terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Dois Filhos de Francisco

ouvindo: Slayer - Seasons in the Abyss
frase do dia: "Você pode evitar descendentes. Mas não pode evitar antepassados." - Millôr Fernandes

Geralmente, nem explico muito como chego às situações bizarras que me fazem escrever nesse blog. Desta feita, o negócio é mais sério, portanto, melhor explicar direitinho.

Estava eu fazendo um treinamento numa empresa. Esses treinamentos são ministrados por pessoas que quiseram escrever um livro de auto-ajuda mas não conseguiram soletrar o nome na capa. Ao invés de se falar sobre técnicas de venda, especificações do produto ou coisas mais pragmáticas e funcionais, esses treinamentos funcionam como centros espíritas: usando palavras como "motivação", "atitude positiva", "esperança" e demais zen-budismos canhestros.


Como estava com medo de que logo tivéssemos de praticar movimentos de yoga pela sala e abraçar o chão para sentir os chakras vibrando, fiquei até feliz com o velho esquema de ver um filminho cretino como exemplo para o que estávamos... ahn... estudando.

Só não sabia que o filme escolhido seria "Dois Filhos de Francisco"... ¬¬

Mas tudo bem, foi só um trechinho. O trecho é mais ou menos o seguinte: O sr. Francisco, pai dos futuros "Zezé de Camargo" e "Luciano", atuais parceiros do sertanejo Chico Buarque, é apaixonado por música, mas é um retirante pobre e fodido. Pra isso, faz o filho cantar uma música num festival popular perdido no interior do Brasil sem saber cantar, e este passa uma vergonha do caramba, como era de se supor.

Logo após, vemos o seu Francisco (não o Buarque, o outro baianão) trocando toda a sua colheita de um mês por um violão e um acordeão (ainda não descobriram quem foi o maldito que inventou esse troço?!) - e, depois, pegando todo o seu salário e investindo em fichas (é, eu também não entendi) para a gravação do CD dos filhos.

Tudo culmina com "É o Amor" sendo tocada no Olympia, após vender mais de 1 milhão de cópias. É, isso mexe com minha cabeça e me deixa assim...

Enfim, esse trecho foi passado para nós para explicar como devemos "acreditar" no nosso trabalho, "investir", e mais toda aquela papagaiada que, supostamente, nos fará vender mais.

Claro, estava quase dormindo, e no Coffee Break nem tinha café (!!!), mas isso me incitou alguns questionamentos filosóficos:

O Sr. Francisco (o pai da dupla caipira, não o terceiro caipira na dupla), tido como um exemplo a ser seguido, é uma gota d´água num oceano em que quase nada floresceu. Vejamos: o cara era apaixonado por música caipira e fez os filhos aprenderem na manha (quase na porrada), aliás, até os fez passar vergonha sem aprenderem nada sobre música antes disso. Imagine se o Sr. Francisco (o mentor, não o acompanhante) fosse apaixonado mesmo era por uma boa safra de cacau, e fizesse os filhos ficarem pisando em cima daquela porcaria o tempo todo? Todo mundo acharia bonito e mandariam um filme feito sobre isso para ser julgado pela Academia do Oscar?

Pior: é bem claro que nesses fins-de-mundo (no rancho fundo, etc, etc..) ninguém tem muita personalidade - para se ter personalidade, só nascendo filho de rei do gado. Mas daí a aproveitar um exemplo frutífero, que transformou dois caipiras fodidos (aliás, nem tanto assim) em dois caipiras fodedores e achar que isso é uma lição de moral a ser levada adiante é de doer.

Um exemplo do que quero dizer: no interior perdido deles, é até natural que todo mundo queira mesmo é virar astro da música sertaneja, como é comum que nos morros do Rio, ou se queira virar astro da MPB ou chefe de bando do narcotráfico. Mas já pensou se fosse diferente? Num mundo rural, onde todos estão mais próximos de ser pequenos animais agindo por instinto, suponhamos que um dos filhos de Francisco (o da música caipira, não o da música popular brasil... ahn, deixa essa pra lá) resolve virar dançarino de ballet? E vai que o desgraçado ainda tivesse talento pra isso! Será que ele obteria o mesmo incentivo?

