terça-feira, 3 de julho de 2007

Teoria Geral dos Sentimentos

ouvindo: The Smiths - Girlfriend in a Coma
frase do dia: "De todas as formas de cautela, cautela no amor é talvez a mais fatal para a felicidade verdadeira" - Bertrand Russell


Teoria desenvolvida em conjunto com Marcelo Pietragalla.
Uma pessoa prática nos ajuda com os problemas da forma mais rápida possível. Um amigo nos faz crescer e nos tornar pessoas melhores para superá-los de frente, ainda que seja mais doloroso. Thanks, bro'.

Os sentimentos, em níveis fisiológicos, não são uniformes e sequer deveriam ser agrupados sobre o mesmo rótulo de "sentimentos", pois variam em formação e funcionamento. As conseqüências em nível prático de cada um se parecem, embora sua gênese seja diversa. Geralmente, caracterizam-se por estados de consciência em que todo o organismo trabalha em prol de um objeto, procurando reagir de forma coordenada e harmônica ao objeto engatilhador.

Os sentimentos mais primitivos do homem são a raiva, a tristeza, o medo e a alegria. Desses quatro, os três primeiros são considerados "negativos". Apesar disso, são sentimentos de sobrevivência, necessários ao homem. Apesar da visão de vida confortável contemporânea, a Natureza dá uma existência razoavelmente dolorosa ao homem. A vida é feita mais de trabalho e sofrimento do que prazer e desfastio. A existência individual é apresentada ao animal através da dor física e ao homem, da mentira. A alegria, o sentimento que resta, tem um propósito motivador, apenas. Ao experimentá-la uma vez, busca-se superar-se em outros desafios para ter novamente a sensação de recompensa.

Há-de se notar, entretanto, que esses sentimentos não são "criados" com um objetivo pela Natureza - são, sim, conseqüências diretas do aparelho humano criado com outras funções, mas que só conseguem estar em pleno funcionamento fazendo o ser humano sentir algo para ativação dessas funções. Temos, portanto, um organismo voltado para tarefas e sensações não-condizentes com a vida atual, que ainda busca carcaterísticas físicas e psíquicas no sexo oposto (e até no mesmo sexo) medindo sua capacidade para procriação, como o Homo erectus fazia.

Alguns sentimentos mais complexos, como a angústia, a preocupação, o rancor ou a mágoa são um misto de sentimentos mais primitivos, surgindo em conjunto por diversos fatores, nem sempre concatenados. Estar triste e enfrentar uma situação de projeção do indivíduo no futuro, quando as circunstâncias não garantem sua segurança, pode aumentar uma preocupação que já seria grande por si só.

O que chamamos "sentimentos", dessarte, são sempre reações do organismo a fatores externos. Não obstante, ao distender esses fenômenos no eixo temporal, a existência de um sentimento já é um fato, em si, para que outros sentimentos reajam a ele. Uma criança que está feliz com o seu brinquedo e tem seu acesso a ele negado não "transforma" sua alegria em rancor - o fato de ter um sentimento (a alegria) ligado a um objeto também é um fato, já tornado "externo", a qual o próprio organismo reage, e, graças à alegria primeira, a raiva sentida ganha uma carga de mágoa pela alegria negada.

Como fenômenos ocorrem nos limites do tempo e do espaço (e sentimentos estão mais ligados ao tempo que ao espaço), a própria temporalidade da existência gera novos sentimentos que o animal ignora, por não ter a abstração e a projeção temporal que o homem possui. A preocupação, nitidamente, joga o medo para possibilidades futuras que podem ser malogradas, e antecipa a tristeza que pode advir dessa falha. A mágoa também não existiria sem a temporalidade - dessa vez, o presente continua sem fatos novos para se reagir, mas o passado possui uma carga negra envolvida que impede a tranqüilidade feliz no presente.

Há muito de racional presente nos mecanismos que colocam os sentimentos em ação. Alguns são mais primários e diretos, como o medo e a raiva - imperativos de reação direta e, muitas vezes, imediata - enquanto outros possuem ligações intrínsecas mais complexas e abstrações que exigem boas doses de refleão - é impossível conceber um autista com muitas preocupações futuras, por exemplo. O sentimento com liames mais estreitos com essas reflexões é o amor.

