domingo, 22 de maio de 2005

"Arte" Moderna (pt. 2)

ouvindo: Theatre of Tragedy - Black as the Devil Painteth
frase do dia: "O que o mundo precisa é de mais gênios humildes. Hoje restam poucos de nós." - Oscar Levant

Primeiramente, minhas desculpas pela demora com a continuação de minha destilação venenosa ao Modernismo - época de trabalhos da faculdade (felizmente, trabalhos que pouco tinham a ver com esse lixo) mais complicações com o código do blog (que eu sempre insisto em ferrar mesmo que não chegue perto dele) fizeram com que eu desconfiasse que a "Macumba de Pai Zuzé", do Manuel Bandeira, pega mesmo.

Segundamente, acabei por deletar tudo o que já tinha escrito antes por aqui (pela quarta vez) por parar pra pensar um pouco e chegar à algumas conclusões. O que chamam de "arte moderna" é, muitas vezes, bem diferente do que chamam de "Modernismo". Por mais que tenha minhas sérias ressalvas a vários deles, seria uma burrice de minha parte seguir os exemplos acadêmicos e colocar todas as escolas de vanguarda no mesmo pacote do que é chamado Modernismo. Marcel Proust, Franz Kafka, Pablo Picasso (sempre tão artístico quanto uma poça de vômito), Salvador Dali, Ezra Pound, T. S. Idiot, digo, Eliot, Max Reinhardt, a escola expressionista alemã, o impressionismo russo, e tantos outros, bons ou ruins, não podem estar lado a lado de dejetos pseudo-culturais como o que o Modernismo produziu. Sendo assim, me alço aqui apenas ao que é chamado "Modernismo" par excellence.

Munch, Rembrandt, Goya, Dali e tantos outros souberam criar um outro mundo, impositivo, que não apenas retratava a realidade, criava um outro mundo. Não há como ver "O Beijo" ou o famosíssimo "O Grito" de Munch e não dar conta de uma visão ultra-pessoal do artista, uma atmosfera impossível de escapar, um mundo criado com tons onde o preto está sempre presente, a tela como algo do qual é impossível fugir. Quando nos lembramos de que aquilo é apenas um pedaço de papel com tinta mistura em cima, entendemos do que um gênio é capaz.
Já nossos pintores modernistas, como Anita Malfatti, acharam que simplesmente pintar uma mulher de amarelo ao invés das cores óbvias era ser "visionário".

"A Boba", de Anita Malfatti

Alguma sensação estésica sublime, que faz com que um amontoado de cores em nossa frente cause torções em nossos sonhos? Ou apenas se vê que nossa querida amiga Anita desperdiça seu talento criando algo como dieta de diabético (sem sal nem açúcar), uma imagem que facilmente esquecemos assim que esses olhos tortos param de olhar para nós? Ainda lembro que foi essa a crítica que Monteiro Lobato fez à sua exposição (tudo bem, me arrisco em usar esse fato, visto que Lobato sequer foi à tal exposição): "Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas (...) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva."

Evoco até mesmo uma brincadeira ocorrida na França, quando ataram um pincel ao rabo de um burro, misturaram as tintas, fizeram uma legítima "arte abstrata cubista/dadaísta/futurista/insira-aqui-seu-ista", deram um nome absurdo (Pôr-do-Sol em Sabe lá Deus onde) e colocaram numa exposição como a maior novidade da Arte. Não deu outra, todos amaram, até que contaram da farsa.

Arte de burros. Nada além. Arte onde tentam, uma vez, tirar uma rima. Depois, tirar a melodia. Logo, tiram todo o gênio criador e se produz apenas uma arte sem arte!

Perdoem-me pela verdade, modernistas puristas, mas não existe arte sem inteligência.

Mário de Andrade, para voltar pra Literatura, é o perfeito exemplo do anacronismo moderno. E o perfeito exemplo de que não há criação alguma por ali: apenas ataques indiretos à escolas anteriores (que se eram ruins, conseguiram soar até palatáveis perto de seus livros). "Desvairada" é uma palavra não cabível ao título de seus livros apenas no sentido iconoclasta. Também vale pela falta de propósitos de sua narrativa. É tão cheio de expressões copiadas dos falares caipiras (em plena São Paulo que abria as portas para a industrialização) que sua narrativa, tentando fluir como a voz, acaba empacando por suas letras trocadas sem nexo. Aliás, por que, já que o projeto era este, ele também não escreveu "prédiu", "normáu" e "istou", então?!

O ridículo se apiora com Oswald de Andrade. O exemplo-mor de onde a hipocrisia humana chegou. Queria mostrar que o falar do povo era o correto, ao contrário do elitismo-troglodita-imperialista de um maldito livro de gramática. Mas quando foi fazer discursos inflamados na Semana de Arte Moderna... é melhor estar com um dicionário de expressões parnasianas para entender o que quis dizer... se bem que ele não quis dizer nada.

Estudou, como Mário, muito do índio e sempre quis mostrar que o europeu, chegando em terra brasilis, só quis ferrar com ele. Mas, novamente, não quer ir viver no meio do mato e tem todo o estilo europeu de ser, mas nunca admitindo que seus modelos, na verdade, são uma lambança genérica de tudo que não é propriamente seu e, ainda por cima, são completamente desprovidos de lógica. O nosso Policárpio Quaresma, em carne e osso.

Sua mulher, Pagu, como todos os seus relacionamentos rompidos, é a mostra do servilismo modernista a um ideário perdido no Reino do Nada que... bem, só nos deixa perdidos mesmo. Artista medíocre, só teve suas obras expostas e famosas pela influência acadêmica (*náuseas*) de seu marido. Vermelha como ele, largou cegamente (como uma crente pentelha) os salões pseudo-intelectuais para uma causa maior: o Partido Comunista, trabalhando até mesmo como prostituta para dar (opa!) informações (ah!) para nossos amigos bolcheviques que, também, não fizeram nada de útil. Pergunta: se não fosse um regime ditatorial que dominou nossa política por anos a fio, todas essas atitudes insanas teriam algum valor?

Poderia passar dias digitando meus volteios sobre Manuel Bandeira, mas como o pessoal da Letras é que mais acessa essa coisa, e todo mundo está de saco cheio de fazer análises cirúrgicas de "poemas" que não dizem nada, prefiro ignorar a mijadinha do gato na pensão burguesa, o seu porquinho-da-índia e quando o "poeta" levava ele (sic) pra sala, prefiro ignorar sua tentativa pueril (no mau sentido) de imitar Debussy e suas canções infantis, sua sonífera descrição da preta Irene entrando no Céu e sua aforismática lição de vida, pois, enquanto uns tomam ecstasy e outros cocaína, ele, que já tomou tristeza, hoje toma alegria. (o primeiro arrombado que fizer ligações entre um título de seus livros e minha pessoa será empalado!!)

