quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Seria o #lingerieday uma 'objetificação feminina'?

Eu desisto.

No último #lingerieday, houve uma grita sobre o caráter objetificador, machista, pervertido, inadequado para nossas crianças, opressor, troglodita, chauvinista, burguês, neoliberal e imperialista do flash mob. O rebuliço foi orquestrado por pessoas de reputação ilibada, como @tuliovianna, @semiramis e @anarina.

Como já é de conhecimento público, garatujei um hidrófobo texto questionando Túlio Vianna ser um crítico tão aguerrido da objetificação feminina do evento, se ficou do lado do opressor objetificador em um caso de seqüestro, estupro e assassinato por esfaqueamento e degolamento. Acreditei que iria provocar uma séria discussão sobre "objetificação" com um especialista. Vianna após discutir isso o dia inteiro no Twitter, disse que não poderia perder tempo com um "reacionário raivoso" como eu, que era melhor deixar "a cachorrada latir".

Para variar, eu estava errado. Redimo-me nestas mal-digitadas. Pautar-me-ei pela alterosa sapiência de Cyntia Semíramis, que
escreveu sobre o evento. Diz nossa filósofa:

Estamos falando de uma campanha para criticar e esvaziar o uso político do twitter, procurando ridicularizar o ciberativismo.

Não poderia estar mais correta. Com toda a razão, o objetivo claro do #lingerieday é esvaziar o Twitter de conteúdo político. A prova mais viva foram os boicotes de @joseserra_, @demostenes_go e @mercadante.

Ataque ainda mais certeiro:

Mas o ponto principal é: a campanha tem um mote de objetificação das mulheres. Sobre objetificação, entenda-se colocar as mulheres em posição subordinada à dos organizadores. São elas que devem mudar seus avatares (ou seja, sua imagem de identificação em determinado grupo social) para uma foto usando lingerie. É uma relação desigual: eles mandam, elas obedecem. Eles são sujeitos, determinando as regras; elas são objetos, obedecendo ao que foi mandado.

Ora, o dia inteiro a discussão girou em torno desse ponto. Eu, ignóbil de inteligência apoucada, não entendi como mulheres que nem sequer sabiam quem eram os organizadores puderam ser por eles objetificadas. Infelizmente, ainda me falta muito para chegar ao grau intelectual de Semíramis, que encontra objetificação sem haver subjetificação. Minhas escusas.

Mas é um ponto importantíssimo: o #lingerieday impõe regras. É desigual. É machista. É homofóbico. É chauvinista. É patriarcal. É retrógrado. É malufista. É subjugador. Os organizadores do evento falam por si. Há fotos documentais que mostram @gravz obrigando garotas ingênuas e indefesas a mostrarem suas lingeries, com ameaças opressoras, desde facadas até unfollow. O @izzynobre é um porco chauvinista tão escroto que colocou até a própria mulher no evento para ser objetificada a seus cupinchas, provavelmente depois de um espancamento. O @morroida, então, nem se fala: esse aí, depois de Túlio Vianna pedir pelo outro prato da balança (que os homens colocassem fotos de suas cuecas), só colocou porque Túlio o objetificou, e não por ser sujeito da relação...

E nada impôs mais regras do que o famoso anátema que deu origem ao evento:

#LINGERIEDAY DOS BROTHERS!!! COLOQUE UMA FOTO SUA DE LINGERIE AIH PARA TODOS OS SEUS BROTHERS TE OBJETIFICAREM OU VC Ñ EH BRÓDER!!!!

Como é do conhecimento de qualquer azêmola, todas as moças que não obedeceram caladas não são mais brother.

Imagino que alguém vai falar: ah, mas as mulheres adoram se enfeitar, serem elogiadas, etc. Sim, isso é óbvio, qualquer pessoa gosta de se sentir bonita e receber elogios. Mas pra fazer isso ela não precisa de alguém mandando que participe de uma campanha, né? Ela pode muito bem se arrumar sozinha!

Ainda mais quando ela participa de uma campanha sem nem saber quem são os organizadores, não é mesmo?

Isso, é claro, é uma armadilha na qual apenas descerebrados que não fazem Direito na PUC-MG como eu podem cair: trata-se, naturalmente, da dissolução do sujeito, de que nos alerta Foucault. Afinal, ele pouco falou da dissolução do objeto em As Palavras e as Coisas, não é?

O arranca-Habermas em voga da discussão filosófica, tão conhecidos pela erudição de uma Semíramis, gira em torno das estruturas condicionantes que permitem atingir o verdadeiro conhecimento, e não o mero achismo, como o meu - conforme ela mesma diz:

A “provocação”, na verdade, está em mostrar um ponto de vista fora do senso comum. Parece que isso incomoda tanto as pessoas, que elas imediatamente passam a tratar tanto quem escreveu quanto quem apoiou o texto como perigosas mentes subversivas que vivem a gritar para impor suas idéias.

Infelizmente, a nós, que só temos senso comum, só resta gritar. Não podemos compreender que, desde que Kant resolveu a dicotomia racionalismo continental x empirismo insular na filosofia, uma série sem fim de pensadores veio movendo o Ocidente apontando cada vez mais profundas estruturas condicionantes de sabedoria.

Marx encontrou a mola da História na luta de classes, enquanto estamos aqui alienadamente achando que discutimos no Twitter sem ser para oprimir quem ganha menos.

Nietzsche, irrefutável como sempre, desvendou o véu da vontade de poder.

Freud percebeu que todas as nossas ações são, na verdade, obediência ao impulso da libido inconsciente recalcada.

Jung descortinou que toda essa discussão anterior é repetição de um script milenar registrado no inconsciente coletivo.

Korzybsky e Whorf, sabiamente, souberam que estavam todos enganados por pressupostos metafísicos aristotélicos na própria estrutura da linguagem, e os primeiros a escaparem dessa trama foram... Korzybsky e Whorf.

Professor: Margie, não me peça para respeitar uma relação que você tem com um homem que apenas te usa quando lhe convém.
Margie: O Homer é uma boa pessoa! Ele me mandou este cartão. *mostra um cartão escrito "Eu amo você"*
Professor: Margie, o que você não entende é que quando ele te diz "eu amo você", eu é o sujeito, e você é o OBJETO!


Por fim, Foucault corrigiu tudo, pois o pressuposto mesmo do saber é a epistéme, a estrutura geral de saber, que condiciona todo o conhecimento de uma época e, repentinamente, sem explicação aparente, muda para outra, nos deixando completamente perdidos no ar.

Não é claro notar como a erudição de Semíramis toma o braço de Foucault ao perceber uma não-exigência de sujeito para que uma moça com lingerie no avatar seja um objeto?

Porém, o lingerieday não se trata de uma campanha de valorização da nudez, mas uma campanha sobre objetificação através da exibição de lingerie das mulheres. Alguns homens determinaram que as mulheres devem, em determinada data, trocar seus avatares por fotos de lingerie. Eles as colocaram na posição de objetos. O contexto é outro, no qual há dois componentes eróticos: um, atribuído às poucas peças que faltam para deixar partes do corpo que são consideradas eróticas à mostra; outro, pela “obediência” à campanha.

