sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sociolingüística dos palavrões, porra.

ouvindo: South Park Soundtrack - Uncle Fucker
frase do dia: "I would never let a woman kick my ass. If she tried anything, I'd be all like, 'Ahy! You get your bitch-ass back in the kitchen, and make me some pie!'" - Eric Cartman


O orkut resolveu praticar a sabotagem mais putanheira possível: passou a deixar de exibir postagens de perfis orkuticidados. É assim com mães irresponsáveis e com Frankenstein: primeiro criam o monstrinho, depois o abandonam à própria sorte.

Parece-me notar, entretanto, que ninguém atentou a tal tonitruante fenômeno. A única comunidade que conheço que sofreu desgraçadamente com os reveses de tal grosseria foi minha gloriosa Marx de cu é Hegel. Até escrevi meu manifesto de total repúdio a essa paneleirice, embora já com o sotaque da minha consuetudinária falta de esperança.

Por sorte, minha maior obra-prima foi salva de ir parar no Reino do Esquecimento. Como mais um apelo para que o orkut revogue essa decisão e volte a exibir postagens que merecem entrar para os anais da História, deixo meu mais famoso tópico aqui, resgatado por milagre (ainda estou em prantos por todos os outros), apenas para aquecer a saudade.

Boas memórias!


Sociolingüística dos palavrões, porra.

Muito se avançou na Lingüística na segunda metade do séc. XX com grandes revoluções no entendimento sobre a linguagem, sobretudo com a distinção entre substância e forma da expressão e do conteúdo por Hjelmslev, a gramática gerativa de Noam Chomsky e as análises semióticas sobre a cultura do dia-a-dia por Barthes, porra.

Mas nunca qualquer um desses filhas da puta resolveu estudar os importantíssimos usos e desusos dos tão usados palavrões. Essa é minha contribuição acadêmica para, modestamente, tentar dar um revertério nessa injusta situação, porra.

O palavrão já não merece esse título, por serem palavras curtas - em inglês, por sinal, são chamados, ahn, digamos, "carinhosamente", por four letter words: cock, shit, arse, dick, cunt, fuck e por aí vai, porra.

Esta análise tem por objetivo responder a pergunta-motor desse tipo de estudo:

O palavrão tem significado, porra?

Lembrando do que Wittgenstein fala sobre a linguagem, o uso de uma palavra é já uma criação - não apenas uma "cópia" de coisas do mundo. Enquanto, em português brasileiro, dizemos "corvo", delimitando um conjunto de aves negras que costumam martelar, com voz do báratro, longínquos "Never more!" para viúvos de Lenores, em inglês, possivelmente pelo maior contato com tal tipo de ave, há uma distinção entre corvos pequenos (raven) e grandes (crow), porra. Não se trata, portanto, de criar uma palavra para um objeto do mundo, e sim para delimitar um conceito dentre fenômenos diversos, porra.

O palavrão, nitidamente, tem como substância da expressão (a Idea) a Transcendência, em todos os seus aspectos. Quando se fala de algo que é tão distante do ponto onde os falantes se encontram que suas mentes são incapazes de medir o trajeto, soltam logo um belo "Fica lá na casa do caralho", "É no cu da mãe Joana", "Foi lá na puta que pariu", et caetera. Da mesma maneira o crente faz quando quer expressar a grande carga de emoção que jaz em seu peito, e só consegue exclamar "Valha-me Deus!" - o que corresponde ao laico "Caralhos que me fodam!".

A ligação do palavrão com o transcendente religioso, o inominável, o Um que é Todos, o Atzsluth cabalístico, pode ser comprovada quando mesmo o crente, ao se referir ao espaço incognoscível do ponto de vista da manifestação de seu ser presente, também vocifera um grande "Fica pra lá do cu do Judas", já também lembrando que sua imaterialidade ultrapassa mesmo as barreiras da ética, ao se referir a quem, diz-se, deu um ósculo em troca de 30 dinheiros - embora as fontes não confirmem se "ósculo" é uma gíria pra vocês-sabem-o-quê na época, porra.

O palavrão possui uma transvaloração intríseca, e daí o seu atributo de tabu, que é o pior palavrão já inventando nessa porra. Na hora do sexo, do tcheca-tcheca-labutcheca, do vuco-vuco, do pocotó-pocotó, da foda selvagem, mesmo as mais puras almas de Deus não vão dizer "Introduza o seu pênis ereto no meu canal vaginal agora!" ou "apalpe e succione minhas glândulas mamárias e demais zonas erógenas, campeão!" - a predileção natural da espécie é descer o nível imediatamente, visto que mais baixo do que uma tentativa propositalmente mal-sucedida de perpetuação de espécie, só mesmo com anões octagenários alisando uma vulva felpuda besuntada em óleo de bateria de carro no lustre, porra.