Prefiro me ater a um aspecto curioso de sua... "obra". Todos aqueles que a dissecam, como se houvesse um grande tesouro a ser encontrado no fim do arco-íris, a justificam. "Tal verso é assim pois a vida do escritor...", "Tal passagem evoca a infância do poeta no Recife...", "Aqui, vemos Bandeira já triste por causa da doença..." - por Pólux! Alguém precisa analisar a vida de Marlowe pra entender a grandiosidade megalomaníaca de Fausto?! Alguém consegue analisar a infância de Nietzsche para saber como ele chegou ao "Umwertung aller Werte"? Isso é coisa de psicanalista. Esses caras acham que um adulto é uma criança perdida de si mesmo.

Com tantas justificativas, vemos que tais críticos até sabem que ler isso é um erro, perda de tempo, mas tentam justificar sua "visão atual de arte" (ao invés de lerem um livro complicado mas inteligente) com tanta argumentação. Se tais poesias tivessem tanta retórica quanto seus próprios defensores, com certeza seria bem melhor!

Mas aí resta a pergunta: mesmo que Bandeira consiga "captar o momento em palavras rítmicas" e mostre todo o seu "gênio" lembrando de sua infância, o que diabos isso muda a minha vida?! Eu dormiria mais ignorante sem saber disso?! Pois bem. Pensem em como suas vidas mudaram ao lerem Bocaggio, Marquês de Sade, Moliére, Turguêniev ou Rimbaud e cheguem às suas próprias conclusões.

Mais umas palavrinhas de Lobato, ao lembrar também das ligações forçadas entre essas estéticas e os delírios dos loucos: "De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura."

O chatíssimo João Cabral de Melo Neto nos ensinou como ser moderno é ser caipira. Estar de acordo com a arte moderna é falar como um bóia-fria. É ignorar qualquer inteligência que tenha sido produzida anteriormente (e que gerou tal "modernidade"). Um jornalista do Estado de São Paulo, também poeta, ao conversar com ele, ao perceber que ele só falava de seus parentes, achou que se perguntasse ao "poeta" pernambucano o que ele sabia sobre 15 de Agosto de 1914, João Cabral iria responder sobre o nascimento de algum afilhado, esquecendo da eclosão da Primeira Grande Guerra.

Em um encontro em Paris, houve uma discussão entre dois modernosos, João Cabral e Vinícius de Moraes. Este foi acusado por Cabral de só fazer música e poesia sobre amor, tema mais que batido. Moraes respondeu a Cabral que então, era melhor sair fazendo poesia sobre pedra, mato e barranco. Vemos como dois erros produzem um acerto perfeito pra quem está de fora.

Aliás, falar de Vinícius é complicado demais e meu parco conhecimento me obriga a calar a boca. Um compositor excepcional, é claro (raríssimos na história da música entendiam de melodia como ele), um poeta que demonstra talento... mas novamente, não consegue provocar emoções profundas em quem o lê (falando apenas do poeta) - é tudo tão "arte do momento" que não há artista, há apenas o cotidiano prosaico e desanimador que o cria.

E agora, Drummond? A novidade modernista acabou, a luz apagou, o povo enjoou, a noite esfriou, e agora, Drummond? Com certeza, só continua sendo lido pois cai no Vestibular - tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua. Eu nunca vou me esquecer desse fato: tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua! Continuando a Máfia dos Andrade, de Mário, que foi seguido por Oswald, que foi seguido por este Carlos Drummond, que foi seguido pelos filhos dos Andrade, enquanto Doistoiévski que é bom nem entrou na história.

Tal foi a encheção moderna que mesmo os setores mais burros da sociedade (geralmente, artistas de quinta que estão sempre na mídia como "insurgentes" mas nunca leram Bakunin) ficaram de ressaca. Daí pra surgir a Tropicália, com antas como Chaetano Melloso, Gilberto Gil (que conseguiu virar ministro!!) e Maria Bestânia foi um passo. Seu ideal? Sei lá! Era pegar um violão, fumar unzinho e faturar em cima de trouxas que chamavam isso de "boa música" (não é só porque Beatles é um lixo que tudo que não é Beatnick, deixa de ser). De Gilberto Gil:

"Nos meus retiros espirituais descubro certas coisas tão normais
Como estar defronte de uma coisa e ficar
Horas à fio com ela, bárbara, bela, tela de TV
Você há de achar gozado Barbarela dita assim dessa maneira
Brincadeira sem nexo que gente maluca gosta de fazer"

Boa. Se teve algo que não peguei, foi o nexo mesmo. Mas mudou minha vida. Pra que ler Camões depois desta?!

Nota: A Vara do Juíz da 69.ª Câmara de Tortura do Direito Matrimonial de Curitiba me proibiu de falar de Chico Buarque. Minhas condolências.

Algumas rápidas ressalvas, pra quem ainda está acordado. Chamar Fernando Pessoa de "modernista" é um insulto. Seu heterônimo mais conhecido por essas bandas, Alberto Caieiro, só é lido por ser, aparentemente, fácil. Não é. O molde dele é oriental. A complexidade não está na palavra, mas no pensamento que ela evoca. Assim como o autor ocidental analisa o mundo e o regurgita criado por si, Caieiro, como os orientais, pega uma gota de chuva e faz com que o leitor crie uma tempestade dentro de si. Será que seus fãs por aqui percebem isso?

Sem falar ainda nos versos de Álvaro de Campos...

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento.
E ver passar a vida faz-me tédio."

Moderno, não?

Outra mal entendida é Clarice Lispector. Tão "moderna" que começa seus livros agradecendo a Schopenhauer... o processo é o mesmo que o de Pessoa - pena que estava na hora errada e, principalmente, com as companhias erradas.

Mas o principal é Marcel Duchamp. Destruiu a arte. Dadaísta por excelência. Mas não vou falar mal dele, embora isso choque até quem esteve do meu lado até agora. A diferença aqui é que Duchamp nunca se levou a sério. Nunca se achou "reformista" da arte por pintar um bigode na Mona Lisa e escrever L.H.O.O.Q., que produz os mesmos sons, em francês, de "Ela tem o rabo quente". Nunca colocou um mictório numa exposição e disse que aquilo era arte. Ele perguntou. Duchamp não foi o problema. O problema foram seus seguidores.

Concluo tudo com os versos de uma das pessoas mais inteligentes que conheço, minha grande amiga Anya, que com um longo poema em versos alexandrinos perdeu um concurso de poesia para um grande "novo gênio" moderno, que escreveu simplesmente

Olhei,
Vibrei,
Dancei.
E a noite?
A noite parou.

