Nunca ouvi falar nesse tal Michel Teló e recusarei clicar em links em que sua música apareça. Para manter um padrão salubre de genialidade e modéstia, é preciso ocupar os bytes do cérebro com exímia mesura. A revista Época trollou geral e afirmou que o patrício é representante da cultura brasileira, engatilhando uma quizumba violenta no Twitter, em que indignados brasileiros defensores aguerridos da verdadeira cultura nacional iniciaram uma caça às bruxas de proporções mccarthystas tentando dessassociar-se do cantor.
Aposto que toda essa galera vive enfurnada em bibliotecas estudando esmeradamente as obras dos maiores filósofos brasileiros, de Tobias Barreto a Benedito Nunes. Não poderia haver motivo maior para o queixume. (e ignore-se aqui o quanto os autores da matéria, que devem conhecer mais de cultura brasileira do que 90% dos que se ofenderam com ela, devem estar rolando no chão em derrisão pela missão cumprida)
Desde pequeno, aprendi muito sobre a cultura brasileira. A primeira coisa é que a cultura brasileira com CU maiúsculo questiona o que é a cultura brasileira o tempo todo - seja na faculdade, no Facebook ou no Centro de Mídia Independente. Você identifica um "culto" modelo 68 zerinho, e tá ele lá, fazendo "leituras críticas". Eles estão sempre "questionando" o que lêem.
É difícil ler o texto de um caboclo desses sem questionar o que é sujeito, o que é verbo e o que é predicado. Seu modus operandi de encontrar "influências" e "relações de poder" ocultas ao leitor mongolóide comum
(é com você que eles estão falando, leitor mongolóide) é um eterno espatifar da sintaxe, para que seus cupinchas acadêmicos a recoloquem no lugar e basbaques lescionandos deixem seus queixos caírem como se pesassem uma tonelada diante de seus mestres-Mister M's com M maiúsculo. Como também precisam de um michê do bolo repartido, igualmente cuidam de escrever num modo "questionador" para que suas garatujas só possam ser lidas com ajuda de outros professores do mesmo partido. Faz parte da Síndrome October, que Roger Kimball identificou lendo os, ahn... "textos" de revistas acadêmicas "culturais" e cabeça, mormente a October (cf. Radicais nas Universidades, da ed. Peixoto Neto).
Ontem mesmo li um texto intelectual em que Maurício Tragtenberg observa "que a universidade não é neutra", que "o saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder", que a "estrutura burocrática e autoritária [da Universidade] fortalece a ordem e o poder" e que, "dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática". Um discurso bem bonito pra quem nunca pisou numa Universidade e percebeu que lá ninguém tem cultura alguma, a não ser reproduzir, de uma linha de produção fordista-stalinista, esse discurso de questionar a própria Universidade e não ter um único pensamento que o professor do seu professor já não teve em maio de 1968. Modelo intacto, muita quilometragem mas lataria intacta, único dono porque só se tem coletivismo com o discurso de poder do outro, tanque quase cheio, tratar aqui.
A cultura, a galera e o bode
Mas há outra coisa da cultura brasileira que aprendi na escola. Se você corre riscos de perder uma disputa, pegue de galera. O brasileiro é coletivista até pra dar porrada. Eu, que era adiantado (e, portanto, sempre mais fraco que meus colegas), mesmo assim quase nunca apanhei no mano a mano - simplesmente porque nunca vi uma briga antes dos 8 anos sem parecer que eu tinha entrado com farda do BOPE ou uma camiseta 100% branco num baile funk.
Troca-se a natureza das disputas, mas nunca o meio. É a cultura nacional. O que são Trending Topics? Briga de galera. Como se discute qual música é melhor, se rock ou MPB? Pelo tamanho do público. O que é uma assembléia na USP onde você pode expor sua opinião "democraticamente"? Briga de galera. O que é discutir política na base do "nós somos a maioria, portanto estamos certos"? Apenas isso: nunca partir pra porrada em menor número. (eu, fracote que era, fiquei bastante surpreso ao perceber que ganhei as 3 únicas lutas de UFC versão uniforme de escola que tive contra caras maiores do que eu quando foi no modelo 2 homens entram, um sai).
