sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Romanze zur Nacht

ouvindo: Dead Can Dance - Persephone: The Gathering of Flowers
frase do dia: "Ele supunha que era à solidão que tentava escapar, e não a si mesmo." - William Faulkner


Romance na Noite

O solitário sob a tenda das estrelas
Caminha através da meia-noite.
O rapaz acorda de sonhos confusos,
Sua face remove-se cinza na lua.

A tola chora com cabelo sem ondas
Perscrutando no peitoril da janela.
Na lagoa passada após doce jornada
Amantes perambulam da forma mais bela.

O assassino sorri descorado no vinho,
Os doentes pegam horror da morte.
A enfermeira reza escarificada e nua
Ante a agonia do Salvador na cruz.

A mãe silenciosamente canta no sono.
Pacificamente a criança olha a noite
Com olhos que são tão verdadeiros.
No lupanar risadas soam.

À luz de velas desce ao buraco da célula
O morto pinta com a mão branca
Um sorridente silêncio na parede.
Quem dorme ainda sussurra.


(Georg Trakl, tradução de ,,Romanze zur Nacht".)

Sociolingüística dos palavrões, porra.

ouvindo: South Park Soundtrack - Uncle Fucker
frase do dia: "I would never let a woman kick my ass. If she tried anything, I'd be all like, 'Ahy! You get your bitch-ass back in the kitchen, and make me some pie!'" - Eric Cartman


O orkut resolveu praticar a sabotagem mais putanheira possível: passou a deixar de exibir postagens de perfis orkuticidados. É assim com mães irresponsáveis e com Frankenstein: primeiro criam o monstrinho, depois o abandonam à própria sorte.

Parece-me notar, entretanto, que ninguém atentou a tal tonitruante fenômeno. A única comunidade que conheço que sofreu desgraçadamente com os reveses de tal grosseria foi minha gloriosa Marx de cu é Hegel. Até escrevi meu manifesto de total repúdio a essa paneleirice, embora já com o sotaque da minha consuetudinária falta de esperança.

Por sorte, minha maior obra-prima foi salva de ir parar no Reino do Esquecimento. Como mais um apelo para que o orkut revogue essa decisão e volte a exibir postagens que merecem entrar para os anais da História, deixo meu mais famoso tópico aqui, resgatado por milagre (ainda estou em prantos por todos os outros), apenas para aquecer a saudade.

Boas memórias!


Sociolingüística dos palavrões, porra.

Muito se avançou na Lingüística na segunda metade do séc. XX com grandes revoluções no entendimento sobre a linguagem, sobretudo com a distinção entre substância e forma da expressão e do conteúdo por Hjelmslev, a gramática gerativa de Noam Chomsky e as análises semióticas sobre a cultura do dia-a-dia por Barthes, porra.

Mas nunca qualquer um desses filhas da puta resolveu estudar os importantíssimos usos e desusos dos tão usados palavrões. Essa é minha contribuição acadêmica para, modestamente, tentar dar um revertério nessa injusta situação, porra.

O palavrão já não merece esse título, por serem palavras curtas - em inglês, por sinal, são chamados, ahn, digamos, "carinhosamente", por four letter words: cock, shit, arse, dick, cunt, fuck e por aí vai, porra.

Esta análise tem por objetivo responder a pergunta-motor desse tipo de estudo:

O palavrão tem significado, porra?

Lembrando do que Wittgenstein fala sobre a linguagem, o uso de uma palavra é já uma criação - não apenas uma "cópia" de coisas do mundo. Enquanto, em português brasileiro, dizemos "corvo", delimitando um conjunto de aves negras que costumam martelar, com voz do báratro, longínquos "Never more!" para viúvos de Lenores, em inglês, possivelmente pelo maior contato com tal tipo de ave, há uma distinção entre corvos pequenos (raven) e grandes (crow), porra. Não se trata, portanto, de criar uma palavra para um objeto do mundo, e sim para delimitar um conceito dentre fenômenos diversos, porra.

O palavrão, nitidamente, tem como substância da expressão (a Idea) a Transcendência, em todos os seus aspectos. Quando se fala de algo que é tão distante do ponto onde os falantes se encontram que suas mentes são incapazes de medir o trajeto, soltam logo um belo "Fica lá na casa do caralho", "É no cu da mãe Joana", "Foi lá na puta que pariu", et caetera. Da mesma maneira o crente faz quando quer expressar a grande carga de emoção que jaz em seu peito, e só consegue exclamar "Valha-me Deus!" - o que corresponde ao laico "Caralhos que me fodam!".

