quarta-feira, 31 de março de 2010

O legado de Freud

Plínio Montagna, na Folha de hoje, comenta o centenário da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), após dois anos de gestação pelo próprio Dr. Freud.

O discurso é conhecido: a psicanálise hoje não é a mesma da época de Freud; muitos contribuintes a renovaram; o acervo de conhecimento humano acumulado é "ímpar" (não sei em qual configuração de realidade poderia ser diferente); há muitas visões diferentes hoje sobre o "gênio" Freud, etc, etc.

O que me surpreende são duas passagens. A primeira, falando do tal arcabouço de conhecimento, fala da "abrangência e profundidade no contato com a realidade psíquica do ser humano não possíveis nos primórdios de nossa ciência".

É muito, muito estranho tratar a psicanálise por uma "ciência". Mil novas definições de "ciência" pelas várias linhagens da Filosofia da Ciência, desde os Analíticos Anteriores e Posteriores de Aristóteles, nunca puderam contemplar o saber psicanalítico a contento dentro do escopo científico. Enquanto é impossível ver qualquer análise sobre o corpo e o instrumento humano como algo relativo (como se faz na ciência da literatura, da sociologia, da historiografia), a psicanálise busca um meio-termo entre as soft sciences e as hard sciences.

Tal meio-termo é escorado da seguinte forma: define-se a priori um novo entendimento do ser humano, em uma vivissecção freudiana que divide o próprio ser humano em 3 áreas distintas, baseando-se em três manifestações de espécies diferentes do comportamento humano; assim, parte do nosso comportamento teria origem em um tal ego (originalmente, apenas "eu"), outra parte em um referencial denominado id (ou "outro") e um terceiro em um poço obscuro de regras próprias denominado inconsciente.

Retalhado assim, comportamentos de caráter distinto teriam origem distinta, embora comportamentos de caráter misto teriam de, novamente, ter duas origens que se coadunam para gerar um resultado final explicável. É interessante sempre lembrar de que Dr. Freud, médico psiquiatra, nunca encontrou nenhuma dessas estruturas no cérebro humano, que parece agir segundo uma estrutura bem mais complexa e sói distante de sua proposta.

Porém, depois deste approach soft science, a psicanálise tenta se outorgar um caráter hard science das ciências médicas. Tomos gigantescos são escritos sobre as invenções de doenças e desvios do comportamento humano propostos por Freud. Seu saber parece possuir um caráter inquestionável e inviolável de uma Teoria da Relatividade Restrita. O Complexo de Édipo (invenção de Freud após atribuir os problemas de Gustav Mahler ao fato de ele ter uma mulher com o mesmo nome de sua mãe, e dizer que este complexo pode ser encontrado em "qualquer cultura") é tratado como algo tão inquestionável como F = m . a. Desacreditar na idéia de "inconsciente" parece mais estranho do que acreditar em Quércia.

A psicanálise não é uma ciência, mas procura sempre ter a veracidade de uma. Com a diferença de que procura ter um método próprio, uma nomenclatura própria, uma definição própria de seu objeto de estudo. Tudo o que é, também pode não ser, dependendo do ponto-de-vista. É a ciência do faz-de-conta que acredita, e logo tudo se resolverá de verdade.

Mas, após comentar o vasto arcabouço de psicanalistas com idéias novas que "renovaram" a "ciência" psicanalítica com "novas óticas", Montagna dá um certo valor aos psicofármacos, terapias cognitivas "e outras". "Mas mudança psíquica, de fato, é apanágio da psicanálise, campo único da pesquisa da subjetividade radical, da singularidade de cada um".

Ora, em primeiro lugar, o vasto rol de psicanalistas que discordam uns dos outros, a mim, só parece mostrar que a psicanálise nada tem de "científico", apenas se inventam novos cortes de realidade e novas formas de encarar o ser humano (por exemplo, encarando um enteado como um pênis) como "bagagem rica" e como "novas óticas" sobre "a complexidade do humano". Eu realmente não sei o quanto confiaria em médicos com 20 óticas diferentes para um comportamento agressivo, um desentendimento familiar, uma tristeza. Mas isso é visto como "riqueza", como uma vantagem. E, claro, vantagem para uma ciência.

Mas é ainda mais estranho que seja apanágio da psicanálise realizar mudanças psíquicas no indivíduo. Ou, na verdade, seja bem óbvio. Com uma definição única do seu objeto de estudo (é difícil até mesmo encontrar 2 psicanalistas com uma definição suficientemente próxima de "psiquê"), é óbvio que apenas ela pode mudar algo que ela mesma inventou. Assim como só o espiritismo pode retirar "obsessores" das pessoas, ou só a homeopatia pode tratar uma doença de uma maneira "íntegra" no ser humano.

