sábado, 24 de julho de 2010

Afinal, por que „Deutsch”?

Costumeiramente sou inquirido a respeito da palavra „Deutsch” – afinal, por que diabos dizemos “Alemanha” e “alemão”, enquanto em inglês os termos são “Germany” e “german”? E em italiano, “Germania” e “germano” ou “tedesco”? Segue um breve estudo de germanística para solucionar de vez este problema.

O termo germanos é registrado pela primeira vez por Salústio, Nas Histórias, III, 7, e por César, nas Guerras das Gálias II (e como aquele porra do Asterix deu trabalho) – portanto, como sabem, entre os anos 52 e 50 a. C., é óbvio.

A origem deste termo continua sendo debatida, sendo não mais aceita a teoria que propunha ser um composto de gêr (palavra para lança em Antigo Alto Alemão) e man (adivinhem?). A verdade é que a lança, na época de César, era denominada gaiza.

Hartmann (que é apenas um sobrenome, não um epíteto para certos dotes pessoais) propôs que adveio do latim germanus (“genuíno”, “verdadeiro”); outros dizem até que veio de hermanus (deve ser por isso que Hitler foi se refugiar na Argentina...), e também há quem acredite, como Hennig, que o responsável seja o radical celta germo (quente). Lamprecht já acha que Germanos significa “vizinhos”.

Como todos sabem, entre os restos dos Fastos Capitolinos romanos há a primeira inscrição mencionando os germanos que existe: De Galleis Et German(is) K(alendas) Mart(ii). Sua autenticidade, contudo, é discutida.

As terras que hoje formam a Alemanha eram habitadas por muitas tribos naqueles idos: francos, hessianos, frisões, anglos, saxões, godos, burgúndios e vândalos (não confundir com hooligans, estes são ingleses).

Após algumas poucas guerras (coisa tão pouco germânica...), uma unificação, que resultou no Sacro Império Romano-Germânico, manteve-os todos agregados e pacíficos.

O fato enfim é que precisavam de uma palavra para designar a nova cultura que ia surgindo após o Império Romano ruir, e acharam a palavra deutsch, inicialmente referindo-se apenas à língua, e não ao povo.

Segundo as palavras de Leo Weisgerber (Der Sinn des Wortes „Deutsch”, 1949): "O nome da língua alemã, deutsch, é, em certo sentido, um apelo à pátria dos francos, submetidos à romanização sistemática em região além das fronteiras lingüísticas em formação”. (simples, no mamita?)

O bispo romano de Ostia (não mastigue!), Wigbod, escreve no ano de 786 ao Papa, relatando que as resoluções do rei foram lidas "tam latine, quam theodisce, quo omnes intelligere possent" (latim dificilibus caralium est). Até Carlos Magno, em 801, resolve falar theodisce. Assim, começa a fazer-se notar a clara distinção entre as línguas “bárbaras” e as línguas romanas, sendo explicada por Otfrid Von Weißenburg: cur scriptur hunc librum theodisce dictaverit (a mim também não explicou nada, mas whatsoever).

Apenas 200 anos depois é que foi aparecer a forma alemã da palavra, quando Notker, o alemão (955-1022), usa o termo diutisch, e na Canção do Anno (anterior a 111) se usa o mesmo termo referindo-se ao povo.

Por sua forma, parece ser a palavra deutsch do gótico þiuda (“povo”, conservada, por exemplo, no nome próprio Dietrich, “soberano do povo”). A esse termo ligam-se as formas latinas theodiscus, thetiscus, teudiscus, sendo até pertencente ao francês arcaico a forma tie(d)eis. Assim, nota-se que o termo deutsch tem a mesma origem de “teutônico”.

Outros países, quando se referem à Alemanha, ou ao Reich II, ou àquelas terras que Bismarck logo iria unificar, usavam palavras derivadas do latim Germania, mas os alemães, que tinham sua própria palavra derivada do francônio, para se separarem daqueles que apenas falam uma língua germânica, não sendo entretanto da mesma etnia, preferem batizar o país de Deutschland (“Terra dos Teutônicos”).

Por termos origem latina, chamamos a Alemanha de Alemanha pois pegamos o termo do baixo latim alamanus, advindo do germânico primitivo alamans, ou “todos os homens” – termo este empregado para os alemães mais longínquos da “base” central, como os latinos que passavam da fronteira, e representando o alemanisch – de todos os dialetos do alemão, aquele que mais se distancia do Hochdeutsch – falado, exempli gratia, na Suíça alemã e no Lichtenstein.

Felizes para sempre?

8 pessoas leram e discordaram:

Filipe disse...