A ligação do palavrão com o transcendente religioso, o inominável, o Um que é Todos, o Atzsluth cabalístico, pode ser comprovada quando mesmo o crente, ao se referir ao espaço incognoscível do ponto de vista da manifestação de seu ser presente, também vocifera um grande "Fica pra lá do cu do Judas", já também lembrando que sua imaterialidade ultrapassa mesmo as barreiras da ética, ao se referir a quem, diz-se, deu um ósculo em troca de 30 dinheiros - embora as fontes não confirmem se "ósculo" é uma gíria pra vocês-sabem-o-quê na época, porra.

O palavrão possui uma transvaloração intríseca, e daí o seu atributo de tabu, que é o pior palavrão já inventando nessa porra. Na hora do sexo, do tcheca-tcheca-labutcheca, do vuco-vuco, do pocotó-pocotó, da foda selvagem, mesmo as mais puras almas de Deus não vão dizer "Introduza o seu pênis ereto no meu canal vaginal agora!" ou "apalpe e succione minhas glândulas mamárias e demais zonas erógenas, campeão!" - a predileção natural da espécie é descer o nível imediatamente, visto que mais baixo do que uma tentativa propositalmente mal-sucedida de perpetuação de espécie, só mesmo com anões octagenários alisando uma vulva felpuda besuntada em óleo de bateria de carro no lustre, porra.

Como o sexo tem o valor de rito de passagem na sociedade, transformando meninos e meninas em homens e mulheres - e também em boiolas, sapatões, putas e hermafroditas voluntários - o seu valor de "inefável", de segredo de Estado que todos sabem mas ninguém comenta e de "conversa para o sofá com seus pais com caras de putos" se torna manifesto, porra.

Como qualquer nome não-científico para as "partes erógenas" (existe palavra mais broxante no mundo, porra?!) é considerado "inadequado" para qualquer situação (e nem precisa ser a porra de um palavrão – afinal, usar "piu-piu" pra se referir a uma caralha em possível atividade cicladiana, ainda que balouçante no momento da fala, é coisa de arrombado), notamos o quanto o sexo, o tabu, a religião e a transcendência são as veias (!) motiz dos palavrões, porra!

Adendo especial, porra: algumas pessoas, sobretudo depois de notórios perobismos da geração Beatnick, gostam de dizer "fazer amor" para se referir às suas impuras trocas de fluídos na calada da noite. Amor é uma merda de um sentimento (que fode a vida, é vero), então como é que se "faz" um sentimento, porra?! (para aqueles que, obviamente, irão me responder: "Trepando!", eu já obtempero: se vocês se referem àquela coisinha branca, eu conheço outro nome, porra!)

O tabu, na sociedade introduzida (!!) na pós-modernidade que nunca acaba, se refere, basicamente, a todas as funções metabolísticas que você não praticaria na frente da sua avó. Logo, outro efeito de transcendência do palavrão é manifesto no banheiro - palco dos últimos resquícios de solidão meditativa e auto-conhecedora que o mundo contemporâneo nos legou, junto com o fone de ouvido e a morte, porra. Dessarte, os naturais hábitos de aliviar os intestinos são disfarçados na linguagem com o próximo, pois afirmar "Peraí, vou dar um cagão" pra namorada no MSN não parece ser um comportamento de muito futuro, porra.

Uma saída inteligente é usar a boa e velha metáfora e, assim, avisar o próximo das impingências que a Natureza lhe cobra por meio de construções mais rebuscadas como "Vou botar os moleque pra nadar", "Vou fazer download", "Preciso assinar a Lei Áurea", "Vou contar azulejo", "Vou meditar na casa da Pri", "Vou dar um alô pro Senhor Barros" ou, no caso de momentos de nítida pouca-vergonha, "Vou fazer clonagem", porra.

É claro que a transcendência representada pelo palavrão é uma transcendência mais axiológica do que epistemológica - nada foi, a despeito de Wittgenstein, inventado com o palavrão, além de novos meios de dizer aquilo que TODOS conhecem - exempli gratia, a palavra Arschloch, em alemão, refere-se a um orifício usado por todos cicladianamente, seja em qual direção vetorial for, situado no fim da medula espinhal. Diz a sabedoria popular, aliás, que quem o tem, tem medo, porra.