Ou pode ser que a música caipira-romântica-dor-de-corno não fosse mesmo "o tchan" pros caras... como é que seria?

- Filhinho, te comprei esse acordeão e você vai aprender a tocar, pois vai crescer e será um grande sucesso da música sertaneja!
- Mas papai, eu quero mesmo é uma guitarra com distorção no pau...
- Mas para quê, meu filho?!
- Oras, eu quero tocar Morbid Angel e louvar a Satanás...
- Como assim, não vai realizar o sonho do papai de ser rico, famoso e pagar meu asilo?!?!
- Não, eu curto um som porrada, música sertaneja é o caralho, eu quero tocar é death metal...

Dá pra imaginar como seria o comportamento desse povo, "que serve de exemplo", em situações, digamos, delicadas, como essa.

Afinal, é o sonho do pai, na vida do filho. E se fossem coisas incompatíveis?

Pra completar, pior seria se o sonho de Francisco (o que só tem filhos reconhecidos) desse errado. Aliás, quantos não dão, para eles pegarem o único exemplo que deu certo numa seara pouco vasta como o interior do Basil e dizer que "quem agir como eles, consegue"? Imagine só o sr. Francisco (o que tem um salário que dá pra contar) investindo toda a sua suada bufunfa de um mês no disco dos filhos, que se torna um fiasco de vendas? O lema não é "acreditar" e "pensar positivo"? Afinal, quantos "srs. Franciscos" fizeram isso Brasil à fora e tomaram na bunda?

Só mesmo concluindo com uma análise semiótica sobre "É o Amor" tocada no Olympia, atualmente vendido para a Igreja Universal, como uma conclusão em que os caipiras atingindo o alto do monte grego onde até o Lacrimosa já tocou só significa que o amor é lindo. Deve ser por isso que todas correm atrás do amor de Francisco. (dessa vez, do outro Francisco.)

4 pessoas leram e discordaram:

Beatriz disse...

"Sertanejo Chico Buarque"? "O terceiro caipira da dupla"?? "O que só tem filhos reconhecidos"???

O que faz a Vara do Juiz da 69.ª Câmara de Tortura do Direito Matrimonial de Curitiba, que não emite logo uma liminar censurando todos esses vitupérios??

*suspiro de desolação*

Tá bom, acho que dessa vez vou ter que engolir seco. Não posso mesmo me responsabilizar por todos os desatinos cometidos pelo Francisco (o de olhos azuis), no que toca às suas parcerias...

Mas que fique claro (como os olhos dele) que eu só te desculpo porque o post, como sempre, rendeu-me boas risadas! =)

Amo você, criatura ranzinza!! Muito mesmo!! :P

Beijos e mais beijos...

P.S.: Eu adoro acordeão e afins! Até já toquei, uma vez! Táá?? Hunf.

Lady Drago disse...

Bah, passei aqui prá dizer q "ENFIN" alguém teve coragem de falar em alto e bom tom o outro lado da moeda dos Filhos do Seu Chico!!! (Q todo mundo faz questão d nem cogitar, pq já pensou como seria bom se o "É o Amor" n tivesse rendido?? *suspiros saudosos*)

Mas aí leio o post da Beatriz e... e n é q ela é q nem tu??? Só q mais bem humorada, claro! (O q qr dzr q é o teu oposto... SIM, opostos se atraem e completam!!!)

=D

Scarlett Angel disse...

Vc anda azedo, menino (na verdade vc sempre foi, né? ^_^

Já que malharam tanto o filme eu resolvi assitir, achei até engraçado, esperava que fosse pior.

Beijo, moço, vê se pára de cultivar úlceras XD

Regis disse...

Morning,

Pois bem. A empresa acha o filme uma lição de vida, um exemplo de perseverança a ser seguido.
Todos acham. Ou a maioria.



Legal, né?


