam que este tipo de carnificina ocorra.

Para inverter o sinal e culpar os próprios defensores de uma vida livre de sevícias e violentas sanguinolentas, nossas amigas só podem mesmo é inventar fatos de estro próprio (como aduzir que Bruno obrigou Eliza a transar sem camisinha e tenha exigido um aborto, quando foi até mesmo seqüestrada para abortar contra a vontade), mas elas também têm uma lição de moral a passar adiante. Conclui Mayara:

"Por isso, ao invés de assistirmos passivamente a essa trágica história, devemos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidade na violência contra as mulheres. Ela é fruto de uma sociedade patriarcal que naturaliza a submissão do corpo feminino e que reproduz cotidianamente discursos e práticas machistas que perpetuam essa situação. Assim, foram violentos os assassinos de Eliza, mas também foi violento o Estado que lhe negou proteção, a mídia que transformou sua morte em espetáculo e todos e todas que passivamente assistem ao desenrolar da história se achando no direito de condená-la por ser mulher."


Naturalmente, o esquartejamento só pode ter sido fruto de nossa sociedade tão misógina, que não permite que uma fêmea tenha os mesmos direitos civis de um macho. É tudo derivado de nossas práticas machistas, como diferenciar nossas professoras de prostitutas. E a violência vem do Estado lhe negando proteção (o mesmíssimo rebatido argumento de Túlio Vianna, outro feminazista, em texto de 2003, ao defender que o estuprador e também esquartejador Champinha não cometeu crime algum, pois a violência veio do "Estado que lhe negou uma infância minimamente digna") e da mídia, que ficou chocada – ou, exatamente por isso, teria feito um "espetáculo" (Túlio, de novo, continuando a frase: "e a mídia que só enxerga as crianças e adolescentes miseráveis para mostrar a seus consumidores o quanto eles são "perigosos" e com que frieza eliminam uma vida").

Como se vê, nem a ordem do discurso é capaz de sofrer alteração. Não só indivíduos singulares foram proibidos de existir, após a "dissolução do sujeito" de Foucault: é impossível, agora, analisar qualquer aspecto da realidade como um fato novo. É proibido pensar: tudo já está definido numa retórica pré-determinada, feita numa linha de montagem de algum gulag soviético, e só se pode é esmagar a realidade para que ela caiba em seu formato, torturar os números até que eles confessem. Basta ter um discursinho semi-pronto, e condenar a sociedade para acusar um goleiro retalhador rico, ou condenar a sociedade para defender um vagabundo retalhador pobre. Decreta-se o fim da primazia da realidade sobre o preconceito, e volta-se ao bobo argumento da autoridade em nome do progresso.

Mas se é isso que nossas amigas chamam de "reflexão" e é isso que querem, eu reflito: visto que encorajo mulheres a não serem marias-chuteiras e as trato com todo o amor e carinho quando elas se esforçam por uma vida diferente, qual é a minha parcela de culpa neste assassinato?

Nenhuma. Próximo.

sábado, 24 de julho de 2010

Afinal, por que „Deutsch”?


Costumeiramente sou inquirido a respeito da palavra „Deutsch” – afinal, por que diabos dizemos “Alemanha” e “alemão”, enquanto em inglês os termos são “Germany” e “german”? E em italiano, “Germania” e “germano” ou “tedesco”? Segue um breve estudo de germanística para solucionar de vez este problema.

O termo germanos é registrado pela primeira vez por Salústio, Nas Histórias, III, 7, e por César, nas Guerras das Gálias II (e como aquele porra do Asterix deu trabalho) – portanto, como sabem, entre os anos 52 e 50 a. C., é óbvio.

A origem deste termo continua sendo debatida, sendo não mais aceita a teoria que propunha ser um composto de gêr (palavra para lança em Antigo Alto Alemão) e man (adivinhem?). A verdade é que a lança, na época de César, era denominada gaiza.

Hartmann (que é apenas um sobrenome, não um epíteto para certos dotes pessoais) propôs que adveio do latim germanus (“genuíno”, “verdadeiro”); outros dizem até que veio de hermanus (deve ser por isso que Hitler foi se refugiar na Argentina...), e também há quem acredite, como Hennig, que o responsável seja o radical celta germo (quente). Lamprecht já acha que Germanos significa “vizinhos”.

Como todos sabem, entre os restos dos Fastos Capitolinos romanos há a primeira inscrição mencionando os germanos que existe: De Galleis Et German(is) K(alendas) Mart(ii). Sua autenticidade, contudo, é discutida.

As terras que hoje formam a Alemanha eram habitadas por muitas tribos naqueles idos: francos, hessianos, frisões, anglos, saxões, godos, burgúndios e vândalos (não confundir com hooligans, estes são ingleses).

Após algumas poucas guerras (coisa tão pouco germânica...), uma unificação, que resultou no Sacro Império Romano-Germânico, manteve-os todos agregados e pacíficos.

O fato enfim é que precisavam de uma palavra para designar a nova cultura que ia surgindo após o Império Romano ruir, e acharam a palavra deutsch, inicialmente referindo-se apenas à língua, e não ao povo.

Segundo as palavras de Leo Weisgerber (Der Sinn des Wortes „Deutsch”, 1949): "O nome da língua alemã, deutsch, é, em certo sentido, um apelo à pátria dos francos, submetidos à romanização sistemática em região além das fronteiras lingüísticas em formação”. (simples, no mamita?)

O bispo romano de Ostia (não mastigue!), Wigbod, escreve no ano de 786 ao Papa, relatando que as resoluções do rei foram lidas "tam latine, quam theodisce, quo omnes intelligere possent" (latim dificilibus caralium est). Até Carlos Magno, em 801, resolve falar theodisce. Assim, começa a fazer-se notar a clara distinção entre as línguas “bárbaras” e as línguas romanas, sendo explicada por Otfrid Von Weißenburg: cur scriptur hunc librum theodisce dictaverit (a mim também não explicou nada, mas whatsoever).

Apenas 200 anos depois é que foi aparecer a forma alemã da palavra, quando Notker, o alemão (955-1022), usa o termo diutisch, e na Canção do Anno (anterior a 111) se usa o mesmo termo referindo-se ao povo.

Por sua forma, parece ser a palavra deutsch do gótico þiuda (“povo”, conservada, por exemplo, no nome próprio Dietrich, “soberano do povo”). A esse termo ligam-se as formas latinas theodiscus, thetiscus, teudiscus, sendo até pertencente ao francês arcaico a forma tie(d)eis. Assim, nota-se que o termo deutsch tem a mesma origem de “teutônico”.

Outros países, quando se referem à Alemanha, ou ao Reich II, ou àquelas terras que Bismarck logo iria unificar, usavam palavras derivadas do latim Germania, mas os alemães, que tinham sua própria palavra derivada do francônio, para se separarem daqueles que apenas falam uma língua germânica, não sendo entretanto da mesma etnia, preferem batizar o país de Deutschland (“Terra dos Teutônicos”).

