quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Minha infância em 66 tweets

Atendendo a (dois) pedidos, refarei no blog a retrospectiva da minha infância que publiquei ontem no Twitter, revendo minha vida "cultural" até o começo da década de 90. Enjoy.


Vou aproveitar pra lembrar do que só paulistanos r00tz conhecem: Mapping, Mesbla, Paes Mendonça, Kofu...

Naquela época São Paulo era a Terra da Garoa. Quem não acredita em Aquecimento Global deveria comer nosso asfalto.

A linha leste-oeste terminava em Santa Cecília, ou seja, no Centro. a Armênia se chamava "Ponte Pequena".

Minha primeira lembrança da magnífica Avenida Paulista foi ir ver um tatuzão de furar metrô.

As mães se horrorizavam com filhos de 16 anos fumando maconha, não filhos de 8 anos fumando crack.

Chamar o Lolo de "Milkybar" era pior que trair o movimento punk. Ele ainda era "o chocolate da vaquinha".

Claro, o Quick ainda não era Nesquick. Fazia do leite uma alegria, mas todos só compraram o de morango uma única vez.

A Quatro Rodas duvidava de que o Monza pudesse substituir o Chevette. Mas depois foi carro do ano.

Tínhamos muito menos Universidades e o QI médio da população devia ser uns 30 graus mais alto.

Com Lula, acabariam a corrupção, as eternas oligarquias, a violência e a PUC se igualaria a Yale.

Maluf destroçava Brizolla nos debates. Collor chamava Lula de analfabeto e o povo ia ao delírio.

Infelizmente perdi o Jânio desmontando o Montoro na melhor tirada de debates políticos do mundo:



Nossas opções políticas fariam Churchill dar uma cara revisionista ao século XX.

Teve um segundo turno entre Maluf e Fleury. Foi como escolher entre comer veneno de rato ou de barata.

Abertura democrática mesmo foi o MS DOS. Quem nunca digitou "cd user" e "dir \\" pra jogar Prince of Persia não sabe o que é vida.

O Muro de Berlim caiu e só se falava em Alemanha. Achava que era pra onde as pessoas boas iam depois que morriam.

Anos depois seria um liberal anti-tiranias socialistas ferrenho e tradutor de alemão. Freud explica.

Fui enviado para a escola para ficar pintando figuras toscas com guache ao invés de ler os clássicos.

A Argentina tirou o Brasil da Copa nas oitavas. Aprendi que ser maior e mais velho não o impede de ser um bosta.

Carrossel estreitou a política externa chicana. Fiquei no cast como dublê de dublê do Paulo, mas nunca me usaram.

O melhor mesmo era o X-Tudo na Cultura. Altas experiências que davam utilidades discutíveis à minha geladeira.

Comandos em Ação esforçava-se para nos explicar que era uma briga entre Cobras e Tigres. Nunca entendemos a mensagem.

Tinha uma boneca grávida, sem explicações do processo. Diziam que o bebê era demoníaco.

Jurassic Park e Família Dinossauro vieram juntos. Percebi que já aprendia o que era passado e o que era saudade.

A Xuxa foi prum asilo e veio a TV Colosso, o melhor programa da Globo. Felicidade de pobre dura pouco.

O que pegava mesmo era desenho de menor abandonado. De Punky, a Levada da Breca (?!) até Bernardo e Bianca.

Faustão surgiu pra me fazer odiar a Globo de vez. 5 horas de programa só pra ver as Olimpíadas e as Cassetadas.

Se não fosse ele surgir, alguma outra alma precisaria inventar a palavra "busanfa".

A Berta Brasil Butique, "sua loja em Nova York", fazia propagandas sem imagem no SBT. Quando vi a loja achei uma bela merda.

A primeira onda gótica veio com Vamp e um esquisitão na novela "De Corpo e Alma". Não teve como revanche uma onda emo.

Acreditávamos que Chaves e Chapolim tinham episódios inéditos. Implorávamos pela reprise da casa da Bruxa do 71.

Guaraná Taí e Brahma pegavam carona no Antártica. Depois de reclamarem das buzinas, Für Elise virou "a musiquinha do gás".

Telefone era declarado no IR. TV a cabo e American Express demonstravam que seu sobrenome devia ser Safra, Bragança ou Sarney.

Orelhões de concreto me pareciam a prova de que a força gera progresso. Ainda bem.

