sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Datena: de crimes, moral e Darwin

"Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem" - Salmos 14:1

A maior quizumba da semana passada, sem notícias de Britney Spears ou algum ex-BBB, foi o apresentador José Luiz Datena (deve ser da Record, por ser crente, mas não averigüei a informação) indignado com a existência de ateus, após receber mais de mil ligações em seu programa (quem, meu sagrado caralho, ligara pra lá?!?!) lhe informando que não acreditavam em Deus. O apresentador passou, então, cerca de meia hora praticando os crimes de injúria, calúnia, difamação, faniquito, viadice, alarmismo e atentado violento ao pudor (ao menos a estes olhos que a terra há de comer) contra essa classe de seres humanos.

[nota aos rotos juristas que me estão a ler à cata de ensejos para processos: eu sei que não se imputa os crimes de injúria, calúnia e difamação a uma classe inteira de indivíduos como "os ateus"; infelizmente, não é com a mesma facilidade de uma canetada que é possível fazer com que Vossas Excelências entendam uma ironia antes de dar cabo à lista cometendo os crimes de faniquito e viadice.]

Se a barriga pândega de um Datena considera que só "quem não tem Deus no coração" pode cometer esses crimes bárbaros que vemos por aí, não é bazófia a dar cabo e circunstância a uma reflexão privativa (atenção ao trocadalho) de qualquer bípede.

Poder-se-ia argumentar que 75% da população carcerária americana se declara religiosa e crente em Deus - apenas 0,2% se declaram ateus ou agnósticos (na população em geral eles já representariam cerca de 10%), enquanto 65% dos presos brasileiros são evangélicos, e o total de crentes em Deus sobe a 98% - o que torna os budistas praticamente santos nesse país (já que numa pesquisa S/N sobre acreditarem em Deus, atrair-se-iam pelo "não"), enquanto o ateísmo cresce mais abertamente entre a população universitária, sendo que 40% dos cientistas declaram não possuir religião...

Mas isso seria tão inútil quanto uma faca cega sem cabo ou assistir ao seu programa. Um espantalho presunçoso como ele deveria saber sobre esses dados criminológicos, visto seu programa tratar, oras, de crimes - não fosse o fato de seu "trabalho" ser andar feito barata tonta pelo estúdio gritando contra o que nem é capaz de compreender na tela.

Não despiciendo notar, também, que o mesmo Datena Deus No Coração fora preso em Roma, na cobertura da Copa de 90, por aparecer no Coliseu vestido de Nero, com um isqueiro aceso na mão. Conhece ateu sem respeito à civilização clássica que praticaria tal pantomima pateta em um dos berços de nossa civilização?

É claro que a logorréia televisiva foi apenas para agraciar os bispos da emissora (já que "pauta" não é exatamente o forte de seu programa circo de horrores) e poder pedir um aumento no michê. E caso o apresentador não seja da Record (não peçam a este escriba para googlar), a idéia ainda se aplica - apenas estaria pedindo um apartamento melhor no além-túmulo, com vista para o Éden. Nada mereceria maior atenção.

O problema é que, a despeito dos fatos e estatísticas, a maioria dos cristãos pensa mesmo assim. E não falo apenas do crente de periferia nem das senhoras católicas que também acreditaram em Getúlio Vargas - até aquele seu amigo crente que lê Aquino em latim guarda um Dateninha no coração.

Ora, cristãos orgulham-se de seguirem a religião que moldou o Ocidente. Tal fato precisa de sobejantes cargas de desonestidade intelectual para ser levado a sério: os choques culturais foram vários, e o que fez o Cristianismo sobreviver foi sua capacidade em sincretizar elementos seculares para se tornar mais palatável - ou seja, justamente, o fato de que, bem antes da Revolução Carismática Católica, as igrejas cada vez mais se parecerem com o mundo lá fora.

Basta pensar em como os cristãos sincretizaram aspectos da religião celta para conviver com os druidas no Reino Unido, que já possuíam até elementos como a Cruz e uma Trindade Divina (cf. o trabalho do historiador Michel Treguer). Em como a patrística e, posteriormente, a escolástica tomaram filósofos pagãos antigos como seus patronos, cristianizando conceitos platônicos e aristotélicos. Em como, afinal, a Igreja, paulatinamente, foi tendo de se adequar aos conceitos de democracia, liberdade de expressão, Estado laico, ciência, darwinismo et caetera et caetera.

