domingo, 17 de janeiro de 2010

Quem ganhou a década?

O ano é 2010 e o sujeito entra numa livraria. Os títulos de destaque são Fascistas de Esquerda, de Jonah Goldberg, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, Sangue Azul, de Leonardo Gudel, História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, Olho por Olho, de Lucas Figueiredo. Elite da Tropa vende há mais de 3 anos, e até na seçao de Filosofia temos em destaque o mistifório Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Há livros de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Mário Sabino entre os mais vendidos. Autores conservadores têm sua obra relançada cada vez mais por alta demanda, de Mario Vargas-Llosa a Eric Voegelin, de Mário Ferreira dos Santos a Roger Scruton. Ateus famosos, como Christopher Hitchens, S.E. Cupp e Luiz Felipe Pondé, são todos de direita.

No cinema, títulos como Cidadão Boilesen, Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei e Reparação (a ser lançado em breve)
revisam cada vez mais o papel "heróico" da esquerda revolucionária na ditadura.

Em pleno pós-crise, a onda é falar de Bolsa de Valores. Até mesmo a auto-ajuda cuida cada vez mais de finanças e empreendedorismo.

Piñera acaba de levar o título de presidente do Chile depois de 20 anos de esquerda no poder. No Brasil, em qualquer cenário cabível, Serra leva vantagem para ser o próximo presidente, podendo ter como vice até uma senadora do DEM como Kátia Abreu. Uma tentativa de golpe bolivariano em Honduras foi rechaçada. Em toda a América Latina, há uma lenta guinada para a direita após Uribe, exceto em países que já demonstram claramente sua face de ditadura socialista com eleições de fachada, como Venezuela, Bolívia e Equador. A atuação do Foro de São Paulo passa a ser discutida cada vez mais publicamente, enquanto o MST tem rejeição da
maioria absoluta da população.

O ano é 1995. Todo o cenário acima é multiplicado por -1. A grande discussão envolve os malefícios do neoliberalismo (que, curiosamente, deu as caras na América Latina apenas no Chile, e numa versão populista na Argentina). O povo teme pelas privatizações, que supostamente vão dar de graça patrimônio público nacional e acabar com empregos, sem falar na qualidade despencando dos serviços.

A leitura é calcada em Eric Hobsbawn, Alain Badiou, Giorgio Agamben ou Antonio Negri. O que ocorre e se discute fora da extrema-esquerda revolucionária/fabiana é sumariamente limado pela intelligentsia brasileira, como o lançamento d'O Fim da História, de Francis Fukuyama. Marilena Chaui e Paulo Arantes dominam o curso de Filosofia da USP como a única saída contra a nossa miséria econômica e intelectual, sem nunca precisar comentar o que escrevem seus críticos mais aguerridos, como José Guilherme Merquior, Paulo Francis ou Olavo de Carvalho.

O que foi que aconteceu?

Mudanças de pensamento, sobretudo guinadas em direção oposta de toda a população "pensante" (o que, em se tratando de Brasil, abrangeria, na verdade, cerca de 0,08% da população) levam, em média, uma década de propaganda para mudar as cabeças, mais outra década de mudanças para se alcançar resultados.

No Brasil, um país em que a "direita" são partidos de centro-esquerda, tudo acontece ao contrário. O "neoliberalismo" é acusação de adversários de um partido que sequer liberal o é, as privatizações e o câmbio flutuante, tão criticados, são o que destrói a inflação e os preços altos, colocando muitas pessoas na zona economicamente ativa, e, com os resultados vindo antes das ideias, comemora-se os triunfos e critica-se as causas que os possibilitaram.

Não são mais professores nem idéias dominantes nas Universidades que moldam a cabeça de alguns jovens, que vão se agigantando cada vez mais. São interpretações sobre os fatos de que eles mesmos tiveram de correr atrás. Nenhum professor procurou ensinar Jouvenel ao lado de Marcuse, Hayek ao lado de Marx, Rothbard ao lado de Keynes (que, para nossa simpática extrema-esquerda, é alguém "de direita"). Mas os próprios alunos cansaram da litania acadêmica e procuram estes autores por sua própria conta e risco.

