domingo, 8 de agosto de 2010

A esquerda e o Irã: A mão que afaga é a mesma que apedreja

De todo o cacarejo marxista, pouco ou nada resta a honrar um arvoricídio para se imprimir livros, mas, para que suas edições continuassem vivas até hoje, o velho alemão foi cuidadoso em criar uma terminologia confusa e atenta a filigranas para dar ares de originalidade à sua obra – de "mais-valia" a "luta de classes" pra baixo.

Com efeito, todo o seu pensamento resume-se apenas a uma fabulazinha panaca: se alguém no mundo possui algo, mesmo que não valha um centavo (como a roupinha do Chaves), foi por ter egoisticamente tomado para si a força, às espensas dos mais fracos – quando, na verdade, deveria ter compartilhado com todos. Todos os sistemas da Humanidade teriam sido criados por este princípio. É a idéia pueril e boboca de que: 1) Se um tem, todos também devem ter; 2) Só existe um rico porque ele explora um pobre; 3) a soma de todas as pobrezas resulta em riqueza.

Qualquer criança que reflita sobre pobreza e riqueza pode chegar às mesmas conclusões, mas sem termos pomposos como “superestrutura” e “alienação pelo trabalho”. Assim, é difícil um sujeito ser marxista sem ter lido Marx, embora seu pensamento seja simplório, em termos complicadíssimos.

Infelizmente, o mesmo não se dá com Gramsci: o intelectual coletivo” defendido por este autor nada mais é do que forçar a derrota do capitalismo (que seria natural, não revolucionária, em Marx) através de qualquer coisa que vá contra seu “projeto burguês”. Se em Marx não há espaço, senão como espectadores, para o Lumpenproletariat (unterste Gesellschaftsschicht ohne Klassenbewusstsein, ou seja, indivíduos sem consciência de classe, como assaltantes, delinqüentes, prostitutas et caterva), em Gramsci esses são alçados à categoria de “intelectuais”, visto que são um “incômodo” ao capitalismo. Vale tudo para acabar com o liberalismo: mesmo queimar todos os livros de Shakespeare para fumar maconha com o papel.

Tudo, em Gramsci, converge para o Partidão: é o ideal fascista bruto, de que tudo é válido e virtuoso, desde que faça o Partido (o novo Príncipe maquiavélico) vencer. Abandona-se a Klassenbewusstsein, a consciência de classe marxista, e deixa-se que a burocracia tome conta até de nosso pensamento. É facílimo, portanto, ser gramcista sem nunca ter sequer ouvido falar em Gramsci.

É exatamente o que ocorre com a esquerda brasileira: sem poder mais se declarar abertamente socialista, e tendo relações conflituosas com a social-democracia keynesiana, só resta mesmo mandar às favas os escrúpulos de consciência e simplesmente aquilatar o certo e o errado tão-somente pelo que será favorável eleitoralmente ao PT, e maléfico ao PSDB – mesmo que se jure sobre o milho que não é petista.

Vide o atual caso dos aiatolás atômicos apedrejadores.

Enquanto a imprensa mundial elogiava Lula por ter mantido as práticas de seu predecessor, já que outrora sua promessa fora boicotar a dívida e reestatizar companhias que dão muito mais dinheiro ao governo só em impostos sendo privatizadas (e já mostrei como a quitação da dívida com o FMI é uma farsa), os pensadores esquerdistas, nas Universidades, imprensa e onde mais apareciam, macaqueavam o namoro global com Lula (como se FHC não fosse não somente elogiado, como convidado para escrever sobre o mundo em toda essa mesma imprensa). Fingia-se ser um fato único na história desse país: e nossos críticos eruditos da Academia, patetas, acreditavam, mesmo negando o fato.

(Não é de se estranhar, afinal, que a coluna Debates da Folha, que geralmente tem duas pessoas com opiniões diversas, foi trocada por uma página inteira com um tal de Mohsen Shaterzadeh, embaixador do Irã no Brasil, dizendo que o Brasil deu um passo crucial frente às nações “credoras da Segunda Guerra Mundial”, que não ouviram “as grandes nações – a saber, Brasil e Turquia – que, numa postura de respeito aos direitos humanos, configurando a “nova ordem mundial”. Urge comentar?)

