segunda-feira, 18 de abril de 2005

Vida Universitária

ouvindo: Collection D´Arnell Andrea - Aux Glycines défuntes
frase do dia: "Sou livre de qualquer preconceito. Odeio todo mundo, indistintamente." - W. C. Fields

Meus poucos dias na maior faculdade do país já contribuíram em demasia para minha natural ojeriza pela humanidade. Já imaginei que adentrar um antro abarrotado de remanescentes da geração Beatnick (aquele povo que acha que João Cabral é poeta e que Fidel Castro é um exemplo a ser seguido) seria penetrar no quid da decadência intelectual (e estética, e criativa, e etc...) daqueles que se arrogam o título de "elite intelectual" e produtiva, embora acham que estão falando do Nascimento quando alguém cita Milton sem o John na frente.

As situações em que sou flagrado arrancariam urros de ódio de uma pedra se ela pudesse falar. É surpreendentemente assombroso o patamar que o estro genial humano é capaz de alcançar, as tessituras que é capaz de costurar nos silêncios em que qualquer vírgula se torna uma sonoro gongo chinês clamando os soldados à luta. É um professor bem-intencionado soltar uma frase que deixe margem para alguma réplica e a escatologia mental humana vêm à tona em sua pior forma.

A princípio, até fazia sentido alguém tentar conquistar um espaço no coração generoso dos professores - tal xaveco é conhecido no meio acadêmico como "iniciação científica", algo como "sou seu escraviário para pesquisas infrutíferas bancadas pelo Governo por um tempo em troca de nota e, é claro, um salário mínimo por mês pra tomar capuccino no lugar de um expresso comum" - mas depois das primeiras semanas, é um achincale ao bom senso querer chamar a atenção com uma pretensa erudição que acaba deixando o Rei cada vez mais nu (é, meus caros, ler algo feito antes do Modernismo ferrar com tudo vale a pena).

Não me bastasse um jovem cidadão querer chamar a atenção dos nossos pobres professores de Lingüística logo na primeira aula (tá, os professores, às vezes, são um porre, mas pra ter de ouvir aquilo, dou um caldinho de carne de segunda pra eles) com seus longos conhecimentos sobre Saussure e Chomsky (que, obviamente, não passavam de algo que qualquer muriçoca pode descobrir em 5 minutos no google), ter de agüentar o mesmo infeliz querendo praticamente ter aulas particulares sempre que a oportunidade surge é de doer.

É claro, acho que ele não entendeu a mensagem do meu olhar faiscante dirigido a ele, coisa como "Filhinho, quem dá aula é o professor e qualquer eqüidna conhece os novos ramos a que Noam Chomsky levou a Lingüística... e de Lingüística Clínica, você entende? Se não, acho melhor ficar quietinho..."

- Ah, inferno! Saussure, Chomsky? Só falta alguém querer me impressionar dizendo que já leu Martinet e Barthes!! Soletra Hjelmslev aí que eu quero ver! E pronuncie "slév" no fim que vai ter pau! Em dinamarquês, é "sleu", porra! (nota posterior: by Roska. Assim esse povo pára de me encher.)

Os ânimos andam passando da tolerância para o escárnio e, finalmente, para o rancor. Custa muito se tocar? Quando um aluno interrompe o professor apenas para concordar com ele, não posso crer que ele queira fazer outra coisa além de chamar a atenção.

- Olha, professor, eu li o livro do Antônio Cândido e ele expôe essa mesma teoria de que o senhor falou...

Que bom, né?! Já pensou se fosse diferente, numa universidade calcada no trabalho do cara?! Será que alguém quer aplausos com tal demonstração de leituras tão surpreendentes?! Ler dois livros a mais do que os exigidos na Fudest não faz de ninguém um gênio.

- Então, professor, mas o que eu entendi do texto foi que...

Filhinho, foda-se o que você entendeu do texto! Você não entendeu nada, mesmo!