Como vingança, fez a paródia genial e muito mais interessante:

Forcei,
Enrubesci,
Caguei.
E a merda?
A merda fedeu.

Não se fazem mais modernistas como antigamente.

domingo, 15 de maio de 2005

"Arte" Moderna (pt. 1)

ouvindo: Apocalyptica - Romance
frase do dia: "A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis." - Al Capp

Vocês pediram. Vocês imploraram. Vocês encheram o saco. Vocês fecharam as avenidas com passeatas. Vocês fizeram piquete. Vocês pagaram um boquete. Vocês clamaram aos céus para que eu não fizesse isso... pois aqui estou eu fazendo uma análise experimental e prática explicando porque diabos eu odeio Modernismo. Se não era isso que esperava ler, pode parar por aqui, mas devido ao tamanho costumaz de meus posts, se você veio ler alguma coisa por aqui, já sabe mais ou menos (digo, menos) o que esperar.

Estudar Modernismo é a coisa mais paradoxal que existe. Nossos amigos "artistas" queriam quebrar barreiras. Ok. Queriam fazer algo novo, conectado com a Zeitung vigente. Ok. Queriam mostrar que não é necessário escandir sonetos e fazer rimas toantes raras para se fazer algo bonito. Ok. Queriam fazer a "arte" do povo, na "língua errada do povo, língua certa do povo". Ok.

Mas então, posso saber pra que diabos queriam fazer isso apenas para aqueles com formação intelectual, e nunca no meio de sua tão amada populaça?!

No que tange a tais manifestações populistas, esperar algo conciso e coerente é como esperar que um burro pinte um quadro de arte abstrata com um pincel amarrado no rabo... opa, peraí, isso também aconteceu! Estou me adiantando demais.

Os modernistas brasileiros são os maiores culpados por toda a nossa gente ser burra, inclusive aqueles que se declamam a "elite intelectual". Nowadays, neguinho acha que ouvir Gilberto Gil no lugar de Bonde do Tigrão é um sinal de gosto elevado. Hume não conhecia esses pulhas... mas o mais espantoso é não só acharem tais vilipêndios uma forma genuína de manifestação "artística", como acharem que é o ápice da refinação estética.

Vamos analisar tudo calmamente. Essas nobres almas quiseram achar uma "identidade nacional" num país que tem como maior identidade uma miscigenação racial, intelectual e, sobretudo, cultural. É como dizer que formamos a "raça brasileira" e criar um comitê buscando "pureza racial" das pessoas por aí.

Pra piorar, quiseram quebrar lastros com a França, especialmente Paris pois, naquela época, este era o epicentro de toda a produção mental no Ocidente. Hum... peraí, o Modernismo não surgiu na Cidade-Luz francesa?! Eles não simplesmente continuaram fazendo o que todos faziam antes?! Ponto negativo novamente.

Antropofagia... essa até hoje não consegui entender. Não era o que vinha sendo feito desde... desde o Padre Antônio Vieira, afinal?!

Mas tudo bem, não vamos ser europeus, vamos ser brasileiros e obrigar os cursos de Letras (*revirando o olhar*) a terem Tupi no currículo básico. Minha pergunta continua sendo: por que toda aquela verborragia vomitada no Teatro Mvnicipal, e não na Funai ou na reserva dos Pataxós?!

Iconoclastia da pior espécie. Isso é, da espécie burra. Ser esperto é perceber que um soneto alexandrino é uma invenção humana e não é a única forma poética funcional? Genial. Mas aí pergunto: e qual o problema com o soneto? Não é só porque não é a única viável, que significa que todo soneto é inviável. Probleminha de lógica simples, até eu consigo resolver.

Os únicos artistas de verdade foram aqueles que destruíram o que era vigente e rejeitaram as regras impostas? Tal imposição não deixa de ser uma regra perigosa. Shakespeare não foi um iconoclasta mortífero escrevendo seus sonetos e seu teatro elisabetano? Baudelaire precisou escrever como uma criança de 10 anos e abandonando a norma culta (oh, bela e culta!) para ter seu livro considerado "imoral"? (não surpreende que um tal Libertinagem, por aí, seja tão inofensivo a ponto de ser estudado em qualquer ensino médio...)

Ser revolucionário, num mundo onde os disparates e tentativas de originalidade já ultrapassaram as raias do risível, é desbaratar a criatividade em prol da... do quê, afinal?!

Uma coisa imperceptível aos amantes do que é moderno é que tais panfletagens, além de serem tão artísticas quanto um comercial da MTV (a emissora com maior número de auto-propaganda por minuto quadrado, e uma perfeita mostra de onde chegaremos com tanta "modernidade"), já dão mostras de serem dependentes de quem se dispõe a suar e fazer seu trabalho de verdade. É uma comunicação de valor ontológico mais baixo. Para existir, é necessário que exista uma arte anterior. Podemos ler Wuthering Heights e o livro fala por si só - ele faz o que diz. Agora, temos de entender um contexto x, y, z num espaço/tempo curvo onde Olavo Bilac já tava enchendo o saco para podermos ler Macunaíma e dizer: "ah, tá, o livro é uma merda pois ele vai contra o Parnasianismo... então, não é que o livro é uma merda por si só, é uma merda de propósito... literalmente, não foi na cagada... legal."

A lambança chega a dar nojo quando concluímos a que ponto tal... ahn... "filosofia estética" nos levará, além dos comerciais da MTV. A arte "verdadeira" é a "arte" do povo? Hum... se o que é genial está na boca de quem não estudou, pra que estudar? E se não vamos escrever palavras como "comborço", "concupiscência", "consubstanciação" e "consuetudinário" (pra ficar só no c) em nossos escritos, por que não refazemos a Inquisição, queimamos todos os exemplares da Divina Comédia e declaramos as letras do MV Bill como matéria obrigatória para selecionar os melhores candidatos nos vestibulares Brasil afora?

Quer dizer que não podemos falar sobre Palas Athenas e transmutação da alma pelo platonismo, pois isso é "elitista". Em primeiro lugar: o que é elite?! Segundo o lusitano Priberam, dicionário mais rápido disponível no momento:

do Fr. élite, s. m.
s. f.
,
o que há de melhor numa sociedade ou num grupo;

Se ser "elitista" é gostar do que há de melhor em algo, pois bem, eu sou elitista! Aliás, qual a vantagem em não o ser?! Agora, tal concepão imbrica em um ponto morto que vira nossas concepções e nosso estômago do avesso. Só posso fazer arte de acordo com a sociedade vigente? Então, qual o papel do artista? Ficar na dele, não criar nada, ignorar tudo aquilo que ele próprio conquistou e é capaz de criar (como cada palavra nova que é capaz de pronunciar, ao contrário do rebanho) só pra não ser "difícil"? Que tal, então, fazermos algo bem popular, como um poema composto apenas por As, para até os analfabetos conseguirem ler, ou quem sabe, para não sermos elitistas com os animais, escrevermos latindo e crocitando?!