Isso foi explicado pelo filósofo e historiador René Girard, considerado o "Darwin das ciências humanas" de maneira bem simples, no núcleo de sua teoria: o bode expiatório. Se a história da humanidade é a história da violência, como definiu Eric Voegelin, a natureza dessa violência é a união de uma tribo contra um bode expiatório, que, numa demonização de religiosidade primitiva, é entendido como portador de todos os pecados, e se você quer fazer parte do grupo dominante em questão, precisa, antes de qualquer característica positiva em comum com o grupo, ter um inimigo em comum.
Claro que se pode cair na Lei de Godwin e pensar que os nazistas são lembrados mais por serem anti-semitas (sorry, sr. Novo Acordo Ortográfico, recuso-me a escrever "antiSSemita" com SS) do que por se considerarem "arianos". Além de não emitirem opinião alguma sobre os latinos (que qualquer darwinista de botequim sabe serem povos mais miscigenados com mouros e meio mundo vindo da Turquia do que qualquer coisa), consideraram até os japoneses "arianos por excelência" apenas em troca de ajuda militar. Mas é fácil olhar pro longínquo já fartamente estudado em minudências e esquecer de olhar pro próprio umbigo.
Você quer ser um brasileiro crítico, cabeça, desses que podem reclamar de qualquer misconception sobre a verdadeira cultura brasileira? Relembrando o finado blog Coisa de idiota, faz bem criticar Paulo Coelho. É literatura marginal, coisa de perdedor que acredita em auto-ajuda misturada com demônios. E o Maluf? Cara, Paulo Maluf é corrupto. Onde já se viu esse cara ser tão rico e ter contas em paraísos fiscais? Pode ter certeza de que não voto nele. E a Rede Globo? Pelamordedeus, não assisto aquilo por nada. É alienante. As novelas são muito ruins. Viu como sou crítico e intelectual? Com uma citação de Nietzsche ou Freud já consigo até montar um blog sozinho. Em uns 8 meses repetindo essa papagaiada ad nauseam, posso até pedir financiamento pro governo. Tenho um discurso crítico das relações de poder, afinal.
Pouco muda com o tempo, mas a falta de requisitos pra entrar no clube dos manda-chuvas é basicamente ter uma nêmesis em comum. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Lembro sempre de um ensaio de
Ortega y Gasset falando sobre esporte (já comentei no Implicante), onde o exímio filósofo espanhol demonstra que o desporto é o primeiro ato civilizatório do homem: a primeira manifestação de regras que exigem um comportamento adequado em busca de uma ética e de um fair play (expressão cunhada por Shakespeare, diga-se) onde supõe-se que o homem agirá pela "violência" do seu corpo. A civilização não surge graças a alguém compor uma Nona Sinfonia (que duvido que alguém reconheça as 3 primeiras notas) e parar de se preocupar com Michel Teló. A civilização surge com uma tribo se unindo para roubar mulheres da tribo alheia e impondo regras para saber o que fazer com os espólios.
Os dois últimos anos foram marcados por Restart nos Trending Topics quase todo dia. Era falar mal de alguma banda ou música qualquer no Twitter e imediatamente apareciam pelo menos uns 4 replies: "Ah, é, mas ainda é melhor do que Restart, já pensou?". Ouvi Restart por menos do que 15 segundos na vida. Quer saber? Não lembro de nada, mas achei bem melhor do que Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii (nem se fala!), Ira!, Tribalistas e muitas outras coisas que vocês às vezes cantarolam no trânsito sem medo de serem felizes.
Apenas tacaram um anátema sobre Restart mais por causa da viadice, das roupas ridículas e do marketing por cima e... caíram no mesmo marketing que os torna cada dia mais famosos entre uma galera que não conhece Pink Floyd e King Crimson (e aqui cabem duas perguntas: 1) vocês conhecem? 2) tem mesmo certeza que aquele seu amigo de 43 anos que toca cover de Jethro Tull e Genesis não pensou a mesmíssima coisa de Poison, Twisted Sister e Guns 'n' Roses, que você ouviu sua adolescência inteira desavergonhadamente?).
Só pra ficar no rock, quem critica Michel Teló (não quero nem saber se é axé, funk, pagode, whatever the fuck ever)
também costuma dividir-se entre a galera que curte Beatles (com seus hits intelectualíssimos como Help e She Loves You, que também não passam de 5 versos ridículos de ruins com menos de 3 acordes), e fãs de Ramones, cuja importância pra música foi permitir que seu primo com retardo mental se ache gênio da música gritando "Hey, ho!" enquanto seus amiguinhos com contato nulo com uma vagina berram de volta: "Let's go!". Quantas festas você já foi em que não tocaram Ramones? E você reclama de emos e de NX Zero?