Lembro-me até hoje do telefone da Higitec: Entupiu? 240 9000!

As rádios enrolavam horas pra tocar Metallica. Depois veio o Nirvana e a Constituição de 88, que imbecilizaram minha geração.

A MTV, estranhamente, tocava música. Em 93, o Disk MTV tinha Ugly Kid Joe, Pantera, Megadeth, L7, Skid Row e Ramones.

Eu achei que essas coisas iriam durar pra sempre. Felizmente, a primeira a desaparecer foi a mocréia da Astrid Fontenelli.

Fúria Metal era diário e passava 5 horas da tarde, com Gastão. Deixei o cabelo crescer pela primeira vez aos NOVE anos. #tr00

Os rockeiros eram só "rockeiros", sem sub-distinção. O camarada ouvia "U2, Sepultura, Pet Shop Boys e Pearl Jam".

Era um tempo completamente ignorante. Cantávamos "Black Number One" e "Severina" com camiseta amarela, sem saber o que era "gótico".

Gene Simmons e Alice Cooper eram o cúmulo do demoníaco. Hoje, fariam o Alceu Valença parecer o Marilyn Manson.

Só ouvíamos no rádio, fotos das bandas eram raras. Ninguém sabia escrever B-52, que dirá Siouxsie and the Banshees.

Tinha também o Thunderbird. Junto com Os Karas e as reportagens sobre o CV, me ensinou a não fumar drogas.

Acompanhei o surgimento de Midnight Oil (com Truganini), Spin Doctors, Beastie Boys, Colective Soul e uma penca de lixo grunge de Seattle.

Além do Satanismo, a MTV fez ainda uma segunda contribuição à minha persona: http://www.youtube.com/watch?v=_CYwNWHZuT0

Depois viria gente que me fez entender que o mundo tava indo pro buraco e eu tinha obrigação de devolvê-lo pro rock.

Nas festas das meninas não tocava funk, tocava metal farofa. Achávamos que nada poderia ser pior. Logo viria o Oasis.

"Sadeness" e "Voyage, Voyage" foram as primeiras e únicas músicas "de menina" a emocionarem machos até hoje.

Gabriel o Pensador fez fama com a música do Playboy antes da Loira Burra. Antecipou o advento dos palavrões de Raimundos e Mamonas.

Fernanda Abreu e Jorge Ben Jor criaram as duas músicas mais insuportáveis da Via Láctea. Ambas falando do Rio, diga-se.

Skank lançou "Baía de Guanabara", que tinha uma puta guitarra distorcida. Mal imaginava a droga pesada que viria depois.

Aprendi, musicalmente e com o sotaque das novelas da Globo, que o que o mundo construía, o Rio de Janeiro corrompia.

Um dia surgiu uma tal de Daniela Mercury. Eu pensei que nada acima do Rio seria aceito como moda pelos paulistanos.

Sandy era a mariquinha que não abria a porta pro Júnior. Ninguém duvidava de sua virgindade.

A Ação Games tinha propaganda na TV, mudando a cada mês. Videogames eram pauta até de programa do Gugu.

Metade dos meninos tinha NES, a outra Master System. Odiavam-se. E a Sega meio que ganhava, na época. Losers da porra.

Hoje temos Mario pro Wii, Zelda pro DS, Metroid e o escambau. Alex Kidd mal chegou a ver um videocassete de 4 cabeças.

Porém, Mega Drive com Altered Beast foi como construir minha própria bomba de hidrogênio. Sonic parecia a aplicação de e=mc².



Mas aí veio SNES e o caralho comeu solto. A Sega faliu por causa do barulho do elefante no cenário do Dhalsim.

Freddy Krueger chocava gente incapaz de ver Irreversível, O Albergue, Jogos Mortais e 2 Girls and 1 Cup, todos seguidos.

Alguns dos melhores filmes do mundo foram lançados, como Silêncio dos Inocentes e Terminator 2.

Sarah Connor provou ser a maior unanimidade de sex appeal feminino, mas todos os outros deveriam ser refilmados com novos penteados.

Cresci sem entender esse troço de Chuck Norris. Schwarzenegger sempre foi mais fodão, na Colômbia ou em Marte.

A doença da vez era a AIDS, não coisas das quais as pessoas quase se orgulham hoje, como depressão ou DDA.