Já até comecei a minha mais nova pintura "do povo" cego.

O Modernismo diz que a forma é estrutura, não é individual. A busca do eu, do individualismo máximo na arte, a rejeição às amarras e regras que contagiavam os salões culturais naqueles tempos. Primus, que nem toda forma é um curral de ovelhas - o soneto, o haicai, a elegia, o gazal e tantas outras metrificações da forma poética (pra me ater a uma área a qual estou mais familiarizado) são apenas consagradas por sua beleza natural e conseguirem até mesmo facilitar a expressão do poeta. Algo como uma escala musical harmônica, melódica, maior ou menor.

Secundus, Baudelaire era um poeta pois fazia poesia, mesmo falando de vermes, putas e Satã. Podemos até falar de Palas Atenas, ninfas no Parnaso e a descida de Enéas ao Avernus, se não o for como poetas, não será poesia. O que dizer, então, de pseudo-reformadores estéticos que não só não têm conteúdo (problema dos Parnasianos), como também não têm forma? É como fazer arte sem sentimento, sem beleza, sem cor, sem intelecto, sem... talento.

Tertius, essa busca do eu só é válida quando esse eu existe. Arte é pra poucos. "Viver é algo raro, a maioria das pessoas apenas existe" - Oscar Wilde. Quando se tenta buscar um válido individualismo chafurdado no rebanho, se cai cada vez mais no coletivo, no eu que não se desenvolveu e não passa de um subproduto histórico nos melhores moldes "Marx de cu é Hegel". Na populaça, quanto mais se busca o eu, mais se cai no lugar-comum do impessoal, chato, insípido e desprovido de arte.

Aguardem o próximo bloco, quando analisarei alguns de nossos grandes "mestres" modernistas.

sábado, 14 de maio de 2005

Assassinos tentam culpar RPG por crime no ES

ouvindo: Mythological Cold Towers - In the Forgotten Melancholic Waves of Eternal Sea
frase do dia: "Não combata monstros temendo tornar-se um deles - Se você olhar para o Abismo, o Abismo olhará para você." - Friedrich Nietzsche

Pequena notícia do Portal Terra:

Assassinos tentam culpar RPG por crime no ES

A Polícia Civil do Espírito Santo prendeu na noite de ontem dois acusados pelo assassinato do aposentado Douglas Augusto Guedes, da mulher dele, a corretora de imóveis Heloísa Helena Andrade Guedes, e do filho do casal Tiago Guedes, em Guarapari. Os corpos dos três foram encontrados amarrados e deitados em camas no dia 5 de maio. Na mesma data, eles foram sepultados.

O delegado da Divisão de Homicídios de Guarapari, Alexandre Linconl, disse ao Portal Terra que Mayderson de Vargas Mendes, 21 anos, e Ronald Ribeiro Rodrigues, 22, confessaram que mataram a família motivados pelo jogo. “Isso é um absurdo” declarou o delegado, “estão alegando que como Tiago perdeu, o objetivo era eliminar ele e a família dele". "O rapaz tinha consciência e permitiu os assassinatos". O delegado afirmou “Na verdade, querem culpar o RPG para, posteriormente, alegarem insanidade durante a defesa, mas creio que isso não irá funcionar”.

Segundo depoimento dos dois indiciados, eles estavam jogando RPG com Tiago, na casa da família Guedes, no dia em que as mortes aconteceram: 26 de abril. Eles interpretavam papéis de policial, advogado e narrador - que seria o mestre na história. A partida já durava cerca de 5 horas, quando Tiago teria perdido o jogo e na história, o personagem dele, um policial, teria de morrer. Antes disso, os pais dele também seriam mortos.

A família inteira recebeu um sonífero, depois teve as mãos amarradas. O pai foi o primeiro a ser assassinado, depois a mãe e, por último, Tiago", explicou o delegado.

De acordo com o delegado, a morte de Augusto e Heloísa não tem nenhuma relação com o jogo, ao contrário do que afirmam os assassinos. O filho do casal, que também foi obrigado a tomar sonífero, foi colocado na cama dos pais, e também morreu com um tiro na cabeça. Antes de matar o garoto, os dois acusados teriam ido ao banco e sacado dinheiro da poupança do rapaz. Um computador também foi levado.

Investigações

Linconl disse que foram encontrados diversos livros e materiais de RPG no quarto do filho do casal e um bilhete que dizia: "Mayderson, se você quiser ir embora, fale com a minha mãe, mas eu prefiro que você fique. Tiago". Com o material encontrado na casa, a polícia chegou ao nome de Mayderson. Ele foi procurado na casa da mãe, que informou que ele estava na casa de um amigo (menor de idade e que não teria relação com os crimes) e deu o endereço. A polícia foi até o local e esperou a chegada do rapaz, que confessou o crime. Com o suspeito foi encontrado o celular de uma das vítimas e também dinheiro, sacado da conta de Tiago.

RPG

RPG é a sigla de Role Playing Game, o que significa "Jogo de Interpretação de Papéis". É um jogo que surgiu por volta de 1974 nos EUA, baseado em jogos de estratégia e literatura fantástica (principalmente as obras de Tolkien), e rapidamente ganhou vários adeptos pelo mundo todo.

Para jogar RPG, é preciso um mestre e jogadores. A função do mestre é apresentar ao grupo de jogadores uma história, que contenha obstáculos, charadas e situações que exigirão escolhas por parte dos jogadores. Os jogadores, por sua vez, controlam personagens que irão participar da história, discutindo entre si as escolhas que farão e as soluções que darão aos obstáculos e dificuldades que surgirem. É um exercício de diálogo, de decisão em grupo, de consenso.

Como no RPG não existem perdedores nem vencedores, esse é um dos pontos que reforçam a teoria do delegado, de que os assassinos estão mentindo, pois alegaram que mataram Tiago “porque ele perdeu no jogo”.