As relações daí decorrentes são abstrações em que os temas apresentados (sexo, religião, caganeira e outras coisas foda) se convertem em expressões idiomáticas que qualquer criança de 6 anos conhece mas não entende, porra. Ao chamar um bípede de "filha da puta", verbi gratia, o cidadão em questão sequer pensa na mãe do xingado, e, como é no meu caso, tampouco atenta para as variações suficientemente visíveis do gênero do indivíduo, visto que sempre uso no feminino, porra.

O palavrão é a vida, é a reunião com o Uno, com o Tao, é o Nirvana - o que, por fim, explica mesmo porque Nirvana é uma bela BOSTA!!!

sábado, 4 de agosto de 2007

A Mulher Fria

ouvindo: Theatre of Tragedy - ...a Distance there is...
frase do dia: "Não ter sido popular no Ensino Médio não é desculpa para publicar um livro." - Fran Lebowitz


Três coisas que odeio: comida caseira de restaurante, nazistas com o horrendo sotaque suábio e feministas recalcadas. Parece que, infelizmente, é um ponto em que eu e Freud concordamos com algo. Para se defender uma alta dose de sexismo, urge primeiramente pertencer a um gênero humano definível com razoável facilidade. Nada me parece mais grotesco do que queimar um sutiã, exibindo rebaixados seios tipo mochila (aqueles que dá pra jogar nas costas) enquanto se brada palavras de ordem femistas com voz de um rottweiller.São as novas vitimizadas pelo "branco ocidental", que vai de Shakespeare a Harold Bloom, sempre prontas a entrar numa guerra em que não se necessite de um uniforme - preferem banheiros limpinhos, onde possam trocar o absorvente e se barbear com conforto e segurança.

Contudo, há feministas de que gosto. Ironicamente, a maioria são homens. Um deles é Henry-Louis Mencken, um dos homens que mais entendeu as mulheres nesse planeta (junto com Kierkegaard, Bocage, Schopenhauer, Oscar Wilde). Já me contradizendo com o parágrafo anterior, devo dizer que os feministas que admiro parecem mais pertencer ao sexo masculino que ao feminino - pelo menos, parecem apreciar as mulheres e suas características feminis, e não agir com faniquitos histéricos que só poderiam ter aprendido com os piores tipos de macho.

Creio que nunca deixei um texto alheio nesse blog. Não obstante, H. L. Mencken merece ser mais lido nesse país. É um grande ídolo da Zelite pensante. Uma pena que seus motejos venenosos só nos cheguem por colunistas sociais podres de ricos, que são admirados sem nunca se conhecer a verdadeira fonte. Eis um maravilhoso texto seu, do livro Menckeneana: A Schimpflexikon, traduzido sem muitas chorumelas como O Livro dos Insultos.


A Mulher Fria

O talento feminino para esconder a emoção é provavelmente o maior responsável pela convicção de tantos americanos do sexo masculino de que as mulheres são vazias de paixão, e é por isto que eles contemplam suas manifestações do mesmo tipo no macho quase que com horror. Este talento feminino fica ainda mais à vista quando se sabe que poucos observadores, nas raras ocasiões em que pensam no assunto, são propícios a uma observação científica.

A verdade é que não há razão alguma para se acreditar que a mulher normal é frígida, ou que a minoria de mulheres inquestionavelmente o são tenham algum peso na balança. É a vaidade dos homens que dá tanto valor às mulheres do tipo virginal, o que faz com que este tipo tenda a crescer pela seleção sexual – mas, apesar disto, está longe de superar a mulher normal, tão realistamente descrita pelos teólogos e publicistas da Idade Média.

Seria apressado, no entanto, concluir que esta seleção longa e contínua não se faz sentir, mesmo no tipo normal. Seu principal efeito talvez tenha sido o de tornar mais fácil para a mulher conquistar e ocultas suas emoções do que para um homem. Mas este é um mero reforço de uma qualidade inata ou que, pelo menos, antecipou de muito a ascensão daquela curiosa preferência já mencionada.

Esta preferência obviamente deve a sua origem ao conceito da propriedade privada e é mais evidente nos países em que a maior concentração de propriedades está nas mãos dos homens – i. e., em que a casta dos proprietários conseguiu descer ao mais baixo estrato dos néscios e dos tapados.