=P

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Dois Filhos de Francisco


ouvindo: Slayer - Seasons in the Abyss
frase do dia: "Você pode evitar descendentes. Mas não pode evitar antepassados." - Millôr Fernandes

Geralmente, nem explico muito como chego às situações bizarras que me fazem escrever nesse blog. Desta feita, o negócio é mais sério, portanto, melhor explicar direitinho.

Estava eu fazendo um treinamento numa empresa. Esses treinamentos são ministrados por pessoas que quiseram escrever um livro de auto-ajuda mas não conseguiram soletrar o nome na capa. Ao invés de se falar sobre técnicas de venda, especificações do produto ou coisas mais pragmáticas e funcionais, esses treinamentos funcionam como centros espíritas: usando palavras como "motivação", "atitude positiva", "esperança" e demais zen-budismos canhestros.


Como estava com medo de que logo tivéssemos de praticar movimentos de yoga pela sala e abraçar o chão para sentir os chakras vibrando, fiquei até feliz com o velho esquema de ver um filminho cretino como exemplo para o que estávamos... ahn... estudando.

Só não sabia que o filme escolhido seria "Dois Filhos de Francisco"... ¬¬

Mas tudo bem, foi só um trechinho. O trecho é mais ou menos o seguinte: O sr. Francisco, pai dos futuros "Zezé de Camargo" e "Luciano", atuais parceiros do sertanejo Chico Buarque, é apaixonado por música, mas é um retirante pobre e fodido. Pra isso, faz o filho cantar uma música num festival popular perdido no interior do Brasil sem saber cantar, e este passa uma vergonha do caramba, como era de se supor.

Logo após, vemos o seu Francisco (não o Buarque, o outro baianão) trocando toda a sua colheita de um mês por um violão e um acordeão (ainda não descobriram quem foi o maldito que inventou esse troço?!) - e, depois, pegando todo o seu salário e investindo em fichas (é, eu também não entendi) para a gravação do CD dos filhos.

Tudo culmina com "É o Amor" sendo tocada no Olympia, após vender mais de 1 milhão de cópias. É, isso mexe com minha cabeça e me deixa assim...

Enfim, esse trecho foi passado para nós para explicar como devemos "acreditar" no nosso trabalho, "investir", e mais toda aquela papagaiada que, supostamente, nos fará vender mais.

Claro, estava quase dormindo, e no Coffee Break nem tinha café (!!!), mas isso me incitou alguns questionamentos filosóficos:

O Sr. Francisco (o pai da dupla caipira, não o terceiro caipira na dupla), tido como um exemplo a ser seguido, é uma gota d´água num oceano em que quase nada floresceu. Vejamos: o cara era apaixonado por música caipira e fez os filhos aprenderem na manha (quase na porrada), aliás, até os fez passar vergonha sem aprenderem nada sobre música antes disso. Imagine se o Sr. Francisco (o mentor, não o acompanhante) fosse apaixonado mesmo era por uma boa safra de cacau, e fizesse os filhos ficarem pisando em cima daquela porcaria o tempo todo? Todo mundo acharia bonito e mandariam um filme feito sobre isso para ser julgado pela Academia do Oscar?

Pior: é bem claro que nesses fins-de-mundo (no rancho fundo, etc, etc..) ninguém tem muita personalidade - para se ter personalidade, só nascendo filho de rei do gado. Mas daí a aproveitar um exemplo frutífero, que transformou dois caipiras fodidos (aliás, nem tanto assim) em dois caipiras fodedores e achar que isso é uma lição de moral a ser levada adiante é de doer.

Um exemplo do que quero dizer: no interior perdido deles, é até natural que todo mundo queira mesmo é virar astro da música sertaneja, como é comum que nos morros do Rio, ou se queira virar astro da MPB ou chefe de bando do narcotráfico. Mas já pensou se fosse diferente? Num mundo rural, onde todos estão mais próximos de ser pequenos animais agindo por instinto, suponhamos que um dos filhos de Francisco (o da música caipira, não o da música popular brasil... ahn, deixa essa pra lá) resolve virar dançarino de ballet? E vai que o desgraçado ainda tivesse talento pra isso! Será que ele obteria o mesmo incentivo?