Agora, os mesmos conscientes cabeça de plantão entraram em mais um curto-circuito de sinapses: primeiro, acreditando que tudo o que pode ser de bom tem de ser via estatal, como sói à esquerda; depois, defendendo, ao mesmo tempo, direitos humanos, como se apenas o Estado (ou o Partido) pudessem provê-los; por fim, encetando amizade com qualquer facínora com alto grau de demência que vá contra as políticas “conservadoras” e “neoliberais” do que julgam ser a direita – mesmo que estes sejam os campeões em destruir os próprios “direitos humanos” que tanto defendem.

E aí, o que é mais importante para nossos progressitas: criticar um regime que mata mulheres por apedrejamento (enterrando-as até os ombros – ao contrário dos homens, que podem cobrir o rosto com as mãos – para serem alvejadas com pedras pequenas, que não as assassinem imediatamente, numa sevícia que dificilmente termina no inevitável traumatismo craniano em menos de uma hora), podendo render críticas ao Partido em ano eleitoral, ou se calar para não correr risco de render, quiçá, votos para o PSDB?

Não é preciso nem imaginar o que nossa elite progressita, preocupada com o sofrimento do mundo causado pelo capitalismo, preferiu: o silêncio.

Aquelas feministas que acharam o #lingerieday uma opressão de gênero machista, as feministas que culparam a “sociedade machista e paternalista” pelo brutal assassinato de Elisa Samudio (mas, claro, não encontram o mesmo nexo causal quando precisam defender “um pobre” que estupra e retalha), aquelas feministas preferiram não dar um pio sobre essa forma horrenda de “feminicídio”, preferindo causas muito menos urgentes, como passar uma semana pedindo pela liberação do aborto, apenas porque... não podem falar mal dos amiguinhos do Lula.

É preferível

que estatizem a Nintendo e o Google, mas que não obriguem os pensadores a pensar em nome do Partido.

Lula, por sinal, junto a Turquia (que nega o holocausto de 1,5 milhões de armênios e 30 mil curdos, cujo artigo 301 do seu Código Penal foi invocado para perseguir Orhan Pamuk, depois de Salman Rushdie ser alvo de uma fatwa que o condena à pena de morte se descoberto por autoridades islâmicas em qualquer lugar do mundo), fora o único fantoche tosco a facilitar urânio para os mulás cabeças-de-toalha, sob argumento de que o regime que nega o direito de existência do Ocidente (apenas começando por Israel) tem fins “pacíficos”. Baseando-se em... sua amizade, claro. Nossos progressistas e nossas feministas, claro, apostam até agora que ele merece o Nobel da Paz por isso.

Enquanto tal, a Time publicava uma capa com uma menina afegã que teve nariz e orelha cortados pelo regime talibã. A mensagem sobre o que aconteceria se os EUA abandonassem o Afeganistão é até visual. Um de meus progressistas preferidos resolveu abrir o bico, dessa vez. Segundo ele, isso justificaria qualquer invasão. Além de o termo invasão ser usado erroneamente por um escritor (o correto seria ocupação, erro que usam em sinal invertido quando se trata de invadir a reitoria), as Hintergedanken, suas intenções ocultas, são daquele misto de retardismo mental aplicado a um assunto de tamanha seriedade que não deveria ser tratado por crianças: combinação que gera morbidez inescapável.

Seu motejo molha-cama é o de que muitas coisas horríveis acontecem pelo mundo, e os EUA não fazem nada contra. Até entram em relações com a China. E inventa um monte de dados (e até admite a numerologia de estro próprio) para “provar” seu argumento (?!). É a própria chamada “Al Qaeda eletrônica”, como apelidava Reinaldo Azevedo, em ação em nome dos votos na Dilma.

