terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Michel Teló: a cultura das massas e aquela outra lá

Nunca ouvi falar nesse tal Michel Teló e recusarei clicar em links em que sua música apareça. Para manter um padrão salubre de genialidade e modéstia, é preciso ocupar os bytes do cérebro com exímia mesura. A revista Época trollou geral e afirmou que o patrício é representante da cultura brasileira, engatilhando uma quizumba violenta no Twitter, em que indignados brasileiros defensores aguerridos da verdadeira cultura nacional iniciaram uma caça às bruxas de proporções mccarthystas tentando dessassociar-se do cantor.

Michel-Telo-Capa-Revista-Epoca.jpgAposto que toda essa galera vive enfurnada em bibliotecas estudando esmeradamente as obras dos maiores filósofos brasileiros, de Tobias Barreto a Benedito Nunes. Não poderia haver motivo maior para o queixume. (e ignore-se aqui o quanto os autores da matéria, que devem conhecer mais de cultura brasileira do que 90% dos que se ofenderam com ela, devem estar rolando no chão em derrisão pela missão cumprida)

Desde pequeno, aprendi muito sobre a cultura brasileira. A primeira coisa é que a cultura brasileira com CU maiúsculo questiona o que é a cultura brasileira o tempo todo - seja na faculdade, no Facebook ou no Centro de Mídia Independente. Você identifica um "culto" modelo 68 zerinho, e tá ele lá, fazendo "leituras críticas". Eles estão sempre "questionando" o que lêem.

É difícil ler o texto de um caboclo desses sem questionar o que é sujeito, o que é verbo e o que é predicado. Seu modus operandi de encontrar "influências" e "relações de poder" ocultas ao leitor mongolóide comumcult bauman.jpg (é com você que eles estão falando, leitor mongolóide) é um eterno espatifar da sintaxe, para que seus cupinchas acadêmicos a recoloquem no lugar e basbaques lescionandos deixem seus queixos caírem como se pesassem uma tonelada diante de seus mestres-Mister M's com M maiúsculo. Como também precisam de um michê do bolo repartido, igualmente cuidam de escrever num modo "questionador" para que suas garatujas só possam ser lidas com ajuda de outros professores do mesmo partido. Faz parte da Síndrome October, que Roger Kimball identificou lendo os, ahn... "textos" de revistas acadêmicas "culturais" e cabeça, mormente a October (cf. Radicais nas Universidades, da ed. Peixoto Neto).

Ontem mesmo li um texto intelectual em que Maurício Tragtenberg observa "que a universidade não é neutra", que "o saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder", que a "estrutura burocrática e autoritária [da Universidade] fortalece a ordem e o poder" e que, "dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática". Um discurso bem bonito pra quem nunca pisou numa Universidade e percebeu que lá ninguém tem cultura alguma, a não ser reproduzir, de uma linha de produção fordista-stalinista, esse discurso de questionar a própria Universidade e não ter um único pensamento que o professor do seu professor já não teve em maio de 1968. Modelo intacto, muita quilometragem mas lataria intacta, único dono porque só se tem coletivismo com o discurso de poder do outro, tanque quase cheio, tratar aqui.

A cultura, a galera e o bode

Mas há outra coisa da cultura brasileira que aprendi na escola. Se você corre riscos de perder uma disputa, pegue de galera. O brasileiro é coletivista até pra dar porrada. Eu, que era adiantado (e, portanto, sempre mais fraco que meus colegas), mesmo assim quase nunca apanhei no mano a mano - simplesmente porque nunca vi uma briga antes dos 8 anos sem parecer que eu tinha entrado com farda do BOPE ou uma camiseta 100% branco num baile funk.

Troca-se a natureza das disputas, mas nunca o meio. É a cultura nacional. O que são Trending Topics? Briga de galera. Como se discute qual música é melhor, se rock ou MPB? Pelo tamanho do público. O que é uma assembléia na USP onde você pode expor sua opinião "democraticamente"? Briga de galera. O que é discutir política na base do "nós somos a maioria, portanto estamos certos"? Apenas isso: nunca partir pra porrada em menor número. (eu, fracote que era, fiquei bastante surpreso ao perceber que ganhei as 3 únicas lutas de UFC versão uniforme de escola que tive contra caras maiores do que eu quando foi no modelo 2 homens entram, um sai).

girard_bodeexpiatorio.jpg Isso foi explicado pelo filósofo e historiador René Girard, considerado o "Darwin das ciências humanas" de maneira bem simples, no núcleo de sua teoria: o bode expiatório. Se a história da humanidade é a história da violência, como definiu Eric Voegelin, a natureza dessa violência é a união de uma tribo contra um bode expiatório, que, numa demonização de religiosidade primitiva, é entendido como portador de todos os pecados, e se você quer fazer parte do grupo dominante em questão, precisa, antes de qualquer característica positiva em comum com o grupo, ter um inimigo em comum.

Claro que se pode cair na Lei de Godwin e pensar que os nazistas são lembrados mais por serem anti-semitas (sorry, sr. Novo Acordo Ortográfico, recuso-me a escrever "antiSSemita" com SS) do que por se considerarem "arianos". Além de não emitirem opinião alguma sobre os latinos (que qualquer darwinista de botequim sabe serem povos mais miscigenados com mouros e meio mundo vindo da Turquia do que qualquer coisa), consideraram até os japoneses "arianos por excelência" apenas em troca de ajuda militar. Mas é fácil olhar pro longínquo já fartamente estudado em minudências e esquecer de olhar pro próprio umbigo.

girard_criticasubsolo.jpg Você quer ser um brasileiro crítico, cabeça, desses que podem reclamar de qualquer misconception sobre a verdadeira cultura brasileira? Relembrando o finado blog Coisa de idiota, faz bem criticar Paulo Coelho. É literatura marginal, coisa de perdedor que acredita em auto-ajuda misturada com demônios. E o Maluf? Cara, Paulo Maluf é corrupto. Onde já se viu esse cara ser tão rico e ter contas em paraísos fiscais? Pode ter certeza de que não voto nele. E a Rede Globo? Pelamordedeus, não assisto aquilo por nada. É alienante. As novelas são muito ruins. Viu como sou crítico e intelectual? Com uma citação de Nietzsche ou Freud já consigo até montar um blog sozinho. Em uns 8 meses repetindo essa papagaiada ad nauseam, posso até pedir financiamento pro governo. Tenho um discurso crítico das relações de poder, afinal.

Pouco muda com o tempo, mas a falta de requisitos pra entrar no clube dos manda-chuvas é basicamente ter uma nêmesis em comum. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Lembro sempre de um ensaio de ortega_critica.jpg Ortega y Gasset falando sobre esporte (já comentei no Implicante), onde o exímio filósofo espanhol demonstra que o desporto é o primeiro ato civilizatório do homem: a primeira manifestação de regras que exigem um comportamento adequado em busca de uma ética e de um fair play (expressão cunhada por Shakespeare, diga-se) onde supõe-se que o homem agirá pela "violência" do seu corpo. A civilização não surge graças a alguém compor uma Nona Sinfonia (que duvido que alguém reconheça as 3 primeiras notas) e parar de se preocupar com Michel Teló. A civilização surge com uma tribo se unindo para roubar mulheres da tribo alheia e impondo regras para saber o que fazer com os espólios.

Os dois últimos anos foram marcados por Restart nos Trending Topics quase todo dia. Era falar mal de alguma banda ou música qualquer no Twitter e imediatamente apareciam pelo menos uns 4 replies: "Ah, é, mas ainda é melhor do que Restart, já pensou?". Ouvi Restart por menos do que 15 segundos na vida. Quer saber? Não lembro de nada, mas achei bem melhor do que Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii (nem se fala!), Ira!, Tribalistas e muitas outras coisas que vocês às vezes cantarolam no trânsito sem medo de serem felizes.

Apenas tacaram um anátema sobre Restart mais por causa da viadice, das roupas ridículas e do marketing por cima e... caíram no mesmo marketing que os torna cada dia mais famosos entre uma galera que não conhece Pink Floyd e King Crimson (e aqui cabem duas perguntas: 1) vocês conhecem? 2) tem mesmo certeza que aquele seu amigo de 43 anos que toca cover de Jethro Tull e Genesis não pensou a mesmíssima coisa de Poison, Twisted Sister e Guns 'n' Roses, que você ouviu sua adolescência inteira desavergonhadamente?).

Só pra ficar no rock, quem critica Michel Teló (não quero nem saber se é axé, funk, pagode, whatever the fuck ever)poison_group.jpg também costuma dividir-se entre a galera que curte Beatles (com seus hits intelectualíssimos como Help e She Loves You, que também não passam de 5 versos ridículos de ruins com menos de 3 acordes), e fãs de Ramones, cuja importância pra música foi permitir que seu primo com retardo mental se ache gênio da música gritando "Hey, ho!" enquanto seus amiguinhos com contato nulo com uma vagina berram de volta: "Let's go!". Quantas festas você já foi em que não tocaram Ramones? E você reclama de emos e de NX Zero?

Isso pra não envolver outros gêneros. Metade dos indignados de 140 caracteres reclamando da capa da Época hoje dançavam Claudinho e Buchecha colocando a mão no nariz como se estivessem catarrando em público e balançando a bunda feito uma gelatina num terremoto em festinhas junto às tias solteironas e achavam lindo há uns 15 anos. E agora que vocês já ouviram falar nessa tal internet, já flagraram a Marisa Monte, um produto da "riquíssima" MPB, "música de valor", falando sobre qualquer tema que não seja arrastar a sandália até gastar? Você acha mesmo ruim que Michel Teló represente nossa cultura e dança Ivete Sangalo e aquela outra genérica que não lembro o nome cada vez que fica bêbado junto aos amigos?

Carmem-Miranda.JPGPra piorar o que já está ruim, também bufaram contra o fato de que Michel Teló ter sido comparado a Carmen Miranda na "exportação cultural" brasileira. Fui condicionado desde tenra idade a honrar os grandes nomes de nossa cultura do passado. Era uma época difícil de ter contato com essas coisas, mas juravam que Carmen Miranda, Zé Carioca e chorinho fossem coisas de inestimável valor. Alguém aí já viu a Carmen Miranda no Youtube? Só não dá pra dizer que é uma bosta porque é uma ofensa a muitas fezes de respeito! Se você reclama da exportação brasileira de bananas e bundas balangantes incapazes de pronunciar mais do que uma consoante por palavra, não culpe o Mc Catra e o Bonde do Tigrão, pois estes são conseqüências: a causa é Carmen Miranda!

Cultos e grossos, civilizados e bárbaros

Urge também entender exatamente o que é "cultura", se se está tão preocupado em proteger a "cultura" brasileira. O Gravataí já explicou um pouco - vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.

"Cultura" vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo - diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe, condicao urbana.jpg aquele que segue as leis da cidade - e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.

A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como "arte", gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, "cultura" e "arte" são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas - e, assim, misturamos "cultura" com "alta cultura", e "arte" com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.

Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.

eagleton_deus.jpg É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos "legados" culturais brasileiros à humanidade - e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa "musiquinha do gás". Mas quando a Liquigas troca por ISSO, ninguém reclama.

Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição "de cima", quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de "multiculturalismo", bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores "machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas" do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:

"Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell's Angels, os neofascistas ou os cientologistas."

A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é "pedra bruta". marioferreira_logica.jpg Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado "cultura ocidental" é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém... pela ironia e auto-crítica dos antigos.

Vide este tweet hodierno do Gravz: "Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE." O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado - o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o "jeitinho brasileiro") que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.

É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização - mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!

O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de "Ocidente". Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N'Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.

Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato que eles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas - e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.

breakingbad.jpg

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DENÚNCIA GRAVE NA USP

Graves denúncias surgiram contra os estudantes fura-greves da USP nessa semana. O relato acusa os fura-greves de serem "pró-polícia e fascistas", por ninguém menos do que a nossa Musa do Lixo da greve de abril, com a mesma voz, mas o cabelo, ah, quanta diferença...

Consta na gravíssima denúncia que mulheres, no "processo de mobilização e greve que passamos em nosso curso" (sic), sofreram agressões do gênero "machismo" e "misoginia". É de se pensar que a elite intelectual das Humanidades brasileira, aquela que se orgulha de estar entre as DUZENTAS melhores faculdades do mundo (e ainda errando a conta), todas adultas, maduras, críticas da sociedade de consumo, não-alienadas, antenadas, atualizadas, cultas e vacinadas não vão se ofender com pouca merda. Tem de ser AGRESSÃO com pau maiúsculo pra deixar as moças cabreiras. Algo como uma voadora giratória no saco. Vejam só esse exemplo (cuidado, imagem forte, chocante e pingando sangue):

print flavio feminismo.jpg

Como se vê, é preciso mesmo muita violência para fazer com que uma mulher pertencente à elite intelectual se sinta agredida. Essas daí não são atingidas pelo que vem de baixo.

Uma das agredidas, rosto coberto para não mostrar os hematomas para o pessoal de casa, tascou logo a seguir que não deixaria impune e iria denunciar esse tipo de agressão extrema e sanguinária. Denunciar ao Ministério Público o crime de MACHISMO, que não consegui encontrar a tipificação no Código Penal? Não. ELAS ESTÃO SE LIXANDO PARA A LEI BURGUESA. Iriam denunciar é para o Coletivo de Mulheres da Letras! Após uma sugestão, uma ainda acatou: nada de Ministério Público para receber a denúncia de negaçao de contrato da ex-letranda como empregada ali (MACHISMO!!!): iriam mesmo era denunciar o machista flagrante para Lola Aronovich - aquela, que defende estupro em moças de 13 anos, agora alçada a poder de polícia da Stasi feminista.

Conforme uma delas mesmo relatou: "É o agredido que tem de saber quando foi agredido", como qualquer um sabe, quando encontra pentelhos de estro próprio em sua sopa em restaurantes, exigindo abatimentos pela agressão. O que justifica que, além de acusarem até homossexuais assumidos de "machismo" (talvez também "misoginia", em um uso pouco ortodoxo do termo), tenham feito esse maravilhoso cartaz-denúncia:

coletivo feminista.jpg

Melhor frase para começar, impossível. A cada dia, 10 mulheres são assassinadas no Brasil. Não se esqueça de que todas elas começaram sua sevícia com a gigantesca AGRESSÃO de não serem contratadas sequer para empregadas após serem jubiladas depois de perderem a vaga do curso por estarem fazendo "greve" discente (ignorando-se que estudante, não sendo trabalhador, não faz greve: como se recusa a receber um serviço, faz um boicote).

ISSO TEM QUE MUDAR. A violentíssima agressão contra mulheres não pode continuar impune desse jeito! Onde já se viu não contratarem uma estudante grevista que não concluiu o curso como faxineira?! Esse patriarcalismo não pode continuar desse jeito!

Mas a denúncia mais grave vem a seguir. Uma moça, num dos dias de greves com piquetes (a saber: uma mesa com duas grevistas sentadas em cima), foi para a faculdade acompanhada do pai. Impedida que fora pelo piquete de exercer seu livre direito de ir e vir ( Cárcere privado! Cárcere privado!!! ), seu pai cometeu o gravíssimo ato de... retirar o piquete, com grevistas junto, no braço! Uma enorme afronta à democracia e o direito de democraticamente votar, na calada da noite, por atitudes fascistas! Onde esse mundo vai parar? Isso foi demais. O Coletivo de Mulheres não deixou por menos e, além de denunciar à diretoria da FFLCH, à ADUSP e, autoritas autoritatem, à Frente Feminista da USP (e que se lasque a lei burguesa!), ainda registraram um Boletim de Ocorrência da violenta agressão sofrida:

feminismo BO.jpg

Então é isso aí, agora temos até B.O. contra os não-grevistas! E isso tem que mudar. Se o patriarcalismo continuar, as grevistas podem até... chamar a polícia!

émilie.jpg . rumo equivocado.jpg . sujeicao das mulheres.jpg

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Aborto: questão de coerência

A pauta do dia no Twitter é a descriminalização do aborto, com o Trending Topic #legalizaroaborto. Qualquer declaração minha irrita tanto feministas quanto conservadores. Se feministas e conservadores discordam de mim ao mesmo tempo, não preciso de muito mais para saber que já sou quase dono da verdade.

O aborto deveria ser uma discussão mais simples. Tudo deveria se dar em nome da coerência. Infelizmente, algo longe de ser alcançado, quando todas as discussões, ao invés de termos uma discussão que surge da linha lógica dos argumentos, temos uma repentina mutatio controversiae que surge de cima pra baixo, por um grupo de pessoas interessadas em defender uma causa contra outro grupo específico. Via de regra, é o que faz alguma coisa ir parar nos Trending Topics sem ninguém morrer ou passar pelo Congresso.

A defesa do aborto é uma agenda feminista há muito. O problema é óbvio: feministas, mesmo que acertem em algo, têm os piores argumentos possíveis. O mais comum e óbvio é o mais ridículo: a discussão sobre aborto deveria caber apenas às mulheres. Ora, o que esse dogma implica é que o embrião, aqui, é tratado como propriedade da mulher, por estar abrigado em seu corpo - e seu corpo é inviolável.

Seria um argumento interessante, se não fossem as feministas as campeãs do marxismo cultural, que procura justamente acabar com o direito de propriedade. Ou seja, com a propriedade alheia: se for sua própria propriedade, obviamente que ela deve ser defendida com unhas e dentes. Vejamos o que Murray Rothbard, um dos economistas ultraliberais mais brilhantes do século, teria a dizer:

"Não apenas não existem direitos humanos que não sejam também direitos de propriedade, como esses "direitos" perdem sua incondicionalidade e clareza e se tornam confusos e vulneráveis quando os direitos de propriedade não são usados como padrão."

abortion_feminism.pngAssim, mutatis mutantis, fica claro que a discussão sobre aborto se restringir às mulheres seria uma idéia até justificável. Afinal, o corpo é propriedade delas, e o embrião, infinitamente mais delas do que do genitor. Mas, se as mulheres sofrem injustamente com a gestação (e não adianta culpar os homens, culpem apenas Deus), é uma questão de saúde pública. Não há por que excluir os homens da discussão. Uma saída apontada via de regra é que homens podem discutir, mas só as mulheres podem decidir. Aposto 10 contra 1 que esse argumento vem sempre de mulheres que, quando engravidam, exigem amor paterno de seus parceiros - então, por que a discussão sobre o futuro dos rebentos seria decidível apenas por mulheres?

Óbvio que o objeto claro aqui é restringir a discussão a quem mais tem interesse em ver o aborto legalizado. Eu sou homem e não vejo seqüela de motivo para o aborto não ser legalizado. Mas isso não quer dizer que acredite que essa discussão deva ser deixada apenas às mulheres. Aliás, por que as mulheres poderiam então usar os meus argumentos, mas simplesmente ignorar os argumentos contrários ao aborto?