Massa... Tu poderia falar dos Gregos (ou Helenos, como eles gostam de falar).

Luis Felipe Pinheiro @gimnosperm disse...

Interessante.

Haja pesquisa.

Abraços,
Luis Felipe

Sudoku disse...

Um dos fatos mais curiosos de toda essa história, que você bem resumiu, é que a primeira aparição da língua teutônica se dá simultaneamente ao primeiro registro em língua românica: nos Juramentos de Estrasburgo, de 841, redigidos nas línguas que falavam os súditos de Luís, o Germânico, e Carlos, o Calvo.

Daí vem a sugestão de que Alemanha e França são como duas irmãs que vivem se provocando e estapeando desde muito jovens.

Aqui, outro termo curioso e de grande fortuna: http://de.wikipedia.org/wiki/Welsche

Vale.

Flavio Morgenstern disse...

Sudoku, interessante esses novos dados que você me passou. Com efeito, um dos períodos mais complicados para um sul-americano entender é o que se estende entre o fim do período clássico do Império Romano até o começo do Renascimento (ou seja, toda a Idade Média, incluindo os séculos imediatamente anteriores e posteriores).

Com efeito, a Lei de Verner parece sofrer certa influência do modo de falar dos francos – não à toa, aliás, que a região mais próxima da França foi decisiva para separar o alemão que sofreria a segunda mudança vocálica ([i]Hochdeutsch[/i]) daquele que não seria afetado por ela ([i]Plattdeutsch[/i]), tendo exatamente Frankfurt como divisor de águas entre o francônio do leste e do oeste.

Abs.

Sudoku disse...

Algumas coisas:

Alamannia, -ae, alamannus,-i e outras formas aparentadas:

http://www.archive.org/stream/supplementumlex00hensgoog#page/n50/mode/2up

http://www.archive.org/stream/1837newcopiousle00leveuoft#page/40/mode/2up

Para registro, houve a forma Alamagna em italiano, às vezes curiosamente corrompida: la Magna. Ambas as formas eram usadas alternativamente pelos escritores florentinos (em Maquiavel, p.ex., aparecem as duas). Germania parece ter se firmado e universalizado mais tardiamente.

Se lhe interessam as relações entre os germânicos e os povos romanizados (não raro muito tensas), um dos documentos mais eloquentes e reveladores é o Relatório da embaixada que Liutprando, Bispo de Cremona do século X, levou a Constantinopla. É uma das primeiras manifestações do orgulho lombardo e revela certa solidariedade com outros povos germânicos. Aqui, uma tradução inglesa:

http://www.fordham.edu/halsall/source/liudprand1.html

Enfim, veja se essas velharias lhe interessam.

Vale.

Flavio Morgenstern disse...

Sudoku, muito obrigado pelas novas informações e pelos novos links!

Ao que saiba, assim como aconteceu com a própria Alemanha, a unificação lingüística italiana foi tardia – ainda mais que a alemã, pois esta teve a tradução bíblica de Lutero como mote unificador, por isso o alemão é ainda hoje considerado uma língua ad hoc em estrutura (a própria palavra [i]Mensch[/i], além da escrita dos substantivos com letra maiúscula, são criações luteranas).

Maquiavel gostava de escrever em linguajar popular (até diversos erros gramaticais são encontrados em sua obra), e quando da unificação italiana, o dialeto toscano foi "escolhido" como guia mestre por ser aquele que mais tinha produção escrita e já consagrada – o que deixou muitos clássicos escritos em outros dialetos rapidamente "antiquados".

Abs.

Juliana Dacoregio disse...

Nada a ver com o post aqui, mas só pra agradecer a visita e o comentário e dizer que, bem... é, às vezes a solidão só dói mesmo, mais nada. Ontem estava conversando com a minha mãe sobre isso. De vez em quando tenho a imagem dessa solidão que estou vivendo como uma "musculação"! Você vai lá nos dias determinados, esforça os músculos, tem que fazer na quantidade certa, no ritmo certo, respirar direito, depois ir pra casa e se alimentar bem, sem ficar ansioso por resultados imediatos. A solidão também é assim: um constante fazer, repetir, respirar fundo, esperar e não ver resultado algum.
Enfim, uma bosta!

Gustavo Micheletti disse...

Depois comento o post. Fato engraçado é que nos anos pares vc postou pouco (confira no blog archive), daí que parece estar se esforçando esse ano pra se livrar desse tabu. Até julho já postou a mesma coisa nos anos ímpares inteiros mais profícuos. Parabéns!

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sábado, 24 de julho de 2010

Afinal, por que „Deutsch”?