Por termos origem latina, chamamos a Alemanha de Alemanha pois pegamos o termo do baixo latim alamanus, advindo do germânico primitivo alamans, ou “todos os homens” – termo este empregado para os alemães mais longínquos da “base” central, como os latinos que passavam da fronteira, e representando o alemanisch – de todos os dialetos do alemão, aquele que mais se distancia do Hochdeutsch – falado, exempli gratia, na Suíça alemã e no Lichtenstein.

Felizes para sempre?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Palmas para a lei! (opa, não pode mais...)


Instado que sou, com freqüência atávica, a me pronunciar sobre casos recentes de porradaria, foi-me irrecusável denegrir de meus próprios princípios e aceitar, sofregamente, o debate da semana – seria permitido um progenitor de família, ao testemunhar delitos de pirraça em flagrante, preparar os ossos da mão anatomicamente desenvolvida por bilhões de anos de evolução dirigida, para pousá-los com claque percussivo em uma bunda infantil esculpida artisticamente para este exato mister?

Meus leitores, sempre informadíssimos da minha postura ilibada, podem presumir que encontraria maneiras menos irreais para atingir algo irreal como a paz mundial, não obstante o debate ter se subdivido mais do que a planificação intelectual permitiria, criando assim um grupo de palmadistas (como o Gravataí) e lulistas paz e amor (como o Doni, que é lacaniano, mas é meu amigo).

Toda a minha vasta erudição e a cota de bucetas que tocou-me perfurar em minha passagem por este vale de lágrimas foram conquistas por anos sob uma jurisdição espartana, pois todos sabem que a maior vantagem de ter pais violentos é que eles não têm aquela mania irritante de entrar no nosso quarto sem bater. Eles batem antes de entrar, depois que entram e saem batendo.

Como um verdadeiro conservador secular, é meu dever zelar por milênios de cultura pedagógica que criaram nossa civilização, enquanto viadices pós-modernas apenas cuidaram de criar televangelistas vociferando contra comportamentos bem assentados no programa da Ana Maria Braga. Ora, Esparta foi próspera em punir ferozmente crianças roubando (não por roubarem, mas por se deixarem serem flagradas). Crianças muçulmanas, a maioria por devoção própria, se auto-flagelam até com navalhas em festivais dedicados a Husayn ibn Ali, que sofreu uma morte violenta para que elas possam ter a honra de existir agora. Os astecas puniam com flechadas quem ia mal na escola, em Mexican...

Enquanto isso, temos pregadores modernosos e cabeça buscando renovar nossos preconceitos proibindo a boa e velha palmadinha educadora. Você já viu um desses intelectuerdas definir a civilização de um lado do globo? Construir uma pirâmide? Deixar o maior império do planeta (autor do mote no pain, no gain) de joelhos? Isso já seria argumento o sobejante para cobrir de palmadas a la Avaiana de Pau cada fanático disposto a morrer e matar por seu Nobel da Paz, mas o caso merece uma análise mais perfunctória.

Como em qualquer desastre não-natural que não seja o Godzilla ou o Monstro do Lago Ness, pode-se encontrar sem demora a culpa em três entidades: os comunistas, os psicanalistas e os blogueiros. A idéia partiu de uma petista. Há trabalhos psicanalistas que a defendem. Alguns blogueiros aplaudiram. Só pode dar merda.

A desculpa é aquela aleivosia engana-trouxa de Rousseau: o indivíduo nasce justo, é a sociedade que o corrompe. Sempre essa tal sociedade. Em pleno século XXI e nenhum mangrebino se dignou a perguntar quem, na pureza primordial, teria dado a primeira palmada! Não é sem razão que Rousseau doou seus filhos para um orfanato – percebeu que sairia mais fácil educar um Ocidente de pais desmiolados do que um par de rebentos.

A farândola de psicanalistas ávidos em culpar os pais por tudo foi a primeira a entrar na jogada. Rapidamente tratou de bradar palavras de ordem sobre direitos humanos de crianças – quando todos sabem que crianças são apenas larvas com o design melhorado. É parte da mesma idiotia que diz que temos um tal "complexo de Édipo" pois todos temos fantasias sexuais ocultas com nossas mães desde o berço – quando qualquer macho ocidental que relegou a punheta a um passatempo para as segundas e quintas sabe que muito mais importantes para a iniciação sexual hodierna não são as mães, são as primas.

Também falta uma categorização mais factual ao açoite. Afinal, um tapinha, uma violenta coerção verbal, um castigo como deixar sem sobremesa e sem viagem pra Disney, um pisão, uma voadora ninjutsu ou cortar as pálpebras com uma tesoura encaixam-se todos na mesma categoria? Se diferenciamos furto de assalto, como faremos com os violentos pais de violentas crianças, para encaixá-los no Código Penal, Civil e em pelo menos metade do ECA?

A punição é o cúmulo do horror: obrigar os pais a se submeter a acompanhamento psicológico ou programas de proteção à família. A própria estatização da família, a aplicação do monopólio da violência pelo Estado em relação até aos discursos maçantes a que crianças têm de ouvir.

Mas também há complicações de ordem prática nesta lei. Saberão os púberes vítimas de fascismo doméstico ligar para a polícia para interromper a surra dos pais? Haverá desenhos educativos patrocinados pelo Ministério da Educação e pela Sudene explicando o processo? Deverá a versão local da S.W.A.T. chutar a porta, granadas e fuzis em punho, olhar nos olhos do palmadista pego em flagrante e rilhar: "Você é a doença, eu sou a cura!"? 80% da pauta do programa do Datena tornar-se-á averiguação de casos de agressão a de menores, com tão poucos crimes que temos a punir? Meu amigo Doni diz que toda forma de dor física é uma agressão. Mas e se os pais tiverem revidando crianças lhes batendo? E se estiver acontecendo uma rixa (artigo 137 do Código Penal)?

E quanto aos irmãos mais velhos, mas ainda de menores, que praticarem uma sevícia de fim-de-semana aos mais fracos? Poderão os pais se usar destes para praticar a terceirização da chinelada – ou usando os filhos dos vizinhos, para o caso de precisar punir o mais forte da cadeia chinelar?

Na sala de justiça, o Gravataí diz que quem não tem filhos não pode comentar sobre os usufrutos e empecilhos da pancadaria na educação de rebentos. Ora, o mesmo caso dos psicanalistas rousseaunianos aplica-se aqui: qualquer pagador de impostos que já teve de aturar uma criança alheia em uma fila de banco, cinema ou ônibus lotado sabe muito bem que filho da puta não deveria ter filho. E quem tem amigos com filho? E quem tem vizinhos com filho? E quem sai na rua? E quem é assaltado pelo filho da puta do próximo? E não é apenas culpa da educação, como afirma Doni (que diz que só se desfere a disciplinar cacetada quando se falha na educação). É porque é da natureza das crianças serem pentelhas pra caralho. Vou presentear o Gravata com uns priminhos.