Alguém pode decobrir um meio de fazer o embrião virar um feto, abortionismurder.jpge depois um bebê, sem precisar da barriga da mulher. Então, a mulher não vai mais sofrer tais paixões (o sentido inicial de "sofrimento"; cf. Aristóteles), e nada vai mudar pro embrião. Aí, parece que a discussão não ficaria mais restrita às mulheres. Mas, se nada mudaria para o embrião, por que de repente a discussão pôde mudar de pessoas "possíveis" de discutirem? Enquanto isso, veríamos um embrião, numa incubadora transparente, cada vez mais parecido com um bebê, e onde ficaria a propriedade da mulher sobre uma vida?

Também urge ter cautela com a idéia de que a proibição não adianta nada. O problema não é não adiantar - a proibição do roubo, do estupro e do assassinato também não parece surtir efeitos muito grandiosos em certos lugares deste país. Esse argumento funciona se e somente se levarmos em conta o que acontece mesmo a uma mulher estuprada no país: a burocracia é tão complexa, mesmo em casos de aborto legal, que se prefere uma clínica clandestina - ou alguém aí acha que exame de corpo delito é mais delicioso que exame de próstata para uma mulher que acabou de ser estuprada?

Aí nos voltamos para o cllchê oposto, dos conservadores, aqueles que adoram confundir "descriminalização do aborto" com "obrigação do ato de abortar". A visão deles é de que toda gravidez indesejada é fruto de irresponsabilidade (uma simples reportagem sobre um acidente generalizado com anticoncepcionais por uma falha com uma empilhadeira que aconteceu na Pfizer seria suficiente pra mandar esse povo ir fazer um pouco mais de sexo na vida).

abortion_stop_coat-hanger.jpgMas ainda que o fosse, recaímos no mesmo problema "ignore-se o feto", mesmo partindo daqueles que mais julgam defendê-lo: se defendem o feto contra mães irresponsáveis, ou devem obrigar mulheres estupradas a terem filhos de estupradores, ou não podem ser favoráveis ao aborto para vítimas de estupro. Ora, mulher estuprada ou não, o feto é "vida", e não pode ser culpado pelo crime do pai, não? Ou alguém defende que filhos de estupradores sofram pena de morte? Que a família de homicidas cumpram pena de prisão junto com o criminoso? O feto nada tem a ver com isso - se é possível defender o argumento para o aborto de feto decorrente de estupro, significa que é possível defender para o feto que não surge decorrente de um estupro. Não há outra opção - tertium non datur.

O que conservadores querem é punir a mãe por sua vida sexual, que julgam pregressa. Assim, se uma suposta vagabunda promíscua engravida, o melhor a se fazer é lhe obrigar a ter um filho, pois um filho de uma vagabunda pregressa fatalmente a ensinará a ser uma esposa de família, casar, ir à igreja, não comer com os cotovelos sobre a mesa, que saiba cozinhar e ainda faça uma lasagna de primeira (já que esse povo não costuma gostar de um boquete caprichado). Exceção feita a quem quer obrigar mulheres estupradas a terem filhos - mas o simples sofrimento que uma mulher terá durante nove meses gestando o filho de quem a estupra já me parece argumento suficiente para não ligar para o sofrimento daquele amontoado de células - e aí, nem é porque as células são "filhas" de um estuprador que é lícito "puni-las".

Mas sempre sobra aquele argumento quejuram que não tem nada a ver com religião (e só religioso, óbvio, acredita). O argumento que diz que, se descriminalizarem o aborto, estarão liberando o assassinato.

Ora, a delimitação de onde começa a vida é bastante espinhosa (enquanto todo cristão do mundo não chegar a uma única conclusão em termos puramente biológica sobre vírus serem vida ou não, não deveriam nem tentar se aventurar em propriedade que não lhes pertence). De minha parte, por bonitinho que seja (e não é), um feto sem o Sistema Nervoso abortion_prolife.gifCentral e Periférico em atividade não pode ser considerado vida. Nas aulas de Neuroanatomia e Neurofisiologia entendemos como o organismo inteiro precisa deles para qualquer reação daquilo que chamamos vida - não à toa que é o que temos em comum tanto com um macaco quanto com um peixe ou mesmo o a mais rudimentar forma de vida pluricelular que não seja um fungo. Imagine então o que é a tal "consciência": retire o bulbo e o que se verá será um acidente da natureza, felizmente incapaz de sentir a dor que é ser um acidente.

Mas o problema é mais profundo: sendo vida ou não, não importa. Como diz o jurista e filósofo americano Ronald Dworkin, em Domínio da Vida (livro fundamental para a discussão sobre aborto e, mais complicado ainda, eutanásia), a vida tem graduações. Sabemos o que é mais horrendo: perder um filho com 8 meses de idade ou um filho com 8 anos. Da mesma forma, também a diferença de choque é cortante na morte de um idoso de 80 ou de um homem de 40, mesmo que seja pela mesma causa mortis. Não é algo subjetivo nem irracional: há razões para isso. Como afirmou os quadrinhos de James O'Barr, "A morte, assim como a virtude, tem suas graduações" (O Corvo).

Como se pode, então, santificar um feto com menos de 3 meses de gestação (o tempo para formação do sistema nervoso) como "vida", chamando de "assassinato" a interrupção de sua gestação, se a própria Natureza faz com que a maioria dos abortos espontâneos aconteçam exatamente nesse período - muitos deles sem a mulher ficar sabendo?

Fica-se então com o argumento doidivanas de que há uma "chance" do embrião ser vida, 50% sim e 50% não, e pelo sim, pelo não, melhor não correr o risco de matar alguém. Mais uma vez, a interpretação da palavra "vida" aqui vai mais para termos metafísicos, abortion-sends-babies-to-god-faster.jpgdignos de conquistar idealistas que julgam que a vida é uma "alma" exterior ao corpo ou coisa parecida - não convence nem os vitalistas (filosofia a qual muito me apetece), de que a vida não é nem pura matéria, nem uma idéia anterior à sua materialização, estando mais na própria organização da espécie e sua individualização. O risco de cometer um "assassinato" aqui derivaria, então, de qualquer coisa além da matéria - visto que a matéria conhecemos bem qual é até os 3 meses de gestação.

Sendo imaterial, já é uma questão a ser discutida diante dos portais de São Pedro. Não se pode punir uma pessoa por praticar um aborto por uma "possibilidade" de ter cometido um assassinato, ou mesmo impedir a realização do aborto nesses casos, por algo de domínio extra-material. Do contrário, teremos de punir o próprio Cristianismo por mandar tantas almas para o Inferno - e crime de tortura é imprescritível.

Vida como "matéria orgânica viva" existe até nas nossas cutículas. Levando todas as conseqüências desse argumento a sério, o único não homicida do país deverá ser o Zé do Caixão.

abortion_prochoice.jpgSobra o último recurso desesperado de dizer que, se liberarem o aborto, ele vai se tornar o método contraceptivo mais comum, e milhões de abortos serão cometidos por mês por adolescentes irresponsáveis. Alguém que já viu uma cirurgia de aborto não precisaria de mais de 15 segundos para enfiar esse argumento longe do olhar dos telespectadores. E em praticamente todo país ocidental em que o aborto foi liberado, o número de abortos caiu - mas manteve vivas as mulheres, que tanto morrem em decorrência da operação - ressaltando que no Brasil, mesmo em caso de estupro preferem clínicas clandestinas. São estes os tais pró-vida?

Esse recurso in extremis também aparece sob a forma de "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar o infanticídio", como disse meu amigo (gênio, porém crente) Filipe Martins. Para ele, um juiz canadense que confundiu os dois conceitos é uma prova de que há um risco enorme de mudarmos nossos valores assim que legalizarmos o aborto no maior país católico do mundo. Um argumento estranho, se a maioria dos países (até alguns países islâmicos) é mais liberal quanto ao aborto do que nós - se proibirmos o aborto para estupro e risco de morte à mãe teremos a mesma legislação da teocracia do Vaticano. Assim, só poderia crer que o Ocidente inteiro, tão defendido pelos conservadores como supra sumo do que deu certo no mundo, está em risco de legalizar o infanticídio - sobretudo os países mais desenvolvidos, ao contrário de nós, os eternos micróbios da geopolítica, graças, curiosamente, à esquerda.

Aí fica uma pseudo-lógica linear que só faz sentido na cabeça de fanático: Ou é "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar estupro, assassinato, latrocínio e filme da Carla Perez" (é cabível, mas é ridículo pensar nisso, pois também teríamos de proibir o Cristianismo por seus crimes), ou "se um bebê é um ser vivo, um embrião é um possível ser vivo, logo um espermatozóide é uma possibilidade de um ser vivo, logo um bebê tendo ejaculações [são milhões de espermatozóides perdidos antes dos 2 anos de idade] está cometendo 'possíveis' genocídios".

Quer escolher um lado para defender no caso do aborto? Escolha. Mas é bom atentar para todas as conseqüências do que se prega, antes de dizer que a vida é uma propriedade de outrem ou que quem defende o aborto é "abortista", como se fossem máquinas de matar criancinhas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Bule Voador é prejudicial aos ateus

Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acodo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo." - Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

O site Bule Voador já é considerado uma espécie de referencial no que se refere a ateísmo (no formato de "ismo") por estas bandas. Ligado a uma tal Liga Humanista Secular, prega valores derivados de uma ideologia muito mais partidarizada e específica do que o "ateísmo", ou a simples descrença em Deus, jogando no mesmo saco um ateu com um "humanista secular".

Não é mais um fato do Destino facilmente ignorável como alto índice de culiformes fecais em nossa alimentação - se é muito mais fácil brincar de discutir com um discípulo de Silas Malafaia do que com São Tomás de Aquino (dá pra parar de escrever o nome dele com "Santo" no lugar de "São"? puta cacofonia horrível), o mesmo se dá nessa brincadeira: cada vez mais se vê cristãos e teístas (são conceitos diversos, ignaros!) atacando os fracos argumentos do "humanismo secular" e atingindo todos os ateus, inclusive os que não se organizam em igrejas, na mesma toada.

Humanismo secular: não me representa.

O "humanismo secular" revela e esconde o que é em seu nome: por um lado, uma versão new age do espiritualismo chumbreca da geração beatnick que achava que todos se amariam se se escorassem em conceitos como "fraternidade" e "boa vontade", visto que odiavam o capitalismo e já vinham percebendo que defender as idéias decadentes do socialismo pegaria muito mal dali a poucos anos (Hipótese MacMilliam à parte). No entanto, é "secular": ou seja, o mesmo papo espiritualista, sem espíritos. É uma espécie de terceira via jurando ser boazinha. É a fraternidade universal amai-vos uns aos outros porque eu assim determinei.

umberto_creem.jpgPoderia ser apenas uma versão esteticamente desagradável do ateísmo, ignorando-se sua platitude intelectual. É a típica idéia de que falta compreensão e compaixão pelo outro para o mundo dá certo - embora este outro nunca seja um outro que esteja atualmente no poder. Mas os humanistas seculares, como toda seita modernosa, querem tratar de uma porralhada de assuntos que vão muito além de sua alçada (e capacidade), reduzindo-os todos a uma dicotomia humanista x não humanista, no máximo diferenciando entre humanistas seculares e não seculares no lado A da primeira distinção.

O termo "humanista" é tão vago em significado que tudo o que representa só tem em comum o fato de querer uma gerência mais "humana" na forma de organização social -eagleton_deus.jpg o que, afinal, não significa nada. Qualquer reformador é "humanista". Os socialistas eram humanistas. Os democratas são humanistas. A pedagogia reformadora é humanista. O existencialismo é um humanismo. O estruturalismo também é humanista. E também o pragmatismo. Qualquer coisa é arrolada sob auspícios deste conceito, desde que tenha mais intenções do que capacidade de mudar algo. A única coisa que não é "humanista" é o rigor tecnológico e intelectual que gerou progresso pra essa tal de raça humana. O humanismo é caracterizado por uma utopia cheia de boas intenções, mas que nunca escreve uma linha prática sobre um problema real específico passível de resolução.

Como bem afirmou o Ricardo Wagner, os auto-intitulados "neo-ateus" (o ateu oldschool precisa ser recauchutado? estava errado? quanto custa o recall?) discutem tudo, seja filosofia, ideologia, ética, aborto, casamento gay, cultura, literatura, culinária, videogame ou cor preferida do vibrador tentando colocar ateísmo no meio. Não é suficiente não acreditar: é preciso alardar a descrença e concordar com outros descrentes em um movimento organizado, reafirmando todo o tempo que não são de outro grupo - o cristianismo. E aplicam esse raciocínio inclusive para falar de política.

No que crêem os que não crêem

Um texto do site intitulado "O humanismo secular entre a direita e a esquerda" dá uma boa amostra dos riscos dessa cegueira.

Com um conhecimento político que eu já dominava de cor e salteado no primeiro colegial, o texto se surpreende com a maior eureka de toda a heurística do Ocidente: a direita prega um Estado tão pequeno que quase lembra os ideais anarquistas. É o problema de falar de "esquerda" e "direita" já no título de um artigo só conhecendo por esquerda Marx, Bakunin e a galerinha da Sorbonne, e por direita... nada. 15 páginas de Murray Rothbard e os meninos já não correriam o risco de se trancarem no banheiro da escola chorando.

Porém, constatado o que qualquer conhecedor da tal "direita" trata como o mais simplório fato evidente, imediatamente a gurizada passa a criticar a direita a la Sarah Palin (com foto e tudo) reclamando... dos anarquistas, por parágrafos a fio, recheados de pérolas da sabedoria humana como "os anarquistas anti-Estado que pensam que todo ser humano é um poço de racionalidade", como se qualquer irracionalidade humana, a coisa que mais critico, incluindo esses revoltadinhos, fosse se tornar racionalidade se organizada em algo estatal, preferencialmente com os escolhidos pelos editores do Bule Voador nos postos mais altos.

É curioso que ser "racional" e bancar o mega cientista conhecedor de variáveis, se achando Carl Sagan só por usar sua imagem no avatar do Twitter, para a meninada, é tratar variáveis como "irracional", e a centralização planificada e unifidacada como a racionalidade extrema. São "cientistas" com medo de números. Para eles, o mercado financeiro é uma anarquia complicada. Melhor acabar com tudo e botar a mão do Estado para organizar tudo. O Bule Voador é a "ciência" da centralização. Surpreende bastante que o site ainda não tenha patrocínio da Petrobras.

Ainda completa cerejosamente o bolo afirmando que a tal irracionalidade humana não é capaz de controlar "a infraestrutura ao seu redor", nem "a não cometer crimes". O argumento do Estado, e não da moral, controlando crimes, misturado à ânsia de culpar "a infraestrutura ao seu redor" como a veia motiz da canalhada, vale por um Maluf lendo Foucault em um palanque.

Prosseguem os tolinhos:

"Em segundo lugar, não é suficiente que o Estado seja um totem que muito simboliza e pouco faz, e é aqui que se equivoca a extrema-direita que quer transferir as funções agregadoras seculares do Estado à religião, ao mercado ou à simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'."

A "função agregadora secular do Estado" (a ROTA na rua? o culto ao PT? que tal os analistas céticos cientistas definirem com precisão o objeto de suas análises sem termos genéricos que podem significar qualquer coisa?) é colocada em oposição "ao mercado" e à "simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'". Eu já vi Estados seculares mais seculares do que essa religiãozinha anti-mercado e anti-iniciativa pessoal... mas como assim os liberais (é dos liberais que eles estão falando? nem eles devem saber) são a "extrema-direita"? A extrema-direita não é, justamente, uma força que toma o Estado para descer seus valores no cacete?

carlsagan_broca.jpgNessa, como fico eu, que não acredito nem em Deus (e ainda escrevo às mancheias contra o pensamento religioso), nem no Estado? Para piorar, sou a favor da livre iniciativa, da liberação das drogas, do casamento gay e também das piadas com todo mundo? Sou ateu? Ou sou "totêmico" por preferir o mercado ao Estado? O mercado não é "laico", enquanto o Estado pode ser? Sou de "extrema-direta", querendo menos influência estatal na vida privada de cada cidadão? Onde mais no mundo houve tal "extrema-direita" que valoriza o mercado e a livre iniciativa de cada cidadão? A escola austríaca é a "extrema-direita"? Então, o fascismo é o quê?

Sou humanista secular? Sou só humanista? Sou só secular e "homem de bem" entre aspas? É preciso ser um cara do mal para ser humanista secular? Posso só não acreditar em Deus e nem roubar, mas ter mp3 pirata e zerar Tomb Raider com cheat para ser considerado do mal o suficiente para ser humanista secular? Paulo Freire, que educou essas crianças, só merece críticas por ser religioso? Ou sua educação desinformante voltada para "a revolução" é o perfeito exemplo do que é o tal humanismo secular?

Pra variar, é apenas o showzinho histérico de quem adora falar de política por clichês, e não por conhecimento de causa. dawkins.jpgÉ a típica empulhação de quem cita o nome de 10 intelectuais de esquerda que mal leram para falar mal da direita, mas nunca leram uma linha de algo minimamente direitista (a ponto de confundir "extrema-direita" com liberalismo, o que me faz perguntar o que seria a direita não extrema). Showzinho esse que, por ter como platéia uma massa enorme e burbulenta de pequenezes com o mesmo desconhecimento de causa, sempre terá aplausos com o discurso mais manjado e repetitivo de sempre, que se julga "crítico" repapagueando o que sua platéia já acredita a priori cegamente. É a captatio benevolentiæ em graus liliputianos. Sua platéia aplaude achando que, com isso, consegue aplaudir a própria falta de estudos.

Continua a chuva de chavões:

"Seus pares [de Sarah Palin] foram contra o sistema de saúde público implantado no governo Obama, mas gastaram trilhões de dólares num projeto de caça internacional de terroristas que é um mal disfarçado sistema de defesa de interesses comerciais de corporações (também escolhidas como substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos)."

Traduzindo: se for ateu, você é obrigado a concordar com o sistema de saúde americano, que pode ser danoso para a saúde dos pobres muito mais (óbvio) do que pros ricos. E se seu país sofre atentados terroristas, deixa pra lá. O que são alguns milhares de mortos, que provavelmente eram judaico-cristãos, mesmo?

A propósito, fora empresas que abocanharam a terceirização do Exército (a doutrina Rumsfeld) a Blackwater (que critiquei duramente em pleno aniversário do 11 de setembro, e sempre recomendo o livro Blackwater: A ascensão do exercito mercenário mais poderoso do mundo, do esquerdista anti-privatizante Jeremy Scahill), julgar que se caça assassinos como Osama bin Laden só porque "corporablackwater.jpgções" lucram com a guerra (era dever moral delas falir? não produzir tecnologia militar? não processar comida para os soldados?), e que estariam funcionando como "substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos" (de novo, generalidades bom-mocísticas para obrigar o leitor a admitir sem argumentos que o Estado tem "papéis" indefinidos) é como supor que quem decide algo em Washington seja o Rupert Mordoch - quando é característica intrínseca da direita se meter cada vez menos com o governo. Como bem diz P. J. O'Rourke: "Giving money and power to government is like giving whiskey and car keys to teenage boys."

