quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Seria o #lingerieday uma 'objetificação feminina'?

Eu desisto.

No último #lingerieday, houve uma grita sobre o caráter objetificador, machista, pervertido, inadequado para nossas crianças, opressor, troglodita, chauvinista, burguês, neoliberal e imperialista do flash mob. O rebuliço foi orquestrado por pessoas de reputação ilibada, como @tuliovianna, @semiramis e @anarina.

Como já é de conhecimento público, garatujei um hidrófobo texto questionando Túlio Vianna ser um crítico tão aguerrido da objetificação feminina do evento, se ficou do lado do opressor objetificador em um caso de seqüestro, estupro e assassinato por esfaqueamento e degolamento. Acreditei que iria provocar uma séria discussão sobre "objetificação" com um especialista. Vianna após discutir isso o dia inteiro no Twitter, disse que não poderia perder tempo com um "reacionário raivoso" como eu, que era melhor deixar "a cachorrada latir".

Para variar, eu estava errado. Redimo-me nestas mal-digitadas. Pautar-me-ei pela alterosa sapiência de Cyntia Semíramis, que
escreveu sobre o evento. Diz nossa filósofa:

Estamos falando de uma campanha para criticar e esvaziar o uso político do twitter, procurando ridicularizar o ciberativismo.

Não poderia estar mais correta. Com toda a razão, o objetivo claro do #lingerieday é esvaziar o Twitter de conteúdo político. A prova mais viva foram os boicotes de @joseserra_, @demostenes_go e @mercadante.

Ataque ainda mais certeiro:

Mas o ponto principal é: a campanha tem um mote de objetificação das mulheres. Sobre objetificação, entenda-se colocar as mulheres em posição subordinada à dos organizadores. São elas que devem mudar seus avatares (ou seja, sua imagem de identificação em determinado grupo social) para uma foto usando lingerie. É uma relação desigual: eles mandam, elas obedecem. Eles são sujeitos, determinando as regras; elas são objetos, obedecendo ao que foi mandado.

Ora, o dia inteiro a discussão girou em torno desse ponto. Eu, ignóbil de inteligência apoucada, não entendi como mulheres que nem sequer sabiam quem eram os organizadores puderam ser por eles objetificadas. Infelizmente, ainda me falta muito para chegar ao grau intelectual de Semíramis, que encontra objetificação sem haver subjetificação. Minhas escusas.

Mas é um ponto importantíssimo: o #lingerieday impõe regras. É desigual. É machista. É homofóbico. É chauvinista. É patriarcal. É retrógrado. É malufista. É subjugador. Os organizadores do evento falam por si. Há fotos documentais que mostram @gravz obrigando garotas ingênuas e indefesas a mostrarem suas lingeries, com ameaças opressoras, desde facadas até unfollow. O @izzynobre é um porco chauvinista tão escroto que colocou até a própria mulher no evento para ser objetificada a seus cupinchas, provavelmente depois de um espancamento. O @morroida, então, nem se fala: esse aí, depois de Túlio Vianna pedir pelo outro prato da balança (que os homens colocassem fotos de suas cuecas), só colocou porque Túlio o objetificou, e não por ser sujeito da relação...

E nada impôs mais regras do que o famoso anátema que deu origem ao evento:

#LINGERIEDAY DOS BROTHERS!!! COLOQUE UMA FOTO SUA DE LINGERIE AIH PARA TODOS OS SEUS BROTHERS TE OBJETIFICAREM OU VC Ñ EH BRÓDER!!!!

Como é do conhecimento de qualquer azêmola, todas as moças que não obedeceram caladas não são mais brother.

Imagino que alguém vai falar: ah, mas as mulheres adoram se enfeitar, serem elogiadas, etc. Sim, isso é óbvio, qualquer pessoa gosta de se sentir bonita e receber elogios. Mas pra fazer isso ela não precisa de alguém mandando que participe de uma campanha, né? Ela pode muito bem se arrumar sozinha!

Ainda mais quando ela participa de uma campanha sem nem saber quem são os organizadores, não é mesmo?

Isso, é claro, é uma armadilha na qual apenas descerebrados que não fazem Direito na PUC-MG como eu podem cair: trata-se, naturalmente, da dissolução do sujeito, de que nos alerta Foucault. Afinal, ele pouco falou da dissolução do objeto em As Palavras e as Coisas, não é?

O arranca-Habermas em voga da discussão filosófica, tão conhecidos pela erudição de uma Semíramis, gira em torno das estruturas condicionantes que permitem atingir o verdadeiro conhecimento, e não o mero achismo, como o meu - conforme ela mesma diz:

A “provocação”, na verdade, está em mostrar um ponto de vista fora do senso comum. Parece que isso incomoda tanto as pessoas, que elas imediatamente passam a tratar tanto quem escreveu quanto quem apoiou o texto como perigosas mentes subversivas que vivem a gritar para impor suas idéias.

Infelizmente, a nós, que só temos senso comum, só resta gritar. Não podemos compreender que, desde que Kant resolveu a dicotomia racionalismo continental x empirismo insular na filosofia, uma série sem fim de pensadores veio movendo o Ocidente apontando cada vez mais profundas estruturas condicionantes de sabedoria.

Marx encontrou a mola da História na luta de classes, enquanto estamos aqui alienadamente achando que discutimos no Twitter sem ser para oprimir quem ganha menos.

Nietzsche, irrefutável como sempre, desvendou o véu da vontade de poder.

Freud percebeu que todas as nossas ações são, na verdade, obediência ao impulso da libido inconsciente recalcada.

Jung descortinou que toda essa discussão anterior é repetição de um script milenar registrado no inconsciente coletivo.

Korzybsky e Whorf, sabiamente, souberam que estavam todos enganados por pressupostos metafísicos aristotélicos na própria estrutura da linguagem, e os primeiros a escaparem dessa trama foram... Korzybsky e Whorf.

Professor: Margie, não me peça para respeitar uma relação que você tem com um homem que apenas te usa quando lhe convém.
Margie: O Homer é uma boa pessoa! Ele me mandou este cartão. *mostra um cartão escrito "Eu amo você"*
Professor: Margie, o que você não entende é que quando ele te diz "eu amo você", eu é o sujeito, e você é o OBJETO!


Por fim, Foucault corrigiu tudo, pois o pressuposto mesmo do saber é a epistéme, a estrutura geral de saber, que condiciona todo o conhecimento de uma época e, repentinamente, sem explicação aparente, muda para outra, nos deixando completamente perdidos no ar.

Não é claro notar como a erudição de Semíramis toma o braço de Foucault ao perceber uma não-exigência de sujeito para que uma moça com lingerie no avatar seja um objeto?

Porém, o lingerieday não se trata de uma campanha de valorização da nudez, mas uma campanha sobre objetificação através da exibição de lingerie das mulheres. Alguns homens determinaram que as mulheres devem, em determinada data, trocar seus avatares por fotos de lingerie. Eles as colocaram na posição de objetos. O contexto é outro, no qual há dois componentes eróticos: um, atribuído às poucas peças que faltam para deixar partes do corpo que são consideradas eróticas à mostra; outro, pela “obediência” à campanha.

Mas não sejamos tão superficiais. Qualquer aluno de Túlio Vianna (exceto nós) sabe que a objetividade trata de algo presente - mas, como presente, também pode ser experenciado como algo que brota de si, a partir de si [Aufgehend], que é justamente o que significa physis. Uma Semíramis sabe perfeitamente que o conceito de objeto e de objetividade não existem no pensamento grego e na Idade Média: foram introduzidos pela modernidade, a partir de Descartes, e constitutem a própria definição da ciência moderna, que recorta um objeto do tecido do mundo para ser estudado em separado.

A presença em si mesma já é entendida, a partir daí, pela sua possibilidade de representação através de um sujeito. Não se toma mais a presença em si, mas aquilo que pode ser ob-jetado a mim, como sujeito pensante. É essa mudança da experiência da presença que define a modernidade. O homem, obrigatoriamente, passa a olhar o mundo por recortes. O grego, que criava o mito das ninfas e das sereias baseando-se nas mulheres que se desnudavam nas thermas (banhos públicos), agora é sempre alguém como um biólogo ou sociólogo, que, ao ver uma mulher em trajes diminutos, logo pensa: como será que posso tomar este objeto para mim?, como, por um exemplo hipotético, "o que faço com esses avatares de lingerie na minha frente?".

(não custa lembrar, é claro, que o homem é aqui entendido tão-somente em seu sentido masculino, branco e burguês.)

Mas como esta objetificação se dá?, perguntamos atônitos a Cyntia Semíramis. Ora, apenas ela poderia nos responder: desde a Antigüidade que sabemos que a apreensão de um objeto pela consciência forma um conceito. Este conceito é obra da cognição, que produz imagens mentais dos objetos. Uma imago é uma representação, ela imita o objeto dentro da própria mente.

A cognição pode ser sensitiva ou intelectual. A sensitiva é comum a animais e homens, enquanto a intelectual é coisa até de homens que são uns animais. É, basicamente, o que conseguimos através dos órgãos dos sentidos. Já a intelectual, ou simplesmente intelecção, extrai dos objetos o que é eidético, organizando-na mente conforme notas sistemáticas dela própria. Ora, o sensível dado in bruto é o phantasma, Do phantasma extraem-se as noas esquemáticas. A notio, a noção já esquematizada, é a species (o complexo de notas). Como exemplo: "Você não tem noção do que vi no #lingerieday!"

Species tem a mesma raiz do verbo specto (contemplar, ver). Também de speculum, espelho. Também ideyn, em grego, é ver, e daí idéia, e eidos, que é seu sinônimo.

A ideia é a similitude do objeto na mente, sem ulterior afirmação ou negação: "Você tem idéia do que significa o #lingerieday?". Esta apreensão é a mente captando intencionalmente (intentio) o objeto: a noção, portanto, é o que é de fato captado pela mente.

Temos, então:

  • espécie expressa: a similitude expressa ou formal da coisa na mente;
  • verbum mentis: a expressão, manifestação ou locução intencional que a mente propóe a si mesma do objeto;
  • terminum mentis: o que ou em que termina a coisa na mente;
  • intentio: o que do objeto tende à mente;
  • forma inteligível: a similitude que representa o objeto;
  • ratio: o que é o princípio inteligível da coisa.

Isso tudo, claro, para ficarmos apenas na conceitualização, que é a primeira operação do espírito.

Quando Túlio Vianna, do alto de sua sabedoria, nos explica que, petis fucifer!, alguns machos ocidentais estariam se masturbando olhando para esses avatares, podemos presumir que ele nos avisa de que alguns tomaram apenas o phantasma, sem intelecção.

Em uma analogia, o phantasma é a mulher posando para a Private, em que apenas o sensível bruto chega aos sentidos. Já um ensaio para a Playboy é a espécie expressa, ambas tendo como intentio seus corpos, uma com terminum mentis a pornografia, e outra o ensaio erótico. O verbum mentis, é óbvio, é a provocação instinta destes corpos, tendo como forma inteligível aquilo que deles fica retido na mente desses onanistas pervertidos.

Mas no degradé Private > Playboy, temos na ponta o caso do #lingerieday. Se Semíramis e Túlio, com seu discurso, calcado em Foucault encontram relações de poder em tudo (onde Freud, antes, encontrara relações de contenção sexual em tudo), não é desbaratado lembrar que o #lingerieday, mais do que a Playboy (e muito mais do que a Private), é um evento sedutor - de seducere, não fazer aparecer, o contrário de producere, fazer surgir, que não tinha a carga de "produção material" que o verbo possui hoje.

É, portanto, o contrário de um tratamento objetivo das mulheres que as torna apenas meio para o prazer sexual. A pornografia é justamente esse modo de produção desinibida e sem freios que aflorou no século XX, que não trata da mulher-objeto de uma maneira mais profunda do que através do phantasma de seus corpos.

Eu poderia crer, portanto, que ver o avatar de mulheres, incluindo amigas, no #lingerieday, possui uma diferença fundamental de ver pornografia no SexyHot. Por sinal, vê-se muito menos, conversa-se muito mais, lê-se as observações que as moças postam sobre Foucault e Marcuse em seus blogs. Mas, claro, de alguma forma que não consigo compreender por não atingir o nível de intelecção de Vianna e Semíramis, eu estou errado, e eles, combatendo o senso comum, certíssimos: Túlio, até mesmo, defendeu que pornografia é cultura, e, logo, deve ser algo com que os trabalhadores bonificados com o Bolsa Sinuca, digo,"Vale Cultura" petista podem gastar os seus caraminguás - a única coisa que entendi é que o problema do #lingerieday, então, é ser gratuito.

Mesmo pessoas exibicionistas sempre pensam SE e QUANDO irão se exibir, ou qual a melhor forma e ocasião para satisfazer os próprios desejos. Elas não precisam se colocar como objetos da relação, esperando alguém determinar se e quando poderão se exibir.


Voltemos, então, à objetificação pelo homem. O que apenas seres desprovidos de preconceitos como Semíramis fazem é enxergar medidas que nós, objetificadores, não conseguimos.

Medir é sempre uma comparação, no sentido de que se mede, por exemplo, o diâmetro de uma mesa com uma medida pré-estabelecida. Mas nem todo medir é um medir quantitativo. Posso medir algo como algo, assim tomando a medida da coisa pelo que ela é. É esse medir, ademais, que é a própria estrutura fundamental do relacionamento humano com as coisas. Por exemplo: ver um um avatar de lingerie no Twitter e não ver apenas um corpo, como veríamos na Private (ou na Caras...), e sim, ver uma mulher, talvez uma amiga, que, corajosamente, quis mostrar sua beleza e provocar a imaginação do próximo (muitas vezes, é claro, sem nunca ter ouvido falar dos 3 Patetas que inventaram o flash mob).

Em toda concepção de algo, por exemplo, de uma moça de lingerie, eu me meço pelo que é concebido. Por isso também pode-se dizer que é um dizer adequado, na medida (angemessenes) ao objeto.

Isso é um desmembramento de intersubjetividade que já dera seus passos em Husserl, que definiu dois horizontes de compreensão para os atos da consciência: um que toma o objeto como uma imagem para a consciência (a base), e outro horizonte que sempre o encaixa na sua significação dentro do mundo (é impossível ler esse texto sem perceber que se está lendo num computador, que fica em uma casa, que fica em um bairro, que fica em um país e assim por diante). Essa nova lógica transcendental dará os primeiros passos da intersubjetividade em Husserl - e, afinal, como diz Buber, é impossível pensar num homem como um ser objetivo de magnitude apenas utilitarista como se pensa uma pedra. E também Merleau-Ponty, sabendo que as coisas estão no mundo, estão, portanto, condenadas ao sentido, ainda mais porque o comportamento do observador altera o objeto observado, como qualquer físico quântico de quinta série o sabe.

A verdade sobre um objeto, portanto, é definida como adaequatio intellectus ad rem. Isso também é uma equação: uma relação do homem com o objeto. Mas este é um medir extremamente fundamental, a partir do qual é fundado todo o conhecimento científico (embora, com complicações novas, perca-se esses sólidos paradigmas: na física nuclear, por exemplo, não existem mais "objetos"). O homem, quando entra em uma relação dessas (como observar sua amiga gostosona no #lingerieday) não se coloca a questão. A relação do homem com os parâmetros e medidas é sua relação fundamental, ou seja, sua própria compreensão do ser.