Quando se apela para este expediente, ignora-se o atavismo mais ululantemente óbvio: pais que não descem a espada de São Jorge nos seus filhos têm filhos calmos... porque têm pais calmos, quietões, de falar manso e que não descumprem regras. Será que essa turminha antenada e progressista nunca ouviu falar em Mendel, em anelos Azão e azinho, colocados na forma de AA x aa no jogo da velha?

É uma visão romântica e cafona esta a exigir que hoje os de menores não brinquem na terra para não se sujar e não se cortar, que todos os seus brinquedos sejam almofadados, pois a castimônia de infantis deva sair impertérrita da vida, sem um único arranhão, neste lindo mundinho em que vivemos.

Se a realidade fosse como querem a Associação das Senhoras Católicas e os psicanalistas (estranhamente lutando por um ideal comum), skate teria cinto de segurança, sorvete só existira nos sabores quiabo e jiló e lual só aconteceria em lugar fechado, que é pra ninguém pegar sereno.

É sabida a inocência de um púbere em nosso mundinho pós-Nabokov, nosso mundinho idílico e bucólico. Adolescentes de 15 anos não estão desesperados pra poder dirigir no ano seguinte, nem cogitam beber até vomitar e fumar bagulho feito uma caipora – e nem engravidam como boi (e vaca) reprodutor – prontos, ademais, para ter seus próprios rebentos palmatáveis. Aliás, nenhum desses inocentíssimos e infantis de menores ousa já possuir a verdadeira solução dos problemas mundiais – e nenhum deles vota no PT quando atinge os 16.

Não há o que se preocupar: nenhum deles se reunirá em comunidades no orkut para descobrir como se livrar dos progenitores chatos os mandando para grupos de ajuda de Palmadistas Anônimos e podendo usar a cama de casal dos financiadores a seu bel-prazer.

Mas eu proponho uma solução.

Ou algumas. Em primeiro lugar, crianças chatas que só um cacete fazendo arte poderiam ser vendidas como escravas. É o primeiro passo para que nos livremos da violência doméstica, abolindo-as dessa vidinha traumatizante, lhes dando uma ocupação longe de todo aquele ambiente opressor e ainda as educando – de lambuja, também ficamos mais próximos de conseguir nossa própria pirâmide em terras tupiniquins.


Também urge proibir pais de levantar a mão de vez contra os filhos: todos estes últimos usarão coleirinhas inquebráveis com potência para descarga de choques acionados por controle remoto pelos pais, a exemplo do que já foi mostrado em Battle Royale, The Running Man e sugerido por um certo professor de Direito da UFMG (peguei vocês).

Por fim, devemos botar a tropa de elite da polícia local para invadir com pezada na porta as casas dessas psicanalistas (quase todas mulheres, todas gordas e mal-comidas que nunca viram uma criança, um episódio de Super Nanny ou uma caralha disposta a nelas se adentrar) e lhes jogarem numa cela não-acolchoada abarrotada de meliantes que nunca levaram um tapinha na bunda. Creio que será um valioso estudo de caso para o valor da palmada corretiva, sem que tenhamos de despediçar uma geração inteira de impúberes sem ter um estudo analítico e uma resposta para este dilema.

Espero que estas considerações adiantem já o estado da discussão para o próximo debate juvenil que sacudirá o país – a liberação do aborto, como clarividenciado pelo Gravataí. E que fique claro: sou a favor da liberação do aborto antes dos 3 meses de gestação pois são apenas fetos, e também antes de se atingir 80 anos – porque mais sem valor do que um feto, só mesmo um ser humano.


(Post Scriptum: Para quem ficou com preguiça de ler todo este mistifório, posso resumir o busílis em um único argumento: A lei foi proposta por Maria do Rosário (PT-RS). Esta mesma senhora que chamou Champinha de "uma criança", como se crianças fossem capazes de estupro, tortura, seqüestro, degolamento e necrofilia. Obtemperada por Jair Bolsonaro (PP-RJ), que a sugeriu contratá-lo para motorista dos seus filhos, causou uma azáfama por falta de resposta tentando cassar o mandato do cordado senador. Segundo Maria do Rosário, o intuito da lei é a prevenção: "queremos apenas que as pessoas estejam alertas para as conseqüências desse tipo de ato". Resta saber como nossa salvadora irá prevenir as próprias crianças das conseqüências de seus atos – e das desastrosas conseqüências de se ter filhos.)

Liberalismo estóico 2.0


O período helênico foi fértil para o nascimento de diversas escolas divergentes sobre o pensamento da Academia platônica e dos filósofos e pensadores menores que a antecederam. Três escolas se destacaram com magnitude: o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo. A despeito do ceticismo ter ressurgido com força após os desenlances do positivismo recente, as outras escolas parecem mortas e esquecidas.

Contudo, sem nome declarado e sem se reunir em torno de um ideal comum, estas escolas mantêm-se vivas na construção de outras ideologias. O grande debate político hodierno e os fatores que determinam os caminhos tomados pela esquerda e pela direita ainda seguem alguns preceitos definidos pela primeira vez por estas escolas.

O objetivo da esquerda, em linhas gerais, pode ser resumido como uma atitude autárquica e gnóstica – isto é, capaz de, por esforço próprio, ter a total compreensão da realidade humana – que, com graus variados de concentração do poder nas mãos do Estado, é capaz assim de prover os bens necessários para a felicidade dos indivíduos sob aquela jurisdição. Os homens são forçados à igualdade, e sua função é trabalhar, de alguma forma, para a máquina estatal.

O epicurismo, em comparação, é uma visão do homem não dependente de construções sinergéticas para atingir seus fins. O mundo é passível de compreensão pelo homem, e este pode atingir a felicidade, que é a ausência de dor. Para tal, o homem só precisa de si mesmo, sem se valer de instituições, dinheiro ou dos deuses. Todos os homens são iguais, já que essa felicidade sem instituições vale para todos.

Embora pareça haver poucos pontos em comum, a escola epicurista, sem que a maioria dos historiadores atinasse, sobreviveu nos entremeios da filosofia, voltando com força nas mãos de Marx. Para tal, o discípulo de Hegel confiou no mestre, que aplicou as regras da dialética como o funcionamento do próprio mundo – e se a História segue uma linha dialética, ela está sempre se “corrigindo”, sempre progredindo – e sua “conclusão” inevitável coincide com o surgimento do Estado moderno.