É curioso imaginar como a política externa de Washington e do Ocidente (e até mesmo o Oriente civilizado, como o Japão, que sofre pressões hoje dos próprios americanos para, ora, se remilitarizar, já que a ameaça de fascismo japonês foi enterrada) é baseada em um lobby fortíssimo e mais famoso que a canhotice de Paul McCartney para que os países que queiram se aproveitar de sua forte economia sejam obrigados a serem mais humanitários. O antigo e invocado artigo 150 do código penal turco foi trocado pelo dúbio 301 por pressão da EU, já que a Turquia quer virar européia. Afinal, ouvi dizer por aí que os EUA têm um embargo a Cuba, ou apenas eu sei disso?

Por outro lado, que exigiu toda a minha genialidade e décadas escarafunchando os mais obscuros autores da civilização ocidental para poder chegar a tão altaneiras conclusões, Francis Fukuyama (O Fim da História) e Michael Mandelbaum (The Ideas that Conquered the Word) demonstram que a sociedade liberal é fruto de ao menos 3 séculos de batalhas e conquistas, o fracasso da diplomacia sul-sul e, sobretudo, o fato culminante da história da política externa, resumido pelo filósofo Bem Parker, ao lembrar que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (Amazing Fantasy #15) – ou seja, não importa quantas mulheres foram apedrejadas enquanto FHC estava no poder, ele nunca afagou aiatolás com nervuras nos cornos, nem facilitou urânio para enforcadores de gays só para ser contra os EUA – ser, como se diz, de esquerda, afinal. Só com isso já ganhou a pecha de “neoliberal”, o pior epíteto que se pode ter nessa terra de panacas.

Para defender o Partidão, vale varrer até a aleivosia de “direitos humanos” para debaixo do tapete. Até a demência de comparar a trapalhada nas eleições americanas de 2000 com ser segurada pelo próprio marido (forçado) enquanto seu cunhado lhe corta a faca nariz e orelha. Vale ficar quietinho, fingindo que não é com você, que seu candidato, por quem você abdica a totalidade da sua militância cicladiana, dê uma gaguejada e só peça que Ahmadinejad “mande-a para cá” por ela estar “causando incômodoao seu amiguinho (e negar, claramente, que tenha oferecido asilo à moça). Lapidação? Não é com eles, muito menos assunto a ser tratado em seus Twitters.

Quem diz isso são os dementes encrustados em nossas Universidades, já que ninguém cuida de lhes expulsar a pedradas, que afirmam que nunca votariam em opressores que são contra cotas, esses elitistas selvagens anti-Bolsa Família que moram todos em Higienópolis. O povinho bunda que se acha crítico que acha feio fazer piadas com negros, mulheres, gays e “minorias”, mas acha uma obrigação estatal fazer piada com judeus – e, por sinal, patrocinar regimes que não visam senão a sua extinção.

É a massa de manobra da turma “eu não sou petista, mas...” que se acha a vanguarda do pensamento por ter lido Marcuse, mas é incapaz de perceber que estatizaram e partidarizaram com tal gana sua capacidade de discernir uma pérola de um hipopótamo que agora pensam por legendas – enquanto um analfabeto nunca se submeteria a tal auto-hipnose.

Ser politicamente correto significa estar errado em tudo, mas ao menos fazer seu partido ganhar as eleições.


(leiam também o artigo com título genial de Jackson Diehl no Washington Post – Lula: Stonewalled by Iran)

3 pessoas leram e discordaram:

Carol disse...

Esse povo é amoral.

E a guarda revolucionária iraniana, bem... tudo nego com medinho de mulher semi-nua. Nunca vi.

Bjs e continue o bom trabalho.

Felipe disse...

Ótimo artigo, hahaha. Foi bem no ponto.

Anônimo disse...

O seu texto revela diversos ângulos de uma questão assustadora. Multidões de imbecis caminham alegremente nas bordas de um abismo que, cedo ou tarde, os engulirá. Ninguém se dá conta dos perigos, todos se vendem com despudor (turcos, paquistaneses...) e vendem até mesmo a alma dos filhos. Só falta mesmo o Malucão lançar a bomba sobre Israel. Aí eu quero ver qual será a dimensão do revide. Já pensou?!? / Dennis D.