Nota pessoal: E então, pela primeira vez, vejo um grande veículo de comunicação divulgar o que um delegado menos alienado resolveu dizer sobre algo "underground". Se fosse como no caso Ouro Preto, certas emissoras de alcance global ainda insistiriam em dizer que RPG é um jogo onde quem perde, paga com a vida e coisas similares. Como se já não bastasse nosso instruidíssimo Arnaldo Jabor comentando sobre Dimebeg Darrel... enfim, uma boa notícia.

domingo, 22 de maio de 2005

"Arte" Moderna (pt. 2)


ouvindo: Theatre of Tragedy - Black as the Devil Painteth
frase do dia: "O que o mundo precisa é de mais gênios humildes. Hoje restam poucos de nós." - Oscar Levant

Primeiramente, minhas desculpas pela demora com a continuação de minha destilação venenosa ao Modernismo - época de trabalhos da faculdade (felizmente, trabalhos que pouco tinham a ver com esse lixo) mais complicações com o código do blog (que eu sempre insisto em ferrar mesmo que não chegue perto dele) fizeram com que eu desconfiasse que a "Macumba de Pai Zuzé", do Manuel Bandeira, pega mesmo.

Segundamente, acabei por deletar tudo o que já tinha escrito antes por aqui (pela quarta vez) por parar pra pensar um pouco e chegar à algumas conclusões. O que chamam de "arte moderna" é, muitas vezes, bem diferente do que chamam de "Modernismo". Por mais que tenha minhas sérias ressalvas a vários deles, seria uma burrice de minha parte seguir os exemplos acadêmicos e colocar todas as escolas de vanguarda no mesmo pacote do que é chamado Modernismo. Marcel Proust, Franz Kafka, Pablo Picasso (sempre tão artístico quanto uma poça de vômito), Salvador Dali, Ezra Pound, T. S. Idiot, digo, Eliot, Max Reinhardt, a escola expressionista alemã, o impressionismo russo, e tantos outros, bons ou ruins, não podem estar lado a lado de dejetos pseudo-culturais como o que o Modernismo produziu. Sendo assim, me alço aqui apenas ao que é chamado "Modernismo" par excellence.

Munch, Rembrandt, Goya, Dali e tantos outros souberam criar um outro mundo, impositivo, que não apenas retratava a realidade, criava um outro mundo. Não há como ver "O Beijo" ou o famosíssimo "O Grito" de Munch e não dar conta de uma visão ultra-pessoal do artista, uma atmosfera impossível de escapar, um mundo criado com tons onde o preto está sempre presente, a tela como algo do qual é impossível fugir. Quando nos lembramos de que aquilo é apenas um pedaço de papel com tinta mistura em cima, entendemos do que um gênio é capaz.
Já nossos pintores modernistas, como Anita Malfatti, acharam que simplesmente pintar uma mulher de amarelo ao invés das cores óbvias era ser "visionário".

"A Boba", de Anita Malfatti

Alguma sensação estésica sublime, que faz com que um amontoado de cores em nossa frente cause torções em nossos sonhos? Ou apenas se vê que nossa querida amiga Anita desperdiça seu talento criando algo como dieta de diabético (sem sal nem açúcar), uma imagem que facilmente esquecemos assim que esses olhos tortos param de olhar para nós? Ainda lembro que foi essa a crítica que Monteiro Lobato fez à sua exposição (tudo bem, me arrisco em usar esse fato, visto que Lobato sequer foi à tal exposição): "Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas (...) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva."

Evoco até mesmo uma brincadeira ocorrida na França, quando ataram um pincel ao rabo de um burro, misturaram as tintas, fizeram uma legítima "arte abstrata cubista/dadaísta/futurista/insira-aqui-seu-ista", deram um nome absurdo (Pôr-do-Sol em Sabe lá Deus onde) e colocaram numa exposição como a maior novidade da Arte. Não deu outra, todos amaram, até que contaram da farsa.

Arte de burros. Nada além. Arte onde tentam, uma vez, tirar uma rima. Depois, tirar a melodia. Logo, tiram todo o gênio criador e se produz apenas uma arte sem arte!

Perdoem-me pela verdade, modernistas puristas, mas não existe arte sem inteligência.

Mário de Andrade, para voltar pra Literatura, é o perfeito exemplo do anacronismo moderno. E o perfeito exemplo de que não há criação alguma por ali: apenas ataques indiretos à escolas anteriores (que se eram ruins, conseguiram soar até palatáveis perto de seus livros). "Desvairada" é uma palavra não cabível ao título de seus livros apenas no sentido iconoclasta. Também vale pela falta de propósitos de sua narrativa. É tão cheio de expressões copiadas dos falares caipiras (em plena São Paulo que abria as portas para a industrialização) que sua narrativa, tentando fluir como a voz, acaba empacando por suas letras trocadas sem nexo. Aliás, por que, já que o projeto era este, ele também não escreveu "prédiu", "normáu" e "istou", então?!

O ridículo se apiora com Oswald de Andrade. O exemplo-mor de onde a hipocrisia humana chegou. Queria mostrar que o falar do povo era o correto, ao contrário do elitismo-troglodita-imperialista de um maldito livro de gramática. Mas quando foi fazer discursos inflamados na Semana de Arte Moderna... é melhor estar com um dicionário de expressões parnasianas para entender o que quis dizer... se bem que ele não quis dizer nada.

Estudou, como Mário, muito do índio e sempre quis mostrar que o europeu, chegando em terra brasilis, só quis ferrar com ele. Mas, novamente, não quer ir viver no meio do mato e tem todo o estilo europeu de ser, mas nunca admitindo que seus modelos, na verdade, são uma lambança genérica de tudo que não é propriamente seu e, ainda por cima, são completamente desprovidos de lógica. O nosso Policárpio Quaresma, em carne e osso.

Sua mulher, Pagu, como todos os seus relacionamentos rompidos, é a mostra do servilismo modernista a um ideário perdido no Reino do Nada que... bem, só nos deixa perdidos mesmo. Artista medíocre, só teve suas obras expostas e famosas pela influência acadêmica (*náuseas*) de seu marido. Vermelha como ele, largou cegamente (como uma crente pentelha) os salões pseudo-intelectuais para uma causa maior: o Partido Comunista, trabalhando até mesmo como prostituta para dar (opa!) informações (ah!) para nossos amigos bolcheviques que, também, não fizeram nada de útil. Pergunta: se não fosse um regime ditatorial que dominou nossa política por anos a fio, todas essas atitudes insanas teriam algum valor?

Poderia passar dias digitando meus volteios sobre Manuel Bandeira, mas como o pessoal da Letras é que mais acessa essa coisa, e todo mundo está de saco cheio de fazer análises cirúrgicas de "poemas" que não dizem nada, prefiro ignorar a mijadinha do gato na pensão burguesa, o seu porquinho-da-índia e quando o "poeta" levava ele (sic) pra sala, prefiro ignorar sua tentativa pueril (no mau sentido) de imitar Debussy e suas canções infantis, sua sonífera descrição da preta Irene entrando no Céu e sua aforismática lição de vida, pois, enquanto uns tomam ecstasy e outros cocaína, ele, que já tomou tristeza, hoje toma alegria. (o primeiro arrombado que fizer ligações entre um título de seus livros e minha pessoa será empalado!!)