Como o sexo tem o valor de rito de passagem na sociedade, transformando meninos e meninas em homens e mulheres - e também em boiolas, sapatões, putas e hermafroditas voluntários - o seu valor de "inefável", de segredo de Estado que todos sabem mas ninguém comenta e de "conversa para o sofá com seus pais com caras de putos" se torna manifesto, porra.

Como qualquer nome não-científico para as "partes erógenas" (existe palavra mais broxante no mundo, porra?!) é considerado "inadequado" para qualquer situação (e nem precisa ser a porra de um palavrão – afinal, usar "piu-piu" pra se referir a uma caralha em possível atividade cicladiana, ainda que balouçante no momento da fala, é coisa de arrombado), notamos o quanto o sexo, o tabu, a religião e a transcendência são as veias (!) motiz dos palavrões, porra!

Adendo especial, porra: algumas pessoas, sobretudo depois de notórios perobismos da geração Beatnick, gostam de dizer "fazer amor" para se referir às suas impuras trocas de fluídos na calada da noite. Amor é uma merda de um sentimento (que fode a vida, é vero), então como é que se "faz" um sentimento, porra?! (para aqueles que, obviamente, irão me responder: "Trepando!", eu já obtempero: se vocês se referem àquela coisinha branca, eu conheço outro nome, porra!)

O tabu, na sociedade introduzida (!!) na pós-modernidade que nunca acaba, se refere, basicamente, a todas as funções metabolísticas que você não praticaria na frente da sua avó. Logo, outro efeito de transcendência do palavrão é manifesto no banheiro - palco dos últimos resquícios de solidão meditativa e auto-conhecedora que o mundo contemporâneo nos legou, junto com o fone de ouvido e a morte, porra. Dessarte, os naturais hábitos de aliviar os intestinos são disfarçados na linguagem com o próximo, pois afirmar "Peraí, vou dar um cagão" pra namorada no MSN não parece ser um comportamento de muito futuro, porra.

Uma saída inteligente é usar a boa e velha metáfora e, assim, avisar o próximo das impingências que a Natureza lhe cobra por meio de construções mais rebuscadas como "Vou botar os moleque pra nadar", "Vou fazer download", "Preciso assinar a Lei Áurea", "Vou contar azulejo", "Vou meditar na casa da Pri", "Vou dar um alô pro Senhor Barros" ou, no caso de momentos de nítida pouca-vergonha, "Vou fazer clonagem", porra.

É claro que a transcendência representada pelo palavrão é uma transcendência mais axiológica do que epistemológica - nada foi, a despeito de Wittgenstein, inventado com o palavrão, além de novos meios de dizer aquilo que TODOS conhecem - exempli gratia, a palavra Arschloch, em alemão, refere-se a um orifício usado por todos cicladianamente, seja em qual direção vetorial for, situado no fim da medula espinhal. Diz a sabedoria popular, aliás, que quem o tem, tem medo, porra.

As relações daí decorrentes são abstrações em que os temas apresentados (sexo, religião, caganeira e outras coisas foda) se convertem em expressões idiomáticas que qualquer criança de 6 anos conhece mas não entende, porra. Ao chamar um bípede de "filha da puta", verbi gratia, o cidadão em questão sequer pensa na mãe do xingado, e, como é no meu caso, tampouco atenta para as variações suficientemente visíveis do gênero do indivíduo, visto que sempre uso no feminino, porra.

O palavrão é a vida, é a reunião com o Uno, com o Tao, é o Nirvana - o que, por fim, explica mesmo porque Nirvana é uma bela BOSTA!!!

3 pessoas leram e discordaram:

rodrigo disse...

flavio, que texto legal! acho que vc ia gostar de ler o livro do steven pinker chamado "the stuff of thought", no qual ele dedica um bom pedaço de capítulo aos palavrões e tabus. tem uma parte da coisa que tem a ver com o processamento involuntário do palavrão quando alguém fala perto de você que é animal. parabéns pelo texto!
rodrigo (o da comédia)

rodrigo disse...

confundi você com outro flavio, mas a dica fica do mesmo modo!

Flavio Morgenstern disse...

Engraçado que poderia te confundir com outro Rodrigo. =P´

Há pouco estudo sobre o assunto (dá [!] pra imaginar o porquê), como Sobre falar Merda (que começa citando Wittgenstein, ou o único que tenho, English as a Second F*cking Language, que me foi muito útil para criar este texto, porra.

De qualquer forma, me parece um assunto interessante pra caralho. É uma pena que a Universidade tão avant-la-léttre ainda seja tão abarrotada de tabus. (palavrão feio, não?)