As coisas beiram o teatro do absurdo de Ionesco quando alguém pede um exemplo na aula. Ou pior, quando algum íntegro educador apenas cita algo, e a sala pára de pensar na aula para pensar em milhares de exemplos possíveis que, por uma estranha lógica, parecem que necessitam ser expostos, com vida própria...

Metáforas como uma linguagem específica de um dialeto:

- Então, eu liguei pra minha mãe lá no Maranhão ontem, e ela disse que estava ferrada com nossa vizinha por [segue-se uma explicação não tão curta sobre os motivos], e ela disse que ia "quebrar a castanha na cara dela". Eu gostaria de saber o que vocês entendem por isso aqui.

(Jesus, como pude viver sem saber disso até hoje?!)

Os usufrutos de Hollywood na reambientação histórica:

- Mas precisamos ver que os estúdios fazem seus filmes voltados pra adolescentes...
- O que um roteirista quer é dinheiro, não uma adaptação fiel da Ilíada...
- Só pelo fato de "Tróia" ter o Brad Pitt já indica que o fator visual do filme...

Claro, claro... mas será que alguma pessoa das 80 e tantas presentes precisava mesmo ouvir isso para chegar a mesma conclusão?

Variação lingüística, norma culta da gramática e norma popular (o mesmo infeliz de cima):

- Ah, então, eu fui na Kolumbus comprar uma calça e o vendedor disse que eu falo complicado. Aí eu disse: "Não, eu tô falando normal..." e ele disse: "Não, o senhor fala muito complicado!"

Poxa, parabéns, seu dialeto é melhor que o de um vendedor da Kolumbus! Já pensou em escrever um livro? Afinal, pensei o mesmo quando o cobrador do meu ônibus ficou impressionado com meus conhecimentos sobre o Poder Executivo que tinha acabado de adqüirir lendo o "Metrô News"...

É dar um pouco de corda e o bicho se desembesta como uma máquina de pinball dando tilt. Foi o mesmo soltar algumas pérolas que fizeram a aula parar por cerca de 10 minutos apenas para se discutir os exemplos dados por ele (bem, não lembro quais foram, aproveitei o vácuo existencial para tirar um mezzo cochilo), o professor (um dos mais interativos que tenho... infelizmente, exatamente na aula que tenho de aturar as piores criaturas juntas) pergunta:

- Se alguém está no ônibus, do seu lado... principalmente ônibus de viagem... e quer puxar assunto, conversar, mas sem falar... o que ele faz?

A orquestra de sugestões partiu de todos os cantos da sala:

- Tosse...
- Abre um jornal...
- Fica se mexendo...

O aprendiz de parvo, sem perceber que seus 15 minutos de fama se acabaram, e ainda acreditando que pode falar algo engraçado, dispara:

- Enfarta!

Enfarta?! Essa deixou até o ventilador boquiaberto. Enfarta assim, de enfartar mesmo? Cruzes... isso que é carência afetiva. Tem gente por aqui quase enfartando para angariar algum elogio, mesmo...

Variação Lingüística de novo. Comentários sobre a moderna "literatura":

- Acredito que ninguém aqui deva usar, hoje em dia, o pretérito mais-que-perfeito. Existe alguém que escreve aqui nessa sala? [Nota: pergunta bem cruel para se fazer numa sala de Letras...] Ah, sim, aqui vemos uma colega de vocês que escreve poesias, uma poetisa [Nota: cof, cof...] que ainda pode publicar seus escritos no Jornal da USP... você não deve usar o pretérito mais-que-perfeito em suas poesias, não é?
- Ahn... eu não lembro qual é o pretérito mais-que-perfeito....

Grrrrr! Pudera eu empalar essa bactéria e tê-lo-ia feito! Quisera que os professores de português hoje em dia guardassem melhor a lembrança do saudoso Jânio Quadros... Fi-lo porque bebi-lo...

