quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Dor de Parto das Palavras

ouvindo: Theatre of Tragedy - Bring forth ye Shadow
frase do dia: "Ele [Fausto] apreendeu o amor, não porque acredite nele, mas porque no amor há um elemento do presente no qual se encontra o repouso de um instante e intenções que distraem e desviam a atenção da inanidade da dúvida." - Søren Kierkegaard


A filosofia (philosophía) é grega por excelência. O pensamento filosófico nasce com a pergunta pela essência do ser - daí a mescla de Husserl entre filosofia e fenomenologia. Os primeiros filósofos (ou, pela concepção de Heidegger, os últimos grandes pensadores) perguntavam: qual o princípio da Natureza?

Quando perguntamos: o que é isso que temos ali?, podemos obter diversas respostas objetivas. O que temos ali é uma árvore. A maneira grega de assim perguntar é ti estín?. Quando agora perguntamos "mas o que é isso, a árvore?", estamos então mais próximos da forma interrogativa helênica.

O pensador grego deu nomes aos fenômenos conforme sua maneira de pensar. Os primeiros pensadores (pré-socráticos) foram chamados de "filósofos da physis" por Aristóteles, por buscarem o princípio da Natureza. Mas aqui começa a se derramar sangue estranho nas traduções para o latim.

A palavra physis, geralmente traduzida por "natureza", tem um sentido especial na filosofia - como todas as palavras que esta última toma para si. Significa nascimento, brotamento. Como também a palavra natureza. "Ser natural de..." indica um local de nascimento. "É de minha natureza ser assim" demonstra um comportamento inato, não-adquirido: nasceu-se assim.

Já o arkhé, muitas vezes traduzido por "começo", gera confusão na tradução. É o que vem antes - e, em nosso modo de pensar embebido pela noção do tempo, seria o primitivo, o mais antigo - está mesmo na raiz de palavras como "arcaico" ou "arqueologia". Mas o arkhé também é o que manda, o que governa - está presente também na etimologia de "monarquia", "anarquia".

Uma tradução latina mais adequada seria "princípio". É o que vem na frente, mas também uma diretriz - uma ordem de governo. O príncipe, nas antigas guerras, era quem ia à frente do exército, comandando o batalhão. Saímos, portanto, do eixo do tempo: o arkhé não começou no passado e agora já não começa mais, sem presença. Para o grego, o princípio é princípio por ter força - força para mandar.

O começo, ao contrário, demonstra o paradoxo de nossa usual e científica concepção temporal: sempre é possível perguntar o que vem antes do começo de algo - então, o começo é a continuação do que já havia antes. Antes do princípio, entretanto, não havia nada. É um princípio que continua sendo princípio, mas o que começou já não começa mais.

Essa idéia da temporalidade como pulsos, e não uma linha contínua, encontra respaldo no tempo cíclico taoísta, no tempo para Deus de Santo Agostinho, nas pulsões de Nietzsche, na diferença entre temporalidade e eternidade de Kierkegaard e Karl Barth (sendo o instante, nestes e também para Krishnamurti, o momento em que a eternidade se manifesta na temporalidade), na obrigatória relação entre tempo e espaço da física quântica moderna pós-Planck, assim como no ensino das artes marciais e na fenomenologia de Heidegger.


The late wisdom of failure

O fracasso é inevitável. Ao filósofo, após fracassar ao dar nomes cotidianos para conceitos da sophía, um modo próprio e original de saber, só resta fracassar com louvor. Note-se que a própria philosophía não acolhe e toma para si o saber do mundo. Isso seria o conhecimento como adequação da realidade - uma vontade de verdade (Trieb zur Wahrheit) falsa, já apontada por Nietzsche nos "Preconceitos dos Filósofos", em seu Para Além do Bem e do Mal (Jenseits von Gut und Böse).

Fracassamos ao buscar o começo. Fracassamos ao nomear o inominável. O fracasso surge graças a pensar através da dimensão do tempo.

Vejamos esse poema de Paul Celan:

Negro
como as feridas da memória,
escavam os olhos até ti
no reino claramente sugado
por dentes do coração
onde permanece nosso leito.
através desse poço tu deves vir -
tu vens
No sentido
da semente
o mar te destroça, no íntimo, para sempre
O dar-nomes tem um fim,
sobre ti eu lanço meu destino.