Costumeiramente sou inquirido a respeito da palavra „Deutsch” – afinal, por que diabos dizemos “Alemanha” e “alemão”, enquanto em inglês os termos são “Germany” e “german”? E em italiano, “Germania” e “germano” ou “tedesco”? Segue um breve estudo de germanística para solucionar de vez este problema.

O termo germanos é registrado pela primeira vez por Salústio, Nas Histórias, III, 7, e por César, nas Guerras das Gálias II (e como aquele porra do Asterix deu trabalho) – portanto, como sabem, entre os anos 52 e 50 a. C., é óbvio.

A origem deste termo continua sendo debatida, sendo não mais aceita a teoria que propunha ser um composto de gêr (palavra para lança em Antigo Alto Alemão) e man (adivinhem?). A verdade é que a lança, na época de César, era denominada gaiza.

Hartmann (que é apenas um sobrenome, não um epíteto para certos dotes pessoais) propôs que adveio do latim germanus (“genuíno”, “verdadeiro”); outros dizem até que veio de hermanus (deve ser por isso que Hitler foi se refugiar na Argentina...), e também há quem acredite, como Hennig, que o responsável seja o radical celta germo (quente). Lamprecht já acha que Germanos significa “vizinhos”.

Como todos sabem, entre os restos dos Fastos Capitolinos romanos há a primeira inscrição mencionando os germanos que existe: De Galleis Et German(is) K(alendas) Mart(ii). Sua autenticidade, contudo, é discutida.

As terras que hoje formam a Alemanha eram habitadas por muitas tribos naqueles idos: francos, hessianos, frisões, anglos, saxões, godos, burgúndios e vândalos (não confundir com hooligans, estes são ingleses).

Após algumas poucas guerras (coisa tão pouco germânica...), uma unificação, que resultou no Sacro Império Romano-Germânico, manteve-os todos agregados e pacíficos.

O fato enfim é que precisavam de uma palavra para designar a nova cultura que ia surgindo após o Império Romano ruir, e acharam a palavra deutsch, inicialmente referindo-se apenas à língua, e não ao povo.

Segundo as palavras de Leo Weisgerber (Der Sinn des Wortes „Deutsch”, 1949): "O nome da língua alemã, deutsch, é, em certo sentido, um apelo à pátria dos francos, submetidos à romanização sistemática em região além das fronteiras lingüísticas em formação”. (simples, no mamita?)

O bispo romano de Ostia (não mastigue!), Wigbod, escreve no ano de 786 ao Papa, relatando que as resoluções do rei foram lidas "tam latine, quam theodisce, quo omnes intelligere possent" (latim dificilibus caralium est). Até Carlos Magno, em 801, resolve falar theodisce. Assim, começa a fazer-se notar a clara distinção entre as línguas “bárbaras” e as línguas romanas, sendo explicada por Otfrid Von Weißenburg: cur scriptur hunc librum theodisce dictaverit (a mim também não explicou nada, mas whatsoever).

Apenas 200 anos depois é que foi aparecer a forma alemã da palavra, quando Notker, o alemão (955-1022), usa o termo diutisch, e na Canção do Anno (anterior a 111) se usa o mesmo termo referindo-se ao povo.

Por sua forma, parece ser a palavra deutsch do gótico þiuda (“povo”, conservada, por exemplo, no nome próprio Dietrich, “soberano do povo”). A esse termo ligam-se as formas latinas theodiscus, thetiscus, teudiscus, sendo até pertencente ao francês arcaico a forma tie(d)eis. Assim, nota-se que o termo deutsch tem a mesma origem de “teutônico”.

Outros países, quando se referem à Alemanha, ou ao Reich II, ou àquelas terras que Bismarck logo iria unificar, usavam palavras derivadas do latim Germania, mas os alemães, que tinham sua própria palavra derivada do francônio, para se separarem daqueles que apenas falam uma língua germânica, não sendo entretanto da mesma etnia, preferem batizar o país de Deutschland (“Terra dos Teutônicos”).

Por termos origem latina, chamamos a Alemanha de Alemanha pois pegamos o termo do baixo latim alamanus, advindo do germânico primitivo alamans, ou “todos os homens” – termo este empregado para os alemães mais longínquos da “base” central, como os latinos que passavam da fronteira, e representando o alemanisch – de todos os dialetos do alemão, aquele que mais se distancia do Hochdeutsch – falado, exempli gratia, na Suíça alemã e no Lichtenstein.

Felizes para sempre?

8 pessoas leram e discordaram:

Filipe on 25 de julho de 2010 11:57 disse...

Massa... Tu poderia falar dos Gregos (ou Helenos, como eles gostam de falar).