Mas não sejamos tão superficiais. Qualquer aluno de Túlio Vianna (exceto nós) sabe que a objetividade trata de algo presente - mas, como presente, também pode ser experenciado como algo que brota de si, a partir de si [Aufgehend], que é justamente o que significa physis. Uma Semíramis sabe perfeitamente que o conceito de objeto e de objetividade não existem no pensamento grego e na Idade Média: foram introduzidos pela modernidade, a partir de Descartes, e constitutem a própria definição da ciência moderna, que recorta um objeto do tecido do mundo para ser estudado em separado.

A presença em si mesma já é entendida, a partir daí, pela sua possibilidade de representação através de um sujeito. Não se toma mais a presença em si, mas aquilo que pode ser ob-jetado a mim, como sujeito pensante. É essa mudança da experiência da presença que define a modernidade. O homem, obrigatoriamente, passa a olhar o mundo por recortes. O grego, que criava o mito das ninfas e das sereias baseando-se nas mulheres que se desnudavam nas thermas (banhos públicos), agora é sempre alguém como um biólogo ou sociólogo, que, ao ver uma mulher em trajes diminutos, logo pensa: como será que posso tomar este objeto para mim?, como, por um exemplo hipotético, "o que faço com esses avatares de lingerie na minha frente?".

(não custa lembrar, é claro, que o homem é aqui entendido tão-somente em seu sentido masculino, branco e burguês.)

Mas como esta objetificação se dá?, perguntamos atônitos a Cyntia Semíramis. Ora, apenas ela poderia nos responder: desde a Antigüidade que sabemos que a apreensão de um objeto pela consciência forma um conceito. Este conceito é obra da cognição, que produz imagens mentais dos objetos. Uma imago é uma representação, ela imita o objeto dentro da própria mente.

A cognição pode ser sensitiva ou intelectual. A sensitiva é comum a animais e homens, enquanto a intelectual é coisa até de homens que são uns animais. É, basicamente, o que conseguimos através dos órgãos dos sentidos. Já a intelectual, ou simplesmente intelecção, extrai dos objetos o que é eidético, organizando-na mente conforme notas sistemáticas dela própria. Ora, o sensível dado in bruto é o phantasma, Do phantasma extraem-se as noas esquemáticas. A notio, a noção já esquematizada, é a species (o complexo de notas). Como exemplo: "Você não tem noção do que vi no #lingerieday!"

Species tem a mesma raiz do verbo specto (contemplar, ver). Também de speculum, espelho. Também ideyn, em grego, é ver, e daí idéia, e eidos, que é seu sinônimo.

A ideia é a similitude do objeto na mente, sem ulterior afirmação ou negação: "Você tem idéia do que significa o #lingerieday?". Esta apreensão é a mente captando intencionalmente (intentio) o objeto: a noção, portanto, é o que é de fato captado pela mente.

Temos, então:

  • espécie expressa: a similitude expressa ou formal da coisa na mente;
  • verbum mentis: a expressão, manifestação ou locução intencional que a mente propóe a si mesma do objeto;
  • terminum mentis: o que ou em que termina a coisa na mente;
  • intentio: o que do objeto tende à mente;
  • forma inteligível: a similitude que representa o objeto;
  • ratio: o que é o princípio inteligível da coisa.

Isso tudo, claro, para ficarmos apenas na conceitualização, que é a primeira operação do espírito.

Quando Túlio Vianna, do alto de sua sabedoria, nos explica que, petis fucifer!, alguns machos ocidentais estariam se masturbando olhando para esses avatares, podemos presumir que ele nos avisa de que alguns tomaram apenas o phantasma, sem intelecção.

Em uma analogia, o phantasma é a mulher posando para a Private, em que apenas o sensível bruto chega aos sentidos. Já um ensaio para a Playboy é a espécie expressa, ambas tendo como intentio seus corpos, uma com terminum mentis a pornografia, e outra o ensaio erótico. O verbum mentis, é óbvio, é a provocação instinta destes corpos, tendo como forma inteligível aquilo que deles fica retido na mente desses onanistas pervertidos.

Mas no degradé Private > Playboy, temos na ponta o caso do #lingerieday. Se Semíramis e Túlio, com seu discurso, calcado em Foucault encontram relações de poder em tudo (onde Freud, antes, encontrara relações de contenção sexual em tudo), não é desbaratado lembrar que o #lingerieday, mais do que a Playboy (e muito mais do que a Private), é um evento sedutor - de seducere, não fazer aparecer, o contrário de producere, fazer surgir, que não tinha a carga de "produção material" que o verbo possui hoje.

É, portanto, o contrário de um tratamento objetivo das mulheres que as torna apenas meio para o prazer sexual. A pornografia é justamente esse modo de produção desinibida e sem freios que aflorou no século XX, que não trata da mulher-objeto de uma maneira mais profunda do que através do phantasma de seus corpos.

Eu poderia crer, portanto, que ver o avatar de mulheres, incluindo amigas, no #lingerieday, possui uma diferença fundamental de ver pornografia no SexyHot. Por sinal, vê-se muito menos, conversa-se muito mais, lê-se as observações que as moças postam sobre Foucault e Marcuse em seus blogs. Mas, claro, de alguma forma que não consigo compreender por não atingir o nível de intelecção de Vianna e Semíramis, eu estou errado, e eles, combatendo o senso comum, certíssimos: Túlio, até mesmo, defendeu que pornografia é cultura, e, logo, deve ser algo com que os trabalhadores bonificados com o Bolsa Sinuca, digo,"Vale Cultura" petista podem gastar os seus caraminguás - a única coisa que entendi é que o problema do #lingerieday, então, é ser gratuito.

Mesmo pessoas exibicionistas sempre pensam SE e QUANDO irão se exibir, ou qual a melhor forma e ocasião para satisfazer os próprios desejos. Elas não precisam se colocar como objetos da relação, esperando alguém determinar se e quando poderão se exibir.


Voltemos, então, à objetificação pelo homem. O que apenas seres desprovidos de preconceitos como Semíramis fazem é enxergar medidas que nós, objetificadores, não conseguimos.

Medir é sempre uma comparação, no sentido de que se mede, por exemplo, o diâmetro de uma mesa com uma medida pré-estabelecida. Mas nem todo medir é um medir quantitativo. Posso medir algo como algo, assim tomando a medida da coisa pelo que ela é. É esse medir, ademais, que é a própria estrutura fundamental do relacionamento humano com as coisas. Por exemplo: ver um um avatar de lingerie no Twitter e não ver apenas um corpo, como veríamos na Private (ou na Caras...), e sim, ver uma mulher, talvez uma amiga, que, corajosamente, quis mostrar sua beleza e provocar a imaginação do próximo (muitas vezes, é claro, sem nunca ter ouvido falar dos 3 Patetas que inventaram o flash mob).

