sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Uma Canção Infinita

Segue o quinto capítulo de um futuro livro em estilo bíblico, sub-livros, capítulos e versículos. O capítulo em questão chama-se "Sabedoria da Natureza" e versa sobre o conhecimento obtido diretamente do mundo. O texto (junto com outros falando sobre os quatro elementos, a luz, as trevas, o céu, a vida, a morte etc.) fala sobre o tempo.

Dedico essas linhas (o primeiro capítulo que escrevo de que tenho certeza de que está completo) à minha amiga Nane, que tanto vem me ajudando a sincronizar tempos que correm em ritmos desiguais.

Enjoy.


Capítulo 5: Uma Canção Infinita

1. Eu vos falo sobre o tempo, o mais antigo dos assassinos.
2. Nada está parado, e tudo pode ser perdido - quando a Morte tingiu o primeiro homem de cinza, ele pensou no tempo.
3. O dia se apaga naturalmente, levando memórias aniquiladas por natureza, sem ser um objeto natural.
4. A única existência jaz entre o berço e o túmulo. Apenas se pode medir as inescapáveis horas entre os dois. Mais duro que a morte é viver até ela.
5. O rochedo é visto, o fogo pertuba, a água afunda, o ar se respira - até a poesia é sentida. Não se atinge porém o tempo, que desvanesce até a esperança.
6. Os navios naufragam e as ondas se quebram, mas o reflexo do luar permanece inabalável.
7. Contando-se as estrelas se mede a Terra, contando-se as mortes se mede o tempo.
8. Temei deuses inexistentes, mas o único desses deuses que mata por suas próprias mãos é o tempo!
9. No infinito se conta as luas e as marés e os dias de fome antes da colheita, mas não as estrelas e grãos de areia e trigo, nem os dias após o luto.
10. O mundo gira enquanto o homem se retorce; não antes da segunda primavera que se previu o que haveria após o inverno.
11. Adiante e ao fundo, refazendo-se em tons mais negros. O tempo é a espiral que puxa tudo para o fundo do oceano, passando abaixo dos mesmos pontos.
12. E repetindo-se o riso após a lágrima, o nascer reluzente após a escura dor e a borboleta após a lagarta, o homem deixou de se surpreender com a sabedoria após a loucura.
13. No relógio, os mesmos números marcam dias diferentes. Quem entende essa partilha infinita faz ciência, quem não entende, faz profecia.
14. Repetir em padrões permite a matemática e a linguagem, e com números e verbos o homem pôde mentir.
15. Não há mais injusto que o pêndulo, e o juiz quer imitá-lo com o seu martelo.
16. Qual se queima mais rápido: o livro falso ou o verdadeiro? É preciso mais imaginação e esforço para se criar uma mentira.
17. A verdade e o aplauso demoram para serem realizados. A mentira é ligeira como o eco. Só se mente para cima.
18. O louco sonha com o futuro, a História revisa o passado - quantos puderam enxergar o seu próprio presente?
19. E quando notaram que os antigos pouco sabiam, justificaram sua insânia pois o tempo era jovem demais para ser maduro. Como se os tempos criassem homens, mas os homens não criassem tempos!
20. O corpo e a vontade se enfraquecem, a estrela e o amor se apagam, a fome e o deus morrem. A espera e a verdade, porém, são invencíveis, escondidas atrás de tudo.
21. Quantos anos vividos vale um pensamento incessante? Muitas vidas são medidas, mas nunca nenhuma morte.
22. O seu tempo contará o que o nosso tempo escondeu.
23. Para o sono não ser o exórdio da morte, é preciso sonhar ou não mais acordar.
24. Os mares não carregam as horas, indo e vindo, sobre suas ondas. Mas os corações possuem alguns ponteiros cravados, afundando os mesmos instantes.
25. A areia da ampulheta vem do deserto, também medindo o incontável, que está entre tudo, sem antes e depois.
26. O infinito distribui fins sem cessar. Aqueles que perdem o tempo, porém, dificilmente reencontrarão a si próprios.
27. Alguns não se cansam de perder tempo, e outros não suportam ainda o possuir. O tempo se cansará e não suportará nenhum dos dois.
28. Poucos que reclamam mais tempo merecem os ensejos que perderam. Quem é seu amigo não exige muita amizade.
29. Aquele que mata o seu tempo é o mais espúrio suicida.
30. Para quem vive o suficiente para haver uma morte, a vida eterna seria insuportável.
31. As engrenagens dos relógios dos corações não possuem a mesma medida, entre si ou com as ampulhetas e clepsidras. Quantos amores não abreviaram suas verdadeiras horas finais por contar apenas um tempo!
32. Nem toda enfermidade deixa marcas, nem todos os marcados são enfermos. A delonga destrói enfermidade e enfermo, deixando suas próprias marcas.
33. A idade não paralisa o sangue, apenas apascienta o coração.
34. Todos os dias, o sol ilumina ambos os campos: dos vencedores e dos vencidos.
35. Quem possui mais vida: o velho escravo ou o jovem príncipe?
36. A espera, o ócio, a desídia: todos tornam negros e breves momentos mais eternos que a morte.