...

Começamos nas trevas - onde não podemos agir, apenas pensar - e com medo. A escuridão é como as feridas da memória - o tempo novamente gerou dor ("O infinito distribui fins sem cessar" - F. M.). Também mostra ser um escuro pessoal: "Se teu olho estiver negro, todo o o teu corpo estará escuro. Se a luz que existe em ti são trevas, como é grande a escuridão!" (Mateus 6:23)

Os olhos, deslustrados com as nódoas temporais, escavam à procura de um "tu". Quando se escava a terra, a faina é dura e suja, e nos direcionamos para baixo sem nenhum guia. Contudo, este reino também foi sugado (interiorizado) e é claro. A filosofia, morada da ratio, capaz de iluminar até um trecho do Inferno de Dante, falha em aclarecer os princípios - mas o coração é príncipe e claro, possuindo a coroa desse reino (Kronland).

O leito lá permanece - nascer, morrer e reproduzir-se são pessoais, mas o reino do coração, do tempo do eu (kairos, ou Ichzeit), em contraposição ao tempo do mundo (kronos, ou Weltzeit), fica inalterado para fazer surgir (arkhé) e acolher o que fenece.

A seguir, através do poço cavado (Depois da dor), o "tu" aparece - no sentido da semente - o princípio que governa, e que antes dele (A semente) não há nada. O princípio dá o sentido (Sinn, em oposição ao Bedeutung, ou "referência", para Frege) - à Physis e ao existir.

O mar, eterna imagem poética do tempo, com suas ondas indo e vindo, em eterno retorno, destroça o tu, eternamente. O tempo destrói tudo e acumula fracassos - e no íntimo: o mar também costuma representar o inconsciente a trazer pesadelos.

A repetição do tempo é que permite a organização mental, contudo: "E repetindo-se o riso após a lágrima, o nascer reluzente após a escura dor e a borboleta após a lagarta, o homem deixou de se surpreender com a sabedoria após a loucura." (F. M.)

A dimensão temporal física erra até mesmo ao supor a realidade - palavra latina par excellence. Real é o que é feito de res - uma coisa. A filosofia começa com uma pergunta sobre a physis, que nem envolve uma coisa ou substância - e só podemos falar de "realidade" assim, entre aspas. É o mito da substância.

A nomeação que a ratio dá possui um fim: tanto um intuito quanto um término.
Nossa razão não abarca o mundo. Mas a temporalidade traz a morte.

Mesmo que o destino final, inevitavelmente, seja o leito de morte, ainda assim quer-se um sentido à existência - um destino a se caminhar. O fracasso virá certamente: mas pouco haverá a se chocar quando tudo estiver escuro.

A loucura do devir - de contar infinitos pontos de espaço e tempo - é supor um começo para o que é um princípio - curvar a natureza em um sistema de conseqüências. Essa forma comum, como pensamos o tempo, é na verdade paradoxal, especiosa.

Vemos este outro poema de Celan, um de seus raros rimados:

ich kenne dich, du bist die tief Gebeugte
ich, der durchbohrte, bin dir untertan
Wo flammt ein Wort, das für uns beide zeugte?
Du - ganz, ganz wirklich. Ich - ganz wahn.

eu te conheço, és a profundamente curvada
eu, o trespassado, sou a ti subordinado
Onde queima uma palavra, que para nós dois procriou?
Tu - tudo, tudo real. Eu - tudo louco.

...

A "realidade" do tempo é uma loucura. Dar um "fim" como uma palavra marcada ao atemporal, que está no reino do coração, é fugir de um princípio cuja chama brilha sem fim. O "real" é tocável - mas o que há antes do seu começo e após seu fim? O real é a demência.

O tempo do coração escurece - mas se interiorizado e com destino certo, possui a coroa de um reino claro.

Wahr spricht, wer Schatten spricht
.
Fala a verdade quem fala sombras.

É num tempo de trevas que o olho começa a enxergar.

1 pessoas leram e discordaram:

~§~ disse...

Uhmmm...legal, do que li foi legal, alguma coisa não entendi, mas é pq estou com sono e com Metal soando nos ouvidos. O resto acabei não lendo pq o texto tá enooorme ^_^

Mas passei aki pra desejar umbom feriado. Bjos!