Prefiro me ater a um aspecto curioso de sua... "obra". Todos aqueles que a dissecam, como se houvesse um grande tesouro a ser encontrado no fim do arco-íris, a justificam. "Tal verso é assim pois a vida do escritor...", "Tal passagem evoca a infância do poeta no Recife...", "Aqui, vemos Bandeira já triste por causa da doença..." - por Pólux! Alguém precisa analisar a vida de Marlowe pra entender a grandiosidade megalomaníaca de Fausto?! Alguém consegue analisar a infância de Nietzsche para saber como ele chegou ao "Umwertung aller Werte"? Isso é coisa de psicanalista. Esses caras acham que um adulto é uma criança perdida de si mesmo.

Com tantas justificativas, vemos que tais críticos até sabem que ler isso é um erro, perda de tempo, mas tentam justificar sua "visão atual de arte" (ao invés de lerem um livro complicado mas inteligente) com tanta argumentação. Se tais poesias tivessem tanta retórica quanto seus próprios defensores, com certeza seria bem melhor!

Mas aí resta a pergunta: mesmo que Bandeira consiga "captar o momento em palavras rítmicas" e mostre todo o seu "gênio" lembrando de sua infância, o que diabos isso muda a minha vida?! Eu dormiria mais ignorante sem saber disso?! Pois bem. Pensem em como suas vidas mudaram ao lerem Bocaggio, Marquês de Sade, Moliére, Turguêniev ou Rimbaud e cheguem às suas próprias conclusões.

Mais umas palavrinhas de Lobato, ao lembrar também das ligações forçadas entre essas estéticas e os delírios dos loucos: "De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura."

O chatíssimo João Cabral de Melo Neto nos ensinou como ser moderno é ser caipira. Estar de acordo com a arte moderna é falar como um bóia-fria. É ignorar qualquer inteligência que tenha sido produzida anteriormente (e que gerou tal "modernidade"). Um jornalista do Estado de São Paulo, também poeta, ao conversar com ele, ao perceber que ele só falava de seus parentes, achou que se perguntasse ao "poeta" pernambucano o que ele sabia sobre 15 de Agosto de 1914, João Cabral iria responder sobre o nascimento de algum afilhado, esquecendo da eclosão da Primeira Grande Guerra.

Em um encontro em Paris, houve uma discussão entre dois modernosos, João Cabral e Vinícius de Moraes. Este foi acusado por Cabral de só fazer música e poesia sobre amor, tema mais que batido. Moraes respondeu a Cabral que então, era melhor sair fazendo poesia sobre pedra, mato e barranco. Vemos como dois erros produzem um acerto perfeito pra quem está de fora.

Aliás, falar de Vinícius é complicado demais e meu parco conhecimento me obriga a calar a boca. Um compositor excepcional, é claro (raríssimos na história da música entendiam de melodia como ele), um poeta que demonstra talento... mas novamente, não consegue provocar emoções profundas em quem o lê (falando apenas do poeta) - é tudo tão "arte do momento" que não há artista, há apenas o cotidiano prosaico e desanimador que o cria.

E agora, Drummond? A novidade modernista acabou, a luz apagou, o povo enjoou, a noite esfriou, e agora, Drummond? Com certeza, só continua sendo lido pois cai no Vestibular - tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua. Eu nunca vou me esquecer desse fato: tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua! Continuando a Máfia dos Andrade, de Mário, que foi seguido por Oswald, que foi seguido por este Carlos Drummond, que foi seguido pelos filhos dos Andrade, enquanto Doistoiévski que é bom nem entrou na história.

Tal foi a encheção moderna que mesmo os setores mais burros da sociedade (geralmente, artistas de quinta que estão sempre na mídia como "insurgentes" mas nunca leram Bakunin) ficaram de ressaca. Daí pra surgir a Tropicália, com antas como Chaetano Melloso, Gilberto Gil (que conseguiu virar ministro!!) e Maria Bestânia foi um passo. Seu ideal? Sei lá! Era pegar um violão, fumar unzinho e faturar em cima de trouxas que chamavam isso de "boa música" (não é só porque Beatles é um lixo que tudo que não é Beatnick, deixa de ser). De Gilberto Gil:

"Nos meus retiros espirituais descubro certas coisas tão normais
Como estar defronte de uma coisa e ficar
Horas à fio com ela, bárbara, bela, tela de TV
Você há de achar gozado Barbarela dita assim dessa maneira
Brincadeira sem nexo que gente maluca gosta de fazer"

Boa. Se teve algo que não peguei, foi o nexo mesmo. Mas mudou minha vida. Pra que ler Camões depois desta?!

Nota: A Vara do Juíz da 69.ª Câmara de Tortura do Direito Matrimonial de Curitiba me proibiu de falar de Chico Buarque. Minhas condolências.

Algumas rápidas ressalvas, pra quem ainda está acordado. Chamar Fernando Pessoa de "modernista" é um insulto. Seu heterônimo mais conhecido por essas bandas, Alberto Caieiro, só é lido por ser, aparentemente, fácil. Não é. O molde dele é oriental. A complexidade não está na palavra, mas no pensamento que ela evoca. Assim como o autor ocidental analisa o mundo e o regurgita criado por si, Caieiro, como os orientais, pega uma gota de chuva e faz com que o leitor crie uma tempestade dentro de si. Será que seus fãs por aqui percebem isso?

Sem falar ainda nos versos de Álvaro de Campos...

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento.
E ver passar a vida faz-me tédio."

Moderno, não?

Outra mal entendida é Clarice Lispector. Tão "moderna" que começa seus livros agradecendo a Schopenhauer... o processo é o mesmo que o de Pessoa - pena que estava na hora errada e, principalmente, com as companhias erradas.

Mas o principal é Marcel Duchamp. Destruiu a arte. Dadaísta por excelência. Mas não vou falar mal dele, embora isso choque até quem esteve do meu lado até agora. A diferença aqui é que Duchamp nunca se levou a sério. Nunca se achou "reformista" da arte por pintar um bigode na Mona Lisa e escrever L.H.O.O.Q., que produz os mesmos sons, em francês, de "Ela tem o rabo quente". Nunca colocou um mictório numa exposição e disse que aquilo era arte. Ele perguntou. Duchamp não foi o problema. O problema foram seus seguidores.

Concluo tudo com os versos de uma das pessoas mais inteligentes que conheço, minha grande amiga Anya, que com um longo poema em versos alexandrinos perdeu um concurso de poesia para um grande "novo gênio" moderno, que escreveu simplesmente

Olhei,
Vibrei,
Dancei.
E a noite?
A noite parou.