O homem de baixo nível nunca tem total confiança em sua mulher, a menos que seja convencido de que ela é totalmente desprovida de suscetibilidade amorosa. Ele fica inquieto quando ela dá algum sinal de que ela responde à altura às suas maneiras elefantinas, e fica mais desconfiado ainda quando ela reage com chama ao que deveria ser um casto beijo conjugal. Se ele conseguisse se livrar de tais suspeitas, haveria menos tagarelice pública a respeito de mulheres assexuadas, menos livros seriam escritos por charlatões propondo esta ou aquela “cura”, e muito menos formalismo e monotonia no recesso do lar.

Tenho a impressão de que esta espécie de marido está prestando a si mesmo um péssimo favor, e que ele não gosta de ficar consciente disto. Tendo capturado uma mulher segundo as conveniências do seu gosto austero, ele logo descobre que ela o deprime – que sua vaidade foi quase tão penosamente atingida pela inércia emocional dela como o teria sido por um espírito mais provocante e hedonista.

Pois o que mais delicia um homem é ver uma mulher atravessar a barreira da solene submissão, em direito à potência afrodisíaca do seu grande amor – ou seja, o contraste agudo e envaidecedor entre a reserva que ela mentem na presença de outros homens e sua absoluta entrega a ele na intimidade. Isto faz cócegas em sua vaidade. Ao resto do mundo, ela parece remota e inabordável; para ele, ela é dócil, palpitante, efervescente, e até mesmo abandonada. Quanto maior o contraste entre os dois fronts da moça, maior a satisfação dele – até o ponto em que isto levanta as suspeitas do paspalhão.

No momento em que ela diminui um pouquinho este contraste em público – ao sorrir para um ator atraente, ao dizer uma palavra a mais a um maître que lhe deu atenção, ao segurar a mão do padre nas despedidas ou ao piscar de brincadeira para o marido de sua irmã --, imediatamente o matuto começa a procurar por bilhetes clandestinos,contrata detetives particulares ou passa a examinar atentamente os olhos, orelhas, narizes e o cabelo de seus filhos com dúvidas vergonhosas. Isto explica muitas catástrofes domésticas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Romanze zur Nacht


ouvindo: Dead Can Dance - Persephone: The Gathering of Flowers
frase do dia: "Ele supunha que era à solidão que tentava escapar, e não a si mesmo." - William Faulkner


Romance na Noite

O solitário sob a tenda das estrelas
Caminha através da meia-noite.
O rapaz acorda de sonhos confusos,
Sua face remove-se cinza na lua.

A tola chora com cabelo sem ondas
Perscrutando no peitoril da janela.
Na lagoa passada após doce jornada
Amantes perambulam da forma mais bela.

O assassino sorri descorado no vinho,
Os doentes pegam horror da morte.
A enfermeira reza escarificada e nua
Ante a agonia do Salvador na cruz.

A mãe silenciosamente canta no sono.
Pacificamente a criança olha a noite
Com olhos que são tão verdadeiros.
No lupanar risadas soam.

À luz de velas desce ao buraco da célula
O morto pinta com a mão branca
Um sorridente silêncio na parede.
Quem dorme ainda sussurra.


(Georg Trakl, tradução de ,,Romanze zur Nacht".)

Sociolingüística dos palavrões, porra.


ouvindo: South Park Soundtrack - Uncle Fucker
frase do dia: "I would never let a woman kick my ass. If she tried anything, I'd be all like, 'Ahy! You get your bitch-ass back in the kitchen, and make me some pie!'" - Eric Cartman


O orkut resolveu praticar a sabotagem mais putanheira possível: passou a deixar de exibir postagens de perfis orkuticidados. É assim com mães irresponsáveis e com Frankenstein: primeiro criam o monstrinho, depois o abandonam à própria sorte.

Parece-me notar, entretanto, que ninguém atentou a tal tonitruante fenômeno. A única comunidade que conheço que sofreu desgraçadamente com os reveses de tal grosseria foi minha gloriosa Marx de cu é Hegel. Até escrevi meu manifesto de total repúdio a essa paneleirice, embora já com o sotaque da minha consuetudinária falta de esperança.