É o triste fim de uma instituição que há muito primou pela excelência e disciplina, mas se rende a cada dia à "justiça social" e ao pedantismo típico de uma liberdade de conteúdo que cada vez mais produz apenas diletantes com muito a falar e pouco a dizer. Quando vejo o destino cruel dos escritores no Brasil, percebo que essa crueldade é mera basófia (thanx, Fábio) propagada por quem quer se fazer de coitadinho quando percebe que sua vasta inteligência não é de muito valor no nosso querido Lebenswelt (ou Assiah, em termos cabalísticos). Escritores bons têm futuro garantido em nosso meio. Agora, achar alguém que ainda tenha mais ganas em criar algo novo do que vomitar motejos verborrágicos a troco de mera aparência...

De todo escrito, só me agrada aquele escrito com o sangue. Escreve com o sangue, e descobrirá que o sangue é espírito.

Nietzsche me salve.

9 pessoas leram e discordaram:

Diego Raigorodsky disse...

Nossa!!!!!

o que falar desse post??? MARAVILHOSO!!! FIDELISSIMO!!!! Ri mto... Mas é um riso, meio, para não chorar... Enfim... PERFEITO!

Scarlett disse...

Eu seria feliz se na faculdade de Letras tivesse nem que seja uma aulinha por semana em que deixassem a gente escrever o que quisesse e nos ensinassem a ser um pouquinho mais escritores do que meros criticos chupando o pau do antonio candido...ainda que fossem apenas meia hora em que nos permitissem sonhar escrito, em que nos dessem um mínimo apoio ou uma crítica mais construtiva que o mero olhar acadêmico que nos oprime com o comentário "isto é um lixo adolescente"....
E ainda penso voltar prá lá um dia....a faculdade me tornou masoquista.

Rodrigo disse...

Ai meu saco... Relaxa, Flavinho, ano que vem você já vai ter se acostumado, como eu.
Ah, duas coisas:
1ª: essa de soletrar Hjelmslev é minha! Seu plageadorzinho maltido from hell do inferno (não o do JOHN Milton)
2ª: Ah, meu caro, você falando sobre pedantismo é quase triste!

Notei outra coisa: já vão começar a babar as suas bolas aqui também?

Te amo! Beijo!

Lady Drago disse...

Comments? Tá, lá vai:
- o carinha tá se exibindo prá alguém da sala de aula, pode ter certeza! (Sim, eu já passei por isso: o carinha se metia em toda e qqr explicação do professor, por
minha causa... dava vontade d trucidar!!)
- eu pronunciava "slév" pq nunk tinha escutado alguém falar dele, então nunk soube como se dizia! (Tb só fui descobrir q ele é dinamarquês por tua causa! Sim,
MorningStar tb é cultura!)
- exibidos n tomam chá de "simancol", eles acham, realmente, q tão agradando!
- n, a pergunta n é cruel! é só q, no mundo em q vivemos, está cada vez mais difícil alguém parar e se
dar o trabalho de escrever (sabe o ATO DE ESCREVER? Pegar papel, caneta..., ter idéia e conseguir
transcrevê-la claramente?)
- concordo ctgo sobre a "bactéria" q n sabe o q é pretérito-mais-que-perfeito! Na verdade eu até te
ajudava!!
- será q tu poderia traduzir o qr dzr "Lebenswelt" (se traduzir "Assiah" já tá de bom tamanho...!) para uma pobre mortal como eu, q n nm sabe alemão - é
alemão, né? - nm está por dentro dos termos cabaísticos?


(hihihihihihi!!)

Bjks, qriduxo!

=D
(Adorei)

Teka Bileski disse...

Já te falei que te amo pra sempre?

E que estou com saudades?

Como está o seu começo de semana?
Me dê horários da sua segunda e da sua terça. Te contei que vou embora essa semana? =(

Beijos.

Shell.

Thá Poli disse...

Hahaha!
Que tuuudo! Muito engraçado esse texto, Roller!
Parabéns!
Bjksss

Marcela disse...

Flavinho Flavinho...
Inegável sua capacidade de articulação... ela é muito mais q altíssima... parabéns pelos escritos, mas não use das táticas dos idiotas para criticar os mesmos... hehehe beijão querido...

Marcela again disse...