O amor distende-se no tempo de tal forma que é inconcebível tratá-lo com a imediatez dos outros sentimentos: "Eu tenho raiva agora" é suficientemente lógico, mas "Eu amo agora" não faz sentido algum. O fato de um ente amar alguém é também um imperativo de reações que esse terá ao mundo exterior, mas não de reações diretas. Assim como a preocupação tem seu objeto no futuro e a mágoa no passado, o amor possui uma temporalidade própria - mas que não segue o tempo-do-mundo (Weltzeit, ou kronos para os gregos), e sim o tempo-do-eu (Ichzeit, ou kairos). Se João tem raiva de Maria, ele, agora, reagirá de uma maneira específica à ela. Se Fábio ama Bianca, contudo, não se pode dizer que ele deixa de amá-la por estar trabalhando ou dormindo, nesse momento. É um imperativo de ações mais genérico, com tempo próprio.

O amor que chamamos aqui inclui deixar a felicidade nas mãos do outro, por essa felicidade, no conhecido processo de sinergia, ser maior ao se completar com o outro ente do que apenas a felicidade dos dois, separados. A paixão, apesar de gerar algumas reações idênticas e mesmo poder levar ao amor, configura-se não pela posse do outro, mas pelo possuir - uma vontade de querer que o outro entre em seus conformes e satisfaça alguns de seus desejos.

Ainda há-de se notar que o amor continua sendo uma reação - assim, sem o combustível que o alimenta, ele esmorece como os outros, apesar de sua própria temporalidade. Contudo, esse imperativo, por não ser direto, influencia até mesmo quais serão as reações (e os sentimentos mais diretos que surgirão) em relação ao ente amado. Por ampliar a sensibilidade, os pequenos gestos que o amado faz ao amante garantem uma alegria muito maior do que os fatos em si, assim como suas falhas carregam uma decepção e uma tristeza que se prolonga por muito mais tempo.

O amor, contudo, é o único sentimento que faz os humanos se organizarem em relações apenas em seu nome. A relação amorosa constitui em "acordos" e organizações racionais entre as partes envolvidas, nem que seja apenas para aparar as arestas do que um não gosta e aceita com prazer no outro. Contudo, enquanto o sentimento é que impõe tais atos, ainda que esse eixo epistemológico vá contra o eixo axiológico dos entes envolvidos, o que mais conta de fato é a vontade de se entregar, se doar ao outro - mais do que o quanto ele consegue se lograr em atingir seus objetivos ou não.

No amor, para os efeitos mais longínquos, não há "errado".



(25.03.2007)

2 pessoas leram e discordaram:

Kerlyn disse...

Foda, fazemos mais motivados pela raiva do q outra coisa.. quase triste, rs

Anonymous disse...

Pobre Eric Berne!

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terça-feira, 3 de julho de 2007

Teoria Geral dos Sentimentos


ouvindo: The Smiths - Girlfriend in a Coma
frase do dia: "De todas as formas de cautela, cautela no amor é talvez a mais fatal para a felicidade verdadeira" - Bertrand Russell


Teoria desenvolvida em conjunto com Marcelo Pietragalla.
Uma pessoa prática nos ajuda com os problemas da forma mais rápida possível. Um amigo nos faz crescer e nos tornar pessoas melhores para superá-los de frente, ainda que seja mais doloroso. Thanks, bro'.

Os sentimentos, em níveis fisiológicos, não são uniformes e sequer deveriam ser agrupados sobre o mesmo rótulo de "sentimentos", pois variam em formação e funcionamento. As conseqüências em nível prático de cada um se parecem, embora sua gênese seja diversa. Geralmente, caracterizam-se por estados de consciência em que todo o organismo trabalha em prol de um objeto, procurando reagir de forma coordenada e harmônica ao objeto engatilhador.

Os sentimentos mais primitivos do homem são a raiva, a tristeza, o medo e a alegria. Desses quatro, os três primeiros são considerados "negativos". Apesar disso, são sentimentos de sobrevivência, necessários ao homem. Apesar da visão de vida confortável contemporânea, a Natureza dá uma existência razoavelmente dolorosa ao homem. A vida é feita mais de trabalho e sofrimento do que prazer e desfastio. A existência individual é apresentada ao animal através da dor física e ao homem, da mentira. A alegria, o sentimento que resta, tem um propósito motivador, apenas. Ao experimentá-la uma vez, busca-se superar-se em outros desafios para ter novamente a sensação de recompensa.

Há-de se notar, entretanto, que esses sentimentos não são "criados" com um objetivo pela Natureza - são, sim, conseqüências diretas do aparelho humano criado com outras funções, mas que só conseguem estar em pleno funcionamento fazendo o ser humano sentir algo para ativação dessas funções. Temos, portanto, um organismo voltado para tarefas e sensações não-condizentes com a vida atual, que ainda busca carcaterísticas físicas e psíquicas no sexo oposto (e até no mesmo sexo) medindo sua capacidade para procriação, como o Homo erectus fazia.