Nesse Estado é que Marx aposta todas as suas fichas, ou mais exatamente em sua inevitável derrocada, que progrediria para o Estado socialista. Aqui, talvez sem ser percebido, o epicurismo dita regras, tomando a própria dialética que moveu o interesse no Homem para a definição maior do Estado: o estado independe de instituições externas; tudo é possível de ser entendido pelo homem, através do motor da luta de classes; o homem pode atingir a felicidade, que significa a ausência de dor – ou dessa luta injusta, que terminará quando for implantada a ditadura do proletariado; assim, viverá livre de instituições, dinheiro ou deuses. Todos os homens serão iguais, ou ao menos o Estado assim “garantirá”.

O que concernia ao homem, no epicurismo (embora “homem” ainda não possa ser considerado o indivíduo, a única fronteira sagrada de que nos fala Ayn Rand), passa a ser apanágio do Estado. É onde nasce nossa cosmovisão estatizante, que, sem nenhuma razão, se diz o extremo oposto do fascismo (e como um trópico circular na política, como definiu Hannah Arendt, os extremos se tocam).

O pensamento da esquerda, então, pode ser resumido como necessidade de aumentar impostos e a força estatal, desde que quem esteja no governo tenha boas intenções. Há duas falácias aí: a crença de que uma pessoa só é rica por explorar uma pobre (que a Escola Austríaca tratou de desmilinguir), e a idéia de que o somatório das pobrezas é igual a riqueza.

O liberalismo, ao contrário, assemelha-se em diversos pontos ao estoicismo antigo. Filosofia de redução da vulnerabilidade, o estoicismo preocupa-se apenas com o que é do seu controle: pensamentos, desejos, impulsos, aversões. O restante, não nos dizendo respeito, não é matéria da filosofia.

Em Aristóteles, a felicidade depende em certa medida da chance e da prosperidade. Apesar de o primeiro componente da felicidade ser a virtude, e esta, uma questão do próprio esforço e disciplina, concretizar a virtude vai além do esforço de cada um. Relações recíprocas dependem em algo além da bondade de cada um. Isso torna a felicidade uma questão menos importante: a virtude, sozinha, purificada, baseada puramente na razão e desligada de emoções ordinárias (como medo e pesar, que se aderem a objetos além do nosso controle), torna-se suficiente para a felicidade.

Um liberal invariavelmente já foi perguntado se acha justo alguns nascerem ricos e outros pobres. O que a filosofia liberal propôs foi um retorno ao homem, ao indivíduo, como sujeito do seu destino. É o mesmo pensamento a que se aferram presos de guerra, e não só pessoas que nasceram pobres (como, diga-se, muitos liberais): cuidemos do que pode ser controlado, mas não se pode esperar que nossa felicidade dependa de o mundo se curvar para satisfazer suas condições básicas.

É claro que, no plano econômico, há compensações para esta desigualdade. Mas o discurso filantrópico da esquerda mascara engodos. A idéia do socialismo não é a boa vontade – eu ter dois casacos e dar um deles ao meu vizinho, que não tem nenhum. O anseio é por controle e centralização: o Estado tomará o que eu e o meu vizinho produzirmos e redistribuirá como bem entender. Até mesmo a fraternidade, que era a mediadora entre a igualdade e a liberdade dos revolucionários franceses, é estatizada.

O liberalismo, mesmo que busque manter o sistema através do mercado, permite graus variados de controle sem redistribuição forçada e a irmandade completa entre seus cidadãos – a quantidade de dinheiro privado em universidades públicas americanas comparada ao que o Brasil consegue com impostos mostra qual idéia é mais vantajosa.

O pensamento da direita, desta forma, resume-se a um adendo à junção de impostos e boas intenções do Estado: quem aumenta impostos e impõe força estatal jamais poderá estar bem intencionado. É inegável que quem conhece as leis de mercado sabe algo a mais do que os estatizantes.

domingo, 18 de julho de 2010

Mataremos por um Nobel da Paz!


A maior petulância do Homo brasilis é seu vezo em considerar que mora no próprio Eldorado – a terra nova, recém-descoberta, que é, na verdade, a filial terrestre do Paraíso. Envidando esforços estafantes para provar a si próprio que vive no melhor dos mundos (uma síndrome de Pollyana incompleta, visto que ninguém leu o livro), o brasileiro cega-se para a realidade de viver em um país periférico, longe até geograficamente da qualidade de pensamento que deu pasto à civilização ocidental, e conclui, para salvaguarda de sua vitória desprovida de esforços, que é o Ocidente que não conhece as perfeições da Terra brasilis. Assim, não consegue sequer ser uma filial sul-americana de Portugal.

Tudo o que é enaltecido no Brasil são ações que prescindem de esforço, de reflexão, de competição (atividade proibida pelo governo local). O carnaval, a música popular de ziriguidum, a manifestação de massa nas ruas dirigida por algum analfabeto orquestrador de turbas enfurecidas, a inércia sob o calor e a libido vulgar das praias – tudo aquilo que gera propagandas descerebradas de cervejas aguadas, todas elas com o mesmo gosto.

Apenas por estes fatores é que recauchutam a lenga-lenga do orgulho nacional. Isso, e claro, as bundas e o pentacampeonato. É curioso que tudo que é passível de orgulhar o terrestre brasileiro sejam coisas que lhe foram dadas de graça. Assim, qual seria o óbice, além da litania politicamente correta, para que um cidadão tenha orgulho de ser hetero? De ser rico? De ser branco? Foram coisas lhes entregue tão gratuitamente quanto o seu RG.

Pouco afeito e acostumado com a concorrência fainosa que caracteriza os prêmios internacionais, o Brasil corre à margem das engrenagens que permitem o progresso (e todas as liberdades e facilidades) do Ocidente.

O orgulho do brasileiro não é por ser residente no mesmo país de Miguel Reale, Mário Ferreira dos Santos (o homem que mais estudou dialética no planeta), Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa – orgulho este que exige esforço individual no contato com as obras, o que implicaria concorrência e desigualdade no entendimento e interpretação. Mais fácil é ter orgulho de "ser pentacampeão", como se algum brasileiro tivesse se esforçado no campo por isso – e, claro, acirrar conflitos geográficos desconhecendo suas origens, como a tensão com a Argentina (esta pentacampeã em Prêmios Nobel e em Oscars de melhor filme).

A carência de Prêmios Nobel faz mais falta ao Brasil do que as aparências demonstram. Basta ver como nossa intelligentsia foi aguerrida na defesa de José Saramago, único laureado com o Nobel de Literatura escrevendo em língua portuguesa. Imediatamente esquecem-se de séculos fazendo piadas com a burrice portuguesa e praticamente tomam para si esta conquista lusitana, como um prêmio de consolação por falarem (mal) a última flor do Lácio, bela e inculta. É como uma prova de que ainda chegaremos lá um dia, a despeito de nossa Academia Brasileira de Letras (composta por 39 imortais e um morto rotativo, segundo Millôr) ter cadeira para Sarney e Paulo Coelho.