Por sorte, minha maior obra-prima foi salva de ir parar no Reino do Esquecimento. Como mais um apelo para que o orkut revogue essa decisão e volte a exibir postagens que merecem entrar para os anais da História, deixo meu mais famoso tópico aqui, resgatado por milagre (ainda estou em prantos por todos os outros), apenas para aquecer a saudade.

Boas memórias!


Sociolingüística dos palavrões, porra.

Muito se avançou na Lingüística na segunda metade do séc. XX com grandes revoluções no entendimento sobre a linguagem, sobretudo com a distinção entre substância e forma da expressão e do conteúdo por Hjelmslev, a gramática gerativa de Noam Chomsky e as análises semióticas sobre a cultura do dia-a-dia por Barthes, porra.

Mas nunca qualquer um desses filhas da puta resolveu estudar os importantíssimos usos e desusos dos tão usados palavrões. Essa é minha contribuição acadêmica para, modestamente, tentar dar um revertério nessa injusta situação, porra.

O palavrão já não merece esse título, por serem palavras curtas - em inglês, por sinal, são chamados, ahn, digamos, "carinhosamente", por four letter words: cock, shit, arse, dick, cunt, fuck e por aí vai, porra.

Esta análise tem por objetivo responder a pergunta-motor desse tipo de estudo:

O palavrão tem significado, porra?

Lembrando do que Wittgenstein fala sobre a linguagem, o uso de uma palavra é já uma criação - não apenas uma "cópia" de coisas do mundo. Enquanto, em português brasileiro, dizemos "corvo", delimitando um conjunto de aves negras que costumam martelar, com voz do báratro, longínquos "Never more!" para viúvos de Lenores, em inglês, possivelmente pelo maior contato com tal tipo de ave, há uma distinção entre corvos pequenos (raven) e grandes (crow), porra. Não se trata, portanto, de criar uma palavra para um objeto do mundo, e sim para delimitar um conceito dentre fenômenos diversos, porra.

O palavrão, nitidamente, tem como substância da expressão (a Idea) a Transcendência, em todos os seus aspectos. Quando se fala de algo que é tão distante do ponto onde os falantes se encontram que suas mentes são incapazes de medir o trajeto, soltam logo um belo "Fica lá na casa do caralho", "É no cu da mãe Joana", "Foi lá na puta que pariu", et caetera. Da mesma maneira o crente faz quando quer expressar a grande carga de emoção que jaz em seu peito, e só consegue exclamar "Valha-me Deus!" - o que corresponde ao laico "Caralhos que me fodam!".

A ligação do palavrão com o transcendente religioso, o inominável, o Um que é Todos, o Atzsluth cabalístico, pode ser comprovada quando mesmo o crente, ao se referir ao espaço incognoscível do ponto de vista da manifestação de seu ser presente, também vocifera um grande "Fica pra lá do cu do Judas", já também lembrando que sua imaterialidade ultrapassa mesmo as barreiras da ética, ao se referir a quem, diz-se, deu um ósculo em troca de 30 dinheiros - embora as fontes não confirmem se "ósculo" é uma gíria pra vocês-sabem-o-quê na época, porra.

O palavrão possui uma transvaloração intríseca, e daí o seu atributo de tabu, que é o pior palavrão já inventando nessa porra. Na hora do sexo, do tcheca-tcheca-labutcheca, do vuco-vuco, do pocotó-pocotó, da foda selvagem, mesmo as mais puras almas de Deus não vão dizer "Introduza o seu pênis ereto no meu canal vaginal agora!" ou "apalpe e succione minhas glândulas mamárias e demais zonas erógenas, campeão!" - a predileção natural da espécie é descer o nível imediatamente, visto que mais baixo do que uma tentativa propositalmente mal-sucedida de perpetuação de espécie, só mesmo com anões octagenários alisando uma vulva felpuda besuntada em óleo de bateria de carro no lustre, porra.

Como o sexo tem o valor de rito de passagem na sociedade, transformando meninos e meninas em homens e mulheres - e também em boiolas, sapatões, putas e hermafroditas voluntários - o seu valor de "inefável", de segredo de Estado que todos sabem mas ninguém comenta e de "conversa para o sofá com seus pais com caras de putos" se torna manifesto, porra.

Como qualquer nome não-científico para as "partes erógenas" (existe palavra mais broxante no mundo, porra?!) é considerado "inadequado" para qualquer situação (e nem precisa ser a porra de um palavrão – afinal, usar "piu-piu" pra se referir a uma caralha em possível atividade cicladiana, ainda que balouçante no momento da fala, é coisa de arrombado), notamos o quanto o sexo, o tabu, a religião e a transcendência são as veias (!) motiz dos palavrões, porra!