Em termos mais claros, o homem, obrigatoriamente, por intelecção, já não vê apenas um objeto desprovido de história, desejos, vontades, vida. Do contrário, toda aproximação seria um estupro. Ele vê outro ser como ele, pois sua relação fundamental, que fundamenta todas as suas relações, não está com aquele indivíduo objetificado diante de si, mas com sua própria capacidade de se relacionar com humanos - mesmo que preferindo se relacionar com as gostosonas.

Este conceito é bem explicado por Octavio Paz, quando mostra como o Ocidente científico diferencia A de B como não-intercambiáveis, enquanto o pensamento oriental concebe A como uma instância de B - tudo o que é A está em B e tudo o que é B está em A; ambos pertecem um ao outro e ambos se pertencem; um não pode excluir ao outro sem também se excluir (o que pauta as relações de vida e morte no Oriente). Kakuzo Okakura resume a relação fundamental no seu O livro do chá, com o apoptegma ser-no-ser-do-mundo, de onde Semíramis sabe que Heidegger tirou o seu conceito de In-der-Welt-Sein. Afinal, como já dizia Descartes, Regulae ad directionem ingenii: Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigandam ("Para se investigar a verdade é necessário um método").

Mas... aproximação que é um estupro? Ora, Semíramis e Vianna, como professores de Direito Penal, já devem estar até de saco cheio da obra Criminal Shadows, de David Canter, que traça um "mapa" de três formas como um estuprador concebe sua vítima: pode vê-la apenas como objeto, fazendo preparativos, se disfarçando, usando armas para controle; pode vê-la como veículo, sendo agressivo e humilhador, exigindo participação da vítima; ou pode enxergá-la como uma pessoa, buscando uma aproximação.

Mas tudo isso é uma bazófia que tem o peso de um tapa de pelanca numa discussão dialética. Vem Semíramis e vocifera:

Participar de uma campanha para ser considerada livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, significa apenas uma coisa: a pessoa está se colocando num lugar de objeto, dependendo da classificação e aprovação de alguém, que irá julgar se ela se adequou ou não às regras.

Se você é realmente livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, não precisa da opinião das outras pessoas para se afirmar. Por isso, vai decidir SE e QUANDO participar de qualquer campanha, pouco importando a opinião/aceitação das demais pessoas.

(...) E, se o meio em que você vive exige esse tipo de posicionamento para ser aceita, observe que aqui você é objeto, e vive em função de um sujeito.

(...) É por isso que participar de uma campanha de objetificação coloca a pessoa como objeto. Mesmo que ela escolha se posicionar assim, agindo com autonomia,

Tenho como enfrentar essa porradaria, que tem o peso de um tabefe, três socão na cara, uma mordida, duas rasteiras, quatro telefones, um chute no saco, quatro "pisão" e duas voadoras ninjutsu, de acordo com o meu manual de D&D?! O que o ponto-de-vista perturbador, revolucionário e erudito de Semíramis é capaz de fazer com o meu ponto de vista superficial, rasteiro e criado às pressas, baseado apenas em senso comum, enquanto nossa filósofa destila sabedoria sem precisar apelar para fórmulas fáceis, como dicotomias lingüísticas, para mostrar que o problema em ser objeto é se subjugar ao outro, mesmo quando se age com autonomia - o que, é claro, eu não entendi.

Mas, além de genial, Semíramis é a pessoa mais bem-intencionada da Twittosfera:

O problema da internet é que não se tem controle sobre o que pode acontecer. Alguns rapazes inventaram uma brincadeirinha “inocente” e ficaram perplexos ou indignados (depende da versão contada) ao descobrir que uma brincadeira não é só uma brincadeira, mas tem todo um contexto de objetificação.

Ora, como é bom ter alguém para nos defender, não é mesmo? Afinal, conforme o exposto acima sobre os homens relacionarem com suas próprias relações fundamentais quando interagem com pessoas, podemos perceber que a relação fundamental é que só nós vamos perceber que, do outro lado daqueles avatares, há pessoas que trabalham, pensam, lêem, votam. Mas os únicos preconceituosos, sempre, são eles, os outros, incapazes de perceber isso.

Como, para variar, faço parte mais do eles do que do nós, fiquei sem entender todas as contradições que Semíramis deixou passar. Mas de que adiantaria discutir com um reacionário raivoso, mesmo? Melhor deixar a cachorrada latir!


Post Scriptum: uma coisa aprendi sobre as mulheres com o #lingerieday. Sutiãs são coisas que incomodam. Pra cacete. Vocês merecem um brinde por usar isso todo dia. E olha que nem tenho boobs.


Bibliografia:


1. CARVALHO, Olavo de. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão. p. 235-6. São Paulo: TopBooks, 2003.

2. MORGENSTERN, Flavio, A Dor de Parto das Palavras. Disponível em: <http://flaviomorgen.blogspot.com/2007/09/dor-de-parto-das-palavras_26.html>. Último acesso em 27.01.2010.

3. HEIDEGGER, Martin, Que é a Metafísica?, In: Heidegger - Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

4. SANTOS, Mário Ferreira dos, Tratado Geral de Esquematologia. São Paulo: Logos. 1962.

5. BAUDRILLARD, Jean. Olvidar a Foucault. Valência: Pre-Textos, 2000.

6. HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon, p. 136-8. Petrópolis: Vozes, 2006.

7. HENRIQUES, Fernanda. Intertextualidades: Freud, Hegel e Husserl na constituição da teoria da consciência-texto de Paul Ricoeur. Disponível em <http://home.uevora.pt/~fhenriques/textos-filocont/intertextualidadesemteoria%20da%20consciencia%20de%20paulricoeur.pdf>. Último acesso em 27.01.2010.

8. BUBER , Martin. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2006.

9. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

10. CANTER, David, Criminal Shadows. London: HarperCollins, 2004.

11. PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

12. OKAKURA, Kakuzo. O Livro do Chá. São Paulo: Estação Liberdade, 2007.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Marchando por terremotos

A Folha de São Paulo publicou uma reportagem entitulada Fórum Social expressa solidariedade ao Haiti durante marcha em Porto Alegre. É o tipo de manchete que não precisa ser nem lida para provocar comoção pública:

Aaaawwwwnnnnn, ti fofo!!! *_*

O Fórum Social Mundial foi criado em 2001 para nos avisar sobre os perigos que o neoliberalismo, então em voga, traziam ao mundo.

O neoliberalismo, do qual passamos toda a década de 90 ouvindo falar. O neoliberalismo, esse monstro horrendo, que foi a causa da pobreza, desemprego, desigualdade, guerras, fome, morte, peste, cãncer, genocídio, câncer de pulmão, náusea, diarréia e gravidez indesejada mundo afora. Aquele neoliberalismo inventado por gente que vota no FHC.

Os principais nomes do neoliberalismo são:

*bola de feno passando*

Fora esses, mais um monte de gente de quem nunca ouvimos falar. Mas são sempre culpados de tudo. Há décadas sabemos disso. Mesmo sem nunca ter ouvido falar de Hayek, Mises, Voegelin, Scruton, Rothbard, Morgenstern, Friedman, Greenspan e as discordâncias internas entre eles.

Sobretudo, sem nunca levar em consideração que países saíram da pauperização extrema e se tornaram ilhas de pujança em meio ao nada o fizeram aumentando suas instituições liberais - da irlanda a Cingapura, qualquer IDH é prova viva.

Mas é curioso analisar mais de perto o que pensam os amigos do Fórum. "O Haiti precisa de comida. Não de soldados", dizia um dos cartazes. Curioso que em favelas com criminalidade acentuadíssima como Cité Soleil
, que fariam a Rocinha parecer uma filial do Éden, o Exército mantendo a ordem e aumentando a paz seja uma coisa ruim... não é curioso que as missões de paz da ONU tenham tantos militares? E que tenham trazido uma certa estabilização a um país sem, ora, Estado há mais de 2 séculos?

Sabemos da verdade: querem reclamar, sempre, per fas et per nefas, do "imperialismo" dos EUA - tanto é que, no meio dessa balbúrdia, levantam cartazes em solidariedade à Palestina, ignorando a repressão pega-pra-capar que ocorreu devido às fraudulentas eleições na ditadura teocrática do Irã, que já matou dezenas de manifestantes contrários a um ditador... e, naturalmente, acreditam que os EUA não querem ajudar, e sim ocupar o Haiti. Igualmente curioso que a maior potência militar do planeta tenha precisado esperar um terremoto para enfrentar o glorioso Exército haitiano...

Isso, é claro, sem falar em termos práticos: o PIB do Haiti é
US$: 1.291 per capita. O do Piauí, R$ 4.213 per capita, o pior PIB per capita do país. Uma consulta à Wikipedia e perco a vontade de ir marchar no FSM.

Mas... marchar pelo Haiti? O Haiti precisa de alimentos? Vejamos: as FARC são bem ricas, e totalmente, diz-se, "sociais". Quanto foi que elas doaram? E Lula, oras porras, não doou nada para o Haiti - pegou fundos de reserva públicos e mandou pra lá. Nosso dinheiro. Muito legal, mas... tirou um prostituto furado do próprio bolso para enviar ao povo haitiano? Eu voto na Gisele Bündchen pra presidente.

Tem também a velha conhecida comunidade GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Velha conhecida? Eu já não sei em que versão está essa sigla. 4.5 beta? Ainda aguardo a versão mais democrática GLBMTTTNCS: Gays, Lésbicas, Bissexuais, Metrossexuais, Travestis, Transformistas, Transexuais, Necrófilos, Coprófilos e Simpatizantes.

De toda forma, o estudante Calimério Júnior afirmou: "Essa caminhada sintetiza o Fórum. O grande sentimento aqui é a essa diversidade, a partilha com os outros movimentos. E isso dá muita energia para o trabalho ao longo do ano". Aqui na redação, entendemos tudo, exceto a parte "trabalho".

Enquanto isso, outra questão preocupante:

o representante da Marcha da Maconha, Laurence Gonçalves, aproveitou a caminhada para defender o "controle público do uso das drogas"

Ora, poderia haver motivo melhor para marchar? Só falta explicar quem da "sociedade" irá controlar as drogas - e, sobretudo, no que isso fará alguma diferença do modelo atual.

Mais:

Entre os novos hippies da comunidade alternativa Aldeia da Paz, um homem coberto de lama chamava a atenção. "É a expressão da nossa relação de amor com a mãe terra".

Uma imagem vale mais do que mil palavras.


Luciana Genro, filha do Tarso, deputada federal mais famosa pelo seu penteado do que por sua cabeça, foi taxativa:

"É preciso que os movimentos sociais se unam em torno de suas reivindicações, independentemente de haver pessoas de partidos diferentes no movimento. As lutas são comuns."

Lutas comuns, na esquerda? Isso é assaz discutível. Se a esquerda, por definição, quer acabar com todos os problemas do mundo concentrando o poder em suas mãos, é claro que a sua luta terá sempre
inimigos comuns, mas nunca internamente, pra ver quem controla mais quem, quem tem o melhor jeito de dar uma melhor vida para 6,5 bilhões de pessoas do que outro.

Não é preciso exprobar erudição para lembrar que foi assim em toda a história: no fim, um grupo de anarco-punks (existe outro tipo de punk?!), o grupo defendeu "autonomia", recusando que empresas privadas financiassem o movimento.

Empresas privadas financiam o FSM, entenderam? E Lula também sairá do FSM, aplaudidíssimo, direto para Davos, para também ser aplaudido por fazer o contrário: manter as políticas econômicas de FHC, que resumem tudo o que deu certo em seu governo.

E depois que digo que no Brasil não existe direita, só uma velha luta entre a extrema-esquerda, a extrema-extrema-esquerda e a extrema-extrema-extrema-esquerda, me chamam de fanático. Eu, né?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O perfil de Zaratustra

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua cabana no Colheita Feliz para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

"Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para o Facebook. Quererá levar hoje o seu fogo para o Twitter? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um analista de mídias sociais!

Zaratustra mudou, Zaratustra tomou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como na Wiki vivias, no isolamento, e a Wiki te levava. Desgraçado! Queres saltar ao Google? Desgraçado! Queres tomar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"

Zaratustra respondeu: "Amo os homens".

"Pois por que − disse o santo − vim eu para a Colheita Feliz? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo ao orkut; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".

Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago moedas de ouro aos homens".

"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha.

E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma moeda verde, e ainda assim espera que te peçam".

"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".

O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim: "Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros.

Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão do Farmville?

Não vás ao encontro dos homens no Twitter! Fica no Colheita Feliz!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"

"E que faz o santo no Colheita Feliz?", perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo ao orkut.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao orkut que é meu Facebook. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma de seu BuddyPoke".

Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu Colheita Feliz que o orkut já morreu?"


(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. levemente adaptado.)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Perder não só o amigo com a piada

"Bad humor is an evasion of reality; good humor is an acceptance of it."
— Malcolm Muggeridge


Dou mais valor à idéias do que aos corpos que as sustentam, com exceções notáveis (Luana Piovani, exempli gratia). Mas acontece que piada é importante: tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie são fundamentais.

Duas vezes em que demonstrei que, ainda assim, havia aderido ao pensamento sex is overrated foram dignas de nota. Uma foi quando uma linda loira entrou no meu vagão vazio do metrô e eu, ao invés de olhar pras suas pernas, analisei a reação dos machos ocidentais no vagão à sua entrada.

A outra foi tão poética que mostrou que não perdi só uma piada.

Paquerava descaradamente uma amiga há "aquela quantidade de tempo que nunca sabemos se são duas semanas ou cinco meses". Mas nunca sabemos em definitivo se uma mulher está nos dando bola ou só brincando de ser elogiada. Marcamos um dia para sair e tivemos aquela tarde mais do que maravilhosa.

Rimos, e rimos, e rimos. E rimos mesmo sem precisar de mais cantadas à queima-roupa. Em um dia que marcou o quanto sabíamos nos divertir de jogar altas gargalhadas contra o rosto um do outro, não precisava bancar o Don Juan e caminhar de mãos dadas ou outras coisas para sentir que o clima havia atingido 100%.

Mas chegou o fatídico momento da despedida, em que, num primeiro encontro depois de semanas (ou meses?) de contra-cantadas, define não só se nós dois vamos passar da linha de tiro, como até se haverá outro encontro como esse.

E, naquele instante, segurei queixo acariciando suas bochechas, disse o quanto aquele dia havia sido alegre e aproximei meu rosto do dela, imóvel e entregue. E beijei seus olhos já fechados.

Ela os abriu fingindo não estar espantada, e eu apenas disse: "Não estranhe, você não teria oferecido nenhuma resistência", tendo como resposta um dos sorrisos mais profundos e auto-suficientes que já vi.

Perdi um segundo encontro, que naquele momento já sabia que nunca aconteceria, e perdi um beijo. Mas não perdi a chance de dizer uma frase que não ficou encrustrada apenas na minha memória para todo o sempre.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Quem ganhou a década?