Não é sem pesar que se nota como o tupiniquim culto e urbano desconhece completamente os meandros e maquinações envolvidas em tais prêmios. Descostumado a ler os grandes da literatura mundial que vivem arriscados a ganhar tal prêmio (de Philip Roth a Carlos Fuentes), ou mesmo a obra dos próprios nobelizados na mesma época de Saramago (de Nadine Gordimer a Herta Müller, apenas Coetze e Pamuk tiveram alguma fama por aqui), há uma crença tácita na completa averiguação imparcial da qualidade do autor por parte da Academia – ou há agora, já que antes sabia-se que o maior gênio da literatura nunca ganharia um prêmio se escrevesse em português (é o discurso que defende Drummond e Cabral até hoje).

Enquanto isso, o mundo sabe da intensa politização do Prêmio, sobretudo nas últimas décadas, que preferiu laurear quase sempre escritores aliados à extrema-esquerda e defensores massivos de ditadores sanguinolentos que sobreviveram à queda do Muro de Berlim (Dario Fo, Günther Grass, Harold Pinter, Elfried Jelinek e o próprio Saramago são exemplos notáveis).

Também sabem que o prêmio dado a Saramago foi fruto de uma intensa campanha de marketing que o promoveu na Suécia. A Wiki, em seu próprio verbete, mostra uma cronologia dos eventos que culminaram no Prêmio:

Setembro de 1997 - A agência publicitária sueca, Jerry Bergström AB, de Estocolmo, contratada pelo ICEP - (órgão estatal português para a promoção do comércio e turismo nacional), organizou uma visita de José Saramago a Estocolmo, incluindo:
  • Um seminário na Hedengrens, a principal cadeia de livrarias sueca
  • Discurso na Universidade de Estocolmo
  • Várias entrevistas a jornais, revistas e rádios suecas
  • Nesses mesmos dias, a televisão estatal sueca produziu um programa especial dedicado a Saramago
  • Outubro de 1997 - A Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem neste ano Portugal como país em destaque
  • 10 de Dezembro de 1998 - Saramago recebe o Prémio Nobel em Estocolmo
Segundo o "Diário de Notícias", o diretor da empresa sueca Jerry Bergström AB afirmou: "Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação".

Com tudo isso à vista do mundo, ainda é fácil para nossos discurseiros padrão, aqueles que criticam facilmente a credibilidade da Wikipedia e confiam em Marilena Chaui, afirmar que as críticas a Saramago são fruto apenas de discordâncias políticas, e que, não tendo seus críticos um Nobel em mãos, deveriam se calar, inclusive para comentar seu "discutível" apoio a Fidel Castro e seu anti-semitismo pouco disfarçado.

(Argumento não despiciendo a ser levado em questão é que, dos escritores que mais desenvolveram a literatura no século XX, a saber: Marcel Proust, James Joyce, Franz Kafka, Joseph Konrad, Jorge Luis Borges, Paul Celan, Virginia Woolf, Julio Cortázar, Rabindranath Tagore, W. B. Yeats, Samuel Beckett e Thomas Mann, apenas estes quatro últimos foram agraciados.)

Mas o desconhecimento brasileiro não é fruto apenas da ignorância de um país periférico, mas de ufanismo perigoso e preconceituoso, que quer simplesmente negar a História assim que a descobre, com medo de sair de sua zona de conforto e encarar uma realidade menos cor-de-rosa ou verde-e-amarela (vide a quizumba gerada pelo Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch).

O fato mais recente dessa ignorância seletiva foi a calamitosa interferência de Lula no programa nuclear iraniano. Setores petistas da intelligentsia brasileira (com o perdão do triplo oxímoro) bradaram o tempo todo que Lula tinha tudo para conquistar o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

É verdade. Um assassino em massa como Yasser Arafat o conquistou. Barack Obama, prometendo aumentar o efetivo de soldados no Afeganistão, também (sabe-se bem o que ocorreria se George W. Bush prometesse o mesmo). Até Jimmy Carter, o pior presidente da história dos EUA, também o conquistou.

O curioso é ver como a petistada encara um desastre diplomático como um ganho enorme para o seu candidato (ninguém discorda que Dilma apenas é a candidata do Lula). E como se fosse a primeira vez em que a diplomacia fez algo que presta (e, curiosamente, bem quando ela cometeu sua maior cagada, tomando pitos de todos os jornais que adoravam elogiar o presidente).

Desde o chanceler Horácio Lafer, que guiou a política externa para o desenvolvimento, tivemos vários momentos em que o Brasil mereceu panegíricos internacionais por suas ações.

Azeredo da Silveira manteve o país nos eixos em uma época razoavelmente conturbada como a Guerra Fria, livrando o país da influência cubana e, mesmo assim, foram as primeiras relações "diagonais" com África e China que o Brasil já teve (o que é um furo no mote do "nunca antes na história deste país").

Luiz Felipe Lampréia, seu colaborador e "substituto" nos anos FHC, acabou com uma possível corrida nuclear entre Brasil e Argentina, que poderia causar conflitos sérios na região, numa época em que os dois países brigavam por fatias comerciais e influência na região pelo controle do incipiente Mercosul (que ainda tinha a Alca como grande "vilã"). Foi por sua mão que o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que já visava o Irã como ameaça para as décadas seguintes. Também afastou a influência de Castro do regime de Bouterse no Suriname, além de ter sido o mediador da paz (alcançada) no conflito entre Peru e Equador.

É claro que nossos gênios podem simplesmente ignorar o que eles mesmos disseram tão logo seus leitores esqueçam – ademais, estes blogueiros antenados com o progresso que hoje torcem por um Prêmio Nobel da Paz para Lula são as mesmas que, na década de 90, tentavam impedir a globalização... e quem se lembra dessa palhaçada?

Não é demais também saber que os jornais que elogiam Lula mundo afora sempre o fazem por manter a política de seu antecessor, e por se manter dentro da lei, num continente em que poucos presidentes parecem muito inclinados a tal (até mesmo Álvaro Uribe deu para trás neste mister) – ou seja, exatamente pelo contrário das razões que os petistas encontram para adulá-lo.

Para nossos palpiteiros sem história (já que nunca aconteceu nada neste país antes de 2002), é claro que o PT é o único partido capaz de trazer a paz para o globo inteiro. Mas é curioso ver estes torcedores acharem que facilitar urânio enriquecido para um fascista, ditador, apedrejador de mulheres, fanático religioso, negador do Holocausto e incentivador do varrimento de Israel do mapa (para não prolongar demais sua ficha corrida), e que teima a qualquer custo que precisa ter esse urânio, seja uma ação merecedora de um Nobel da Paz.