Li denovo
Meu ta mto foda apesar da intolerancia... Mas eu so capaz d conviver com ela... no meu mundo tem espaço pra vc hehe mas pra um Flávio só hehehe dois seria demais...
A e adorei essa da Scarlet... to cansada de chupar o pau do Antonio Candido... hehe

fabbio disse...

querido flávio... tive a feliz chance, no TBC, de bater um breve papo com o antônio cândido. ele esperava o transporte pra casa - um taxi. falamos de coisas corriqueiras - alguns colegas de trabalho achavam q confabulava uma orientação - e realmente o homem merece respeito, pq a bajulação em cima dele q é brutal, esmagadora, não deveria obscurecer seu passado. o cara viveu numa época complicada, em q as coisas tiveram q ser construídas, literalmente - pra depois as bibas francesas desconstruirem. a obra dele tem valor, sim, e influenciou e abriu caminho pra muita gente. infelizmente pessoas desprovidas de talento se escoram na obra e no pensamento - isso ocorre em toda a usp. mas uma coisa asseguro: o homem continua firme em seus pensamentos e tem uma capacidade de reflexão e crítica estraordinária - e note bem como pessoas importantes estão desaparecendo sem q se faça a devida ou proporcional reposição. ele está muito velhinho, mereceria mais respeito, sinceramente... vc sabe q não tenho a mínima simpatia pela usp, mas algumas pessoas q ajudaram a construir o prestígio do qual a usp goza e q muitos usufruem como se estivessem num clube, é resultado de um puta esforço - nada do q está ali foi gratuito. as suas observações são divertidas, mas também pecam por não serem tolerantes. é preciso muita paciência com as pessoas pra poder chegar a algum lugar... e o primeiro ano (bem, eu não sei como se marca o tempo na usp, mas façamos uso de uma marcação utilizada pela parte ocidental do mundo) tem muita... basófia, pedantismo, cretinice aguda, bajulação, etc.

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segunda-feira, 18 de abril de 2005

Vida Universitária


ouvindo: Collection D´Arnell Andrea - Aux Glycines défuntes
frase do dia: "Sou livre de qualquer preconceito. Odeio todo mundo, indistintamente." - W. C. Fields

Meus poucos dias na maior faculdade do país já contribuíram em demasia para minha natural ojeriza pela humanidade. Já imaginei que adentrar um antro abarrotado de remanescentes da geração Beatnick (aquele povo que acha que João Cabral é poeta e que Fidel Castro é um exemplo a ser seguido) seria penetrar no quid da decadência intelectual (e estética, e criativa, e etc...) daqueles que se arrogam o título de "elite intelectual" e produtiva, embora acham que estão falando do Nascimento quando alguém cita Milton sem o John na frente.

As situações em que sou flagrado arrancariam urros de ódio de uma pedra se ela pudesse falar. É surpreendentemente assombroso o patamar que o estro genial humano é capaz de alcançar, as tessituras que é capaz de costurar nos silêncios em que qualquer vírgula se torna uma sonoro gongo chinês clamando os soldados à luta. É um professor bem-intencionado soltar uma frase que deixe margem para alguma réplica e a escatologia mental humana vêm à tona em sua pior forma.

A princípio, até fazia sentido alguém tentar conquistar um espaço no coração generoso dos professores - tal xaveco é conhecido no meio acadêmico como "iniciação científica", algo como "sou seu escraviário para pesquisas infrutíferas bancadas pelo Governo por um tempo em troca de nota e, é claro, um salário mínimo por mês pra tomar capuccino no lugar de um expresso comum" - mas depois das primeiras semanas, é um achincale ao bom senso querer chamar a atenção com uma pretensa erudição que acaba deixando o Rei cada vez mais nu (é, meus caros, ler algo feito antes do Modernismo ferrar com tudo vale a pena).