O ano é 2010 e o sujeito entra numa livraria. Os títulos de destaque são Fascistas de Esquerda, de Jonah Goldberg, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, Sangue Azul, de Leonardo Gudel, História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, Olho por Olho, de Lucas Figueiredo. Elite da Tropa vende há mais de 3 anos, e até na seçao de Filosofia temos em destaque o mistifório Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Há livros de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Mário Sabino entre os mais vendidos. Autores conservadores têm sua obra relançada cada vez mais por alta demanda, de Mario Vargas-Llosa a Eric Voegelin, de Mário Ferreira dos Santos a Roger Scruton. Ateus famosos, como Christopher Hitchens, S.E. Cupp e Luiz Felipe Pondé, são todos de direita.

No cinema, títulos como Cidadão Boilesen, Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei e Reparação (a ser lançado em breve)
revisam cada vez mais o papel "heróico" da esquerda revolucionária na ditadura.

Em pleno pós-crise, a onda é falar de Bolsa de Valores. Até mesmo a auto-ajuda cuida cada vez mais de finanças e empreendedorismo.

Piñera acaba de levar o título de presidente do Chile depois de 20 anos de esquerda no poder. No Brasil, em qualquer cenário cabível, Serra leva vantagem para ser o próximo presidente, podendo ter como vice até uma senadora do DEM como Kátia Abreu. Uma tentativa de golpe bolivariano em Honduras foi rechaçada. Em toda a América Latina, há uma lenta guinada para a direita após Uribe, exceto em países que já demonstram claramente sua face de ditadura socialista com eleições de fachada, como Venezuela, Bolívia e Equador. A atuação do Foro de São Paulo passa a ser discutida cada vez mais publicamente, enquanto o MST tem rejeição da
maioria absoluta da população.

O ano é 1995. Todo o cenário acima é multiplicado por -1. A grande discussão envolve os malefícios do neoliberalismo (que, curiosamente, deu as caras na América Latina apenas no Chile, e numa versão populista na Argentina). O povo teme pelas privatizações, que supostamente vão dar de graça patrimônio público nacional e acabar com empregos, sem falar na qualidade despencando dos serviços.

A leitura é calcada em Eric Hobsbawn, Alain Badiou, Giorgio Agamben ou Antonio Negri. O que ocorre e se discute fora da extrema-esquerda revolucionária/fabiana é sumariamente limado pela intelligentsia brasileira, como o lançamento d'O Fim da História, de Francis Fukuyama. Marilena Chaui e Paulo Arantes dominam o curso de Filosofia da USP como a única saída contra a nossa miséria econômica e intelectual, sem nunca precisar comentar o que escrevem seus críticos mais aguerridos, como José Guilherme Merquior, Paulo Francis ou Olavo de Carvalho.

O que foi que aconteceu?

Mudanças de pensamento, sobretudo guinadas em direção oposta de toda a população "pensante" (o que, em se tratando de Brasil, abrangeria, na verdade, cerca de 0,08% da população) levam, em média, uma década de propaganda para mudar as cabeças, mais outra década de mudanças para se alcançar resultados.

No Brasil, um país em que a "direita" são partidos de centro-esquerda, tudo acontece ao contrário. O "neoliberalismo" é acusação de adversários de um partido que sequer liberal o é, as privatizações e o câmbio flutuante, tão criticados, são o que destrói a inflação e os preços altos, colocando muitas pessoas na zona economicamente ativa, e, com os resultados vindo antes das ideias, comemora-se os triunfos e critica-se as causas que os possibilitaram.

Não são mais professores nem idéias dominantes nas Universidades que moldam a cabeça de alguns jovens, que vão se agigantando cada vez mais. São interpretações sobre os fatos de que eles mesmos tiveram de correr atrás. Nenhum professor procurou ensinar Jouvenel ao lado de Marcuse, Hayek ao lado de Marx, Rothbard ao lado de Keynes (que, para nossa simpática extrema-esquerda, é alguém "de direita"). Mas os próprios alunos cansaram da litania acadêmica e procuram estes autores por sua própria conta e risco.

O que sobra para a esquerda é se apropriar de programas sociais que sequer foram criados por ela própria (o Bolsa-Família foi criado por uma equipe de economistas que incluía Ricardo Paes de Barros, um "tucano neoliberal", enquanto os programas genuinamente petistas, como Meu Primeiro Emprego e Fome Zero, derivados do Instituto da Cidadania ligado ao PT, deram com os burros n'água apresentando propostas esdrúxulas, como um fundo alimentado por taxas em gorjetas de restaurantes).

Algo do que está nas livrarias, hoje, seria simplesmente concebível há uma década e meia? Um filme como ROTA Comando, baseado no livro Matar ou Morrer, de Conte Lopes (colega de Ubiratan Guimarães), teria capacidade de chegar aos cinemas brasileiros? Seria possível alguém, durante o governo FHC, se considerar neoliberal e um estudioso acadêmico de Humanidades, a um só tempo?

A década de 2000 foi, inversamente, a época de colher os primeiros passos de uma abertura incipiente para o livre-mercado no Brasil. A década de 2010 começará como a década em que as idéias liberais cada vez mais tomarão corpo sobre nossa elite intelectual, o que deveria ter ocorrido antes.

Afinal, é preciso uma grande integridade psicológica para sequer saber o nome de alguns autores liberais e/ou conservadores num país em que a social-democracia é coisa direitista, a ser rechaçada a muque. E este darwinismo intelectual implica um liberalismo bem mais fortinho para esmagar a esquerda onde quer que ela ainda não tenha virado uma ditadura na década de 2020.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Definições

Este texto não é auto-biográfico, sendo um relato do que aconteceu com meu amigo chamado Asdrúbal quando ele entrou no primeiro ano.


Professora chama alunos da nova escola, um a um, para explicar quem são, o que gostam e o que não gostam.

Após muitos sorrisos falsos, explicando que amam suas famílias, bichinhos e algum ídolo pré-pós-adolescente, Asdrúbal, impertérrito, levanta a mão como alguém a se espreguiçar e introduz:

— Meu nome é Asdrúbal.

— Eu gosto de: filme de porrada, armas, especulação financeira e poker.

— Eu não gosto de: socialistas, psicanalistas, advogados, crentes, petistas, relativistas, existencialistas, bandidos e marxistas, bichos nojentos, gosmentos, inúteis e quase imóveis (incluindo funcionários públicos), estruturalistas, cristãos normativos, mauricinhos, escritores de auto-ajuda, leitores de auto-ajuda, filósofos de gabinete, atores de novela, nacionalistas, manos do hip-hop, sociólogos coitadistas, petistas de novo, drogados, falantes de sotaque americano, cantores de MPB, viciados em literatura hispânica, socialites, gente de extrema-esquerda, gente de extrema-direita, gente de extremo-centro, vagabundos, ecléticos, roqueiros baitolas, hippies, fase da água e lagartixas.

Após um silêncio um tanto embaraçoso, uma aluna timidamente levanta a mão e pergunta:

— Mas... qual o problema com as lagartixas?!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Triste fim em entrelinhas

Hoje dois blogs estão fechando as portas: O DicasBlogger e o NokiaBR, que teve de mudar o seu domínio por uma notificação extra-judicial da Nokia.

Quero comentar os dois casos separadamente:

O DicasBlogger foi um blog que li vez por outra simplesmente porque me bato com o Blogger, que nunca entendi como leva uma sova do Wordpress (mesmo porque o Blogger pode tudo o que o Wordpress também pode, e tudo de graça).

Sempre gostei do trabalho de webdesign (o design para web, em si, ainda vai ser considerado uma arte a ser estudada decentemente) e seu blog era bom, tinha conteúdo dedicado, comentários interessantes (que não se limitavam à esfera do Blogger) e tudo o mais.

Qual o motivo alegado pela dona da empreitada, Juliana Sardinha, que deletou até sua conta no Twitter, para o fim? Plágio. É incrível como estejam tão preocupados, hoje, em legislar sobre o éter na internet, mas uma coisa bem mais complexa, e exigindo uma legislação que ao menos tente ser tão rápida quanto a internet – neste caso, toda a fiscalização fica por conta do Creative Commons, que funciona como uma ONG.

Qualquer antropólogo de 140 caracteres sabe que, em uma sociedade sem trocas pecuniárias, a ascensão se dá por prestígio. Desde que ligaram um telefone a um UNIX perdido no espaço-tempo, a sociedade que se formou por trás de monitores tem seu prestígio medido por: a) quantidade de pornografia russa baixada; b)pela produção intelectual, que funciona, muitas vezes, de maneira bem mais rígida, funcional e cruel do que em uma universidade brasileira. Como o DicasBlogger não era sobre pornografia russa, roubar o material produzido pela autora é a maior destruição da ordem vigente que poderia ser perpetrada.

É um argumento cara-de-pau e muito comum, presente desde discussões sobre pirataria até em ladrõezinhos baratos de conteúdo, que dizem que não roubam algo, pois o conceito de roubo é que, quando subtraio algo de você, você não pode usá-lo, enquanto o que ele faz é uma espécie de comunismo cibernético – eu uso, você usa, ele usa e todos vivemos felizes e irresponsáveis.

Aí surgem duas perguntas: 1) você, de fato, pode praticar essa maneira virtualizada de castrismo, mas e o autor original? Não merece nem um link, nem seu nome citado, nem um maldito "muito obrigado"? Roubar um texto parece não ser tão "roubo" assim, mas e roubar uma autoria? Aí não é mais um revolucionário ato de socialização da cultura, é apenas falta de colhões em bom estado de conservação; 2) a patifaria só serviria como desculpa esfarrapada caso considerássemos a escusa de que não há mesmo dinheiro envolvido; e quando o caboclo rouba e fatura em cima? Cadê a inocente e saudável "socialização" do meio?

A parte triste é que a Juliana queria se divertir, e não faturar. E sim, isso é ruim quando se chega a uma situação limítrofe como a dela: se fosse um trabalho, como muitas pessoas que trabalham com blogs, mídia e produção cultural, era só tacar um processo e pronto. É a última moda: processar blogueiro. Processam por qualquer idiotice, mas é raro ver processo por um motivo processável: plágio. No Brasil, subvertemos uma máxima do existencialismo fenomenológico de Sartre, que explicava: "Se amamos uma mulher, é porque ela é amável".

Eu só posso sugerir à Juliana que tire umas férias. Descanse. Depois que você ver que sempre tem um idiota se orgulhando de faturar US$800 com AdSense por roubar conteúdo, pode-se atacá-lo onde realmente dói: reanimar-se para criar um blog famoso, com conteúdo original e público fiel, e logo estar podendo esfregar de volta na cara desse imbecil que você fatura bem mais.

Numa coisa o Twitter trouxe uma vantagem enorme para a blogosfera: agora seu blog não é mais visto apenas pelos que caíram de pára-quedas via Google em sua savana, e acaba fazendo amiguinhos. Agora, cair na mira de alguém com um número de seguidores 3 vezes maior que o seu pode te fazer famoso não apenas entre seus amiguinhos, mas entre toda a blogosfera (e aqueles que só lêem blogs), como um baita de um cretino idiota.

E aqui, novamente, conseguimos dessubverter ao nosso favor, quem tentou subverter o sistema pela primeira vez.

...

Já o NokiaBR recebeu uma notificação estranha. Parece que a Nokia quer retirar o blog do ar, e exigiu que até o endereço fosse trocado, por causa de vocês-sabem-o-quê.

Ora, se eu inventasse uma empresa qualquer, seria um orgulho que neguinho por aí saísse fazendo propaganda gratuita em meu nome, colocando até o nome da minha empresa como título de seu trabalho. Sai muito mais barato (ou seja, de graça, basta apenas lançar bons produtos, o que eles já fazem naturalmente) do que pagar um michê fixo para perobos formados em Propaganda, usando barbicha, óculos de aro rosa e voz saída de algum desenho animado. Ademais, este último expediente tem valor de mercado prático bastante discutível.

Mas o que é que iria querer a Nokia com um blog? Acaso ela acha que o autor está querendo "roubar" suas idéias, e fazer propaganda em nome dela, o que seria um absurdo punível com archotes, tacapes, botas com spikes e gatos mortos?

Ou, melhor dizendo, será que é "a Nokia" que tem interesse nessa história? A Nokia, a mim, continua sendo um dos maiores símbolos da Finlândia, junto com os lados, o metal tristonho e a língua estroncha. Mas deixe seu departamento de relações públicas em sua filial no Terceiro Mundo a cargo de advogados desesperados por faturar milhões assim que têm a Toda-Poderosa Nokia como cliente e adivinhe o que pode acontecer? Basta digitar "Nokia" no Google e sair processando a esmo tudo o que pareça processável, tão-somente para auferir uma boquinha para suas poupanças, sem nada contribuir (pelo contrário) para a empresa.

Claro, isso tudo é apenas uma hipótese do que pode ter ocorrido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Morte ao acadêmico de 140 caracteres!!

"Em geral, estudantes e estudiosos (...) têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informação sobre tudo, (...), sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. (...) Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco, para ter lido tanto.' É mais ou menos o que ocorre com muitos cursos, em que o aluno tem pouco tempo para ler e meditar sobre a bibliografia extensa e sagrada que lhe é imposta. Sobrariam horas diárias para os nossos aprendizes de feiticeiro pensarem sobre o que estão lendo?"
— Arthur Schopenhauer, Sobre a Leitura e os Livros


A discussão hodierna da internet é sobre a fama sem fortuna que o Twitter nos proporciona. Tema ainda desprovido de uma cátedra acadêmica, surge uma nova especíe de... ahn... profissional da área: o analista de mídias sociais. Ou coisa que o valha. Título auto-atribuído e auto-indulgente com a profissionalização da vagabundagem. inobstante, esta falta de tirocínio especializado gerou uma outra classe de filoprofissional que agora infecta a nossa classe de anônimos ignorantes proto-famosos: o acadêmico de 140 caracteres.

Conforme afirmei no último texto, este ser habita uma região limítrofe entre a putice e a viadagem, unindo o colega engraçadinho que faz piadas bobas no churrasco da faculdade com a imagem do professor que venceu na vida por ter feito um mestrado no gato, o acadêmico de 140 caracteres (A140C) é o cara que não fala nada com nada no Twitter mas pode ostentar um documento que prova que, não importa quão idiota sejam suas palavras, ele já as formatou com as normas da ABNT.

São doutores. São intelectuais. Eles podem peitar a grande mídia. Passam o dia a falar mal do que sai nos jornais, como se soubessem impingir moral e conteúdo se fossem editores-chefes de alguma publicação. Para corroborar seus faniquitos, não esquecem de passar o dia inteiro a lembrar: Eu sou doutor. Sou filósofo. Sou escritor. Sou jornalista. Sou advogado. (Um publicitário, é claro, nunca cometeria um erro tão frugal.)

"Bom dia, twitteiros! Vamos discutir filosofia?"

Tal espécime bárbara é aquela que está acostumada a ser chamada de doutor por seus alunos com cérebro de minhoca recém-saídos do cursinho e com cultura tendendo entre o zero absoluto e a anti-matéria e também pelo seu Tinoco da padaria:

"Ô doutor! É o pingado de sempre, chefia? Com adoçante, campeão? Vai também o misto aí, fera? Pode deixar, patrão! Eu ponho na conta, amizade!"