Numa associação livre sem pé nem cabeça digna do delírio de um psicanalista, o site coloca uma foto do grupo católico brasileiro que organizou a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" em 1964, tentando associá-la sabe lá como à ala neoconservadora (neocon) do Partido Republicano atual, dizendo na legenda: "sob a desculpa de combater o comunismo e defender valores tradicionais, deu força ao antilegalismo de direita que culminou no golpe militar de 1964". Como não poderia deixar de faltar, "foram estes os grandes responsáveis, em conjunto com o expansionismo americano reativo ao comunismo, por nos dar de presente uma ditadura militar de 20 anos". E eu jurando que a política externa focada no eixo sul-sul e nitidamente anti-americana baseada em "independência" de paspalhos como Muniz Bandeira tivesse começado justamente com o ditador militar Geisel, o maior criador de estatais do planeta...

Eu ainda não entendi se, para os os ateus ninja mutantes adolescentes, "a direita" é anarquista, anti-Estado e não respeita leis ou se é capaz de criar ditaduras com força estatal bruta, e onde a lei vale mais do que o cidadão. De minha parte, de Jouvenel a Reale, de Rand a Nozick, de Buchanan a Rawls, de Santayana a Block, nunca vi algo sequer parecido com essa mantícura que o site se esmera em alvejar.

A conclusão é a cagação de regra politicamente correta de sempre: "À direita e à esquerda, a lição do autoritarismo antihumanista foi o fracasso epistemológico, sem falar do moral (inclusive, Palin agora sofre ameaças de morte)." Em um passe de mágica, o anti-Estado pseudo-racional da direita vira "autoritarismo antihumanista". São esses fracassados epistemológicos que adoram criticar o "fracasso epistemológico" alheio.

Mas claro que, estando acima do bem e do mal, ou da esquerda e da direita, podendo julgar as duas redefinindo de estro próprio o que cada uma é, os "humanistas" logo mostram sua cara. Não sem antes mais umas provocaçõezinhas:

"Talvez por isso as fronteiras entre uma posição e outra estejam cada vez mais nebulosas, com um Barack Obama decepcionantemente conservador inclusive em assuntos de liberdade de expressão (WikiLeaks e Julian Assange que o digam!) e personalidades ditas neoliberais de direita paradoxalmente endossando um Estado inflado quando a questão diz respeito a assuntos economicamente estratégicos ou de defesa."

Para quem quer superar a dicotomia esquerda x direita, é curioso que reclame repentinamente das fronteiras ficarem nebulosas. E para quem se julga um bom juiz (!), é excelente perceber que questionar a liberdade do WikiLeaks vazar documentos oficiais seja "decepcionantemente conservador".

chesterton_universo.jpgNo mais, há uma pedra de toque fundamental na discussão política: quem usa a palavra "neoliberal" está errado. É simples. Simplesmente porque não existe neoliberalismo. Esse termo, cunhado por Alexander Rüstow, quer apenas reclamar de teorias adversas a posteriori, reunindo-as todas sob a mesma égide. Acaso existe uma "escola neoliberal"? Seria a Escola Austríaca? Seriam os Chicago Boys? Seriam os objetivistas? Seria o PSDB? Seriam os neocons ou o decepcionante Barack Obama? Se o Bule Voador conseguir encontrar alguém "dito neoliberal de direita" (?!), ao invés de jogar a culpa em moinhos de vento, poderá algum dia sonhar em ser um guardião da moral, da análise e da ciência em oposição à fé cega em invenções mirabolantes de profetas fracassados.

Antes de concluir, os mancebos não deixam de cometer um ato falho:

"Não há mente crítica e livre quando o interesse é a imposição da religião, a morte do Estado ou a reforma revolucionária inconsequente."

Quod erat demonstrandum, meus caros.

Mostram então as garras os recém-desfraldados:

"E é por isso que eu acredito que o humanismo secular deve ser não uma terceira via, mas um árbitro para ampliar nossa lealdade das poucas centenas para os bilhões.

'O mundo é meu país, e a ciência, minha religião', disse famosamente o astrônomo holandês Christiaan Huygens. Está na hora de repetirmos e acrescentarmos: 'e o humanismo secular é minha política prioritária, antes de me alinhar à esquerda ou à direita', se é que um alinhamento ainda faz sentido."

Alguém sem religião aí está sentindo falta de alguém ditando dogmas em sua cabeça? Pois toda religião tem o seu Silas Malafaia: o ateísmo já tem o Bule Voador. É mais importante defender essa estrovenga de "humanismo secular" do que ter um pensamento político independente (e sobretudo culto). Tudo em nome da "mente crítica". E é muito importante ser humanista antes de ser de esquerda, embora o pensamento de um humanista secular e de um esquerdista médio seja tão distinto quanto os (?) de Edir Macedo e de R. R. Soares.

"Se queremos fazer uma diferença, deve ser pela evolução (cultural), que, mesmo com toda sua aparente lentidão, fará com que causas polêmicas e acirradas de hoje virem as trivialidades de amanhã de uma sociedade laica, democrática e aberta que respeita os direitos das minorias - condição última para julgar sua saúde como sociedade que 'expande' conotativamente o número de Dunbar, com meta em um mundo que seja o país de todos."

Então está dado o recado: se você não sabe qual é a sua e nem tem uma solução política apresentável, justamente por isso você é um evoluído culturalmente, que trata qualquer polêmica como trivialidade, por ter nascido avant les temps. E, sobretudo, lute pelas minorias: porque ateísmo é isso: trocar Deus pela luta incondicional do direito de quem se diga minoria (qualquer minoria), do contrário não será ateu. Porque a meta é "um mundo que seja o país de todos" (olha o imperialismo da propaganda do governo aí!).

Note-se: isso tudo para ficar em um texto dessas crianças. Alguém precisa explicar para elas que só montar um site, por bonito que seja, não te torna cientista, filósofo ou crítico político de respeito.

Bullying voador

Um dia, após reclamar dessa queimação de filme que o site promove (fazendo com que TODO ateu pareça um leitor do facilmente refutável Bule Voador), seu Twitter oficial me respondeu que, quando eles defendem sei lá que medida "ateista", eu fico pianinho". É curioso que os guardiões alumiados da razão, da democracia, da sociedade laica, aberta e democrática que respeita todos possa dizer qual é meu comportamento sem me conhecer.

É o site que diz que defende o Bolsa-Família porque "são humanistas", mas não tem nada de partidário. Eu defendo o Bolsa-Família por ser um passo de um programa criado por Milton Friedman e que funcionou, embora seu caráter esmolista e não integrante (além de partidário) no Brasil vá torná-lo um estorvo. Ter "boas intenções" (ou "ser humanista" tem mais sentido do que isso?) não o ajuda em absolutamente nada. Boa intenção qualquer um tem. Qualquer crente tem.

eagleton_jesus.jpgCom uma boa platéia pagando pra ver o arranca-rabo, o Bule não gostou de eu dizer que esse ateísmo de butique queima o filme. Imediatamente me perguntou se "filósofos GAYZISTAS de direita como [Robert] Nozick e [Thomas] Nagel queimam o filme". Ora, a resposta é simples: não, eles são foda. Como Einstein, Hawking, Heidegger, Schopenhauer, Camus, Dickens, Dennett, Comte-Sponville, Asimov, Clarke, Diamond, Mencken, Andreiev, Cioran, Horstmann, Hemingway, Santayana, Rand, Croce, Calin, Block e tantos outros. A questão é que vocês do Bule não são eles. Eles são ótimos. Vocês são queima-filme. Ou acham que só por usar uma foto de Carl Sagan já valem tanto quanto o original? Quer dizer que os "racionais", quando criticados, confundem a si próprios com sumidades como Nozick e Nagel?!

Claro, para o Bule, isso são as falácias argumentum ad hominem e argumentum ad verecundiam, que ele me recomenda procurar em um manual de falácias. Manuais de nomes em latim existem porque latinistas como eu compilam tais termos, retirados de obras de retórica do cânone da Humanidade, desde a Retórica de Aristóteles até a Nova Retórica de Chaïm Perelman, passando por obras fundamentais como De Oratore de Cícero ou Quintiliano. Acreditar que estas duas formas de argumentação constituem falácias é prova de nunca ter topado com uma obra como Institutio Oratoria ou De Partitione Oratoria. É de se perguntar se os meninos sabem mesmo a diferença entre argumentum ad rem e ad hominem, para não perceberem por que têm estes nomes. Mas também seria interessante saber o que "eu ficar pianinho" quando o Bule defende sei lá que medida ateísta (se o site nem me conhecia) é diferente de uma falácia (esta sim) ad hominem.

Mais gente quis saber por que o GAYZISTA (em caixa alta do original) apareceu na discussão. Ainda mais depois de eu ganhar mais de 200 RTs com dois tweets zoando o Orgulho Hetero. Foi preciso explicar para muita gente: não, o Bule não me flagrou em nenhuma ação de homofobia. Só precisou imputar a mim o que não sou, preferencialmente um rótulo odioso, para poder, refutando um rótulo bobo, achar que me atinge.

Para "provar" por que enfiava "gayzismo" em caixa alta na conversa, o Bule mostrou uma imagem com minhas respostas. Peço a algum racional ateu que não acredita em fantasmas encontrar menções à palavra "gay" sendo proferida por mim:

print bule 2.jpg

Deu pra notar como os ateus aí são "científicos", "analistas" e "críticos" que não usam de chutes lógicos e golpes de fé pra ver se acertam algo?

Hoje já foi diferente. Publiquei o texto Os Bolsonaros da esquerda são piores no Implicante, que começa com simplesmentre 12 parágrafos com meu típico humor refinado (sabemos como o humor é nocivo para o pensamento religioso). Um deles, dizendo que o maior motivo para os filhos rspeitarem os pais é que estes últimos são mais fortes - não sei quanto aos "analíticos" do Bule, mas em casa, nenhum argumento doía em meus pais tanto quanto as cintadas doíam em mim.

A galera que me chama de "cricri" por reclamar do Bule sempre lembra que eles gostam de argumentar civilizada e democraticamente. O que o Bule fez foi repassar aos fiéis de sua igrejinha o tweet:

print bule 3.jpg

Não cita a fonte para os "cientistas" seguidores analisarem eles próprios. Não é capaz de identificar uma piada, e ainda querem se supor guardiões de um entendimento de textos maior do que crentes (ao menos estudei dialética, exegese e hermenêutica com nêgo tentando entender parábola). Apenas passam uma mensagem já mastigada a ser engolida sem questionamento por seus fiéis seguidores. Até agora não tiveram coragem de revelar a fonte para seus fiéis (quem costuma ter esse comportamento, mesmo?), preferindo apenas a difamação localizada e descontextualizada.

O que esse Bule consegue é apenas dar chutes cegos e ver se atinge algo. Supor que alguém é "gayzista" por ser crítico das ridículas medidas pró-gay do governo, que só devem é causar constrangimento na população gay. Supor que alguém "fica pianinho" (como se tivesse o dever de criticar cada coisa criticável em um todo site ruim) sem a conhecer (medida que o Eli Vieira, um dos "famosos" militantes desse tal humanismo secular, também adota, como me chamar de "germanista" entre aspas sem conhecer meu trabalho). São golpes de fé. Não são argumentos - são afirmações genéricas deslocadas, mas trocando o "Jesus está voltando" (e o que isso significa? estou com o carnê do Baú celestial em dia?) por "ateus são mais inteligentes e racionais".

Repetir que é racional 20 vezes não te torna uma pessoa racional. Ainda menos do que ler manual de falácia na internet e repetir ad nauseam (!) a expressão "ad hominem", como se todo argumento ad hominem fosse falacioso.

É nocivo que um site que consiga cometer tantos erros e dar tantos chiliques em público e seja tratado como "representante dos ateus". Ateu é apenas o cara que não acredita. Não preciso de uma igreja para tal. Não preciso concordar com outros ateus em tudo - ainda mais porque a religião cometeu infinitamente menos mal em 3 milênios do que ateus comuno-fascistas conseguiram cometer em um século (e que mal há em encarar o fato? seria como "não gostar" de 2 + 2 serem 4). E não preciso aplaudir a ignorãncia do Bule ao lidar com n assuntos só porque concordo com o ateísmo do site.

Ainda mais sendo um site que critica tanto o enriquecimento de igrejas que cobram dízimo em troca de ameaças de Inferno, e aplaudem um governo que cobra 35,04% do que trabalhamos em impostos, sob ameaça de cadeia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Hegel - Substituindo "Espírito" por "Geléia"

Ninguém entende Hegel. E quem entende só faz caquinha. Como o materialismo histórico bebe diretamente na fonte hegeliana, substituindo o "espírito" pelo "motor da História" através da luta de classes, resolvi trocar as ocorrências de espírito naquele caramalhaço de livro principal do filósofo de Jena por geléia. Acho que é um bom nome pra espírito, afinal:

Fenomenologia da geléia

7 - [Wird die Erscheinung] Tomando a manifestação dessa exigência em seu contexto hegel.jpgmais geral e no nível em que presentemente se encontra a geléia consciente-de-si, vemos que essa foi além da vida substancial que antes levava no elemento do pensamento; além dessa imediatez de sua fé, além da satisfação e segurança da certeza que a consciência possuía devido à sua reconciliação com a essência e a presença universal dela - interior e exterior. A Geléia não só foi além - passando ao outro extremo da reflexão, carente-de-substância, de si sobre si mesmo - mas ultrapassou também isso. Não somente está perdida para ele sua vida essencial; está também consciente dessa perda e da finitude que é seu conteúdo. [Como o filho pródigo], rejeitando os restos da comida, confessando sua abjeção e maldizendo-a, a geléia agora exige da filosofia não tanto o saber do que ele é, quanto resgatar, por meio dela, aquela substancialidade e densidade do ser [que tinha perdido].

11 - [Es ist übrigens] Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. A geléia rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, a geléia nunca está em repouso, mas sempre tomada por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de nutrição tranquila, a primeira respiração - um salto qualitativo - interrompe o lento processo do puro crescimento quantgeleia.jpgitativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, a geléia que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronasse gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo.

26 - [Das reine Selbsterkennen] O puro reconhecer-se-a-si mesmo no absoluto ser-outro, esse éter como tal, é o fundamento e o solo da ciência, ou do saber em sua universalidade. O começo da filosofia faz a pressuposição ou exigência de que a consciência se encontre nesse elemento. Mas esse elemento só alcança sua perfeição e transparência pelo movimento de seu vir-a-ser. E a pura geleidade como o universal, que tem o modo da imediatez simples. Esse simples, quando tem como tal a existência, é o solo da ciência, [que é] o pensar**, o qual só está na geléia. Porque esse elemento, essa imediatez da geléia é, em geral, o substancialda geléia, é a essencialidade transfigurada, a reflexão que é simples ela mesma, a imediatez tal como é para si, o ser que é reflexão sobre si mesmo.

27 - [Dies Werden] O que esta "Fenomenologia da geléia"apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber,como é inicialmente - ou a geléia imediata - é algo carente-de- geléia: a consciência sensível. (...)

geleia_mattel.jpgO indivíduo, cuja substância é a geléia situada no mais alto, percorre esse passado da mesma maneira como quem se apresta a adquirir uma ciência superior, percorre os conhecimentos-preparatórios que há muito tem dentro de si, para fazer seu conteúdo presente; evoca de novo sua rememoração, sem no entanto ter ali seu interesse ou demorar-se neles. O singular deve também percorrer os degraus-de-formação-cultural da geléia universal, conforme seu conteúdo; porém, como figuras já depositadas pela geléia, como plataformas de um caminho já preparado e aplainado. Desse modo, vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam a geléia madura dos homens, serem rebaixados a exercícios - ou mesmo a jogos de meninos; assim pode reconhecer-se no progresso pedagógico, copiada como em silhuetas, a história da geléia do mundo. Esse ser-aí passado é propriedade já adquirida da geléia universal e, aparecendo-lhe assim exteriormente, constitui sua natureza inorgânica. Conforme esse ponto de vista, a formação cultural considerada a partir do indivíduo consiste em adquirir o que lhe é apresentado, consumindo em si mesmo sua natureza inorgânica e apropriando-se dela. Vista porém do ângulo da geléia universal, enquanto é a substância, a formação cultural consiste apenas em que essa substância se dá a sua consciência-de-si, e em si produz seu vir-a-ser e sua reflexão.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mais preconceito lingüístico: primeiro round

Ao se digitar "preconceito lingüístico" no Google, você vai dar de cara com meu artigo no Implicante Preconceito linguistico e coitadismo linguistico, só ficando o termo na Wikipedia e as imagens do asqueroso livro de Marcos Bagno acima.

Demorei a entender por que vira e mexe (meXe!) aparecem estudantes de Letras que acabaram de descobrir a nova "teoria revolucionária" que só eles conhecem e que, como tudo o que se vê numa universidade "científica", basta concordar e supor ser irrefutável. Fico imaginando como anda a cara do Marcos Bagno (e seus cupinchas como Ataliba Teixeira de Castilho e Sírio Possenti, mestres da criadora do afamado livro do MEC Por uma vida melhor, a tal professora Heloísa Ramos).

print bagno meche.jpg

Mas alguns desses alunos que digitam "preconceito lingüístico" no Google para fazer trabalho servem de contra-exemplo ao que um crente da seita do "preconceito lingüístico". Segue um debate com uma aluna-sintoma da platitude intelectual que virou a "pesquisa científica" na Universidade brasileira, nos comentários do meu texto:


de: Alemida

Olá a todos!

De tão nojento e pedante (vide o palavrório rebuscado do autor, certamente um intelectualzinho de escola particular metido à oposicionista que se baseia nos delírios peessedebistas para atacar um governo exemplar como é o do PT), não consegui terminar de ler e, claro, caí na gargalhada antes de começar escrver este comentário.

Os autores deste blog são, com certeza, fascistas que não pensariam duas vezes em ajduar se a atual oposição golpista planejasse um golpe para implantar uma ditadura. São pessoas distantes da realidade, parecem cocô, ficam boiando e só boiando. Você, meu caro intelectualzinho de merda, já cursou um curso de Letras? Não, obviamente. Já estudou a fundo sociolinguística? Com certeza não. Então pega essas suas palavras reacionárias e absolutamente pedantes e as enfie goela abaixo, para não dizer outra coisa. Escrevendo este artigo infundado e ingênuo, certamente inspirado no rei da babaquice e do achismo Sr. Reinaldo Azevedo, um cretino fascista que escreve na podríssima Veja, você só demonstrou o quanto é burro e retardado a ponto de escrver sobre coisas que não conhece e, claro, nunca vai conhecer - afinal, a lógica da oposição é sempre essa: criticar e condenar sem nem ao menos se dar ao trabalho de conhecer.

