sexta-feira, 16 de julho de 2010

Malthus analisa a web 2.0

Por bizarro que pareça, ainda conheço bípedes mesozóicos que não têm blog, não ouvem nenhum podcast, desconhecem quem sejam Cardoso, Inagaki e Interney, não sabem pra que o Twitter serve, vivem à margem da sociedade sem um perfil no Facebook, não sabem o que é um Feed, procuram emprego no jornal de domingo ao invés de no LinkedIn (se é que alguém procura emprego no LinkedIn), não acompanham bug a bug o lançamento do novo iPhone, não jogaram Tibia e, oh horror, nunca ouviram falar em vlogger.

A bem da verdade, gosto de ser um caboclo antenado, que já sabe das notícias antes mesmo de que elas sejam publicadas no site da Folha (e hoje são raras as notícias que são publicadas por lá a trazer algo que o Twitter não saiba), tudo isto bem concatenado com noites varadas madrugada adentro, cansando meus olhos entre a esmerada leitura dos clássicos e os melhores canais do Pornotube. Inobstante, hei de admitir o quanto me sinto mais vivo ao levantar impertérrito a minha carteirinha dos que não sabem o que caralhos é um vlogger. Não que tenha coisa muito mais intessante a ser feita cumprimentando os vizinhos, naturalmente – mas é cada vez mais difícil se manter um completo alienado quando há tanta informação que nos obriga a sermos gênios.

É o que nos deixa com saudade daquela época em que uma moda era apenas uma moda, e não uma hype, que as notícias se alastravam por meios caquéticos como a televisão, sem memes que anunciam falsas mortes a cada dia. E em que podíamos estar apenas de saco cheio, sem denunciar a vibe aos sete mares.

Mas o fato mais conspícuo desde que os computadores incoaram sua marcha de popularização em direção ao Dia do Julgamento Final é que, armas fabricadas por engenheiros, matemáticos, cientistas e outras criaturas esquisitas, tais invenções passaram a medir o mundo por números – e tal efeito, paradoxalmente, passa tacitamente debaixo do nariz de todos os interneteiros, hoje.

Antigamente (antes de meados de 2005), havia duas classes de pessoas: as populares e as outras (que aglutinava desde tímidos até esquisitões góticos, estes últimos com picos modistas que lhes tornavam uma versão monocromática e desatualizada dos populares). Tudo era medido exatamente assim, no olhômetro.

Não era muito diferente nos rincões binários da internet. Não se possuía amigos no chat do Uol ou do Terra (e da época em que este se chamava "Zaz") – havia a chance de ser tão batido nas mesmas salas que se acabava cumprimentando as mesmas figurinhas carimbadas, mas isso dependeria do horário e, caso não houvesse sectários conhecidos presentes, era só ficar na sua e ninguém notava sua popularidade ou falta dela. Sua lista de ICQ era privada, e seu grau de popularidade permanecia uma variável que nem sua professora de matemática descobriria (aliás, muito menos ela).

Apesar de manter a privacidade da lista, o MSN veio para interferir nesta equação. Poucos foram os que se perguntaram qual a motivação do sucesso do MSN sobre o ICQ. Mandar mensagens apenas com Enter? Eu sempre odiei isso, e nada que um Shift + Enter não fizesse no ICQ. Visual modernoso, seguindo preceitos da Bauhaus? Insuficiente. O perfil no Windows Live que nunca ninguém usou? Perde feio para o ICQ. Para descontar os milhares de problemas com conexão que o MSN possui, só mesmo um fator garantiria sua primazia: putaria. Com fotos de fácil acesso e possibilidade de transmissão de imagens pela webcam, praticar libidinagens é muito mais prático com o MSN – o que gerou uma carrada de demissões de funcionários apresados em flagrante em sua baia, esganando o malandro feito chimpanzés.

Mas a grande mudança veio mesmo com o orkut. Ter um perfil público indicando quantos amigos o caboclo possuía foi o golpe de misericórdia na numerização da vida virtual. Ter contato com apenas 80 pessoas só poderia indicar timidez mórbida, gordice corrosiva ou pigolim retraído. Havia uma proibição tácita de fazer parte de mais comunidades do que seu número absoluto de amigos. E a taxação era ainda mais cruel: o perfil indicava, em porcentagem, quanto os amigos do zé-goiaba o consideravam cool, quanto era trusty e, prends pitié de ma longue misère!, quanto o indivíduo era sexy.