Mas essa arrogância tácita a todo psicanalista (que se "auto-permitem" clinicar, visto não haver um tratado do que e como se deve proceder na clínica) esconde uma bela ignorância: nem Montagna comenta, entre os diversos discípulos de Freud, que alguns abandonaram as idéias do mestre (e seu "apanágio" de fazer diferença em um ser vivo), como Carl Jung e Viktor Frankl, como mais de 200 denominações completamente diferentes de psicanálise atuam hoje só nos EUA¹ (onde a psicanálise nunca teve grande força, ao contrário do Terceiro Mundo), além de a psicanálise contar com críticos de peso que praticamente nunca foram refutados por seus alvos: de Medard Boss a Moreno, de Winnicott a Eysenck.

É de se perguntar se termos, doravante, mais 100 anos de um saber tão sólido quanto gelatina em terremoto é algo a se comemorar, como pretende o senhor Montagna, ou se, daqui a 300 anos, nossos futuros descendentes rirão de como acreditamos piamente no último resquício de medicina medieval no Ocidente.


¹: cf. Hans Eysenck, Decadencia y caída del Imperio Freudiano.

3 pessoas leram e discordaram:

Regina disse...

Genialidade. É essa palavra que explica o fato de ele conseguido ser tão preciso com tão pouco. Não precisou abrir o cérebro para ver.
Além de genial, ele obstinado. Mas acima de tudo mesmo, ele não era um psicanalista brasileiro. Só por não ser brasileiro, aliás, ele já conseguiu ser minimamente sério.

Jaded disse...

Eu podia passar boas horas argumentando sobre esse seu texto, que têm alguns furos muito importantes para se discutir. Mas eu já comprei tanto essa briga, que você pode ler nos links que vou te passar as respostas que já dei para muitas questões como as suas.

Mas não dá pra deixar de dizer:
- A psicanálise não pretende ser uma ciência médica, o contráro disso: quando mais distante da proposta médica, mais psicanálise se tem. - -

- Pequeno acerto da sua teorização: as instâncias psíquicas são id, ego e superego. Id e superego tem parte no inconsciente.O inconsciente é o todo, e não uma instância.

- Muita produção teórica já trata a psicanálise como uma práxis, e não como uma ciência positiva. Leia um pouco mais sobre isso.

Podia continuar, mas vou deixar meus links pra você ler, se quiser!
http://aline.thechip.net/2010/04/29/indignacao-do-dia/
http://aline.thechip.net/2009/11/10/a-estranheza-da-psicanalise/
http://aline.thechip.net/2009/07/16/mais-do-mesmo-2/
http://aline.thechip.net/2008/06/08/a-formao-do-psicanalista/

Aline @alinejaded

Flavio Morgenstern disse...

Aline, eu já conhecia seu blog e já pensei muitas vezes em granjear um novo arranca-Habermas por aqui. Não o fiz por estar escrevendo pouco ultimamente, quod erat demonstrandum.

Mas falando dos pontos levantados por você:

- Se a psicanálise não é médica, deve abolir a palavra "clínica". Não há clínica psicanalítica, é uma sessão não muito diversa de uma sessão de descarrego.

- A palavra "instância", em oposição a "parte", "todo", "se(c)ção", implica exatamente o que você apontou. Uma instância contém o todo e é por ele contida. Ela "reflete" e exige cada uma das outras instâncias. O sistema democrático, por exemplo, contém 3 instâncias: Poder Executivo, Poder Legislativo, Poder Judiciário, nem sempre completamente separadas (pode haver áreas de intersecção). Se você destrói uma das áreas, não terá um sistema aleijado: você negará o sistema inteiro.

Por sinal, essa semântica da palavra "instância" também funciona em linguagens de programação, como a que cuida de uma cor (logo, de todas as cores) das fontes desse blog.

- Parece que você tratou meu texto apenas como uma reclamação pela não-regulamentação da profissão. Para isso, deveria ser explicado que não se forma o psicanalista, e sim o inconsciente (como você aponta nesses textos, que só um deles não conhecia). Mas isso é, justamente, tratar o meio (o inconsciente) como prova (tomar a prova pela tese, variação da non causae ut causae, aforismo 37 de Schopenhauer). Se discuto a própria idéia de "inconsciente", invencionice do Dr. Freud, de nada serve tratar sua "formação" como argumento para a desregulamentação.

O que discuto, enfim, são os próprios conceitos da psicanálise, uma medicina medieval que exige apenas fé, como a religião. Sua regulamentação ou não, dessarte, torna-se irrelevante.

Abs.