5 pessoas leram e discordaram:

Anonymous disse...

:~~~
A ajuda tem sido mútua, então.

Hoje estive pensando sobre (1) O mais antigo dos assassinos. Isso não é tudo, não é mesmo? Até que venha a morte, o tempo tortura... E como! Pega os melhores momentos de uma vida e os transforma nos mais breves instantes que o relógio poderia marcar. Depois, faz com que poucas semanas se arrastem através de séculos de espera, de incerteza e de solidão... Qual é o tempo que o tempo te deu?

Grande beijo, obrigada!
Nane

Anonymous disse...

"breves negros momentos".

Why do you have to be soooooooo far away?

I'll do some "comments" "live" later ok? MSN, what can I do? rs

Te amo xuxú.
E não faz cara feia pro xuxú. Er... Deixa pra lá.rs

Ich liebe dich!

Miss ya!

Kél.

Anonymous disse...

tsc.

Quer saber? Tava com saudade desse blog.rs

O meu... coitado! Às moscas.

=o*

Kél

Danilo Pingado disse...

Desconhecia a veia poética desse camarada (!), acho que topar tantas vezes só com o lado reaça-aficcionado-por-política, a mínima cogitação deste outro lado era de pronto descartada, admito, surpreendeu-me =)

O texto, a uma primeira vista parece ser bom, vejamos o resto, o tempo mostrará (!!). Gosto de textos que direta ou indiretamente tratam da efemeridade das coisas.

Sorte =)

Anônimo disse...

Além de tudo é um poeta... apaixonei de vez. ;)

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Uma Canção Infinita


Segue o quinto capítulo de um futuro livro em estilo bíblico, sub-livros, capítulos e versículos. O capítulo em questão chama-se "Sabedoria da Natureza" e versa sobre o conhecimento obtido diretamente do mundo. O texto (junto com outros falando sobre os quatro elementos, a luz, as trevas, o céu, a vida, a morte etc.) fala sobre o tempo.

Dedico essas linhas (o primeiro capítulo que escrevo de que tenho certeza de que está completo) à minha amiga Nane, que tanto vem me ajudando a sincronizar tempos que correm em ritmos desiguais.

Enjoy.