De qualquer forma, agradeço a visita, porra! =D

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sociolingüística dos palavrões, porra.


ouvindo: South Park Soundtrack - Uncle Fucker
frase do dia: "I would never let a woman kick my ass. If she tried anything, I'd be all like, 'Ahy! You get your bitch-ass back in the kitchen, and make me some pie!'" - Eric Cartman


O orkut resolveu praticar a sabotagem mais putanheira possível: passou a deixar de exibir postagens de perfis orkuticidados. É assim com mães irresponsáveis e com Frankenstein: primeiro criam o monstrinho, depois o abandonam à própria sorte.

Parece-me notar, entretanto, que ninguém atentou a tal tonitruante fenômeno. A única comunidade que conheço que sofreu desgraçadamente com os reveses de tal grosseria foi minha gloriosa Marx de cu é Hegel. Até escrevi meu manifesto de total repúdio a essa paneleirice, embora já com o sotaque da minha consuetudinária falta de esperança.

Por sorte, minha maior obra-prima foi salva de ir parar no Reino do Esquecimento. Como mais um apelo para que o orkut revogue essa decisão e volte a exibir postagens que merecem entrar para os anais da História, deixo meu mais famoso tópico aqui, resgatado por milagre (ainda estou em prantos por todos os outros), apenas para aquecer a saudade.

Boas memórias!


Sociolingüística dos palavrões, porra.

Muito se avançou na Lingüística na segunda metade do séc. XX com grandes revoluções no entendimento sobre a linguagem, sobretudo com a distinção entre substância e forma da expressão e do conteúdo por Hjelmslev, a gramática gerativa de Noam Chomsky e as análises semióticas sobre a cultura do dia-a-dia por Barthes, porra.

Mas nunca qualquer um desses filhas da puta resolveu estudar os importantíssimos usos e desusos dos tão usados palavrões. Essa é minha contribuição acadêmica para, modestamente, tentar dar um revertério nessa injusta situação, porra.

O palavrão já não merece esse título, por serem palavras curtas - em inglês, por sinal, são chamados, ahn, digamos, "carinhosamente", por four letter words: cock, shit, arse, dick, cunt, fuck e por aí vai, porra.

Esta análise tem por objetivo responder a pergunta-motor desse tipo de estudo:

O palavrão tem significado, porra?

Lembrando do que Wittgenstein fala sobre a linguagem, o uso de uma palavra é já uma criação - não apenas uma "cópia" de coisas do mundo. Enquanto, em português brasileiro, dizemos "corvo", delimitando um conjunto de aves negras que costumam martelar, com voz do báratro, longínquos "Never more!" para viúvos de Lenores, em inglês, possivelmente pelo maior contato com tal tipo de ave, há uma distinção entre corvos pequenos (raven) e grandes (crow), porra. Não se trata, portanto, de criar uma palavra para um objeto do mundo, e sim para delimitar um conceito dentre fenômenos diversos, porra.

O palavrão, nitidamente, tem como substância da expressão (a Idea) a Transcendência, em todos os seus aspectos. Quando se fala de algo que é tão distante do ponto onde os falantes se encontram que suas mentes são incapazes de medir o trajeto, soltam logo um belo "Fica lá na casa do caralho", "É no cu da mãe Joana", "Foi lá na puta que pariu", et caetera. Da mesma maneira o crente faz quando quer expressar a grande carga de emoção que jaz em seu peito, e só consegue exclamar "Valha-me Deus!" - o que corresponde ao laico "Caralhos que me fodam!".

A ligação do palavrão com o transcendente religioso, o inominável, o Um que é Todos, o Atzsluth cabalístico, pode ser comprovada quando mesmo o crente, ao se referir ao espaço incognoscível do ponto de vista da manifestação de seu ser presente, também vocifera um grande "Fica pra lá do cu do Judas", já também lembrando que sua imaterialidade ultrapassa mesmo as barreiras da ética, ao se referir a quem, diz-se, deu um ósculo em troca de 30 dinheiros - embora as fontes não confirmem se "ósculo" é uma gíria pra vocês-sabem-o-quê na época, porra.

O palavrão possui uma transvaloração intríseca, e daí o seu atributo de tabu, que é o pior palavrão já inventando nessa porra. Na hora do sexo, do tcheca-tcheca-labutcheca, do vuco-vuco, do pocotó-pocotó, da foda selvagem, mesmo as mais puras almas de Deus não vão dizer "Introduza o seu pênis ereto no meu canal vaginal agora!" ou "apalpe e succione minhas glândulas mamárias e demais zonas erógenas, campeão!" - a predileção natural da espécie é descer o nível imediatamente, visto que mais baixo do que uma tentativa propositalmente mal-sucedida de perpetuação de espécie, só mesmo com anões octagenários alisando uma vulva felpuda besuntada em óleo de bateria de carro no lustre, porra.