Nada disso veio dela. E antes que os cristãos neoescolásticos atirem a primeira pedra (ou, melhor dizendo, já que isso é coisa de muçulmano: acendam a primeira fogueira), urge lembrar que o suposto incentivo da escolástica à discutio na Universidade medieval (que, afinal, não deixa de ser uma cópia cristã em forma de instituição social da elitista Academia platônica) se devia sobretudo a afirmar o poderio da Igreja. Basta ver o destino de perseguição que tiveram mesmo cristãos que, usando a maldita ratio, chegaram a conclusões que iam de encontro aos preconceitos retardados da Igreja: os exemplos enfezados vão de Abelardo, Galileu e Giordano Bruno a DeMolay, Miguel Servet e Beccaria.

Não custa também lembrar o quanto essa Igreja preocupada com a "razão" e a "discussão" foi responsável pela destruição sistemática de obras que, afinal, definiriam o Ocidente e que poderiam ter nos legado um Newton no séc. III, talvez um Darwin no séc. V ou VI - e em que estágio estaríamos hoje? (para mais detalhes, cf. Rudolph Pfeiffer, History of Classical Scholarship, 1976).

Também é forçoso pensar como e por que o Japão, um dos países mais cultos, civilizados e seguros do mundo, nunca aceitou de braços abertos o dogma cristão.

A moda entre a intelligentsia cristã é aproveitar que proeminentes intelectuais conservadores são cristãos (ainda mais no Brasil, onde praticamente não há intelectuais seculares com verve para o debate que não tendam para a esquerda doidivanas) para, assim, definir que foram eles, sozinhos, que definiram os valores do Ocidente. Como se a Igreja, sem nada que barrasse e fosse frontalmente de encontro aos seus valores, fosse capaz de erigir o mundo de liberdade, progresso e tecnologia que temos ao redor. É a própria idéia hegeliana vagabunda de que a História, entendida como o resultado da força-motriz do próprio Espírito Divino, irrefreavelmente tem seu fim no Estado moderno.

Os valores ocidentais são infinitamente superiores aos das "eternas tiranias asiáticas" (como afirmava Ortega y Gasset) não por serem cristãos - ou, como já vi um bocó dono do blog Neo-Ateísmo, Um Delírio afirmando, porque pessoas seculares tomaram para si valores cristãos. Não foi o "não matarás" que diminuiu os assassinatos - até os sanguinários bárbaros vikings tinham um código de ética rigoroso para assassinos, que eram afogados nos pântanos ou enforcados no ponto mais visível das cidades. Não devemos às tábuas dos mandamentos o baixo número de assaltos nas ruas de Tokyo. Nem ao "amai-vos uns aos outros" o menor índice de divórcios entre ateus do que entre cristãos!

Há estudos sobejantes de psicologia evolucionista explicando como nosso cérebro funciona - com provas às mancheias para quem quiser ver, ao invés de apenas confiar no seu televangelista crente preferido. Há coisas que já estão pré-definidas em nosso código genético, pois servem para nossa segurança e desenvolvimento: direito à propriedade, medo de cobras, poesia (o que inclui a própria estesia poética), associação da cor vermelha com o perigo e por aí vai.

Os fatos demonstram o óbvio: todos temos ética porque somos os únicos seres 100% sociais conhecidos (sem uma sociedade humana, ademais, um Homo sapiens sequer cresce sabendo que é humano, enquanto um lobo criado entre cordeiros crescerá sabendo-se lobo), e isso faz com que tenhamos espaço para criar, em nossa mente, um conjunto de regras conforme nossas experiências com o mundo permitam-nos reconhecer, de antemão, a reação que ele terá às nossas ações (afinal, não vamos ficando mais reacionários com o passar dos anos?).

Mas os geniais filósofos neotomistas ainda são incapazes de notar que nosso cérebro encara como sendo do mesmo gênero a lei que pune assassinatos da lei que exige fios encapados nas ruas - ambas têm origem em algum fato remoto que mostrou como é ruim matar e como é ruim levar choques, e, sendo ambos os fatos desagradáveis, vamos sempre preferir viver em uma sociedade sabendo que os valores em voga buscam evitar isso.

A psicologia evolucionista, afinal, também deve-se a Darwin. Mas, tendo suas contribuições um nome estigmatizado como "darwinismo social", ainda há um preconceito demente que a associa ao horror nazista. Vi, há alguns meses, até Diogo Mainardi (cujo ateísmo é público) afirmar, no Manhattan Connection, que darwinismo "demais" (?!) também é nocivo, pela idéia da eugenia (que, ademais, nem possui ligação direta com o nazismo como afirmam).