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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Dor de Parto das Palavras


ouvindo: Theatre of Tragedy - Bring forth ye Shadow
frase do dia: "Ele [Fausto] apreendeu o amor, não porque acredite nele, mas porque no amor há um elemento do presente no qual se encontra o repouso de um instante e intenções que distraem e desviam a atenção da inanidade da dúvida." - Søren Kierkegaard


A filosofia (philosophía) é grega por excelência. O pensamento filosófico nasce com a pergunta pela essência do ser - daí a mescla de Husserl entre filosofia e fenomenologia. Os primeiros filósofos (ou, pela concepção de Heidegger, os últimos grandes pensadores) perguntavam: qual o princípio da Natureza?

Quando perguntamos: o que é isso que temos ali?, podemos obter diversas respostas objetivas. O que temos ali é uma árvore. A maneira grega de assim perguntar é ti estín?. Quando agora perguntamos "mas o que é isso, a árvore?", estamos então mais próximos da forma interrogativa helênica.

O pensador grego deu nomes aos fenômenos conforme sua maneira de pensar. Os primeiros pensadores (pré-socráticos) foram chamados de "filósofos da physis" por Aristóteles, por buscarem o princípio da Natureza. Mas aqui começa a se derramar sangue estranho nas traduções para o latim.

A palavra physis, geralmente traduzida por "natureza", tem um sentido especial na filosofia - como todas as palavras que esta última toma para si. Significa nascimento, brotamento. Como também a palavra natureza. "Ser natural de..." indica um local de nascimento. "É de minha natureza ser assim" demonstra um comportamento inato, não-adquirido: nasceu-se assim.

Já o arkhé, muitas vezes traduzido por "começo", gera confusão na tradução. É o que vem antes - e, em nosso modo de pensar embebido pela noção do tempo, seria o primitivo, o mais antigo - está mesmo na raiz de palavras como "arcaico" ou "arqueologia". Mas o arkhé também é o que manda, o que governa - está presente também na etimologia de "monarquia", "anarquia".

Uma tradução latina mais adequada seria "princípio". É o que vem na frente, mas também uma diretriz - uma ordem de governo. O príncipe, nas antigas guerras, era quem ia à frente do exército, comandando o batalhão. Saímos, portanto, do eixo do tempo: o arkhé não começou no passado e agora já não começa mais, sem presença. Para o grego, o princípio é princípio por ter força - força para mandar.

O começo, ao contrário, demonstra o paradoxo de nossa usual e científica concepção temporal: sempre é possível perguntar o que vem antes do começo de algo - então, o começo é a continuação do que já havia antes. Antes do princípio, entretanto, não havia nada. É um princípio que continua sendo princípio, mas o que começou já não começa mais.

Essa idéia da temporalidade como pulsos, e não uma linha contínua, encontra respaldo no tempo cíclico taoísta, no tempo para Deus de Santo Agostinho, nas pulsões de Nietzsche, na diferença entre temporalidade e eternidade de Kierkegaard e Karl Barth (sendo o instante, nestes e também para Krishnamurti, o momento em que a eternidade se manifesta na temporalidade), na obrigatória relação entre tempo e espaço da física quântica moderna pós-Planck, assim como no ensino das artes marciais e na fenomenologia de Heidegger.


The late wisdom of failure

O fracasso é inevitável. Ao filósofo, após fracassar ao dar nomes cotidianos para conceitos da sophía, um modo próprio e original de saber, só resta fracassar com louvor. Note-se que a própria philosophía não acolhe e toma para si o saber do mundo. Isso seria o conhecimento como adequação da realidade - uma vontade de verdade (Trieb zur Wahrheit) falsa, já apontada por Nietzsche nos "Preconceitos dos Filósofos", em seu Para Além do Bem e do Mal (Jenseits von Gut und Böse).

Fracassamos ao buscar o começo. Fracassamos ao nomear o inominável. O fracasso surge graças a pensar através da dimensão do tempo.

Vejamos esse poema de Paul Celan:

Negro
como as feridas da memória,
escavam os olhos até ti
no reino claramente sugado
por dentes do coração
onde permanece nosso leito.
através desse poço tu deves vir -
tu vens
No sentido
da semente
o mar te destroça, no íntimo, para sempre
O dar-nomes tem um fim,
sobre ti eu lanço meu destino.