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domingo, 8 de agosto de 2010

A esquerda e o Irã: A mão que afaga é a mesma que apedreja


De todo o cacarejo marxista, pouco ou nada resta a honrar um arvoricídio para se imprimir livros, mas, para que suas edições continuassem vivas até hoje, o velho alemão foi cuidadoso em criar uma terminologia confusa e atenta a filigranas para dar ares de originalidade à sua obra – de "mais-valia" a "luta de classes" pra baixo.

Com efeito, todo o seu pensamento resume-se apenas a uma fabulazinha panaca: se alguém no mundo possui algo, mesmo que não valha um centavo (como a roupinha do Chaves), foi por ter egoisticamente tomado para si a força, às espensas dos mais fracos – quando, na verdade, deveria ter compartilhado com todos. Todos os sistemas da Humanidade teriam sido criados por este princípio. É a idéia pueril e boboca de que: 1) Se um tem, todos também devem ter; 2) Só existe um rico porque ele explora um pobre; 3) a soma de todas as pobrezas resulta em riqueza.

Qualquer criança que reflita sobre pobreza e riqueza pode chegar às mesmas conclusões, mas sem termos pomposos como “superestrutura” e “alienação pelo trabalho”. Assim, é difícil um sujeito ser marxista sem ter lido Marx, embora seu pensamento seja simplório, em termos complicadíssimos.

Infelizmente, o mesmo não se dá com Gramsci: o intelectual coletivo” defendido por este autor nada mais é do que forçar a derrota do capitalismo (que seria natural, não revolucionária, em Marx) através de qualquer coisa que vá contra seu “projeto burguês”. Se em Marx não há espaço, senão como espectadores, para o Lumpenproletariat (unterste Gesellschaftsschicht ohne Klassenbewusstsein, ou seja, indivíduos sem consciência de classe, como assaltantes, delinqüentes, prostitutas et caterva), em Gramsci esses são alçados à categoria de “intelectuais”, visto que são um “incômodo” ao capitalismo. Vale tudo para acabar com o liberalismo: mesmo queimar todos os livros de Shakespeare para fumar maconha com o papel.

Tudo, em Gramsci, converge para o Partidão: é o ideal fascista bruto, de que tudo é válido e virtuoso, desde que faça o Partido (o novo Príncipe maquiavélico) vencer. Abandona-se a Klassenbewusstsein, a consciência de classe marxista, e deixa-se que a burocracia tome conta até de nosso pensamento. É facílimo, portanto, ser gramcista sem nunca ter sequer ouvido falar em Gramsci.

É exatamente o que ocorre com a esquerda brasileira: sem poder mais se declarar abertamente socialista, e tendo relações conflituosas com a social-democracia keynesiana, só resta mesmo mandar às favas os escrúpulos de consciência e simplesmente aquilatar o certo e o errado tão-somente pelo que será favorável eleitoralmente ao PT, e maléfico ao PSDB – mesmo que se jure sobre o milho que não é petista.

Vide o atual caso dos aiatolás atômicos apedrejadores.

Enquanto a imprensa mundial elogiava Lula por ter mantido as práticas de seu predecessor, já que outrora sua promessa fora boicotar a dívida e reestatizar companhias que dão muito mais dinheiro ao governo só em impostos sendo privatizadas (e já mostrei como a quitação da dívida com o FMI é uma farsa), os pensadores esquerdistas, nas Universidades, imprensa e onde mais apareciam, macaqueavam o namoro global com Lula (como se FHC não fosse não somente elogiado, como convidado para escrever sobre o mundo em toda essa mesma imprensa). Fingia-se ser um fato único na história desse país: e nossos críticos eruditos da Academia, patetas, acreditavam, mesmo negando o fato.

(Não é de se estranhar, afinal, que a coluna Debates da Folha, que geralmente tem duas pessoas com opiniões diversas, foi trocada por uma página inteira com um tal de Mohsen Shaterzadeh, embaixador do Irã no Brasil, dizendo que o Brasil deu um passo crucial frente às nações “credoras da Segunda Guerra Mundial”, que não ouviram “as grandes nações – a saber, Brasil e Turquia – que, numa postura de respeito aos direitos humanos, configurando a “nova ordem mundial”. Urge comentar?)