Como o sexo tem o valor de rito de passagem na sociedade, transformando meninos e meninas em homens e mulheres - e também em boiolas, sapatões, putas e hermafroditas voluntários - o seu valor de "inefável", de segredo de Estado que todos sabem mas ninguém comenta e de "conversa para o sofá com seus pais com caras de putos" se torna manifesto, porra.

Como qualquer nome não-científico para as "partes erógenas" (existe palavra mais broxante no mundo, porra?!) é considerado "inadequado" para qualquer situação (e nem precisa ser a porra de um palavrão – afinal, usar "piu-piu" pra se referir a uma caralha em possível atividade cicladiana, ainda que balouçante no momento da fala, é coisa de arrombado), notamos o quanto o sexo, o tabu, a religião e a transcendência são as veias (!) motiz dos palavrões, porra!

Adendo especial, porra: algumas pessoas, sobretudo depois de notórios perobismos da geração Beatnick, gostam de dizer "fazer amor" para se referir às suas impuras trocas de fluídos na calada da noite. Amor é uma merda de um sentimento (que fode a vida, é vero), então como é que se "faz" um sentimento, porra?! (para aqueles que, obviamente, irão me responder: "Trepando!", eu já obtempero: se vocês se referem àquela coisinha branca, eu conheço outro nome, porra!)

O tabu, na sociedade introduzida (!!) na pós-modernidade que nunca acaba, se refere, basicamente, a todas as funções metabolísticas que você não praticaria na frente da sua avó. Logo, outro efeito de transcendência do palavrão é manifesto no banheiro - palco dos últimos resquícios de solidão meditativa e auto-conhecedora que o mundo contemporâneo nos legou, junto com o fone de ouvido e a morte, porra. Dessarte, os naturais hábitos de aliviar os intestinos são disfarçados na linguagem com o próximo, pois afirmar "Peraí, vou dar um cagão" pra namorada no MSN não parece ser um comportamento de muito futuro, porra.

Uma saída inteligente é usar a boa e velha metáfora e, assim, avisar o próximo das impingências que a Natureza lhe cobra por meio de construções mais rebuscadas como "Vou botar os moleque pra nadar", "Vou fazer download", "Preciso assinar a Lei Áurea", "Vou contar azulejo", "Vou meditar na casa da Pri", "Vou dar um alô pro Senhor Barros" ou, no caso de momentos de nítida pouca-vergonha, "Vou fazer clonagem", porra.

É claro que a transcendência representada pelo palavrão é uma transcendência mais axiológica do que epistemológica - nada foi, a despeito de Wittgenstein, inventado com o palavrão, além de novos meios de dizer aquilo que TODOS conhecem - exempli gratia, a palavra Arschloch, em alemão, refere-se a um orifício usado por todos cicladianamente, seja em qual direção vetorial for, situado no fim da medula espinhal. Diz a sabedoria popular, aliás, que quem o tem, tem medo, porra.

As relações daí decorrentes são abstrações em que os temas apresentados (sexo, religião, caganeira e outras coisas foda) se convertem em expressões idiomáticas que qualquer criança de 6 anos conhece mas não entende, porra. Ao chamar um bípede de "filha da puta", verbi gratia, o cidadão em questão sequer pensa na mãe do xingado, e, como é no meu caso, tampouco atenta para as variações suficientemente visíveis do gênero do indivíduo, visto que sempre uso no feminino, porra.

O palavrão é a vida, é a reunião com o Uno, com o Tao, é o Nirvana - o que, por fim, explica mesmo porque Nirvana é uma bela BOSTA!!!

3 pessoas leram e discordaram:

rodrigo disse...

flavio, que texto legal! acho que vc ia gostar de ler o livro do steven pinker chamado "the stuff of thought", no qual ele dedica um bom pedaço de capítulo aos palavrões e tabus. tem uma parte da coisa que tem a ver com o processamento involuntário do palavrão quando alguém fala perto de você que é animal. parabéns pelo texto!
rodrigo (o da comédia)

rodrigo disse...

confundi você com outro flavio, mas a dica fica do mesmo modo!

Flavio Morgenstern on 24 de setembro de 2008 20:32 disse...

Engraçado que poderia te confundir com outro Rodrigo. =P´

Há pouco estudo sobre o assunto (dá [!] pra imaginar o porquê), como Sobre falar Merda (que começa citando Wittgenstein, ou o único que tenho, English as a Second F*cking Language, que me foi muito útil para criar este texto, porra.

De qualquer forma, me parece um assunto interessante pra caralho. É uma pena que a Universidade tão avant-la-léttre ainda seja tão abarrotada de tabus. (palavrão feio, não?)

De qualquer forma, agradeço a visita, porra! =D

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