Não me bastasse um jovem cidadão querer chamar a atenção dos nossos pobres professores de Lingüística logo na primeira aula (tá, os professores, às vezes, são um porre, mas pra ter de ouvir aquilo, dou um caldinho de carne de segunda pra eles) com seus longos conhecimentos sobre Saussure e Chomsky (que, obviamente, não passavam de algo que qualquer muriçoca pode descobrir em 5 minutos no google), ter de agüentar o mesmo infeliz querendo praticamente ter aulas particulares sempre que a oportunidade surge é de doer.

É claro, acho que ele não entendeu a mensagem do meu olhar faiscante dirigido a ele, coisa como "Filhinho, quem dá aula é o professor e qualquer eqüidna conhece os novos ramos a que Noam Chomsky levou a Lingüística... e de Lingüística Clínica, você entende? Se não, acho melhor ficar quietinho..."

- Ah, inferno! Saussure, Chomsky? Só falta alguém querer me impressionar dizendo que já leu Martinet e Barthes!! Soletra Hjelmslev aí que eu quero ver! E pronuncie "slév" no fim que vai ter pau! Em dinamarquês, é "sleu", porra! (nota posterior: by Roska. Assim esse povo pára de me encher.)

Os ânimos andam passando da tolerância para o escárnio e, finalmente, para o rancor. Custa muito se tocar? Quando um aluno interrompe o professor apenas para concordar com ele, não posso crer que ele queira fazer outra coisa além de chamar a atenção.

- Olha, professor, eu li o livro do Antônio Cândido e ele expôe essa mesma teoria de que o senhor falou...

Que bom, né?! Já pensou se fosse diferente, numa universidade calcada no trabalho do cara?! Será que alguém quer aplausos com tal demonstração de leituras tão surpreendentes?! Ler dois livros a mais do que os exigidos na Fudest não faz de ninguém um gênio.

- Então, professor, mas o que eu entendi do texto foi que...

Filhinho, foda-se o que você entendeu do texto! Você não entendeu nada, mesmo!

As coisas beiram o teatro do absurdo de Ionesco quando alguém pede um exemplo na aula. Ou pior, quando algum íntegro educador apenas cita algo, e a sala pára de pensar na aula para pensar em milhares de exemplos possíveis que, por uma estranha lógica, parecem que necessitam ser expostos, com vida própria...

Metáforas como uma linguagem específica de um dialeto:

- Então, eu liguei pra minha mãe lá no Maranhão ontem, e ela disse que estava ferrada com nossa vizinha por [segue-se uma explicação não tão curta sobre os motivos], e ela disse que ia "quebrar a castanha na cara dela". Eu gostaria de saber o que vocês entendem por isso aqui.

(Jesus, como pude viver sem saber disso até hoje?!)

Os usufrutos de Hollywood na reambientação histórica:

- Mas precisamos ver que os estúdios fazem seus filmes voltados pra adolescentes...
- O que um roteirista quer é dinheiro, não uma adaptação fiel da Ilíada...
- Só pelo fato de "Tróia" ter o Brad Pitt já indica que o fator visual do filme...

Claro, claro... mas será que alguma pessoa das 80 e tantas presentes precisava mesmo ouvir isso para chegar a mesma conclusão?

Variação lingüística, norma culta da gramática e norma popular (o mesmo infeliz de cima):

- Ah, então, eu fui na Kolumbus comprar uma calça e o vendedor disse que eu falo complicado. Aí eu disse: "Não, eu tô falando normal..." e ele disse: "Não, o senhor fala muito complicado!"

Poxa, parabéns, seu dialeto é melhor que o de um vendedor da Kolumbus! Já pensou em escrever um livro? Afinal, pensei o mesmo quando o cobrador do meu ônibus ficou impressionado com meus conhecimentos sobre o Poder Executivo que tinha acabado de adqüirir lendo o "Metrô News"...

É dar um pouco de corda e o bicho se desembesta como uma máquina de pinball dando tilt. Foi o mesmo soltar algumas pérolas que fizeram a aula parar por cerca de 10 minutos apenas para se discutir os exemplos dados por ele (bem, não lembro quais foram, aproveitei o vácuo existencial para tirar um mezzo cochilo), o professor (um dos mais interativos que tenho... infelizmente, exatamente na aula que tenho de aturar as piores criaturas juntas) pergunta:

- Se alguém está no ônibus, do seu lado... principalmente ônibus de viagem... e quer puxar assunto, conversar, mas sem falar... o que ele faz?