Isso pra não envolver outros gêneros. Metade dos indignados de 140 caracteres reclamando da capa da Época hoje dançavam Claudinho e Buchecha colocando a mão no nariz como se estivessem catarrando em público e balançando a bunda feito uma gelatina num terremoto em festinhas junto às tias solteironas e achavam lindo há uns 15 anos. E agora que vocês já ouviram falar nessa tal internet, já flagraram a Marisa Monte, um produto da "riquíssima" MPB, "música de valor", falando sobre qualquer tema que não seja arrastar a sandália até gastar? Você acha mesmo ruim que Michel Teló represente nossa cultura e dança Ivete Sangalo e aquela outra genérica que não lembro o nome cada vez que fica bêbado junto aos amigos?
Pra piorar o que já está ruim, também bufaram contra o fato de que Michel Teló ter sido comparado a Carmen Miranda na "exportação cultural" brasileira. Fui condicionado desde tenra idade a honrar os grandes nomes de nossa cultura do passado. Era uma época difícil de ter contato com essas coisas, mas juravam que Carmen Miranda, Zé Carioca e chorinho fossem coisas de inestimável valor. Alguém aí já viu a Carmen Miranda no Youtube? Só não dá pra dizer que é uma bosta porque é uma ofensa a muitas fezes de respeito! Se você reclama da exportação brasileira de bananas e bundas balangantes incapazes de pronunciar mais do que uma consoante por palavra, não culpe o Mc Catra e o Bonde do Tigrão, pois estes são conseqüências: a causa é Carmen Miranda!
Cultos e grossos, civilizados e bárbaros
Urge também entender exatamente o que é "cultura", se se está tão preocupado em proteger a "cultura" brasileira. O Gravataí já explicou um pouco - vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.
"Cultura" vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo - diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe,
aquele que segue as leis da cidade - e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.
A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como "arte", gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, "cultura" e "arte" são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas - e, assim, misturamos "cultura" com "alta cultura", e "arte" com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.
Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.
É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos "legados" culturais brasileiros à humanidade - e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa "musiquinha do gás". Mas quando a Liquigas troca por ISSO, ninguém reclama.
Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição "de cima", quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de "multiculturalismo", bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores "machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas" do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:
"Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell's Angels, os neofascistas ou os cientologistas."
A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é "pedra bruta".
Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado "cultura ocidental" é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém... pela ironia e auto-crítica dos antigos.
Vide este tweet hodierno do Gravz: "Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE." O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado - o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o "jeitinho brasileiro") que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.
É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização - mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!
O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de "Ocidente". Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N'Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.
Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato que eles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas - e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.







Assim, mutatis mutantis, fica claro que a discussão sobre aborto se restringir às mulheres seria uma idéia até justificável. Afinal, o corpo é propriedade delas, e o embrião, infinitamente mais delas do que do genitor. Mas, se as mulheres sofrem injustamente com a gestação (e não adianta culpar os homens, culpem apenas Deus), é uma questão de saúde pública. Não há por que excluir os homens da discussão. Uma saída apontada via de regra é que homens podem discutir, mas só as mulheres podem decidir. Aposto 10 contra 1 que esse argumento vem sempre de mulheres que, quando engravidam, exigem amor paterno de seus parceiros - então, por que a discussão sobre o futuro dos rebentos seria decidível apenas por mulheres?
e depois um bebê, sem precisar da barriga da mulher. Então, a mulher não vai mais sofrer tais paixões (o sentido inicial de "sofrimento"; cf. Aristóteles), e nada vai mudar pro embrião. Aí, parece que a discussão não ficaria mais restrita às mulheres. Mas, se nada mudaria para o embrião, por que de repente a discussão pôde mudar de pessoas "possíveis" de discutirem? Enquanto isso, veríamos um embrião, numa incubadora transparente, cada vez mais parecido com um bebê, e onde ficaria a propriedade da mulher sobre uma vida?