Assim como a verdadeira "celebridade" (ou, ao menos, aquela anta que realmente ficou famosa por algum motivo metafísico através da Globo ou da MTV) vai ao Twitter e demonstra um comportamento menos tolerável que o de uma araponga na menopausa, este "intelectual" padronizado também vai ao Twitter para perder o respeito que tem dos seus alunos e expor-se ao ridículo em público.

O curioso é que os verdadeiros filósofos, jornalistas, escritores e demais profissionais de Humanas que conheço nunca precisam afirmar isso a cada frase que proferem. Isso transparece tão-somente pela sua cultura. É curioso que muitas pessoas nem sabem que porra eu faço - e devido a fatos recentes, acham que sou advogado, justamente por eu não ter essa insonsa mania. Na verdade, além de ter perdido a amizade com colegas que conheceram a seita da psicanálise na faculdade (e começam a te analisar e perguntar da sua mãe cada vez que você reclama de um problema entre duas cabeças humanas), todos os filósofos que conheço só vem falar comigo sobre RPG ou me convidar para entorpecer os cornos com alguma substância alcoólica.

A Completa Lei de Murphy inclui em seus axiomas de escritório que um especialista é um cara que veio de fora. Esse senhor deslocado, que deveria passar as tardes ou corrigindo provas sobre Cícero, ou trocando fraldas (já que tem vergonha própria de assistir Gugu em feudais relações familiares) está deslocado no Twitter e se orgulha disso. Como se sua vetusta falta de garbo e elegância fosse mote para a auto-vaidade tão contumaz à raça.

Mas também sabemos: especialista é um cara que sabe muito sobre nada. Um super-especialista é um cara que sabe detalhadamente tudo sobre absolutamente porra nenhuma. Tal é o A140C. É o cara que fez uma monografia sobre um filósofo, um sociólogo, um psicólogo, um agitador pós-moderno desqualificado ao gosto das massas, e resume e exprime tudo para encaixar a realidade em seus preconceitos. Falar sobre aquecimento global ou um novo filme com o cara é uma oportunidade para ele arrotar Lacans e Negris como as finas flores da sabedoria ocidental.

Não é preciso lembrar que, para dar uma suposta bafejada de verdade nas suas aleivosias, nossos A140C se formaram mega especializando-se em um autor ou dois, e nunca passaram os olhos por um autor "da oposição". Assim é, afinal, que alguém pode defender patavinas soviéticas como Lukács ou medicinas medievais como a psicanálise por toda a vida e, afinal, nunca levarem uma bifa na orelha por isso. Pelo contrário: o professor, ou dir-se-á, orientador não irá modificar a cabeça de jerico do aspirante a blogueiro famoso em nome da não-intervenção, e logo teremos um professor com cabeça de jerico orientando um futuro aluno ainda mais descerebrado.

É como o caso de uma famosa filósofa, defendida aguerridamente por vários A140C, petista roxa, que é considera por eles como a maior especialista do mundo em Espinoza (talvez algum filósofo desconhecido, de algum parentesco aportuguesado e abigodado com Baruch de Spinoza). Tais A140C soltam sua fúria por todos os orifícios se alguém ousa discordar de uma autoridade mundial:

"Mas como se atreve?!?! Marilena Chaui possui um currículo INFINITAMENTE SUPERIOR ao seu!! O que você é?! Alguém que por acaso já fez com que estudiosos de 4 línguas procurassem estudar português para ler sua obra?!?!"

Ora, é claro que não, meus caros intelectuais: apenas sei que as pessoas que fizeram isso, sendo algumas delas falantes de francês, não precisariam recorrer a tanto: José Guilherme Merchior acusou e provou, por a+b, que grande parte do o livro Cultura e Democracia da nossa petista era mera tradução de um texto de Claude Lefort... e algum intelectual resolveu refutar a acusação? Marilena Chaui não tem Twitter, mas falando tanto sobre mídia, influenciou bastante o pensamento de nossos A140C: se você tem um título qualquer, pode usá-lo como prova de qualquer coisa em Humanas.

O que é uma subversão interessante do próprio conceito de "ciências" humanas: áreas tão pouco sólidas que os físicos preferem chamá-las de soft science, em comparação ao sólido arcabouço de uma hard science como a deles. Mas até mesmo físicos caem no pau, como as teorias das super-cordas e outras tentativas de integração entre conceitos mutuamente excludentes, como a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Enquanto isso, nossos intelectuerdas formados em orkut fogem de qualquer arranca-Habermas simplesmente invocando: "Eu sou formado em Sociologia no Mackenzie, logo, minha opinião deve ser respeitada... quem é que pode supor julgar que eu errei?!"

Por certo que não ocorre a estes mesmos respeitáveis filósofos blogueiros, jornalistas de mídia social e advogados de porta de scrapbook como é que 2 filósofos com os mesmos títulos poderiam concordar entre si - e, portanto, o que um título qualquer em Humanidades "prova" qualquer coisa - como se Marx e Friedman, Hegel e Schopenhauer, Heidegger e Wittgenstein, Pound e Gramsci, Freud e Biswanger fossem inventar de chegar a uma mesma e óbvia verdade, conquistada depois da fase da água e do TCC contra o último chefão.

E o que resta a nós, pobres desprovidos do diploma da Verdade Alumiada do microblog?! Ora, podemos nos proibir de testar a validade das informações de nossos orquestradores de bruzundrangas reptílicas (porque o A140C passa o dia todo usando as palavras "razão", "lógica", "ciência" e "filosofia" no Twitter, mas quando encontra uma opinião diversa, imediatamente estará sem tempo para discutir com desprovidos de diploma de orkut) ou, caso a situação fique grave, nem sequer ler pessoas inteligentes que destróem as besteiras ditas por filosofetas do mainstream acadêmico, que nunca conseguiram uma "prova" de nenhuma das suas patifarias (claro, eu sei que a ciência, atividade dialética par excellence, prescinde de "meios de prova", tendo como escopo "meios de descoberta"; mas assim que vocês me mostrarem um intelectual formado em Foucault que conheça os Analíticos Anteriores e Posteriores de Aristóteles, ou, sei lá, um método científico de Charles S. Peirce, favor depositarem uns 2 barões na minha conta).

"Mas, senhor filósofo-com-diploma, o senhor diz que não posso ousar discordar das paneleirices cometidas por Foucault e Freud, mas tendo Umberto Eco e Nobokov esmigalhado as torpezas dessa dupla, como o senhor quer que eu ouse discordar destes e não daqueles?!"

O apelo à autoridade é o mais comum meio de prova entre os Acadêmicos de 140 Caracteres, pois um nome pomposo de algum baitola envolvido com Maio de 68 cabe em um tweet, ao passo que um capítulo de Imposturas Intelectuais não cabe nem em meus longos posts no blog. Essa dialética de professor recém-saído do mestrado não tem nada de dialética, nada de fenomenológica, nada de pragmática, nada de positivista, nada de empiriocriticismo, nada de instrumentalismo. Apenas se parece com alguma forma desmiolada de escolástica.

Com a diferença de que os escolásticos faziam apelos a autoridades inexistentes, enquanto o intelectual pós-moderno apela a uma "autoridade" de quinta categoria, que só é autoridade para ele e o seu Tinoco da padaria.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

É TUDO PUTA E VIADO!

"Processo judicial é briga de rua de viado."
— Lógica de Sodoma

Os dois maiores ensinamentos que tomei desta vida foram me dados ainda no berço, por minha vovó. Lembro-me ainda hoje de suas palavras:

"Meu netinho que acaba de chegar ao mundo, saibas que estás muito mal-acompanhado e a vida é cruel. Tenha sempre em mente as duas coisas mais importantes da vida: em primeiro lugar, se algum dia viajardes ao passado, seja acidental ou volitivamente, por meio mágico ou tecnológico, não tente alterar o passado. Impedir a Segunda Guerra Mundial iria enfeiar sobejantemente o mundo, ao passo que sem a Revolução Francesa não teríamos nos reproduzido feito baratas islâmicas e provavelmente não teríamos nascido. E eu não quero você bancando o espertinho matando o meu pai só para saber como solucionar o Paradoxo do Avô.
A segunda coisa mais importante a saber da vida é que comunista é tudo puta e viado."

Despiciendo fazer notar que vovó, genética explica, estava certa. Se algo me ensinou ao sobreviver este ano na internet é a falta de rigor lógico e dialético de intelectuerdas de 140 caracteres. E, claro, leitores vorazes que arrotam Foucaults e Freuds mas não sabem diferenciar lógica de dialética. Como toda puta e todo viado.

Resolvi começar um ano mais zen. Sem o dispêndio de energia e gastos superfaturados com material orgânico do ano passado. Por isso, inicio este novo ciclo com um guia para opiniões públicas internéticas: evite citar nomes de putas e de viados.

O que existe no Twitter é apenas arranca-rabo. São pessoas tentando virar famosas de Twitter falando mal de famosos de Twitter, pois fama de Twitter não é fama. No Twitter, você pode escolher entre 3 vias de acesso ao estrelato: já ser famoso e analfabeto, usar scripts ou policiar outros twitteiros. A turma dos Direitos Humanos, os defensores do Estado Democrático de Direito, os libertários, os cabeça e desprovidos de preconceitos optam todos pela terceira via. Nunca ter uma seqüela de dúvida: é tudo puta e viado.

A onda de patrulha ideológica ultrapassa sobremaneira as raias do ridículo que agora a onda é ameaçar de processo quem discorda da sua opinião. conhece esse povo que é todo favorável à liberdade, mas não deixa você falar um palavrão na cara deles? Analise-se: dói mais quando te chamam de filho da puta ou de filho de uma prostituta? Estes faniquitos histéricos reverberados em ataques públicos de pelancas revelam como se discute apenas pro domo sua: antes de se nomear, apenas uma puta ou um viado se ofenderia com esses termos, simplesmente oferecendo a cara ao inerte punho do ofensor.

Já expliquei, alhures, o que significam policiadores politicamente corretos e defensores dos Direitos Humanos: são putas e viados que há alguns bons plenilúnios não são fustigados por uma bela surra de caralha, e que, nesse tempo livre de pregas em repouso, demonstram seu nojinho do machismo, pela intolerância, pela opressão, pela injustiça... mas apesar de tudo isso, têm um pouquinho mais de nojinho do regime que sustenta suas mensalidades na PUC. Para falar mal dele, abandonam qualquer conseqüência das frívolas diarréias que defendem, confundindo-as com idéias: quem pratica negatio consequentiam apenas para não ser pego com as pregas à mostra é o quê? Puta e viado, diferenciados pela cobrança e aceitação de cartão de crédito.

Algumas empresas, ainda acostumadas com a época em que podiam vender qualquer porcaria recusada por um rato de esgoto, não se tocam que o que antes a dona Maria falava mal da empresa agora pode atingir um público putaqueopariumente maior, graças a maravilhas como o Google. O que a porra da empresa faz: melhora o produto ou tasca um processo por danos morais? Para arrefecer a memória, lembremos que quem vende produto ruim deve ser puta ou viado e qualquer muriçoca terá a resposta. E o filme continua queimado: afinal, além de empresa ruim, tentar calar as críticas com processo também não é uma forma de difamação, quando não de censura?!

Ademais, nada prejudica mais a imagem de um lugar do que ele ser uma bosta. Aliás, existe uma coisa, sim: ter como donos putas e/ou viados.

Mas antes que o clima zen e meditativo destas mal-traçadas se perca, lembro a nossos intelectuerdas processadores que, para haver qualquer crime contra a honra, urge que a ofensa se dirija à pessoa determinada, não constituindo crime contra honra atribuir aos católicos, comunistas, putas ou viados a pecha de praticarem putices ou viadagens.

Exemplos óbvios: há um certo boteco na Vila Madalena aí que, ao que tudo indica, pode ser o pior boteco do Universo. Ou não. Mas vocês não sabem do que estou falando, não é? Sendo assim, também é de bom alvitre denunciar: seus donos e relações públicas são pessoas fartamente ligadas na arte da prostituição social e baitolagem pública. O que até um blogueiro, um aluno de quinta série, um escritor famoso no Twitter, um aluno de Direito de uma sub-faculdade ou um orangotango chamado Benga conseguem discernir a respeito de sua moral sexual.

Eu digo: não vão ao pior boteco do Universo, que vocês não sabem qual é. Não vão também á doceria que está processando Larissa Paschoal e Rodrigo Martins, que vocês também não fazem a menor idéia de qual é. Vocês iriam numa doceria que processa seus clientes, depois de tratá-los como lixo? Também não creio que vejam com bons olhos quando são apresentados aos namoros dos seus filhos, e esses se mostram perfeitas putas ou então viados.

Também temos a nossa querida portadecadeiosfera! Ela acha que assassino estuprador não deve ir para a cadeia, e sim arrumar um emprego de funcionário público como educador infantil. Viram algum deles reclamar do STF negar um segundo pedido de prisão domiciliar para Suzane von Richthofen? Não existem defensores de Direitos Humanos: apenas pessoas que querem livrar seus comparsas do rigor. Recebendo um bom michê para isso, é claro. É um comportamento que se assemelha a qual profissão? É coisa de puta e de viado, muitas vezes sem uma distinção muito clara entre um e outro.

O pior é que, apesar de ter teorias acadêmicas sobre o sistema penal punir demais, são os primeiros advogados que, bafejados pelo sopro de vingança da própria Nêmesis, saem por aí, Vade Mecum em uma mão e dorso da outra à cintura, fustigando violentamente o pézinho ofendido no assoalho, prontos a sair processando e tentando enviar para o ergástulo o primeiro que demonstre a imbecilidade cocozenta de suas teorias. É claro, a coragem desses advogados, que quando não são caudatários de trejeitos abaitolados, são verdadeiras putas, se faz pelo putamente ilegal expediente do anonimato – isso sem falar em, por idiotia ao interpretar o código penal, achar que entende de injúria (art. 140 CP), injúria qualificada (§ 3º), apologia do criminoso ou, como foi com o Nova Corja, tratar injúria, calúnia e difamação como a mesma coisa.

Mas ora, pensando zen, em minha nova busca espiritual (ao contrário do pensamento freudiano, descendente na longa e esfainante jornada pelo senso do ridículo), resolvi que não serei mais processado por merdinhas. Pelo contrário: já que injúria é um crime que merece cadeia (ao contrário de, sei lá, estupro, tortura, seqüestro e assassinato a sangue frio), mas podem me acusar do que acham que bem entendem (calúnia, art. 138 CP), e ainda anonimamente, pensei cá com minhas pornografias madrugais que não me abandonam: e atribuir características depreciativas (ou simplesmente falsas), o que configura difamação (art. 139 CP) a um ofensor anônimo que tenta expandir as dimensões de minha bolsa escrotal? Com toda a certeza, sem pessoa qualificada? Com toda a certeza, evitará longas e ardidas disputas judiciais com putas e/ou viados que, ofendidos com a demonstração pública de sua ignorância, apelem apenas para a truculência jurídica.

Assim, como um fake denominado Gael Gonsález resolveu praticar calúnias anônimas em meu blog por meu arranca-rabo com Túlio Vianna, agora apresentarei minhas críticas no seguinte formato:

"Gael Gonsález é um professor de Direito Penal da PUC-MG e da UFMG e é um merdinha..."

Paz na Terra aos homens de boa vontade, irmãos. Assim teremos uma vida sem processos, e com todo o meu respeito às putas e aos viados profissionais.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Seria o #lingerieday uma 'objetificação feminina'?