Como vingança, fez a paródia genial e muito mais interessante:

Forcei,
Enrubesci,
Caguei.
E a merda?
A merda fedeu.

Não se fazem mais modernistas como antigamente.

domingo, 15 de maio de 2005

"Arte" Moderna (pt. 1)


ouvindo: Apocalyptica - Romance
frase do dia: "A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis." - Al Capp

Vocês pediram. Vocês imploraram. Vocês encheram o saco. Vocês fecharam as avenidas com passeatas. Vocês fizeram piquete. Vocês pagaram um boquete. Vocês clamaram aos céus para que eu não fizesse isso... pois aqui estou eu fazendo uma análise experimental e prática explicando porque diabos eu odeio Modernismo. Se não era isso que esperava ler, pode parar por aqui, mas devido ao tamanho costumaz de meus posts, se você veio ler alguma coisa por aqui, já sabe mais ou menos (digo, menos) o que esperar.

Estudar Modernismo é a coisa mais paradoxal que existe. Nossos amigos "artistas" queriam quebrar barreiras. Ok. Queriam fazer algo novo, conectado com a Zeitung vigente. Ok. Queriam mostrar que não é necessário escandir sonetos e fazer rimas toantes raras para se fazer algo bonito. Ok. Queriam fazer a "arte" do povo, na "língua errada do povo, língua certa do povo". Ok.

Mas então, posso saber pra que diabos queriam fazer isso apenas para aqueles com formação intelectual, e nunca no meio de sua tão amada populaça?!

No que tange a tais manifestações populistas, esperar algo conciso e coerente é como esperar que um burro pinte um quadro de arte abstrata com um pincel amarrado no rabo... opa, peraí, isso também aconteceu! Estou me adiantando demais.

Os modernistas brasileiros são os maiores culpados por toda a nossa gente ser burra, inclusive aqueles que se declamam a "elite intelectual". Nowadays, neguinho acha que ouvir Gilberto Gil no lugar de Bonde do Tigrão é um sinal de gosto elevado. Hume não conhecia esses pulhas... mas o mais espantoso é não só acharem tais vilipêndios uma forma genuína de manifestação "artística", como acharem que é o ápice da refinação estética.

Vamos analisar tudo calmamente. Essas nobres almas quiseram achar uma "identidade nacional" num país que tem como maior identidade uma miscigenação racial, intelectual e, sobretudo, cultural. É como dizer que formamos a "raça brasileira" e criar um comitê buscando "pureza racial" das pessoas por aí.

Pra piorar, quiseram quebrar lastros com a França, especialmente Paris pois, naquela época, este era o epicentro de toda a produção mental no Ocidente. Hum... peraí, o Modernismo não surgiu na Cidade-Luz francesa?! Eles não simplesmente continuaram fazendo o que todos faziam antes?! Ponto negativo novamente.

Antropofagia... essa até hoje não consegui entender. Não era o que vinha sendo feito desde... desde o Padre Antônio Vieira, afinal?!

Mas tudo bem, não vamos ser europeus, vamos ser brasileiros e obrigar os cursos de Letras (*revirando o olhar*) a terem Tupi no currículo básico. Minha pergunta continua sendo: por que toda aquela verborragia vomitada no Teatro Mvnicipal, e não na Funai ou na reserva dos Pataxós?!

Iconoclastia da pior espécie. Isso é, da espécie burra. Ser esperto é perceber que um soneto alexandrino é uma invenção humana e não é a única forma poética funcional? Genial. Mas aí pergunto: e qual o problema com o soneto? Não é só porque não é a única viável, que significa que todo soneto é inviável. Probleminha de lógica simples, até eu consigo resolver.

Os únicos artistas de verdade foram aqueles que destruíram o que era vigente e rejeitaram as regras impostas? Tal imposição não deixa de ser uma regra perigosa. Shakespeare não foi um iconoclasta mortífero escrevendo seus sonetos e seu teatro elisabetano? Baudelaire precisou escrever como uma criança de 10 anos e abandonando a norma culta (oh, bela e culta!) para ter seu livro considerado "imoral"? (não surpreende que um tal Libertinagem, por aí, seja tão inofensivo a ponto de ser estudado em qualquer ensino médio...)

Ser revolucionário, num mundo onde os disparates e tentativas de originalidade já ultrapassaram as raias do risível, é desbaratar a criatividade em prol da... do quê, afinal?!

Uma coisa imperceptível aos amantes do que é moderno é que tais panfletagens, além de serem tão artísticas quanto um comercial da MTV (a emissora com maior número de auto-propaganda por minuto quadrado, e uma perfeita mostra de onde chegaremos com tanta "modernidade"), já dão mostras de serem dependentes de quem se dispõe a suar e fazer seu trabalho de verdade. É uma comunicação de valor ontológico mais baixo. Para existir, é necessário que exista uma arte anterior. Podemos ler Wuthering Heights e o livro fala por si só - ele faz o que diz. Agora, temos de entender um contexto x, y, z num espaço/tempo curvo onde Olavo Bilac já tava enchendo o saco para podermos ler Macunaíma e dizer: "ah, tá, o livro é uma merda pois ele vai contra o Parnasianismo... então, não é que o livro é uma merda por si só, é uma merda de propósito... literalmente, não foi na cagada... legal."

A lambança chega a dar nojo quando concluímos a que ponto tal... ahn... "filosofia estética" nos levará, além dos comerciais da MTV. A arte "verdadeira" é a "arte" do povo? Hum... se o que é genial está na boca de quem não estudou, pra que estudar? E se não vamos escrever palavras como "comborço", "concupiscência", "consubstanciação" e "consuetudinário" (pra ficar só no c) em nossos escritos, por que não refazemos a Inquisição, queimamos todos os exemplares da Divina Comédia e declaramos as letras do MV Bill como matéria obrigatória para selecionar os melhores candidatos nos vestibulares Brasil afora?

Quer dizer que não podemos falar sobre Palas Athenas e transmutação da alma pelo platonismo, pois isso é "elitista". Em primeiro lugar: o que é elite?! Segundo o lusitano Priberam, dicionário mais rápido disponível no momento:

do Fr. élite, s. m.
s. f.
,
o que há de melhor numa sociedade ou num grupo;

Se ser "elitista" é gostar do que há de melhor em algo, pois bem, eu sou elitista! Aliás, qual a vantagem em não o ser?! Agora, tal concepão imbrica em um ponto morto que vira nossas concepções e nosso estômago do avesso. Só posso fazer arte de acordo com a sociedade vigente? Então, qual o papel do artista? Ficar na dele, não criar nada, ignorar tudo aquilo que ele próprio conquistou e é capaz de criar (como cada palavra nova que é capaz de pronunciar, ao contrário do rebanho) só pra não ser "difícil"? Que tal, então, fazermos algo bem popular, como um poema composto apenas por As, para até os analfabetos conseguirem ler, ou quem sabe, para não sermos elitistas com os animais, escrevermos latindo e crocitando?!

