quarta-feira, 5 de julho de 2006

Um trecho do meu livro

ouvindo: Slayer - God Send Death
frase do dia: "Nunca diga nada a não ser que tenha certeza de que todo o mundo pensa o mesmo" - Homer Simpson, o Filósofo

Às vezes, ou melhor, muito raramente, alguma alma, possivelmente com problemas de parafusamento, me reclama que eu estava a escrever um livro e o chutei pra escanteio. Já ouvi até uma vez (claro, só uma) que gostariam de tê-lo lido, ao menos o que escrevi antes de tê-lo dado de presente às traças da minha nova cômoda.

Pra não fazer dele um monte de papelada inútil, e transformá-lo em um monte de bytes inútil, poupando árvores que já foram cortadas e desperdiçadas, resolvi deixar aqui um trechinho com boa dose de "auto-biografia" (trata-se de um trecho em que um personagem, após dias tendo de visitar pessoas esquisitas em seu trabalho de técnico de informática, entra numa lojinha para comprar seus suprimentos de banheiro).

Bem, sei que muita gente detesta meu jeito pouco lacônico de ser, como escrever 3 parágrafos só de introdução, então, quem quiser leia, que leia, quem não quiser... bem, pergunto-me o que diabos quis cheirar aqui. Não sei o que farei com esse livro, talvez tudo o que escreva por inteiro mesmo seja minha própria auto-biografia sobre mim por eu mesmo, que publicarei postumamente, ou se sobreviver até os 70 anos, com o provisório título de "Vovós Que Comi Quando Eram Netas".

Ei-lo:

...............

Mark entrou numa lojinha e uma vendedora com um horroroso sotaque do interior se apressou a lhe perguntar: “Quer ajuda?” – seu sotaque era tão ridiculamente desagradável que esse anátema em forma de caridade comercial – “Quer ajuda?” – se repetiu na cabeça de Mark, martelando sua razão, por dias afinco.

Após declinar rapidamente o ominoso convite a ter sua macambúzia estada na vendinha acompanhada por uma “gente” do interior, Mark foi pegar o que queria comprar, ansioso por dar o fora. Ao se virar para se ir, o que assumia o simbolismo da liberdade revolucionária de ir-se embora e voltar a pensar por si próprio, sem embalagens nem vendedores para tomar sua razão, uma gorda que conversava aos berros com outra vendedora, velha, passou na sua frente na fila quase o atirando longe, correndo para o caixa, portão de São Pedro guardando o Paraíso da rua.

Já percebendo que perderia mais alguns preciosos momentos de sua vida dentro da loja, armou o escudo de ficar de costas para a jovem vendedora de sotaque nojento, caso ela investisse mais uma vez em oferecer seus prestimoniosos serviços novamente – como, por exemplo, andar dois passos, ou um e meio, e mirar a prateleira de shampoo, mantendo-se hirta ao seu lado a observar se ele compraria o modelo para quem tem caspa, piolho ou simplesmente cabelo ruim.

Escudo funcionando, gorda sem berrar (tanto) por estar enfrentando problemas para encontrar as moedas no fundo da bolsa e concluir alguma conta de somar com as que conseguiu encontrar, Mark percebeu a TV ao fundo, ligada no jornal do meio-dia, que começa às 13 (o mesmo jornal que a anfitriã de ontem anunciou gostar por causa “das reportagem”). O repórter apresentava o fascinante caso de uma cidade do interior cujo cemitério público ficou tão lotado, sem disponibilidade extra em nenhuma cidade próxima, que o prefeito teve a insólita idéia de proibir os habitantes de morrer.

“Saramago iria adorar essa”, Mark pensou, mais próximo da liberdade pela passagem inexorável e irreversível dos 50 segundos em que a gorda finalmente se desvencilhava das moedas e agora ia embora, não sem antes se despedir da vendedora velha e da interiorana, mandando lembranças a pessoas de nomes risíveis e profetizando que passaria depois, com mais tempo, para conversarem melhor.