Em toda concepção de algo, por exemplo, de uma moça de lingerie, eu me meço pelo que é concebido. Por isso também pode-se dizer que é um dizer adequado, na medida (angemessenes) ao objeto.

Isso é um desmembramento de intersubjetividade que já dera seus passos em Husserl, que definiu dois horizontes de compreensão para os atos da consciência: um que toma o objeto como uma imagem para a consciência (a base), e outro horizonte que sempre o encaixa na sua significação dentro do mundo (é impossível ler esse texto sem perceber que se está lendo num computador, que fica em uma casa, que fica em um bairro, que fica em um país e assim por diante). Essa nova lógica transcendental dará os primeiros passos da intersubjetividade em Husserl - e, afinal, como diz Buber, é impossível pensar num homem como um ser objetivo de magnitude apenas utilitarista como se pensa uma pedra. E também Merleau-Ponty, sabendo que as coisas estão no mundo, estão, portanto, condenadas ao sentido, ainda mais porque o comportamento do observador altera o objeto observado, como qualquer físico quântico de quinta série o sabe.

A verdade sobre um objeto, portanto, é definida como adaequatio intellectus ad rem. Isso também é uma equação: uma relação do homem com o objeto. Mas este é um medir extremamente fundamental, a partir do qual é fundado todo o conhecimento científico (embora, com complicações novas, perca-se esses sólidos paradigmas: na física nuclear, por exemplo, não existem mais "objetos"). O homem, quando entra em uma relação dessas (como observar sua amiga gostosona no #lingerieday) não se coloca a questão. A relação do homem com os parâmetros e medidas é sua relação fundamental, ou seja, sua própria compreensão do ser.

Em termos mais claros, o homem, obrigatoriamente, por intelecção, já não vê apenas um objeto desprovido de história, desejos, vontades, vida. Do contrário, toda aproximação seria um estupro. Ele vê outro ser como ele, pois sua relação fundamental, que fundamenta todas as suas relações, não está com aquele indivíduo objetificado diante de si, mas com sua própria capacidade de se relacionar com humanos - mesmo que preferindo se relacionar com as gostosonas.

Este conceito é bem explicado por Octavio Paz, quando mostra como o Ocidente científico diferencia A de B como não-intercambiáveis, enquanto o pensamento oriental concebe A como uma instância de B - tudo o que é A está em B e tudo o que é B está em A; ambos pertecem um ao outro e ambos se pertencem; um não pode excluir ao outro sem também se excluir (o que pauta as relações de vida e morte no Oriente). Kakuzo Okakura resume a relação fundamental no seu O livro do chá, com o apoptegma ser-no-ser-do-mundo, de onde Semíramis sabe que Heidegger tirou o seu conceito de In-der-Welt-Sein. Afinal, como já dizia Descartes, Regulae ad directionem ingenii: Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigandam ("Para se investigar a verdade é necessário um método").

Mas... aproximação que é um estupro? Ora, Semíramis e Vianna, como professores de Direito Penal, já devem estar até de saco cheio da obra Criminal Shadows, de David Canter, que traça um "mapa" de três formas como um estuprador concebe sua vítima: pode vê-la apenas como objeto, fazendo preparativos, se disfarçando, usando armas para controle; pode vê-la como veículo, sendo agressivo e humilhador, exigindo participação da vítima; ou pode enxergá-la como uma pessoa, buscando uma aproximação.

Mas tudo isso é uma bazófia que tem o peso de um tapa de pelanca numa discussão dialética. Vem Semíramis e vocifera:

Participar de uma campanha para ser considerada livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, significa apenas uma coisa: a pessoa está se colocando num lugar de objeto, dependendo da classificação e aprovação de alguém, que irá julgar se ela se adequou ou não às regras.

Se você é realmente livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, não precisa da opinião das outras pessoas para se afirmar. Por isso, vai decidir SE e QUANDO participar de qualquer campanha, pouco importando a opinião/aceitação das demais pessoas.

(...) E, se o meio em que você vive exige esse tipo de posicionamento para ser aceita, observe que aqui você é objeto, e vive em função de um sujeito.

(...) É por isso que participar de uma campanha de objetificação coloca a pessoa como objeto. Mesmo que ela escolha se posicionar assim, agindo com autonomia,

Tenho como enfrentar essa porradaria, que tem o peso de um tabefe, três socão na cara, uma mordida, duas rasteiras, quatro telefones, um chute no saco, quatro "pisão" e duas voadoras ninjutsu, de acordo com o meu manual de D&D?! O que o ponto-de-vista perturbador, revolucionário e erudito de Semíramis é capaz de fazer com o meu ponto de vista superficial, rasteiro e criado às pressas, baseado apenas em senso comum, enquanto nossa filósofa destila sabedoria sem precisar apelar para fórmulas fáceis, como dicotomias lingüísticas, para mostrar que o problema em ser objeto é se subjugar ao outro, mesmo quando se age com autonomia - o que, é claro, eu não entendi.

Mas, além de genial, Semíramis é a pessoa mais bem-intencionada da Twittosfera:

O problema da internet é que não se tem controle sobre o que pode acontecer. Alguns rapazes inventaram uma brincadeirinha “inocente” e ficaram perplexos ou indignados (depende da versão contada) ao descobrir que uma brincadeira não é só uma brincadeira, mas tem todo um contexto de objetificação.

Ora, como é bom ter alguém para nos defender, não é mesmo? Afinal, conforme o exposto acima sobre os homens relacionarem com suas próprias relações fundamentais quando interagem com pessoas, podemos perceber que a relação fundamental é que só nós vamos perceber que, do outro lado daqueles avatares, há pessoas que trabalham, pensam, lêem, votam. Mas os únicos preconceituosos, sempre, são eles, os outros, incapazes de perceber isso.

Como, para variar, faço parte mais do eles do que do nós, fiquei sem entender todas as contradições que Semíramis deixou passar. Mas de que adiantaria discutir com um reacionário raivoso, mesmo? Melhor deixar a cachorrada latir!


Post Scriptum: uma coisa aprendi sobre as mulheres com o #lingerieday. Sutiãs são coisas que incomodam. Pra cacete. Vocês merecem um brinde por usar isso todo dia. E olha que nem tenho boobs.


Bibliografia:


1. CARVALHO, Olavo de. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão. p. 235-6. São Paulo: TopBooks, 2003.

2. MORGENSTERN, Flavio, A Dor de Parto das Palavras. Disponível em: <http://flaviomorgen.blogspot.com/2007/09/dor-de-parto-das-palavras_26.html>. Último acesso em 27.01.2010.