A coisa que minha infância mais me ensinou é que a vida é melhor na Islândia. Lá sou amigo do rei.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Minha infância em 66 tweets


Atendendo a (dois) pedidos, refarei no blog a retrospectiva da minha infância que publiquei ontem no Twitter, revendo minha vida "cultural" até o começo da década de 90. Enjoy.


Vou aproveitar pra lembrar do que só paulistanos r00tz conhecem: Mapping, Mesbla, Paes Mendonça, Kofu...

Naquela época São Paulo era a Terra da Garoa. Quem não acredita em Aquecimento Global deveria comer nosso asfalto.

A linha leste-oeste terminava em Santa Cecília, ou seja, no Centro. a Armênia se chamava "Ponte Pequena".

Minha primeira lembrança da magnífica Avenida Paulista foi ir ver um tatuzão de furar metrô.

As mães se horrorizavam com filhos de 16 anos fumando maconha, não filhos de 8 anos fumando crack.

Chamar o Lolo de "Milkybar" era pior que trair o movimento punk. Ele ainda era "o chocolate da vaquinha".

Claro, o Quick ainda não era Nesquick. Fazia do leite uma alegria, mas todos só compraram o de morango uma única vez.

A Quatro Rodas duvidava de que o Monza pudesse substituir o Chevette. Mas depois foi carro do ano.

Tínhamos muito menos Universidades e o QI médio da população devia ser uns 30 graus mais alto.

Com Lula, acabariam a corrupção, as eternas oligarquias, a violência e a PUC se igualaria a Yale.

Maluf destroçava Brizolla nos debates. Collor chamava Lula de analfabeto e o povo ia ao delírio.

Infelizmente perdi o Jânio desmontando o Montoro na melhor tirada de debates políticos do mundo:



Nossas opções políticas fariam Churchill dar uma cara revisionista ao século XX.

Teve um segundo turno entre Maluf e Fleury. Foi como escolher entre comer veneno de rato ou de barata.

Abertura democrática mesmo foi o MS DOS. Quem nunca digitou "cd user" e "dir \\" pra jogar Prince of Persia não sabe o que é vida.

O Muro de Berlim caiu e só se falava em Alemanha. Achava que era pra onde as pessoas boas iam depois que morriam.

Anos depois seria um liberal anti-tiranias socialistas ferrenho e tradutor de alemão. Freud explica.

Fui enviado para a escola para ficar pintando figuras toscas com guache ao invés de ler os clássicos.

A Argentina tirou o Brasil da Copa nas oitavas. Aprendi que ser maior e mais velho não o impede de ser um bosta.

Carrossel estreitou a política externa chicana. Fiquei no cast como dublê de dublê do Paulo, mas nunca me usaram.

O melhor mesmo era o X-Tudo na Cultura. Altas experiências que davam utilidades discutíveis à minha geladeira.

Comandos em Ação esforçava-se para nos explicar que era uma briga entre Cobras e Tigres. Nunca entendemos a mensagem.

Tinha uma boneca grávida, sem explicações do processo. Diziam que o bebê era demoníaco.

Jurassic Park e Família Dinossauro vieram juntos. Percebi que já aprendia o que era passado e o que era saudade.

A Xuxa foi prum asilo e veio a TV Colosso, o melhor programa da Globo. Felicidade de pobre dura pouco.

O que pegava mesmo era desenho de menor abandonado. De Punky, a Levada da Breca (?!) até Bernardo e Bianca.

Faustão surgiu pra me fazer odiar a Globo de vez. 5 horas de programa só pra ver as Olimpíadas e as Cassetadas.

Se não fosse ele surgir, alguma outra alma precisaria inventar a palavra "busanfa".

A Berta Brasil Butique, "sua loja em Nova York", fazia propagandas sem imagem no SBT. Quando vi a loja achei uma bela merda.

A primeira onda gótica veio com Vamp e um esquisitão na novela "De Corpo e Alma". Não teve como revanche uma onda emo.

Acreditávamos que Chaves e Chapolim tinham episódios inéditos. Implorávamos pela reprise da casa da Bruxa do 71.

Guaraná Taí e Brahma pegavam carona no Antártica. Depois de reclamarem das buzinas, Für Elise virou "a musiquinha do gás".

Telefone era declarado no IR. TV a cabo e American Express demonstravam que seu sobrenome devia ser Safra, Bragança ou Sarney.

Orelhões de concreto me pareciam a prova de que a força gera progresso. Ainda bem.