Ou pode ser que a música caipira-romântica-dor-de-corno não fosse mesmo "o tchan" pros caras... como é que seria?

- Filhinho, te comprei esse acordeão e você vai aprender a tocar, pois vai crescer e será um grande sucesso da música sertaneja!
- Mas papai, eu quero mesmo é uma guitarra com distorção no pau...
- Mas para quê, meu filho?!
- Oras, eu quero tocar Morbid Angel e louvar a Satanás...
- Como assim, não vai realizar o sonho do papai de ser rico, famoso e pagar meu asilo?!?!
- Não, eu curto um som porrada, música sertaneja é o caralho, eu quero tocar é death metal...

Dá pra imaginar como seria o comportamento desse povo, "que serve de exemplo", em situações, digamos, delicadas, como essa.

Afinal, é o sonho do pai, na vida do filho. E se fossem coisas incompatíveis?

Pra completar, pior seria se o sonho de Francisco (o que só tem filhos reconhecidos) desse errado. Aliás, quantos não dão, para eles pegarem o único exemplo que deu certo numa seara pouco vasta como o interior do Basil e dizer que "quem agir como eles, consegue"? Imagine só o sr. Francisco (o que tem um salário que dá pra contar) investindo toda a sua suada bufunfa de um mês no disco dos filhos, que se torna um fiasco de vendas? O lema não é "acreditar" e "pensar positivo"? Afinal, quantos "srs. Franciscos" fizeram isso Brasil à fora e tomaram na bunda?

Só mesmo concluindo com uma análise semiótica sobre "É o Amor" tocada no Olympia, atualmente vendido para a Igreja Universal, como uma conclusão em que os caipiras atingindo o alto do monte grego onde até o Lacrimosa já tocou só significa que o amor é lindo. Deve ser por isso que todas correm atrás do amor de Francisco. (dessa vez, do outro Francisco.)

4 pessoas leram e discordaram:

Beatriz disse...

"Sertanejo Chico Buarque"? "O terceiro caipira da dupla"?? "O que só tem filhos reconhecidos"???

O que faz a Vara do Juiz da 69.ª Câmara de Tortura do Direito Matrimonial de Curitiba, que não emite logo uma liminar censurando todos esses vitupérios??

*suspiro de desolação*

Tá bom, acho que dessa vez vou ter que engolir seco. Não posso mesmo me responsabilizar por todos os desatinos cometidos pelo Francisco (o de olhos azuis), no que toca às suas parcerias...

Mas que fique claro (como os olhos dele) que eu só te desculpo porque o post, como sempre, rendeu-me boas risadas! =)

Amo você, criatura ranzinza!! Muito mesmo!! :P

Beijos e mais beijos...

P.S.: Eu adoro acordeão e afins! Até já toquei, uma vez! Táá?? Hunf.

Lady Drago on 18 de fevereiro de 2006 08:51 disse...

Bah, passei aqui prá dizer q "ENFIN" alguém teve coragem de falar em alto e bom tom o outro lado da moeda dos Filhos do Seu Chico!!! (Q todo mundo faz questão d nem cogitar, pq já pensou como seria bom se o "É o Amor" n tivesse rendido?? *suspiros saudosos*)

Mas aí leio o post da Beatriz e... e n é q ela é q nem tu??? Só q mais bem humorada, claro! (O q qr dzr q é o teu oposto... SIM, opostos se atraem e completam!!!)

=D

Scarlett Angel on 23 de fevereiro de 2006 14:17 disse...

Vc anda azedo, menino (na verdade vc sempre foi, né? ^_^

Já que malharam tanto o filme eu resolvi assitir, achei até engraçado, esperava que fosse pior.

Beijo, moço, vê se pára de cultivar úlceras XD

Regis disse...

Morning,

Pois bem. A empresa acha o filme uma lição de vida, um exemplo de perseverança a ser seguido.
Todos acham. Ou a maioria.



Legal, né?


=P

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