3. HEIDEGGER, Martin, Que é a Metafísica?, In: Heidegger - Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

4. SANTOS, Mário Ferreira dos, Tratado Geral de Esquematologia. São Paulo: Logos. 1962.

5. BAUDRILLARD, Jean. Olvidar a Foucault. Valência: Pre-Textos, 2000.

6. HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon, p. 136-8. Petrópolis: Vozes, 2006.

7. HENRIQUES, Fernanda. Intertextualidades: Freud, Hegel e Husserl na constituição da teoria da consciência-texto de Paul Ricoeur. Disponível em <http://home.uevora.pt/~fhenriques/textos-filocont/intertextualidadesemteoria%20da%20consciencia%20de%20paulricoeur.pdf>. Último acesso em 27.01.2010.

8. BUBER , Martin. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2006.

9. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

10. CANTER, David, Criminal Shadows. London: HarperCollins, 2004.

11. PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

12. OKAKURA, Kakuzo. O Livro do Chá. São Paulo: Estação Liberdade, 2007.

7 pessoas leram e discordaram:

Carol disse...

É provável que minha interpretação do caso seja muito freudiana (charlatã) para o gosto do meu amigo Flávio, mas eu resumiria toda a polêmica em torno do #lingerieday da seguinte maneira:

Sobre gente que faz #mimimi em ver outras pessoas semi-nuas no Twitter:

a- Homens = gays mal resolvidos (se fossem assumidos e felizes estariam curtindo)

b- Mulheres = barangas invejosas (porque dá para ser desprovida de beleza sem querer reprimir a beleza alheia)

Bjs, honey.

Guilherme Reis disse...

Olha, o texto está muito bem redigido, embora prolixo, entendo que tenha um caráter sarcástico.

A brincadeira do lingerieday é de fato machista, mas muitos homens (assim como eu) que também postaram fotos de underwear a pedido de mulheres que se sentiam "objetos" da brincadeira. Seria eu então um objeto do objeto da brincadeira? Sei lá... Pouco me importa.


O bacana é poder se divertir com as pessoas que gosto de conversar no twitter!

Ygor disse...

Porra! Não li 10% do que vc escreveu, irmão!

Sabe o que é legal? Enquanto 1% do mundo acha que a internet é o lugar mais importante do mundo, o mundo, de verdade, tá rolando lá fora, com gente pegando ônibus lotado e ganhando salário de merda. Esse sim é o mundo de verdade. Não o mundo onde se discute quem pode botar foto de calcinha e sutiã na internet e pq.

A verdadeira liberdade é alguém poder botar foto de lingerie e continuar sendo uma pessoa.

Ah, sim. Tomara que um dia eu consiga escrever um texto assim e entender o que eu to escrevendo. Dá-lhe cérebro!

Gabriela Silva disse...

Olha, eu sinceramente não entendo bem o por quê de tanta polêmica em torno de uma brincadeira como o #lingerieday. Participa quem quer e quem não quer ficar de fora, oras! Mas, claro, todos tem direito a expor sua opinião a respeito. Só que seria ótimo se as pessoas não ficassem o tempo inteiro colocando em voga essa questão de "mulher-objeto". Não existe mais isso! As garotas que participaram, estavam ali porque sentiam-se à vontade e ponto. Participei como "Secretinha", não queria ficar de fora, mas também não tive tanta coragem de "assumir" totalmente que tava ali. Porém, eu admiro quem a coragem de quem mostrou a foto e se divertiu a valer com isso.
Besteira mesmo essas ideiazinhas feministas do século passado. Com tanta exposição de nudez em novelas, filmes, revistas, BBB e afins, o povo vai se importar com a exposição de fotos com lingerie em um dia por duas vezes ao ano. Faça-me o favor!
Ótimo post, apesar de longoooo. rs
Beijo!

Night64 disse...

O que eu achei mais engraçado é que na bio da Semiramis no Twitter está escrito que ela é pesquisadora em direitos das mulheres, mídia e liberdade de expressão.

Flavio disse...

Carol, eu não usaria isso por ser um ataque quase pessoal. Mas enfim, eles amam psicanálise, né? Logo, deve funcionar. E a julgar pelos avatares dos seres em questão... sei não.


Guilherme, isso tudo só mostra como é uma saída fácil tratar tudo como sujeito VERSUS objeto, mas, na prática, isso não existe. Iria comentar ainda sobre mais alguns textos que tratam dessa questão, de Kierkegaard (que mostra como nem mesmo só o "eu" pode ser um "sujeito" sem ser em relação com ele mesmo, tratando-o quase "de fora"), do Olavo de Carvalho [http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/kant3.htm] e sobretudo [http://www.olavodecarvalho.org/blog/archives/000008.html], do Raymond Abellio [www.olavodecarvalho.org/apostilas/abellio.htm], Wertheimer, Köhler e Frankl (esse fiquei devendo para uma amiga nesse texto) - mas isso tudo só pra mostrar como se achar "erudito" e "contra o senso comum" por analisar o mundo por uma construção sintática é uma bobeira.

Semíramis, aí, chega a dizer que o objeto não tem autonomia, não decide por si mesmo (pois, óbvio, se o fizesse, seria sujeito!), e depois diz que está "explicado" como uma pessoa vira objeto, mesmo agindo com autonomia.

Ora, é possível ser objeto sem ser sujeito, e vice-versa? E no que isso nos impede de perceber que, por detrás de avatares, estão pessoas com quem podemos conversar?

A @lubom disse que as únicas pessoas que a trataram como gado por causa do #lingerieday foram as feministas.

Salvem-nos de nossos salvadores!

Flavio disse...

Ygor, o ponto que me toca é que pessoas destilam preconceitos na internet como se fossem curas para preconceitos. E eu gosto de comprar brigas porque eu mesmo aprendo com elas. Sem contar que rende bons textos - ainda que propositalmente difíceis, como foi esse.


Gabriela, muito obrigado por suas palavras! Não é estranho que falem de uma sociedade machista, arcaica, onde o sexo é sempre uma impingência à mulher, um motivo mais de humilhação e dor do que prazer (foi o que o contado Calligaris comentou no caso da Geisy), mas na hora em que uma mulher resolva mostrar que também é sujeito na relação, que pode gostar, que sabe provocar, que sabe mandar e ficar por cima (Lilith que nos valha!), que se diverte exibindo a lingerie porque ela mesma se sente bem, mesmo sem saber quem e quantos viram a foto? (aliás, foi o que senti, posando, sem saber quem diabos foram os "sujeitos" que me "objetificaram"...)

E, claro, só eles sabem que a sociedade é desigual com homens e mulheres, só eles se preocupam. Nós não, né? Afinal, se uma mulher é bonita e gostosa, só pode ser uma completa bactéria.

O texto foi LOOOONGO (o mais longo que já postei no blog, deve ter mais do que o triplo do tamanho do segundo lugar), mas foi só pra mostrar como o "sujeito x objeto" é bem mais complexo do que esse povo pensa. Mas, enfim, de que vale discutir comigo, não é mesmo?

Muito obrigado pela visita!

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Seria o #lingerieday uma 'objetificação feminina'?


Eu desisto.