Já até comecei a minha mais nova pintura "do povo" cego.

O Modernismo diz que a forma é estrutura, não é individual. A busca do eu, do individualismo máximo na arte, a rejeição às amarras e regras que contagiavam os salões culturais naqueles tempos. Primus, que nem toda forma é um curral de ovelhas - o soneto, o haicai, a elegia, o gazal e tantas outras metrificações da forma poética (pra me ater a uma área a qual estou mais familiarizado) são apenas consagradas por sua beleza natural e conseguirem até mesmo facilitar a expressão do poeta. Algo como uma escala musical harmônica, melódica, maior ou menor.

Secundus, Baudelaire era um poeta pois fazia poesia, mesmo falando de vermes, putas e Satã. Podemos até falar de Palas Atenas, ninfas no Parnaso e a descida de Enéas ao Avernus, se não o for como poetas, não será poesia. O que dizer, então, de pseudo-reformadores estéticos que não só não têm conteúdo (problema dos Parnasianos), como também não têm forma? É como fazer arte sem sentimento, sem beleza, sem cor, sem intelecto, sem... talento.

Tertius, essa busca do eu só é válida quando esse eu existe. Arte é pra poucos. "Viver é algo raro, a maioria das pessoas apenas existe" - Oscar Wilde. Quando se tenta buscar um válido individualismo chafurdado no rebanho, se cai cada vez mais no coletivo, no eu que não se desenvolveu e não passa de um subproduto histórico nos melhores moldes "Marx de cu é Hegel". Na populaça, quanto mais se busca o eu, mais se cai no lugar-comum do impessoal, chato, insípido e desprovido de arte.

Aguardem o próximo bloco, quando analisarei alguns de nossos grandes "mestres" modernistas.

sábado, 14 de maio de 2005

Assassinos tentam culpar RPG por crime no ES


ouvindo: Mythological Cold Towers - In the Forgotten Melancholic Waves of Eternal Sea
frase do dia: "Não combata monstros temendo tornar-se um deles - Se você olhar para o Abismo, o Abismo olhará para você." - Friedrich Nietzsche

Pequena notícia do Portal Terra:

Assassinos tentam culpar RPG por crime no ES

A Polícia Civil do Espírito Santo prendeu na noite de ontem dois acusados pelo assassinato do aposentado Douglas Augusto Guedes, da mulher dele, a corretora de imóveis Heloísa Helena Andrade Guedes, e do filho do casal Tiago Guedes, em Guarapari. Os corpos dos três foram encontrados amarrados e deitados em camas no dia 5 de maio. Na mesma data, eles foram sepultados.

O delegado da Divisão de Homicídios de Guarapari, Alexandre Linconl, disse ao Portal Terra que Mayderson de Vargas Mendes, 21 anos, e Ronald Ribeiro Rodrigues, 22, confessaram que mataram a família motivados pelo jogo. “Isso é um absurdo” declarou o delegado, “estão alegando que como Tiago perdeu, o objetivo era eliminar ele e a família dele". "O rapaz tinha consciência e permitiu os assassinatos". O delegado afirmou “Na verdade, querem culpar o RPG para, posteriormente, alegarem insanidade durante a defesa, mas creio que isso não irá funcionar”.

Segundo depoimento dos dois indiciados, eles estavam jogando RPG com Tiago, na casa da família Guedes, no dia em que as mortes aconteceram: 26 de abril. Eles interpretavam papéis de policial, advogado e narrador - que seria o mestre na história. A partida já durava cerca de 5 horas, quando Tiago teria perdido o jogo e na história, o personagem dele, um policial, teria de morrer. Antes disso, os pais dele também seriam mortos.

A família inteira recebeu um sonífero, depois teve as mãos amarradas. O pai foi o primeiro a ser assassinado, depois a mãe e, por último, Tiago", explicou o delegado.

De acordo com o delegado, a morte de Augusto e Heloísa não tem nenhuma relação com o jogo, ao contrário do que afirmam os assassinos. O filho do casal, que também foi obrigado a tomar sonífero, foi colocado na cama dos pais, e também morreu com um tiro na cabeça. Antes de matar o garoto, os dois acusados teriam ido ao banco e sacado dinheiro da poupança do rapaz. Um computador também foi levado.

Investigações

Linconl disse que foram encontrados diversos livros e materiais de RPG no quarto do filho do casal e um bilhete que dizia: "Mayderson, se você quiser ir embora, fale com a minha mãe, mas eu prefiro que você fique. Tiago". Com o material encontrado na casa, a polícia chegou ao nome de Mayderson. Ele foi procurado na casa da mãe, que informou que ele estava na casa de um amigo (menor de idade e que não teria relação com os crimes) e deu o endereço. A polícia foi até o local e esperou a chegada do rapaz, que confessou o crime. Com o suspeito foi encontrado o celular de uma das vítimas e também dinheiro, sacado da conta de Tiago.

RPG

RPG é a sigla de Role Playing Game, o que significa "Jogo de Interpretação de Papéis". É um jogo que surgiu por volta de 1974 nos EUA, baseado em jogos de estratégia e literatura fantástica (principalmente as obras de Tolkien), e rapidamente ganhou vários adeptos pelo mundo todo.

Para jogar RPG, é preciso um mestre e jogadores. A função do mestre é apresentar ao grupo de jogadores uma história, que contenha obstáculos, charadas e situações que exigirão escolhas por parte dos jogadores. Os jogadores, por sua vez, controlam personagens que irão participar da história, discutindo entre si as escolhas que farão e as soluções que darão aos obstáculos e dificuldades que surgirem. É um exercício de diálogo, de decisão em grupo, de consenso.

Como no RPG não existem perdedores nem vencedores, esse é um dos pontos que reforçam a teoria do delegado, de que os assassinos estão mentindo, pois alegaram que mataram Tiago “porque ele perdeu no jogo”.


Nota pessoal: E então, pela primeira vez, vejo um grande veículo de comunicação divulgar o que um delegado menos alienado resolveu dizer sobre algo "underground". Se fosse como no caso Ouro Preto, certas emissoras de alcance global ainda insistiriam em dizer que RPG é um jogo onde quem perde, paga com a vida e coisas similares. Como se já não bastasse nosso instruidíssimo Arnaldo Jabor comentando sobre Dimebeg Darrel... enfim, uma boa notícia.