Para sua informação, o capítulo do livro pode ser baixado no site 4shared.com. Baixe, leia e veja o quanto você é um reacionáriozinho criado com danoninho que pensa que escrever merda na internet é fazer política. Babaca!

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de: Flavio Morgenstern

A gente se mata a vida inteira pra zoar o PT. Vem o PT aqui e se zoa sozinho.

Mas, cara primeiranista de Letras, que tal aplicar a si própria a crítica que faz "à oposição" ("criticar e condenar sem nem ao menos se dar ao trabalho de conhecer"), continuar lendo a porcaria do artigo cocozento e acabar descobrindo que refutei até as linhas desse livreto que não falam de sociolingüística, afinal, não só faço Letras (e não é numa "escola particular", como se isso fosse defeito, é na USP), como estudo tal assunto com os melhores sociolingüistas do hemisfério?
Boa sorte em sua crítica que conhece antes de condenar. =*


de: Alemida

Seu artigo é tão imbecil, seu panaca direitopata fascista de uma figa, que para ele precisamos sim aplicar a lógica que acéfalos cretinos e filhos de porcos como você seguem: condenar antes de ler - até porque, meu caro filhote de Reinaldo Azevedo com José Serra e, Deus me livre, FHC, nem é necessário ler tudo até o final: é previsível o tipo de bosta que sai da boca rota e burra de gente de intelecto torto como você e a cambada do seu tipo. Babaca!

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de: Flavio Morgenstern

Ainda bem que você não é manipulada e pensa com a própria caçuleta. Só falta agora ter ao menos uma frase que não seja uma mistura de discurso do SINDIGORDAS com linguagem de filme de ação traduzido pela Globo. "Fascista de uma figa"?! Mas nem quando eu tinha 4 anos de idade me assustava com esse faniquito saído de uma linha de produção fordista!


de: Alemida

Vou visitar constantemente esse lixo de site só para te xingar, oh grande conhecedor da língua portuguesa. FAz USP, o menininho esperto? QUe coisa bonitinha. Mas enquanto os colegas de turma estavam nas aulas, você, não tenho dúvidas, ficava no apartamento jogando vídeo game, né? Afinal, papai paga minhas contas.

São pessoas como vocÊ que precisam ser estirpadas, pois, creia-me, Sr. Sou Implicante Porque Papai Paga Minhas Contas E Os Impostos do Lula, vocês são o que há de pior na sociedade brasileira. É o que faz nosso país ser de terceiro mundo, é o que faz nosso país ter caras como José Serra (esse que, de tão macho, fugiu para o Chile quando houve a ditadura aqui e que ainda sobrevive mesmo depois de ser esmagado pela DILMA nas últimas eleições).

Aliás: quantas chupetas por dia a moça faz na turma do contra (leia-se "fdps do DEM e do PSDB")?


de: Mauro

(…) já cursou um curso de Letras? Não, obviamente. Já estudou a fundo sociolinguística? Com certeza não.

E… ?

Isso me lembrou de algo dito uma vez por aquele famoso porco capitalista-direitista reacionário de direita, Noam Chomsky (a tradução meia-boca é culpa minha):

"Eu trabalhei em linguística matemática, por exemplo, sem quaisquer credenciais profissionais em matemática; nessa área eu sou completamente autodidata. Mas tenho sido frequentemente convidado por universidades para falar sobre linguística matemática em seminários e colóquios de matemática. Ninguém nunca questionou se eu tinha as credenciais adequadas para falar sobre esses assuntos; os matemáticos nunca deram a mínima. O que queriam saber é o que eu tinha a dizer. (…)

Por outro lado, ao discutir questões sociais, essa questão é constantemente levantada, frequentemente com virulência. (…)

O contraste entre matemática e ciências políticas é notável. Em física ou matemática, as pessoas estão preocupadas com o que você tem a dizer, não com sua formação. Mas, para falar sobre realidade social, você precisa ter as credenciais apropriadas. Em geral, me parece justo dizer que, quanto mais rica a substância intelectual de um determinado campo, menor a preocupação com credenciais, e maior o interesse por conteúdo."

(…) quantas chupetas por dia a moça faz (…)

Obrigado por deixar claro qual é o lado "intolerante, preconceituoso e conservador" da discussão.

Enfim, a tal Alemida aceita a aposta...


de: Alemida

Caro,

antes de qualquer aposta que você sabe que nunca vai poder dar certo por razões óbvias - quem da USP vai aceitar assistir qualquer debate entre eu e você?????? - leia o seguinte artigo, pois acho que ele fará muito bem para clarear suas ideias que, para mim, estão um tanto quanto confusas.

Outra coisa: o que me irritou mesmo no seu artigo, no final das contas, é que você deu mais ênfase no ofender o Marcos Bagno do que no refutar as ideias dele e de quem o segue. POr isso, inclusive, ofendi você (o que foi muito divertido, seu idiota).

De qualquer modo, leia, se quiser, o texto abaixo e depois poste o que pensou. (segue um longo texto de Sérgi Fausto, diretor-executivo do Instituto Fernando Henrique - sim, ele.)

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de: Flavio Morgenstern

Cara Alemida, não sei se vossa genialidade marxista terá já percebido, mas: (a) Não há nada neste texto, que por sinal já conhecia, que remova uma vírgula do lugar na argumentação que apresentei acima, e (b) Não apenas isso, como ainda minha argumentação refuta ponto a ponto o que foi apresentado por este cidadão.

Em outras palavras, você, como toda esquerdista, se acha intelectual por ter lido um manualzinho de 40 páginas pró-partido e acha que só você tem a consciência, doutrina e temperança (sobretudo a temperança) necessária para terçar armas num debate e ganhar. Acredita que as 40 páginas do Manifestinho que leu nunca foram refutados por gênios de verdade (aqui vai uma boa lista: http://4ms.me/pZCN24). E acredita que quem já leu as 40 páginas do seu Manifestinho e mais meio mundo que o discute entende menos dos resultados do seu Manifestinho do que você - afinal, todo esquerdista baseia-se em intenções, nunca em resultados - apanágio da direita.

Isto é uma manobra retórica um tanto quanto torta, derivada do délire d'interprétation, como exposto pelo psiquiatra Paul Sérieux. Sua tática é que, assim que alguém refuta seus pontos, você reafirma seus pontos, assim, como se a refutação tivesse entrado por um ouvido e saído por outro (o que, afinal, se deu). Assim, como a resposta mais óbvia para seu "argumento" (chamemo-lo assim para poupar novos esforços envidados em uma taxonomia adequada) seria repetir, ponto a ponto, o que já foi dito, caindo na armadilha preparada subconscientemente por você, que logo diria que eu não tenho argumentos justamente por isso, e daí seguir-se-ia mais repetições do que já foi refutado cantados como se canta vitória ao som da lira da insânia.

Mas não deixa de haver pontos curiosos no arrazoado que me traz. Pinço de tais garatujas as seguintes passagens:

"O procedimento consiste na desqualificação de ideias sem o mínimo esforço prévio de compreendê-las. Funciona assim: diante de mero indício de convicções contrárias às minhas, detectados em leitura de viés ou simples ouvir dizer, passo ao ataque para desmoralizar o argumento em questão e os seus autores. É a técnica de atirar primeiro e perguntar depois. A vítima é a qualidade do debate público.

(…)

Mas é preciso educar-se para o debate. Isso implica desde logo dar-se ao trabalho de conhecer o tema em pauta e ter a disposição de entender o ponto de vista alheio antes de desqualificá-lo."

Diga lá meu furibundo e impaciente leitor se tal atitude, jogada às minhas fauces em tom acusatório, condiz mais comigo, que não apenas conheceu adequadamente o livro do MEC da professora Heloísa Ramos, como conhece a teoria por trás de tal disparate, e não apenas o famoso livro Preconceito lingüístico: o que é, como se faz, de Marcos Bagno, principal divulgador da caganeira, como também seus livros menos conhecidos (como o mais recente A norma oculta: Língua & poder na sociedade brasileira) e ainda cuida de refutar página a página (devidamente citadas seguindo as normas da ABNT) tais atentados à civilização, ou se é o acinte seria mais pertinente se fosse direcionado à própria primeiranista neófita Alemida, que tem a capacidade de digitar um longamente na caixa de comentários que o autor do texto nunca deve ter pisado em uma faculdade de Letras - bem embaixo da assinatura em que se lê, em negrito no original, "Flavio Morgenstern é redator, tradutor, faz Letras na USP e aprendeu a não dizer "amém" para professores partidários alguns meses após aprender a limpar o bumbum sozinho."?!

Também diz a cafonice citada pela Alemida como "argumento" (perdoem-me o excesso de licenças vernaculares):

"Melhoramos desde então? Sim, as taxas de repetência, defasagem idade/série e evasão escolar diminuíram. Parte da melhora se deve à adoção da progressão continuada, outra presa fácil da distorção deliberada, pois passível de ser confundida com a aprovação automática."

Então melhoramos os níveis de repetência porque substituímos a repetência por um sistema em que ela não mais existe. Bravo, bravo, bravo!

Coroa o bolo cerejosamente:

"O desempenho dos alunos em Português vem melhorando, em especial no primeiro ciclo do ensino fundamental, conforme indicam avaliações nacionais e internacionais, ainda que mais lentamente do que seria desejável e necessário."

Ora, se isto é feito para se elogiar a porcaria do livro que entupiu de dinheiro sua desastradíssima autora, devo crer que há professores ganhando demais para melhorar "lentamente". No mais, não se sabe de onde este cidadão tira tais dados: Como já afirmou o Olavo:

"Em editorial do dia 25 último, a Folha de S. Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76° para o 88° lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa na verdade um progresso formidável." (e continuamos Caindo sem parar - extremely worth reading!)

Enfim, nada disso representa um contra-argumento bem dirigido a sequer uma vírgula fora do lugar em meu texto (e as há). Que tal tentar com mais força da próxima vez antes de tentar debater, como coloquei como termos adequados para um debate? Afinal, como você, com sua cultura letranda superior deve saber, Contra negantem principia non est disputandum ("não se deve discutir com quem negue os princípios"). Afinal, posso ainda ficar te devendo um Ferrari F-50 (um? uma? oh, sociolingüística, como dependes da sintaxe!) por isso.

Try again, minha fofura de saia indiana e sandália sebosa de couro cru. Tico e Teco dêem as mãos e força na peruca! Acreditamos que você consegue.

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de: Alemida (enviado concomitantemente ao comentário anterior)

Engole mais esse: (segue outro texto de Weden, publicado pelo jornalista com alguns problemas milionários aos cofres públicos Luis Nassif)

(...)

PS: Se é que leu esse outro artigo (lembre-se da lógica que vc e sua cambada de reaças seguem…), o que achou?????


de: Flavio Morgenstern

Poxa, mais um artigo que não é de seu estro próprio atacando jornalistas os mais variados, sempre com o argumento de "não leu o livro" (que foi até escaneado em alguns dos artigos citados, mas você não leu os artigos)? E o que eu tenho a ver com isso, se critiquei foram as teses do Bagno (e Sílvio Possenti, e Teixeira de Castilho - provando, sim, que o objetivo destes camaradas é acabar com o ensino da norma culta para os pobres, abrindo um abismo mais largo entre ricos e pobres), citando até erros do energúmeno que nada têm a ver com lingüística (sempre com página citada)? Cadê o contra-argumento? Existe algum? Existe meio? Há alguma citação a algo que escrevi e pormenorizada refutação per negationemum consequentiae? Ou só há acima mais declarações que já foram refutadas em meus escritos?

Ademais, comento de passagem alguns casos citados nesse novo artigo que eu conheço, e você não:

"Jornalista do jornal O Globo (vários): as reportagens sobre o livro didático foram assinadas por vários jornalistas. Todos insistiram na tese - não confirmada - de que o livro contém 'erros grosseiros de português'."

Como, "não confirmada"? Só o fato de o livro usar como exemplo de linguagem adequada "os menino pega o peixe" (e jogando a culpa em sua inadequação aos ouvintes, e não aos falantes), já mostra que há erros grosseiros de português! Por sinal, como demostrou a tradutora Ivonne C. Bennetti, essa frase sequer é usada na linguagem popular brasileira.

"Reinaldo Azevedo (Veja): a partir de trechos soltos, confundiu demonstração linguistica com pregação política. Partidarizou o que é consenso no campo da linguistica internacional."

Mentira deslavada. Não há nenhum consenso internacional sobre preconceito lingüístico - nem mesmo em faculdades de Letras, reconhecidas internacionalmente por angariarem os piores alunos a passar num Vestibular, sendo composta em mais de 95% de hippies, comunistas, maconheiros e barangas. Reinaldo Azevedo não confundiu nada: conforme eu mesmo demonstrei citando não o livro do MEC, mas os lixos tóxicos do seu patrono, Marcos Bagno (exatamente quem o Reinaldo também criticou, e até deixou uma fotinho dele lá, para esse jornalista que não sabe ler e acha que pode dar pitos alheios sobre quem leu e quem não leu), que na sétima linha de seu livro já está citando e defendendo Luiz Inácio Lula da Silva, e sai defendendo o socialismo a torto e a direito no seu livro. Se isso não é "pregação política", talvez só mesmo Mussolini e Pol-Pot sejam competentes pregadores.

"Merval Pereira (Globo): fez afirmações fora do escopo da obra: 'o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros'. Não há passagem clara neste sentido no livro."

Cito o livro: "Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar 'os livro'?' Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico." (grifo meu)

"Carlos Alberto Sardenberg (Globo): chegou a afirmar que o livro defende o modo de falar do ex-presidente Lula. Não leu o livro."

Pois o livro não, mas o livro só se sustenta com teses como a defendida por Marcos Bagno, e este não o faz?

Novamente, nenhuma refutação, nenhum contra-argumento. É assim que você quer debater? Pois vai precisar de um pouco mais de Virmond de Lacerda Neto, Bechara, Hariovaldo Almeida Prado e Anderson Cássio de Oliveira Lopes depois do Sucrilhos. ;)

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de: Alemida (razoavelmente concomitante aos outros 2 comentários)

Ah, e acessa esse link aqui: (segue outro link)

vc vai se divertir muito, filhote de Reinaldo Azevedo.


de: Mauro

"Argumentum ad verecundiam é a pior forma de argumentação." - Karl Popper

"Argumentum ad antiquitatem é a pior forma de argumentação." - Karl Feyerabend

"Argumentum ad ignorantiam é a pior forma de argumentação." - Karl Sagan

Felizmente, nenhum deles viveu para presenciar a popularização da argumentação por copiar-e-colar.


de: Alemida

Ao caro Mauro:

Não sei você, seu imbecil, mas eu percebi o quanto nosso amigo Flávio, ao escrever o artigo sobre as teses de Bagno, o ofendeu do início ao fim, e não o refutou - e se o fez, foi com arrogância extrema. Veja, seu burro de escola particular (leia Mauro aqui, por favor), que, para gente da sua laia, só mesmo usando a mesma moeda para dar o troco. Bando de idiotas! O acesso à internet de gente como vocês devia ser proibido.

Francamente, volto atrás na minha ideia de visitar sempre esse site só para ofender os trouxas que aqui escrevem e comentam: não valem, afinal, nem o esforço de gente sensata como eu para xingá-los de filhos de uma puta, por exemplo.

Até mais, seus fascistas.


de: Flavio Morgenstern

Pô, Alemida, pediu pinico?! Cadê sua superioridade intelectual de escola pública petista?!

Vai lá… antes de ir, refuta pelo menos um parágrafo, vá. Não precisa ser o texto inteiro (já que, pra você, está inteiro errado), pode ser só uma passagenzinha… não vai ter a bondade, sua comunista?


de: Mauro

o ofendeu do início ao fim (…)

Ué, mas se você não leu o artigo até o final, como você mesma admitiu, como pode afirmar que o autor ofende Bagno até o fim? Será que, no final da história, Bagno e Morgenstern não vão superar suas diferenças, entrelaçar os dedos mindinhos e ficar de bem? Se não terminar de ler o artigo, você nunca vai saber como acaba!

só mesmo usando a mesma moeda (…)

Não, a moeda que você usou é completamente diferente; há uma diferença crucial que está escapando à sua atenção. Bagno realmente é ridicularizado pelo autor do artigo, mas repare que o autor é cuidadoso para, em nenhum momento, afirmar que Bagno está errado porque é chato e bobo, além de não tomar banho. O autor do artigo sabe que, se assim fizesse, estaria incorrendo na manjadíssima falácia do ataque ad hominem, e a sua argumentação ficaria comprometida. Em vez disso, o autor diz: Bagno (que, parenteticamente, é chato e bobo, além de não tomar banho), está errado por tais e tais razões.

O seu ataque, em contraste, se baseou nas seguintes moedas de três reais, digo, falácias:

* o artigo está errado porque o autor não tem as credenciais acadêmicas necessárias para questionar um luminar do porte de Bagno (apelo à autoridade);

* o artigo está errado porque o autor é um direitopata fascista de uma figa, além de peessedebista e bicha louca (ataque ad hominem);

* o artigo está errado porque José Serra fugiu para o Chile (non sequitur);

* o artigo está errado porque consigo copiar e colar um artigo que achei na internet, escrito por outra pessoa, que trata de assunto apenas tangencialmente relacionado com o tema em discussão (strawman argument, em português, é como?).

volto atrás na minha idéia de (…)

Mas já vai? Pô, mas está cedo ainda! Fique mais um pouco, vamos chamar mais uma rodada!

[[[ Morgen, sinta-se à vontade para censurar esta resposta, se lhe der na telha; eu ainda sou goiaba nessas coisas. se acaso passar pela peneira, favor remover esta linha :-) ]]]


de: Flavio Morgenstern

Hahahahah… o mais engraçado de tudo é a doutora dizer que não tenho credenciais para discutir Bagno e demonstrar que não sabe se faço Letras ou não. Eu, que estudo com livre-docente no assunto… :)

E tem também o "seus fascistas" a cada 4 linhas. Vejamos o que diz Bagno: "repudiam tudo o que não trouxer a marca registrada de uma atitude fascista diante do mundo" (op. cit., p. 121). Adivinha só como nossa amiga define o que ela aprova ou repudia…

Conclusão: aluninhos que acreditam em Marcos Bagno são invariavelmente tão burros que não têm coragem de entrar em debates correndo o risco de ganhar Ferrari F-50. E, graças a ele, fico sem meu Porsche.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Michel Teló: a cultura das massas e aquela outra lá

21pessoas leram e discordaram

Nunca ouvi falar nesse tal Michel Teló e recusarei clicar em links em que sua música apareça. Para manter um padrão salubre de genialidade e modéstia, é preciso ocupar os bytes do cérebro com exímia mesura. A revista Época trollou geral e afirmou que o patrício é representante da cultura brasileira, engatilhando uma quizumba violenta no Twitter, em que indignados brasileiros defensores aguerridos da verdadeira cultura nacional iniciaram uma caça às bruxas de proporções mccarthystas tentando dessassociar-se do cantor.