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quarta-feira, 31 de março de 2010

O legado de Freud


Plínio Montagna, na Folha de hoje, comenta o centenário da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), após dois anos de gestação pelo próprio Dr. Freud.

O discurso é conhecido: a psicanálise hoje não é a mesma da época de Freud; muitos contribuintes a renovaram; o acervo de conhecimento humano acumulado é "ímpar" (não sei em qual configuração de realidade poderia ser diferente); há muitas visões diferentes hoje sobre o "gênio" Freud, etc, etc.

O que me surpreende são duas passagens. A primeira, falando do tal arcabouço de conhecimento, fala da "abrangência e profundidade no contato com a realidade psíquica do ser humano não possíveis nos primórdios de nossa ciência".

É muito, muito estranho tratar a psicanálise por uma "ciência". Mil novas definições de "ciência" pelas várias linhagens da Filosofia da Ciência, desde os Analíticos Anteriores e Posteriores de Aristóteles, nunca puderam contemplar o saber psicanalítico a contento dentro do escopo científico. Enquanto é impossível ver qualquer análise sobre o corpo e o instrumento humano como algo relativo (como se faz na ciência da literatura, da sociologia, da historiografia), a psicanálise busca um meio-termo entre as soft sciences e as hard sciences.

Tal meio-termo é escorado da seguinte forma: define-se a priori um novo entendimento do ser humano, em uma vivissecção freudiana que divide o próprio ser humano em 3 áreas distintas, baseando-se em três manifestações de espécies diferentes do comportamento humano; assim, parte do nosso comportamento teria origem em um tal ego (originalmente, apenas "eu"), outra parte em um referencial denominado id (ou "outro") e um terceiro em um poço obscuro de regras próprias denominado inconsciente.

Retalhado assim, comportamentos de caráter distinto teriam origem distinta, embora comportamentos de caráter misto teriam de, novamente, ter duas origens que se coadunam para gerar um resultado final explicável. É interessante sempre lembrar de que Dr. Freud, médico psiquiatra, nunca encontrou nenhuma dessas estruturas no cérebro humano, que parece agir segundo uma estrutura bem mais complexa e sói distante de sua proposta.

Porém, depois deste approach soft science, a psicanálise tenta se outorgar um caráter hard science das ciências médicas. Tomos gigantescos são escritos sobre as invenções de doenças e desvios do comportamento humano propostos por Freud. Seu saber parece possuir um caráter inquestionável e inviolável de uma Teoria da Relatividade Restrita. O Complexo de Édipo (invenção de Freud após atribuir os problemas de Gustav Mahler ao fato de ele ter uma mulher com o mesmo nome de sua mãe, e dizer que este complexo pode ser encontrado em "qualquer cultura") é tratado como algo tão inquestionável como F = m . a. Desacreditar na idéia de "inconsciente" parece mais estranho do que acreditar em Quércia.

A psicanálise não é uma ciência, mas procura sempre ter a veracidade de uma. Com a diferença de que procura ter um método próprio, uma nomenclatura própria, uma definição própria de seu objeto de estudo. Tudo o que é, também pode não ser, dependendo do ponto-de-vista. É a ciência do faz-de-conta que acredita, e logo tudo se resolverá de verdade.

Mas, após comentar o vasto arcabouço de psicanalistas com idéias novas que "renovaram" a "ciência" psicanalítica com "novas óticas", Montagna dá um certo valor aos psicofármacos, terapias cognitivas "e outras". "Mas mudança psíquica, de fato, é apanágio da psicanálise, campo único da pesquisa da subjetividade radical, da singularidade de cada um".

Ora, em primeiro lugar, o vasto rol de psicanalistas que discordam uns dos outros, a mim, só parece mostrar que a psicanálise nada tem de "científico", apenas se inventam novos cortes de realidade e novas formas de encarar o ser humano (por exemplo, encarando um enteado como um pênis) como "bagagem rica" e como "novas óticas" sobre "a complexidade do humano". Eu realmente não sei o quanto confiaria em médicos com 20 óticas diferentes para um comportamento agressivo, um desentendimento familiar, uma tristeza. Mas isso é visto como "riqueza", como uma vantagem. E, claro, vantagem para uma ciência.

Mas é ainda mais estranho que seja apanágio da psicanálise realizar mudanças psíquicas no indivíduo. Ou, na verdade, seja bem óbvio. Com uma definição única do seu objeto de estudo (é difícil até mesmo encontrar 2 psicanalistas com uma definição suficientemente próxima de "psiquê"), é óbvio que apenas ela pode mudar algo que ela mesma inventou. Assim como só o espiritismo pode retirar "obsessores" das pessoas, ou só a homeopatia pode tratar uma doença de uma maneira "íntegra" no ser humano.