Não demorou nada para que surgisse um verdadeiro escambo de karma. Perfis fakes surgiram a priori para corrigir fragorosas falhas numéricas em perfis-matriz. Ninguém poderia ser apenas 80% sexy, conquanto seu maior inimigo fosse 90%. Putinhas de internet pululavam arrogando-se "donas do Orkut" (sic) por conseguirem o inalcançável 100% sexy. Muito pior do que ser dono de um perfil desprovido de testimonials elogiosos (o que rapididissimamente caiu em desuso, pois num mundo com Hesíodo e Marlowe, é fácil achar algo melhor para se ler), nada poderia atentar mais a favor das razões para o suicídio de um cara-pálida do que cair para 70% sexy – quando os verdadeiros losers eternamente se contentaram em ficar abaixo da nota de corte para o abate.

Foram anos com mudanças que só pioraram a rede para tentar resgatar aquelas réstias de privacidade, o naco de opacidade que nos permitissem sermos feios, chatos, burros ou vagaranhas despudoradas sem receio com o futuro do presente, como o bloqueio de álbuns e de scrapbook. Mas 99% do rebuliço de que o orkut se fez capaz desde então foi o único movimento contrário: o famoso BINA de perfil, o mecanismo que o fez registrar quem havia bisbilhotado o seu perfil. O resto apenas cuidou de dar os tiros de misericórdia na rede – que morreu, sabe-se, devido à invasão brasileira, que destruía a possibilidade de uma comunicação mínima em qualquer comunidade.

Então chegamos a essa época do Twitter. O que é o Twitter, que não funciona como uma comunidade de tema específico no orkut, senão a maximização dessa aquilatação do valor individual em números?

Aqui é feio ter poucos seguidores (mesmo que você tenha entrado no Twitter anteontem). Sem comunidades-nicho organizadoras por tópicos, a fama corre pela rede anarquicamente. Mesmo seguindo apenas bons conteudistas, é inevitável ser informado das quizumbas protagonizadas por novos famosos instantâneos – ou, inversamente, descobrir como é o concatenamento lógico de famosos oldschool sem um script decorado.

Aliada a blogs, podcasts e agora vloggers, a busca desenfreada pela fama se tornou obrigação (alguns ultrapassam rapidamente aqueles que fizeram sua fama via orkut, como Gordonerd e suas mil comunidades). Nunca foi tão fácil ser famoso: há até script pra isso (o que foi mote, ademais, da capa da Info que me deu barato). A linha limítrofe entre famosos e o populacho não poderia ser mais fina – basta agora o botão reply.

Como, agora, diferenciar os famosos tr00, os famosos de raiz, daqueles de fama instantânea, que dura menos do que um BBB (ou durava, antes de cooptarem twitteiros na última edição)? Como todos os problemas hodiernos, a solução encontra-se em Malthus.

É fácil encontrar bons blogs sabendo procurar, descobrir pessoas com bom conteúdo mais de 8 horas por dia no Twitter – ao invés de seguir famosos (sejam de qualquer uma das vertentes) que apenas informam quando estão almoçando ou por onde passaram o sabonete – basta um tempo de pesquisa. Mas estes são raros, é a minoria alumiada e que faz poucos discípulos – apenas mantém o número atual para a próxima geração. É uma seita minoritária que, tendo em mãos o mais poderoso mecanismo de transmissão de informação e de videos de dupla penetração da história da humanidade, faz algo que presta com esta ferramenta.

E, naturalmente, com a inclusão digital, não é de se esperar que alguém pague uma fortuna numa conexão bostífera para fazer algo mais interessante do que ver reprises da Globo e da MTV no Youtube. Esta é a camorra que ainda faz diferença para publicitários e caça-talentos de canais de comunicação, aquela que só existe em número, e vista isolada dá nojo: as pessoas que se matam de rir das demências de segundo escalão de um Danilo Gentili, a súcia melcatrefe que conclui que, se o Kibeloco é um famoso site de piadas, logo é o melhor, e pode muito bem se contentar com aquele nível de inteligência.

O tal número de seguidores do Twitter hoje aponta apenas para algo tão antigo quanto cagar agachado: retardados seguem retardados. E, reproduzindo-se exponencialmente como baratas no cio, serão sempre a maioria.

