segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Política sobre camelos

"O que é ser socialista? – perguntara-lhe Gacel na primeira noite, quando ainda tinham vontade de falar e cavalgavam, um ao lado do outro, sobre sacolejantes camelos.

— É pretender que a justiça seja igual para todos.

— Você é socialista?

— Mais ou menos.

— Acredita que todos, imohag e criados, somos iguais?

— Diante da lei, sim.

— Não me refiro à lei. Eu quero me referir a que criados e senhores sejamos iguais completamente.

— De certo modo... - Abdul-el-Kebir tentou descobrir até onde poderia ir sem se comprometer. - Os tuareg são os últimos seres da Terra que ainda mantêm escravos sem se envergonhar disso. Não é justo.

— Eu não tenho escravos. Tenho criados.

— De verdade? E o que faz se um deles foge e não quer mais trabalhar para você?

— Eu o procuro, acho-o, açoito-o e o trago de volta. Nasceu em minha casa, eu lhe dei minha água, minha comida e minha proteção quando não podia se valer por si mesmo. Que direito tem ele de esquecer-se disso e ir embora quando não precise mais de mim?

— O direito à liberdade. Você aceitaria ser criado de outro homem só pelo fato de o haver alimentado quando era criança? Até quando se deve pagar essa dívida?

— Não é o caso. Eu nasci imohag. Eles nasceram aklis.

— E quem dispôs que um imohag é superior a um akli?

— Alá. E se não fosse assim, não os teria feito covardes, ladrões e servis. Nem os teria feito valentes, honrados e orgulhosos.

— Demônios! – exclamou. – Você teria sido o mais fanático dos fascistas...

— Quem é um fascista?

— O que proclama que a estirpe dele é superior a todas as outras.

— Nesse caso, sou fascista.

— E realmente você o é – admitiu Abdul com convicção. – Embora tenha a certeza de que se soubesse o que, de verdade, significa ser fascista, você renunciaria a isso.

— Por quê?

— Não é uma coisa que possa ser explicada assim, aos solavancos, sobre um camelo que parece estar embriagado... Será melhor que o deixemos para outra ocasião.”


(Alberto Vazquez-Figueroa, Tuareg)

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Política sobre camelos


"O que é ser socialista? – perguntara-lhe Gacel na primeira noite, quando ainda tinham vontade de falar e cavalgavam, um ao lado do outro, sobre sacolejantes camelos.

— É pretender que a justiça seja igual para todos.

— Você é socialista?

— Mais ou menos.

— Acredita que todos, imohag e criados, somos iguais?

— Diante da lei, sim.

— Não me refiro à lei. Eu quero me referir a que criados e senhores sejamos iguais completamente.

— De certo modo... - Abdul-el-Kebir tentou descobrir até onde poderia ir sem se comprometer. - Os tuareg são os últimos seres da Terra que ainda mantêm escravos sem se envergonhar disso. Não é justo.

— Eu não tenho escravos. Tenho criados.

— De verdade? E o que faz se um deles foge e não quer mais trabalhar para você?

— Eu o procuro, acho-o, açoito-o e o trago de volta. Nasceu em minha casa, eu lhe dei minha água, minha comida e minha proteção quando não podia se valer por si mesmo. Que direito tem ele de esquecer-se disso e ir embora quando não precise mais de mim?

— O direito à liberdade. Você aceitaria ser criado de outro homem só pelo fato de o haver alimentado quando era criança? Até quando se deve pagar essa dívida?

— Não é o caso. Eu nasci imohag. Eles nasceram aklis.

— E quem dispôs que um imohag é superior a um akli?

— Alá. E se não fosse assim, não os teria feito covardes, ladrões e servis. Nem os teria feito valentes, honrados e orgulhosos.

— Demônios! – exclamou. – Você teria sido o mais fanático dos fascistas...

— Quem é um fascista?

— O que proclama que a estirpe dele é superior a todas as outras.

— Nesse caso, sou fascista.

— E realmente você o é – admitiu Abdul com convicção. – Embora tenha a certeza de que se soubesse o que, de verdade, significa ser fascista, você renunciaria a isso.

— Por quê?

— Não é uma coisa que possa ser explicada assim, aos solavancos, sobre um camelo que parece estar embriagado... Será melhor que o deixemos para outra ocasião.”


(Alberto Vazquez-Figueroa, Tuareg)

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