No último #lingerieday, houve uma grita sobre o caráter objetificador, machista, pervertido, inadequado para nossas crianças, opressor, troglodita, chauvinista, burguês, neoliberal e imperialista do flash mob. O rebuliço foi orquestrado por pessoas de reputação ilibada, como @tuliovianna, @semiramis e @anarina.

Como já é de conhecimento público, garatujei um hidrófobo texto questionando Túlio Vianna ser um crítico tão aguerrido da objetificação feminina do evento, se ficou do lado do opressor objetificador em um caso de seqüestro, estupro e assassinato por esfaqueamento e degolamento. Acreditei que iria provocar uma séria discussão sobre "objetificação" com um especialista. Vianna após discutir isso o dia inteiro no Twitter, disse que não poderia perder tempo com um "reacionário raivoso" como eu, que era melhor deixar "a cachorrada latir".

Para variar, eu estava errado. Redimo-me nestas mal-digitadas. Pautar-me-ei pela alterosa sapiência de Cyntia Semíramis, que
escreveu sobre o evento. Diz nossa filósofa:

Estamos falando de uma campanha para criticar e esvaziar o uso político do twitter, procurando ridicularizar o ciberativismo.

Não poderia estar mais correta. Com toda a razão, o objetivo claro do #lingerieday é esvaziar o Twitter de conteúdo político. A prova mais viva foram os boicotes de @joseserra_, @demostenes_go e @mercadante.

Ataque ainda mais certeiro:

Mas o ponto principal é: a campanha tem um mote de objetificação das mulheres. Sobre objetificação, entenda-se colocar as mulheres em posição subordinada à dos organizadores. São elas que devem mudar seus avatares (ou seja, sua imagem de identificação em determinado grupo social) para uma foto usando lingerie. É uma relação desigual: eles mandam, elas obedecem. Eles são sujeitos, determinando as regras; elas são objetos, obedecendo ao que foi mandado.

Ora, o dia inteiro a discussão girou em torno desse ponto. Eu, ignóbil de inteligência apoucada, não entendi como mulheres que nem sequer sabiam quem eram os organizadores puderam ser por eles objetificadas. Infelizmente, ainda me falta muito para chegar ao grau intelectual de Semíramis, que encontra objetificação sem haver subjetificação. Minhas escusas.

Mas é um ponto importantíssimo: o #lingerieday impõe regras. É desigual. É machista. É homofóbico. É chauvinista. É patriarcal. É retrógrado. É malufista. É subjugador. Os organizadores do evento falam por si. Há fotos documentais que mostram @gravz obrigando garotas ingênuas e indefesas a mostrarem suas lingeries, com ameaças opressoras, desde facadas até unfollow. O @izzynobre é um porco chauvinista tão escroto que colocou até a própria mulher no evento para ser objetificada a seus cupinchas, provavelmente depois de um espancamento. O @morroida, então, nem se fala: esse aí, depois de Túlio Vianna pedir pelo outro prato da balança (que os homens colocassem fotos de suas cuecas), só colocou porque Túlio o objetificou, e não por ser sujeito da relação...

E nada impôs mais regras do que o famoso anátema que deu origem ao evento:

#LINGERIEDAY DOS BROTHERS!!! COLOQUE UMA FOTO SUA DE LINGERIE AIH PARA TODOS OS SEUS BROTHERS TE OBJETIFICAREM OU VC Ñ EH BRÓDER!!!!

Como é do conhecimento de qualquer azêmola, todas as moças que não obedeceram caladas não são mais brother.

Imagino que alguém vai falar: ah, mas as mulheres adoram se enfeitar, serem elogiadas, etc. Sim, isso é óbvio, qualquer pessoa gosta de se sentir bonita e receber elogios. Mas pra fazer isso ela não precisa de alguém mandando que participe de uma campanha, né? Ela pode muito bem se arrumar sozinha!

Ainda mais quando ela participa de uma campanha sem nem saber quem são os organizadores, não é mesmo?

Isso, é claro, é uma armadilha na qual apenas descerebrados que não fazem Direito na PUC-MG como eu podem cair: trata-se, naturalmente, da dissolução do sujeito, de que nos alerta Foucault. Afinal, ele pouco falou da dissolução do objeto em As Palavras e as Coisas, não é?

O arranca-Habermas em voga da discussão filosófica, tão conhecidos pela erudição de uma Semíramis, gira em torno das estruturas condicionantes que permitem atingir o verdadeiro conhecimento, e não o mero achismo, como o meu - conforme ela mesma diz:

A “provocação”, na verdade, está em mostrar um ponto de vista fora do senso comum. Parece que isso incomoda tanto as pessoas, que elas imediatamente passam a tratar tanto quem escreveu quanto quem apoiou o texto como perigosas mentes subversivas que vivem a gritar para impor suas idéias.

Infelizmente, a nós, que só temos senso comum, só resta gritar. Não podemos compreender que, desde que Kant resolveu a dicotomia racionalismo continental x empirismo insular na filosofia, uma série sem fim de pensadores veio movendo o Ocidente apontando cada vez mais profundas estruturas condicionantes de sabedoria.

Marx encontrou a mola da História na luta de classes, enquanto estamos aqui alienadamente achando que discutimos no Twitter sem ser para oprimir quem ganha menos.

Nietzsche, irrefutável como sempre, desvendou o véu da vontade de poder.

Freud percebeu que todas as nossas ações são, na verdade, obediência ao impulso da libido inconsciente recalcada.

Jung descortinou que toda essa discussão anterior é repetição de um script milenar registrado no inconsciente coletivo.

Korzybsky e Whorf, sabiamente, souberam que estavam todos enganados por pressupostos metafísicos aristotélicos na própria estrutura da linguagem, e os primeiros a escaparem dessa trama foram... Korzybsky e Whorf.

Professor: Margie, não me peça para respeitar uma relação que você tem com um homem que apenas te usa quando lhe convém.
Margie: O Homer é uma boa pessoa! Ele me mandou este cartão. *mostra um cartão escrito "Eu amo você"*
Professor: Margie, o que você não entende é que quando ele te diz "eu amo você", eu é o sujeito, e você é o OBJETO!


Por fim, Foucault corrigiu tudo, pois o pressuposto mesmo do saber é a epistéme, a estrutura geral de saber, que condiciona todo o conhecimento de uma época e, repentinamente, sem explicação aparente, muda para outra, nos deixando completamente perdidos no ar.

Não é claro notar como a erudição de Semíramis toma o braço de Foucault ao perceber uma não-exigência de sujeito para que uma moça com lingerie no avatar seja um objeto?

Porém, o lingerieday não se trata de uma campanha de valorização da nudez, mas uma campanha sobre objetificação através da exibição de lingerie das mulheres. Alguns homens determinaram que as mulheres devem, em determinada data, trocar seus avatares por fotos de lingerie. Eles as colocaram na posição de objetos. O contexto é outro, no qual há dois componentes eróticos: um, atribuído às poucas peças que faltam para deixar partes do corpo que são consideradas eróticas à mostra; outro, pela “obediência” à campanha.