Adendo especial, porra: algumas pessoas, sobretudo depois de notórios perobismos da geração Beatnick, gostam de dizer "fazer amor" para se referir às suas impuras trocas de fluídos na calada da noite. Amor é uma merda de um sentimento (que fode a vida, é vero), então como é que se "faz" um sentimento, porra?! (para aqueles que, obviamente, irão me responder: "Trepando!", eu já obtempero: se vocês se referem àquela coisinha branca, eu conheço outro nome, porra!)

O tabu, na sociedade introduzida (!!) na pós-modernidade que nunca acaba, se refere, basicamente, a todas as funções metabolísticas que você não praticaria na frente da sua avó. Logo, outro efeito de transcendência do palavrão é manifesto no banheiro - palco dos últimos resquícios de solidão meditativa e auto-conhecedora que o mundo contemporâneo nos legou, junto com o fone de ouvido e a morte, porra. Dessarte, os naturais hábitos de aliviar os intestinos são disfarçados na linguagem com o próximo, pois afirmar "Peraí, vou dar um cagão" pra namorada no MSN não parece ser um comportamento de muito futuro, porra.

Uma saída inteligente é usar a boa e velha metáfora e, assim, avisar o próximo das impingências que a Natureza lhe cobra por meio de construções mais rebuscadas como "Vou botar os moleque pra nadar", "Vou fazer download", "Preciso assinar a Lei Áurea", "Vou contar azulejo", "Vou meditar na casa da Pri", "Vou dar um alô pro Senhor Barros" ou, no caso de momentos de nítida pouca-vergonha, "Vou fazer clonagem", porra.

É claro que a transcendência representada pelo palavrão é uma transcendência mais axiológica do que epistemológica - nada foi, a despeito de Wittgenstein, inventado com o palavrão, além de novos meios de dizer aquilo que TODOS conhecem - exempli gratia, a palavra Arschloch, em alemão, refere-se a um orifício usado por todos cicladianamente, seja em qual direção vetorial for, situado no fim da medula espinhal. Diz a sabedoria popular, aliás, que quem o tem, tem medo, porra.

As relações daí decorrentes são abstrações em que os temas apresentados (sexo, religião, caganeira e outras coisas foda) se convertem em expressões idiomáticas que qualquer criança de 6 anos conhece mas não entende, porra. Ao chamar um bípede de "filha da puta", verbi gratia, o cidadão em questão sequer pensa na mãe do xingado, e, como é no meu caso, tampouco atenta para as variações suficientemente visíveis do gênero do indivíduo, visto que sempre uso no feminino, porra.

O palavrão é a vida, é a reunião com o Uno, com o Tao, é o Nirvana - o que, por fim, explica mesmo porque Nirvana é uma bela BOSTA!!!

sábado, 4 de agosto de 2007

A Mulher Fria


ouvindo: Theatre of Tragedy - ...a Distance there is...
frase do dia: "Não ter sido popular no Ensino Médio não é desculpa para publicar um livro." - Fran Lebowitz


Três coisas que odeio: comida caseira de restaurante, nazistas com o horrendo sotaque suábio e feministas recalcadas. Parece que, infelizmente, é um ponto em que eu e Freud concordamos com algo. Para se defender uma alta dose de sexismo, urge primeiramente pertencer a um gênero humano definível com razoável facilidade. Nada me parece mais grotesco do que queimar um sutiã, exibindo rebaixados seios tipo mochila (aqueles que dá pra jogar nas costas) enquanto se brada palavras de ordem femistas com voz de um rottweiller.São as novas vitimizadas pelo "branco ocidental", que vai de Shakespeare a Harold Bloom, sempre prontas a entrar numa guerra em que não se necessite de um uniforme - preferem banheiros limpinhos, onde possam trocar o absorvente e se barbear com conforto e segurança.

Contudo, há feministas de que gosto. Ironicamente, a maioria são homens. Um deles é Henry-Louis Mencken, um dos homens que mais entendeu as mulheres nesse planeta (junto com Kierkegaard, Bocage, Schopenhauer, Oscar Wilde). Já me contradizendo com o parágrafo anterior, devo dizer que os feministas que admiro parecem mais pertencer ao sexo masculino que ao feminino - pelo menos, parecem apreciar as mulheres e suas características feminis, e não agir com faniquitos histéricos que só poderiam ter aprendido com os piores tipos de macho.