Michel-Telo-Capa-Revista-Epoca.jpgAposto que toda essa galera vive enfurnada em bibliotecas estudando esmeradamente as obras dos maiores filósofos brasileiros, de Tobias Barreto a Benedito Nunes. Não poderia haver motivo maior para o queixume. (e ignore-se aqui o quanto os autores da matéria, que devem conhecer mais de cultura brasileira do que 90% dos que se ofenderam com ela, devem estar rolando no chão em derrisão pela missão cumprida)

Desde pequeno, aprendi muito sobre a cultura brasileira. A primeira coisa é que a cultura brasileira com CU maiúsculo questiona o que é a cultura brasileira o tempo todo - seja na faculdade, no Facebook ou no Centro de Mídia Independente. Você identifica um "culto" modelo 68 zerinho, e tá ele lá, fazendo "leituras críticas". Eles estão sempre "questionando" o que lêem.

É difícil ler o texto de um caboclo desses sem questionar o que é sujeito, o que é verbo e o que é predicado. Seu modus operandi de encontrar "influências" e "relações de poder" ocultas ao leitor mongolóide comumcult bauman.jpg (é com você que eles estão falando, leitor mongolóide) é um eterno espatifar da sintaxe, para que seus cupinchas acadêmicos a recoloquem no lugar e basbaques lescionandos deixem seus queixos caírem como se pesassem uma tonelada diante de seus mestres-Mister M's com M maiúsculo. Como também precisam de um michê do bolo repartido, igualmente cuidam de escrever num modo "questionador" para que suas garatujas só possam ser lidas com ajuda de outros professores do mesmo partido. Faz parte da Síndrome October, que Roger Kimball identificou lendo os, ahn... "textos" de revistas acadêmicas "culturais" e cabeça, mormente a October (cf. Radicais nas Universidades, da ed. Peixoto Neto).

Ontem mesmo li um texto intelectual em que Maurício Tragtenberg observa "que a universidade não é neutra", que "o saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder", que a "estrutura burocrática e autoritária [da Universidade] fortalece a ordem e o poder" e que, "dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática". Um discurso bem bonito pra quem nunca pisou numa Universidade e percebeu que lá ninguém tem cultura alguma, a não ser reproduzir, de uma linha de produção fordista-stalinista, esse discurso de questionar a própria Universidade e não ter um único pensamento que o professor do seu professor já não teve em maio de 1968. Modelo intacto, muita quilometragem mas lataria intacta, único dono porque só se tem coletivismo com o discurso de poder do outro, tanque quase cheio, tratar aqui.

A cultura, a galera e o bode

Mas há outra coisa da cultura brasileira que aprendi na escola. Se você corre riscos de perder uma disputa, pegue de galera. O brasileiro é coletivista até pra dar porrada. Eu, que era adiantado (e, portanto, sempre mais fraco que meus colegas), mesmo assim quase nunca apanhei no mano a mano - simplesmente porque nunca vi uma briga antes dos 8 anos sem parecer que eu tinha entrado com farda do BOPE ou uma camiseta 100% branco num baile funk.

Troca-se a natureza das disputas, mas nunca o meio. É a cultura nacional. O que são Trending Topics? Briga de galera. Como se discute qual música é melhor, se rock ou MPB? Pelo tamanho do público. O que é uma assembléia na USP onde você pode expor sua opinião "democraticamente"? Briga de galera. O que é discutir política na base do "nós somos a maioria, portanto estamos certos"? Apenas isso: nunca partir pra porrada em menor número. (eu, fracote que era, fiquei bastante surpreso ao perceber que ganhei as 3 únicas lutas de UFC versão uniforme de escola que tive contra caras maiores do que eu quando foi no modelo 2 homens entram, um sai).

girard_bodeexpiatorio.jpg Isso foi explicado pelo filósofo e historiador René Girard, considerado o "Darwin das ciências humanas" de maneira bem simples, no núcleo de sua teoria: o bode expiatório. Se a história da humanidade é a história da violência, como definiu Eric Voegelin, a natureza dessa violência é a união de uma tribo contra um bode expiatório, que, numa demonização de religiosidade primitiva, é entendido como portador de todos os pecados, e se você quer fazer parte do grupo dominante em questão, precisa, antes de qualquer característica positiva em comum com o grupo, ter um inimigo em comum.

Claro que se pode cair na Lei de Godwin e pensar que os nazistas são lembrados mais por serem anti-semitas (sorry, sr. Novo Acordo Ortográfico, recuso-me a escrever "antiSSemita" com SS) do que por se considerarem "arianos". Além de não emitirem opinião alguma sobre os latinos (que qualquer darwinista de botequim sabe serem povos mais miscigenados com mouros e meio mundo vindo da Turquia do que qualquer coisa), consideraram até os japoneses "arianos por excelência" apenas em troca de ajuda militar. Mas é fácil olhar pro longínquo já fartamente estudado em minudências e esquecer de olhar pro próprio umbigo.

girard_criticasubsolo.jpg Você quer ser um brasileiro crítico, cabeça, desses que podem reclamar de qualquer misconception sobre a verdadeira cultura brasileira? Relembrando o finado blog Coisa de idiota, faz bem criticar Paulo Coelho. É literatura marginal, coisa de perdedor que acredita em auto-ajuda misturada com demônios. E o Maluf? Cara, Paulo Maluf é corrupto. Onde já se viu esse cara ser tão rico e ter contas em paraísos fiscais? Pode ter certeza de que não voto nele. E a Rede Globo? Pelamordedeus, não assisto aquilo por nada. É alienante. As novelas são muito ruins. Viu como sou crítico e intelectual? Com uma citação de Nietzsche ou Freud já consigo até montar um blog sozinho. Em uns 8 meses repetindo essa papagaiada ad nauseam, posso até pedir financiamento pro governo. Tenho um discurso crítico das relações de poder, afinal.

Pouco muda com o tempo, mas a falta de requisitos pra entrar no clube dos manda-chuvas é basicamente ter uma nêmesis em comum. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Lembro sempre de um ensaio de ortega_critica.jpg Ortega y Gasset falando sobre esporte (já comentei no Implicante), onde o exímio filósofo espanhol demonstra que o desporto é o primeiro ato civilizatório do homem: a primeira manifestação de regras que exigem um comportamento adequado em busca de uma ética e de um fair play (expressão cunhada por Shakespeare, diga-se) onde supõe-se que o homem agirá pela "violência" do seu corpo. A civilização não surge graças a alguém compor uma Nona Sinfonia (que duvido que alguém reconheça as 3 primeiras notas) e parar de se preocupar com Michel Teló. A civilização surge com uma tribo se unindo para roubar mulheres da tribo alheia e impondo regras para saber o que fazer com os espólios.

Os dois últimos anos foram marcados por Restart nos Trending Topics quase todo dia. Era falar mal de alguma banda ou música qualquer no Twitter e imediatamente apareciam pelo menos uns 4 replies: "Ah, é, mas ainda é melhor do que Restart, já pensou?". Ouvi Restart por menos do que 15 segundos na vida. Quer saber? Não lembro de nada, mas achei bem melhor do que Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii (nem se fala!), Ira!, Tribalistas e muitas outras coisas que vocês às vezes cantarolam no trânsito sem medo de serem felizes.

Apenas tacaram um anátema sobre Restart mais por causa da viadice, das roupas ridículas e do marketing por cima e... caíram no mesmo marketing que os torna cada dia mais famosos entre uma galera que não conhece Pink Floyd e King Crimson (e aqui cabem duas perguntas: 1) vocês conhecem? 2) tem mesmo certeza que aquele seu amigo de 43 anos que toca cover de Jethro Tull e Genesis não pensou a mesmíssima coisa de Poison, Twisted Sister e Guns 'n' Roses, que você ouviu sua adolescência inteira desavergonhadamente?).

Só pra ficar no rock, quem critica Michel Teló (não quero nem saber se é axé, funk, pagode, whatever the fuck ever)poison_group.jpg também costuma dividir-se entre a galera que curte Beatles (com seus hits intelectualíssimos como Help e She Loves You, que também não passam de 5 versos ridículos de ruins com menos de 3 acordes), e fãs de Ramones, cuja importância pra música foi permitir que seu primo com retardo mental se ache gênio da música gritando "Hey, ho!" enquanto seus amiguinhos com contato nulo com uma vagina berram de volta: "Let's go!". Quantas festas você já foi em que não tocaram Ramones? E você reclama de emos e de NX Zero?

Isso pra não envolver outros gêneros. Metade dos indignados de 140 caracteres reclamando da capa da Época hoje dançavam Claudinho e Buchecha colocando a mão no nariz como se estivessem catarrando em público e balançando a bunda feito uma gelatina num terremoto em festinhas junto às tias solteironas e achavam lindo há uns 15 anos. E agora que vocês já ouviram falar nessa tal internet, já flagraram a Marisa Monte, um produto da "riquíssima" MPB, "música de valor", falando sobre qualquer tema que não seja arrastar a sandália até gastar? Você acha mesmo ruim que Michel Teló represente nossa cultura e dança Ivete Sangalo e aquela outra genérica que não lembro o nome cada vez que fica bêbado junto aos amigos?

Carmem-Miranda.JPGPra piorar o que já está ruim, também bufaram contra o fato de que Michel Teló ter sido comparado a Carmen Miranda na "exportação cultural" brasileira. Fui condicionado desde tenra idade a honrar os grandes nomes de nossa cultura do passado. Era uma época difícil de ter contato com essas coisas, mas juravam que Carmen Miranda, Zé Carioca e chorinho fossem coisas de inestimável valor. Alguém aí já viu a Carmen Miranda no Youtube? Só não dá pra dizer que é uma bosta porque é uma ofensa a muitas fezes de respeito! Se você reclama da exportação brasileira de bananas e bundas balangantes incapazes de pronunciar mais do que uma consoante por palavra, não culpe o Mc Catra e o Bonde do Tigrão, pois estes são conseqüências: a causa é Carmen Miranda!

Cultos e grossos, civilizados e bárbaros

Urge também entender exatamente o que é "cultura", se se está tão preocupado em proteger a "cultura" brasileira. O Gravataí já explicou um pouco - vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.

"Cultura" vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo - diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe, condicao urbana.jpg aquele que segue as leis da cidade - e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.

A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como "arte", gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, "cultura" e "arte" são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas - e, assim, misturamos "cultura" com "alta cultura", e "arte" com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.

Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.

eagleton_deus.jpg É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos "legados" culturais brasileiros à humanidade - e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa "musiquinha do gás". Mas quando a Liquigas troca por ISSO, ninguém reclama.

Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição "de cima", quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de "multiculturalismo", bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores "machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas" do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:

"Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell's Angels, os neofascistas ou os cientologistas."

A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é "pedra bruta". marioferreira_logica.jpg Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado "cultura ocidental" é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém... pela ironia e auto-crítica dos antigos.

Vide este tweet hodierno do Gravz: "Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE." O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado - o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o "jeitinho brasileiro") que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.

É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização - mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!

O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de "Ocidente". Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N'Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.

Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato que eles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas - e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.

breakingbad.jpg

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DENÚNCIA GRAVE NA USP

10pessoas leram e discordaram

Graves denúncias surgiram contra os estudantes fura-greves da USP nessa semana. O relato acusa os fura-greves de serem "pró-polícia e fascistas", por ninguém menos do que a nossa Musa do Lixo da greve de abril, com a mesma voz, mas o cabelo, ah, quanta diferença...

Consta na gravíssima denúncia que mulheres, no "processo de mobilização e greve que passamos em nosso curso" (sic), sofreram agressões do gênero "machismo" e "misoginia". É de se pensar que a elite intelectual das Humanidades brasileira, aquela que se orgulha de estar entre as DUZENTAS melhores faculdades do mundo (e ainda errando a conta), todas adultas, maduras, críticas da sociedade de consumo, não-alienadas, antenadas, atualizadas, cultas e vacinadas não vão se ofender com pouca merda. Tem de ser AGRESSÃO com pau maiúsculo pra deixar as moças cabreiras. Algo como uma voadora giratória no saco. Vejam só esse exemplo (cuidado, imagem forte, chocante e pingando sangue):

print flavio feminismo.jpg

Como se vê, é preciso mesmo muita violência para fazer com que uma mulher pertencente à elite intelectual se sinta agredida. Essas daí não são atingidas pelo que vem de baixo.

Uma das agredidas, rosto coberto para não mostrar os hematomas para o pessoal de casa, tascou logo a seguir que não deixaria impune e iria denunciar esse tipo de agressão extrema e sanguinária. Denunciar ao Ministério Público o crime de MACHISMO, que não consegui encontrar a tipificação no Código Penal? Não. ELAS ESTÃO SE LIXANDO PARA A LEI BURGUESA. Iriam denunciar é para o Coletivo de Mulheres da Letras! Após uma sugestão, uma ainda acatou: nada de Ministério Público para receber a denúncia de negaçao de contrato da ex-letranda como empregada ali (MACHISMO!!!): iriam mesmo era denunciar o machista flagrante para Lola Aronovich - aquela, que defende estupro em moças de 13 anos, agora alçada a poder de polícia da Stasi feminista.

Conforme uma delas mesmo relatou: "É o agredido que tem de saber quando foi agredido", como qualquer um sabe, quando encontra pentelhos de estro próprio em sua sopa em restaurantes, exigindo abatimentos pela agressão. O que justifica que, além de acusarem até homossexuais assumidos de "machismo" (talvez também "misoginia", em um uso pouco ortodoxo do termo), tenham feito esse maravilhoso cartaz-denúncia:

coletivo feminista.jpg

Melhor frase para começar, impossível. A cada dia, 10 mulheres são assassinadas no Brasil. Não se esqueça de que todas elas começaram sua sevícia com a gigantesca AGRESSÃO de não serem contratadas sequer para empregadas após serem jubiladas depois de perderem a vaga do curso por estarem fazendo "greve" discente (ignorando-se que estudante, não sendo trabalhador, não faz greve: como se recusa a receber um serviço, faz um boicote).

ISSO TEM QUE MUDAR. A violentíssima agressão contra mulheres não pode continuar impune desse jeito! Onde já se viu não contratarem uma estudante grevista que não concluiu o curso como faxineira?! Esse patriarcalismo não pode continuar desse jeito!

Mas a denúncia mais grave vem a seguir. Uma moça, num dos dias de greves com piquetes (a saber: uma mesa com duas grevistas sentadas em cima), foi para a faculdade acompanhada do pai. Impedida que fora pelo piquete de exercer seu livre direito de ir e vir ( Cárcere privado! Cárcere privado!!! ), seu pai cometeu o gravíssimo ato de... retirar o piquete, com grevistas junto, no braço! Uma enorme afronta à democracia e o direito de democraticamente votar, na calada da noite, por atitudes fascistas! Onde esse mundo vai parar? Isso foi demais. O Coletivo de Mulheres não deixou por menos e, além de denunciar à diretoria da FFLCH, à ADUSP e, autoritas autoritatem, à Frente Feminista da USP (e que se lasque a lei burguesa!), ainda registraram um Boletim de Ocorrência da violenta agressão sofrida:

feminismo BO.jpg

Então é isso aí, agora temos até B.O. contra os não-grevistas! E isso tem que mudar. Se o patriarcalismo continuar, as grevistas podem até... chamar a polícia!

émilie.jpg . rumo equivocado.jpg . sujeicao das mulheres.jpg

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Aborto: questão de coerência

22pessoas leram e discordaram

A pauta do dia no Twitter é a descriminalização do aborto, com o Trending Topic #legalizaroaborto. Qualquer declaração minha irrita tanto feministas quanto conservadores. Se feministas e conservadores discordam de mim ao mesmo tempo, não preciso de muito mais para saber que já sou quase dono da verdade.

O aborto deveria ser uma discussão mais simples. Tudo deveria se dar em nome da coerência. Infelizmente, algo longe de ser alcançado, quando todas as discussões, ao invés de termos uma discussão que surge da linha lógica dos argumentos, temos uma repentina mutatio controversiae que surge de cima pra baixo, por um grupo de pessoas interessadas em defender uma causa contra outro grupo específico. Via de regra, é o que faz alguma coisa ir parar nos Trending Topics sem ninguém morrer ou passar pelo Congresso.

A defesa do aborto é uma agenda feminista há muito. O problema é óbvio: feministas, mesmo que acertem em algo, têm os piores argumentos possíveis. O mais comum e óbvio é o mais ridículo: a discussão sobre aborto deveria caber apenas às mulheres. Ora, o que esse dogma implica é que o embrião, aqui, é tratado como propriedade da mulher, por estar abrigado em seu corpo - e seu corpo é inviolável.

Seria um argumento interessante, se não fossem as feministas as campeãs do marxismo cultural, que procura justamente acabar com o direito de propriedade. Ou seja, com a propriedade alheia: se for sua própria propriedade, obviamente que ela deve ser defendida com unhas e dentes. Vejamos o que Murray Rothbard, um dos economistas ultraliberais mais brilhantes do século, teria a dizer:

"Não apenas não existem direitos humanos que não sejam também direitos de propriedade, como esses "direitos" perdem sua incondicionalidade e clareza e se tornam confusos e vulneráveis quando os direitos de propriedade não são usados como padrão."

abortion_feminism.pngAssim, mutatis mutantis, fica claro que a discussão sobre aborto se restringir às mulheres seria uma idéia até justificável. Afinal, o corpo é propriedade delas, e o embrião, infinitamente mais delas do que do genitor. Mas, se as mulheres sofrem injustamente com a gestação (e não adianta culpar os homens, culpem apenas Deus), é uma questão de saúde pública. Não há por que excluir os homens da discussão. Uma saída apontada via de regra é que homens podem discutir, mas só as mulheres podem decidir. Aposto 10 contra 1 que esse argumento vem sempre de mulheres que, quando engravidam, exigem amor paterno de seus parceiros - então, por que a discussão sobre o futuro dos rebentos seria decidível apenas por mulheres?

Óbvio que o objeto claro aqui é restringir a discussão a quem mais tem interesse em ver o aborto legalizado. Eu sou homem e não vejo seqüela de motivo para o aborto não ser legalizado. Mas isso não quer dizer que acredite que essa discussão deva ser deixada apenas às mulheres. Aliás, por que as mulheres poderiam então usar os meus argumentos, mas simplesmente ignorar os argumentos contrários ao aborto?