O que sobra para a esquerda é se apropriar de programas sociais que sequer foram criados por ela própria (o Bolsa-Família foi criado por uma equipe de economistas que incluía Ricardo Paes de Barros, um "tucano neoliberal", enquanto os programas genuinamente petistas, como Meu Primeiro Emprego e Fome Zero, derivados do Instituto da Cidadania ligado ao PT, deram com os burros n'água apresentando propostas esdrúxulas, como um fundo alimentado por taxas em gorjetas de restaurantes).

Algo do que está nas livrarias, hoje, seria simplesmente concebível há uma década e meia? Um filme como ROTA Comando, baseado no livro Matar ou Morrer, de Conte Lopes (colega de Ubiratan Guimarães), teria capacidade de chegar aos cinemas brasileiros? Seria possível alguém, durante o governo FHC, se considerar neoliberal e um estudioso acadêmico de Humanidades, a um só tempo?

A década de 2000 foi, inversamente, a época de colher os primeiros passos de uma abertura incipiente para o livre-mercado no Brasil. A década de 2010 começará como a década em que as idéias liberais cada vez mais tomarão corpo sobre nossa elite intelectual, o que deveria ter ocorrido antes.

Afinal, é preciso uma grande integridade psicológica para sequer saber o nome de alguns autores liberais e/ou conservadores num país em que a social-democracia é coisa direitista, a ser rechaçada a muque. E este darwinismo intelectual implica um liberalismo bem mais fortinho para esmagar a esquerda onde quer que ela ainda não tenha virado uma ditadura na década de 2020.

3 pessoas leram e discordaram:

Murilo Bispo dos Reis disse...

Porra, concordo em absoluto.

Carol disse...

Pois é.

Conforme a renda vai aumentando, as pessoas passama ser mais informadas. Conforme vão ficando mais informadas, vão tendo acesso a melhores artigos na imprensa, internet e livros em geral. Além de ter acesso a coisas boas como vinhos e viagens para praia todos os anos.

Essa conversa de que ser pobre é bonito não convence ninguém. Só os "pobres" que escrevem livros sobre o assunto.

Bj

Rodrigo disse...

Os sofistas estão chegando... (isso, usando Jorge Ben, mas com pseudo-licença poética.)

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domingo, 17 de janeiro de 2010

Quem ganhou a década?


O ano é 2010 e o sujeito entra numa livraria. Os títulos de destaque são Fascistas de Esquerda, de Jonah Goldberg, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, Sangue Azul, de Leonardo Gudel, História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, Olho por Olho, de Lucas Figueiredo. Elite da Tropa vende há mais de 3 anos, e até na seçao de Filosofia temos em destaque o mistifório Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Há livros de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Mário Sabino entre os mais vendidos. Autores conservadores têm sua obra relançada cada vez mais por alta demanda, de Mario Vargas-Llosa a Eric Voegelin, de Mário Ferreira dos Santos a Roger Scruton. Ateus famosos, como Christopher Hitchens, S.E. Cupp e Luiz Felipe Pondé, são todos de direita.

No cinema, títulos como Cidadão Boilesen, Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei e Reparação (a ser lançado em breve)
revisam cada vez mais o papel "heróico" da esquerda revolucionária na ditadura.

Em pleno pós-crise, a onda é falar de Bolsa de Valores. Até mesmo a auto-ajuda cuida cada vez mais de finanças e empreendedorismo.

Piñera acaba de levar o título de presidente do Chile depois de 20 anos de esquerda no poder. No Brasil, em qualquer cenário cabível, Serra leva vantagem para ser o próximo presidente, podendo ter como vice até uma senadora do DEM como Kátia Abreu. Uma tentativa de golpe bolivariano em Honduras foi rechaçada. Em toda a América Latina, há uma lenta guinada para a direita após Uribe, exceto em países que já demonstram claramente sua face de ditadura socialista com eleições de fachada, como Venezuela, Bolívia e Equador. A atuação do Foro de São Paulo passa a ser discutida cada vez mais publicamente, enquanto o MST tem rejeição da
maioria absoluta da população.

O ano é 1995. Todo o cenário acima é multiplicado por -1. A grande discussão envolve os malefícios do neoliberalismo (que, curiosamente, deu as caras na América Latina apenas no Chile, e numa versão populista na Argentina). O povo teme pelas privatizações, que supostamente vão dar de graça patrimônio público nacional e acabar com empregos, sem falar na qualidade despencando dos serviços.