Ainda é melhor para o Brasil entender de como obter novos prêmios na Copa do Mundo – e esperar pelo hexacampeonato sem sair do sofá.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Malthus analisa a web 2.0


Por bizarro que pareça, ainda conheço bípedes mesozóicos que não têm blog, não ouvem nenhum podcast, desconhecem quem sejam Cardoso, Inagaki e Interney, não sabem pra que o Twitter serve, vivem à margem da sociedade sem um perfil no Facebook, não sabem o que é um Feed, procuram emprego no jornal de domingo ao invés de no LinkedIn (se é que alguém procura emprego no LinkedIn), não acompanham bug a bug o lançamento do novo iPhone, não jogaram Tibia e, oh horror, nunca ouviram falar em vlogger.

A bem da verdade, gosto de ser um caboclo antenado, que já sabe das notícias antes mesmo de que elas sejam publicadas no site da Folha (e hoje são raras as notícias que são publicadas por lá a trazer algo que o Twitter não saiba), tudo isto bem concatenado com noites varadas madrugada adentro, cansando meus olhos entre a esmerada leitura dos clássicos e os melhores canais do Pornotube. Inobstante, hei de admitir o quanto me sinto mais vivo ao levantar impertérrito a minha carteirinha dos que não sabem o que caralhos é um vlogger. Não que tenha coisa muito mais intessante a ser feita cumprimentando os vizinhos, naturalmente – mas é cada vez mais difícil se manter um completo alienado quando há tanta informação que nos obriga a sermos gênios.

É o que nos deixa com saudade daquela época em que uma moda era apenas uma moda, e não uma hype, que as notícias se alastravam por meios caquéticos como a televisão, sem memes que anunciam falsas mortes a cada dia. E em que podíamos estar apenas de saco cheio, sem denunciar a vibe aos sete mares.

Mas o fato mais conspícuo desde que os computadores incoaram sua marcha de popularização em direção ao Dia do Julgamento Final é que, armas fabricadas por engenheiros, matemáticos, cientistas e outras criaturas esquisitas, tais invenções passaram a medir o mundo por números – e tal efeito, paradoxalmente, passa tacitamente debaixo do nariz de todos os interneteiros, hoje.

Antigamente (antes de meados de 2005), havia duas classes de pessoas: as populares e as outras (que aglutinava desde tímidos até esquisitões góticos, estes últimos com picos modistas que lhes tornavam uma versão monocromática e desatualizada dos populares). Tudo era medido exatamente assim, no olhômetro.

Não era muito diferente nos rincões binários da internet. Não se possuía amigos no chat do Uol ou do Terra (e da época em que este se chamava "Zaz") – havia a chance de ser tão batido nas mesmas salas que se acabava cumprimentando as mesmas figurinhas carimbadas, mas isso dependeria do horário e, caso não houvesse sectários conhecidos presentes, era só ficar na sua e ninguém notava sua popularidade ou falta dela. Sua lista de ICQ era privada, e seu grau de popularidade permanecia uma variável que nem sua professora de matemática descobriria (aliás, muito menos ela).

Apesar de manter a privacidade da lista, o MSN veio para interferir nesta equação. Poucos foram os que se perguntaram qual a motivação do sucesso do MSN sobre o ICQ. Mandar mensagens apenas com Enter? Eu sempre odiei isso, e nada que um Shift + Enter não fizesse no ICQ. Visual modernoso, seguindo preceitos da Bauhaus? Insuficiente. O perfil no Windows Live que nunca ninguém usou? Perde feio para o ICQ. Para descontar os milhares de problemas com conexão que o MSN possui, só mesmo um fator garantiria sua primazia: putaria. Com fotos de fácil acesso e possibilidade de transmissão de imagens pela webcam, praticar libidinagens é muito mais prático com o MSN – o que gerou uma carrada de demissões de funcionários apresados em flagrante em sua baia, esganando o malandro feito chimpanzés.

Mas a grande mudança veio mesmo com o orkut. Ter um perfil público indicando quantos amigos o caboclo possuía foi o golpe de misericórdia na numerização da vida virtual. Ter contato com apenas 80 pessoas só poderia indicar timidez mórbida, gordice corrosiva ou pigolim retraído. Havia uma proibição tácita de fazer parte de mais comunidades do que seu número absoluto de amigos. E a taxação era ainda mais cruel: o perfil indicava, em porcentagem, quanto os amigos do zé-goiaba o consideravam cool, quanto era trusty e, prends pitié de ma longue misère!, quanto o indivíduo era sexy.

Não demorou nada para que surgisse um verdadeiro escambo de karma. Perfis fakes surgiram a priori para corrigir fragorosas falhas numéricas em perfis-matriz. Ninguém poderia ser apenas 80% sexy, conquanto seu maior inimigo fosse 90%. Putinhas de internet pululavam arrogando-se "donas do Orkut" (sic) por conseguirem o inalcançável 100% sexy. Muito pior do que ser dono de um perfil desprovido de testimonials elogiosos (o que rapididissimamente caiu em desuso, pois num mundo com Hesíodo e Marlowe, é fácil achar algo melhor para se ler), nada poderia atentar mais a favor das razões para o suicídio de um cara-pálida do que cair para 70% sexy – quando os verdadeiros losers eternamente se contentaram em ficar abaixo da nota de corte para o abate.

Foram anos com mudanças que só pioraram a rede para tentar resgatar aquelas réstias de privacidade, o naco de opacidade que nos permitissem sermos feios, chatos, burros ou vagaranhas despudoradas sem receio com o futuro do presente, como o bloqueio de álbuns e de scrapbook. Mas 99% do rebuliço de que o orkut se fez capaz desde então foi o único movimento contrário: o famoso BINA de perfil, o mecanismo que o fez registrar quem havia bisbilhotado o seu perfil. O resto apenas cuidou de dar os tiros de misericórdia na rede – que morreu, sabe-se, devido à invasão brasileira, que destruía a possibilidade de uma comunicação mínima em qualquer comunidade.

Então chegamos a essa época do Twitter. O que é o Twitter, que não funciona como uma comunidade de tema específico no orkut, senão a maximização dessa aquilatação do valor individual em números?

Aqui é feio ter poucos seguidores (mesmo que você tenha entrado no Twitter anteontem). Sem comunidades-nicho organizadoras por tópicos, a fama corre pela rede anarquicamente. Mesmo seguindo apenas bons conteudistas, é inevitável ser informado das quizumbas protagonizadas por novos famosos instantâneos – ou, inversamente, descobrir como é o concatenamento lógico de famosos oldschool sem um script decorado.

Aliada a blogs, podcasts e agora vloggers, a busca desenfreada pela fama se tornou obrigação (alguns ultrapassam rapidamente aqueles que fizeram sua fama via orkut, como Gordonerd e suas mil comunidades). Nunca foi tão fácil ser famoso: há até script pra isso (o que foi mote, ademais, da capa da Info que me deu barato). A linha limítrofe entre famosos e o populacho não poderia ser mais fina – basta agora o botão reply.

Como, agora, diferenciar os famosos tr00, os famosos de raiz, daqueles de fama instantânea, que dura menos do que um BBB (ou durava, antes de cooptarem twitteiros na última edição)? Como todos os problemas hodiernos, a solução encontra-se em Malthus.