Luis Felipe Pinheiro @gimnosperm on 27 de julho de 2010 22:04 disse...

Interessante.

Haja pesquisa.

Abraços,
Luis Felipe

Sudoku disse...

Um dos fatos mais curiosos de toda essa história, que você bem resumiu, é que a primeira aparição da língua teutônica se dá simultaneamente ao primeiro registro em língua românica: nos Juramentos de Estrasburgo, de 841, redigidos nas línguas que falavam os súditos de Luís, o Germânico, e Carlos, o Calvo.

Daí vem a sugestão de que Alemanha e França são como duas irmãs que vivem se provocando e estapeando desde muito jovens.

Aqui, outro termo curioso e de grande fortuna: http://de.wikipedia.org/wiki/Welsche

Vale.

Flavio Morgenstern on 28 de julho de 2010 23:39 disse...

Sudoku, interessante esses novos dados que você me passou. Com efeito, um dos períodos mais complicados para um sul-americano entender é o que se estende entre o fim do período clássico do Império Romano até o começo do Renascimento (ou seja, toda a Idade Média, incluindo os séculos imediatamente anteriores e posteriores).

Com efeito, a Lei de Verner parece sofrer certa influência do modo de falar dos francos – não à toa, aliás, que a região mais próxima da França foi decisiva para separar o alemão que sofreria a segunda mudança vocálica ([i]Hochdeutsch[/i]) daquele que não seria afetado por ela ([i]Plattdeutsch[/i]), tendo exatamente Frankfurt como divisor de águas entre o francônio do leste e do oeste.

Abs.

Sudoku disse...

Algumas coisas:

Alamannia, -ae, alamannus,-i e outras formas aparentadas:

http://www.archive.org/stream/supplementumlex00hensgoog#page/n50/mode/2up

http://www.archive.org/stream/1837newcopiousle00leveuoft#page/40/mode/2up

Para registro, houve a forma Alamagna em italiano, às vezes curiosamente corrompida: la Magna. Ambas as formas eram usadas alternativamente pelos escritores florentinos (em Maquiavel, p.ex., aparecem as duas). Germania parece ter se firmado e universalizado mais tardiamente.

Se lhe interessam as relações entre os germânicos e os povos romanizados (não raro muito tensas), um dos documentos mais eloquentes e reveladores é o Relatório da embaixada que Liutprando, Bispo de Cremona do século X, levou a Constantinopla. É uma das primeiras manifestações do orgulho lombardo e revela certa solidariedade com outros povos germânicos. Aqui, uma tradução inglesa:

http://www.fordham.edu/halsall/source/liudprand1.html

Enfim, veja se essas velharias lhe interessam.

Vale.

Flavio Morgenstern on 29 de julho de 2010 22:18 disse...

Sudoku, muito obrigado pelas novas informações e pelos novos links!

Ao que saiba, assim como aconteceu com a própria Alemanha, a unificação lingüística italiana foi tardia – ainda mais que a alemã, pois esta teve a tradução bíblica de Lutero como mote unificador, por isso o alemão é ainda hoje considerado uma língua ad hoc em estrutura (a própria palavra [i]Mensch[/i], além da escrita dos substantivos com letra maiúscula, são criações luteranas).

Maquiavel gostava de escrever em linguajar popular (até diversos erros gramaticais são encontrados em sua obra), e quando da unificação italiana, o dialeto toscano foi "escolhido" como guia mestre por ser aquele que mais tinha produção escrita e já consagrada – o que deixou muitos clássicos escritos em outros dialetos rapidamente "antiquados".

Abs.

Juliana Dacoregio on 30 de julho de 2010 16:42 disse...

Nada a ver com o post aqui, mas só pra agradecer a visita e o comentário e dizer que, bem... é, às vezes a solidão só dói mesmo, mais nada. Ontem estava conversando com a minha mãe sobre isso. De vez em quando tenho a imagem dessa solidão que estou vivendo como uma "musculação"! Você vai lá nos dias determinados, esforça os músculos, tem que fazer na quantidade certa, no ritmo certo, respirar direito, depois ir pra casa e se alimentar bem, sem ficar ansioso por resultados imediatos. A solidão também é assim: um constante fazer, repetir, respirar fundo, esperar e não ver resultado algum.
Enfim, uma bosta!

Gustavo Micheletti on 2 de agosto de 2010 03:18 disse...

Depois comento o post. Fato engraçado é que nos anos pares vc postou pouco (confira no blog archive), daí que parece estar se esforçando esse ano pra se livrar desse tabu. Até julho já postou a mesma coisa nos anos ímpares inteiros mais profícuos. Parabéns!

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