Mas essa arrogância tácita a todo psicanalista (que se "auto-permitem" clinicar, visto não haver um tratado do que e como se deve proceder na clínica) esconde uma bela ignorância: nem Montagna comenta, entre os diversos discípulos de Freud, que alguns abandonaram as idéias do mestre (e seu "apanágio" de fazer diferença em um ser vivo), como Carl Jung e Viktor Frankl, como mais de 200 denominações completamente diferentes de psicanálise atuam hoje só nos EUA¹ (onde a psicanálise nunca teve grande força, ao contrário do Terceiro Mundo), além de a psicanálise contar com críticos de peso que praticamente nunca foram refutados por seus alvos: de Medard Boss a Moreno, de Winnicott a Eysenck.

É de se perguntar se termos, doravante, mais 100 anos de um saber tão sólido quanto gelatina em terremoto é algo a se comemorar, como pretende o senhor Montagna, ou se, daqui a 300 anos, nossos futuros descendentes rirão de como acreditamos piamente no último resquício de medicina medieval no Ocidente.


¹: cf. Hans Eysenck, Decadencia y caída del Imperio Freudiano.

3 pessoas leram e discordaram:

Regina on 7 de junho de 2010 21:46 disse...

Genialidade. É essa palavra que explica o fato de ele conseguido ser tão preciso com tão pouco. Não precisou abrir o cérebro para ver.
Além de genial, ele obstinado. Mas acima de tudo mesmo, ele não era um psicanalista brasileiro. Só por não ser brasileiro, aliás, ele já conseguiu ser minimamente sério.

Jaded on 9 de junho de 2010 11:15 disse...

Eu podia passar boas horas argumentando sobre esse seu texto, que têm alguns furos muito importantes para se discutir. Mas eu já comprei tanto essa briga, que você pode ler nos links que vou te passar as respostas que já dei para muitas questões como as suas.

Mas não dá pra deixar de dizer:
- A psicanálise não pretende ser uma ciência médica, o contráro disso: quando mais distante da proposta médica, mais psicanálise se tem. - -

- Pequeno acerto da sua teorização: as instâncias psíquicas são id, ego e superego. Id e superego tem parte no inconsciente.O inconsciente é o todo, e não uma instância.

- Muita produção teórica já trata a psicanálise como uma práxis, e não como uma ciência positiva. Leia um pouco mais sobre isso.

Podia continuar, mas vou deixar meus links pra você ler, se quiser!
http://aline.thechip.net/2010/04/29/indignacao-do-dia/
http://aline.thechip.net/2009/11/10/a-estranheza-da-psicanalise/
http://aline.thechip.net/2009/07/16/mais-do-mesmo-2/
http://aline.thechip.net/2008/06/08/a-formao-do-psicanalista/

Aline @alinejaded

Flavio Morgenstern on 23 de junho de 2010 13:12 disse...

Aline, eu já conhecia seu blog e já pensei muitas vezes em granjear um novo arranca-Habermas por aqui. Não o fiz por estar escrevendo pouco ultimamente, quod erat demonstrandum.

Mas falando dos pontos levantados por você:

- Se a psicanálise não é médica, deve abolir a palavra "clínica". Não há clínica psicanalítica, é uma sessão não muito diversa de uma sessão de descarrego.

- A palavra "instância", em oposição a "parte", "todo", "se(c)ção", implica exatamente o que você apontou. Uma instância contém o todo e é por ele contida. Ela "reflete" e exige cada uma das outras instâncias. O sistema democrático, por exemplo, contém 3 instâncias: Poder Executivo, Poder Legislativo, Poder Judiciário, nem sempre completamente separadas (pode haver áreas de intersecção). Se você destrói uma das áreas, não terá um sistema aleijado: você negará o sistema inteiro.

Por sinal, essa semântica da palavra "instância" também funciona em linguagens de programação, como a que cuida de uma cor (logo, de todas as cores) das fontes desse blog.

- Parece que você tratou meu texto apenas como uma reclamação pela não-regulamentação da profissão. Para isso, deveria ser explicado que não se forma o psicanalista, e sim o inconsciente (como você aponta nesses textos, que só um deles não conhecia). Mas isso é, justamente, tratar o meio (o inconsciente) como prova (tomar a prova pela tese, variação da non causae ut causae, aforismo 37 de Schopenhauer). Se discuto a própria idéia de "inconsciente", invencionice do Dr. Freud, de nada serve tratar sua "formação" como argumento para a desregulamentação.

O que discuto, enfim, são os próprios conceitos da psicanálise, uma medicina medieval que exige apenas fé, como a religião. Sua regulamentação ou não, dessarte, torna-se irrelevante.

Abs.

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