Agora, os mesmos conscientes cabeça de plantão entraram em mais um curto-circuito de sinapses: primeiro, acreditando que tudo o que pode ser de bom tem de ser via estatal, como sói à esquerda; depois, defendendo, ao mesmo tempo, direitos humanos, como se apenas o Estado (ou o Partido) pudessem provê-los; por fim, encetando amizade com qualquer facínora com alto grau de demência que vá contra as políticas “conservadoras” e “neoliberais” do que julgam ser a direita – mesmo que estes sejam os campeões em destruir os próprios “direitos humanos” que tanto defendem.

E aí, o que é mais importante para nossos progressitas: criticar um regime que mata mulheres por apedrejamento (enterrando-as até os ombros – ao contrário dos homens, que podem cobrir o rosto com as mãos – para serem alvejadas com pedras pequenas, que não as assassinem imediatamente, numa sevícia que dificilmente termina no inevitável traumatismo craniano em menos de uma hora), podendo render críticas ao Partido em ano eleitoral, ou se calar para não correr risco de render, quiçá, votos para o PSDB?

Não é preciso nem imaginar o que nossa elite progressita, preocupada com o sofrimento do mundo causado pelo capitalismo, preferiu: o silêncio.

Aquelas feministas que acharam o #lingerieday uma opressão de gênero machista, as feministas que culparam a “sociedade machista e paternalista” pelo brutal assassinato de Elisa Samudio (mas, claro, não encontram o mesmo nexo causal quando precisam defender “um pobre” que estupra e retalha), aquelas feministas preferiram não dar um pio sobre essa forma horrenda de “feminicídio”, preferindo causas muito menos urgentes, como passar uma semana pedindo pela liberação do aborto, apenas porque... não podem falar mal dos amiguinhos do Lula.

É preferível

que estatizem a Nintendo e o Google, mas que não obriguem os pensadores a pensar em nome do Partido.

Lula, por sinal, junto a Turquia (que nega o holocausto de 1,5 milhões de armênios e 30 mil curdos, cujo artigo 301 do seu Código Penal foi invocado para perseguir Orhan Pamuk, depois de Salman Rushdie ser alvo de uma fatwa que o condena à pena de morte se descoberto por autoridades islâmicas em qualquer lugar do mundo), fora o único fantoche tosco a facilitar urânio para os mulás cabeças-de-toalha, sob argumento de que o regime que nega o direito de existência do Ocidente (apenas começando por Israel) tem fins “pacíficos”. Baseando-se em... sua amizade, claro. Nossos progressistas e nossas feministas, claro, apostam até agora que ele merece o Nobel da Paz por isso.

Enquanto tal, a Time publicava uma capa com uma menina afegã que teve nariz e orelha cortados pelo regime talibã. A mensagem sobre o que aconteceria se os EUA abandonassem o Afeganistão é até visual. Um de meus progressistas preferidos resolveu abrir o bico, dessa vez. Segundo ele, isso justificaria qualquer invasão. Além de o termo invasão ser usado erroneamente por um escritor (o correto seria ocupação, erro que usam em sinal invertido quando se trata de invadir a reitoria), as Hintergedanken, suas intenções ocultas, são daquele misto de retardismo mental aplicado a um assunto de tamanha seriedade que não deveria ser tratado por crianças: combinação que gera morbidez inescapável.

Seu motejo molha-cama é o de que muitas coisas horríveis acontecem pelo mundo, e os EUA não fazem nada contra. Até entram em relações com a China. E inventa um monte de dados (e até admite a numerologia de estro próprio) para “provar” seu argumento (?!). É a própria chamada “Al Qaeda eletrônica”, como apelidava Reinaldo Azevedo, em ação em nome dos votos na Dilma.