Capítulo 5: Uma Canção Infinita

1. Eu vos falo sobre o tempo, o mais antigo dos assassinos.
2. Nada está parado, e tudo pode ser perdido - quando a Morte tingiu o primeiro homem de cinza, ele pensou no tempo.
3. O dia se apaga naturalmente, levando memórias aniquiladas por natureza, sem ser um objeto natural.
4. A única existência jaz entre o berço e o túmulo. Apenas se pode medir as inescapáveis horas entre os dois. Mais duro que a morte é viver até ela.
5. O rochedo é visto, o fogo pertuba, a água afunda, o ar se respira - até a poesia é sentida. Não se atinge porém o tempo, que desvanesce até a esperança.
6. Os navios naufragam e as ondas se quebram, mas o reflexo do luar permanece inabalável.
7. Contando-se as estrelas se mede a Terra, contando-se as mortes se mede o tempo.
8. Temei deuses inexistentes, mas o único desses deuses que mata por suas próprias mãos é o tempo!
9. No infinito se conta as luas e as marés e os dias de fome antes da colheita, mas não as estrelas e grãos de areia e trigo, nem os dias após o luto.
10. O mundo gira enquanto o homem se retorce; não antes da segunda primavera que se previu o que haveria após o inverno.
11. Adiante e ao fundo, refazendo-se em tons mais negros. O tempo é a espiral que puxa tudo para o fundo do oceano, passando abaixo dos mesmos pontos.
12. E repetindo-se o riso após a lágrima, o nascer reluzente após a escura dor e a borboleta após a lagarta, o homem deixou de se surpreender com a sabedoria após a loucura.
13. No relógio, os mesmos números marcam dias diferentes. Quem entende essa partilha infinita faz ciência, quem não entende, faz profecia.
14. Repetir em padrões permite a matemática e a linguagem, e com números e verbos o homem pôde mentir.
15. Não há mais injusto que o pêndulo, e o juiz quer imitá-lo com o seu martelo.
16. Qual se queima mais rápido: o livro falso ou o verdadeiro? É preciso mais imaginação e esforço para se criar uma mentira.
17. A verdade e o aplauso demoram para serem realizados. A mentira é ligeira como o eco. Só se mente para cima.
18. O louco sonha com o futuro, a História revisa o passado - quantos puderam enxergar o seu próprio presente?
19. E quando notaram que os antigos pouco sabiam, justificaram sua insânia pois o tempo era jovem demais para ser maduro. Como se os tempos criassem homens, mas os homens não criassem tempos!
20. O corpo e a vontade se enfraquecem, a estrela e o amor se apagam, a fome e o deus morrem. A espera e a verdade, porém, são invencíveis, escondidas atrás de tudo.
21. Quantos anos vividos vale um pensamento incessante? Muitas vidas são medidas, mas nunca nenhuma morte.
22. O seu tempo contará o que o nosso tempo escondeu.
23. Para o sono não ser o exórdio da morte, é preciso sonhar ou não mais acordar.
24. Os mares não carregam as horas, indo e vindo, sobre suas ondas. Mas os corações possuem alguns ponteiros cravados, afundando os mesmos instantes.
25. A areia da ampulheta vem do deserto, também medindo o incontável, que está entre tudo, sem antes e depois.
26. O infinito distribui fins sem cessar. Aqueles que perdem o tempo, porém, dificilmente reencontrarão a si próprios.
27. Alguns não se cansam de perder tempo, e outros não suportam ainda o possuir. O tempo se cansará e não suportará nenhum dos dois.
28. Poucos que reclamam mais tempo merecem os ensejos que perderam. Quem é seu amigo não exige muita amizade.
29. Aquele que mata o seu tempo é o mais espúrio suicida.
30. Para quem vive o suficiente para haver uma morte, a vida eterna seria insuportável.
31. As engrenagens dos relógios dos corações não possuem a mesma medida, entre si ou com as ampulhetas e clepsidras. Quantos amores não abreviaram suas verdadeiras horas finais por contar apenas um tempo!
32. Nem toda enfermidade deixa marcas, nem todos os marcados são enfermos. A delonga destrói enfermidade e enfermo, deixando suas próprias marcas.
33. A idade não paralisa o sangue, apenas apascienta o coração.
34. Todos os dias, o sol ilumina ambos os campos: dos vencedores e dos vencidos.
35. Quem possui mais vida: o velho escravo ou o jovem príncipe?
36. A espera, o ócio, a desídia: todos tornam negros e breves momentos mais eternos que a morte.

5 pessoas leram e discordaram:

Anonymous disse...

:~~~
A ajuda tem sido mútua, então.

Hoje estive pensando sobre (1) O mais antigo dos assassinos. Isso não é tudo, não é mesmo? Até que venha a morte, o tempo tortura... E como! Pega os melhores momentos de uma vida e os transforma nos mais breves instantes que o relógio poderia marcar. Depois, faz com que poucas semanas se arrastem através de séculos de espera, de incerteza e de solidão... Qual é o tempo que o tempo te deu?

Grande beijo, obrigada!
Nane

Anonymous disse...

"breves negros momentos".

Why do you have to be soooooooo far away?

I'll do some "comments" "live" later ok? MSN, what can I do? rs

Te amo xuxú.
E não faz cara feia pro xuxú. Er... Deixa pra lá.rs

Ich liebe dich!

Miss ya!

Kél.

Anonymous disse...

tsc.

Quer saber? Tava com saudade desse blog.rs

O meu... coitado! Às moscas.

=o*

Kél

Danilo Pingado disse...

Desconhecia a veia poética desse camarada (!), acho que topar tantas vezes só com o lado reaça-aficcionado-por-política, a mínima cogitação deste outro lado era de pronto descartada, admito, surpreendeu-me =)

O texto, a uma primeira vista parece ser bom, vejamos o resto, o tempo mostrará (!!). Gosto de textos que direta ou indiretamente tratam da efemeridade das coisas.

Sorte =)

Anônimo disse...

Além de tudo é um poeta... apaixonei de vez. ;)

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