Alguns sentimentos mais complexos, como a angústia, a preocupação, o rancor ou a mágoa são um misto de sentimentos mais primitivos, surgindo em conjunto por diversos fatores, nem sempre concatenados. Estar triste e enfrentar uma situação de projeção do indivíduo no futuro, quando as circunstâncias não garantem sua segurança, pode aumentar uma preocupação que já seria grande por si só.

O que chamamos "sentimentos", dessarte, são sempre reações do organismo a fatores externos. Não obstante, ao distender esses fenômenos no eixo temporal, a existência de um sentimento já é um fato, em si, para que outros sentimentos reajam a ele. Uma criança que está feliz com o seu brinquedo e tem seu acesso a ele negado não "transforma" sua alegria em rancor - o fato de ter um sentimento (a alegria) ligado a um objeto também é um fato, já tornado "externo", a qual o próprio organismo reage, e, graças à alegria primeira, a raiva sentida ganha uma carga de mágoa pela alegria negada.

Como fenômenos ocorrem nos limites do tempo e do espaço (e sentimentos estão mais ligados ao tempo que ao espaço), a própria temporalidade da existência gera novos sentimentos que o animal ignora, por não ter a abstração e a projeção temporal que o homem possui. A preocupação, nitidamente, joga o medo para possibilidades futuras que podem ser malogradas, e antecipa a tristeza que pode advir dessa falha. A mágoa também não existiria sem a temporalidade - dessa vez, o presente continua sem fatos novos para se reagir, mas o passado possui uma carga negra envolvida que impede a tranqüilidade feliz no presente.

Há muito de racional presente nos mecanismos que colocam os sentimentos em ação. Alguns são mais primários e diretos, como o medo e a raiva - imperativos de reação direta e, muitas vezes, imediata - enquanto outros possuem ligações intrínsecas mais complexas e abstrações que exigem boas doses de refleão - é impossível conceber um autista com muitas preocupações futuras, por exemplo. O sentimento com liames mais estreitos com essas reflexões é o amor.

O amor distende-se no tempo de tal forma que é inconcebível tratá-lo com a imediatez dos outros sentimentos: "Eu tenho raiva agora" é suficientemente lógico, mas "Eu amo agora" não faz sentido algum. O fato de um ente amar alguém é também um imperativo de reações que esse terá ao mundo exterior, mas não de reações diretas. Assim como a preocupação tem seu objeto no futuro e a mágoa no passado, o amor possui uma temporalidade própria - mas que não segue o tempo-do-mundo (Weltzeit, ou kronos para os gregos), e sim o tempo-do-eu (Ichzeit, ou kairos). Se João tem raiva de Maria, ele, agora, reagirá de uma maneira específica à ela. Se Fábio ama Bianca, contudo, não se pode dizer que ele deixa de amá-la por estar trabalhando ou dormindo, nesse momento. É um imperativo de ações mais genérico, com tempo próprio.

O amor que chamamos aqui inclui deixar a felicidade nas mãos do outro, por essa felicidade, no conhecido processo de sinergia, ser maior ao se completar com o outro ente do que apenas a felicidade dos dois, separados. A paixão, apesar de gerar algumas reações idênticas e mesmo poder levar ao amor, configura-se não pela posse do outro, mas pelo possuir - uma vontade de querer que o outro entre em seus conformes e satisfaça alguns de seus desejos.

Ainda há-de se notar que o amor continua sendo uma reação - assim, sem o combustível que o alimenta, ele esmorece como os outros, apesar de sua própria temporalidade. Contudo, esse imperativo, por não ser direto, influencia até mesmo quais serão as reações (e os sentimentos mais diretos que surgirão) em relação ao ente amado. Por ampliar a sensibilidade, os pequenos gestos que o amado faz ao amante garantem uma alegria muito maior do que os fatos em si, assim como suas falhas carregam uma decepção e uma tristeza que se prolonga por muito mais tempo.

O amor, contudo, é o único sentimento que faz os humanos se organizarem em relações apenas em seu nome. A relação amorosa constitui em "acordos" e organizações racionais entre as partes envolvidas, nem que seja apenas para aparar as arestas do que um não gosta e aceita com prazer no outro. Contudo, enquanto o sentimento é que impõe tais atos, ainda que esse eixo epistemológico vá contra o eixo axiológico dos entes envolvidos, o que mais conta de fato é a vontade de se entregar, se doar ao outro - mais do que o quanto ele consegue se lograr em atingir seus objetivos ou não.

No amor, para os efeitos mais longínquos, não há "errado".



(25.03.2007)

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Kerlyn disse...

Foda, fazemos mais motivados pela raiva do q outra coisa.. quase triste, rs

Anonymous disse...

Pobre Eric Berne!

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