Eu desisto.

No último #lingerieday, houve uma grita sobre o caráter objetificador, machista, pervertido, inadequado para nossas crianças, opressor, troglodita, chauvinista, burguês, neoliberal e imperialista do flash mob. O rebuliço foi orquestrado por pessoas de reputação ilibada, como @tuliovianna, @semiramis e @anarina.

Como já é de conhecimento público, garatujei um hidrófobo texto questionando Túlio Vianna ser um crítico tão aguerrido da objetificação feminina do evento, se ficou do lado do opressor objetificador em um caso de seqüestro, estupro e assassinato por esfaqueamento e degolamento. Acreditei que iria provocar uma séria discussão sobre "objetificação" com um especialista. Vianna após discutir isso o dia inteiro no Twitter, disse que não poderia perder tempo com um "reacionário raivoso" como eu, que era melhor deixar "a cachorrada latir".

Para variar, eu estava errado. Redimo-me nestas mal-digitadas. Pautar-me-ei pela alterosa sapiência de Cyntia Semíramis, que
escreveu sobre o evento. Diz nossa filósofa:

Estamos falando de uma campanha para criticar e esvaziar o uso político do twitter, procurando ridicularizar o ciberativismo.

Não poderia estar mais correta. Com toda a razão, o objetivo claro do #lingerieday é esvaziar o Twitter de conteúdo político. A prova mais viva foram os boicotes de @joseserra_, @demostenes_go e @mercadante.

Ataque ainda mais certeiro:

Mas o ponto principal é: a campanha tem um mote de objetificação das mulheres. Sobre objetificação, entenda-se colocar as mulheres em posição subordinada à dos organizadores. São elas que devem mudar seus avatares (ou seja, sua imagem de identificação em determinado grupo social) para uma foto usando lingerie. É uma relação desigual: eles mandam, elas obedecem. Eles são sujeitos, determinando as regras; elas são objetos, obedecendo ao que foi mandado.

Ora, o dia inteiro a discussão girou em torno desse ponto. Eu, ignóbil de inteligência apoucada, não entendi como mulheres que nem sequer sabiam quem eram os organizadores puderam ser por eles objetificadas. Infelizmente, ainda me falta muito para chegar ao grau intelectual de Semíramis, que encontra objetificação sem haver subjetificação. Minhas escusas.

Mas é um ponto importantíssimo: o #lingerieday impõe regras. É desigual. É machista. É homofóbico. É chauvinista. É patriarcal. É retrógrado. É malufista. É subjugador. Os organizadores do evento falam por si. Há fotos documentais que mostram @gravz obrigando garotas ingênuas e indefesas a mostrarem suas lingeries, com ameaças opressoras, desde facadas até unfollow. O @izzynobre é um porco chauvinista tão escroto que colocou até a própria mulher no evento para ser objetificada a seus cupinchas, provavelmente depois de um espancamento. O @morroida, então, nem se fala: esse aí, depois de Túlio Vianna pedir pelo outro prato da balança (que os homens colocassem fotos de suas cuecas), só colocou porque Túlio o objetificou, e não por ser sujeito da relação...

E nada impôs mais regras do que o famoso anátema que deu origem ao evento:

#LINGERIEDAY DOS BROTHERS!!! COLOQUE UMA FOTO SUA DE LINGERIE AIH PARA TODOS OS SEUS BROTHERS TE OBJETIFICAREM OU VC Ñ EH BRÓDER!!!!

Como é do conhecimento de qualquer azêmola, todas as moças que não obedeceram caladas não são mais brother.

Imagino que alguém vai falar: ah, mas as mulheres adoram se enfeitar, serem elogiadas, etc. Sim, isso é óbvio, qualquer pessoa gosta de se sentir bonita e receber elogios. Mas pra fazer isso ela não precisa de alguém mandando que participe de uma campanha, né? Ela pode muito bem se arrumar sozinha!

Ainda mais quando ela participa de uma campanha sem nem saber quem são os organizadores, não é mesmo?

Isso, é claro, é uma armadilha na qual apenas descerebrados que não fazem Direito na PUC-MG como eu podem cair: trata-se, naturalmente, da dissolução do sujeito, de que nos alerta Foucault. Afinal, ele pouco falou da dissolução do objeto em As Palavras e as Coisas, não é?

O arranca-Habermas em voga da discussão filosófica, tão conhecidos pela erudição de uma Semíramis, gira em torno das estruturas condicionantes que permitem atingir o verdadeiro conhecimento, e não o mero achismo, como o meu - conforme ela mesma diz:

A “provocação”, na verdade, está em mostrar um ponto de vista fora do senso comum. Parece que isso incomoda tanto as pessoas, que elas imediatamente passam a tratar tanto quem escreveu quanto quem apoiou o texto como perigosas mentes subversivas que vivem a gritar para impor suas idéias.

Infelizmente, a nós, que só temos senso comum, só resta gritar. Não podemos compreender que, desde que Kant resolveu a dicotomia racionalismo continental x empirismo insular na filosofia, uma série sem fim de pensadores veio movendo o Ocidente apontando cada vez mais profundas estruturas condicionantes de sabedoria.

Marx encontrou a mola da História na luta de classes, enquanto estamos aqui alienadamente achando que discutimos no Twitter sem ser para oprimir quem ganha menos.

Nietzsche, irrefutável como sempre, desvendou o véu da vontade de poder.

Freud percebeu que todas as nossas ações são, na verdade, obediência ao impulso da libido inconsciente recalcada.

Jung descortinou que toda essa discussão anterior é repetição de um script milenar registrado no inconsciente coletivo.

Korzybsky e Whorf, sabiamente, souberam que estavam todos enganados por pressupostos metafísicos aristotélicos na própria estrutura da linguagem, e os primeiros a escaparem dessa trama foram... Korzybsky e Whorf.

Professor: Margie, não me peça para respeitar uma relação que você tem com um homem que apenas te usa quando lhe convém.
Margie: O Homer é uma boa pessoa! Ele me mandou este cartão. *mostra um cartão escrito "Eu amo você"*
Professor: Margie, o que você não entende é que quando ele te diz "eu amo você", eu é o sujeito, e você é o OBJETO!


Por fim, Foucault corrigiu tudo, pois o pressuposto mesmo do saber é a epistéme, a estrutura geral de saber, que condiciona todo o conhecimento de uma época e, repentinamente, sem explicação aparente, muda para outra, nos deixando completamente perdidos no ar.

Não é claro notar como a erudição de Semíramis toma o braço de Foucault ao perceber uma não-exigência de sujeito para que uma moça com lingerie no avatar seja um objeto?

Porém, o lingerieday não se trata de uma campanha de valorização da nudez, mas uma campanha sobre objetificação através da exibição de lingerie das mulheres. Alguns homens determinaram que as mulheres devem, em determinada data, trocar seus avatares por fotos de lingerie. Eles as colocaram na posição de objetos. O contexto é outro, no qual há dois componentes eróticos: um, atribuído às poucas peças que faltam para deixar partes do corpo que são consideradas eróticas à mostra; outro, pela “obediência” à campanha.

Mas não sejamos tão superficiais. Qualquer aluno de Túlio Vianna (exceto nós) sabe que a objetividade trata de algo presente - mas, como presente, também pode ser experenciado como algo que brota de si, a partir de si [Aufgehend], que é justamente o que significa physis. Uma Semíramis sabe perfeitamente que o conceito de objeto e de objetividade não existem no pensamento grego e na Idade Média: foram introduzidos pela modernidade, a partir de Descartes, e constitutem a própria definição da ciência moderna, que recorta um objeto do tecido do mundo para ser estudado em separado.

A presença em si mesma já é entendida, a partir daí, pela sua possibilidade de representação através de um sujeito. Não se toma mais a presença em si, mas aquilo que pode ser ob-jetado a mim, como sujeito pensante. É essa mudança da experiência da presença que define a modernidade. O homem, obrigatoriamente, passa a olhar o mundo por recortes. O grego, que criava o mito das ninfas e das sereias baseando-se nas mulheres que se desnudavam nas thermas (banhos públicos), agora é sempre alguém como um biólogo ou sociólogo, que, ao ver uma mulher em trajes diminutos, logo pensa: como será que posso tomar este objeto para mim?, como, por um exemplo hipotético, "o que faço com esses avatares de lingerie na minha frente?".

(não custa lembrar, é claro, que o homem é aqui entendido tão-somente em seu sentido masculino, branco e burguês.)

Mas como esta objetificação se dá?, perguntamos atônitos a Cyntia Semíramis. Ora, apenas ela poderia nos responder: desde a Antigüidade que sabemos que a apreensão de um objeto pela consciência forma um conceito. Este conceito é obra da cognição, que produz imagens mentais dos objetos. Uma imago é uma representação, ela imita o objeto dentro da própria mente.

A cognição pode ser sensitiva ou intelectual. A sensitiva é comum a animais e homens, enquanto a intelectual é coisa até de homens que são uns animais. É, basicamente, o que conseguimos através dos órgãos dos sentidos. Já a intelectual, ou simplesmente intelecção, extrai dos objetos o que é eidético, organizando-na mente conforme notas sistemáticas dela própria. Ora, o sensível dado in bruto é o phantasma, Do phantasma extraem-se as noas esquemáticas. A notio, a noção já esquematizada, é a species (o complexo de notas). Como exemplo: "Você não tem noção do que vi no #lingerieday!"

Species tem a mesma raiz do verbo specto (contemplar, ver). Também de speculum, espelho. Também ideyn, em grego, é ver, e daí idéia, e eidos, que é seu sinônimo.

A ideia é a similitude do objeto na mente, sem ulterior afirmação ou negação: "Você tem idéia do que significa o #lingerieday?". Esta apreensão é a mente captando intencionalmente (intentio) o objeto: a noção, portanto, é o que é de fato captado pela mente.

Temos, então:

  • espécie expressa: a similitude expressa ou formal da coisa na mente;
  • verbum mentis: a expressão, manifestação ou locução intencional que a mente propóe a si mesma do objeto;
  • terminum mentis: o que ou em que termina a coisa na mente;
  • intentio: o que do objeto tende à mente;
  • forma inteligível: a similitude que representa o objeto;
  • ratio: o que é o princípio inteligível da coisa.

Isso tudo, claro, para ficarmos apenas na conceitualização, que é a primeira operação do espírito.

Quando Túlio Vianna, do alto de sua sabedoria, nos explica que, petis fucifer!, alguns machos ocidentais estariam se masturbando olhando para esses avatares, podemos presumir que ele nos avisa de que alguns tomaram apenas o phantasma, sem intelecção.

Em uma analogia, o phantasma é a mulher posando para a Private, em que apenas o sensível bruto chega aos sentidos. Já um ensaio para a Playboy é a espécie expressa, ambas tendo como intentio seus corpos, uma com terminum mentis a pornografia, e outra o ensaio erótico. O verbum mentis, é óbvio, é a provocação instinta destes corpos, tendo como forma inteligível aquilo que deles fica retido na mente desses onanistas pervertidos.

Mas no degradé Private > Playboy, temos na ponta o caso do #lingerieday. Se Semíramis e Túlio, com seu discurso, calcado em Foucault encontram relações de poder em tudo (onde Freud, antes, encontrara relações de contenção sexual em tudo), não é desbaratado lembrar que o #lingerieday, mais do que a Playboy (e muito mais do que a Private), é um evento sedutor - de seducere, não fazer aparecer, o contrário de producere, fazer surgir, que não tinha a carga de "produção material" que o verbo possui hoje.

É, portanto, o contrário de um tratamento objetivo das mulheres que as torna apenas meio para o prazer sexual. A pornografia é justamente esse modo de produção desinibida e sem freios que aflorou no século XX, que não trata da mulher-objeto de uma maneira mais profunda do que através do phantasma de seus corpos.

Eu poderia crer, portanto, que ver o avatar de mulheres, incluindo amigas, no #lingerieday, possui uma diferença fundamental de ver pornografia no SexyHot. Por sinal, vê-se muito menos, conversa-se muito mais, lê-se as observações que as moças postam sobre Foucault e Marcuse em seus blogs. Mas, claro, de alguma forma que não consigo compreender por não atingir o nível de intelecção de Vianna e Semíramis, eu estou errado, e eles, combatendo o senso comum, certíssimos: Túlio, até mesmo, defendeu que pornografia é cultura, e, logo, deve ser algo com que os trabalhadores bonificados com o Bolsa Sinuca, digo,"Vale Cultura" petista podem gastar os seus caraminguás - a única coisa que entendi é que o problema do #lingerieday, então, é ser gratuito.

Mesmo pessoas exibicionistas sempre pensam SE e QUANDO irão se exibir, ou qual a melhor forma e ocasião para satisfazer os próprios desejos. Elas não precisam se colocar como objetos da relação, esperando alguém determinar se e quando poderão se exibir.


Voltemos, então, à objetificação pelo homem. O que apenas seres desprovidos de preconceitos como Semíramis fazem é enxergar medidas que nós, objetificadores, não conseguimos.

Medir é sempre uma comparação, no sentido de que se mede, por exemplo, o diâmetro de uma mesa com uma medida pré-estabelecida. Mas nem todo medir é um medir quantitativo. Posso medir algo como algo, assim tomando a medida da coisa pelo que ela é. É esse medir, ademais, que é a própria estrutura fundamental do relacionamento humano com as coisas. Por exemplo: ver um um avatar de lingerie no Twitter e não ver apenas um corpo, como veríamos na Private (ou na Caras...), e sim, ver uma mulher, talvez uma amiga, que, corajosamente, quis mostrar sua beleza e provocar a imaginação do próximo (muitas vezes, é claro, sem nunca ter ouvido falar dos 3 Patetas que inventaram o flash mob).

Em toda concepção de algo, por exemplo, de uma moça de lingerie, eu me meço pelo que é concebido. Por isso também pode-se dizer que é um dizer adequado, na medida (angemessenes) ao objeto.

Isso é um desmembramento de intersubjetividade que já dera seus passos em Husserl, que definiu dois horizontes de compreensão para os atos da consciência: um que toma o objeto como uma imagem para a consciência (a base), e outro horizonte que sempre o encaixa na sua significação dentro do mundo (é impossível ler esse texto sem perceber que se está lendo num computador, que fica em uma casa, que fica em um bairro, que fica em um país e assim por diante). Essa nova lógica transcendental dará os primeiros passos da intersubjetividade em Husserl - e, afinal, como diz Buber, é impossível pensar num homem como um ser objetivo de magnitude apenas utilitarista como se pensa uma pedra. E também Merleau-Ponty, sabendo que as coisas estão no mundo, estão, portanto, condenadas ao sentido, ainda mais porque o comportamento do observador altera o objeto observado, como qualquer físico quântico de quinta série o sabe.

A verdade sobre um objeto, portanto, é definida como adaequatio intellectus ad rem. Isso também é uma equação: uma relação do homem com o objeto. Mas este é um medir extremamente fundamental, a partir do qual é fundado todo o conhecimento científico (embora, com complicações novas, perca-se esses sólidos paradigmas: na física nuclear, por exemplo, não existem mais "objetos"). O homem, quando entra em uma relação dessas (como observar sua amiga gostosona no #lingerieday) não se coloca a questão. A relação do homem com os parâmetros e medidas é sua relação fundamental, ou seja, sua própria compreensão do ser.