É curioso imaginar como a política externa de Washington e do Ocidente (e até mesmo o Oriente civilizado, como o Japão, que sofre pressões hoje dos próprios americanos para, ora, se remilitarizar, já que a ameaça de fascismo japonês foi enterrada) é baseada em um lobby fortíssimo e mais famoso que a canhotice de Paul McCartney para que os países que queiram se aproveitar de sua forte economia sejam obrigados a serem mais humanitários. O antigo e invocado artigo 150 do código penal turco foi trocado pelo dúbio 301 por pressão da EU, já que a Turquia quer virar européia. Afinal, ouvi dizer por aí que os EUA têm um embargo a Cuba, ou apenas eu sei disso?

Por outro lado, que exigiu toda a minha genialidade e décadas escarafunchando os mais obscuros autores da civilização ocidental para poder chegar a tão altaneiras conclusões, Francis Fukuyama (O Fim da História) e Michael Mandelbaum (The Ideas that Conquered the Word) demonstram que a sociedade liberal é fruto de ao menos 3 séculos de batalhas e conquistas, o fracasso da diplomacia sul-sul e, sobretudo, o fato culminante da história da política externa, resumido pelo filósofo Bem Parker, ao lembrar que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (Amazing Fantasy #15) – ou seja, não importa quantas mulheres foram apedrejadas enquanto FHC estava no poder, ele nunca afagou aiatolás com nervuras nos cornos, nem facilitou urânio para enforcadores de gays só para ser contra os EUA – ser, como se diz, de esquerda, afinal. Só com isso já ganhou a pecha de “neoliberal”, o pior epíteto que se pode ter nessa terra de panacas.

Para defender o Partidão, vale varrer até a aleivosia de “direitos humanos” para debaixo do tapete. Até a demência de comparar a trapalhada nas eleições americanas de 2000 com ser segurada pelo próprio marido (forçado) enquanto seu cunhado lhe corta a faca nariz e orelha. Vale ficar quietinho, fingindo que não é com você, que seu candidato, por quem você abdica a totalidade da sua militância cicladiana, dê uma gaguejada e só peça que Ahmadinejad “mande-a para cá” por ela estar “causando incômodoao seu amiguinho (e negar, claramente, que tenha oferecido asilo à moça). Lapidação? Não é com eles, muito menos assunto a ser tratado em seus Twitters.

Quem diz isso são os dementes encrustados em nossas Universidades, já que ninguém cuida de lhes expulsar a pedradas, que afirmam que nunca votariam em opressores que são contra cotas, esses elitistas selvagens anti-Bolsa Família que moram todos em Higienópolis. O povinho bunda que se acha crítico que acha feio fazer piadas com negros, mulheres, gays e “minorias”, mas acha uma obrigação estatal fazer piada com judeus – e, por sinal, patrocinar regimes que não visam senão a sua extinção.

É a massa de manobra da turma “eu não sou petista, mas...” que se acha a vanguarda do pensamento por ter lido Marcuse, mas é incapaz de perceber que estatizaram e partidarizaram com tal gana sua capacidade de discernir uma pérola de um hipopótamo que agora pensam por legendas – enquanto um analfabeto nunca se submeteria a tal auto-hipnose.

Ser politicamente correto significa estar errado em tudo, mas ao menos fazer seu partido ganhar as eleições.


(leiam também o artigo com título genial de Jackson Diehl no Washington Post – Lula: Stonewalled by Iran)

3 pessoas leram e discordaram:

Carol on 10 de agosto de 2010 15:41 disse...

Esse povo é amoral.

E a guarda revolucionária iraniana, bem... tudo nego com medinho de mulher semi-nua. Nunca vi.

Bjs e continue o bom trabalho.

Felipe on 15 de agosto de 2010 08:31 disse...

Ótimo artigo, hahaha. Foi bem no ponto.

Anônimo disse...

O seu texto revela diversos ângulos de uma questão assustadora. Multidões de imbecis caminham alegremente nas bordas de um abismo que, cedo ou tarde, os engulirá. Ninguém se dá conta dos perigos, todos se vendem com despudor (turcos, paquistaneses...) e vendem até mesmo a alma dos filhos. Só falta mesmo o Malucão lançar a bomba sobre Israel. Aí eu quero ver qual será a dimensão do revide. Já pensou?!? / Dennis D.

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