É fácil encontrar bons blogs sabendo procurar, descobrir pessoas com bom conteúdo mais de 8 horas por dia no Twitter – ao invés de seguir famosos (sejam de qualquer uma das vertentes) que apenas informam quando estão almoçando ou por onde passaram o sabonete – basta um tempo de pesquisa. Mas estes são raros, é a minoria alumiada e que faz poucos discípulos – apenas mantém o número atual para a próxima geração. É uma seita minoritária que, tendo em mãos o mais poderoso mecanismo de transmissão de informação e de videos de dupla penetração da história da humanidade, faz algo que presta com esta ferramenta.

E, naturalmente, com a inclusão digital, não é de se esperar que alguém pague uma fortuna numa conexão bostífera para fazer algo mais interessante do que ver reprises da Globo e da MTV no Youtube. Esta é a camorra que ainda faz diferença para publicitários e caça-talentos de canais de comunicação, aquela que só existe em número, e vista isolada dá nojo: as pessoas que se matam de rir das demências de segundo escalão de um Danilo Gentili, a súcia melcatrefe que conclui que, se o Kibeloco é um famoso site de piadas, logo é o melhor, e pode muito bem se contentar com aquele nível de inteligência.

O tal número de seguidores do Twitter hoje aponta apenas para algo tão antigo quanto cagar agachado: retardados seguem retardados. E, reproduzindo-se exponencialmente como baratas no cio, serão sempre a maioria.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O feminazismo de rebanho


E dever de todo puto egresso do avant-gard das perobagens fascistóides que se convencionou chamar por ciências humanas neste país esclarecer a este escriba quando foi proibido ser um único ser humano pensante em terras nacionais, possuindo um porta-bagos próprio com sua dupla carga e também um único cérebro que prescinda de outorgações e proibições vindo de seus cupinchas superiores.

O busílis em voga é o crime cometido pelo goleiro Bruno, do Flamengo, que etc, etc. O acordo tácito na intelligentsia blogueira é o de que você deve comentar toda e qualquer questão que vire notícia e tema de conversação por mais do que o tempo de uma aliviada na diarréia. Alguns, por fazerem disso a sua paga para o leite das crianças e a pornografia russa por assinatura; outros, porque blog é de graça e é preciso alardear aos quatro cantos da chatura terrestre a sua capacidade de produzir conteúdo – o que traz de volta o tema da disenteria.

A blogosfera torna-se, assim um loop infinito de logorréias sobre os mesmos temas, tratados pelos mesmos pontos-de-vista, repetindo os mesmos chiliques de efeito, com a mesma indiganação extravasada pelos mesmos chistes de sempre. Um mise en abyme cuja única saída é o botão Power. Quererá o leitor saber a opinião de Sílvia Abranches sobre a escalação de Dunga? Ou as justificativas de Amanda Figueira para aprovação da lei do divórcio? E saber das considerações de Eduardo Crespaldo a respeito do uso da burca na França? Eu também não.

Mas a regra é clara: tendo um blog, é sua obrigação postar, mesmo que seja a reprise em câmera lenta da regurgitação do mais do mesmo do que já foi repetido. A corja resvala tão previsivelmente neste regressus ad infinitum que, apesar de blogueiros de estirpes tão diversas umas das outras escreverem todo santo dia sobre o assunto do santo dia, quando ocorre um choque indireto, um verdadeiro conflito de idéias, a azáfama pega a todos de calças curtas, como se tivessem acabado de descobrir vida inteligente na Rede TV.

Porém, como o caso em questão não permite muita polêmica, o comportamento blogosférico foi um tanto quanto melindroso. Basicamente, há ensejo para a indignação – only this, and nothing more. Mas as complexas relações ocultas de poder não escapam ao exame revolucionário dos pensadores brasileiros, que imediatamente tratam de blogar indignando-se da indignação do próximo. Pratico aqui meu dever de cidadão consciente rematando mais um elo nessa corrente de indignação indignada.

Dois textos servem de exemplo do pensamento coletivo e repetitivo que busca causar "reflexão" através de uma vitamina de óbvio ululante: O caso Eliza e a violência de uma sociedade patriarcal, de Mayara Melo, e Eliza Samudio sou eu; Eliza Samudio somos nós, queiramos ou não, de Bruna Scarpioni. O leitor pode se sentir convidado a se embarafustar mais a fundo nos arrazoados apresentados, embora seus títulos já demonstrem serem não criações individuais, e sim alfarrários pré-programados que visam a ideologização mais rasteira sobre o caso do goleiro retalhador. Estas obras não são esforço individual: são sintomas coletivos.

A verborragia é a mesma litania ruminada desde Cabral: não houve um crime realizado por indivíduos com excremento no lugar do cérebro, o que há é uma sociedade pecaminosa, machista, capitalista, neoliberal, conservadora e (há quanto tempo não ouvia tal vocábulo...) patriarcal que gera esses delitos. A síntese do "pensamento" é: a sociedade prepara o crime, o indivíduo apenas estupra, seqüestra, tortura, mata, esquarteja, desossa e dá para o cachorro comer. A patriarcalíssima Igreja Católica deve ter adorado.

O pensamento coletivista só é capaz de agir em rebanho. Agora uma parte do gado quer jogar a culpa do crime em toda a outra parte. Não é permitido ter um único cérebro e uma única bolsa escrotal para pensar "a sociedade". Ainda temos nossos iPod, mas chegamos ao estágio final do comunismo no que se refere ao pensamento: a estatização de colhões.

A grita de nossas amiguinhas é pela forma como trataram a cidadã Eliza Samudio em comentários esparsos internet afora. Foi caso para "tremer de indignação" (peço ao caro leitor desconsiderar objetos que causem tremores em feministas). O que é uma prova, afinal, de que todos nós (refiro-me apenas aos homens, e quanto mais brancos, burgueses e menos estatizantes, maior a culpa) temos nossa responsabilidade no assassinato da ex-atriz pornô.

Ora, segundo as analistas de ética em mídias sociais, é uma atitude chauvinista atentar para a putaria praticada pela Eliza: isso indica que somos homens que "usam", "submetem" e "se aproveitam" do corpo das mulheres (não, ainda não se falou em objetificação). Afinal, essa é a mesma ideologia de uma sociedade que abusa do corpo de uma mulher, a ponto de dar os pedacinhos pra cachorrada.

Seria curioso pensar em um nível um pouco mais profundo do que um pires se é esta a questão nevrálgica em foco. São machos que abusam (?) do corpo da mulher ao praticarem tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie, e filmarem o processo sob títulos como "Até que enfim anal" ou "Violação anal 4". Portanto, uma pessoa (!) politicamente correta deve se indignar deste ato – ou, melhor dizendo, da sociedade que abarca este ato, pois ao reclamar do ato, sem culpar toda a tal sociedade na mesma carrada, incorre-se nas demonstrações de machismo, preconceito e intolerância que indignaram à tremedeira nossas patrulhadoras.