Mas ora, se há uma prova científica de que o racismo deve ser evitado é o darwinismo - espécies que não se misturam têm chance maior de serem completamente exterminadas assim que o ambiente muda (exemplos abundam). Se os nazistas estivessem certos em seu "darwinismo em excesso", a única conclusão que poderíamos ter hoje é de que os arianos são mesmo a raça superior - quando aplicar Darwin mostra que: 1) arianos não existem mais há muito; 2) o termo "raça" empregado está errado (pode haver mais semelhança genética entre um sueco e um abissínio do que entre dois suecos); 3) mais de 99% (os números são esses mesmo) das mutações são maléficas, vide o tanto de doenças que surgem o tempo todo - e, afinal, pele branca apenas mostra que perdemos melanina, e não que ganhamos algo via mutação.

Note-se, ademais, que a psicologia evolucionista também explica, afinal, por que o racismo existe: há uma forte tendência a querermos nos associar com nosso grupo e termos respaldo com o estrangeiro. Mas, novamente, os cristãos não ainda pararam pra pensar por que o cérebro acata tão bem a idéia de "família" que permitiu ao Cristianismo (e outras religiões) prosperar, assim como, pelo mesmíssimo mecanismo, vê de maneira distinta um estranho e um conhecido num beco à noite, e reage de maneiras diversas.

Uma moral que defina ações pérfidas (e sequer as reconheça como tal) como crimes, afinal, entrou no nosso cérebro de maneira que cada vez mais compreendemos sem precisar de mágica celeste. Se algum cristão ainda duvida disso, por favor, na próxima enxaqueca, prefiram um padre a usar uma aspirina. E lembrem-se de que cosmovisão cada uma das alternativas deriva.

3 pessoas leram e discordaram:

Yuri S. C. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gomes disse...

Na verdade, Datena trabalha na Rede Bandeirantes. Já trabalhou na Record.

Cris disse...

"não é com a mesma facilidade de uma canetada que é possível fazer com que Vossas Excelências entendam uma ironia antes de dar cabo à lista cometendo os crimes de faniquito e viadice." hahaha muito bom

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Datena: de crimes, moral e Darwin


"Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem" - Salmos 14:1

A maior quizumba da semana passada, sem notícias de Britney Spears ou algum ex-BBB, foi o apresentador José Luiz Datena (deve ser da Record, por ser crente, mas não averigüei a informação) indignado com a existência de ateus, após receber mais de mil ligações em seu programa (quem, meu sagrado caralho, ligara pra lá?!?!) lhe informando que não acreditavam em Deus. O apresentador passou, então, cerca de meia hora praticando os crimes de injúria, calúnia, difamação, faniquito, viadice, alarmismo e atentado violento ao pudor (ao menos a estes olhos que a terra há de comer) contra essa classe de seres humanos.

[nota aos rotos juristas que me estão a ler à cata de ensejos para processos: eu sei que não se imputa os crimes de injúria, calúnia e difamação a uma classe inteira de indivíduos como "os ateus"; infelizmente, não é com a mesma facilidade de uma canetada que é possível fazer com que Vossas Excelências entendam uma ironia antes de dar cabo à lista cometendo os crimes de faniquito e viadice.]

Se a barriga pândega de um Datena considera que só "quem não tem Deus no coração" pode cometer esses crimes bárbaros que vemos por aí, não é bazófia a dar cabo e circunstância a uma reflexão privativa (atenção ao trocadalho) de qualquer bípede.

Poder-se-ia argumentar que 75% da população carcerária americana se declara religiosa e crente em Deus - apenas 0,2% se declaram ateus ou agnósticos (na população em geral eles já representariam cerca de 10%), enquanto 65% dos presos brasileiros são evangélicos, e o total de crentes em Deus sobe a 98% - o que torna os budistas praticamente santos nesse país (já que numa pesquisa S/N sobre acreditarem em Deus, atrair-se-iam pelo "não"), enquanto o ateísmo cresce mais abertamente entre a população universitária, sendo que 40% dos cientistas declaram não possuir religião...

Mas isso seria tão inútil quanto uma faca cega sem cabo ou assistir ao seu programa. Um espantalho presunçoso como ele deveria saber sobre esses dados criminológicos, visto seu programa tratar, oras, de crimes - não fosse o fato de seu "trabalho" ser andar feito barata tonta pelo estúdio gritando contra o que nem é capaz de compreender na tela.