Creio que nunca deixei um texto alheio nesse blog. Não obstante, H. L. Mencken merece ser mais lido nesse país. É um grande ídolo da Zelite pensante. Uma pena que seus motejos venenosos só nos cheguem por colunistas sociais podres de ricos, que são admirados sem nunca se conhecer a verdadeira fonte. Eis um maravilhoso texto seu, do livro Menckeneana: A Schimpflexikon, traduzido sem muitas chorumelas como O Livro dos Insultos.


A Mulher Fria

O talento feminino para esconder a emoção é provavelmente o maior responsável pela convicção de tantos americanos do sexo masculino de que as mulheres são vazias de paixão, e é por isto que eles contemplam suas manifestações do mesmo tipo no macho quase que com horror. Este talento feminino fica ainda mais à vista quando se sabe que poucos observadores, nas raras ocasiões em que pensam no assunto, são propícios a uma observação científica.

A verdade é que não há razão alguma para se acreditar que a mulher normal é frígida, ou que a minoria de mulheres inquestionavelmente o são tenham algum peso na balança. É a vaidade dos homens que dá tanto valor às mulheres do tipo virginal, o que faz com que este tipo tenda a crescer pela seleção sexual – mas, apesar disto, está longe de superar a mulher normal, tão realistamente descrita pelos teólogos e publicistas da Idade Média.

Seria apressado, no entanto, concluir que esta seleção longa e contínua não se faz sentir, mesmo no tipo normal. Seu principal efeito talvez tenha sido o de tornar mais fácil para a mulher conquistar e ocultas suas emoções do que para um homem. Mas este é um mero reforço de uma qualidade inata ou que, pelo menos, antecipou de muito a ascensão daquela curiosa preferência já mencionada.

Esta preferência obviamente deve a sua origem ao conceito da propriedade privada e é mais evidente nos países em que a maior concentração de propriedades está nas mãos dos homens – i. e., em que a casta dos proprietários conseguiu descer ao mais baixo estrato dos néscios e dos tapados.

O homem de baixo nível nunca tem total confiança em sua mulher, a menos que seja convencido de que ela é totalmente desprovida de suscetibilidade amorosa. Ele fica inquieto quando ela dá algum sinal de que ela responde à altura às suas maneiras elefantinas, e fica mais desconfiado ainda quando ela reage com chama ao que deveria ser um casto beijo conjugal. Se ele conseguisse se livrar de tais suspeitas, haveria menos tagarelice pública a respeito de mulheres assexuadas, menos livros seriam escritos por charlatões propondo esta ou aquela “cura”, e muito menos formalismo e monotonia no recesso do lar.

Tenho a impressão de que esta espécie de marido está prestando a si mesmo um péssimo favor, e que ele não gosta de ficar consciente disto. Tendo capturado uma mulher segundo as conveniências do seu gosto austero, ele logo descobre que ela o deprime – que sua vaidade foi quase tão penosamente atingida pela inércia emocional dela como o teria sido por um espírito mais provocante e hedonista.

Pois o que mais delicia um homem é ver uma mulher atravessar a barreira da solene submissão, em direito à potência afrodisíaca do seu grande amor – ou seja, o contraste agudo e envaidecedor entre a reserva que ela mentem na presença de outros homens e sua absoluta entrega a ele na intimidade. Isto faz cócegas em sua vaidade. Ao resto do mundo, ela parece remota e inabordável; para ele, ela é dócil, palpitante, efervescente, e até mesmo abandonada. Quanto maior o contraste entre os dois fronts da moça, maior a satisfação dele – até o ponto em que isto levanta as suspeitas do paspalhão.

No momento em que ela diminui um pouquinho este contraste em público – ao sorrir para um ator atraente, ao dizer uma palavra a mais a um maître que lhe deu atenção, ao segurar a mão do padre nas despedidas ou ao piscar de brincadeira para o marido de sua irmã --, imediatamente o matuto começa a procurar por bilhetes clandestinos,contrata detetives particulares ou passa a examinar atentamente os olhos, orelhas, narizes e o cabelo de seus filhos com dúvidas vergonhosas. Isto explica muitas catástrofes domésticas.