Mas não sejamos tão superficiais. Qualquer aluno de Túlio Vianna (exceto nós) sabe que a objetividade trata de algo presente - mas, como presente, também pode ser experenciado como algo que brota de si, a partir de si [Aufgehend], que é justamente o que significa physis. Uma Semíramis sabe perfeitamente que o conceito de objeto e de objetividade não existem no pensamento grego e na Idade Média: foram introduzidos pela modernidade, a partir de Descartes, e constitutem a própria definição da ciência moderna, que recorta um objeto do tecido do mundo para ser estudado em separado.

A presença em si mesma já é entendida, a partir daí, pela sua possibilidade de representação através de um sujeito. Não se toma mais a presença em si, mas aquilo que pode ser ob-jetado a mim, como sujeito pensante. É essa mudança da experiência da presença que define a modernidade. O homem, obrigatoriamente, passa a olhar o mundo por recortes. O grego, que criava o mito das ninfas e das sereias baseando-se nas mulheres que se desnudavam nas thermas (banhos públicos), agora é sempre alguém como um biólogo ou sociólogo, que, ao ver uma mulher em trajes diminutos, logo pensa: como será que posso tomar este objeto para mim?, como, por um exemplo hipotético, "o que faço com esses avatares de lingerie na minha frente?".

(não custa lembrar, é claro, que o homem é aqui entendido tão-somente em seu sentido masculino, branco e burguês.)

Mas como esta objetificação se dá?, perguntamos atônitos a Cyntia Semíramis. Ora, apenas ela poderia nos responder: desde a Antigüidade que sabemos que a apreensão de um objeto pela consciência forma um conceito. Este conceito é obra da cognição, que produz imagens mentais dos objetos. Uma imago é uma representação, ela imita o objeto dentro da própria mente.

A cognição pode ser sensitiva ou intelectual. A sensitiva é comum a animais e homens, enquanto a intelectual é coisa até de homens que são uns animais. É, basicamente, o que conseguimos através dos órgãos dos sentidos. Já a intelectual, ou simplesmente intelecção, extrai dos objetos o que é eidético, organizando-na mente conforme notas sistemáticas dela própria. Ora, o sensível dado in bruto é o phantasma, Do phantasma extraem-se as noas esquemáticas. A notio, a noção já esquematizada, é a species (o complexo de notas). Como exemplo: "Você não tem noção do que vi no #lingerieday!"

Species tem a mesma raiz do verbo specto (contemplar, ver). Também de speculum, espelho. Também ideyn, em grego, é ver, e daí idéia, e eidos, que é seu sinônimo.

A ideia é a similitude do objeto na mente, sem ulterior afirmação ou negação: "Você tem idéia do que significa o #lingerieday?". Esta apreensão é a mente captando intencionalmente (intentio) o objeto: a noção, portanto, é o que é de fato captado pela mente.

Temos, então:

  • espécie expressa: a similitude expressa ou formal da coisa na mente;
  • verbum mentis: a expressão, manifestação ou locução intencional que a mente propóe a si mesma do objeto;
  • terminum mentis: o que ou em que termina a coisa na mente;
  • intentio: o que do objeto tende à mente;
  • forma inteligível: a similitude que representa o objeto;
  • ratio: o que é o princípio inteligível da coisa.

Isso tudo, claro, para ficarmos apenas na conceitualização, que é a primeira operação do espírito.

Quando Túlio Vianna, do alto de sua sabedoria, nos explica que, petis fucifer!, alguns machos ocidentais estariam se masturbando olhando para esses avatares, podemos presumir que ele nos avisa de que alguns tomaram apenas o phantasma, sem intelecção.

Em uma analogia, o phantasma é a mulher posando para a Private, em que apenas o sensível bruto chega aos sentidos. Já um ensaio para a Playboy é a espécie expressa, ambas tendo como intentio seus corpos, uma com terminum mentis a pornografia, e outra o ensaio erótico. O verbum mentis, é óbvio, é a provocação instinta destes corpos, tendo como forma inteligível aquilo que deles fica retido na mente desses onanistas pervertidos.

Mas no degradé Private > Playboy, temos na ponta o caso do #lingerieday. Se Semíramis e Túlio, com seu discurso, calcado em Foucault encontram relações de poder em tudo (onde Freud, antes, encontrara relações de contenção sexual em tudo), não é desbaratado lembrar que o #lingerieday, mais do que a Playboy (e muito mais do que a Private), é um evento sedutor - de seducere, não fazer aparecer, o contrário de producere, fazer surgir, que não tinha a carga de "produção material" que o verbo possui hoje.

É, portanto, o contrário de um tratamento objetivo das mulheres que as torna apenas meio para o prazer sexual. A pornografia é justamente esse modo de produção desinibida e sem freios que aflorou no século XX, que não trata da mulher-objeto de uma maneira mais profunda do que através do phantasma de seus corpos.

Eu poderia crer, portanto, que ver o avatar de mulheres, incluindo amigas, no #lingerieday, possui uma diferença fundamental de ver pornografia no SexyHot. Por sinal, vê-se muito menos, conversa-se muito mais, lê-se as observações que as moças postam sobre Foucault e Marcuse em seus blogs. Mas, claro, de alguma forma que não consigo compreender por não atingir o nível de intelecção de Vianna e Semíramis, eu estou errado, e eles, combatendo o senso comum, certíssimos: Túlio, até mesmo, defendeu que pornografia é cultura, e, logo, deve ser algo com que os trabalhadores bonificados com o Bolsa Sinuca, digo,"Vale Cultura" petista podem gastar os seus caraminguás - a única coisa que entendi é que o problema do #lingerieday, então, é ser gratuito.

Mesmo pessoas exibicionistas sempre pensam SE e QUANDO irão se exibir, ou qual a melhor forma e ocasião para satisfazer os próprios desejos. Elas não precisam se colocar como objetos da relação, esperando alguém determinar se e quando poderão se exibir.


Voltemos, então, à objetificação pelo homem. O que apenas seres desprovidos de preconceitos como Semíramis fazem é enxergar medidas que nós, objetificadores, não conseguimos.

Medir é sempre uma comparação, no sentido de que se mede, por exemplo, o diâmetro de uma mesa com uma medida pré-estabelecida. Mas nem todo medir é um medir quantitativo. Posso medir algo como algo, assim tomando a medida da coisa pelo que ela é. É esse medir, ademais, que é a própria estrutura fundamental do relacionamento humano com as coisas. Por exemplo: ver um um avatar de lingerie no Twitter e não ver apenas um corpo, como veríamos na Private (ou na Caras...), e sim, ver uma mulher, talvez uma amiga, que, corajosamente, quis mostrar sua beleza e provocar a imaginação do próximo (muitas vezes, é claro, sem nunca ter ouvido falar dos 3 Patetas que inventaram o flash mob).

Em toda concepção de algo, por exemplo, de uma moça de lingerie, eu me meço pelo que é concebido. Por isso também pode-se dizer que é um dizer adequado, na medida (angemessenes) ao objeto.