A orquestra de sugestões partiu de todos os cantos da sala:

- Tosse...
- Abre um jornal...
- Fica se mexendo...

O aprendiz de parvo, sem perceber que seus 15 minutos de fama se acabaram, e ainda acreditando que pode falar algo engraçado, dispara:

- Enfarta!

Enfarta?! Essa deixou até o ventilador boquiaberto. Enfarta assim, de enfartar mesmo? Cruzes... isso que é carência afetiva. Tem gente por aqui quase enfartando para angariar algum elogio, mesmo...

Variação Lingüística de novo. Comentários sobre a moderna "literatura":

- Acredito que ninguém aqui deva usar, hoje em dia, o pretérito mais-que-perfeito. Existe alguém que escreve aqui nessa sala? [Nota: pergunta bem cruel para se fazer numa sala de Letras...] Ah, sim, aqui vemos uma colega de vocês que escreve poesias, uma poetisa [Nota: cof, cof...] que ainda pode publicar seus escritos no Jornal da USP... você não deve usar o pretérito mais-que-perfeito em suas poesias, não é?
- Ahn... eu não lembro qual é o pretérito mais-que-perfeito....

Grrrrr! Pudera eu empalar essa bactéria e tê-lo-ia feito! Quisera que os professores de português hoje em dia guardassem melhor a lembrança do saudoso Jânio Quadros... Fi-lo porque bebi-lo...

É o triste fim de uma instituição que há muito primou pela excelência e disciplina, mas se rende a cada dia à "justiça social" e ao pedantismo típico de uma liberdade de conteúdo que cada vez mais produz apenas diletantes com muito a falar e pouco a dizer. Quando vejo o destino cruel dos escritores no Brasil, percebo que essa crueldade é mera basófia (thanx, Fábio) propagada por quem quer se fazer de coitadinho quando percebe que sua vasta inteligência não é de muito valor no nosso querido Lebenswelt (ou Assiah, em termos cabalísticos). Escritores bons têm futuro garantido em nosso meio. Agora, achar alguém que ainda tenha mais ganas em criar algo novo do que vomitar motejos verborrágicos a troco de mera aparência...

De todo escrito, só me agrada aquele escrito com o sangue. Escreve com o sangue, e descobrirá que o sangue é espírito.

Nietzsche me salve.

9 pessoas leram e discordaram:

Diego Raigorodsky disse...

Nossa!!!!!

o que falar desse post??? MARAVILHOSO!!! FIDELISSIMO!!!! Ri mto... Mas é um riso, meio, para não chorar... Enfim... PERFEITO!

Scarlett on 20 de abril de 2005 18:17 disse...

Eu seria feliz se na faculdade de Letras tivesse nem que seja uma aulinha por semana em que deixassem a gente escrever o que quisesse e nos ensinassem a ser um pouquinho mais escritores do que meros criticos chupando o pau do antonio candido...ainda que fossem apenas meia hora em que nos permitissem sonhar escrito, em que nos dessem um mínimo apoio ou uma crítica mais construtiva que o mero olhar acadêmico que nos oprime com o comentário "isto é um lixo adolescente"....
E ainda penso voltar prá lá um dia....a faculdade me tornou masoquista.

Rodrigo on 20 de abril de 2005 19:18 disse...

Ai meu saco... Relaxa, Flavinho, ano que vem você já vai ter se acostumado, como eu.
Ah, duas coisas:
1ª: essa de soletrar Hjelmslev é minha! Seu plageadorzinho maltido from hell do inferno (não o do JOHN Milton)
2ª: Ah, meu caro, você falando sobre pedantismo é quase triste!

Notei outra coisa: já vão começar a babar as suas bolas aqui também?

Te amo! Beijo!

Lady Drago disse...

