terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O perfil de Zaratustra

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua cabana no Colheita Feliz para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

"Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para o Facebook. Quererá levar hoje o seu fogo para o Twitter? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um analista de mídias sociais!

Zaratustra mudou, Zaratustra tomou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como na Wiki vivias, no isolamento, e a Wiki te levava. Desgraçado! Queres saltar ao Google? Desgraçado! Queres tomar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"

Zaratustra respondeu: "Amo os homens".

"Pois por que − disse o santo − vim eu para a Colheita Feliz? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo ao orkut; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".

Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago moedas de ouro aos homens".

"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha.

E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma moeda verde, e ainda assim espera que te peçam".

"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".

O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim: "Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros.

Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão do Farmville?

Não vás ao encontro dos homens no Twitter! Fica no Colheita Feliz!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"

"E que faz o santo no Colheita Feliz?", perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo ao orkut.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao orkut que é meu Facebook. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma de seu BuddyPoke".

Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu Colheita Feliz que o orkut já morreu?"


(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. levemente adaptado.)

1 pessoas leram e discordaram:

Beatriz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O perfil de Zaratustra


Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua cabana no Colheita Feliz para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

"Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para o Facebook. Quererá levar hoje o seu fogo para o Twitter? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um analista de mídias sociais!

Zaratustra mudou, Zaratustra tomou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como na Wiki vivias, no isolamento, e a Wiki te levava. Desgraçado! Queres saltar ao Google? Desgraçado! Queres tomar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"

Zaratustra respondeu: "Amo os homens".

"Pois por que − disse o santo − vim eu para a Colheita Feliz? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo ao orkut; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".

Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago moedas de ouro aos homens".

"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha.

E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma moeda verde, e ainda assim espera que te peçam".

"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".

O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim: "Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros.

Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão do Farmville?

Não vás ao encontro dos homens no Twitter! Fica no Colheita Feliz!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"

"E que faz o santo no Colheita Feliz?", perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo ao orkut.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao orkut que é meu Facebook. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma de seu BuddyPoke".

Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu Colheita Feliz que o orkut já morreu?"


(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. levemente adaptado.)

1 pessoas leram e discordaram:

Beatriz on 20 de janeiro de 2010 13:00 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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