Isso é um desmembramento de intersubjetividade que já dera seus passos em Husserl, que definiu dois horizontes de compreensão para os atos da consciência: um que toma o objeto como uma imagem para a consciência (a base), e outro horizonte que sempre o encaixa na sua significação dentro do mundo (é impossível ler esse texto sem perceber que se está lendo num computador, que fica em uma casa, que fica em um bairro, que fica em um país e assim por diante). Essa nova lógica transcendental dará os primeiros passos da intersubjetividade em Husserl - e, afinal, como diz Buber, é impossível pensar num homem como um ser objetivo de magnitude apenas utilitarista como se pensa uma pedra. E também Merleau-Ponty, sabendo que as coisas estão no mundo, estão, portanto, condenadas ao sentido, ainda mais porque o comportamento do observador altera o objeto observado, como qualquer físico quântico de quinta série o sabe.

A verdade sobre um objeto, portanto, é definida como adaequatio intellectus ad rem. Isso também é uma equação: uma relação do homem com o objeto. Mas este é um medir extremamente fundamental, a partir do qual é fundado todo o conhecimento científico (embora, com complicações novas, perca-se esses sólidos paradigmas: na física nuclear, por exemplo, não existem mais "objetos"). O homem, quando entra em uma relação dessas (como observar sua amiga gostosona no #lingerieday) não se coloca a questão. A relação do homem com os parâmetros e medidas é sua relação fundamental, ou seja, sua própria compreensão do ser.

Em termos mais claros, o homem, obrigatoriamente, por intelecção, já não vê apenas um objeto desprovido de história, desejos, vontades, vida. Do contrário, toda aproximação seria um estupro. Ele vê outro ser como ele, pois sua relação fundamental, que fundamenta todas as suas relações, não está com aquele indivíduo objetificado diante de si, mas com sua própria capacidade de se relacionar com humanos - mesmo que preferindo se relacionar com as gostosonas.

Este conceito é bem explicado por Octavio Paz, quando mostra como o Ocidente científico diferencia A de B como não-intercambiáveis, enquanto o pensamento oriental concebe A como uma instância de B - tudo o que é A está em B e tudo o que é B está em A; ambos pertecem um ao outro e ambos se pertencem; um não pode excluir ao outro sem também se excluir (o que pauta as relações de vida e morte no Oriente). Kakuzo Okakura resume a relação fundamental no seu O livro do chá, com o apoptegma ser-no-ser-do-mundo, de onde Semíramis sabe que Heidegger tirou o seu conceito de In-der-Welt-Sein. Afinal, como já dizia Descartes, Regulae ad directionem ingenii: Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigandam ("Para se investigar a verdade é necessário um método").

Mas... aproximação que é um estupro? Ora, Semíramis e Vianna, como professores de Direito Penal, já devem estar até de saco cheio da obra Criminal Shadows, de David Canter, que traça um "mapa" de três formas como um estuprador concebe sua vítima: pode vê-la apenas como objeto, fazendo preparativos, se disfarçando, usando armas para controle; pode vê-la como veículo, sendo agressivo e humilhador, exigindo participação da vítima; ou pode enxergá-la como uma pessoa, buscando uma aproximação.

Mas tudo isso é uma bazófia que tem o peso de um tapa de pelanca numa discussão dialética. Vem Semíramis e vocifera:

Participar de uma campanha para ser considerada livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, significa apenas uma coisa: a pessoa está se colocando num lugar de objeto, dependendo da classificação e aprovação de alguém, que irá julgar se ela se adequou ou não às regras.

Se você é realmente livre, independente, moderna, sem problemas sexuais, não precisa da opinião das outras pessoas para se afirmar. Por isso, vai decidir SE e QUANDO participar de qualquer campanha, pouco importando a opinião/aceitação das demais pessoas.

(...) E, se o meio em que você vive exige esse tipo de posicionamento para ser aceita, observe que aqui você é objeto, e vive em função de um sujeito.

(...) É por isso que participar de uma campanha de objetificação coloca a pessoa como objeto. Mesmo que ela escolha se posicionar assim, agindo com autonomia,

Tenho como enfrentar essa porradaria, que tem o peso de um tabefe, três socão na cara, uma mordida, duas rasteiras, quatro telefones, um chute no saco, quatro "pisão" e duas voadoras ninjutsu, de acordo com o meu manual de D&D?! O que o ponto-de-vista perturbador, revolucionário e erudito de Semíramis é capaz de fazer com o meu ponto de vista superficial, rasteiro e criado às pressas, baseado apenas em senso comum, enquanto nossa filósofa destila sabedoria sem precisar apelar para fórmulas fáceis, como dicotomias lingüísticas, para mostrar que o problema em ser objeto é se subjugar ao outro, mesmo quando se age com autonomia - o que, é claro, eu não entendi.

Mas, além de genial, Semíramis é a pessoa mais bem-intencionada da Twittosfera:

O problema da internet é que não se tem controle sobre o que pode acontecer. Alguns rapazes inventaram uma brincadeirinha “inocente” e ficaram perplexos ou indignados (depende da versão contada) ao descobrir que uma brincadeira não é só uma brincadeira, mas tem todo um contexto de objetificação.

Ora, como é bom ter alguém para nos defender, não é mesmo? Afinal, conforme o exposto acima sobre os homens relacionarem com suas próprias relações fundamentais quando interagem com pessoas, podemos perceber que a relação fundamental é que só nós vamos perceber que, do outro lado daqueles avatares, há pessoas que trabalham, pensam, lêem, votam. Mas os únicos preconceituosos, sempre, são eles, os outros, incapazes de perceber isso.

Como, para variar, faço parte mais do eles do que do nós, fiquei sem entender todas as contradições que Semíramis deixou passar. Mas de que adiantaria discutir com um reacionário raivoso, mesmo? Melhor deixar a cachorrada latir!


Post Scriptum: uma coisa aprendi sobre as mulheres com o #lingerieday. Sutiãs são coisas que incomodam. Pra cacete. Vocês merecem um brinde por usar isso todo dia. E olha que nem tenho boobs.


Bibliografia:


1. CARVALHO, Olavo de. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão. p. 235-6. São Paulo: TopBooks, 2003.

2. MORGENSTERN, Flavio, A Dor de Parto das Palavras. Disponível em: <http://flaviomorgen.blogspot.com/2007/09/dor-de-parto-das-palavras_26.html>. Último acesso em 27.01.2010.

3. HEIDEGGER, Martin, Que é a Metafísica?, In: Heidegger - Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

4. SANTOS, Mário Ferreira dos, Tratado Geral de Esquematologia. São Paulo: Logos. 1962.

5. BAUDRILLARD, Jean. Olvidar a Foucault. Valência: Pre-Textos, 2000.

6. HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon, p. 136-8. Petrópolis: Vozes, 2006.

7. HENRIQUES, Fernanda. Intertextualidades: Freud, Hegel e Husserl na constituição da teoria da consciência-texto de Paul Ricoeur. Disponível em <http://home.uevora.pt/~fhenriques/textos-filocont/intertextualidadesemteoria%20da%20consciencia%20de%20paulricoeur.pdf>. Último acesso em 27.01.2010.