A leitura é calcada em Eric Hobsbawn, Alain Badiou, Giorgio Agamben ou Antonio Negri. O que ocorre e se discute fora da extrema-esquerda revolucionária/fabiana é sumariamente limado pela intelligentsia brasileira, como o lançamento d'O Fim da História, de Francis Fukuyama. Marilena Chaui e Paulo Arantes dominam o curso de Filosofia da USP como a única saída contra a nossa miséria econômica e intelectual, sem nunca precisar comentar o que escrevem seus críticos mais aguerridos, como José Guilherme Merquior, Paulo Francis ou Olavo de Carvalho.

O que foi que aconteceu?

Mudanças de pensamento, sobretudo guinadas em direção oposta de toda a população "pensante" (o que, em se tratando de Brasil, abrangeria, na verdade, cerca de 0,08% da população) levam, em média, uma década de propaganda para mudar as cabeças, mais outra década de mudanças para se alcançar resultados.

No Brasil, um país em que a "direita" são partidos de centro-esquerda, tudo acontece ao contrário. O "neoliberalismo" é acusação de adversários de um partido que sequer liberal o é, as privatizações e o câmbio flutuante, tão criticados, são o que destrói a inflação e os preços altos, colocando muitas pessoas na zona economicamente ativa, e, com os resultados vindo antes das ideias, comemora-se os triunfos e critica-se as causas que os possibilitaram.

Não são mais professores nem idéias dominantes nas Universidades que moldam a cabeça de alguns jovens, que vão se agigantando cada vez mais. São interpretações sobre os fatos de que eles mesmos tiveram de correr atrás. Nenhum professor procurou ensinar Jouvenel ao lado de Marcuse, Hayek ao lado de Marx, Rothbard ao lado de Keynes (que, para nossa simpática extrema-esquerda, é alguém "de direita"). Mas os próprios alunos cansaram da litania acadêmica e procuram estes autores por sua própria conta e risco.

O que sobra para a esquerda é se apropriar de programas sociais que sequer foram criados por ela própria (o Bolsa-Família foi criado por uma equipe de economistas que incluía Ricardo Paes de Barros, um "tucano neoliberal", enquanto os programas genuinamente petistas, como Meu Primeiro Emprego e Fome Zero, derivados do Instituto da Cidadania ligado ao PT, deram com os burros n'água apresentando propostas esdrúxulas, como um fundo alimentado por taxas em gorjetas de restaurantes).

Algo do que está nas livrarias, hoje, seria simplesmente concebível há uma década e meia? Um filme como ROTA Comando, baseado no livro Matar ou Morrer, de Conte Lopes (colega de Ubiratan Guimarães), teria capacidade de chegar aos cinemas brasileiros? Seria possível alguém, durante o governo FHC, se considerar neoliberal e um estudioso acadêmico de Humanidades, a um só tempo?

A década de 2000 foi, inversamente, a época de colher os primeiros passos de uma abertura incipiente para o livre-mercado no Brasil. A década de 2010 começará como a década em que as idéias liberais cada vez mais tomarão corpo sobre nossa elite intelectual, o que deveria ter ocorrido antes.

Afinal, é preciso uma grande integridade psicológica para sequer saber o nome de alguns autores liberais e/ou conservadores num país em que a social-democracia é coisa direitista, a ser rechaçada a muque. E este darwinismo intelectual implica um liberalismo bem mais fortinho para esmagar a esquerda onde quer que ela ainda não tenha virado uma ditadura na década de 2020.

3 pessoas leram e discordaram:

Murilo Bispo dos Reis on 18 de janeiro de 2010 07:13 disse...

Porra, concordo em absoluto.

Carol on 19 de janeiro de 2010 16:50 disse...

Pois é.

Conforme a renda vai aumentando, as pessoas passama ser mais informadas. Conforme vão ficando mais informadas, vão tendo acesso a melhores artigos na imprensa, internet e livros em geral. Além de ter acesso a coisas boas como vinhos e viagens para praia todos os anos.

Essa conversa de que ser pobre é bonito não convence ninguém. Só os "pobres" que escrevem livros sobre o assunto.

Bj

Rodrigo on 26 de janeiro de 2010 16:14 disse...

Os sofistas estão chegando... (isso, usando Jorge Ben, mas com pseudo-licença poética.)

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