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Malthus analisa a web 2.0


Por bizarro que pareça, ainda conheço bípedes mesozóicos que não têm blog, não ouvem nenhum podcast, desconhecem quem sejam Cardoso, Inagaki e Interney, não sabem pra que o Twitter serve, vivem à margem da sociedade sem um perfil no Facebook, não sabem o que é um Feed, procuram emprego no jornal de domingo ao invés de no LinkedIn (se é que alguém procura emprego no LinkedIn), não acompanham bug a bug o lançamento do novo iPhone, não jogaram Tibia e, oh horror, nunca ouviram falar em vlogger.

A bem da verdade, gosto de ser um caboclo antenado, que já sabe das notícias antes mesmo de que elas sejam publicadas no site da Folha (e hoje são raras as notícias que são publicadas por lá a trazer algo que o Twitter não saiba), tudo isto bem concatenado com noites varadas madrugada adentro, cansando meus olhos entre a esmerada leitura dos clássicos e os melhores canais do Pornotube. Inobstante, hei de admitir o quanto me sinto mais vivo ao levantar impertérrito a minha carteirinha dos que não sabem o que caralhos é um vlogger. Não que tenha coisa muito mais intessante a ser feita cumprimentando os vizinhos, naturalmente – mas é cada vez mais difícil se manter um completo alienado quando há tanta informação que nos obriga a sermos gênios.

É o que nos deixa com saudade daquela época em que uma moda era apenas uma moda, e não uma hype, que as notícias se alastravam por meios caquéticos como a televisão, sem memes que anunciam falsas mortes a cada dia. E em que podíamos estar apenas de saco cheio, sem denunciar a vibe aos sete mares.

Mas o fato mais conspícuo desde que os computadores incoaram sua marcha de popularização em direção ao Dia do Julgamento Final é que, armas fabricadas por engenheiros, matemáticos, cientistas e outras criaturas esquisitas, tais invenções passaram a medir o mundo por números – e tal efeito, paradoxalmente, passa tacitamente debaixo do nariz de todos os interneteiros, hoje.

Antigamente (antes de meados de 2005), havia duas classes de pessoas: as populares e as outras (que aglutinava desde tímidos até esquisitões góticos, estes últimos com picos modistas que lhes tornavam uma versão monocromática e desatualizada dos populares). Tudo era medido exatamente assim, no olhômetro.

Não era muito diferente nos rincões binários da internet. Não se possuía amigos no chat do Uol ou do Terra (e da época em que este se chamava "Zaz") – havia a chance de ser tão batido nas mesmas salas que se acabava cumprimentando as mesmas figurinhas carimbadas, mas isso dependeria do horário e, caso não houvesse sectários conhecidos presentes, era só ficar na sua e ninguém notava sua popularidade ou falta dela. Sua lista de ICQ era privada, e seu grau de popularidade permanecia uma variável que nem sua professora de matemática descobriria (aliás, muito menos ela).

Apesar de manter a privacidade da lista, o MSN veio para interferir nesta equação. Poucos foram os que se perguntaram qual a motivação do sucesso do MSN sobre o ICQ. Mandar mensagens apenas com Enter? Eu sempre odiei isso, e nada que um Shift + Enter não fizesse no ICQ. Visual modernoso, seguindo preceitos da Bauhaus? Insuficiente. O perfil no Windows Live que nunca ninguém usou? Perde feio para o ICQ. Para descontar os milhares de problemas com conexão que o MSN possui, só mesmo um fator garantiria sua primazia: putaria. Com fotos de fácil acesso e possibilidade de transmissão de imagens pela webcam, praticar libidinagens é muito mais prático com o MSN – o que gerou uma carrada de demissões de funcionários apresados em flagrante em sua baia, esganando o malandro feito chimpanzés.

Mas a grande mudança veio mesmo com o orkut. Ter um perfil público indicando quantos amigos o caboclo possuía foi o golpe de misericórdia na numerização da vida virtual. Ter contato com apenas 80 pessoas só poderia indicar timidez mórbida, gordice corrosiva ou pigolim retraído. Havia uma proibição tácita de fazer parte de mais comunidades do que seu número absoluto de amigos. E a taxação era ainda mais cruel: o perfil indicava, em porcentagem, quanto os amigos do zé-goiaba o consideravam cool, quanto era trusty e, prends pitié de ma longue misère!, quanto o indivíduo era sexy.