8. BUBER , Martin. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2006.

9. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

10. CANTER, David, Criminal Shadows. London: HarperCollins, 2004.

11. PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

12. OKAKURA, Kakuzo. O Livro do Chá. São Paulo: Estação Liberdade, 2007.

7 pessoas leram e discordaram:

Carol on 28 de janeiro de 2010 14:39 disse...

É provável que minha interpretação do caso seja muito freudiana (charlatã) para o gosto do meu amigo Flávio, mas eu resumiria toda a polêmica em torno do #lingerieday da seguinte maneira:

Sobre gente que faz #mimimi em ver outras pessoas semi-nuas no Twitter:

a- Homens = gays mal resolvidos (se fossem assumidos e felizes estariam curtindo)

b- Mulheres = barangas invejosas (porque dá para ser desprovida de beleza sem querer reprimir a beleza alheia)

Bjs, honey.

Guilherme Reis on 28 de janeiro de 2010 14:54 disse...

Olha, o texto está muito bem redigido, embora prolixo, entendo que tenha um caráter sarcástico.

A brincadeira do lingerieday é de fato machista, mas muitos homens (assim como eu) que também postaram fotos de underwear a pedido de mulheres que se sentiam "objetos" da brincadeira. Seria eu então um objeto do objeto da brincadeira? Sei lá... Pouco me importa.


O bacana é poder se divertir com as pessoas que gosto de conversar no twitter!

Ygor on 28 de janeiro de 2010 17:59 disse...

Porra! Não li 10% do que vc escreveu, irmão!

Sabe o que é legal? Enquanto 1% do mundo acha que a internet é o lugar mais importante do mundo, o mundo, de verdade, tá rolando lá fora, com gente pegando ônibus lotado e ganhando salário de merda. Esse sim é o mundo de verdade. Não o mundo onde se discute quem pode botar foto de calcinha e sutiã na internet e pq.

A verdadeira liberdade é alguém poder botar foto de lingerie e continuar sendo uma pessoa.

Ah, sim. Tomara que um dia eu consiga escrever um texto assim e entender o que eu to escrevendo. Dá-lhe cérebro!

Gabriela Silva on 28 de janeiro de 2010 18:33 disse...

Olha, eu sinceramente não entendo bem o por quê de tanta polêmica em torno de uma brincadeira como o #lingerieday. Participa quem quer e quem não quer ficar de fora, oras! Mas, claro, todos tem direito a expor sua opinião a respeito. Só que seria ótimo se as pessoas não ficassem o tempo inteiro colocando em voga essa questão de "mulher-objeto". Não existe mais isso! As garotas que participaram, estavam ali porque sentiam-se à vontade e ponto. Participei como "Secretinha", não queria ficar de fora, mas também não tive tanta coragem de "assumir" totalmente que tava ali. Porém, eu admiro quem a coragem de quem mostrou a foto e se divertiu a valer com isso.
Besteira mesmo essas ideiazinhas feministas do século passado. Com tanta exposição de nudez em novelas, filmes, revistas, BBB e afins, o povo vai se importar com a exposição de fotos com lingerie em um dia por duas vezes ao ano. Faça-me o favor!
Ótimo post, apesar de longoooo. rs
Beijo!

Night64 on 28 de janeiro de 2010 19:10 disse...

O que eu achei mais engraçado é que na bio da Semiramis no Twitter está escrito que ela é pesquisadora em direitos das mulheres, mídia e liberdade de expressão.

Flavio on 28 de janeiro de 2010 19:49 disse...

Carol, eu não usaria isso por ser um ataque quase pessoal. Mas enfim, eles amam psicanálise, né? Logo, deve funcionar. E a julgar pelos avatares dos seres em questão... sei não.


Guilherme, isso tudo só mostra como é uma saída fácil tratar tudo como sujeito VERSUS objeto, mas, na prática, isso não existe. Iria comentar ainda sobre mais alguns textos que tratam dessa questão, de Kierkegaard (que mostra como nem mesmo só o "eu" pode ser um "sujeito" sem ser em relação com ele mesmo, tratando-o quase "de fora"), do Olavo de Carvalho [http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/kant3.htm] e sobretudo [http://www.olavodecarvalho.org/blog/archives/000008.html], do Raymond Abellio [www.olavodecarvalho.org/apostilas/abellio.htm], Wertheimer, Köhler e Frankl (esse fiquei devendo para uma amiga nesse texto) - mas isso tudo só pra mostrar como se achar "erudito" e "contra o senso comum" por analisar o mundo por uma construção sintática é uma bobeira.

Semíramis, aí, chega a dizer que o objeto não tem autonomia, não decide por si mesmo (pois, óbvio, se o fizesse, seria sujeito!), e depois diz que está "explicado" como uma pessoa vira objeto, mesmo agindo com autonomia.

Ora, é possível ser objeto sem ser sujeito, e vice-versa? E no que isso nos impede de perceber que, por detrás de avatares, estão pessoas com quem podemos conversar?

A @lubom disse que as únicas pessoas que a trataram como gado por causa do #lingerieday foram as feministas.

Salvem-nos de nossos salvadores!

Flavio on 28 de janeiro de 2010 20:01 disse...

Ygor, o ponto que me toca é que pessoas destilam preconceitos na internet como se fossem curas para preconceitos. E eu gosto de comprar brigas porque eu mesmo aprendo com elas. Sem contar que rende bons textos - ainda que propositalmente difíceis, como foi esse.


Gabriela, muito obrigado por suas palavras! Não é estranho que falem de uma sociedade machista, arcaica, onde o sexo é sempre uma impingência à mulher, um motivo mais de humilhação e dor do que prazer (foi o que o contado Calligaris comentou no caso da Geisy), mas na hora em que uma mulher resolva mostrar que também é sujeito na relação, que pode gostar, que sabe provocar, que sabe mandar e ficar por cima (Lilith que nos valha!), que se diverte exibindo a lingerie porque ela mesma se sente bem, mesmo sem saber quem e quantos viram a foto? (aliás, foi o que senti, posando, sem saber quem diabos foram os "sujeitos" que me "objetificaram"...)

E, claro, só eles sabem que a sociedade é desigual com homens e mulheres, só eles se preocupam. Nós não, né? Afinal, se uma mulher é bonita e gostosa, só pode ser uma completa bactéria.

O texto foi LOOOONGO (o mais longo que já postei no blog, deve ter mais do que o triplo do tamanho do segundo lugar), mas foi só pra mostrar como o "sujeito x objeto" é bem mais complexo do que esse povo pensa. Mas, enfim, de que vale discutir comigo, não é mesmo?

Muito obrigado pela visita!

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