Alguém pode decobrir um meio de fazer o embrião virar um feto, abortionismurder.jpge depois um bebê, sem precisar da barriga da mulher. Então, a mulher não vai mais sofrer tais paixões (o sentido inicial de "sofrimento"; cf. Aristóteles), e nada vai mudar pro embrião. Aí, parece que a discussão não ficaria mais restrita às mulheres. Mas, se nada mudaria para o embrião, por que de repente a discussão pôde mudar de pessoas "possíveis" de discutirem? Enquanto isso, veríamos um embrião, numa incubadora transparente, cada vez mais parecido com um bebê, e onde ficaria a propriedade da mulher sobre uma vida?

Também urge ter cautela com a idéia de que a proibição não adianta nada. O problema não é não adiantar - a proibição do roubo, do estupro e do assassinato também não parece surtir efeitos muito grandiosos em certos lugares deste país. Esse argumento funciona se e somente se levarmos em conta o que acontece mesmo a uma mulher estuprada no país: a burocracia é tão complexa, mesmo em casos de aborto legal, que se prefere uma clínica clandestina - ou alguém aí acha que exame de corpo delito é mais delicioso que exame de próstata para uma mulher que acabou de ser estuprada?

Aí nos voltamos para o cllchê oposto, dos conservadores, aqueles que adoram confundir "descriminalização do aborto" com "obrigação do ato de abortar". A visão deles é de que toda gravidez indesejada é fruto de irresponsabilidade (uma simples reportagem sobre um acidente generalizado com anticoncepcionais por uma falha com uma empilhadeira que aconteceu na Pfizer seria suficiente pra mandar esse povo ir fazer um pouco mais de sexo na vida).

abortion_stop_coat-hanger.jpgMas ainda que o fosse, recaímos no mesmo problema "ignore-se o feto", mesmo partindo daqueles que mais julgam defendê-lo: se defendem o feto contra mães irresponsáveis, ou devem obrigar mulheres estupradas a terem filhos de estupradores, ou não podem ser favoráveis ao aborto para vítimas de estupro. Ora, mulher estuprada ou não, o feto é "vida", e não pode ser culpado pelo crime do pai, não? Ou alguém defende que filhos de estupradores sofram pena de morte? Que a família de homicidas cumpram pena de prisão junto com o criminoso? O feto nada tem a ver com isso - se é possível defender o argumento para o aborto de feto decorrente de estupro, significa que é possível defender para o feto que não surge decorrente de um estupro. Não há outra opção - tertium non datur.

O que conservadores querem é punir a mãe por sua vida sexual, que julgam pregressa. Assim, se uma suposta vagabunda promíscua engravida, o melhor a se fazer é lhe obrigar a ter um filho, pois um filho de uma vagabunda pregressa fatalmente a ensinará a ser uma esposa de família, casar, ir à igreja, não comer com os cotovelos sobre a mesa, que saiba cozinhar e ainda faça uma lasagna de primeira (já que esse povo não costuma gostar de um boquete caprichado). Exceção feita a quem quer obrigar mulheres estupradas a terem filhos - mas o simples sofrimento que uma mulher terá durante nove meses gestando o filho de quem a estupra já me parece argumento suficiente para não ligar para o sofrimento daquele amontoado de células - e aí, nem é porque as células são "filhas" de um estuprador que é lícito "puni-las".

Mas sempre sobra aquele argumento quejuram que não tem nada a ver com religião (e só religioso, óbvio, acredita). O argumento que diz que, se descriminalizarem o aborto, estarão liberando o assassinato.

Ora, a delimitação de onde começa a vida é bastante espinhosa (enquanto todo cristão do mundo não chegar a uma única conclusão em termos puramente biológica sobre vírus serem vida ou não, não deveriam nem tentar se aventurar em propriedade que não lhes pertence). De minha parte, por bonitinho que seja (e não é), um feto sem o Sistema Nervoso abortion_prolife.gifCentral e Periférico em atividade não pode ser considerado vida. Nas aulas de Neuroanatomia e Neurofisiologia entendemos como o organismo inteiro precisa deles para qualquer reação daquilo que chamamos vida - não à toa que é o que temos em comum tanto com um macaco quanto com um peixe ou mesmo o a mais rudimentar forma de vida pluricelular que não seja um fungo. Imagine então o que é a tal "consciência": retire o bulbo e o que se verá será um acidente da natureza, felizmente incapaz de sentir a dor que é ser um acidente.

Mas o problema é mais profundo: sendo vida ou não, não importa. Como diz o jurista e filósofo americano Ronald Dworkin, em Domínio da Vida (livro fundamental para a discussão sobre aborto e, mais complicado ainda, eutanásia), a vida tem graduações. Sabemos o que é mais horrendo: perder um filho com 8 meses de idade ou um filho com 8 anos. Da mesma forma, também a diferença de choque é cortante na morte de um idoso de 80 ou de um homem de 40, mesmo que seja pela mesma causa mortis. Não é algo subjetivo nem irracional: há razões para isso. Como afirmou os quadrinhos de James O'Barr, "A morte, assim como a virtude, tem suas graduações" (O Corvo).

Como se pode, então, santificar um feto com menos de 3 meses de gestação (o tempo para formação do sistema nervoso) como "vida", chamando de "assassinato" a interrupção de sua gestação, se a própria Natureza faz com que a maioria dos abortos espontâneos aconteçam exatamente nesse período - muitos deles sem a mulher ficar sabendo?

Fica-se então com o argumento doidivanas de que há uma "chance" do embrião ser vida, 50% sim e 50% não, e pelo sim, pelo não, melhor não correr o risco de matar alguém. Mais uma vez, a interpretação da palavra "vida" aqui vai mais para termos metafísicos, abortion-sends-babies-to-god-faster.jpgdignos de conquistar idealistas que julgam que a vida é uma "alma" exterior ao corpo ou coisa parecida - não convence nem os vitalistas (filosofia a qual muito me apetece), de que a vida não é nem pura matéria, nem uma idéia anterior à sua materialização, estando mais na própria organização da espécie e sua individualização. O risco de cometer um "assassinato" aqui derivaria, então, de qualquer coisa além da matéria - visto que a matéria conhecemos bem qual é até os 3 meses de gestação.

Sendo imaterial, já é uma questão a ser discutida diante dos portais de São Pedro. Não se pode punir uma pessoa por praticar um aborto por uma "possibilidade" de ter cometido um assassinato, ou mesmo impedir a realização do aborto nesses casos, por algo de domínio extra-material. Do contrário, teremos de punir o próprio Cristianismo por mandar tantas almas para o Inferno - e crime de tortura é imprescritível.

Vida como "matéria orgânica viva" existe até nas nossas cutículas. Levando todas as conseqüências desse argumento a sério, o único não homicida do país deverá ser o Zé do Caixão.

abortion_prochoice.jpgSobra o último recurso desesperado de dizer que, se liberarem o aborto, ele vai se tornar o método contraceptivo mais comum, e milhões de abortos serão cometidos por mês por adolescentes irresponsáveis. Alguém que já viu uma cirurgia de aborto não precisaria de mais de 15 segundos para enfiar esse argumento longe do olhar dos telespectadores. E em praticamente todo país ocidental em que o aborto foi liberado, o número de abortos caiu - mas manteve vivas as mulheres, que tanto morrem em decorrência da operação - ressaltando que no Brasil, mesmo em caso de estupro preferem clínicas clandestinas. São estes os tais pró-vida?

Esse recurso in extremis também aparece sob a forma de "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar o infanticídio", como disse meu amigo (gênio, porém crente) Filipe Martins. Para ele, um juiz canadense que confundiu os dois conceitos é uma prova de que há um risco enorme de mudarmos nossos valores assim que legalizarmos o aborto no maior país católico do mundo. Um argumento estranho, se a maioria dos países (até alguns países islâmicos) é mais liberal quanto ao aborto do que nós - se proibirmos o aborto para estupro e risco de morte à mãe teremos a mesma legislação da teocracia do Vaticano. Assim, só poderia crer que o Ocidente inteiro, tão defendido pelos conservadores como supra sumo do que deu certo no mundo, está em risco de legalizar o infanticídio - sobretudo os países mais desenvolvidos, ao contrário de nós, os eternos micróbios da geopolítica, graças, curiosamente, à esquerda.

Aí fica uma pseudo-lógica linear que só faz sentido na cabeça de fanático: Ou é "se legalizarem o aborto, logo vão legalizar estupro, assassinato, latrocínio e filme da Carla Perez" (é cabível, mas é ridículo pensar nisso, pois também teríamos de proibir o Cristianismo por seus crimes), ou "se um bebê é um ser vivo, um embrião é um possível ser vivo, logo um espermatozóide é uma possibilidade de um ser vivo, logo um bebê tendo ejaculações [são milhões de espermatozóides perdidos antes dos 2 anos de idade] está cometendo 'possíveis' genocídios".

Quer escolher um lado para defender no caso do aborto? Escolha. Mas é bom atentar para todas as conseqüências do que se prega, antes de dizer que a vida é uma propriedade de outrem ou que quem defende o aborto é "abortista", como se fossem máquinas de matar criancinhas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Bule Voador é prejudicial aos ateus

26pessoas leram e discordaram

Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acodo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo." - Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas

O site Bule Voador já é considerado uma espécie de referencial no que se refere a ateísmo (no formato de "ismo") por estas bandas. Ligado a uma tal Liga Humanista Secular, prega valores derivados de uma ideologia muito mais partidarizada e específica do que o "ateísmo", ou a simples descrença em Deus, jogando no mesmo saco um ateu com um "humanista secular".

Não é mais um fato do Destino facilmente ignorável como alto índice de culiformes fecais em nossa alimentação - se é muito mais fácil brincar de discutir com um discípulo de Silas Malafaia do que com São Tomás de Aquino (dá pra parar de escrever o nome dele com "Santo" no lugar de "São"? puta cacofonia horrível), o mesmo se dá nessa brincadeira: cada vez mais se vê cristãos e teístas (são conceitos diversos, ignaros!) atacando os fracos argumentos do "humanismo secular" e atingindo todos os ateus, inclusive os que não se organizam em igrejas, na mesma toada.

Humanismo secular: não me representa.

O "humanismo secular" revela e esconde o que é em seu nome: por um lado, uma versão new age do espiritualismo chumbreca da geração beatnick que achava que todos se amariam se se escorassem em conceitos como "fraternidade" e "boa vontade", visto que odiavam o capitalismo e já vinham percebendo que defender as idéias decadentes do socialismo pegaria muito mal dali a poucos anos (Hipótese MacMilliam à parte). No entanto, é "secular": ou seja, o mesmo papo espiritualista, sem espíritos. É uma espécie de terceira via jurando ser boazinha. É a fraternidade universal amai-vos uns aos outros porque eu assim determinei.

umberto_creem.jpgPoderia ser apenas uma versão esteticamente desagradável do ateísmo, ignorando-se sua platitude intelectual. É a típica idéia de que falta compreensão e compaixão pelo outro para o mundo dá certo - embora este outro nunca seja um outro que esteja atualmente no poder. Mas os humanistas seculares, como toda seita modernosa, querem tratar de uma porralhada de assuntos que vão muito além de sua alçada (e capacidade), reduzindo-os todos a uma dicotomia humanista x não humanista, no máximo diferenciando entre humanistas seculares e não seculares no lado A da primeira distinção.

O termo "humanista" é tão vago em significado que tudo o que representa só tem em comum o fato de querer uma gerência mais "humana" na forma de organização social -eagleton_deus.jpg o que, afinal, não significa nada. Qualquer reformador é "humanista". Os socialistas eram humanistas. Os democratas são humanistas. A pedagogia reformadora é humanista. O existencialismo é um humanismo. O estruturalismo também é humanista. E também o pragmatismo. Qualquer coisa é arrolada sob auspícios deste conceito, desde que tenha mais intenções do que capacidade de mudar algo. A única coisa que não é "humanista" é o rigor tecnológico e intelectual que gerou progresso pra essa tal de raça humana. O humanismo é caracterizado por uma utopia cheia de boas intenções, mas que nunca escreve uma linha prática sobre um problema real específico passível de resolução.

Como bem afirmou o Ricardo Wagner, os auto-intitulados "neo-ateus" (o ateu oldschool precisa ser recauchutado? estava errado? quanto custa o recall?) discutem tudo, seja filosofia, ideologia, ética, aborto, casamento gay, cultura, literatura, culinária, videogame ou cor preferida do vibrador tentando colocar ateísmo no meio. Não é suficiente não acreditar: é preciso alardar a descrença e concordar com outros descrentes em um movimento organizado, reafirmando todo o tempo que não são de outro grupo - o cristianismo. E aplicam esse raciocínio inclusive para falar de política.

No que crêem os que não crêem

Um texto do site intitulado "O humanismo secular entre a direita e a esquerda" dá uma boa amostra dos riscos dessa cegueira.

Com um conhecimento político que eu já dominava de cor e salteado no primeiro colegial, o texto se surpreende com a maior eureka de toda a heurística do Ocidente: a direita prega um Estado tão pequeno que quase lembra os ideais anarquistas. É o problema de falar de "esquerda" e "direita" já no título de um artigo só conhecendo por esquerda Marx, Bakunin e a galerinha da Sorbonne, e por direita... nada. 15 páginas de Murray Rothbard e os meninos já não correriam o risco de se trancarem no banheiro da escola chorando.

Porém, constatado o que qualquer conhecedor da tal "direita" trata como o mais simplório fato evidente, imediatamente a gurizada passa a criticar a direita a la Sarah Palin (com foto e tudo) reclamando... dos anarquistas, por parágrafos a fio, recheados de pérolas da sabedoria humana como "os anarquistas anti-Estado que pensam que todo ser humano é um poço de racionalidade", como se qualquer irracionalidade humana, a coisa que mais critico, incluindo esses revoltadinhos, fosse se tornar racionalidade se organizada em algo estatal, preferencialmente com os escolhidos pelos editores do Bule Voador nos postos mais altos.

É curioso que ser "racional" e bancar o mega cientista conhecedor de variáveis, se achando Carl Sagan só por usar sua imagem no avatar do Twitter, para a meninada, é tratar variáveis como "irracional", e a centralização planificada e unifidacada como a racionalidade extrema. São "cientistas" com medo de números. Para eles, o mercado financeiro é uma anarquia complicada. Melhor acabar com tudo e botar a mão do Estado para organizar tudo. O Bule Voador é a "ciência" da centralização. Surpreende bastante que o site ainda não tenha patrocínio da Petrobras.

Ainda completa cerejosamente o bolo afirmando que a tal irracionalidade humana não é capaz de controlar "a infraestrutura ao seu redor", nem "a não cometer crimes". O argumento do Estado, e não da moral, controlando crimes, misturado à ânsia de culpar "a infraestrutura ao seu redor" como a veia motiz da canalhada, vale por um Maluf lendo Foucault em um palanque.

Prosseguem os tolinhos:

"Em segundo lugar, não é suficiente que o Estado seja um totem que muito simboliza e pouco faz, e é aqui que se equivoca a extrema-direita que quer transferir as funções agregadoras seculares do Estado à religião, ao mercado ou à simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'."

A "função agregadora secular do Estado" (a ROTA na rua? o culto ao PT? que tal os analistas céticos cientistas definirem com precisão o objeto de suas análises sem termos genéricos que podem significar qualquer coisa?) é colocada em oposição "ao mercado" e à "simples iniciativa pessoal do 'homem de bem'". Eu já vi Estados seculares mais seculares do que essa religiãozinha anti-mercado e anti-iniciativa pessoal... mas como assim os liberais (é dos liberais que eles estão falando? nem eles devem saber) são a "extrema-direita"? A extrema-direita não é, justamente, uma força que toma o Estado para descer seus valores no cacete?

carlsagan_broca.jpgNessa, como fico eu, que não acredito nem em Deus (e ainda escrevo às mancheias contra o pensamento religioso), nem no Estado? Para piorar, sou a favor da livre iniciativa, da liberação das drogas, do casamento gay e também das piadas com todo mundo? Sou ateu? Ou sou "totêmico" por preferir o mercado ao Estado? O mercado não é "laico", enquanto o Estado pode ser? Sou de "extrema-direta", querendo menos influência estatal na vida privada de cada cidadão? Onde mais no mundo houve tal "extrema-direita" que valoriza o mercado e a livre iniciativa de cada cidadão? A escola austríaca é a "extrema-direita"? Então, o fascismo é o quê?

Sou humanista secular? Sou só humanista? Sou só secular e "homem de bem" entre aspas? É preciso ser um cara do mal para ser humanista secular? Posso só não acreditar em Deus e nem roubar, mas ter mp3 pirata e zerar Tomb Raider com cheat para ser considerado do mal o suficiente para ser humanista secular? Paulo Freire, que educou essas crianças, só merece críticas por ser religioso? Ou sua educação desinformante voltada para "a revolução" é o perfeito exemplo do que é o tal humanismo secular?

Pra variar, é apenas o showzinho histérico de quem adora falar de política por clichês, e não por conhecimento de causa. dawkins.jpgÉ a típica empulhação de quem cita o nome de 10 intelectuais de esquerda que mal leram para falar mal da direita, mas nunca leram uma linha de algo minimamente direitista (a ponto de confundir "extrema-direita" com liberalismo, o que me faz perguntar o que seria a direita não extrema). Showzinho esse que, por ter como platéia uma massa enorme e burbulenta de pequenezes com o mesmo desconhecimento de causa, sempre terá aplausos com o discurso mais manjado e repetitivo de sempre, que se julga "crítico" repapagueando o que sua platéia já acredita a priori cegamente. É a captatio benevolentiæ em graus liliputianos. Sua platéia aplaude achando que, com isso, consegue aplaudir a própria falta de estudos.

Continua a chuva de chavões:

"Seus pares [de Sarah Palin] foram contra o sistema de saúde público implantado no governo Obama, mas gastaram trilhões de dólares num projeto de caça internacional de terroristas que é um mal disfarçado sistema de defesa de interesses comerciais de corporações (também escolhidas como substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos)."

Traduzindo: se for ateu, você é obrigado a concordar com o sistema de saúde americano, que pode ser danoso para a saúde dos pobres muito mais (óbvio) do que pros ricos. E se seu país sofre atentados terroristas, deixa pra lá. O que são alguns milhares de mortos, que provavelmente eram judaico-cristãos, mesmo?

A propósito, fora empresas que abocanharam a terceirização do Exército (a doutrina Rumsfeld) a Blackwater (que critiquei duramente em pleno aniversário do 11 de setembro, e sempre recomendo o livro Blackwater: A ascensão do exercito mercenário mais poderoso do mundo, do esquerdista anti-privatizante Jeremy Scahill), julgar que se caça assassinos como Osama bin Laden só porque "corporablackwater.jpgções" lucram com a guerra (era dever moral delas falir? não produzir tecnologia militar? não processar comida para os soldados?), e que estariam funcionando como "substitutas bastardas do Estado em alguns aspectos" (de novo, generalidades bom-mocísticas para obrigar o leitor a admitir sem argumentos que o Estado tem "papéis" indefinidos) é como supor que quem decide algo em Washington seja o Rupert Mordoch - quando é característica intrínseca da direita se meter cada vez menos com o governo. Como bem diz P. J. O'Rourke: "Giving money and power to government is like giving whiskey and car keys to teenage boys."