Não demorou nada para que surgisse um verdadeiro escambo de karma. Perfis fakes surgiram a priori para corrigir fragorosas falhas numéricas em perfis-matriz. Ninguém poderia ser apenas 80% sexy, conquanto seu maior inimigo fosse 90%. Putinhas de internet pululavam arrogando-se "donas do Orkut" (sic) por conseguirem o inalcançável 100% sexy. Muito pior do que ser dono de um perfil desprovido de testimonials elogiosos (o que rapididissimamente caiu em desuso, pois num mundo com Hesíodo e Marlowe, é fácil achar algo melhor para se ler), nada poderia atentar mais a favor das razões para o suicídio de um cara-pálida do que cair para 70% sexy – quando os verdadeiros losers eternamente se contentaram em ficar abaixo da nota de corte para o abate.

Foram anos com mudanças que só pioraram a rede para tentar resgatar aquelas réstias de privacidade, o naco de opacidade que nos permitissem sermos feios, chatos, burros ou vagaranhas despudoradas sem receio com o futuro do presente, como o bloqueio de álbuns e de scrapbook. Mas 99% do rebuliço de que o orkut se fez capaz desde então foi o único movimento contrário: o famoso BINA de perfil, o mecanismo que o fez registrar quem havia bisbilhotado o seu perfil. O resto apenas cuidou de dar os tiros de misericórdia na rede – que morreu, sabe-se, devido à invasão brasileira, que destruía a possibilidade de uma comunicação mínima em qualquer comunidade.

Então chegamos a essa época do Twitter. O que é o Twitter, que não funciona como uma comunidade de tema específico no orkut, senão a maximização dessa aquilatação do valor individual em números?

Aqui é feio ter poucos seguidores (mesmo que você tenha entrado no Twitter anteontem). Sem comunidades-nicho organizadoras por tópicos, a fama corre pela rede anarquicamente. Mesmo seguindo apenas bons conteudistas, é inevitável ser informado das quizumbas protagonizadas por novos famosos instantâneos – ou, inversamente, descobrir como é o concatenamento lógico de famosos oldschool sem um script decorado.

Aliada a blogs, podcasts e agora vloggers, a busca desenfreada pela fama se tornou obrigação (alguns ultrapassam rapidamente aqueles que fizeram sua fama via orkut, como Gordonerd e suas mil comunidades). Nunca foi tão fácil ser famoso: há até script pra isso (o que foi mote, ademais, da capa da Info que me deu barato). A linha limítrofe entre famosos e o populacho não poderia ser mais fina – basta agora o botão reply.

Como, agora, diferenciar os famosos tr00, os famosos de raiz, daqueles de fama instantânea, que dura menos do que um BBB (ou durava, antes de cooptarem twitteiros na última edição)? Como todos os problemas hodiernos, a solução encontra-se em Malthus.

É fácil encontrar bons blogs sabendo procurar, descobrir pessoas com bom conteúdo mais de 8 horas por dia no Twitter – ao invés de seguir famosos (sejam de qualquer uma das vertentes) que apenas informam quando estão almoçando ou por onde passaram o sabonete – basta um tempo de pesquisa. Mas estes são raros, é a minoria alumiada e que faz poucos discípulos – apenas mantém o número atual para a próxima geração. É uma seita minoritária que, tendo em mãos o mais poderoso mecanismo de transmissão de informação e de videos de dupla penetração da história da humanidade, faz algo que presta com esta ferramenta.

E, naturalmente, com a inclusão digital, não é de se esperar que alguém pague uma fortuna numa conexão bostífera para fazer algo mais interessante do que ver reprises da Globo e da MTV no Youtube. Esta é a camorra que ainda faz diferença para publicitários e caça-talentos de canais de comunicação, aquela que só existe em número, e vista isolada dá nojo: as pessoas que se matam de rir das demências de segundo escalão de um Danilo Gentili, a súcia melcatrefe que conclui que, se o Kibeloco é um famoso site de piadas, logo é o melhor, e pode muito bem se contentar com aquele nível de inteligência.

O tal número de seguidores do Twitter hoje aponta apenas para algo tão antigo quanto cagar agachado: retardados seguem retardados. E, reproduzindo-se exponencialmente como baratas no cio, serão sempre a maioria.

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