Não despiciendo notar, também, que o mesmo Datena Deus No Coração fora preso em Roma, na cobertura da Copa de 90, por aparecer no Coliseu vestido de Nero, com um isqueiro aceso na mão. Conhece ateu sem respeito à civilização clássica que praticaria tal pantomima pateta em um dos berços de nossa civilização?

É claro que a logorréia televisiva foi apenas para agraciar os bispos da emissora (já que "pauta" não é exatamente o forte de seu programa circo de horrores) e poder pedir um aumento no michê. E caso o apresentador não seja da Record (não peçam a este escriba para googlar), a idéia ainda se aplica - apenas estaria pedindo um apartamento melhor no além-túmulo, com vista para o Éden. Nada mereceria maior atenção.

O problema é que, a despeito dos fatos e estatísticas, a maioria dos cristãos pensa mesmo assim. E não falo apenas do crente de periferia nem das senhoras católicas que também acreditaram em Getúlio Vargas - até aquele seu amigo crente que lê Aquino em latim guarda um Dateninha no coração.

Ora, cristãos orgulham-se de seguirem a religião que moldou o Ocidente. Tal fato precisa de sobejantes cargas de desonestidade intelectual para ser levado a sério: os choques culturais foram vários, e o que fez o Cristianismo sobreviver foi sua capacidade em sincretizar elementos seculares para se tornar mais palatável - ou seja, justamente, o fato de que, bem antes da Revolução Carismática Católica, as igrejas cada vez mais se parecerem com o mundo lá fora.

Basta pensar em como os cristãos sincretizaram aspectos da religião celta para conviver com os druidas no Reino Unido, que já possuíam até elementos como a Cruz e uma Trindade Divina (cf. o trabalho do historiador Michel Treguer). Em como a patrística e, posteriormente, a escolástica tomaram filósofos pagãos antigos como seus patronos, cristianizando conceitos platônicos e aristotélicos. Em como, afinal, a Igreja, paulatinamente, foi tendo de se adequar aos conceitos de democracia, liberdade de expressão, Estado laico, ciência, darwinismo et caetera et caetera.

Nada disso veio dela. E antes que os cristãos neoescolásticos atirem a primeira pedra (ou, melhor dizendo, já que isso é coisa de muçulmano: acendam a primeira fogueira), urge lembrar que o suposto incentivo da escolástica à discutio na Universidade medieval (que, afinal, não deixa de ser uma cópia cristã em forma de instituição social da elitista Academia platônica) se devia sobretudo a afirmar o poderio da Igreja. Basta ver o destino de perseguição que tiveram mesmo cristãos que, usando a maldita ratio, chegaram a conclusões que iam de encontro aos preconceitos retardados da Igreja: os exemplos enfezados vão de Abelardo, Galileu e Giordano Bruno a DeMolay, Miguel Servet e Beccaria.

Não custa também lembrar o quanto essa Igreja preocupada com a "razão" e a "discussão" foi responsável pela destruição sistemática de obras que, afinal, definiriam o Ocidente e que poderiam ter nos legado um Newton no séc. III, talvez um Darwin no séc. V ou VI - e em que estágio estaríamos hoje? (para mais detalhes, cf. Rudolph Pfeiffer, History of Classical Scholarship, 1976).

Também é forçoso pensar como e por que o Japão, um dos países mais cultos, civilizados e seguros do mundo, nunca aceitou de braços abertos o dogma cristão.

A moda entre a intelligentsia cristã é aproveitar que proeminentes intelectuais conservadores são cristãos (ainda mais no Brasil, onde praticamente não há intelectuais seculares com verve para o debate que não tendam para a esquerda doidivanas) para, assim, definir que foram eles, sozinhos, que definiram os valores do Ocidente. Como se a Igreja, sem nada que barrasse e fosse frontalmente de encontro aos seus valores, fosse capaz de erigir o mundo de liberdade, progresso e tecnologia que temos ao redor. É a própria idéia hegeliana vagabunda de que a História, entendida como o resultado da força-motriz do próprio Espírito Divino, irrefreavelmente tem seu fim no Estado moderno.