“Talvez queira dizer que virá com dinheiro graúdo, sem moedas para ter de ficar contando”, concluiu Mark. Enquanto passou no caixa (tempo total da manobra: 27 segundos, sendo 8 para o vendedor lhe dar “bom dia” sem se tocar que já era 13:17 e mais outros 15 para o dito lhe entregar uma moeda de troco, pois Mark já estava com o dinheiro quase exato previamente separado), ouviu de longe o aprofundamento da importantíssima reportagem televisiva, no qual o repórter anunciava que a câmara de 12 (!!!) vereadores da cidade estava em dúvida sobre qual dia marcar a reunião para decidir qual seria a pena dos infratores que viessem a desrespeitar a lei de não-morte.

Sem se preocupar em se irritar imaginando o que 12 “gentes” faziam tão ocupadamente com dinheiro público numa cidadezinha de 2 mil pessoas em que nada acontecia para estarem discutindo tão avidamente sobre qual dia marcar tão difícil reunião (em que, no mínimo, 50% delas teriam a difícil missão de comparecer e trabalhar no mesmo dia), Mark objetou: “Será que é desse fim de mundo que a vendedora interiorana vem?”. Já é tão difícil demonstrar a essas “gentes” que elas estariam melhor se estivessem mortas, e ainda lançam uma lei que parece até interessante por fazerem-nas ficar mais acostumadas com a joie de vivre...

Fugiu para a liberdade. Freud possivelmente chamaria sua angústia, dentro da vendinha, de “Complexo de Ulisses preso em Circe”.

2 pessoas leram e discordaram:

Scarlett Angel disse...

Ah, eu gostei. PEna que eu mesma já nao tenho mais saco pra continuar meu ex-livro.
A proposito, tô com blog novo (ou diário de desabafos, hehe). Linka aê: http://exilium.zip.net

Vc sabe onde arranjr um template decente pro meu blog? Abraços!

Flavio Morgenstern disse...

Mais um comentário pela concordância nominal.

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quarta-feira, 5 de julho de 2006

Um trecho do meu livro


ouvindo: Slayer - God Send Death
frase do dia: "Nunca diga nada a não ser que tenha certeza de que todo o mundo pensa o mesmo" - Homer Simpson, o Filósofo

Às vezes, ou melhor, muito raramente, alguma alma, possivelmente com problemas de parafusamento, me reclama que eu estava a escrever um livro e o chutei pra escanteio. Já ouvi até uma vez (claro, só uma) que gostariam de tê-lo lido, ao menos o que escrevi antes de tê-lo dado de presente às traças da minha nova cômoda.

Pra não fazer dele um monte de papelada inútil, e transformá-lo em um monte de bytes inútil, poupando árvores que já foram cortadas e desperdiçadas, resolvi deixar aqui um trechinho com boa dose de "auto-biografia" (trata-se de um trecho em que um personagem, após dias tendo de visitar pessoas esquisitas em seu trabalho de técnico de informática, entra numa lojinha para comprar seus suprimentos de banheiro).

Bem, sei que muita gente detesta meu jeito pouco lacônico de ser, como escrever 3 parágrafos só de introdução, então, quem quiser leia, que leia, quem não quiser... bem, pergunto-me o que diabos quis cheirar aqui. Não sei o que farei com esse livro, talvez tudo o que escreva por inteiro mesmo seja minha própria auto-biografia sobre mim por eu mesmo, que publicarei postumamente, ou se sobreviver até os 70 anos, com o provisório título de "Vovós Que Comi Quando Eram Netas".

Ei-lo:

...............

Mark entrou numa lojinha e uma vendedora com um horroroso sotaque do interior se apressou a lhe perguntar: “Quer ajuda?” – seu sotaque era tão ridiculamente desagradável que esse anátema em forma de caridade comercial – “Quer ajuda?” – se repetiu na cabeça de Mark, martelando sua razão, por dias afinco.