Em termos mais claros, o homem, obrigatoriamente, por intelecção, já não vê apenas um objeto desprovido de história, desejos, vontades, vida. Do contrário, toda aproximação seria um estupro. Ele vê outro ser como ele, pois sua relação fundamental, que fundamenta todas as suas relações, não está com aquele indivíduo objetificado diante de si, mas com sua própria capacidade de se relacionar com humanos - mesmo que preferindo se relacionar com as gostosonas.

Este conceito é bem explicado por Octavio Paz, quando mostra como o Ocidente científico diferencia A de B como não-intercambiáveis, enquanto o pensamento oriental concebe A como uma instância de B - tudo o que é A está em B e tudo o que é B está em A; ambos pertecem um ao outro e ambos se pertencem; um não pode excluir ao outro sem também se excluir (o que pauta as relações de vida e morte no Oriente). Kakuzo Okakura resume a relação fundamental no seu O livro do chá, com o apoptegma ser-no-ser-do-mundo, de onde Semíramis sabe que Heidegger tirou o seu conceito de In-der-Welt-Sein. Afinal, como já dizia Descartes, Regulae ad directionem ingenii: Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigandam ("Para se investigar a verdade é necessário um método").

Mas... aproximação que é um estupro? Ora, Semíramis e Vianna, como professores de Direito Penal, já devem estar até de saco cheio da obra Criminal Shadows, de David Canter, que traça um "mapa" de três formas como um estuprador concebe sua vítima: pode vê-la apenas como objeto, fazendo preparativos, se disfarçando, usando armas para controle; pode vê-la como veículo, sendo agressivo e humilhador, exigindo participação da vítima; ou pode enxergá-la como uma pessoa, buscando uma aproximação.

Mas tudo isso é uma bazófia que tem o peso de um tapa de pelanca numa discussão dialética. Vem Semíramis e vocifera:

Participar de uma campanha para ser considerada livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, significa apenas uma coisa: a pessoa está se colocando num lugar de objeto, dependendo da classificação e aprovação de alguém, que irá julgar se ela se adequou ou não às regras.

Se você é realmente livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, não precisa da opinião das outras pessoas para se afirmar. Por isso, vai decidir SE e QUANDO participar de qualquer campanha, pouco importando a opinião/aceitação das demais pessoas.

(...) E, se o meio em que você vive exige esse tipo de posicionamento para ser aceita, observe que aqui você é objeto, e vive em função de um sujeito.

(...) É por isso que participar de uma campanha de objetificação coloca a pessoa como objeto. Mesmo que ela escolha se posicionar assim, agindo com autonomia,

Tenho como enfrentar essa porradaria, que tem o peso de um tabefe, três socão na cara, uma mordida, duas rasteiras, quatro telefones, um chute no saco, quatro "pisão" e duas voadoras ninjutsu, de acordo com o meu manual de D&D?! O que o ponto-de-vista perturbador, revolucionário e erudito de Semíramis é capaz de fazer com o meu ponto de vista superficial, rasteiro e criado às pressas, baseado apenas em senso comum, enquanto nossa filósofa destila sabedoria sem precisar apelar para fórmulas fáceis, como dicotomias lingüísticas, para mostrar que o problema em ser objeto é se subjugar ao outro, mesmo quando se age com autonomia - o que, é claro, eu não entendi.

Mas, além de genial, Semíramis é a pessoa mais bem-intencionada da Twittosfera:

O problema da internet é que não se tem controle sobre o que pode acontecer. Alguns rapazes inventaram uma brincadeirinha “inocente” e ficaram perplexos ou indignados (depende da versão contada) ao descobrir que uma brincadeira não é só uma brincadeira, mas tem todo um contexto de objetificação.

Ora, como é bom ter alguém para nos defender, não é mesmo? Afinal, conforme o exposto acima sobre os homens relacionarem com suas próprias relações fundamentais quando interagem com pessoas, podemos perceber que a relação fundamental é que só nós vamos perceber que, do outro lado daqueles avatares, há pessoas que trabalham, pensam, lêem, votam. Mas os únicos preconceituosos, sempre, são eles, os outros, incapazes de perceber isso.

Como, para variar, faço parte mais do eles do que do nós, fiquei sem entender todas as contradições que Semíramis deixou passar. Mas de que adiantaria discutir com um reacionário raivoso, mesmo? Melhor deixar a cachorrada latir!


Post Scriptum: uma coisa aprendi sobre as mulheres com o #lingerieday. Sutiãs são coisas que incomodam. Pra cacete. Vocês merecem um brinde por usar isso todo dia. E olha que nem tenho boobs.


Bibliografia:


1. CARVALHO, Olavo de. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão. p. 235-6. São Paulo: TopBooks, 2003.

2. MORGENSTERN, Flavio, A Dor de Parto das Palavras. Disponível em: <http://flaviomorgen.blogspot.com/2007/09/dor-de-parto-das-palavras_26.html>. Último acesso em 27.01.2010.

3. HEIDEGGER, Martin, Que é a Metafísica?, In: Heidegger - Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

4. SANTOS, Mário Ferreira dos, Tratado Geral de Esquematologia. São Paulo: Logos. 1962.

5. BAUDRILLARD, Jean. Olvidar a Foucault. Valência: Pre-Textos, 2000.

6. HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon, p. 136-8. Petrópolis: Vozes, 2006.

7. HENRIQUES, Fernanda. Intertextualidades: Freud, Hegel e Husserl na constituição da teoria da consciência-texto de Paul Ricoeur. Disponível em <http://home.uevora.pt/~fhenriques/textos-filocont/intertextualidadesemteoria%20da%20consciencia%20de%20paulricoeur.pdf>. Último acesso em 27.01.2010.

8. BUBER , Martin. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2006.

9. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

10. CANTER, David, Criminal Shadows. London: HarperCollins, 2004.

11. PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

12. OKAKURA, Kakuzo. O Livro do Chá. São Paulo: Estação Liberdade, 2007.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Marchando por terremotos


A Folha de São Paulo publicou uma reportagem entitulada Fórum Social expressa solidariedade ao Haiti durante marcha em Porto Alegre. É o tipo de manchete que não precisa ser nem lida para provocar comoção pública:

Aaaawwwwnnnnn, ti fofo!!! *_*

O Fórum Social Mundial foi criado em 2001 para nos avisar sobre os perigos que o neoliberalismo, então em voga, traziam ao mundo.

O neoliberalismo, do qual passamos toda a década de 90 ouvindo falar. O neoliberalismo, esse monstro horrendo, que foi a causa da pobreza, desemprego, desigualdade, guerras, fome, morte, peste, cãncer, genocídio, câncer de pulmão, náusea, diarréia e gravidez indesejada mundo afora. Aquele neoliberalismo inventado por gente que vota no FHC.

Os principais nomes do neoliberalismo são:

*bola de feno passando*

Fora esses, mais um monte de gente de quem nunca ouvimos falar. Mas são sempre culpados de tudo. Há décadas sabemos disso. Mesmo sem nunca ter ouvido falar de Hayek, Mises, Voegelin, Scruton, Rothbard, Morgenstern, Friedman, Greenspan e as discordâncias internas entre eles.

Sobretudo, sem nunca levar em consideração que países saíram da pauperização extrema e se tornaram ilhas de pujança em meio ao nada o fizeram aumentando suas instituições liberais - da irlanda a Cingapura, qualquer IDH é prova viva.

Mas é curioso analisar mais de perto o que pensam os amigos do Fórum. "O Haiti precisa de comida. Não de soldados", dizia um dos cartazes. Curioso que em favelas com criminalidade acentuadíssima como Cité Soleil
, que fariam a Rocinha parecer uma filial do Éden, o Exército mantendo a ordem e aumentando a paz seja uma coisa ruim... não é curioso que as missões de paz da ONU tenham tantos militares? E que tenham trazido uma certa estabilização a um país sem, ora, Estado há mais de 2 séculos?

Sabemos da verdade: querem reclamar, sempre, per fas et per nefas, do "imperialismo" dos EUA - tanto é que, no meio dessa balbúrdia, levantam cartazes em solidariedade à Palestina, ignorando a repressão pega-pra-capar que ocorreu devido às fraudulentas eleições na ditadura teocrática do Irã, que já matou dezenas de manifestantes contrários a um ditador... e, naturalmente, acreditam que os EUA não querem ajudar, e sim ocupar o Haiti. Igualmente curioso que a maior potência militar do planeta tenha precisado esperar um terremoto para enfrentar o glorioso Exército haitiano...

Isso, é claro, sem falar em termos práticos: o PIB do Haiti é
US$: 1.291 per capita. O do Piauí, R$ 4.213 per capita, o pior PIB per capita do país. Uma consulta à Wikipedia e perco a vontade de ir marchar no FSM.

Mas... marchar pelo Haiti? O Haiti precisa de alimentos? Vejamos: as FARC são bem ricas, e totalmente, diz-se, "sociais". Quanto foi que elas doaram? E Lula, oras porras, não doou nada para o Haiti - pegou fundos de reserva públicos e mandou pra lá. Nosso dinheiro. Muito legal, mas... tirou um prostituto furado do próprio bolso para enviar ao povo haitiano? Eu voto na Gisele Bündchen pra presidente.

Tem também a velha conhecida comunidade GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Velha conhecida? Eu já não sei em que versão está essa sigla. 4.5 beta? Ainda aguardo a versão mais democrática GLBMTTTNCS: Gays, Lésbicas, Bissexuais, Metrossexuais, Travestis, Transformistas, Transexuais, Necrófilos, Coprófilos e Simpatizantes.

De toda forma, o estudante Calimério Júnior afirmou: "Essa caminhada sintetiza o Fórum. O grande sentimento aqui é a essa diversidade, a partilha com os outros movimentos. E isso dá muita energia para o trabalho ao longo do ano". Aqui na redação, entendemos tudo, exceto a parte "trabalho".

Enquanto isso, outra questão preocupante:

o representante da Marcha da Maconha, Laurence Gonçalves, aproveitou a caminhada para defender o "controle público do uso das drogas"

Ora, poderia haver motivo melhor para marchar? Só falta explicar quem da "sociedade" irá controlar as drogas - e, sobretudo, no que isso fará alguma diferença do modelo atual.

Mais:

Entre os novos hippies da comunidade alternativa Aldeia da Paz, um homem coberto de lama chamava a atenção. "É a expressão da nossa relação de amor com a mãe terra".

Uma imagem vale mais do que mil palavras.


Luciana Genro, filha do Tarso, deputada federal mais famosa pelo seu penteado do que por sua cabeça, foi taxativa:

"É preciso que os movimentos sociais se unam em torno de suas reivindicações, independentemente de haver pessoas de partidos diferentes no movimento. As lutas são comuns."

Lutas comuns, na esquerda? Isso é assaz discutível. Se a esquerda, por definição, quer acabar com todos os problemas do mundo concentrando o poder em suas mãos, é claro que a sua luta terá sempre
inimigos comuns, mas nunca internamente, pra ver quem controla mais quem, quem tem o melhor jeito de dar uma melhor vida para 6,5 bilhões de pessoas do que outro.

Não é preciso exprobar erudição para lembrar que foi assim em toda a história: no fim, um grupo de anarco-punks (existe outro tipo de punk?!), o grupo defendeu "autonomia", recusando que empresas privadas financiassem o movimento.

Empresas privadas financiam o FSM, entenderam? E Lula também sairá do FSM, aplaudidíssimo, direto para Davos, para também ser aplaudido por fazer o contrário: manter as políticas econômicas de FHC, que resumem tudo o que deu certo em seu governo.

E depois que digo que no Brasil não existe direita, só uma velha luta entre a extrema-esquerda, a extrema-extrema-esquerda e a extrema-extrema-extrema-esquerda, me chamam de fanático. Eu, né?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O perfil de Zaratustra


Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua cabana no Colheita Feliz para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

"Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para o Facebook. Quererá levar hoje o seu fogo para o Twitter? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um analista de mídias sociais!

Zaratustra mudou, Zaratustra tomou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como na Wiki vivias, no isolamento, e a Wiki te levava. Desgraçado! Queres saltar ao Google? Desgraçado! Queres tomar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"

Zaratustra respondeu: "Amo os homens".

"Pois por que − disse o santo − vim eu para a Colheita Feliz? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo ao orkut; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".

Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago moedas de ouro aos homens".

"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha.

E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma moeda verde, e ainda assim espera que te peçam".

"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".

O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim: "Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros.

Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão do Farmville?

Não vás ao encontro dos homens no Twitter! Fica no Colheita Feliz!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"

"E que faz o santo no Colheita Feliz?", perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo ao orkut.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao orkut que é meu Facebook. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma de seu BuddyPoke".

Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu Colheita Feliz que o orkut já morreu?"


(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. levemente adaptado.)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Perder não só o amigo com a piada


"Bad humor is an evasion of reality; good humor is an acceptance of it."
— Malcolm Muggeridge


Dou mais valor à idéias do que aos corpos que as sustentam, com exceções notáveis (Luana Piovani, exempli gratia). Mas acontece que piada é importante: tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie são fundamentais.

Duas vezes em que demonstrei que, ainda assim, havia aderido ao pensamento sex is overrated foram dignas de nota. Uma foi quando uma linda loira entrou no meu vagão vazio do metrô e eu, ao invés de olhar pras suas pernas, analisei a reação dos machos ocidentais no vagão à sua entrada.

A outra foi tão poética que mostrou que não perdi só uma piada.

Paquerava descaradamente uma amiga há "aquela quantidade de tempo que nunca sabemos se são duas semanas ou cinco meses". Mas nunca sabemos em definitivo se uma mulher está nos dando bola ou só brincando de ser elogiada. Marcamos um dia para sair e tivemos aquela tarde mais do que maravilhosa.

Rimos, e rimos, e rimos. E rimos mesmo sem precisar de mais cantadas à queima-roupa. Em um dia que marcou o quanto sabíamos nos divertir de jogar altas gargalhadas contra o rosto um do outro, não precisava bancar o Don Juan e caminhar de mãos dadas ou outras coisas para sentir que o clima havia atingido 100%.

Mas chegou o fatídico momento da despedida, em que, num primeiro encontro depois de semanas (ou meses?) de contra-cantadas, define não só se nós dois vamos passar da linha de tiro, como até se haverá outro encontro como esse.

E, naquele instante, segurei queixo acariciando suas bochechas, disse o quanto aquele dia havia sido alegre e aproximei meu rosto do dela, imóvel e entregue. E beijei seus olhos já fechados.

Ela os abriu fingindo não estar espantada, e eu apenas disse: "Não estranhe, você não teria oferecido nenhuma resistência", tendo como resposta um dos sorrisos mais profundos e auto-suficientes que já vi.

Perdi um segundo encontro, que naquele momento já sabia que nunca aconteceria, e perdi um beijo. Mas não perdi a chance de dizer uma frase que não ficou encrustrada apenas na minha memória para todo o sempre.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Quem ganhou a década?