Numa associação livre sem pé nem cabeça digna do delírio de um psicanalista, o site coloca uma foto do grupo católico brasileiro que organizou a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" em 1964, tentando associá-la sabe lá como à ala neoconservadora (neocon) do Partido Republicano atual, dizendo na legenda: "sob a desculpa de combater o comunismo e defender valores tradicionais, deu força ao antilegalismo de direita que culminou no golpe militar de 1964". Como não poderia deixar de faltar, "foram estes os grandes responsáveis, em conjunto com o expansionismo americano reativo ao comunismo, por nos dar de presente uma ditadura militar de 20 anos". E eu jurando que a política externa focada no eixo sul-sul e nitidamente anti-americana baseada em "independência" de paspalhos como Muniz Bandeira tivesse começado justamente com o ditador militar Geisel, o maior criador de estatais do planeta...

Eu ainda não entendi se, para os os ateus ninja mutantes adolescentes, "a direita" é anarquista, anti-Estado e não respeita leis ou se é capaz de criar ditaduras com força estatal bruta, e onde a lei vale mais do que o cidadão. De minha parte, de Jouvenel a Reale, de Rand a Nozick, de Buchanan a Rawls, de Santayana a Block, nunca vi algo sequer parecido com essa mantícura que o site se esmera em alvejar.

A conclusão é a cagação de regra politicamente correta de sempre: "À direita e à esquerda, a lição do autoritarismo antihumanista foi o fracasso epistemológico, sem falar do moral (inclusive, Palin agora sofre ameaças de morte)." Em um passe de mágica, o anti-Estado pseudo-racional da direita vira "autoritarismo antihumanista". São esses fracassados epistemológicos que adoram criticar o "fracasso epistemológico" alheio.

Mas claro que, estando acima do bem e do mal, ou da esquerda e da direita, podendo julgar as duas redefinindo de estro próprio o que cada uma é, os "humanistas" logo mostram sua cara. Não sem antes mais umas provocaçõezinhas:

"Talvez por isso as fronteiras entre uma posição e outra estejam cada vez mais nebulosas, com um Barack Obama decepcionantemente conservador inclusive em assuntos de liberdade de expressão (WikiLeaks e Julian Assange que o digam!) e personalidades ditas neoliberais de direita paradoxalmente endossando um Estado inflado quando a questão diz respeito a assuntos economicamente estratégicos ou de defesa."

Para quem quer superar a dicotomia esquerda x direita, é curioso que reclame repentinamente das fronteiras ficarem nebulosas. E para quem se julga um bom juiz (!), é excelente perceber que questionar a liberdade do WikiLeaks vazar documentos oficiais seja "decepcionantemente conservador".

chesterton_universo.jpgNo mais, há uma pedra de toque fundamental na discussão política: quem usa a palavra "neoliberal" está errado. É simples. Simplesmente porque não existe neoliberalismo. Esse termo, cunhado por Alexander Rüstow, quer apenas reclamar de teorias adversas a posteriori, reunindo-as todas sob a mesma égide. Acaso existe uma "escola neoliberal"? Seria a Escola Austríaca? Seriam os Chicago Boys? Seriam os objetivistas? Seria o PSDB? Seriam os neocons ou o decepcionante Barack Obama? Se o Bule Voador conseguir encontrar alguém "dito neoliberal de direita" (?!), ao invés de jogar a culpa em moinhos de vento, poderá algum dia sonhar em ser um guardião da moral, da análise e da ciência em oposição à fé cega em invenções mirabolantes de profetas fracassados.

Antes de concluir, os mancebos não deixam de cometer um ato falho:

"Não há mente crítica e livre quando o interesse é a imposição da religião, a morte do Estado ou a reforma revolucionária inconsequente."

Quod erat demonstrandum, meus caros.

Mostram então as garras os recém-desfraldados:

"E é por isso que eu acredito que o humanismo secular deve ser não uma terceira via, mas um árbitro para ampliar nossa lealdade das poucas centenas para os bilhões.

'O mundo é meu país, e a ciência, minha religião', disse famosamente o astrônomo holandês Christiaan Huygens. Está na hora de repetirmos e acrescentarmos: 'e o humanismo secular é minha política prioritária, antes de me alinhar à esquerda ou à direita', se é que um alinhamento ainda faz sentido."

Alguém sem religião aí está sentindo falta de alguém ditando dogmas em sua cabeça? Pois toda religião tem o seu Silas Malafaia: o ateísmo já tem o Bule Voador. É mais importante defender essa estrovenga de "humanismo secular" do que ter um pensamento político independente (e sobretudo culto). Tudo em nome da "mente crítica". E é muito importante ser humanista antes de ser de esquerda, embora o pensamento de um humanista secular e de um esquerdista médio seja tão distinto quanto os (?) de Edir Macedo e de R. R. Soares.

"Se queremos fazer uma diferença, deve ser pela evolução (cultural), que, mesmo com toda sua aparente lentidão, fará com que causas polêmicas e acirradas de hoje virem as trivialidades de amanhã de uma sociedade laica, democrática e aberta que respeita os direitos das minorias - condição última para julgar sua saúde como sociedade que 'expande' conotativamente o número de Dunbar, com meta em um mundo que seja o país de todos."

Então está dado o recado: se você não sabe qual é a sua e nem tem uma solução política apresentável, justamente por isso você é um evoluído culturalmente, que trata qualquer polêmica como trivialidade, por ter nascido avant les temps. E, sobretudo, lute pelas minorias: porque ateísmo é isso: trocar Deus pela luta incondicional do direito de quem se diga minoria (qualquer minoria), do contrário não será ateu. Porque a meta é "um mundo que seja o país de todos" (olha o imperialismo da propaganda do governo aí!).

Note-se: isso tudo para ficar em um texto dessas crianças. Alguém precisa explicar para elas que só montar um site, por bonito que seja, não te torna cientista, filósofo ou crítico político de respeito.

Bullying voador

Um dia, após reclamar dessa queimação de filme que o site promove (fazendo com que TODO ateu pareça um leitor do facilmente refutável Bule Voador), seu Twitter oficial me respondeu que, quando eles defendem sei lá que medida "ateista", eu fico pianinho". É curioso que os guardiões alumiados da razão, da democracia, da sociedade laica, aberta e democrática que respeita todos possa dizer qual é meu comportamento sem me conhecer.

É o site que diz que defende o Bolsa-Família porque "são humanistas", mas não tem nada de partidário. Eu defendo o Bolsa-Família por ser um passo de um programa criado por Milton Friedman e que funcionou, embora seu caráter esmolista e não integrante (além de partidário) no Brasil vá torná-lo um estorvo. Ter "boas intenções" (ou "ser humanista" tem mais sentido do que isso?) não o ajuda em absolutamente nada. Boa intenção qualquer um tem. Qualquer crente tem.

eagleton_jesus.jpgCom uma boa platéia pagando pra ver o arranca-rabo, o Bule não gostou de eu dizer que esse ateísmo de butique queima o filme. Imediatamente me perguntou se "filósofos GAYZISTAS de direita como [Robert] Nozick e [Thomas] Nagel queimam o filme". Ora, a resposta é simples: não, eles são foda. Como Einstein, Hawking, Heidegger, Schopenhauer, Camus, Dickens, Dennett, Comte-Sponville, Asimov, Clarke, Diamond, Mencken, Andreiev, Cioran, Horstmann, Hemingway, Santayana, Rand, Croce, Calin, Block e tantos outros. A questão é que vocês do Bule não são eles. Eles são ótimos. Vocês são queima-filme. Ou acham que só por usar uma foto de Carl Sagan já valem tanto quanto o original? Quer dizer que os "racionais", quando criticados, confundem a si próprios com sumidades como Nozick e Nagel?!

Claro, para o Bule, isso são as falácias argumentum ad hominem e argumentum ad verecundiam, que ele me recomenda procurar em um manual de falácias. Manuais de nomes em latim existem porque latinistas como eu compilam tais termos, retirados de obras de retórica do cânone da Humanidade, desde a Retórica de Aristóteles até a Nova Retórica de Chaïm Perelman, passando por obras fundamentais como De Oratore de Cícero ou Quintiliano. Acreditar que estas duas formas de argumentação constituem falácias é prova de nunca ter topado com uma obra como Institutio Oratoria ou De Partitione Oratoria. É de se perguntar se os meninos sabem mesmo a diferença entre argumentum ad rem e ad hominem, para não perceberem por que têm estes nomes. Mas também seria interessante saber o que "eu ficar pianinho" quando o Bule defende sei lá que medida ateísta (se o site nem me conhecia) é diferente de uma falácia (esta sim) ad hominem.

Mais gente quis saber por que o GAYZISTA (em caixa alta do original) apareceu na discussão. Ainda mais depois de eu ganhar mais de 200 RTs com dois tweets zoando o Orgulho Hetero. Foi preciso explicar para muita gente: não, o Bule não me flagrou em nenhuma ação de homofobia. Só precisou imputar a mim o que não sou, preferencialmente um rótulo odioso, para poder, refutando um rótulo bobo, achar que me atinge.

Para "provar" por que enfiava "gayzismo" em caixa alta na conversa, o Bule mostrou uma imagem com minhas respostas. Peço a algum racional ateu que não acredita em fantasmas encontrar menções à palavra "gay" sendo proferida por mim:

print bule 2.jpg

Deu pra notar como os ateus aí são "científicos", "analistas" e "críticos" que não usam de chutes lógicos e golpes de fé pra ver se acertam algo?

Hoje já foi diferente. Publiquei o texto Os Bolsonaros da esquerda são piores no Implicante, que começa com simplesmentre 12 parágrafos com meu típico humor refinado (sabemos como o humor é nocivo para o pensamento religioso). Um deles, dizendo que o maior motivo para os filhos rspeitarem os pais é que estes últimos são mais fortes - não sei quanto aos "analíticos" do Bule, mas em casa, nenhum argumento doía em meus pais tanto quanto as cintadas doíam em mim.

A galera que me chama de "cricri" por reclamar do Bule sempre lembra que eles gostam de argumentar civilizada e democraticamente. O que o Bule fez foi repassar aos fiéis de sua igrejinha o tweet:

print bule 3.jpg

Não cita a fonte para os "cientistas" seguidores analisarem eles próprios. Não é capaz de identificar uma piada, e ainda querem se supor guardiões de um entendimento de textos maior do que crentes (ao menos estudei dialética, exegese e hermenêutica com nêgo tentando entender parábola). Apenas passam uma mensagem já mastigada a ser engolida sem questionamento por seus fiéis seguidores. Até agora não tiveram coragem de revelar a fonte para seus fiéis (quem costuma ter esse comportamento, mesmo?), preferindo apenas a difamação localizada e descontextualizada.

O que esse Bule consegue é apenas dar chutes cegos e ver se atinge algo. Supor que alguém é "gayzista" por ser crítico das ridículas medidas pró-gay do governo, que só devem é causar constrangimento na população gay. Supor que alguém "fica pianinho" (como se tivesse o dever de criticar cada coisa criticável em um todo site ruim) sem a conhecer (medida que o Eli Vieira, um dos "famosos" militantes desse tal humanismo secular, também adota, como me chamar de "germanista" entre aspas sem conhecer meu trabalho). São golpes de fé. Não são argumentos - são afirmações genéricas deslocadas, mas trocando o "Jesus está voltando" (e o que isso significa? estou com o carnê do Baú celestial em dia?) por "ateus são mais inteligentes e racionais".

Repetir que é racional 20 vezes não te torna uma pessoa racional. Ainda menos do que ler manual de falácia na internet e repetir ad nauseam (!) a expressão "ad hominem", como se todo argumento ad hominem fosse falacioso.

É nocivo que um site que consiga cometer tantos erros e dar tantos chiliques em público e seja tratado como "representante dos ateus". Ateu é apenas o cara que não acredita. Não preciso de uma igreja para tal. Não preciso concordar com outros ateus em tudo - ainda mais porque a religião cometeu infinitamente menos mal em 3 milênios do que ateus comuno-fascistas conseguiram cometer em um século (e que mal há em encarar o fato? seria como "não gostar" de 2 + 2 serem 4). E não preciso aplaudir a ignorãncia do Bule ao lidar com n assuntos só porque concordo com o ateísmo do site.

Ainda mais sendo um site que critica tanto o enriquecimento de igrejas que cobram dízimo em troca de ameaças de Inferno, e aplaudem um governo que cobra 35,04% do que trabalhamos em impostos, sob ameaça de cadeia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Hegel - Substituindo "Espírito" por "Geléia"

1 comment

Ninguém entende Hegel. E quem entende só faz caquinha. Como o materialismo histórico bebe diretamente na fonte hegeliana, substituindo o "espírito" pelo "motor da História" através da luta de classes, resolvi trocar as ocorrências de espírito naquele caramalhaço de livro principal do filósofo de Jena por geléia. Acho que é um bom nome pra espírito, afinal:

Fenomenologia da geléia

7 - [Wird die Erscheinung] Tomando a manifestação dessa exigência em seu contexto hegel.jpgmais geral e no nível em que presentemente se encontra a geléia consciente-de-si, vemos que essa foi além da vida substancial que antes levava no elemento do pensamento; além dessa imediatez de sua fé, além da satisfação e segurança da certeza que a consciência possuía devido à sua reconciliação com a essência e a presença universal dela - interior e exterior. A Geléia não só foi além - passando ao outro extremo da reflexão, carente-de-substância, de si sobre si mesmo - mas ultrapassou também isso. Não somente está perdida para ele sua vida essencial; está também consciente dessa perda e da finitude que é seu conteúdo. [Como o filho pródigo], rejeitando os restos da comida, confessando sua abjeção e maldizendo-a, a geléia agora exige da filosofia não tanto o saber do que ele é, quanto resgatar, por meio dela, aquela substancialidade e densidade do ser [que tinha perdido].

11 - [Es ist übrigens] Aliás, não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. A geléia rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, a geléia nunca está em repouso, mas sempre tomada por um movimento para a frente. Na criança, depois de longo período de nutrição tranquila, a primeira respiração - um salto qualitativo - interrompe o lento processo do puro crescimento quantgeleia.jpgitativo; e a criança está nascida. Do mesmo modo, a geléia que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronasse gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo.

26 - [Das reine Selbsterkennen] O puro reconhecer-se-a-si mesmo no absoluto ser-outro, esse éter como tal, é o fundamento e o solo da ciência, ou do saber em sua universalidade. O começo da filosofia faz a pressuposição ou exigência de que a consciência se encontre nesse elemento. Mas esse elemento só alcança sua perfeição e transparência pelo movimento de seu vir-a-ser. E a pura geleidade como o universal, que tem o modo da imediatez simples. Esse simples, quando tem como tal a existência, é o solo da ciência, [que é] o pensar**, o qual só está na geléia. Porque esse elemento, essa imediatez da geléia é, em geral, o substancialda geléia, é a essencialidade transfigurada, a reflexão que é simples ela mesma, a imediatez tal como é para si, o ser que é reflexão sobre si mesmo.

27 - [Dies Werden] O que esta "Fenomenologia da geléia"apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber,como é inicialmente - ou a geléia imediata - é algo carente-de- geléia: a consciência sensível. (...)

geleia_mattel.jpgO indivíduo, cuja substância é a geléia situada no mais alto, percorre esse passado da mesma maneira como quem se apresta a adquirir uma ciência superior, percorre os conhecimentos-preparatórios que há muito tem dentro de si, para fazer seu conteúdo presente; evoca de novo sua rememoração, sem no entanto ter ali seu interesse ou demorar-se neles. O singular deve também percorrer os degraus-de-formação-cultural da geléia universal, conforme seu conteúdo; porém, como figuras já depositadas pela geléia, como plataformas de um caminho já preparado e aplainado. Desse modo, vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam a geléia madura dos homens, serem rebaixados a exercícios - ou mesmo a jogos de meninos; assim pode reconhecer-se no progresso pedagógico, copiada como em silhuetas, a história da geléia do mundo. Esse ser-aí passado é propriedade já adquirida da geléia universal e, aparecendo-lhe assim exteriormente, constitui sua natureza inorgânica. Conforme esse ponto de vista, a formação cultural considerada a partir do indivíduo consiste em adquirir o que lhe é apresentado, consumindo em si mesmo sua natureza inorgânica e apropriando-se dela. Vista porém do ângulo da geléia universal, enquanto é a substância, a formação cultural consiste apenas em que essa substância se dá a sua consciência-de-si, e em si produz seu vir-a-ser e sua reflexão.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mais preconceito lingüístico: primeiro round

5pessoas leram e discordaram

Ao se digitar "preconceito lingüístico" no Google, você vai dar de cara com meu artigo no Implicante Preconceito linguistico e coitadismo linguistico, só ficando o termo na Wikipedia e as imagens do asqueroso livro de Marcos Bagno acima.

Demorei a entender por que vira e mexe (meXe!) aparecem estudantes de Letras que acabaram de descobrir a nova "teoria revolucionária" que só eles conhecem e que, como tudo o que se vê numa universidade "científica", basta concordar e supor ser irrefutável. Fico imaginando como anda a cara do Marcos Bagno (e seus cupinchas como Ataliba Teixeira de Castilho e Sírio Possenti, mestres da criadora do afamado livro do MEC Por uma vida melhor, a tal professora Heloísa Ramos).

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Mas alguns desses alunos que digitam "preconceito lingüístico" no Google para fazer trabalho servem de contra-exemplo ao que um crente da seita do "preconceito lingüístico". Segue um debate com uma aluna-sintoma da platitude intelectual que virou a "pesquisa científica" na Universidade brasileira, nos comentários do meu texto:


de: Alemida

Olá a todos!

De tão nojento e pedante (vide o palavrório rebuscado do autor, certamente um intelectualzinho de escola particular metido à oposicionista que se baseia nos delírios peessedebistas para atacar um governo exemplar como é o do PT), não consegui terminar de ler e, claro, caí na gargalhada antes de começar escrver este comentário.

Os autores deste blog são, com certeza, fascistas que não pensariam duas vezes em ajduar se a atual oposição golpista planejasse um golpe para implantar uma ditadura. São pessoas distantes da realidade, parecem cocô, ficam boiando e só boiando. Você, meu caro intelectualzinho de merda, já cursou um curso de Letras? Não, obviamente. Já estudou a fundo sociolinguística? Com certeza não. Então pega essas suas palavras reacionárias e absolutamente pedantes e as enfie goela abaixo, para não dizer outra coisa. Escrevendo este artigo infundado e ingênuo, certamente inspirado no rei da babaquice e do achismo Sr. Reinaldo Azevedo, um cretino fascista que escreve na podríssima Veja, você só demonstrou o quanto é burro e retardado a ponto de escrver sobre coisas que não conhece e, claro, nunca vai conhecer - afinal, a lógica da oposição é sempre essa: criticar e condenar sem nem ao menos se dar ao trabalho de conhecer.