Após declinar rapidamente o ominoso convite a ter sua macambúzia estada na vendinha acompanhada por uma “gente” do interior, Mark foi pegar o que queria comprar, ansioso por dar o fora. Ao se virar para se ir, o que assumia o simbolismo da liberdade revolucionária de ir-se embora e voltar a pensar por si próprio, sem embalagens nem vendedores para tomar sua razão, uma gorda que conversava aos berros com outra vendedora, velha, passou na sua frente na fila quase o atirando longe, correndo para o caixa, portão de São Pedro guardando o Paraíso da rua.

Já percebendo que perderia mais alguns preciosos momentos de sua vida dentro da loja, armou o escudo de ficar de costas para a jovem vendedora de sotaque nojento, caso ela investisse mais uma vez em oferecer seus prestimoniosos serviços novamente – como, por exemplo, andar dois passos, ou um e meio, e mirar a prateleira de shampoo, mantendo-se hirta ao seu lado a observar se ele compraria o modelo para quem tem caspa, piolho ou simplesmente cabelo ruim.

Escudo funcionando, gorda sem berrar (tanto) por estar enfrentando problemas para encontrar as moedas no fundo da bolsa e concluir alguma conta de somar com as que conseguiu encontrar, Mark percebeu a TV ao fundo, ligada no jornal do meio-dia, que começa às 13 (o mesmo jornal que a anfitriã de ontem anunciou gostar por causa “das reportagem”). O repórter apresentava o fascinante caso de uma cidade do interior cujo cemitério público ficou tão lotado, sem disponibilidade extra em nenhuma cidade próxima, que o prefeito teve a insólita idéia de proibir os habitantes de morrer.

“Saramago iria adorar essa”, Mark pensou, mais próximo da liberdade pela passagem inexorável e irreversível dos 50 segundos em que a gorda finalmente se desvencilhava das moedas e agora ia embora, não sem antes se despedir da vendedora velha e da interiorana, mandando lembranças a pessoas de nomes risíveis e profetizando que passaria depois, com mais tempo, para conversarem melhor.

“Talvez queira dizer que virá com dinheiro graúdo, sem moedas para ter de ficar contando”, concluiu Mark. Enquanto passou no caixa (tempo total da manobra: 27 segundos, sendo 8 para o vendedor lhe dar “bom dia” sem se tocar que já era 13:17 e mais outros 15 para o dito lhe entregar uma moeda de troco, pois Mark já estava com o dinheiro quase exato previamente separado), ouviu de longe o aprofundamento da importantíssima reportagem televisiva, no qual o repórter anunciava que a câmara de 12 (!!!) vereadores da cidade estava em dúvida sobre qual dia marcar a reunião para decidir qual seria a pena dos infratores que viessem a desrespeitar a lei de não-morte.

Sem se preocupar em se irritar imaginando o que 12 “gentes” faziam tão ocupadamente com dinheiro público numa cidadezinha de 2 mil pessoas em que nada acontecia para estarem discutindo tão avidamente sobre qual dia marcar tão difícil reunião (em que, no mínimo, 50% delas teriam a difícil missão de comparecer e trabalhar no mesmo dia), Mark objetou: “Será que é desse fim de mundo que a vendedora interiorana vem?”. Já é tão difícil demonstrar a essas “gentes” que elas estariam melhor se estivessem mortas, e ainda lançam uma lei que parece até interessante por fazerem-nas ficar mais acostumadas com a joie de vivre...

Fugiu para a liberdade. Freud possivelmente chamaria sua angústia, dentro da vendinha, de “Complexo de Ulisses preso em Circe”.

2 pessoas leram e discordaram:

Scarlett Angel on 27 de julho de 2006 08:50 disse...

Ah, eu gostei. PEna que eu mesma já nao tenho mais saco pra continuar meu ex-livro.
A proposito, tô com blog novo (ou diário de desabafos, hehe). Linka aê: http://exilium.zip.net

Vc sabe onde arranjr um template decente pro meu blog? Abraços!

Flavio Morgenstern on 3 de novembro de 2006 16:49 disse...

Mais um comentário pela concordância nominal.

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