Mas ainda que o fosse, recaímos no mesmo problema "ignore-se o feto", mesmo partindo daqueles que mais julgam defendê-lo: se defendem o feto contra mães irresponsáveis, ou devem obrigar mulheres estupradas a terem filhos de estupradores, ou não podem ser favoráveis ao aborto para vítimas de estupro. Ora, mulher estuprada ou não, o feto é "vida", e não pode ser culpado pelo crime do pai, não? Ou alguém defende que filhos de estupradores sofram pena de morte? Que a família de homicidas cumpram pena de prisão junto com o criminoso? O feto nada tem a ver com isso - se é possível defender o argumento para o aborto de feto decorrente de estupro, significa que é possível defender para o feto que não surge decorrente de um estupro. Não há outra opção - tertium non datur.
Central e Periférico em atividade não pode ser considerado vida. Nas aulas de Neuroanatomia e Neurofisiologia entendemos como o organismo inteiro precisa deles para qualquer reação daquilo que chamamos vida - não à toa que é o que temos em comum tanto com um macaco quanto com um peixe ou mesmo o a mais rudimentar forma de vida pluricelular que não seja um fungo. Imagine então o que é a tal "consciência": retire o bulbo e o que se verá será um acidente da natureza, felizmente incapaz de sentir a dor que é ser um acidente.
dignos de conquistar idealistas que julgam que a vida é uma "alma" exterior ao corpo ou coisa parecida - não convence nem os vitalistas (filosofia a qual muito me apetece), de que a vida não é nem pura matéria, nem uma idéia anterior à sua materialização, estando mais na própria organização da espécie e sua individualização. O risco de cometer um "assassinato" aqui derivaria, então, de qualquer coisa além da matéria - visto que a matéria conhecemos bem qual é até os 3 meses de gestação.
Sobra o último recurso desesperado de dizer que, se liberarem o aborto, ele vai se tornar o método contraceptivo mais comum, e milhões de abortos serão cometidos por mês por adolescentes irresponsáveis. Alguém que já viu uma cirurgia de aborto não precisaria de mais de 15 segundos para enfiar esse argumento longe do olhar dos telespectadores. E em praticamente todo país ocidental em que o aborto foi liberado, o número de abortos caiu - mas manteve vivas as mulheres, que tanto morrem em decorrência da operação - ressaltando que no Brasil, mesmo em caso de estupro preferem clínicas clandestinas. São estes os tais pró-vida?








mais geral e no nível em que presentemente se encontra a geléia consciente-de-si, vemos que essa foi além da vida substancial que antes levava no elemento do pensamento; além dessa imediatez de sua fé, além da satisfação e segurança da certeza que a consciência possuía devido à sua reconciliação com a essência e a presença universal dela - interior e exterior. A Geléia não só foi além - passando ao outro extremo da reflexão, carente-de-substância, de si sobre si mesmo - mas ultrapassou também isso. Não somente está perdida para ele sua vida essencial; está também consciente dessa perda e da finitude que é seu conteúdo. [Como o filho pródigo], rejeitando os restos da comida, confessando sua abjeção e maldizendo-a, a geléia agora exige da filosofia não tanto o saber do que ele é, quanto resgatar, por meio dela, aquela substancialidade e densidade do ser [que tinha perdido].
itativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, a geléia que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronasse gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo.
O indivíduo, cuja substância é a geléia situada no mais alto, percorre esse passado da mesma maneira como quem se apresta a adquirir uma ciência superior, percorre os conhecimentos-preparatórios que há muito tem dentro de si, para fazer seu conteúdo presente; evoca de novo sua rememoração, sem no entanto ter ali seu interesse ou demorar-se neles. O singular deve também percorrer os degraus-de-formação-cultural da geléia universal, conforme seu conteúdo; porém, como figuras já depositadas pela geléia, como plataformas de um caminho já preparado e aplainado. Desse modo, vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam a geléia madura dos homens, serem rebaixados a exercícios - ou mesmo a jogos de meninos; assim pode reconhecer-se no progresso pedagógico, copiada como em silhuetas, a história da geléia do mundo. Esse ser-aí passado é propriedade já adquirida da geléia universal e, aparecendo-lhe assim exteriormente, constitui sua natureza inorgânica. Conforme esse ponto de vista, a formação cultural considerada a partir do indivíduo consiste em adquirir o que lhe é apresentado, consumindo em si mesmo sua natureza inorgânica e apropriando-se dela. Vista porém do ângulo da geléia universal, enquanto é a substância, a formação cultural consiste apenas em que essa substância se dá a sua consciência-de-si, e em si produz seu vir-a-ser e sua reflexão.