Para sua informação, o capítulo do livro pode ser baixado no site 4shared.com. Baixe, leia e veja o quanto você é um reacionáriozinho criado com danoninho que pensa que escrever merda na internet é fazer política. Babaca!

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de: Flavio Morgenstern

A gente se mata a vida inteira pra zoar o PT. Vem o PT aqui e se zoa sozinho.

Mas, cara primeiranista de Letras, que tal aplicar a si própria a crítica que faz "à oposição" ("criticar e condenar sem nem ao menos se dar ao trabalho de conhecer"), continuar lendo a porcaria do artigo cocozento e acabar descobrindo que refutei até as linhas desse livreto que não falam de sociolingüística, afinal, não só faço Letras (e não é numa "escola particular", como se isso fosse defeito, é na USP), como estudo tal assunto com os melhores sociolingüistas do hemisfério?
Boa sorte em sua crítica que conhece antes de condenar. =*


de: Alemida

Seu artigo é tão imbecil, seu panaca direitopata fascista de uma figa, que para ele precisamos sim aplicar a lógica que acéfalos cretinos e filhos de porcos como você seguem: condenar antes de ler - até porque, meu caro filhote de Reinaldo Azevedo com José Serra e, Deus me livre, FHC, nem é necessário ler tudo até o final: é previsível o tipo de bosta que sai da boca rota e burra de gente de intelecto torto como você e a cambada do seu tipo. Babaca!

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de: Flavio Morgenstern

Ainda bem que você não é manipulada e pensa com a própria caçuleta. Só falta agora ter ao menos uma frase que não seja uma mistura de discurso do SINDIGORDAS com linguagem de filme de ação traduzido pela Globo. "Fascista de uma figa"?! Mas nem quando eu tinha 4 anos de idade me assustava com esse faniquito saído de uma linha de produção fordista!


de: Alemida

Vou visitar constantemente esse lixo de site só para te xingar, oh grande conhecedor da língua portuguesa. FAz USP, o menininho esperto? QUe coisa bonitinha. Mas enquanto os colegas de turma estavam nas aulas, você, não tenho dúvidas, ficava no apartamento jogando vídeo game, né? Afinal, papai paga minhas contas.

São pessoas como vocÊ que precisam ser estirpadas, pois, creia-me, Sr. Sou Implicante Porque Papai Paga Minhas Contas E Os Impostos do Lula, vocês são o que há de pior na sociedade brasileira. É o que faz nosso país ser de terceiro mundo, é o que faz nosso país ter caras como José Serra (esse que, de tão macho, fugiu para o Chile quando houve a ditadura aqui e que ainda sobrevive mesmo depois de ser esmagado pela DILMA nas últimas eleições).

Aliás: quantas chupetas por dia a moça faz na turma do contra (leia-se "fdps do DEM e do PSDB")?


de: Mauro

(…) já cursou um curso de Letras? Não, obviamente. Já estudou a fundo sociolinguística? Com certeza não.

E… ?

Isso me lembrou de algo dito uma vez por aquele famoso porco capitalista-direitista reacionário de direita, Noam Chomsky (a tradução meia-boca é culpa minha):

"Eu trabalhei em linguística matemática, por exemplo, sem quaisquer credenciais profissionais em matemática; nessa área eu sou completamente autodidata. Mas tenho sido frequentemente convidado por universidades para falar sobre linguística matemática em seminários e colóquios de matemática. Ninguém nunca questionou se eu tinha as credenciais adequadas para falar sobre esses assuntos; os matemáticos nunca deram a mínima. O que queriam saber é o que eu tinha a dizer. (…)

Por outro lado, ao discutir questões sociais, essa questão é constantemente levantada, frequentemente com virulência. (…)

O contraste entre matemática e ciências políticas é notável. Em física ou matemática, as pessoas estão preocupadas com o que você tem a dizer, não com sua formação. Mas, para falar sobre realidade social, você precisa ter as credenciais apropriadas. Em geral, me parece justo dizer que, quanto mais rica a substância intelectual de um determinado campo, menor a preocupação com credenciais, e maior o interesse por conteúdo."

(…) quantas chupetas por dia a moça faz (…)

Obrigado por deixar claro qual é o lado "intolerante, preconceituoso e conservador" da discussão.

Enfim, a tal Alemida aceita a aposta...


de: Alemida

Caro,

antes de qualquer aposta que você sabe que nunca vai poder dar certo por razões óbvias - quem da USP vai aceitar assistir qualquer debate entre eu e você?????? - leia o seguinte artigo, pois acho que ele fará muito bem para clarear suas ideias que, para mim, estão um tanto quanto confusas.

Outra coisa: o que me irritou mesmo no seu artigo, no final das contas, é que você deu mais ênfase no ofender o Marcos Bagno do que no refutar as ideias dele e de quem o segue. POr isso, inclusive, ofendi você (o que foi muito divertido, seu idiota).

De qualquer modo, leia, se quiser, o texto abaixo e depois poste o que pensou. (segue um longo texto de Sérgi Fausto, diretor-executivo do Instituto Fernando Henrique - sim, ele.)

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de: Flavio Morgenstern

Cara Alemida, não sei se vossa genialidade marxista terá já percebido, mas: (a) Não há nada neste texto, que por sinal já conhecia, que remova uma vírgula do lugar na argumentação que apresentei acima, e (b) Não apenas isso, como ainda minha argumentação refuta ponto a ponto o que foi apresentado por este cidadão.

Em outras palavras, você, como toda esquerdista, se acha intelectual por ter lido um manualzinho de 40 páginas pró-partido e acha que só você tem a consciência, doutrina e temperança (sobretudo a temperança) necessária para terçar armas num debate e ganhar. Acredita que as 40 páginas do Manifestinho que leu nunca foram refutados por gênios de verdade (aqui vai uma boa lista: http://4ms.me/pZCN24). E acredita que quem já leu as 40 páginas do seu Manifestinho e mais meio mundo que o discute entende menos dos resultados do seu Manifestinho do que você - afinal, todo esquerdista baseia-se em intenções, nunca em resultados - apanágio da direita.

Isto é uma manobra retórica um tanto quanto torta, derivada do délire d'interprétation, como exposto pelo psiquiatra Paul Sérieux. Sua tática é que, assim que alguém refuta seus pontos, você reafirma seus pontos, assim, como se a refutação tivesse entrado por um ouvido e saído por outro (o que, afinal, se deu). Assim, como a resposta mais óbvia para seu "argumento" (chamemo-lo assim para poupar novos esforços envidados em uma taxonomia adequada) seria repetir, ponto a ponto, o que já foi dito, caindo na armadilha preparada subconscientemente por você, que logo diria que eu não tenho argumentos justamente por isso, e daí seguir-se-ia mais repetições do que já foi refutado cantados como se canta vitória ao som da lira da insânia.

Mas não deixa de haver pontos curiosos no arrazoado que me traz. Pinço de tais garatujas as seguintes passagens:

"O procedimento consiste na desqualificação de ideias sem o mínimo esforço prévio de compreendê-las. Funciona assim: diante de mero indício de convicções contrárias às minhas, detectados em leitura de viés ou simples ouvir dizer, passo ao ataque para desmoralizar o argumento em questão e os seus autores. É a técnica de atirar primeiro e perguntar depois. A vítima é a qualidade do debate público.

(…)

Mas é preciso educar-se para o debate. Isso implica desde logo dar-se ao trabalho de conhecer o tema em pauta e ter a disposição de entender o ponto de vista alheio antes de desqualificá-lo."

Diga lá meu furibundo e impaciente leitor se tal atitude, jogada às minhas fauces em tom acusatório, condiz mais comigo, que não apenas conheceu adequadamente o livro do MEC da professora Heloísa Ramos, como conhece a teoria por trás de tal disparate, e não apenas o famoso livro Preconceito lingüístico: o que é, como se faz, de Marcos Bagno, principal divulgador da caganeira, como também seus livros menos conhecidos (como o mais recente A norma oculta: Língua & poder na sociedade brasileira) e ainda cuida de refutar página a página (devidamente citadas seguindo as normas da ABNT) tais atentados à civilização, ou se é o acinte seria mais pertinente se fosse direcionado à própria primeiranista neófita Alemida, que tem a capacidade de digitar um longamente na caixa de comentários que o autor do texto nunca deve ter pisado em uma faculdade de Letras - bem embaixo da assinatura em que se lê, em negrito no original, "Flavio Morgenstern é redator, tradutor, faz Letras na USP e aprendeu a não dizer "amém" para professores partidários alguns meses após aprender a limpar o bumbum sozinho."?!

Também diz a cafonice citada pela Alemida como "argumento" (perdoem-me o excesso de licenças vernaculares):

"Melhoramos desde então? Sim, as taxas de repetência, defasagem idade/série e evasão escolar diminuíram. Parte da melhora se deve à adoção da progressão continuada, outra presa fácil da distorção deliberada, pois passível de ser confundida com a aprovação automática."

Então melhoramos os níveis de repetência porque substituímos a repetência por um sistema em que ela não mais existe. Bravo, bravo, bravo!

Coroa o bolo cerejosamente:

"O desempenho dos alunos em Português vem melhorando, em especial no primeiro ciclo do ensino fundamental, conforme indicam avaliações nacionais e internacionais, ainda que mais lentamente do que seria desejável e necessário."

Ora, se isto é feito para se elogiar a porcaria do livro que entupiu de dinheiro sua desastradíssima autora, devo crer que há professores ganhando demais para melhorar "lentamente". No mais, não se sabe de onde este cidadão tira tais dados: Como já afirmou o Olavo:

"Em editorial do dia 25 último, a Folha de S. Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76° para o 88° lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa na verdade um progresso formidável." (e continuamos Caindo sem parar - extremely worth reading!)

Enfim, nada disso representa um contra-argumento bem dirigido a sequer uma vírgula fora do lugar em meu texto (e as há). Que tal tentar com mais força da próxima vez antes de tentar debater, como coloquei como termos adequados para um debate? Afinal, como você, com sua cultura letranda superior deve saber, Contra negantem principia non est disputandum ("não se deve discutir com quem negue os princípios"). Afinal, posso ainda ficar te devendo um Ferrari F-50 (um? uma? oh, sociolingüística, como dependes da sintaxe!) por isso.

Try again, minha fofura de saia indiana e sandália sebosa de couro cru. Tico e Teco dêem as mãos e força na peruca! Acreditamos que você consegue.

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de: Alemida (enviado concomitantemente ao comentário anterior)

Engole mais esse: (segue outro texto de Weden, publicado pelo jornalista com alguns problemas milionários aos cofres públicos Luis Nassif)

(...)

PS: Se é que leu esse outro artigo (lembre-se da lógica que vc e sua cambada de reaças seguem…), o que achou?????


de: Flavio Morgenstern

Poxa, mais um artigo que não é de seu estro próprio atacando jornalistas os mais variados, sempre com o argumento de "não leu o livro" (que foi até escaneado em alguns dos artigos citados, mas você não leu os artigos)? E o que eu tenho a ver com isso, se critiquei foram as teses do Bagno (e Sílvio Possenti, e Teixeira de Castilho - provando, sim, que o objetivo destes camaradas é acabar com o ensino da norma culta para os pobres, abrindo um abismo mais largo entre ricos e pobres), citando até erros do energúmeno que nada têm a ver com lingüística (sempre com página citada)? Cadê o contra-argumento? Existe algum? Existe meio? Há alguma citação a algo que escrevi e pormenorizada refutação per negationemum consequentiae? Ou só há acima mais declarações que já foram refutadas em meus escritos?

Ademais, comento de passagem alguns casos citados nesse novo artigo que eu conheço, e você não:

"Jornalista do jornal O Globo (vários): as reportagens sobre o livro didático foram assinadas por vários jornalistas. Todos insistiram na tese - não confirmada - de que o livro contém 'erros grosseiros de português'."

Como, "não confirmada"? Só o fato de o livro usar como exemplo de linguagem adequada "os menino pega o peixe" (e jogando a culpa em sua inadequação aos ouvintes, e não aos falantes), já mostra que há erros grosseiros de português! Por sinal, como demostrou a tradutora Ivonne C. Bennetti, essa frase sequer é usada na linguagem popular brasileira.

"Reinaldo Azevedo (Veja): a partir de trechos soltos, confundiu demonstração linguistica com pregação política. Partidarizou o que é consenso no campo da linguistica internacional."

Mentira deslavada. Não há nenhum consenso internacional sobre preconceito lingüístico - nem mesmo em faculdades de Letras, reconhecidas internacionalmente por angariarem os piores alunos a passar num Vestibular, sendo composta em mais de 95% de hippies, comunistas, maconheiros e barangas. Reinaldo Azevedo não confundiu nada: conforme eu mesmo demonstrei citando não o livro do MEC, mas os lixos tóxicos do seu patrono, Marcos Bagno (exatamente quem o Reinaldo também criticou, e até deixou uma fotinho dele lá, para esse jornalista que não sabe ler e acha que pode dar pitos alheios sobre quem leu e quem não leu), que na sétima linha de seu livro já está citando e defendendo Luiz Inácio Lula da Silva, e sai defendendo o socialismo a torto e a direito no seu livro. Se isso não é "pregação política", talvez só mesmo Mussolini e Pol-Pot sejam competentes pregadores.

"Merval Pereira (Globo): fez afirmações fora do escopo da obra: 'o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros'. Não há passagem clara neste sentido no livro."

Cito o livro: "Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar 'os livro'?' Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico." (grifo meu)

"Carlos Alberto Sardenberg (Globo): chegou a afirmar que o livro defende o modo de falar do ex-presidente Lula. Não leu o livro."

Pois o livro não, mas o livro só se sustenta com teses como a defendida por Marcos Bagno, e este não o faz?

Novamente, nenhuma refutação, nenhum contra-argumento. É assim que você quer debater? Pois vai precisar de um pouco mais de Virmond de Lacerda Neto, Bechara, Hariovaldo Almeida Prado e Anderson Cássio de Oliveira Lopes depois do Sucrilhos. ;)

tweet bagno 08.jpg


de: Alemida (razoavelmente concomitante aos outros 2 comentários)

Ah, e acessa esse link aqui: (segue outro link)

vc vai se divertir muito, filhote de Reinaldo Azevedo.


de: Mauro

"Argumentum ad verecundiam é a pior forma de argumentação." - Karl Popper

"Argumentum ad antiquitatem é a pior forma de argumentação." - Karl Feyerabend

"Argumentum ad ignorantiam é a pior forma de argumentação." - Karl Sagan

Felizmente, nenhum deles viveu para presenciar a popularização da argumentação por copiar-e-colar.


de: Alemida

Ao caro Mauro:

Não sei você, seu imbecil, mas eu percebi o quanto nosso amigo Flávio, ao escrever o artigo sobre as teses de Bagno, o ofendeu do início ao fim, e não o refutou - e se o fez, foi com arrogância extrema. Veja, seu burro de escola particular (leia Mauro aqui, por favor), que, para gente da sua laia, só mesmo usando a mesma moeda para dar o troco. Bando de idiotas! O acesso à internet de gente como vocês devia ser proibido.

Francamente, volto atrás na minha ideia de visitar sempre esse site só para ofender os trouxas que aqui escrevem e comentam: não valem, afinal, nem o esforço de gente sensata como eu para xingá-los de filhos de uma puta, por exemplo.

Até mais, seus fascistas.


de: Flavio Morgenstern

Pô, Alemida, pediu pinico?! Cadê sua superioridade intelectual de escola pública petista?!

Vai lá… antes de ir, refuta pelo menos um parágrafo, vá. Não precisa ser o texto inteiro (já que, pra você, está inteiro errado), pode ser só uma passagenzinha… não vai ter a bondade, sua comunista?


de: Mauro

o ofendeu do início ao fim (…)

Ué, mas se você não leu o artigo até o final, como você mesma admitiu, como pode afirmar que o autor ofende Bagno até o fim? Será que, no final da história, Bagno e Morgenstern não vão superar suas diferenças, entrelaçar os dedos mindinhos e ficar de bem? Se não terminar de ler o artigo, você nunca vai saber como acaba!

só mesmo usando a mesma moeda (…)

Não, a moeda que você usou é completamente diferente; há uma diferença crucial que está escapando à sua atenção. Bagno realmente é ridicularizado pelo autor do artigo, mas repare que o autor é cuidadoso para, em nenhum momento, afirmar que Bagno está errado porque é chato e bobo, além de não tomar banho. O autor do artigo sabe que, se assim fizesse, estaria incorrendo na manjadíssima falácia do ataque ad hominem, e a sua argumentação ficaria comprometida. Em vez disso, o autor diz: Bagno (que, parenteticamente, é chato e bobo, além de não tomar banho), está errado por tais e tais razões.

O seu ataque, em contraste, se baseou nas seguintes moedas de três reais, digo, falácias:

* o artigo está errado porque o autor não tem as credenciais acadêmicas necessárias para questionar um luminar do porte de Bagno (apelo à autoridade);

* o artigo está errado porque o autor é um direitopata fascista de uma figa, além de peessedebista e bicha louca (ataque ad hominem);

* o artigo está errado porque José Serra fugiu para o Chile (non sequitur);

* o artigo está errado porque consigo copiar e colar um artigo que achei na internet, escrito por outra pessoa, que trata de assunto apenas tangencialmente relacionado com o tema em discussão (strawman argument, em português, é como?).

volto atrás na minha idéia de (…)

Mas já vai? Pô, mas está cedo ainda! Fique mais um pouco, vamos chamar mais uma rodada!

[[[ Morgen, sinta-se à vontade para censurar esta resposta, se lhe der na telha; eu ainda sou goiaba nessas coisas. se acaso passar pela peneira, favor remover esta linha :-) ]]]


de: Flavio Morgenstern

Hahahahah… o mais engraçado de tudo é a doutora dizer que não tenho credenciais para discutir Bagno e demonstrar que não sabe se faço Letras ou não. Eu, que estudo com livre-docente no assunto… :)

E tem também o "seus fascistas" a cada 4 linhas. Vejamos o que diz Bagno: "repudiam tudo o que não trouxer a marca registrada de uma atitude fascista diante do mundo" (op. cit., p. 121). Adivinha só como nossa amiga define o que ela aprova ou repudia…

Conclusão: aluninhos que acreditam em Marcos Bagno são invariavelmente tão burros que não têm coragem de entrar em debates correndo o risco de ganhar Ferrari F-50. E, graças a ele, fico sem meu Porsche.