O ano é 2010 e o sujeito entra numa livraria. Os títulos de destaque são Fascistas de Esquerda, de Jonah Goldberg, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, Sangue Azul, de Leonardo Gudel, História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, Olho por Olho, de Lucas Figueiredo. Elite da Tropa vende há mais de 3 anos, e até na seçao de Filosofia temos em destaque o mistifório Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Há livros de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Mário Sabino entre os mais vendidos. Autores conservadores têm sua obra relançada cada vez mais por alta demanda, de Mario Vargas-Llosa a Eric Voegelin, de Mário Ferreira dos Santos a Roger Scruton. Ateus famosos, como Christopher Hitchens, S.E. Cupp e Luiz Felipe Pondé, são todos de direita.

No cinema, títulos como Cidadão Boilesen, Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei e Reparação (a ser lançado em breve)
revisam cada vez mais o papel "heróico" da esquerda revolucionária na ditadura.

Em pleno pós-crise, a onda é falar de Bolsa de Valores. Até mesmo a auto-ajuda cuida cada vez mais de finanças e empreendedorismo.

Piñera acaba de levar o título de presidente do Chile depois de 20 anos de esquerda no poder. No Brasil, em qualquer cenário cabível, Serra leva vantagem para ser o próximo presidente, podendo ter como vice até uma senadora do DEM como Kátia Abreu. Uma tentativa de golpe bolivariano em Honduras foi rechaçada. Em toda a América Latina, há uma lenta guinada para a direita após Uribe, exceto em países que já demonstram claramente sua face de ditadura socialista com eleições de fachada, como Venezuela, Bolívia e Equador. A atuação do Foro de São Paulo passa a ser discutida cada vez mais publicamente, enquanto o MST tem rejeição da
maioria absoluta da população.

O ano é 1995. Todo o cenário acima é multiplicado por -1. A grande discussão envolve os malefícios do neoliberalismo (que, curiosamente, deu as caras na América Latina apenas no Chile, e numa versão populista na Argentina). O povo teme pelas privatizações, que supostamente vão dar de graça patrimônio público nacional e acabar com empregos, sem falar na qualidade despencando dos serviços.

A leitura é calcada em Eric Hobsbawn, Alain Badiou, Giorgio Agamben ou Antonio Negri. O que ocorre e se discute fora da extrema-esquerda revolucionária/fabiana é sumariamente limado pela intelligentsia brasileira, como o lançamento d'O Fim da História, de Francis Fukuyama. Marilena Chaui e Paulo Arantes dominam o curso de Filosofia da USP como a única saída contra a nossa miséria econômica e intelectual, sem nunca precisar comentar o que escrevem seus críticos mais aguerridos, como José Guilherme Merquior, Paulo Francis ou Olavo de Carvalho.

O que foi que aconteceu?

Mudanças de pensamento, sobretudo guinadas em direção oposta de toda a população "pensante" (o que, em se tratando de Brasil, abrangeria, na verdade, cerca de 0,08% da população) levam, em média, uma década de propaganda para mudar as cabeças, mais outra década de mudanças para se alcançar resultados.

No Brasil, um país em que a "direita" são partidos de centro-esquerda, tudo acontece ao contrário. O "neoliberalismo" é acusação de adversários de um partido que sequer liberal o é, as privatizações e o câmbio flutuante, tão criticados, são o que destrói a inflação e os preços altos, colocando muitas pessoas na zona economicamente ativa, e, com os resultados vindo antes das ideias, comemora-se os triunfos e critica-se as causas que os possibilitaram.

Não são mais professores nem idéias dominantes nas Universidades que moldam a cabeça de alguns jovens, que vão se agigantando cada vez mais. São interpretações sobre os fatos de que eles mesmos tiveram de correr atrás. Nenhum professor procurou ensinar Jouvenel ao lado de Marcuse, Hayek ao lado de Marx, Rothbard ao lado de Keynes (que, para nossa simpática extrema-esquerda, é alguém "de direita"). Mas os próprios alunos cansaram da litania acadêmica e procuram estes autores por sua própria conta e risco.

O que sobra para a esquerda é se apropriar de programas sociais que sequer foram criados por ela própria (o Bolsa-Família foi criado por uma equipe de economistas que incluía Ricardo Paes de Barros, um "tucano neoliberal", enquanto os programas genuinamente petistas, como Meu Primeiro Emprego e Fome Zero, derivados do Instituto da Cidadania ligado ao PT, deram com os burros n'água apresentando propostas esdrúxulas, como um fundo alimentado por taxas em gorjetas de restaurantes).

Algo do que está nas livrarias, hoje, seria simplesmente concebível há uma década e meia? Um filme como ROTA Comando, baseado no livro Matar ou Morrer, de Conte Lopes (colega de Ubiratan Guimarães), teria capacidade de chegar aos cinemas brasileiros? Seria possível alguém, durante o governo FHC, se considerar neoliberal e um estudioso acadêmico de Humanidades, a um só tempo?

A década de 2000 foi, inversamente, a época de colher os primeiros passos de uma abertura incipiente para o livre-mercado no Brasil. A década de 2010 começará como a década em que as idéias liberais cada vez mais tomarão corpo sobre nossa elite intelectual, o que deveria ter ocorrido antes.

Afinal, é preciso uma grande integridade psicológica para sequer saber o nome de alguns autores liberais e/ou conservadores num país em que a social-democracia é coisa direitista, a ser rechaçada a muque. E este darwinismo intelectual implica um liberalismo bem mais fortinho para esmagar a esquerda onde quer que ela ainda não tenha virado uma ditadura na década de 2020.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Definições


Este texto não é auto-biográfico, sendo um relato do que aconteceu com meu amigo chamado Asdrúbal quando ele entrou no primeiro ano.


Professora chama alunos da nova escola, um a um, para explicar quem são, o que gostam e o que não gostam.

Após muitos sorrisos falsos, explicando que amam suas famílias, bichinhos e algum ídolo pré-pós-adolescente, Asdrúbal, impertérrito, levanta a mão como alguém a se espreguiçar e introduz:

— Meu nome é Asdrúbal.

— Eu gosto de: filme de porrada, armas, especulação financeira e poker.

— Eu não gosto de: socialistas, psicanalistas, advogados, crentes, petistas, relativistas, existencialistas, bandidos e marxistas, bichos nojentos, gosmentos, inúteis e quase imóveis (incluindo funcionários públicos), estruturalistas, cristãos normativos, mauricinhos, escritores de auto-ajuda, leitores de auto-ajuda, filósofos de gabinete, atores de novela, nacionalistas, manos do hip-hop, sociólogos coitadistas, petistas de novo, drogados, falantes de sotaque americano, cantores de MPB, viciados em literatura hispânica, socialites, gente de extrema-esquerda, gente de extrema-direita, gente de extremo-centro, vagabundos, ecléticos, roqueiros baitolas, hippies, fase da água e lagartixas.

Após um silêncio um tanto embaraçoso, uma aluna timidamente levanta a mão e pergunta:

— Mas... qual o problema com as lagartixas?!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Triste fim em entrelinhas


Hoje dois blogs estão fechando as portas: O DicasBlogger e o NokiaBR, que teve de mudar o seu domínio por uma notificação extra-judicial da Nokia.

Quero comentar os dois casos separadamente:

O DicasBlogger foi um blog que li vez por outra simplesmente porque me bato com o Blogger, que nunca entendi como leva uma sova do Wordpress (mesmo porque o Blogger pode tudo o que o Wordpress também pode, e tudo de graça).

Sempre gostei do trabalho de webdesign (o design para web, em si, ainda vai ser considerado uma arte a ser estudada decentemente) e seu blog era bom, tinha conteúdo dedicado, comentários interessantes (que não se limitavam à esfera do Blogger) e tudo o mais.

Qual o motivo alegado pela dona da empreitada, Juliana Sardinha, que deletou até sua conta no Twitter, para o fim? Plágio. É incrível como estejam tão preocupados, hoje, em legislar sobre o éter na internet, mas uma coisa bem mais complexa, e exigindo uma legislação que ao menos tente ser tão rápida quanto a internet – neste caso, toda a fiscalização fica por conta do Creative Commons, que funciona como uma ONG.

Qualquer antropólogo de 140 caracteres sabe que, em uma sociedade sem trocas pecuniárias, a ascensão se dá por prestígio. Desde que ligaram um telefone a um UNIX perdido no espaço-tempo, a sociedade que se formou por trás de monitores tem seu prestígio medido por: a) quantidade de pornografia russa baixada; b)pela produção intelectual, que funciona, muitas vezes, de maneira bem mais rígida, funcional e cruel do que em uma universidade brasileira. Como o DicasBlogger não era sobre pornografia russa, roubar o material produzido pela autora é a maior destruição da ordem vigente que poderia ser perpetrada.

É um argumento cara-de-pau e muito comum, presente desde discussões sobre pirataria até em ladrõezinhos baratos de conteúdo, que dizem que não roubam algo, pois o conceito de roubo é que, quando subtraio algo de você, você não pode usá-lo, enquanto o que ele faz é uma espécie de comunismo cibernético – eu uso, você usa, ele usa e todos vivemos felizes e irresponsáveis.

Aí surgem duas perguntas: 1) você, de fato, pode praticar essa maneira virtualizada de castrismo, mas e o autor original? Não merece nem um link, nem seu nome citado, nem um maldito "muito obrigado"? Roubar um texto parece não ser tão "roubo" assim, mas e roubar uma autoria? Aí não é mais um revolucionário ato de socialização da cultura, é apenas falta de colhões em bom estado de conservação; 2) a patifaria só serviria como desculpa esfarrapada caso considerássemos a escusa de que não há mesmo dinheiro envolvido; e quando o caboclo rouba e fatura em cima? Cadê a inocente e saudável "socialização" do meio?

A parte triste é que a Juliana queria se divertir, e não faturar. E sim, isso é ruim quando se chega a uma situação limítrofe como a dela: se fosse um trabalho, como muitas pessoas que trabalham com blogs, mídia e produção cultural, era só tacar um processo e pronto. É a última moda: processar blogueiro. Processam por qualquer idiotice, mas é raro ver processo por um motivo processável: plágio. No Brasil, subvertemos uma máxima do existencialismo fenomenológico de Sartre, que explicava: "Se amamos uma mulher, é porque ela é amável".

Eu só posso sugerir à Juliana que tire umas férias. Descanse. Depois que você ver que sempre tem um idiota se orgulhando de faturar US$800 com AdSense por roubar conteúdo, pode-se atacá-lo onde realmente dói: reanimar-se para criar um blog famoso, com conteúdo original e público fiel, e logo estar podendo esfregar de volta na cara desse imbecil que você fatura bem mais.

Numa coisa o Twitter trouxe uma vantagem enorme para a blogosfera: agora seu blog não é mais visto apenas pelos que caíram de pára-quedas via Google em sua savana, e acaba fazendo amiguinhos. Agora, cair na mira de alguém com um número de seguidores 3 vezes maior que o seu pode te fazer famoso não apenas entre seus amiguinhos, mas entre toda a blogosfera (e aqueles que só lêem blogs), como um baita de um cretino idiota.

E aqui, novamente, conseguimos dessubverter ao nosso favor, quem tentou subverter o sistema pela primeira vez.

...

Já o NokiaBR recebeu uma notificação estranha. Parece que a Nokia quer retirar o blog do ar, e exigiu que até o endereço fosse trocado, por causa de vocês-sabem-o-quê.

Ora, se eu inventasse uma empresa qualquer, seria um orgulho que neguinho por aí saísse fazendo propaganda gratuita em meu nome, colocando até o nome da minha empresa como título de seu trabalho. Sai muito mais barato (ou seja, de graça, basta apenas lançar bons produtos, o que eles já fazem naturalmente) do que pagar um michê fixo para perobos formados em Propaganda, usando barbicha, óculos de aro rosa e voz saída de algum desenho animado. Ademais, este último expediente tem valor de mercado prático bastante discutível.

Mas o que é que iria querer a Nokia com um blog? Acaso ela acha que o autor está querendo "roubar" suas idéias, e fazer propaganda em nome dela, o que seria um absurdo punível com archotes, tacapes, botas com spikes e gatos mortos?

Ou, melhor dizendo, será que é "a Nokia" que tem interesse nessa história? A Nokia, a mim, continua sendo um dos maiores símbolos da Finlândia, junto com os lados, o metal tristonho e a língua estroncha. Mas deixe seu departamento de relações públicas em sua filial no Terceiro Mundo a cargo de advogados desesperados por faturar milhões assim que têm a Toda-Poderosa Nokia como cliente e adivinhe o que pode acontecer? Basta digitar "Nokia" no Google e sair processando a esmo tudo o que pareça processável, tão-somente para auferir uma boquinha para suas poupanças, sem nada contribuir (pelo contrário) para a empresa.

Claro, isso tudo é apenas uma hipótese do que pode ter ocorrido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Morte ao acadêmico de 140 caracteres!!


"Em geral, estudantes e estudiosos (...) têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informação sobre tudo, (...), sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. (...) Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco, para ter lido tanto.' É mais ou menos o que ocorre com muitos cursos, em que o aluno tem pouco tempo para ler e meditar sobre a bibliografia extensa e sagrada que lhe é imposta. Sobrariam horas diárias para os nossos aprendizes de feiticeiro pensarem sobre o que estão lendo?"
— Arthur Schopenhauer, Sobre a Leitura e os Livros


A discussão hodierna da internet é sobre a fama sem fortuna que o Twitter nos proporciona. Tema ainda desprovido de uma cátedra acadêmica, surge uma nova especíe de... ahn... profissional da área: o analista de mídias sociais. Ou coisa que o valha. Título auto-atribuído e auto-indulgente com a profissionalização da vagabundagem. inobstante, esta falta de tirocínio especializado gerou uma outra classe de filoprofissional que agora infecta a nossa classe de anônimos ignorantes proto-famosos: o acadêmico de 140 caracteres.

Conforme afirmei no último texto, este ser habita uma região limítrofe entre a putice e a viadagem, unindo o colega engraçadinho que faz piadas bobas no churrasco da faculdade com a imagem do professor que venceu na vida por ter feito um mestrado no gato, o acadêmico de 140 caracteres (A140C) é o cara que não fala nada com nada no Twitter mas pode ostentar um documento que prova que, não importa quão idiota sejam suas palavras, ele já as formatou com as normas da ABNT.

São doutores. São intelectuais. Eles podem peitar a grande mídia. Passam o dia a falar mal do que sai nos jornais, como se soubessem impingir moral e conteúdo se fossem editores-chefes de alguma publicação. Para corroborar seus faniquitos, não esquecem de passar o dia inteiro a lembrar: Eu sou doutor. Sou filósofo. Sou escritor. Sou jornalista. Sou advogado. (Um publicitário, é claro, nunca cometeria um erro tão frugal.)

"Bom dia, twitteiros! Vamos discutir filosofia?"

Tal espécime bárbara é aquela que está acostumada a ser chamada de doutor por seus alunos com cérebro de minhoca recém-saídos do cursinho e com cultura tendendo entre o zero absoluto e a anti-matéria e também pelo seu Tinoco da padaria:

"Ô doutor! É o pingado de sempre, chefia? Com adoçante, campeão? Vai também o misto aí, fera? Pode deixar, patrão! Eu ponho na conta, amizade!"