Mas ao dizer: "Putaquemepariu, será que não dava pra essa dona aí se envolver com um macho ocidental e troglodita menos pior?!", já que não tomamos o vitimismo barato que culpa a sociedade produtora de facas, e sim quem pegou na faca pra matar, somos também os próprios culpados pela morte de Eliza. É um caso estranho de culpa (ou seria dolo?), em que temos culpa justamente por culparmos o criminoso.

Pois eu nunca vi sociedade mais respeitosa quanto às mulheres como a nossa. Uma sociedade em que elas podem ganhar para fazer um filme pornô não é machista, é libertadora – nossas feminazis queriam mais o quê? Obrigar essas fêmeas a servir o Exército?

Esta sociedade patriarcal e culpada é a sociedade em que podemos ver casaizinhos indo ver um filme extremamente misógino como O Anticristo, de Lars von Trier, e na saída o elemento macho reclamar da chatice da película, preferindo ver Dragão Branco, ao que é obtemperado pelo elemento fêmea: "Mas o cinema europeu é rico em sensibilidade!"

É a sociedade patriarcal em que Houellebecq pode lançar piadas como "Qual o nome da camada de gordura ao redor da vagina? Resposta: Mulher", sem que consigamos conceber que este indivíduo vá mesmo tratar uma mulher como uma camada de gordura – mas, afinal, exigir que "classes sociais" universitárias possam compreender uma ironia antes de arrotar Foucaults e Bordieus com esgares gazeteados de pseudo-refinamento e compreensão é exigir um elevado grau de força individual em um embrutecido rebanho que se leva mais a sério do que o faria o Canal Rural.

O que o tal patriarcado (incluindo sua parcela feminil) que indignou nossas amigas ao tremelique está fazendo não é senão tratar bem as mulheres que merecem este tratamento, distinguindo-as de marias-chuteiras que, só por serem mulheres, não merecem ser santificadas. É diferenciar uma mulher que vive em função da carteira alheia de Elizabeth I, Vitória, Hatshepsut, Thatcher, Cosima Wagner, Ayn Rand, Hannah Arendt e outras tantas que põem no bolso os homens que as idolatram. É proteger as mulheres que respeitam da influência de indivíduos psicóticos que as vêem como presas em potencial, prontos para tratá-las como um cavalo assim que possam colocar suas (deles) patinhas em seus (delas) corpos.

É, justamente, exigir moral de um ser humano – mas para nosso gado universitário, possuir uma moral é ser moralista, e ser moralista é ser patriarcal e machista, invariavelmente – tendo em mira que ao aquilatar o valor de uma vida pela sua moral acabaremos por tratar com encômios pessoas esforçadas como as acima citadas e tratar com um soslaio de reprovação as outras que buscam uma vida fácil de ascensão por fama, poder e grana – e esta desigualdade de tratamento é considerada preconceito machista, retrógrado, intolerante e autoritário por nossa manada ruminante.

Um assassinato brutal como este está longe de merecer a carga moralizante que o vocábulo "feminicídio" acarreta. Não foi um crime contra uma mulher por ser uma mulher, e sim um aproveitamento de poder e força física de um assassino contra uma presa que viveu de maneira que facilitou sua injustíssima morte. Mas agora até crimes fazem parte de "classes sociais" em luta violenta constante...

Visa-se, justamente, evitar que este tipo de crime absurdo se repita – por isso prefere-se honrar os esforços de uma mulher que está mais preocupada em visitar uma biblioteca a uma que usa o corpo para ascender socialmente – e estas loas implicam, justamente, não ter o mesmo nível de respeito pelas marias-chuteiras. Ninguém tirou a culpa de Bruno, ninguém culpou a vítima (!): quer-se, justamente, destruir as circunstâncias que permitam que este tipo de carnificina ocorra.

Para inverter o sinal e culpar os próprios defensores de uma vida livre de sevícias e violentas sanguinolentas, nossas amigas só podem mesmo é inventar fatos de estro próprio (como aduzir que Bruno obrigou Eliza a transar sem camisinha e tenha exigido um aborto, quando foi até mesmo seqüestrada para abortar contra a vontade), mas elas também têm uma lição de moral a passar adiante. Conclui Mayara:

"Por isso, ao invés de assistirmos passivamente a essa trágica história, devemos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidade na violência contra as mulheres. Ela é fruto de uma sociedade patriarcal que naturaliza a submissão do corpo feminino e que reproduz cotidianamente discursos e práticas machistas que perpetuam essa situação. Assim, foram violentos os assassinos de Eliza, mas também foi violento o Estado que lhe negou proteção, a mídia que transformou sua morte em espetáculo e todos e todas que passivamente assistem ao desenrolar da história se achando no direito de condená-la por ser mulher."


Naturalmente, o esquartejamento só pode ter sido fruto de nossa sociedade tão misógina, que não permite que uma fêmea tenha os mesmos direitos civis de um macho. É tudo derivado de nossas práticas machistas, como diferenciar nossas professoras de prostitutas. E a violência vem do Estado lhe negando proteção (o mesmíssimo rebatido argumento de Túlio Vianna, outro feminazista, em texto de 2003, ao defender que o estuprador e também esquartejador Champinha não cometeu crime algum, pois a violência veio do "Estado que lhe negou uma infância minimamente digna") e da mídia, que ficou chocada – ou, exatamente por isso, teria feito um "espetáculo" (Túlio, de novo, continuando a frase: "e a mídia que só enxerga as crianças e adolescentes miseráveis para mostrar a seus consumidores o quanto eles são "perigosos" e com que frieza eliminam uma vida").

Como se vê, nem a ordem do discurso é capaz de sofrer alteração. Não só indivíduos singulares foram proibidos de existir, após a "dissolução do sujeito" de Foucault: é impossível, agora, analisar qualquer aspecto da realidade como um fato novo. É proibido pensar: tudo já está definido numa retórica pré-determinada, feita numa linha de montagem de algum gulag soviético, e só se pode é esmagar a realidade para que ela caiba em seu formato, torturar os números até que eles confessem. Basta ter um discursinho semi-pronto, e condenar a sociedade para acusar um goleiro retalhador rico, ou condenar a sociedade para defender um vagabundo retalhador pobre. Decreta-se o fim da primazia da realidade sobre o preconceito, e volta-se ao bobo argumento da autoridade em nome do progresso.

Mas se é isso que nossas amigas chamam de "reflexão" e é isso que querem, eu reflito: visto que encorajo mulheres a não serem marias-chuteiras e as trato com todo o amor e carinho quando elas se esforçam por uma vida diferente, qual é a minha parcela de culpa neste assassinato?

Nenhuma. Próximo.