Lembro-me até hoje do telefone da Higitec: Entupiu? 240 9000!

As rádios enrolavam horas pra tocar Metallica. Depois veio o Nirvana e a Constituição de 88, que imbecilizaram minha geração.

A MTV, estranhamente, tocava música. Em 93, o Disk MTV tinha Ugly Kid Joe, Pantera, Megadeth, L7, Skid Row e Ramones.

Eu achei que essas coisas iriam durar pra sempre. Felizmente, a primeira a desaparecer foi a mocréia da Astrid Fontenelli.

Fúria Metal era diário e passava 5 horas da tarde, com Gastão. Deixei o cabelo crescer pela primeira vez aos NOVE anos. #tr00

Os rockeiros eram só "rockeiros", sem sub-distinção. O camarada ouvia "U2, Sepultura, Pet Shop Boys e Pearl Jam".

Era um tempo completamente ignorante. Cantávamos "Black Number One" e "Severina" com camiseta amarela, sem saber o que era "gótico".

Gene Simmons e Alice Cooper eram o cúmulo do demoníaco. Hoje, fariam o Alceu Valença parecer o Marilyn Manson.

Só ouvíamos no rádio, fotos das bandas eram raras. Ninguém sabia escrever B-52, que dirá Siouxsie and the Banshees.

Tinha também o Thunderbird. Junto com Os Karas e as reportagens sobre o CV, me ensinou a não fumar drogas.

Acompanhei o surgimento de Midnight Oil (com Truganini), Spin Doctors, Beastie Boys, Colective Soul e uma penca de lixo grunge de Seattle.

Além do Satanismo, a MTV fez ainda uma segunda contribuição à minha persona: http://www.youtube.com/watch?v=_CYwNWHZuT0

Depois viria gente que me fez entender que o mundo tava indo pro buraco e eu tinha obrigação de devolvê-lo pro rock.

Nas festas das meninas não tocava funk, tocava metal farofa. Achávamos que nada poderia ser pior. Logo viria o Oasis.

"Sadeness" e "Voyage, Voyage" foram as primeiras e únicas músicas "de menina" a emocionarem machos até hoje.

Gabriel o Pensador fez fama com a música do Playboy antes da Loira Burra. Antecipou o advento dos palavrões de Raimundos e Mamonas.

Fernanda Abreu e Jorge Ben Jor criaram as duas músicas mais insuportáveis da Via Láctea. Ambas falando do Rio, diga-se.

Skank lançou "Baía de Guanabara", que tinha uma puta guitarra distorcida. Mal imaginava a droga pesada que viria depois.

Aprendi, musicalmente e com o sotaque das novelas da Globo, que o que o mundo construía, o Rio de Janeiro corrompia.

Um dia surgiu uma tal de Daniela Mercury. Eu pensei que nada acima do Rio seria aceito como moda pelos paulistanos.

Sandy era a mariquinha que não abria a porta pro Júnior. Ninguém duvidava de sua virgindade.

A Ação Games tinha propaganda na TV, mudando a cada mês. Videogames eram pauta até de programa do Gugu.

Metade dos meninos tinha NES, a outra Master System. Odiavam-se. E a Sega meio que ganhava, na época. Losers da porra.

Hoje temos Mario pro Wii, Zelda pro DS, Metroid e o escambau. Alex Kidd mal chegou a ver um videocassete de 4 cabeças.

Porém, Mega Drive com Altered Beast foi como construir minha própria bomba de hidrogênio. Sonic parecia a aplicação de e=mc².



Mas aí veio SNES e o caralho comeu solto. A Sega faliu por causa do barulho do elefante no cenário do Dhalsim.

Freddy Krueger chocava gente incapaz de ver Irreversível, O Albergue, Jogos Mortais e 2 Girls and 1 Cup, todos seguidos.

Alguns dos melhores filmes do mundo foram lançados, como Silêncio dos Inocentes e Terminator 2.

Sarah Connor provou ser a maior unanimidade de sex appeal feminino, mas todos os outros deveriam ser refilmados com novos penteados.

Cresci sem entender esse troço de Chuck Norris. Schwarzenegger sempre foi mais fodão, na Colômbia ou em Marte.

A doença da vez era a AIDS, não coisas das quais as pessoas quase se orgulham hoje, como depressão ou DDA.

A coisa que minha infância mais me ensinou é que a vida é melhor na Islândia. Lá sou amigo do rei.

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