...

Começamos nas trevas - onde não podemos agir, apenas pensar - e com medo. A escuridão é como as feridas da memória - o tempo novamente gerou dor ("O infinito distribui fins sem cessar" - F. M.). Também mostra ser um escuro pessoal: "Se teu olho estiver negro, todo o o teu corpo estará escuro. Se a luz que existe em ti são trevas, como é grande a escuridão!" (Mateus 6:23)

Os olhos, deslustrados com as nódoas temporais, escavam à procura de um "tu". Quando se escava a terra, a faina é dura e suja, e nos direcionamos para baixo sem nenhum guia. Contudo, este reino também foi sugado (interiorizado) e é claro. A filosofia, morada da ratio, capaz de iluminar até um trecho do Inferno de Dante, falha em aclarecer os princípios - mas o coração é príncipe e claro, possuindo a coroa desse reino (Kronland).

O leito lá permanece - nascer, morrer e reproduzir-se são pessoais, mas o reino do coração, do tempo do eu (kairos, ou Ichzeit), em contraposição ao tempo do mundo (kronos, ou Weltzeit), fica inalterado para fazer surgir (arkhé) e acolher o que fenece.

A seguir, através do poço cavado (Depois da dor), o "tu" aparece - no sentido da semente - o princípio que governa, e que antes dele (A semente) não há nada. O princípio dá o sentido (Sinn, em oposição ao Bedeutung, ou "referência", para Frege) - à Physis e ao existir.

O mar, eterna imagem poética do tempo, com suas ondas indo e vindo, em eterno retorno, destroça o tu, eternamente. O tempo destrói tudo e acumula fracassos - e no íntimo: o mar também costuma representar o inconsciente a trazer pesadelos.

A repetição do tempo é que permite a organização mental, contudo: "E repetindo-se o riso após a lágrima, o nascer reluzente após a escura dor e a borboleta após a lagarta, o homem deixou de se surpreender com a sabedoria após a loucura." (F. M.)

A dimensão temporal física erra até mesmo ao supor a realidade - palavra latina par excellence. Real é o que é feito de res - uma coisa. A filosofia começa com uma pergunta sobre a physis, que nem envolve uma coisa ou substância - e só podemos falar de "realidade" assim, entre aspas. É o mito da substância.

A nomeação que a ratio dá possui um fim: tanto um intuito quanto um término.
Nossa razão não abarca o mundo. Mas a temporalidade traz a morte.

Mesmo que o destino final, inevitavelmente, seja o leito de morte, ainda assim quer-se um sentido à existência - um destino a se caminhar. O fracasso virá certamente: mas pouco haverá a se chocar quando tudo estiver escuro.

A loucura do devir - de contar infinitos pontos de espaço e tempo - é supor um começo para o que é um princípio - curvar a natureza em um sistema de conseqüências. Essa forma comum, como pensamos o tempo, é na verdade paradoxal, especiosa.

Vemos este outro poema de Celan, um de seus raros rimados:

ich kenne dich, du bist die tief Gebeugte
ich, der durchbohrte, bin dir untertan
Wo flammt ein Wort, das für uns beide zeugte?
Du - ganz, ganz wirklich. Ich - ganz wahn.

eu te conheço, és a profundamente curvada
eu, o trespassado, sou a ti subordinado
Onde queima uma palavra, que para nós dois procriou?
Tu - tudo, tudo real. Eu - tudo louco.

...

A "realidade" do tempo é uma loucura. Dar um "fim" como uma palavra marcada ao atemporal, que está no reino do coração, é fugir de um princípio cuja chama brilha sem fim. O "real" é tocável - mas o que há antes do seu começo e após seu fim? O real é a demência.

O tempo do coração escurece - mas se interiorizado e com destino certo, possui a coroa de um reino claro.

Wahr spricht, wer Schatten spricht
.
Fala a verdade quem fala sombras.

É num tempo de trevas que o olho começa a enxergar.

1 pessoas leram e discordaram:

~§~ on 11 de outubro de 2007 18:43 disse...

Uhmmm...legal, do que li foi legal, alguma coisa não entendi, mas é pq estou com sono e com Metal soando nos ouvidos. O resto acabei não lendo pq o texto tá enooorme ^_^

Mas passei aki pra desejar umbom feriado. Bjos!

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