Comments? Tá, lá vai:
- o carinha tá se exibindo prá alguém da sala de aula, pode ter certeza! (Sim, eu já passei por isso: o carinha se metia em toda e qqr explicação do professor, por
minha causa... dava vontade d trucidar!!)
- eu pronunciava "slév" pq nunk tinha escutado alguém falar dele, então nunk soube como se dizia! (Tb só fui descobrir q ele é dinamarquês por tua causa! Sim,
MorningStar tb é cultura!)
- exibidos n tomam chá de "simancol", eles acham, realmente, q tão agradando!
- n, a pergunta n é cruel! é só q, no mundo em q vivemos, está cada vez mais difícil alguém parar e se
dar o trabalho de escrever (sabe o ATO DE ESCREVER? Pegar papel, caneta..., ter idéia e conseguir
transcrevê-la claramente?)
- concordo ctgo sobre a "bactéria" q n sabe o q é pretérito-mais-que-perfeito! Na verdade eu até te
ajudava!!
- será q tu poderia traduzir o qr dzr "Lebenswelt" (se traduzir "Assiah" já tá de bom tamanho...!) para uma pobre mortal como eu, q n nm sabe alemão - é
alemão, né? - nm está por dentro dos termos cabaísticos?


(hihihihihihi!!)

Bjks, qriduxo!

=D
(Adorei)

Teka Bileski on 23 de abril de 2005 13:49 disse...

Já te falei que te amo pra sempre?

E que estou com saudades?

Como está o seu começo de semana?
Me dê horários da sua segunda e da sua terça. Te contei que vou embora essa semana? =(

Beijos.

Shell.

Thá Poli on 23 de abril de 2005 18:59 disse...

Hahaha!
Que tuuudo! Muito engraçado esse texto, Roller!
Parabéns!
Bjksss

Marcela disse...

Flavinho Flavinho...
Inegável sua capacidade de articulação... ela é muito mais q altíssima... parabéns pelos escritos, mas não use das táticas dos idiotas para criticar os mesmos... hehehe beijão querido...

Marcela again disse...

Li denovo
Meu ta mto foda apesar da intolerancia... Mas eu so capaz d conviver com ela... no meu mundo tem espaço pra vc hehe mas pra um Flávio só hehehe dois seria demais...
A e adorei essa da Scarlet... to cansada de chupar o pau do Antonio Candido... hehe

fabbio on 30 de junho de 2005 20:10 disse...

querido flávio... tive a feliz chance, no TBC, de bater um breve papo com o antônio cândido. ele esperava o transporte pra casa - um taxi. falamos de coisas corriqueiras - alguns colegas de trabalho achavam q confabulava uma orientação - e realmente o homem merece respeito, pq a bajulação em cima dele q é brutal, esmagadora, não deveria obscurecer seu passado. o cara viveu numa época complicada, em q as coisas tiveram q ser construídas, literalmente - pra depois as bibas francesas desconstruirem. a obra dele tem valor, sim, e influenciou e abriu caminho pra muita gente. infelizmente pessoas desprovidas de talento se escoram na obra e no pensamento - isso ocorre em toda a usp. mas uma coisa asseguro: o homem continua firme em seus pensamentos e tem uma capacidade de reflexão e crítica estraordinária - e note bem como pessoas importantes estão desaparecendo sem q se faça a devida ou proporcional reposição. ele está muito velhinho, mereceria mais respeito, sinceramente... vc sabe q não tenho a mínima simpatia pela usp, mas algumas pessoas q ajudaram a construir o prestígio do qual a usp goza e q muitos usufruem como se estivessem num clube, é resultado de um puta esforço - nada do q está ali foi gratuito. as suas observações são divertidas, mas também pecam por não serem tolerantes. é preciso muita paciência com as pessoas pra poder chegar a algum lugar... e o primeiro ano (bem, eu não sei como se marca o tempo na usp, mas façamos uso de uma marcação utilizada pela parte ocidental do mundo) tem muita... basófia, pedantismo, cretinice aguda, bajulação, etc.

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