Assim como a verdadeira "celebridade" (ou, ao menos, aquela anta que realmente ficou famosa por algum motivo metafísico através da Globo ou da MTV) vai ao Twitter e demonstra um comportamento menos tolerável que o de uma araponga na menopausa, este "intelectual" padronizado também vai ao Twitter para perder o respeito que tem dos seus alunos e expor-se ao ridículo em público.

O curioso é que os verdadeiros filósofos, jornalistas, escritores e demais profissionais de Humanas que conheço nunca precisam afirmar isso a cada frase que proferem. Isso transparece tão-somente pela sua cultura. É curioso que muitas pessoas nem sabem que porra eu faço - e devido a fatos recentes, acham que sou advogado, justamente por eu não ter essa insonsa mania. Na verdade, além de ter perdido a amizade com colegas que conheceram a seita da psicanálise na faculdade (e começam a te analisar e perguntar da sua mãe cada vez que você reclama de um problema entre duas cabeças humanas), todos os filósofos que conheço só vem falar comigo sobre RPG ou me convidar para entorpecer os cornos com alguma substância alcoólica.

A Completa Lei de Murphy inclui em seus axiomas de escritório que um especialista é um cara que veio de fora. Esse senhor deslocado, que deveria passar as tardes ou corrigindo provas sobre Cícero, ou trocando fraldas (já que tem vergonha própria de assistir Gugu em feudais relações familiares) está deslocado no Twitter e se orgulha disso. Como se sua vetusta falta de garbo e elegância fosse mote para a auto-vaidade tão contumaz à raça.

Mas também sabemos: especialista é um cara que sabe muito sobre nada. Um super-especialista é um cara que sabe detalhadamente tudo sobre absolutamente porra nenhuma. Tal é o A140C. É o cara que fez uma monografia sobre um filósofo, um sociólogo, um psicólogo, um agitador pós-moderno desqualificado ao gosto das massas, e resume e exprime tudo para encaixar a realidade em seus preconceitos. Falar sobre aquecimento global ou um novo filme com o cara é uma oportunidade para ele arrotar Lacans e Negris como as finas flores da sabedoria ocidental.

Não é preciso lembrar que, para dar uma suposta bafejada de verdade nas suas aleivosias, nossos A140C se formaram mega especializando-se em um autor ou dois, e nunca passaram os olhos por um autor "da oposição". Assim é, afinal, que alguém pode defender patavinas soviéticas como Lukács ou medicinas medievais como a psicanálise por toda a vida e, afinal, nunca levarem uma bifa na orelha por isso. Pelo contrário: o professor, ou dir-se-á, orientador não irá modificar a cabeça de jerico do aspirante a blogueiro famoso em nome da não-intervenção, e logo teremos um professor com cabeça de jerico orientando um futuro aluno ainda mais descerebrado.

É como o caso de uma famosa filósofa, defendida aguerridamente por vários A140C, petista roxa, que é considera por eles como a maior especialista do mundo em Espinoza (talvez algum filósofo desconhecido, de algum parentesco aportuguesado e abigodado com Baruch de Spinoza). Tais A140C soltam sua fúria por todos os orifícios se alguém ousa discordar de uma autoridade mundial:

"Mas como se atreve?!?! Marilena Chaui possui um currículo INFINITAMENTE SUPERIOR ao seu!! O que você é?! Alguém que por acaso já fez com que estudiosos de 4 línguas procurassem estudar português para ler sua obra?!?!"

Ora, é claro que não, meus caros intelectuais: apenas sei que as pessoas que fizeram isso, sendo algumas delas falantes de francês, não precisariam recorrer a tanto: José Guilherme Merchior acusou e provou, por a+b, que grande parte do o livro Cultura e Democracia da nossa petista era mera tradução de um texto de Claude Lefort... e algum intelectual resolveu refutar a acusação? Marilena Chaui não tem Twitter, mas falando tanto sobre mídia, influenciou bastante o pensamento de nossos A140C: se você tem um título qualquer, pode usá-lo como prova de qualquer coisa em Humanas.

O que é uma subversão interessante do próprio conceito de "ciências" humanas: áreas tão pouco sólidas que os físicos preferem chamá-las de soft science, em comparação ao sólido arcabouço de uma hard science como a deles. Mas até mesmo físicos caem no pau, como as teorias das super-cordas e outras tentativas de integração entre conceitos mutuamente excludentes, como a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Enquanto isso, nossos intelectuerdas formados em orkut fogem de qualquer arranca-Habermas simplesmente invocando: "Eu sou formado em Sociologia no Mackenzie, logo, minha opinião deve ser respeitada... quem é que pode supor julgar que eu errei?!"

Por certo que não ocorre a estes mesmos respeitáveis filósofos blogueiros, jornalistas de mídia social e advogados de porta de scrapbook como é que 2 filósofos com os mesmos títulos poderiam concordar entre si - e, portanto, o que um título qualquer em Humanidades "prova" qualquer coisa - como se Marx e Friedman, Hegel e Schopenhauer, Heidegger e Wittgenstein, Pound e Gramsci, Freud e Biswanger fossem inventar de chegar a uma mesma e óbvia verdade, conquistada depois da fase da água e do TCC contra o último chefão.

E o que resta a nós, pobres desprovidos do diploma da Verdade Alumiada do microblog?! Ora, podemos nos proibir de testar a validade das informações de nossos orquestradores de bruzundrangas reptílicas (porque o A140C passa o dia todo usando as palavras "razão", "lógica", "ciência" e "filosofia" no Twitter, mas quando encontra uma opinião diversa, imediatamente estará sem tempo para discutir com desprovidos de diploma de orkut) ou, caso a situação fique grave, nem sequer ler pessoas inteligentes que destróem as besteiras ditas por filosofetas do mainstream acadêmico, que nunca conseguiram uma "prova" de nenhuma das suas patifarias (claro, eu sei que a ciência, atividade dialética par excellence, prescinde de "meios de prova", tendo como escopo "meios de descoberta"; mas assim que vocês me mostrarem um intelectual formado em Foucault que conheça os Analíticos Anteriores e Posteriores de Aristóteles, ou, sei lá, um método científico de Charles S. Peirce, favor depositarem uns 2 barões na minha conta).

"Mas, senhor filósofo-com-diploma, o senhor diz que não posso ousar discordar das paneleirices cometidas por Foucault e Freud, mas tendo Umberto Eco e Nobokov esmigalhado as torpezas dessa dupla, como o senhor quer que eu ouse discordar destes e não daqueles?!"

O apelo à autoridade é o mais comum meio de prova entre os Acadêmicos de 140 Caracteres, pois um nome pomposo de algum baitola envolvido com Maio de 68 cabe em um tweet, ao passo que um capítulo de Imposturas Intelectuais não cabe nem em meus longos posts no blog. Essa dialética de professor recém-saído do mestrado não tem nada de dialética, nada de fenomenológica, nada de pragmática, nada de positivista, nada de empiriocriticismo, nada de instrumentalismo. Apenas se parece com alguma forma desmiolada de escolástica.

Com a diferença de que os escolásticos faziam apelos a autoridades inexistentes, enquanto o intelectual pós-moderno apela a uma "autoridade" de quinta categoria, que só é autoridade para ele e o seu Tinoco da padaria.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

É TUDO PUTA E VIADO!


"Processo judicial é briga de rua de viado."
— Lógica de Sodoma

Os dois maiores ensinamentos que tomei desta vida foram me dados ainda no berço, por minha vovó. Lembro-me ainda hoje de suas palavras:

"Meu netinho que acaba de chegar ao mundo, saibas que estás muito mal-acompanhado e a vida é cruel. Tenha sempre em mente as duas coisas mais importantes da vida: em primeiro lugar, se algum dia viajardes ao passado, seja acidental ou volitivamente, por meio mágico ou tecnológico, não tente alterar o passado. Impedir a Segunda Guerra Mundial iria enfeiar sobejantemente o mundo, ao passo que sem a Revolução Francesa não teríamos nos reproduzido feito baratas islâmicas e provavelmente não teríamos nascido. E eu não quero você bancando o espertinho matando o meu pai só para saber como solucionar o Paradoxo do Avô.
A segunda coisa mais importante a saber da vida é que comunista é tudo puta e viado."

Despiciendo fazer notar que vovó, genética explica, estava certa. Se algo me ensinou ao sobreviver este ano na internet é a falta de rigor lógico e dialético de intelectuerdas de 140 caracteres. E, claro, leitores vorazes que arrotam Foucaults e Freuds mas não sabem diferenciar lógica de dialética. Como toda puta e todo viado.

Resolvi começar um ano mais zen. Sem o dispêndio de energia e gastos superfaturados com material orgânico do ano passado. Por isso, inicio este novo ciclo com um guia para opiniões públicas internéticas: evite citar nomes de putas e de viados.

O que existe no Twitter é apenas arranca-rabo. São pessoas tentando virar famosas de Twitter falando mal de famosos de Twitter, pois fama de Twitter não é fama. No Twitter, você pode escolher entre 3 vias de acesso ao estrelato: já ser famoso e analfabeto, usar scripts ou policiar outros twitteiros. A turma dos Direitos Humanos, os defensores do Estado Democrático de Direito, os libertários, os cabeça e desprovidos de preconceitos optam todos pela terceira via. Nunca ter uma seqüela de dúvida: é tudo puta e viado.

A onda de patrulha ideológica ultrapassa sobremaneira as raias do ridículo que agora a onda é ameaçar de processo quem discorda da sua opinião. conhece esse povo que é todo favorável à liberdade, mas não deixa você falar um palavrão na cara deles? Analise-se: dói mais quando te chamam de filho da puta ou de filho de uma prostituta? Estes faniquitos histéricos reverberados em ataques públicos de pelancas revelam como se discute apenas pro domo sua: antes de se nomear, apenas uma puta ou um viado se ofenderia com esses termos, simplesmente oferecendo a cara ao inerte punho do ofensor.

Já expliquei, alhures, o que significam policiadores politicamente corretos e defensores dos Direitos Humanos: são putas e viados que há alguns bons plenilúnios não são fustigados por uma bela surra de caralha, e que, nesse tempo livre de pregas em repouso, demonstram seu nojinho do machismo, pela intolerância, pela opressão, pela injustiça... mas apesar de tudo isso, têm um pouquinho mais de nojinho do regime que sustenta suas mensalidades na PUC. Para falar mal dele, abandonam qualquer conseqüência das frívolas diarréias que defendem, confundindo-as com idéias: quem pratica negatio consequentiam apenas para não ser pego com as pregas à mostra é o quê? Puta e viado, diferenciados pela cobrança e aceitação de cartão de crédito.

Algumas empresas, ainda acostumadas com a época em que podiam vender qualquer porcaria recusada por um rato de esgoto, não se tocam que o que antes a dona Maria falava mal da empresa agora pode atingir um público putaqueopariumente maior, graças a maravilhas como o Google. O que a porra da empresa faz: melhora o produto ou tasca um processo por danos morais? Para arrefecer a memória, lembremos que quem vende produto ruim deve ser puta ou viado e qualquer muriçoca terá a resposta. E o filme continua queimado: afinal, além de empresa ruim, tentar calar as críticas com processo também não é uma forma de difamação, quando não de censura?!

Ademais, nada prejudica mais a imagem de um lugar do que ele ser uma bosta. Aliás, existe uma coisa, sim: ter como donos putas e/ou viados.

Mas antes que o clima zen e meditativo destas mal-traçadas se perca, lembro a nossos intelectuerdas processadores que, para haver qualquer crime contra a honra, urge que a ofensa se dirija à pessoa determinada, não constituindo crime contra honra atribuir aos católicos, comunistas, putas ou viados a pecha de praticarem putices ou viadagens.

Exemplos óbvios: há um certo boteco na Vila Madalena aí que, ao que tudo indica, pode ser o pior boteco do Universo. Ou não. Mas vocês não sabem do que estou falando, não é? Sendo assim, também é de bom alvitre denunciar: seus donos e relações públicas são pessoas fartamente ligadas na arte da prostituição social e baitolagem pública. O que até um blogueiro, um aluno de quinta série, um escritor famoso no Twitter, um aluno de Direito de uma sub-faculdade ou um orangotango chamado Benga conseguem discernir a respeito de sua moral sexual.

Eu digo: não vão ao pior boteco do Universo, que vocês não sabem qual é. Não vão também á doceria que está processando Larissa Paschoal e Rodrigo Martins, que vocês também não fazem a menor idéia de qual é. Vocês iriam numa doceria que processa seus clientes, depois de tratá-los como lixo? Também não creio que vejam com bons olhos quando são apresentados aos namoros dos seus filhos, e esses se mostram perfeitas putas ou então viados.

Também temos a nossa querida portadecadeiosfera! Ela acha que assassino estuprador não deve ir para a cadeia, e sim arrumar um emprego de funcionário público como educador infantil. Viram algum deles reclamar do STF negar um segundo pedido de prisão domiciliar para Suzane von Richthofen? Não existem defensores de Direitos Humanos: apenas pessoas que querem livrar seus comparsas do rigor. Recebendo um bom michê para isso, é claro. É um comportamento que se assemelha a qual profissão? É coisa de puta e de viado, muitas vezes sem uma distinção muito clara entre um e outro.

O pior é que, apesar de ter teorias acadêmicas sobre o sistema penal punir demais, são os primeiros advogados que, bafejados pelo sopro de vingança da própria Nêmesis, saem por aí, Vade Mecum em uma mão e dorso da outra à cintura, fustigando violentamente o pézinho ofendido no assoalho, prontos a sair processando e tentando enviar para o ergástulo o primeiro que demonstre a imbecilidade cocozenta de suas teorias. É claro, a coragem desses advogados, que quando não são caudatários de trejeitos abaitolados, são verdadeiras putas, se faz pelo putamente ilegal expediente do anonimato – isso sem falar em, por idiotia ao interpretar o código penal, achar que entende de injúria (art. 140 CP), injúria qualificada (§ 3º), apologia do criminoso ou, como foi com o Nova Corja, tratar injúria, calúnia e difamação como a mesma coisa.

Mas ora, pensando zen, em minha nova busca espiritual (ao contrário do pensamento freudiano, descendente na longa e esfainante jornada pelo senso do ridículo), resolvi que não serei mais processado por merdinhas. Pelo contrário: já que injúria é um crime que merece cadeia (ao contrário de, sei lá, estupro, tortura, seqüestro e assassinato a sangue frio), mas podem me acusar do que acham que bem entendem (calúnia, art. 138 CP), e ainda anonimamente, pensei cá com minhas pornografias madrugais que não me abandonam: e atribuir características depreciativas (ou simplesmente falsas), o que configura difamação (art. 139 CP) a um ofensor anônimo que tenta expandir as dimensões de minha bolsa escrotal? Com toda a certeza, sem pessoa qualificada? Com toda a certeza, evitará longas e ardidas disputas judiciais com putas e/ou viados que, ofendidos com a demonstração pública de sua ignorância, apelem apenas para a truculência jurídica.

Assim, como um fake denominado Gael Gonsález resolveu praticar calúnias anônimas em meu blog por meu arranca-rabo com Túlio Vianna, agora apresentarei minhas críticas no seguinte formato:

"Gael Gonsález é um professor de Direito Penal da PUC-MG e da UFMG e é um merdinha..."

Paz na Terra aos homens de boa vontade, irmãos. Assim teremos uma vida sem processos, e com todo o meu respeito às putas e aos viados profissionais.