Os valores ocidentais são infinitamente superiores aos das "eternas tiranias asiáticas" (como afirmava Ortega y Gasset) não por serem cristãos - ou, como já vi um bocó dono do blog Neo-Ateísmo, Um Delírio afirmando, porque pessoas seculares tomaram para si valores cristãos. Não foi o "não matarás" que diminuiu os assassinatos - até os sanguinários bárbaros vikings tinham um código de ética rigoroso para assassinos, que eram afogados nos pântanos ou enforcados no ponto mais visível das cidades. Não devemos às tábuas dos mandamentos o baixo número de assaltos nas ruas de Tokyo. Nem ao "amai-vos uns aos outros" o menor índice de divórcios entre ateus do que entre cristãos!

Há estudos sobejantes de psicologia evolucionista explicando como nosso cérebro funciona - com provas às mancheias para quem quiser ver, ao invés de apenas confiar no seu televangelista crente preferido. Há coisas que já estão pré-definidas em nosso código genético, pois servem para nossa segurança e desenvolvimento: direito à propriedade, medo de cobras, poesia (o que inclui a própria estesia poética), associação da cor vermelha com o perigo e por aí vai.

Os fatos demonstram o óbvio: todos temos ética porque somos os únicos seres 100% sociais conhecidos (sem uma sociedade humana, ademais, um Homo sapiens sequer cresce sabendo que é humano, enquanto um lobo criado entre cordeiros crescerá sabendo-se lobo), e isso faz com que tenhamos espaço para criar, em nossa mente, um conjunto de regras conforme nossas experiências com o mundo permitam-nos reconhecer, de antemão, a reação que ele terá às nossas ações (afinal, não vamos ficando mais reacionários com o passar dos anos?).

Mas os geniais filósofos neotomistas ainda são incapazes de notar que nosso cérebro encara como sendo do mesmo gênero a lei que pune assassinatos da lei que exige fios encapados nas ruas - ambas têm origem em algum fato remoto que mostrou como é ruim matar e como é ruim levar choques, e, sendo ambos os fatos desagradáveis, vamos sempre preferir viver em uma sociedade sabendo que os valores em voga buscam evitar isso.

A psicologia evolucionista, afinal, também deve-se a Darwin. Mas, tendo suas contribuições um nome estigmatizado como "darwinismo social", ainda há um preconceito demente que a associa ao horror nazista. Vi, há alguns meses, até Diogo Mainardi (cujo ateísmo é público) afirmar, no Manhattan Connection, que darwinismo "demais" (?!) também é nocivo, pela idéia da eugenia (que, ademais, nem possui ligação direta com o nazismo como afirmam).

Mas ora, se há uma prova científica de que o racismo deve ser evitado é o darwinismo - espécies que não se misturam têm chance maior de serem completamente exterminadas assim que o ambiente muda (exemplos abundam). Se os nazistas estivessem certos em seu "darwinismo em excesso", a única conclusão que poderíamos ter hoje é de que os arianos são mesmo a raça superior - quando aplicar Darwin mostra que: 1) arianos não existem mais há muito; 2) o termo "raça" empregado está errado (pode haver mais semelhança genética entre um sueco e um abissínio do que entre dois suecos); 3) mais de 99% (os números são esses mesmo) das mutações são maléficas, vide o tanto de doenças que surgem o tempo todo - e, afinal, pele branca apenas mostra que perdemos melanina, e não que ganhamos algo via mutação.

Note-se, ademais, que a psicologia evolucionista também explica, afinal, por que o racismo existe: há uma forte tendência a querermos nos associar com nosso grupo e termos respaldo com o estrangeiro. Mas, novamente, os cristãos não ainda pararam pra pensar por que o cérebro acata tão bem a idéia de "família" que permitiu ao Cristianismo (e outras religiões) prosperar, assim como, pelo mesmíssimo mecanismo, vê de maneira distinta um estranho e um conhecido num beco à noite, e reage de maneiras diversas.

Uma moral que defina ações pérfidas (e sequer as reconheça como tal) como crimes, afinal, entrou no nosso cérebro de maneira que cada vez mais compreendemos sem precisar de mágica celeste. Se algum cristão ainda duvida disso, por favor, na próxima enxaqueca, prefiram um padre a usar uma aspirina. E lembrem-se de que cosmovisão cada uma das alternativas deriva.

3 pessoas leram e discordaram:

Yuri S. C. on 14 de agosto de 2010 17:31 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gomes on 17 de setembro de 2010 14:53 disse...

Na verdade, Datena trabalha na Rede Bandeirantes. Já trabalhou na Record.

Cris disse...

"não é com a mesma facilidade de uma canetada que é possível fazer com que Vossas Excelências entendam uma ironia antes de dar cabo à lista cometendo os crimes de faniquito e viadice." hahaha muito bom

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